CAPITULO VI

CAPITULO VIOs embaixadoresA terrivel crise soffrida por Othello, em consequencia das infames calumnias urdidas por Iago e que apresentavam a pura e innocente Desdemona como vil adultera, determinou no arrebatado mouro uma congestão cerebral, que durante alguns dias o teve prostrado no leito, entre a vida e a morte.Restabelecido, por fim, graças á rigorosa organisação e, mais do que tudo, aos assiduos e ternos cuidados que lhe prodigalisou Desdemona, que o não abandonou um só instante, nem mesmo para entregar-se ao imprescindivel descanso, poude deixar o leito e, n'esse mesmo dia em que se levantou, mandou chamar aos seus aposentos Emilia, mulher de Iago, e por meio de supplicas e de ameaças tratou de arrancar a confissão da culpabilidade de Desdemona julgando acertadamente que, se esta tinha, em verdade, algum segredopunivel, o conheceria, sem duvida, a esposa do alféres, que mais do que uma simples creada da filha de Brabancio, havia sido sempre a sua mais intima companheira e fiel amiga, dispondo, como tal, da absoluta confiança da joven.Mas, por mais que fizesse para obrigar a Emilia a fallar contra a supposta adultera, como a confidente d'esta nada tinha que dizer contra ella, nada disse, e, pelo contrario, mostrou-se profundamente surprehendida a começo, chegando até a indignar-se, quando se convenceu de que Othello duvidava, mais ainda, estava convencido da traição de Desdemona.Em vão se esforçou o mouro por fazer com que a nobre mulher proferisse uma só palavra, que désse vulto e alimento e fortificasse os crueis ciumes que lhe mordiam as entranhas; em vão lhe fallou de Cassio e das suppostas intimidades d'este com a esposa. Emilia negou redondamente, pela salvação da sua alma, que existissem taes intimidades, chegando no grande affecto que devotava a Desdemona a increpar Othello por offender a sua ama e amiga com tão miseraveis suspeitas.Isto fez chegar ao cumulo a irritação e cólera do apaixonado e ciumento africano, o qual, julgando que a serva encobria Desdemona e que, por tanto, fazia causa commum contra elle para atraiçoar o seu amor e lançar inextinguivel mancha no seu nome, acabou por insultar furiosamente Emilia, expulsando-a do aposento com terriveis ameaças e promettendo-lhe que não tardariam em searrepender do que elle chamava infame conducta de alcoviteira e encobridora.A fiel e leal criada foi-se chorando com verdadeiro desgosto, e, sem perder um minuto, dirigiu-se ao encontro da ama, á qual referiu o que acabava de succeder-lhe e o que lhe dissera Othello.Estavam assim conversando, ouvindo Desdemona a Emilia com o doloroso espanto que pode calcular-se facilmente, quando, de repente, as duas mulheres ficaram estupefactas, ao vêr entrar o mouro no aposento.—Como supponho, disse com rapidez Othello, dirigindo-se a Desdemona, que já haveis fallado mais do que é necessario, e sobre tudo, mais ainda do que para minha honra e para minha tranquilidade convem, creio que essa mulher poderá retirar-se, pois tenho necessidade de fallar a sós comtigo.—Retira-te Emilia, disse a joven com doçura para a sua creada de quarto. Se precisar de ti chamarei.A dama de companhia sahiu immediatamente dirigindo um cumprimento carinhoso a Desdemona e quasi sem olhar para Othello, ao qual semelhante attitude irritou mais do que estava.—Já vejo, começou dizendo com mal reprimida colera, que não te preoccupas a ensinar aos criados o respeito que devem a teu esposo.—Perdoa a Emilia, respondeu carinhosamente Desdemona; respeita-te e estima-te, como te respeitam e estimam aqui todos, começando por mim e acabando no ultimo dos teus servidores. Mashoje está nervosa e muito contrariada, como eu propria estou, devido á entrevista que teve comtigo e que me contou, pormenorisadamente.—Felicito-te por teres servos tão leaes, respondeu sarcasticamente Othello. Já não posso dizer outro tanto.—Queixas-te injustamente, observou a joven, porque, repito: ninguem aqui faz distincção alguma, senão em teu favor, pois seria eu a primeira a não a consentir.—Mil graças! respondeu Othello com o mesmo sarcasmo com que anteriormente se havia expressado. Já vejo que não tenho razão de me queixar, e que sou o mais injusto dos homens e o mais contradictorio dos maridos.—Não quiz dar-te a entender semelhante cousa; mas se assim o fiz mesmo contra minha vontade, perdoa-me, disse humildemente Desdemona.—Estás perdoada, respondeu o mouro seccamente; e logo accrescentou mudando o tom da voz que tentou tornar o mais indifferente possivel: Ha poucos dias, ao cahir sem sentidos no pavimento, molestei um pouco a mão direita; a começo não me doia nada e por isso nada tambem disse até hoje; agora doe-me bastante e agradecer-te-hia que atasses em redor d'ella qualquer coisa, um lenço... aquelle de seda de que te fiz presente em Veneza, dizendo-te que o guardasses como reliquia, porque era de minha mãe.Desdemona poz-se pallida como morta ao ouvir o esposo expressar-se de tal maneira. O lenço em questão havia-se extraviado dias antes, e receandoos arrebatamentos do caracter de Othello, occultára-lhe tamanha perda, pois não ignorava que o marido sentia por essa recordação de sua mãe, unica que possuia, verdadeira veneração. Calcule-se pois o terror que experimentaria em tal momento, sabedora por Emilia, e pelo que pessoalmente observava no esposo, da má predisposição que elle tinha contra ella, devida a furiosos e injustificados ciumes. Dizer-lhe n'aquelle instante que perdera o lenço, era dispor-se a desencadear contra ella todas as terriveis tempestades d'aquelle temperamento arrebatado até á ferocidade; por outro lado mentir, inventar qualquer fábula que justificasse a falta do lenço, seria tão inutil como indigno da nobreza e da lealdade do seu caracter. Por conseguinte só poude responder, com voz balbuciante, e sentindo que um suor gelado lhe banhava todo o corpo:—O lenço de seda!... O lenço de tua mãe!... Olha... tenho-o tão bem guardado, que perderia demasiado tempo em dar com elle!... Outro qualquer te servira de egual modo!... Não te parece?...E a infeliz tremia, olhando o esposo com olhos aterrorizados, e sentindo que ia desmaiar se a espantosa situação se prolongasse demasiado tempo.—Quero o lenço de seda! Quero-o agora mesmo! respondeu Othello com implacavel aspereza.—Mas, atreveu-se todavia a accrescentar a infeliz Desdemona, não te disse?...—O lenço! rugia o terrivel mouro arrebatadojá pela selvagem explosão dos ciumes. A desventurada tremeu até ao intimo d'alma; começou o pranto a banhar-lhe as nacaradas faces e, tapando o bellissimo rosto com as mãos, cahiu de joelhos aos pés do cruel marido, balbuciando entre convulsivos soluços:—Perdão! Perdão! meu querido Othello!... Perdi-o!... não sei que foi feito d'elle!...—Oh! infame!... confessas, finalmente! accrescentou rugindo furiosamente o terrivel ciumento, acaba de vez a tua confissão, miseravel adultera, vil prostituta!... Dize que o não perdeste; que, pelo contrario o déste ao teu amante, ao traidor que enganava a minha amizade, roubando-me a honra; ao cobarde por quem tinhas, ainda ha poucos dias, a desvergonha e o cynismo de interceder, chegando o teu impudor a defender-lhe as crapulosas e indignas bebedeiras!...