Duarte suava e tremia. Quiz levantar-se e não pôde. Os joelhos batiam um contra o outro. O padre chegou-se-lhe ao ouvido, e disse baixinho:
—Quer fugir?
—Oh! sim! exclamou, não com os labios, que podia ser ouvido, mas com os olhos em que poz toda a vida que lhe restava.
—Vê aquella janella? Está aberta; embaixo fica um jardim. Atire-se d'alli sem medo.
—Oh! padre! disse baixinho o bacharel.
—Não sou padre, sou tenente do exercito. Não diga nada.
A janella estava apenas cerrada; via-se pela fresta uma nesga do céu, já meio claro. Duarte não hesitou, colligiu todas as forças, deu um pulo do logar onde estava e atirou-se a Deus misericordia por alli abaixo. Não era grande altura, a quéda foi pequena; ergueu-se o moço rapidamente, mas o homem gordo, que estava no jardim, tomou-lhe o passo.
—Que é isso? perguntou elle rindo.
Duarte não respondeu, fechou os punhos, bateu com elles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr pela jardim fóra. O homem não caiu; sentiu apenas um grande abalo; e, uma vez passada a impressão, seguiu no encalço do fugitivo. Começou então uma carreira vertiginosa. Duarte ia saltando cercas e muros, calcando canteiros, esbarrando arvores, que uma ou outra vez se lhe erguiam na frente. Escorria-lhe o suor em bica, alteava-se-lhe o peito, as forças iam a perder-se pouco a pouco; tinha uma das mãos ferida, a camisa salpicada do orvalho das folhas, duas vezes esteve a ponto de ser apanhado, o chambre pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. Emfim, cançado, ferido, offegante, caiu nos degraos de pedra de uma casa, que havia no meio do ultimo jardim que atravessára. Olhou para traz; não viu ninguem; o perseguidor não o acompanhara até alli. Podia vir, entretanto; Duarte ergueu-se a custo, subiu os quatro degráos que lhe faltavam, e entrou na casa, cuja porta, aberta, dava para uma sala pequena e baixa.
Um homem que alli estava, lendo um numero doJornal do Commercio, pareceu não o ter visto entrar. Duarte cahiu n'uma cadeira. Fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves. O major, empunhando a folha, cujas dimensões iam-se tornando extremamente exiguas, exclamou repentinamente:
—Anjo do ceu, estás vingado! Fim do ultimo quadro.
Duarte olhou para elle, para a mesa, para as paredes, esfregou os olhos, respirou á larga.
—Então! Que tal lhe pareceu?
—Ah! excellente! respondeu o bacharel, levantando-se.
—Paixões fortes, não?
—Fortissimas. Que horas são?
—Deram duas agora mesmo.
Duarte acompanhou o major até a porta, respirou que muitas vezes, apalpou-se, foi até á janella. Ignora-se o que pensou durante os primeiros minutos; mas, ao cabo de um quarto de hora, eis o que elle dizia consigo:—Nympha, doce amiga, fantasia inquieta e fertil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituiste-me o tedio por um pesadelo: foi um bom negocio. Um bom negocio e uma grave licção: provaste-me que muitas vezes o melhor drama está no espectador e não no palco.
[1]Este conto foi publicado, pela primeira vez, naEpocha, n. 1, de 14 de Novembro de 1875. Trazia o pseudonymo deManassés, com que assignei outros artigos daquella folha ephemera. O redactor principal era um espirito eminente, que a politica veiu tomar ás lettras: Joaquim Nabuco. Posso dizel-o sem indiscrição. Eramos poucos e amigos. O programma era não ter programma, como declarou o artigo inicial, ficando a cada redactor plena liberdade de opinião, pela qual respondia exclusivamente. O tom (feita a natural reserva da parte de um collaborador) era elegante, litterario, attico. A folha durou quatro numeros.
[1]Este conto foi publicado, pela primeira vez, naEpocha, n. 1, de 14 de Novembro de 1875. Trazia o pseudonymo deManassés, com que assignei outros artigos daquella folha ephemera. O redactor principal era um espirito eminente, que a politica veiu tomar ás lettras: Joaquim Nabuco. Posso dizel-o sem indiscrição. Eramos poucos e amigos. O programma era não ter programma, como declarou o artigo inicial, ficando a cada redactor plena liberdade de opinião, pela qual respondia exclusivamente. O tom (feita a natural reserva da parte de um collaborador) era elegante, litterario, attico. A folha durou quatro numeros.
FIM DA CHINELA TURCA
1.—Então Noé disse a seus filhos Japhet, Sem e Cham:—«Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animaes. A arca tem de parar no cabeço de uma montanha; desceremos a ella.
2.—«Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nella tu, tua mulher e teus filhos.
3.—«E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animaes.
4.—«Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataractas do céu; tornaremos a descer á terra, e a viver no seio da paz e da concordia.»
5.—Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pae; e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das camaras da arca.
6.—Então Japhet levantou a voz e disse:—«Aprazivel vida vai ser a nossa. A figueira nos dará o fructo, a ovelha a lan, a vacca o leite, o sol a cladade e a noite a tenda.
7.—«Porquanto seremos unicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguem perturbará a paz de uma familia, poupada do castigo que feriu a todos os homens.