«Confessa, infame, confessa ou te afogo entre as minhas mãos de ferro, feitas para estrangular féras como tu, que tens coração de tigre! ouves, miseravel?! Confessa ou te mato!...E o formidavel africano, convertido já n'um d'esses irracionaes a que vinha de referir-se, apertou entre as herculeas mãos o gracil e delicado corpo da esposa, a qual, apovorada, abateu a delicada e branquissima garganta sobre o peito, cerrou os meigos e bellos olhos e, soltando debil suspiro, ficou inerte nos braços do temivel esposo.Ao ligeiro grito desprendido dos labios da joven ao perder o conhecimento, succedeu acto continuo a repentina entrada de Emilia no aposento.Conhecedora do vehemente caracter de Othello, previra, ainda que apenas em parte, as consequencias da conversação do mouro com a innocente esposa, e não se affastára muito do quarto.Sem embargo, a mulher do traidor alferes nunca previra até onde chegaria a selvagem paixão do africano, e ao ver nas terriveis mãos de Othello o corpo inanimado da querida ama, julgou que elle a tinha matado e, começou a gritar desesperadamente, rompendo em violentos soluços e increpando o ciumento marido com os mais horriveis improperios:Othello, cujos olhos se injectaram de sangue, e cujo bronzeado rosto instantaneamente se pôz quasi branco, sentiu desejos irresistiveis de arrojar-se sobre Emilia e estrangulal-a; mas, dominando os impulsos ferinos com supremo esforço da vontade, conseguiu vencer-se e, abandonando o desmaiado e precioso corpo que ainda conservava entre as mãos, lançou á criada um olhar de ameaça feroz e sahiu precipitadamente do aposento, como se temesse não ser senhor de si, caso n'elle permanecesse mais algum tempo.Emilia ficou, pois, só com Desdemona, a qual levantou do chão com o delicado esmero de mãe, e, depois de a deitar no leito, prodigalisou-lhe todos os cuidados que considerou necessarios para a fazer recuperar os sentidos.Quando a infeliz voltou a si do deliquio, rompeu em amargo e copioso pranto, o que lhe desafogou um tanto o angustiado coração. Depois, em vez de se mostrar indignada contra o implacavelesposo, começou a desculpal-o aos olhos de Emilia, que continuava dirigindo-lhe os insultos mais violentos.—Meu pobre Othello—terminou dizendo a pura e nobre Desdemona.«Soffre mais ainda do que eu, porque me ama apaixonadamente, e julga-me culpada, devido a um erro fatal, que é preciso aclarar a todo o custo.Ditas estas palavras, que lhe punham em relevo toda a angelical formosura da alma, fechou os olhos e, o seu delicado organismo, rendido por fim, por tantas e tão violentas emoções, cahiu n'um profundo somno, que era o melhor lenitivo que podia achar n'esse instante a desventurada para acalmar a dôr que lhe atormentava a alma...Entretanto Othello dirigia-se para os seus aposentos particulares, com o proposito de encerrar-se n'elle e poder desafogar melhor, no isolamento a raiva e os ciumes que lhe mordiam cruelmente o coração.Mas, apenas penetrou no salão que lhe servia de gabinete, encontrou-se, cheio de admiração, na presença completamente inesperada em tão dolorosos momentos de quatro cavalleiros venezianos, que acabavam de chegar á ilha de Chypre e o estavam esperando.De novo conseguiu o mouro dominar as violentas agitações e as crueis torturas da alma, e, depois de trocados os primeiros cumprimentos, perguntou ao mais velho dos quarto, e que parecia ser o chefe, o motivo de tão inesperada como grata visita.Este, que era o senador Graciano, irmão de Brabancio e tio por conseguinte de Desdemona, começou por abraçar affectuosamente Othello e depois, em voz grave e repousada, expressou-se d'esta forma:—O Doge, em nome do illustre e sabio Conselho dos Dez, nos manda aqui, valente general, como encarregados de exprimir o agradecimento de sua agradecida Magestade e de toda a Republica pelos valiosos serviços que, n'este momento, como sempre, prestaste a Veneza, no exercicio do teu governo de Chypre.«Em seguida proseguiu mais gravemente ainda Graciano, ordena-nos que te façamos saber que o Conselho e sua Senhoria necessitam de ti com grande urgencia, para encarregar-te de nova expedição de vital interesse para o Estado.«Não devemos demorar muito tempo a nossa partida, e por isso, apenas tenhamos descançado das fadigas da viagem, que foi penosa e accidentada em extremo, sahiremos da ilha para Veneza, onde terás a gentileza de acompanhar-nos. Isto tardará tres ou quatro dias, o maximo, tempo sufficiente para que possas tomar as disposições que consideres opportunas para o melhor governo de Chypre, do qual, por ordem expressa do Conselho, encarregarás o tenente Cassio, que de ti tem sempre merecido os melhores elogios quando se te offerece occasião de fazer-lh'os. Eis quanto tinhamos a dizer-te em nome do Doge e do illustre Conselho dos Dez, valente Othello. Está pois cumprido o objecto da nossa embaixada, eagora, rogamos-te encarecidamente ordenes o que necessario for para que possamos desfructar a tua generosa hospitalidade e entregarmo-nos ao repouso de que tanto carecemos.Um raio que tivesse cahido aos pés de Othello não lhe produziria maior espanto do que o que lhe causou o breve discurso proferido pelo emissario da Magestade. A principio ficou como que aturdido; mas não tardou em readquirir o sangue frio, e respondendo como poude ao senador Graciano, prometteu obedecer, como sempre, ás ordens do Doge e do illustre Conselho.Seguidamente deu as instrucções necessarias para que installassem os embaixadores nos seus respectivos aposentos.Depois, quando conseguiu ficar só, sorriso extranho, cheio de ironia e de odio, entreabriu-lhe os grossos labios; mandou chamar immediatamente Yago, e apenas este chegou, disse-lhe sem mais preambulos:—Ouve-me com todas as tuas faculdades, e sem te admirares de cousa alguma, nem perder o tempo em exclamações inuteis. Fixa bem na memoria o que te vou dizer e obedece á risca.—Já sabeis, illustre general—respondeu servilmente Yago—que sou para vós um cão fiel, e que daria de boa vontade a vida se fosse necessario, para servir-vos.—Sei, e como chegou agora o momento de pôr á prova a tua amisade por mim, por isso te chamei.O alferes tremeu, pois ignorava onde queriachegar o terrivel Othello; mas fazendo das fraquezas forças respondeu com voz firme:—Mandai e obedecerei.—Acabo de receber uma embaixada de Veneza, que me ordena, em nome da Senhoria, que saia de Chipre, sem demora, para a cidade de S. Marcos.—Como!—exclamou Yago profundamente surprehendido, apesar da ordem que havia recebido de Othello, de que o não interrompesse.—Ainda não é tudo—respondeu o mouro com sarcastica amargura, sem fazer caso da exclamação do alferes—O Doge ordena-me tambem que deixe o tenente Cassio encarregado do governo de Chypre.O infame Yago pôz-se livido de inveja, e tão violenta foi a impressão que n'elle causaram as palavras de Othello que se atreveu a perguntar-lhe:—E que tenciona fazer, general? Obedecer á Senhoria?—Não poderei obedecer, ainda que quizesse—respondeu Othello sorrindo ferozmente,—porque os embaixadores partirão dentro em tres ou quatro dias, e esta mesma noite morrerá Cassio de uma punhalada que tu mesmo te encarregarás de dar-lhe.Brilharam de infernal alegria os olhos do alferes, que se limitou a responder:—Sou vosso em corpo e alma. Cassio morrerá esta noite....Mas accrescentou vacillando, porem resolvidoa todo o custo a saber o que ganharia de semelhante missão:—Que pensaes fazer, no que vos diz respeito?—A seu tempo o saberás—respondeu seccamente o mouro.—Agora, vae-te, pois já disse o que tinha a dizer e esta mesma noite, seja a que horas fôr, te espero para que me dês conta da morte do infame ladrão da minha felicidade e da minha honra.Pronunciadas estas ultimas palavras, Othello despediu Yago com um gesto, e acto continuo abandonou o quarto.Apenas se viu só, Yago sorriu com expressão de odio e de ambição satisfeita, e murmurou entre dentes:—Amanhã, a estas horas, serei tenente e talvez governador da ilha, pois saberei obrigar Othello a que me pague bem a morte de Cassio; quanto a este não serei eu que o hei de matar, mas sim esse imbecil de Rodrigo, ao qual offerecerei a posse immediata de Desdemona se a livrar do official que sempre a está importunando com as suas instantes e vergonhosas declarações; assegurar-lhe-hei que isto me disse ella propria, e que se ainda se não entregou, foi porque teme que Cassio venha a sabel-o e, para vingar-se, conte tudo ao marido. Que o diabo me leve se o estupido Rodrigo não acredita na fabula e não mata o rival! Para tanto facilitar-lhe-hei occasião oportuna, marcando a Cassio uma entrevista na praia ás 11 horas da noite de hoje. Rodrigo matal-o-ha com uma punhalada á traição e eu, que ficarei presenciandoa scena, denuncial-o-hei á justiça...—Não, interrompeu o miseravel.—Isto é perigoso, porque o imbecil poderia fallar, e não me convém, pois toda a gente saberia então que o illudi para apoderar-me de todas as suas joias e dinheiro. O melhor, é depois de matar Cassio, matal-o a elle tambem, o que me será facil, porque é muito menos perigoso do que o outro. Assim está bem—terminou dizendo com expressão satisfeita.—Está resolvido: de tal guisa livro-me d'esse parvo que já começa a incommodar-me, e já não tenho nada a temer de Cassio, podendo em troca cobrar o preço da sua morte, sem o menor risco para a minha pessoa...E Yago dispoz-se a ir procurar Rodrigo sem perda de tempo, para começar a pôr em execução o seu infame plano; mas, antes de abandonar o palacio do governador, enviou a Cassio um soldado encarregado de lhe dizer que o esperasse ás onze horas da noite na praia, pois tinha que communicar-lhe uma noticia de grande interesse para elle.—Aposto a cabeça em como não faltará—disse o miseravel—regosijando-se antecipadamente com o resultado que ia obter da nova e dupla infamia acabada de planear.CAPITULO VIICrime e CastigoAvança a noite e os relogios de Chypre dão pausada e gravemente as dez badaladas.Na alcova de Desdemona, a joven e bella esposa do governador da ilha dispunha-se a deitar-se ajudada carinhosamente pela mulher de Yago, tão fiel e leal servidora, como falso e traidor era para o general africano o infame marido.—Emilia, disse com voz de infinita doçura a filha de Brabancio; enfeita-me muito e põe-me bonita para dormir. Tenho um presentimento estranho, tão extranho como doloroso, que não me abandona desde esta tarde, e que me annuncia que este vae ser o meu ultimo somno.—Que loucura! exclamou a criada, tratando de se mostrar alegre aos olhos da ama. Desprezai, senhora, esses tristes e lugubres presentimentos e pensai sómente, pelo contrario, em que vos esperam dias cheios de aventura, pois soisainda muito nova e a vida começa agora para vós.—Sim, respondeu melancolicamente Desdemona, mas has de concordar que começa de maneira bem dolorosa! Que será de mim sem o amor de meu esposo?—Vosso esposo, disse Emilia com gesto de convicção;—não tardará em arrancar pelas proprias mãos a negra venda que hoje lhe tapa os olhos, e que o impede de ver todo o thesouro de virtudes e de felicidades que em vós possue! Então voltará ainda mais enamorado do que nunca, e depois vereis, minha querida ama, como esses maus pensamentos que hoje vos atormentam, não tardarão a converter-se em sonhos côr de rosa.—Queira Deus que não te enganes! respondeu Desdemona, soltando um profundo suspiro, que pareceu aliviar-lhe um tanto o coração opprimido pela angustia.—Não me engano, tenho a certeza,—insistiu Emilia alegremente.—Vereis como esta mesma noite o vosso esposo virá ver-vos e implorar o vosso perdão, e ao contemplar-vos tão formosa como os anjos de céu, cahirá de joelhos ante vós arrependido da sua conducta. Como estaes linda, minha senhora!—continuou olhando para a joven com sincera admiração, depois de dar-lhe uns ultimos toques no toucado.—Agora, dormi e sonhai com dias melhores, porque os bons sonhos trazem comsigo a ventura, segundo affirmam.Dizendo estas palavras, Emilia ajudou a joven a deitar-se; apanhou em seguida as roupas queestavam cahidas, pelo aposento, e olhando cuidadosamente em torno de si, para convencer-se que tudo ficava em ordem, deu as boas noites e abandonou em silencio o quarto, que apenas ficou illuminado pela vaga e febril luz de uma lampada de azeite.Haviam transcorrido dez minutos, e já os preciosos olhos da joven começavam a cerrar-se, vencidos pelo somno, quando a mesma porta por onde sahira Emilia se entreabriu suave e lentamente, e na hombreira appareceu a alta e soberba figura de Othello.O mouro avançou com lentidão até ao leito onde repousava a esposa que, ao advinhar, melhor do que via, a sua presença, deu um debil grito de alegria e estendeu os nús e marmoreos braços ao marido, exclamando amorosamente:—Tu aqui! meu querido Othello! Vens dar-me o teu perdão pela desgraçada perda do lenço?—Rezaste esta noite, Desdemona? perguntou o general com gravidade meiga e triste, que tinha algo de tragica.—Sim, esposo meu, respondeu a innocente Desdemona; esta noite, como todas, fiz as minhas orações do costume. Mas, porque me fazes tal pergunta?—interrogou a infeliz começando a sentir-se presa de vago terror, ao ver a sombria e implacavel expressão retratada no semblante do marido.—Porque vaes morrer depois de findarem os cinco minutos que te concedo para encommendares a Deus a tua alma!—respondeu Othello inexoravel.—Deus! Que dizes? exclamou a joven, sentando-se no leito, como surprehendida pelo espanto e julgando ter ouvido mal.—Digo que vaes morrer e que aproveites o tempo que te dou para encommendar a tua alma a Deus, repetiu o mouro com frialdade que fazia tanto damno como o de uma folha de aço. E accrescentou logo: Se o proprio Deus houvesse baixado á terra para me annunciar que morrerias ás minhas mãos, teria duvidado de Deus; já vês se tinha ou não fé no teu carinho! Mas tu atraiçoaste essa fé, e por isso mereces a morte. Sim—continuou implacavelmente o terrivel mouro, exaltando-se á medida que fallava, e sem fazer caso do tremor e da mortal lividez que se viam na desventurada e innocente Desdemona;—sim, mereces e vaes justamente morrer. Mas, por que ainda te amo, apezar de tudo, e vim sem armas, porque não quero derramar o teu sangue, que sempre será precioso para mim, morrerás estrangulada ás minhas mãos, entre estas mãos que com tão ardente amôr te acariciaram nos dias felizes para mim. Vês como te amo, Desdemona? Sim, amo-te, e ainda te perdoaria, se tanto fosse possivel! Mas não é! Não, não é, porque atraiçoaste o meu amôr com um amigo desleal e infame, e porque, não contente com tal crime, para o qual não existe misericordia possivel, urdiste, de cumplicidade certamente com o miseravel, uma indigna traição no intuito de que me chamassem a Veneza e vos deixasse aqui a ambos em completa liberdade para gosarem a infamia praticada.