8.—«Para todo o sempre.» Então Sem, ouvindo falar o irmão, disse:—«Tenho uma ideia.» Ao que Japhet e Cham responderam:—«Vejamos a tua ideia, Sem.»
9.—E Sem falou a voz de seu coração, dizendo:—«Meu pae tem a sua familia; cada um de nós tem a sua familia; a terra é de sobra; podiamos viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe parecer melhor: e plantará, caçará, ou lavrará a madeira, ou fiará o linho.»
10.—E respondeu Japhet:—«Acho bem lembrada a idea de Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha; meu pae e Chain descerão para o lado do nascente: eu e Sem para o lado do poente. Sem occupará duzentos covados de terra, eu outros duzentos.»
11.—Mas dizendo Sem:—«Acho pouco duzentos covados»—, retorquiu Japhet: «Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita;
12.—«Ea minha terra se chamará a terra de Japhet, e a tua se chamará a terra de Sem; e iremos ás tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da concordia.»
13.—E tendo Sem approvado a divisão, perguntou a Japhet: «Mas o rio? a quem pertencerá a agua do rio, a corrente?
14.—«Porque nós possuimos as margens, e não estatuimos nada a respeito da corrente.» E respondeu Japhet, que podiam pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôz dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio. Japhet, porem, disse que a corrente levaria o pau.
15.—E tendo Japhet respondido asssim, acudiu o irmão:—«Pois que te não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que não haja conflicto, podes levantar um muro, dez ou doze covados, para lá da tua margem antiga.
16.—«E se com isto perdes alguma cousa, nem é grande a differença, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a concordia entre nós, segundo é a vontade do Senhor.»
17.—Japhet porém replicou:—«Vae bugiar! Com que direito me tiras a margem, que é minha, e me roubas um pedaço de terra? Por ventura és melhor do que eu.
18.—«Ou mais bello, ou mais querido de meu pae? que direito tens de violar assim tão escandalosamente a propriedade alheia?
19.—«Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-hei como Caim matou a seu irmão.»
20.—Ouvindo isto, Cham atemorisou-se muito, e começou a aquietar os dous irmãos,
21.—Os quaes tinham os olhos do tamanho de figos e cor de braza, e olhavam-se cheios de colera e desprezo.
22.—A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.
1.—Ora, Japhet, tendo curtido a colera, começou a espumar pela boca, e Okam fallou-lhe palavras de brandura,
2.—Dizendo:—«Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher e a mulher de Sem.»
3.—Um e outro, porém, recusaram dizendo, que o caso era de direito e não de persuasão.
4.—E Sem propoz a Japhet que compensasse os dez covados perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra delle. Mas Japhet respondeu:
5.—«Por que me não mandas logo para os confins do mundo? Já te não contentas com quinhentos covados; queres quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa.
6.—«Tu não tens sentimentos moraes? não sabes o que é justiça? não ves que me esbulhas descaradamente? e não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com risco de vida?
7.—«E que, se é preciso correr sangue, o sangue hade correr já e já,
8.—«Para te castigar a soberba e lavar a tua iniquidade?»
9.—Então Sem avançou para Japhet; mas Cham interpoz-se, pondo uma das mãos no peito de cada um;
10.—Emquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do diluvio, tinham vivido na mais doce concordia, ouvindo o rumor das vozes, vieram espreitar a briga dos dous irmãos, e começaram a vigiar-se um ao outro.
11.—E disse Cham:—«Ora, pois, tenho uma ideia maravilhosa, que ha de accommodar tudo;
12.—«A qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus irmãos. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pae, e ficarei com o rio e as duas margens, dando-me vós uns vinte covados cada um.»
13.—E Sem e Japhet riram com desprezo e sarcasmo, dizendo:—«Vae plantar tamaras! Guarda a tua ideia para os dias da velhice.» E puxaram as orelhas e o nariz de Cham; e Japhet, mettendo dous dedos na boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.
14.—Ora, Cham envergonhado e irritado, espalmou a mão dizendo:—«Deixa estar!» e foi d'alli ter com o pae e as mulheres dos dous irmãos.
15.—Japhet porém disse a Sem:—«Agora que estamos sós, vamos decidir este grave caso, ou seja de lingua ou de punho. Ou tu me cedes as duas margens, ou eu te quebro uma costella.»
16.—Dizendo isto, Japhet ameaçou a Sem com os punhos fechados, emquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz irada: «Não te cedo nada, gatuno!»
17.—Ao que Japhet retorquiu irado: «gatuno és tu!»
18.—Isto dito, avançaram um para o outro e atracaram-se. Japhet tinha o braço rijo e adestrado; Sem era forte na resistencia. Então Japhet, segurando o irmão pela cinta, apertou-o fortemente, bradando: «De quem é o rio?»
19.—E respondendo Sem:—«É meu!» Japhet fez um gesto para derrubal-o; mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e atirou o irmão para longe, Japhet, porém, espumando de colera, tornou a apertar o irmão, e os dous luctaram braço a braço,
20.—Suando e bufando como touros.
21.—Na lucta, cairam e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue saía dos narizes, dos beiços, das faces; ora vencia Japhet,
22.—Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os egualmente, e elles luctavam com as mãos, os pés, os dentes e as unhas; e a arca estremecia como se de novo se houvessem aberto as cataratas do céu.