«Ah! ah! ah! gargalhou o formidavel africano, rindo como um louco.«Já vês que, apezar da nobre ingenuidade do meu caracter, que me entregou de corpo e alma nas tuas mãos, não é tão facil enganar-me, e que immediatamente advinhei tudo. Sim, proseguiu, recobrando a terrivel expressão de implacavel dureza, advinhei, mas o vosso plano não dará o exito appetecido. Ouves?—perguntou, interrompendo-se para escutar as badaladas dos relogios que marcavam a hora. São onze horas e n'este momento cae o teu amante sob o punhal de um fiel servidor meu! E como passaram os cinco minutos que te concedi para que encommendasses tua alma, chegou tambem para ti a hora da morte!A infeliz Desdemona quiz fallar, pedir, supplicar misericordia ao terrivel esposo, fazer protestos da sua innocencia, salvar a vida, emfim, porque a morte horrorizava-a e a tal ponto que a fazia tremer e bater os dentes como se tivesse febre; mas tudo foi inutil, porque só teve tempo de lançar um grito desesperado, estridente, horrivel e que havia de se ouvir em todos os aposentos do immenso palacio, alterando com a infinita angustia das suas dolorosas vibrações o profundo silencio da noite.Os férreos dedos do mouro apertavam ferozmente a delicada e branquissima garganta da innocente vitima, quebrou-se a columna vertebral com um estalido horrivel e o precioso corpo, abandonado instantaneamente a si proprio, sob oimpulso do invencivel horror que ao ouvir o espantoso estalido acommetteu immediatamente o verdugo, cahiu pesadamente sobre o leito flexivel e desarticulado, como pesada massa.Aterrado da propria obra, com os cabellos erriçados e os olhos horrivelmente dilatados pelo espanto, Othello retrocedeu ante o cadaver da infeliz esposa, tratando, talvez, de fugir para apagar da vista o tremendo espectaculo. Mas, n'esse instante abriu-se com violencia a porta do aposento e appareceu Emilia que, desolada e quasi nua, correu para o leito de Desdemona, gritando;—Senhora! Que vos aconteceu? Respondei, por Deus, respondei!—Para traz, miseravel encobridora! rugiu Othello, recobrando toda a sua selvagem crueldade, á vista da mulher que julgava cumplice no supposto adulterio da victima. E continuou, agarrando por um braço Emilia: Sim, morreu, e morreu ás pressões de minhas mãos vingadoras, como tu agora vaes morrer, infame, para que não fique no mundo nenhuma testemunha, da minha deshonra!E o vingativo africano dispunha-se a sacrificar tambem ao terrivel odio aquella nova victima que o destino lhe deparava. Mas, por fortuna para a fiel criada de Desdemona, n'aquelle momento e attrahidos, primeiro por o grito que lançou ao morrer a innocente esposa de Othello, e depois pelos que havia soltado a mulher de Iago, penetraram no quarto Graciano e os tres companheiros da embaixada, o traidor alferes, causa de toda essa espantosa tragedia, e, por ultimo, entraramvarios soldados amparando nos braços Cassio, ferido e que havia exigido que o levassem a todo o transe á presença de Othello sem perda de um minuto, pois em breve morreria e queria fallar com o general antes de exhalar o ultimo suspiro.Ao vêr entrar tanta gente no aposento, e especialmente ao encontrar-se em presença do veneravel Graciano, tio de Desdemona, Othello retrocedeu instintivamente alguns passos e deixou em liberdade Emilia.Esta correu, como louca, para os recem-chegados, e gritou, rompendo em soluços:—Matou a minha ama, senhores, o infame matou-a!—Sim, confessou sombria e altivamente Othello, dirigindo um olhar de desafio a todos os presentes, matei-a, porque sou o unico juiz da minha honra e eu proprio sentenciei a culpada!—Mentira! gritou de novo Emilia. Senhores, não acrediteis! A infeliz Desdemona era tão pura e innocente como os anjos do céu, e levava a incomparavel bondade de sua alma até ao extremo de amar com todas as energias do seu coração o seu proprio verdugo!—Tu é que estás mentindo, infame impostora! rugiu Othello, que tremeu até ao mais intimo d'alma ao entrever a possibilidade da innocencia da esposa pela maneira convicta com que fallára a dama. E accrescentou tirando do bolso o lenço de seda, que guardava como prova accusadora: Atrever-te-has a negar que conheces esta prova do criminoso adulterio? Este lenço deu-o minhaesposa ao amante, a esse infame Cassio, que o proprio inferno repelliu, pois que ainda o vejo aqui com vida!Ao ver o lenço, Emilia ficou convertida em estatua; pôz-se livida como um cadaver, as pupilas pareceram querer-lhe saltar das orbitas, e exclamou horrorisada:—O lenço de seda! O lenço que roubei a Desdemona!—Que roubaste?—exclamou Othello enlouquecido e julgando ter ouvido mal.—É mentira! Foi minha esposa que o deu a Cassio como prenda dos seus criminosos amores!—Proximo a entregar a alma a Deus interveio com debil e apagada voz o antigo official de Othello—Juro pela minha salvação que nunca vi semelhante lenço nas minhas mãos e que Desdemona te era tão fiel como póde ser a mulher mais pura do mundo!«Juro tambem, continuou fallando com grande custo,—que morro victima de um erro teu, general, e assassinado por ordem d'esse infame, que não se atrevendo a atacar-me, enviou um instrumento seu, o qual logrou enganar por meio de outra calumnia, e que, depois de ferir-me, acaba de morrer ás minhas mãos, confessando tudo! Juro, por ultimo, accrescentou Cassio, cada vez com voz mais debil,—que sempre te amei como a um pae, como ao morrer te quero ainda, e que Desdemona, tão innocente e pura como um anjo, não foi outra cousa para mim do que foi para todaa gente; um coração cheio de bondade e de doçura! Juro-o por tudo quanto existe de sagrado!...E o antigo tenente de Othello cahiu sem sentidos nos braços dos soldados que o amparavam.—E eu juro—exclamou por sua vez Emilia, encarando Othello, que permanecia atonito, como se tivesse recebido um profundo golpe; juro que esse homem disse a verdade, que minha ama era pura como um raio de sol e innocente como uma criança; que Cassio nunca teve em suas mãos esse lenço, e que fui eu que o roubei a Desdemona, obrigada a tal acto por meu marido e fazendo-o jurar que com elle não prejudicaria ninguem! Juro-o pela memoria de meus paes!Succedeu então uma cousa verdadeiramente horrivel.Iago, ao vêr o caminho que tomavam para elle as coisas, fôra approximando-se lentamente da porta para se escapulir sem ser visto. Mas, no momento em que Emilia se calou, Othello saltou sobre elle com a agilidade e a força de um leopardo, e arrancando-lhe a propria espada, enterrou-lh'a nas entranhas até aos copos. Em seguida, voltando-se para onde estava Graciano, e tirando o punhal que o velho senador trazia pendente do cinto cravou-o no proprio peito até ao cabo e cahiu sobre o leito em que jazia o cadaver de Desdemona, á qual deu a alma n'um beijo com o ultimo suspiro.A dupla acção do formidavel e ciumento mouro havia sido tão rapida, que quando os circumstantes, refeitos do assombro, quizeram intervir, já estava consumada a tragedia.FIM

A terrivel crise soffrida por Othello, em consequencia das infames calumnias urdidas por Iago e que apresentavam a pura e innocente Desdemona como vil adultera, determinou no arrebatado mouro uma congestão cerebral, que durante alguns dias o teve prostrado no leito, entre a vida e a morte.

Restabelecido, por fim, graças á rigorosa organisação e, mais do que tudo, aos assiduos e ternos cuidados que lhe prodigalisou Desdemona, que o não abandonou um só instante, nem mesmo para entregar-se ao imprescindivel descanso, poude deixar o leito e, n'esse mesmo dia em que se levantou, mandou chamar aos seus aposentos Emilia, mulher de Iago, e por meio de supplicas e de ameaças tratou de arrancar a confissão da culpabilidade de Desdemona julgando acertadamente que, se esta tinha, em verdade, algum segredopunivel, o conheceria, sem duvida, a esposa do alféres, que mais do que uma simples creada da filha de Brabancio, havia sido sempre a sua mais intima companheira e fiel amiga, dispondo, como tal, da absoluta confiança da joven.

Mas, por mais que fizesse para obrigar a Emilia a fallar contra a supposta adultera, como a confidente d'esta nada tinha que dizer contra ella, nada disse, e, pelo contrario, mostrou-se profundamente surprehendida a começo, chegando até a indignar-se, quando se convenceu de que Othello duvidava, mais ainda, estava convencido da traição de Desdemona.

Em vão se esforçou o mouro por fazer com que a nobre mulher proferisse uma só palavra, que désse vulto e alimento e fortificasse os crueis ciumes que lhe mordiam as entranhas; em vão lhe fallou de Cassio e das suppostas intimidades d'este com a esposa. Emilia negou redondamente, pela salvação da sua alma, que existissem taes intimidades, chegando no grande affecto que devotava a Desdemona a increpar Othello por offender a sua ama e amiga com tão miseraveis suspeitas.

Isto fez chegar ao cumulo a irritação e cólera do apaixonado e ciumento africano, o qual, julgando que a serva encobria Desdemona e que, por tanto, fazia causa commum contra elle para atraiçoar o seu amor e lançar inextinguivel mancha no seu nome, acabou por insultar furiosamente Emilia, expulsando-a do aposento com terriveis ameaças e promettendo-lhe que não tardariam em searrepender do que elle chamava infame conducta de alcoviteira e encobridora.

A fiel e leal criada foi-se chorando com verdadeiro desgosto, e, sem perder um minuto, dirigiu-se ao encontro da ama, á qual referiu o que acabava de succeder-lhe e o que lhe dissera Othello.

Estavam assim conversando, ouvindo Desdemona a Emilia com o doloroso espanto que pode calcular-se facilmente, quando, de repente, as duas mulheres ficaram estupefactas, ao vêr entrar o mouro no aposento.

—Como supponho, disse com rapidez Othello, dirigindo-se a Desdemona, que já haveis fallado mais do que é necessario, e sobre tudo, mais ainda do que para minha honra e para minha tranquilidade convem, creio que essa mulher poderá retirar-se, pois tenho necessidade de fallar a sós comtigo.

—Retira-te Emilia, disse a joven com doçura para a sua creada de quarto. Se precisar de ti chamarei.

A dama de companhia sahiu immediatamente dirigindo um cumprimento carinhoso a Desdemona e quasi sem olhar para Othello, ao qual semelhante attitude irritou mais do que estava.

—Já vejo, começou dizendo com mal reprimida colera, que não te preoccupas a ensinar aos criados o respeito que devem a teu esposo.

—Perdoa a Emilia, respondeu carinhosamente Desdemona; respeita-te e estima-te, como te respeitam e estimam aqui todos, começando por mim e acabando no ultimo dos teus servidores. Mashoje está nervosa e muito contrariada, como eu propria estou, devido á entrevista que teve comtigo e que me contou, pormenorisadamente.

—Felicito-te por teres servos tão leaes, respondeu sarcasticamente Othello. Já não posso dizer outro tanto.

—Queixas-te injustamente, observou a joven, porque, repito: ninguem aqui faz distincção alguma, senão em teu favor, pois seria eu a primeira a não a consentir.

—Mil graças! respondeu Othello com o mesmo sarcasmo com que anteriormente se havia expressado. Já vejo que não tenho razão de me queixar, e que sou o mais injusto dos homens e o mais contradictorio dos maridos.

—Não quiz dar-te a entender semelhante cousa; mas se assim o fiz mesmo contra minha vontade, perdoa-me, disse humildemente Desdemona.

—Estás perdoada, respondeu o mouro seccamente; e logo accrescentou mudando o tom da voz que tentou tornar o mais indifferente possivel: Ha poucos dias, ao cahir sem sentidos no pavimento, molestei um pouco a mão direita; a começo não me doia nada e por isso nada tambem disse até hoje; agora doe-me bastante e agradecer-te-hia que atasses em redor d'ella qualquer coisa, um lenço... aquelle de seda de que te fiz presente em Veneza, dizendo-te que o guardasses como reliquia, porque era de minha mãe.

Desdemona poz-se pallida como morta ao ouvir o esposo expressar-se de tal maneira. O lenço em questão havia-se extraviado dias antes, e receandoos arrebatamentos do caracter de Othello, occultára-lhe tamanha perda, pois não ignorava que o marido sentia por essa recordação de sua mãe, unica que possuia, verdadeira veneração. Calcule-se pois o terror que experimentaria em tal momento, sabedora por Emilia, e pelo que pessoalmente observava no esposo, da má predisposição que elle tinha contra ella, devida a furiosos e injustificados ciumes. Dizer-lhe n'aquelle instante que perdera o lenço, era dispor-se a desencadear contra ella todas as terriveis tempestades d'aquelle temperamento arrebatado até á ferocidade; por outro lado mentir, inventar qualquer fábula que justificasse a falta do lenço, seria tão inutil como indigno da nobreza e da lealdade do seu caracter. Por conseguinte só poude responder, com voz balbuciante, e sentindo que um suor gelado lhe banhava todo o corpo:

—O lenço de seda!... O lenço de tua mãe!... Olha... tenho-o tão bem guardado, que perderia demasiado tempo em dar com elle!... Outro qualquer te servira de egual modo!... Não te parece?...

E a infeliz tremia, olhando o esposo com olhos aterrorizados, e sentindo que ia desmaiar se a espantosa situação se prolongasse demasiado tempo.

—Quero o lenço de seda! Quero-o agora mesmo! respondeu Othello com implacavel aspereza.

—Mas, atreveu-se todavia a accrescentar a infeliz Desdemona, não te disse?...

—O lenço! rugia o terrivel mouro arrebatadojá pela selvagem explosão dos ciumes. A desventurada tremeu até ao intimo d'alma; começou o pranto a banhar-lhe as nacaradas faces e, tapando o bellissimo rosto com as mãos, cahiu de joelhos aos pés do cruel marido, balbuciando entre convulsivos soluços:

—Perdão! Perdão! meu querido Othello!... Perdi-o!... não sei que foi feito d'elle!...

—Oh! infame!... confessas, finalmente! accrescentou rugindo furiosamente o terrivel ciumento, acaba de vez a tua confissão, miseravel adultera, vil prostituta!... Dize que o não perdeste; que, pelo contrario o déste ao teu amante, ao traidor que enganava a minha amizade, roubando-me a honra; ao cobarde por quem tinhas, ainda ha poucos dias, a desvergonha e o cynismo de interceder, chegando o teu impudor a defender-lhe as crapulosas e indignas bebedeiras!...

«Confessa, infame, confessa ou te afogo entre as minhas mãos de ferro, feitas para estrangular féras como tu, que tens coração de tigre! ouves, miseravel?! Confessa ou te mato!...