23.—Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé, ao mesmo tempo que seu filho Cham, que lhe appareceu clamando: «Meu pae, meu pae, se de Caim se tomará vingança sete vezes, e de Lamech setenta vezes sete, o que será de Japhet e Sem?»
24.—E pedindo Noé que explicasse o dito, Cham referiu a discordia dos dous irmãos, e a ira que os animava, e disse:—«Correi a aquietal-os.» Noé disse:—«Vamos.»
25.—A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.
1.—Eis aqui chegou Noé ao logar onde luctavam os dous filhos,
2.—E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de Japhet, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e sangrenta.
3.—Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar o pescoço do irmão, e este começou a bradar: «Larga-me, larga-me.»
4.—Ouvindo os brados, as mulheres de Japhet e Sem acudiram tambem ao logar da lucta, e, vendo-os assim, entraram a soluçar e a dizer: «O que será de nós? A maldição cahiu sobre nós e nossos maridos.»
5.—Noé, porém, lhes disse: «Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu verei de que se trata, e ordenarei o que fôr justo .» E caminhando para os dous combatentes,
6.—Bradou: «Cessae a briga. Eu, Noé, vosso pae, o ordeno e mando.» E ouvindo os dous irmãos o pae, detiveram-se subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, não se levantando nenhum d'elles.
7.—Noé continuou: «Erguei-vos, homens indignos da salvação e merecedores do castigo que feriu os outros homens.»
8.—Japhet e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pescoço e as mãos, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham luctado com unhas e dentes, instigados de odio mortal.
9.—O chão tambem estava alagado de sangue, e as sandalias de um e outro, e os cabellos de um e outro,
10.—Como se o peccado os quizera marcar com o sello da iniquidade.
11.—As duas mulheres, porém, chegaram-se a elles, chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do coração. Japhet e Sem não attendiam a nada, e estavam com os olhos no chão, medrosos de encarar seu pae.
12.—O qual disse: «Ora, pois, quero saber o motivo da briga.»
13.—Esta palavra accendeu o odio no coração de ambos. Japhet, porém, foi o primeiro que falou e disse:
14.—«Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para levantar a minha tenda, quando as aguas houverem desapparecido e a arca descer, segundo a promessa do Senhor;
15.—«E eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão: «Não te contentas com quinhentos covados e queres mais dez? «E elle me respondeu: «Quero mais dez e as duas margens do rio que ha de dividir a minha terra da tua terra.»
16.—Noé, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Japhet, perguntou ao irmão: «Que respondes?»
17.—E Sem disse: «—Japhet mente, porque eu só lhe tomei os dez covados de terra, depois que elle recusou dividir o rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que elle medisse outros dez covados nos fundos das terras delle,
18.—«Para compensar o que perdia; mas a iniquidade de Caim fallou nelle, e elle me feriu a cabeça, a cara e as mãos.»
19.—E Japhet interrompeu-o dizendo: «Porventura não me feriste tambem? Não estou ensanguentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre.»
20.—Indo Noé fallar, notou que os dous filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: «Ouvi!» Mas os dous irmãos, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando:—«De quem é o rio?»—«O rio é meu.»
21.—E só a muito custo puderam Noé, Cham e as mulheres de Sem e Japhet, conter os dous combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande copia.
22.—Noé, porém, alçando a voz, bradou:—Maldito seja o que me não obedecer. Elle será maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.
23.—«Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a respeito do logar em que levantareis as tendas.»
24.—Depois ficou meditabundo.
25.—E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do tecto estava levantada, bradou com tristeza:
26.—«Elles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Russia?»
27.—E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pae.
28.—A arca, porém, continuava a boiar sobre as aguas do abysmo.
A cousa mais ardua do mundo, depois do officio de governar, seria dizer a edade exacta de D. Benedicta. Uns davam-lhe quarenta annos, outros quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia aos vinte e nove; mas esta opinião, eivada de intenções occultas, carecia daquelle cunho de sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. Nem eu a cito, senão para dizer, desde logo, que D. Benedicta foi sempre um padrão de bons costumes. A astucia do corretor não fez mais do que indignal-a, embora momentaneamente; digo momentaneamente. Quanto ás outras conjecturas, oscillando entre os trinta e seis e os quarenta e cinco, não desdiziam das feições de D. Benedicta, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas, se alguma cousa admira é que houvesse supposições neste negocio, quando bastava interrogal-a para saber a verdade verdadeira.
D. Benedicta fez quarenta e dous annos no domingo desenove de setembro de 1869. São seis horas da tarde; a meza da familia está ladeada de parentes e amigos, em numero de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas dessas estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram sempre alludir francamente á edade da dona da casa. Além disso, vêem-se alli, á meza, uma moça e um rapaz, seus filhos; este é, de certo, no tamanho e nas maneiras, um tanto menino; mas a moça, Eulalia, contando dezoito annos, parece ter vinte e um, tal é a severidade dos modos e das feições.