E o formidavel africano, convertido já n'um d'esses irracionaes a que vinha de referir-se, apertou entre as herculeas mãos o gracil e delicado corpo da esposa, a qual, apovorada, abateu a delicada e branquissima garganta sobre o peito, cerrou os meigos e bellos olhos e, soltando debil suspiro, ficou inerte nos braços do temivel esposo.

Ao ligeiro grito desprendido dos labios da joven ao perder o conhecimento, succedeu acto continuo a repentina entrada de Emilia no aposento.Conhecedora do vehemente caracter de Othello, previra, ainda que apenas em parte, as consequencias da conversação do mouro com a innocente esposa, e não se affastára muito do quarto.

Sem embargo, a mulher do traidor alferes nunca previra até onde chegaria a selvagem paixão do africano, e ao ver nas terriveis mãos de Othello o corpo inanimado da querida ama, julgou que elle a tinha matado e, começou a gritar desesperadamente, rompendo em violentos soluços e increpando o ciumento marido com os mais horriveis improperios:

Othello, cujos olhos se injectaram de sangue, e cujo bronzeado rosto instantaneamente se pôz quasi branco, sentiu desejos irresistiveis de arrojar-se sobre Emilia e estrangulal-a; mas, dominando os impulsos ferinos com supremo esforço da vontade, conseguiu vencer-se e, abandonando o desmaiado e precioso corpo que ainda conservava entre as mãos, lançou á criada um olhar de ameaça feroz e sahiu precipitadamente do aposento, como se temesse não ser senhor de si, caso n'elle permanecesse mais algum tempo.

Emilia ficou, pois, só com Desdemona, a qual levantou do chão com o delicado esmero de mãe, e, depois de a deitar no leito, prodigalisou-lhe todos os cuidados que considerou necessarios para a fazer recuperar os sentidos.

Quando a infeliz voltou a si do deliquio, rompeu em amargo e copioso pranto, o que lhe desafogou um tanto o angustiado coração. Depois, em vez de se mostrar indignada contra o implacavelesposo, começou a desculpal-o aos olhos de Emilia, que continuava dirigindo-lhe os insultos mais violentos.

—Meu pobre Othello—terminou dizendo a pura e nobre Desdemona.

«Soffre mais ainda do que eu, porque me ama apaixonadamente, e julga-me culpada, devido a um erro fatal, que é preciso aclarar a todo o custo.

Ditas estas palavras, que lhe punham em relevo toda a angelical formosura da alma, fechou os olhos e, o seu delicado organismo, rendido por fim, por tantas e tão violentas emoções, cahiu n'um profundo somno, que era o melhor lenitivo que podia achar n'esse instante a desventurada para acalmar a dôr que lhe atormentava a alma...

Entretanto Othello dirigia-se para os seus aposentos particulares, com o proposito de encerrar-se n'elle e poder desafogar melhor, no isolamento a raiva e os ciumes que lhe mordiam cruelmente o coração.

Mas, apenas penetrou no salão que lhe servia de gabinete, encontrou-se, cheio de admiração, na presença completamente inesperada em tão dolorosos momentos de quatro cavalleiros venezianos, que acabavam de chegar á ilha de Chypre e o estavam esperando.

De novo conseguiu o mouro dominar as violentas agitações e as crueis torturas da alma, e, depois de trocados os primeiros cumprimentos, perguntou ao mais velho dos quarto, e que parecia ser o chefe, o motivo de tão inesperada como grata visita.

Este, que era o senador Graciano, irmão de Brabancio e tio por conseguinte de Desdemona, começou por abraçar affectuosamente Othello e depois, em voz grave e repousada, expressou-se d'esta forma:

—O Doge, em nome do illustre e sabio Conselho dos Dez, nos manda aqui, valente general, como encarregados de exprimir o agradecimento de sua agradecida Magestade e de toda a Republica pelos valiosos serviços que, n'este momento, como sempre, prestaste a Veneza, no exercicio do teu governo de Chypre.

«Em seguida proseguiu mais gravemente ainda Graciano, ordena-nos que te façamos saber que o Conselho e sua Senhoria necessitam de ti com grande urgencia, para encarregar-te de nova expedição de vital interesse para o Estado.

«Não devemos demorar muito tempo a nossa partida, e por isso, apenas tenhamos descançado das fadigas da viagem, que foi penosa e accidentada em extremo, sahiremos da ilha para Veneza, onde terás a gentileza de acompanhar-nos. Isto tardará tres ou quatro dias, o maximo, tempo sufficiente para que possas tomar as disposições que consideres opportunas para o melhor governo de Chypre, do qual, por ordem expressa do Conselho, encarregarás o tenente Cassio, que de ti tem sempre merecido os melhores elogios quando se te offerece occasião de fazer-lh'os. Eis quanto tinhamos a dizer-te em nome do Doge e do illustre Conselho dos Dez, valente Othello. Está pois cumprido o objecto da nossa embaixada, eagora, rogamos-te encarecidamente ordenes o que necessario for para que possamos desfructar a tua generosa hospitalidade e entregarmo-nos ao repouso de que tanto carecemos.

Um raio que tivesse cahido aos pés de Othello não lhe produziria maior espanto do que o que lhe causou o breve discurso proferido pelo emissario da Magestade. A principio ficou como que aturdido; mas não tardou em readquirir o sangue frio, e respondendo como poude ao senador Graciano, prometteu obedecer, como sempre, ás ordens do Doge e do illustre Conselho.

Seguidamente deu as instrucções necessarias para que installassem os embaixadores nos seus respectivos aposentos.

Depois, quando conseguiu ficar só, sorriso extranho, cheio de ironia e de odio, entreabriu-lhe os grossos labios; mandou chamar immediatamente Yago, e apenas este chegou, disse-lhe sem mais preambulos:

—Ouve-me com todas as tuas faculdades, e sem te admirares de cousa alguma, nem perder o tempo em exclamações inuteis. Fixa bem na memoria o que te vou dizer e obedece á risca.

—Já sabeis, illustre general—respondeu servilmente Yago—que sou para vós um cão fiel, e que daria de boa vontade a vida se fosse necessario, para servir-vos.

—Sei, e como chegou agora o momento de pôr á prova a tua amisade por mim, por isso te chamei.

O alferes tremeu, pois ignorava onde queriachegar o terrivel Othello; mas fazendo das fraquezas forças respondeu com voz firme:

—Mandai e obedecerei.

—Acabo de receber uma embaixada de Veneza, que me ordena, em nome da Senhoria, que saia de Chipre, sem demora, para a cidade de S. Marcos.

—Como!—exclamou Yago profundamente surprehendido, apesar da ordem que havia recebido de Othello, de que o não interrompesse.

—Ainda não é tudo—respondeu o mouro com sarcastica amargura, sem fazer caso da exclamação do alferes—O Doge ordena-me tambem que deixe o tenente Cassio encarregado do governo de Chypre.

O infame Yago pôz-se livido de inveja, e tão violenta foi a impressão que n'elle causaram as palavras de Othello que se atreveu a perguntar-lhe:

—E que tenciona fazer, general? Obedecer á Senhoria?

—Não poderei obedecer, ainda que quizesse—respondeu Othello sorrindo ferozmente,—porque os embaixadores partirão dentro em tres ou quatro dias, e esta mesma noite morrerá Cassio de uma punhalada que tu mesmo te encarregarás de dar-lhe.

Brilharam de infernal alegria os olhos do alferes, que se limitou a responder:

—Sou vosso em corpo e alma. Cassio morrerá esta noite....

Mas accrescentou vacillando, porem resolvidoa todo o custo a saber o que ganharia de semelhante missão:

—Que pensaes fazer, no que vos diz respeito?

—A seu tempo o saberás—respondeu seccamente o mouro.—Agora, vae-te, pois já disse o que tinha a dizer e esta mesma noite, seja a que horas fôr, te espero para que me dês conta da morte do infame ladrão da minha felicidade e da minha honra.

Pronunciadas estas ultimas palavras, Othello despediu Yago com um gesto, e acto continuo abandonou o quarto.

Apenas se viu só, Yago sorriu com expressão de odio e de ambição satisfeita, e murmurou entre dentes:

—Amanhã, a estas horas, serei tenente e talvez governador da ilha, pois saberei obrigar Othello a que me pague bem a morte de Cassio; quanto a este não serei eu que o hei de matar, mas sim esse imbecil de Rodrigo, ao qual offerecerei a posse immediata de Desdemona se a livrar do official que sempre a está importunando com as suas instantes e vergonhosas declarações; assegurar-lhe-hei que isto me disse ella propria, e que se ainda se não entregou, foi porque teme que Cassio venha a sabel-o e, para vingar-se, conte tudo ao marido. Que o diabo me leve se o estupido Rodrigo não acredita na fabula e não mata o rival! Para tanto facilitar-lhe-hei occasião oportuna, marcando a Cassio uma entrevista na praia ás 11 horas da noite de hoje. Rodrigo matal-o-ha com uma punhalada á traição e eu, que ficarei presenciandoa scena, denuncial-o-hei á justiça...—Não, interrompeu o miseravel.—Isto é perigoso, porque o imbecil poderia fallar, e não me convém, pois toda a gente saberia então que o illudi para apoderar-me de todas as suas joias e dinheiro. O melhor, é depois de matar Cassio, matal-o a elle tambem, o que me será facil, porque é muito menos perigoso do que o outro. Assim está bem—terminou dizendo com expressão satisfeita.—Está resolvido: de tal guisa livro-me d'esse parvo que já começa a incommodar-me, e já não tenho nada a temer de Cassio, podendo em troca cobrar o preço da sua morte, sem o menor risco para a minha pessoa...

E Yago dispoz-se a ir procurar Rodrigo sem perda de tempo, para começar a pôr em execução o seu infame plano; mas, antes de abandonar o palacio do governador, enviou a Cassio um soldado encarregado de lhe dizer que o esperasse ás onze horas da noite na praia, pois tinha que communicar-lhe uma noticia de grande interesse para elle.

—Aposto a cabeça em como não faltará—disse o miseravel—regosijando-se antecipadamente com o resultado que ia obter da nova e dupla infamia acabada de planear.

Avança a noite e os relogios de Chypre dão pausada e gravemente as dez badaladas.

Na alcova de Desdemona, a joven e bella esposa do governador da ilha dispunha-se a deitar-se ajudada carinhosamente pela mulher de Yago, tão fiel e leal servidora, como falso e traidor era para o general africano o infame marido.

—Emilia, disse com voz de infinita doçura a filha de Brabancio; enfeita-me muito e põe-me bonita para dormir. Tenho um presentimento estranho, tão extranho como doloroso, que não me abandona desde esta tarde, e que me annuncia que este vae ser o meu ultimo somno.

—Que loucura! exclamou a criada, tratando de se mostrar alegre aos olhos da ama. Desprezai, senhora, esses tristes e lugubres presentimentos e pensai sómente, pelo contrario, em que vos esperam dias cheios de aventura, pois soisainda muito nova e a vida começa agora para vós.

—Sim, respondeu melancolicamente Desdemona, mas has de concordar que começa de maneira bem dolorosa! Que será de mim sem o amor de meu esposo?

—Vosso esposo, disse Emilia com gesto de convicção;—não tardará em arrancar pelas proprias mãos a negra venda que hoje lhe tapa os olhos, e que o impede de ver todo o thesouro de virtudes e de felicidades que em vós possue! Então voltará ainda mais enamorado do que nunca, e depois vereis, minha querida ama, como esses maus pensamentos que hoje vos atormentam, não tardarão a converter-se em sonhos côr de rosa.

—Queira Deus que não te enganes! respondeu Desdemona, soltando um profundo suspiro, que pareceu aliviar-lhe um tanto o coração opprimido pela angustia.

—Não me engano, tenho a certeza,—insistiu Emilia alegremente.—Vereis como esta mesma noite o vosso esposo virá ver-vos e implorar o vosso perdão, e ao contemplar-vos tão formosa como os anjos de céu, cahirá de joelhos ante vós arrependido da sua conducta. Como estaes linda, minha senhora!—continuou olhando para a joven com sincera admiração, depois de dar-lhe uns ultimos toques no toucado.—Agora, dormi e sonhai com dias melhores, porque os bons sonhos trazem comsigo a ventura, segundo affirmam.

Dizendo estas palavras, Emilia ajudou a joven a deitar-se; apanhou em seguida as roupas queestavam cahidas, pelo aposento, e olhando cuidadosamente em torno de si, para convencer-se que tudo ficava em ordem, deu as boas noites e abandonou em silencio o quarto, que apenas ficou illuminado pela vaga e febril luz de uma lampada de azeite.

Haviam transcorrido dez minutos, e já os preciosos olhos da joven começavam a cerrar-se, vencidos pelo somno, quando a mesma porta por onde sahira Emilia se entreabriu suave e lentamente, e na hombreira appareceu a alta e soberba figura de Othello.

O mouro avançou com lentidão até ao leito onde repousava a esposa que, ao advinhar, melhor do que via, a sua presença, deu um debil grito de alegria e estendeu os nús e marmoreos braços ao marido, exclamando amorosamente:

—Tu aqui! meu querido Othello! Vens dar-me o teu perdão pela desgraçada perda do lenço?

—Rezaste esta noite, Desdemona? perguntou o general com gravidade meiga e triste, que tinha algo de tragica.

—Sim, esposo meu, respondeu a innocente Desdemona; esta noite, como todas, fiz as minhas orações do costume. Mas, porque me fazes tal pergunta?—interrogou a infeliz começando a sentir-se presa de vago terror, ao ver a sombria e implacavel expressão retratada no semblante do marido.

—Porque vaes morrer depois de findarem os cinco minutos que te concedo para encommendares a Deus a tua alma!—respondeu Othello inexoravel.

—Deus! Que dizes? exclamou a joven, sentando-se no leito, como surprehendida pelo espanto e julgando ter ouvido mal.

—Digo que vaes morrer e que aproveites o tempo que te dou para encommendar a tua alma a Deus, repetiu o mouro com frialdade que fazia tanto damno como o de uma folha de aço. E accrescentou logo: Se o proprio Deus houvesse baixado á terra para me annunciar que morrerias ás minhas mãos, teria duvidado de Deus; já vês se tinha ou não fé no teu carinho! Mas tu atraiçoaste essa fé, e por isso mereces a morte. Sim—continuou implacavelmente o terrivel mouro, exaltando-se á medida que fallava, e sem fazer caso do tremor e da mortal lividez que se viam na desventurada e innocente Desdemona;—sim, mereces e vaes justamente morrer. Mas, por que ainda te amo, apezar de tudo, e vim sem armas, porque não quero derramar o teu sangue, que sempre será precioso para mim, morrerás estrangulada ás minhas mãos, entre estas mãos que com tão ardente amôr te acariciaram nos dias felizes para mim. Vês como te amo, Desdemona? Sim, amo-te, e ainda te perdoaria, se tanto fosse possivel! Mas não é! Não, não é, porque atraiçoaste o meu amôr com um amigo desleal e infame, e porque, não contente com tal crime, para o qual não existe misericordia possivel, urdiste, de cumplicidade certamente com o miseravel, uma indigna traição no intuito de que me chamassem a Veneza e vos deixasse aqui a ambos em completa liberdade para gosarem a infamia praticada.