A alegria dos convivas, a excellencia do jantar, certas negociações matrimoniaes incumbidas ao conego Roxo, aqui presente, e das quaes se fallará mais abaixo, as boas qualidades da dona da casa, tudo isso dá á festa um caracter intimo e feliz. O conego levanta-se para trinchar o perú. D. Benedicta acatava esse uso nacional das casas modestas de confiar o perú a um dos convivas, em vez de o fazer retalhar fóra da meza por mãos servis, e o conego era o pianista daquellas occasiões solemnes. Ninguem conhecia melhor a anatomia do animal, nem sabia operar com mais presteza. Talvez,—e este phenomeno fica para os entendidos,—talvez a circumstancia do canonicato augmentasse ao trinchante, no espirito dos convivas, uma certa somma de prestigio, que elle não teria, por exemplo, se fosse um simples estudante de mathematicas, ou um amanuense de secretaria. Mas, por outro lado, um estudante ou um amanuense, sem a lição do longo uso, poderia dispor da arte consummada do conego? É outra questão importante.
Venhamos, porém, aos demais convivas, que estão parados, conversando; reina o borborinho proprio dos estomagos meio regalados, o riso da natureza que caminha para a repleção; é um instante de repouso.
D. Benedicta falla, como as suas visitas, mas não falla para todas, senão para uma, que está sentada ao pé della. Essa é uma senhora gorda, sympathica, muito risonha, mãe de um bacharel de vinte e dous annos, o Leandrinho, que está sentado defronte dellas. D. Benedicta não se contenta de fallar á senhora gorda, tem uma das mãos desta entre as suas; e não se contenta de lhe ter presa a mão, fita-lhe uns olhos namorados, vivamente namorados. Não os fita, note-se bem, de um modo persistente e longo, mas inquieto, miudo, repetido, instantaneo. Em todo caso, ha muita ternura naquelle gesto; e, dado que não a houvesse, não se perderia nada, porque D. Benedicta repete com a boca a D. Maria dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito:—que está encantada, que considera uma fortuna conhecel-a, que é muito sympathica, muito digna, que traz o coração nos olhos, etc., etc., etc. Uma de suas amigas diz-lhe, rindo, que está com ciumes.
—Que arrebente! responde ella, rindo tambem.
E voltando-se para a outra:
—Não acha? ninguém deve metter-se com a nossa vida.
E ahi tornavam as finezas, os encarecimentos, os risos, as offertas, mais isto, mais aquillo,—um projecto do passeio, outro de theatro, e promessas de muitas visitas, tudo com tamanha expansão e calor, que a outra palpitava de alegria e reconhecimento.
O perú está comido. D. Maria dos Anjos faz um signal ao filho; este levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde:
—Meus senhores, é preciso desmentir esta maxima dos francezes:—les absents on tort.Bebamos a alguem que está longe, muito longe, no espaço, mas perto, muito perto, no coração de sua digna esposa:—bebamos ao illustre desembargador Proença.
A assembléa não correspondeu vivamente ao brinde; e para comprehendel-o basta ver o rosto triste da dona da casa. Os parentes e os mais intimos disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado; emfim, bebeu-se, mas sem estrepito; ao que parece, para não avivar a dor de D. Benedicta. Vã precaução! D. Benedicta, não podendo conter-se, deixou rebentarem-lhe as lagrimas, levantou-se da meza, retirou-se da sala. D. Maria dos Anjos acompanhou-a. Succedeu um silencio mortal entre os convivas. Eulalia pediu a todos que continuassem, que a mãe voltava já.
—Mamãe é muito sensivel, disse ella, e a ideia de que papae está longe de nós...
O Leandrinho, consternado, pediu desculpa a Eulalia. Um sujeito, ao lado delle, explicou-lhe que D. Benedicta não podia ouvir fallar do marido sem receber um golpe no coração—e chorar logo; ao que o Leandrinho acudiu dizendo que sabia da tristeza della, mas estava longe de suppor que o seu brinde tivesse tão mau effeito.
—Pois era a cousa mais natural, explicou o sujeito, porque ella morre pelo marido.
—O conego, acudiu Leandrinho, disse-me que elle foi para o Pará ha uns dous annos...
—Dous annos e meio; foi nomeado desembargador pelo ministerio Zacharias. Elle queria a relação de S. Paulo, ou da Bahia; mas não pôde ser e aceitou a do Pará.
—Não voltou mais?
—Não voltou.
—D. Benedicta naturalmente tem medo de embarcar...
—Creio que não. Já foi uma vez á Europa. Se bem me lembro, ella ficou para arranjar alguns negocios de familia; mas foi ficando, ficando, e agora...
—Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim... Conhece o marido?
—Conheço; um homem muito distincto, e ainda moço, forte; não terá mais de quarenta e cinco annos. Alto, barbado, bonito. Aqui ha tempos disse-se que elle não teimava com a mulher, porque estava lá de amores com uma viuva.
—Ah!
—E houve até quem viesse contal-o a ella mesma. Imagine como a pobre senhora ficou! Chorou uma uma noute inteira, no dia seguinte não quiz almoçar, e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.
—Mas não foi?
—Não foi; desfez a viagem d'ahi a tres dias.
D. Benedicta voltou nesse momento, pelo braço de D. Maria dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrupção, e sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe deu, pegando-lhe outra vez na mão.
—Vejo que me quer bem, disse ella.
—A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.
—Mereço? inquiriu ella entre desvanecida e modesta.
E declarou que não, que a outra é que era boa, um anjo, um verdadeiro anjo; palavra que ella sublinhou com o mesmo olhar namorado, não persistente e longo, mas inquieto e repetido. O conego, pela sua parte, com o fim de apagar a lembrança do incidente, procurou generalisar a conversa, dando-lhe por assumpto a eleição do melhor doce. Os pareceres divergiram muito. Uns acharam que era o de coco, outros o de cajú, alguns o de laranja, etc. Um dos convivas, o Leandrinho, autor do brinde, dizia com os olhos,—não com a boca,—e dizia-o de um modo astucioso, que o melhor doce eram as faces de Eulalia, um doce moreno, corado; dito que a mãe delle interiormente approvava, e que a mãe della não podia ver, tão entregue estava á contemplação da recente amiga. Um anjo, um verdadeiro anjo!
D. Benedicta levantou-se, no dia seguinte, com a ideia de escrever uma carta ao marido, uma longa carta em que lhe narrasse a festa da vespera, nomeasse os convivas e os pratos, descrevesse a recepção nocturna, e, principalmente, désse noticia das novas relações com D. Maria dos Anjos. A mala fechava-se ás duas horas da tarde, D. Benedicta accordára ás nove, e, não morando longe (morava no Campo da Acclamação), um escravo levaria a carta ao correio muito a tempo. Demais, chovia; D. Benedicta arredou a cortina da janella, deu com os vidros molhados; era uma chuvinha teimosa, o céu estava todo brochado de uma côr pardo-escura, malhada do grossas nuvens negras. Ao longe, viu fluctuar e voar o panno que cobria o balaio que uma preta levava á cabeça: concluiu que ventava. Magnifico dia para não sair, e, portanto, escrever uma carta, duas cartas, todas as cartas de uma esposa ao marido ausente. Ninguem viria tental-a.
Emquanto ella compõe os babadinhos e rendas do roupão branco, um roupão de cambraia que o desembargador lhe dera em 1862, no mesmo dia anniversario, 19 de Setembro, convido a leitora a observar-lhe as feições. Vê que não lhe dou Venus; tambem não lhe dou Meduza. Ao contrario de Meduza, nota-se-lhe o alisado simples do cabello, preso sobre a nuca. Os olhos são vulgares, mas tem uma expressão bonachã. A bocca é daquellas que, ainda não sorrindo, são risonhas, e tem esta outra particularidade, que é uma bocca sem remorsos nem saudades: podia dizer sem desejos, mas eu só digo o que quero, e só quero fallar das saudades e dos remorsos. Toda essa cabeça, que não enthusiasma, nem repelle, assenta sobre um corpo antes alto do que baixo, e não magro nem gordo, mas fornido na proporção da estatura. Para que fallar-lhe das mãos? Ha de admiral-as logo, ao travar da penna e do papel, com os dedos afilados e vadios, dous delles ornados de cinco ou seis anneis.
Creio que é bastante ver o modo porque ella compõe as rendas e os babadinhos do roupão para comprehender que é uma senhora pichosa, amiga do arranjo das cousas e de si mesma. Noto que rasgou agora o babadinho do punho esquerdo, mas é porque, sendo tambem impaciente, não podia mais «com a vida deste diabo.» Essa foi a sua expressão, acompanhada logo de um «Deus me perdôe!» que inteiramente lhe extrahiu o veneno. Não digo que ella bateu com o pé, mas adivinha-se, por ser um gesto natural de algumas senhoras irritadas. Em todo caso, a colera durou pouco mais de meio minuto. D. Benedicta foi á caixinha de costura para dar um ponto no rasgão, e contentou-se com um alfinete. O alfinete caiu no chão, ella abaixou-se a apanhal-o. Tinha outros, é verdade, muitos outros, mas não achava prudente deixar alfinetes no chão. Abaixando-se, aconteceu-lhe ver a ponta da chinela, na qual pareceu-lhe descobrir um signal branco; sentou-se na cadeira que tinha perto, tirou a chinela, e viu o que era: era um roidinho de barata. Outra raiva de D. Benedicta, porque a chinela era muito galante, e fora-lhe dada por uma amiga do anno passado. Um anjo, um verdadeiro anjo! D. Benedicta fitou os olhos irritados no signal branco; felizmente a expressão bonachã delles não era tão bonachã que se deixasse eliminar de todo por outras expressões menos passivas, e retomou o seu logar. D. Benedicta entrou a virar e revirar a chinela, e a passal-a de uma para outra mão, a principio com amor, logo depois machinalmente, até que as mãos pararam de todo, a chinela caiu no regaço, e D. Benedicta ficou a olhar para o ar, parada, fixa. Nisto o relogio da sala de jantar, começou a bater horas, D. Benedicta logo ás primeiras duas, estremeceu:
—Jesus! Dez horas!
E, rapida, calçou a chinela, concertou depressa o punho do roupão, e dirigisse á escrevaninha, para começar a carta. Escreveu, com effeito, a data, e um:—«Meu ingrato marido»; emfim, mal traçára estas linhas:—Você lembrou-se hontem de mim? Eu...» quando Eulalia lhe bateu á porta, bradando:
—Mamãe, mamãe, são horas de almoçar.
D. Benedicta abriu a porta, Eulalia beijou-lhe a mão, depois levantou as suas ao céu:
—Meu Deus! que dorminhoca!
—O almoço está prompto?
—Ha que seculos!
—Mas eu tinha dito que hoje o almoço era mais tarde... Estava escrevendo a teu pae.