«Ah! ah! ah! gargalhou o formidavel africano, rindo como um louco.

«Já vês que, apezar da nobre ingenuidade do meu caracter, que me entregou de corpo e alma nas tuas mãos, não é tão facil enganar-me, e que immediatamente advinhei tudo. Sim, proseguiu, recobrando a terrivel expressão de implacavel dureza, advinhei, mas o vosso plano não dará o exito appetecido. Ouves?—perguntou, interrompendo-se para escutar as badaladas dos relogios que marcavam a hora. São onze horas e n'este momento cae o teu amante sob o punhal de um fiel servidor meu! E como passaram os cinco minutos que te concedi para que encommendasses tua alma, chegou tambem para ti a hora da morte!

A infeliz Desdemona quiz fallar, pedir, supplicar misericordia ao terrivel esposo, fazer protestos da sua innocencia, salvar a vida, emfim, porque a morte horrorizava-a e a tal ponto que a fazia tremer e bater os dentes como se tivesse febre; mas tudo foi inutil, porque só teve tempo de lançar um grito desesperado, estridente, horrivel e que havia de se ouvir em todos os aposentos do immenso palacio, alterando com a infinita angustia das suas dolorosas vibrações o profundo silencio da noite.

Os férreos dedos do mouro apertavam ferozmente a delicada e branquissima garganta da innocente vitima, quebrou-se a columna vertebral com um estalido horrivel e o precioso corpo, abandonado instantaneamente a si proprio, sob oimpulso do invencivel horror que ao ouvir o espantoso estalido acommetteu immediatamente o verdugo, cahiu pesadamente sobre o leito flexivel e desarticulado, como pesada massa.

Aterrado da propria obra, com os cabellos erriçados e os olhos horrivelmente dilatados pelo espanto, Othello retrocedeu ante o cadaver da infeliz esposa, tratando, talvez, de fugir para apagar da vista o tremendo espectaculo. Mas, n'esse instante abriu-se com violencia a porta do aposento e appareceu Emilia que, desolada e quasi nua, correu para o leito de Desdemona, gritando;

—Senhora! Que vos aconteceu? Respondei, por Deus, respondei!

—Para traz, miseravel encobridora! rugiu Othello, recobrando toda a sua selvagem crueldade, á vista da mulher que julgava cumplice no supposto adulterio da victima. E continuou, agarrando por um braço Emilia: Sim, morreu, e morreu ás pressões de minhas mãos vingadoras, como tu agora vaes morrer, infame, para que não fique no mundo nenhuma testemunha, da minha deshonra!

E o vingativo africano dispunha-se a sacrificar tambem ao terrivel odio aquella nova victima que o destino lhe deparava. Mas, por fortuna para a fiel criada de Desdemona, n'aquelle momento e attrahidos, primeiro por o grito que lançou ao morrer a innocente esposa de Othello, e depois pelos que havia soltado a mulher de Iago, penetraram no quarto Graciano e os tres companheiros da embaixada, o traidor alferes, causa de toda essa espantosa tragedia, e, por ultimo, entraramvarios soldados amparando nos braços Cassio, ferido e que havia exigido que o levassem a todo o transe á presença de Othello sem perda de um minuto, pois em breve morreria e queria fallar com o general antes de exhalar o ultimo suspiro.

Ao vêr entrar tanta gente no aposento, e especialmente ao encontrar-se em presença do veneravel Graciano, tio de Desdemona, Othello retrocedeu instintivamente alguns passos e deixou em liberdade Emilia.

Esta correu, como louca, para os recem-chegados, e gritou, rompendo em soluços:

—Matou a minha ama, senhores, o infame matou-a!

—Sim, confessou sombria e altivamente Othello, dirigindo um olhar de desafio a todos os presentes, matei-a, porque sou o unico juiz da minha honra e eu proprio sentenciei a culpada!

—Mentira! gritou de novo Emilia. Senhores, não acrediteis! A infeliz Desdemona era tão pura e innocente como os anjos do céu, e levava a incomparavel bondade de sua alma até ao extremo de amar com todas as energias do seu coração o seu proprio verdugo!

—Tu é que estás mentindo, infame impostora! rugiu Othello, que tremeu até ao mais intimo d'alma ao entrever a possibilidade da innocencia da esposa pela maneira convicta com que fallára a dama. E accrescentou tirando do bolso o lenço de seda, que guardava como prova accusadora: Atrever-te-has a negar que conheces esta prova do criminoso adulterio? Este lenço deu-o minhaesposa ao amante, a esse infame Cassio, que o proprio inferno repelliu, pois que ainda o vejo aqui com vida!

Ao ver o lenço, Emilia ficou convertida em estatua; pôz-se livida como um cadaver, as pupilas pareceram querer-lhe saltar das orbitas, e exclamou horrorisada:

—O lenço de seda! O lenço que roubei a Desdemona!

—Que roubaste?—exclamou Othello enlouquecido e julgando ter ouvido mal.—É mentira! Foi minha esposa que o deu a Cassio como prenda dos seus criminosos amores!

—Proximo a entregar a alma a Deus interveio com debil e apagada voz o antigo official de Othello—Juro pela minha salvação que nunca vi semelhante lenço nas minhas mãos e que Desdemona te era tão fiel como póde ser a mulher mais pura do mundo!

«Juro tambem, continuou fallando com grande custo,—que morro victima de um erro teu, general, e assassinado por ordem d'esse infame, que não se atrevendo a atacar-me, enviou um instrumento seu, o qual logrou enganar por meio de outra calumnia, e que, depois de ferir-me, acaba de morrer ás minhas mãos, confessando tudo! Juro, por ultimo, accrescentou Cassio, cada vez com voz mais debil,—que sempre te amei como a um pae, como ao morrer te quero ainda, e que Desdemona, tão innocente e pura como um anjo, não foi outra cousa para mim do que foi para todaa gente; um coração cheio de bondade e de doçura! Juro-o por tudo quanto existe de sagrado!...

E o antigo tenente de Othello cahiu sem sentidos nos braços dos soldados que o amparavam.

—E eu juro—exclamou por sua vez Emilia, encarando Othello, que permanecia atonito, como se tivesse recebido um profundo golpe; juro que esse homem disse a verdade, que minha ama era pura como um raio de sol e innocente como uma criança; que Cassio nunca teve em suas mãos esse lenço, e que fui eu que o roubei a Desdemona, obrigada a tal acto por meu marido e fazendo-o jurar que com elle não prejudicaria ninguem! Juro-o pela memoria de meus paes!

Succedeu então uma cousa verdadeiramente horrivel.

Iago, ao vêr o caminho que tomavam para elle as coisas, fôra approximando-se lentamente da porta para se escapulir sem ser visto. Mas, no momento em que Emilia se calou, Othello saltou sobre elle com a agilidade e a força de um leopardo, e arrancando-lhe a propria espada, enterrou-lh'a nas entranhas até aos copos. Em seguida, voltando-se para onde estava Graciano, e tirando o punhal que o velho senador trazia pendente do cinto cravou-o no proprio peito até ao cabo e cahiu sobre o leito em que jazia o cadaver de Desdemona, á qual deu a alma n'um beijo com o ultimo suspiro.

A dupla acção do formidavel e ciumento mouro havia sido tão rapida, que quando os circumstantes, refeitos do assombro, quizeram intervir, já estava consumada a tragedia.

FIM


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