Olhou alguns instantes para a filha, como desejosa de lhe dizer alguma cousa grave, ao menos difficil, tal era a expressão indecisa e séria dos olhos. Mas não chegou a dizer nada; a filha repetiu que a almoço estava na mesa, pegou-lhe do braço e levou-a.
Deixemol-as almoçar á vontade; descancemos nessa outra sala, a de visitas, sem aliás inventariar os moveis della, como o não fizemos em nenhuma outra sala ou quarto. Não é que elles não prestem, ou sejam de máu gosto; ao contrario, são bons. Mas a impressão geral que se recebe é exquisita, como se ao trastejar daquella casa houvesse presidido um plano truncado, ou uma successão de planos truncados. Mãe, filha e filho almoçaram. Deixemos o filho, que nos não importa, um pirralho de doze annos, que parece ter oito, tão mofino é elle. Eulalia interessa-nos, não só pelo que vimos de relance no capitulo passado, como porque, ouvindo a mãe fallar em D. Maria dos Anjos e no Leandrinho, ficou muito séria e, talvez, um pouco amuada. D. Benedicta percebeu que o assumpto não era aprazivel á filha, e recuou da conversa, como alguem que desanda uma rua para evitar um importuno; recuou e ergueu-se; a filha veiu com ella para a sala de visitas.
Eram onze horas menos um quarto. D. Benedicta conversou com a filha até depois de meio dia, para ter tempo de descançar o almoço e escrever a carta. Sabem que a mala fecha ás duas horas. De facto, alguns minutos, poucos, depois do meio dia, D. Benedicta disse á filha que fosse estudar piano, porque ella ia acabar a carta. Saiu da sala; Eulalia foi á janella, relanceou a vista pelo Campo, e, se lhes disser que com uma pontasinha de tristeza nos olhos, podem crer que é a pura verdade. Não era todavia, a tristeza dos debeis ou dos indecisos; era a tristeza dos resolutos, a quem dóe de antemão um acto pela mortificação que hade trazer a outros, e que, não obstante, juram a si mesmos pratical-o, e praticam. Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eulalia, mas por isso mesmo é que as historias são contadas por alguem, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido. Que era uma tristeza mascula, era;—e que dahi a pouco os olhos sorriam de um signal de esperança, tambem não é mentira.
—Isto acaba, murmurou ella, vindo para dentro.
Justamente nessa occasião parava um carro á porta, apeava-se uma senhora, ouvia-se a campainha da escada, descia um moleque a abrir a cancella, e subia es escadas D. Maria dos Anjos. D. Benedicta, quando lhe disseram quem era, largou a penna, alvoroçada; vestiu-se á pressa, calçou-se, e foi á sala.
—Com este tempo! exclamou. Ah! isto é que é querer bem á gente!
—Vim sem esperar pela sua visita, só para mostrar que não gosto de cerimonias, e que entre nós deve haver a maior liberdade.
Vieram os comprimentos de estylo, as palavrinhas doces, os afagos da vespera. D. Benedicta não se fartava de dizer que a visita naquelle dia era uma grande fineza, uma prova de verdadeira amisade; mas queria outra, accrescentou dahi a um instante, que D. Maria dos Anjos ficasse para jantar. Esta desculpou-se allegando que tinha de ir a outras partes; demais, essa era a prova que lhe pedia,—a de ir jantar á casa della primeiro. D. Benedicta não hesitou, prometteu que sim, naquella mesma semana.
—Estava agora mesmo escrevendo o seu nome, continuou.
—Sim?
—Estou escrevendo a meu marido, e fallo da senhora. Não lhe repito o que escrevi, mas imagine que fallei muito mal da senhora, que era antipathica, insupportavel, massante, aborrecida... Imagine!
—Imagino, imagino. Pode accrescentar que, apezar de ser tudo isso, e mais alguma cousa, apresento-lhe os meus respeitos.
—Como ella tem graça para dizer as cousas! commentou D. Benedicta olhando para a filha.
Eulalia sorriu sem convicção. Sentada na cadeira fronteira á mãe, ao pé da outra ponta do sophá em que estava D. Maria dos Anjos,—Eulalia dava á conversação das duas a somma de attenção que a cortezia lhe impunha, e nada mais, Chegava a parecer aborrecida; cada sorriso que lhe abria a bocca era de um amarello pallido, um sorriso de favor. Uma das tranças,—era de manhã, trazia o cabello em duas tranças caidas pelas costas abaixo,—uma dellas servia-lhe de pretexto a alheiar-se de quando em quando, porque puxava-a para a frente e contava-lhe os fios do cabello,—ou parecia contal-os. Assim o creu D. Maria dos Anjos, quando lhe lançou uma ou duas vezes os olhos, curiosa, desconfiada. D. Benedicta é que não via nada; via a amiga, a feiticeira, como lhe chamou duas ou tres vezes,—«feiticeira como ella só.»
—Já!
D. Maria dos Anjos explicou que tinha de ir a outras visitas; mas foi obrigada a ficar ainda alguns minutos, a pedido da amiga. Como trouxesse um mantelete de renda preta, muito elegante, D. Benedicta disse que tinha um egual, e mandou buscal-o. Tudo demoras. Mas a mãe do Leandrinho estava tão contente! D. Benedicta enchia-lhe o coração; achava nella todas as qualidades que melhor se ajustavam á sua alma e aos seus costumes, ternura, confiança, enthusiasmo, simplicidade, uma familiaridade cordial e prompta. Veiu o mantelete; vieram offerecimentos de alguma cousa, um doce, um licor, um refresco; D. Maria dos Anjos não aceitou nada mais do que um beijo e a promessa de que iriam jantar com ella naquella semana.
—Quinta-feira, disse D. Benedicta.
—Palavra?
—Palavra.
—Que quer que lhe faça se não fôr? Hade ser um castigo bem forte.
—Bem forte? Não me falle mais.
D. Maria dos Anjos beijou com muita ternura a amiga; depois abraçou e beijou tambem a Eulalia, mas a effusão era muito menor de parte a parte. Uma e outra mediam-se, estudavam-se, começavam a comprehender-se. D. Benedicta levou a amiga até o patamar da escada, depois foi á janella para vel-a entrar no carro; a amiga, depois de entrar no carro, poz a cabeça de fóra, olhou para cima, e disse-lhe adeus, com a mão.
—Não falte, ouviu?
—Quinta-feira.
Eulalia já não estava na sala; D. Benedicta correu a acabar a carta. Era tarde: não relatára o jantar da vespera, nem já agora podia fazel-o. Resumiu tudo; encareceu muito as novas relações; emfim, escreveu estas palavras:
«O conego Roxo fallou-me em casar Eulalia com o filho de D. Maria dos Anjos; é um moço formado em direito este anno; é conservador, e espera uma promotoria, agora, se o Itaborahy não deixar o ministerio. Eu acho que o casamento é o melhor possivel. O Dr. Leandrinho (é o nome delle) é muito bem educado; fez um brinde a você, cheio de palavras tão bonitas, que eu chorei. Eu não sei se Eulalia quererá ou não; desconfio de outro sujeito que outro dia esteve comnosco nas Larangeiras. Mas você que pensa? Devo limitar-me a aconselhal-a, ou impor-lhe a nossa vontade? Eu acho que devo usar um pouco da minha autoridade; mas não quero fazer nada sem que você me diga, O melhor seria se você viesse cá.»
Acabou e fechou a carta; Eulalia entrou nessa occasião, ella deu-lh'a para mandar, sem demora, ao correio; e a filha saiu com a carta sem saber que tratava della e do seu futuro, D. Benedicta deixou-se cair no sophá, cançada, exhausta. A carta era muito comprida apezar de não dizer tudo; e era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas!
Era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas! Esta palavra, fecho do capitulo passado, explica a longa prostração de D. Benedicta. Meia hora depois de cair no sophá, ergueu-se um pouco, e percorreu o gabinete com os olhos, como procurando alguma cousa. Essa cousa era um livro. Achou o livro, e podia dizer achou os livros, pois nada menos de tres estavam alli, dous abertos, um marcado em certa pagina, todos em cadeiras. Eram tres romances que D. Benedicta lia ao mesmo tempo. Um delles, note-se, custou-lhe não pouco trabalho. Deram-lhe noticia na rua, perto de casa, com muitos elogios; chegara da Europa na vespera. D. Benedicta ficou tão enthusiasmada, que apezar de ser longe e tarde, arrepiou caminho e foi ella mesmo compral-o, correndo nada menos de tres livrarias. Voltou anciosa, namorada do livro, tão namorada que abriu as folhas, jantando, e leu os cinco primeiros capitulos naquella mesma noute. Sendo preciso dormir, dormiu; no dia seguinte não pôde continuar, depois esqueceu-o. Agora, porém, passados oito dias, querendo lêr alguma cousa, aconteceu-lhe justamente achal-o á mão.
—Ah!
E eil-a que torna ao sophá, que abre o livro com amor, que mergulha o espirito, os olhos e o coração na leitura tão desastradamente interrompida. D. Benedicta ama os romances, é natural; e adora os romances bonitos, é naturalissimo. Não admira que esqueça tudo para lêr este; tudo, até a licção de piano da filha, cujo professor chegou e saiu, sem que ella fosse á sala. Eulalia despediu-se do professor; depois foi ao gabinete, abriu a porta, caminhou pé ante pé até o sophá, e acordou a mãe com um beijo.
—Dorminhoca!
—Ainda chove?
—Não, senhora; agora parou.
—A carta foi?
—Foi; mandei o José a toda a pressa. Aposto que mamãe esqueceu-se de dar lembranças a papae? Pois olhe, eu não me esqueço nunca.
D. Benedicta bocejou. Já não pensava na carta; pensava no collete que encommendára á Charavel, um collete de barbatanas mais molles do que o ultimo. Não gostava de barbatanas duras; tinha o corpo mui sensivel. Eulalia fallou ainda algum tempo do pae, mas calou-se logo, e vendo no chão o livro aberto, o famoso romance, apanhou-o, fechou-o, pol-o em cima da mesa. Nesse momento vieram trazer uma carta a D. Benedicta; era do conego Roxo, que mandava perguntar se estavam em casa naquelle dia, porque iria ao enterro dos ossos.
—Pois não! bradou D. Benedicta; estamos em casa, venha, póde vir.
Eulalia escreveu o bilhetinho de resposta. D'ahi a tres quartos de hora fazia o conego a sua entrada na sala de D. Benedicta. Era um bom homem o conego, velho amigo daquella casa, na qual, além de trinchar o perú nos dias solemnes, como vimos, exercia o papel de conselheiro, e exercia-o com lealdade e amor. Eulalia, principalmente, merecia-lhe muito; vira-a pequena, galante, travessa, amiga delle, e criou-lhe uma affeição paternal, tão paternal que tomára a peito casal-a bem, e nenhum noivo melhor do que o Leandrinho, pensava o conego, Naquelle dia, a idéa de ir jantar com ellas era antes um pretexto; o conego queria tratar o negocio directamente com a filha do desembargador. Eulalia, ou porque adivinhasse isso mesmo, ou porque a pessoa do conego lhe lembrasse o Leandrinho, ficou logo preoccupada, aborrecida.
Mas, preoccupada ou aborrecida, não quer dizer triste ou desconsolada. Era resoluta, tinha têmpera, podia resistir, e resistiu, declarando ao conego, quando elle naquella noute lhe fallou do Leandrinho, que absolutamente não queria casar.
—Palavra de moça bonita?
—Palavra de moça feia.
—Mas, porque?
—Porque não quero.
—E se mamãe quizer?
—Não quero eu.
—Máu! isso não é bonito, Eulalia.
Eulalia deixou-se estar. O conego ainda tornou ao assumpto, louvou as qualidades do candidato as esperanças da familia, as vantagens do casamento; ella ouvia tudo, sem contestar nada. Mas quando o conego formulava de um modo directo a questão, a resposta invariavel era esta:
—Já disse tudo.
—Não quer?
—Não.
O desconsolo do bom conego era profundo e sincero. Queria casal-a bem, e não achava melhor noivo. Chegou a interrogal-a discretamente, sobre se tinha alguma preferencia em outra parte. Mas Eulalia, não menos discretamente, respondia que não, que não tinha nada; não queria nada; não queria casar. Elle creu que era assim, mas receiou tambem que não fosse assim; faltava-lhe o trato sufficiente das mulheres para lêr atravez de uma negativa. Quando referiu tudo a D. Benedicta, esta ficou assombrada com os termos da recusa; mas tornou logo a si, e declarou ao padre que a filha não tinha vontade, faria o que ella quizesse, e ella queria o casamento.
—Já agora nem espero resposta do pae, concluiu; declaro-lhe que ella ha de casar. Quinta-feira vou jantar com D. Maria dos Anjos, e combinaremos as cousas.
—Devo dizer-lhe, ponderou o conego, que D. Maria dos Anjos não deseja que se faça nada á força.
—Qual força! Não é preciso força.
O conego reflectiu um instante:—Em todo caso, não violentaremos qualquer outra affeição que ella possa ter, disse elle.
D. Benedicta não respondeu nada; mas comsigo, no mais fundo de si mesma, jurou que, houvesse o que houvesse, acontecesse o que acontecesse, a filha seria nora de D. Maria dos Anjos. E ainda comsigo, depois de sair o conego:—Tinha que ver! um tico de gente, com fumaças de governar a casa!
A quinta-feira raiou. Eulalia,—o tico de gente, levantou-se fresca, lepida, loquaz, com todas as janellas da alma abertas ao sopro azul da manhã. A mãe acordou ouvindo um trecho italiano, cheio de melodia; era ella que cantava, alegre, sem affectação, com a indifferença das aves que cantam para si ou para os seus, e não para o poeta, que as ouve e traduz na lingua immortal dos homens. D. Benedicta afagara muito a idéa de a vêr abatida, carrancuda, e gastára uma certa somma de imaginação em compôr os seus modos, delinear os seus actos, ostentar energia e força. E nada! Em vez de uma filha rebelde, uma creatura gárrula e submissa. Era começar mal o dia; era sair apparelhada para destruir uma fortaleza, e dar com uma cidade aberta, pacifica, hospedeira, que lhe pedia o favor de entrar e partir o pão da alegria e da concordia. Era começar o dia muito mal.
A segunda causa do tedio de D. Benedicta foi um ameaço de enxaqueca, ás tres horas da tarde; um ameaço, ou uma suspeita de possibilidade de ameaço. Chegou a transferir a visita, mas a filha ponderou que talvez a visita lhe fizesse bem, e em todo caso, era tarde para deixar de ir. D. Benedicta não teve remedio, aceitou o reparo. Ao espelho, penteando-se, esteve quasi a dizer que definitivamente ficava; chegou a insinual-o á filha.
—Mamãe veja que D. Maria dos Anjos conta com a senhora, disse-lhe Eulalia.
—Pois sim, redarguiu a mão, mas não prometti ir doente.
Emfim, vestiu-se, calçou as luvas, deu as ultimas ordens; e devia doer-lhe muito a cabeça, porque os modos eram arrebitados, uns modos de pessoa constrangida ao que não quer. A filha animava-a muito, lembrava-lhe o vidrinho dos saes, instava que saissem, descrevia a anciedade de D. Maria dos Anjos, consultava de dous em dous minutos o pequenino relogio, que trazia na cintura, etc. Uma amofinação, realmente.
—O que tu estás é me amofinando, disse-lhe a mãe.
E saiu, saiu exasperada, com uma grande vontade de esganar a filha, dizendo comsigo que a peior cousa do mundo era ter filhas. Os filhos ainda vá: criam-se, fazem carreira por si; mas as filhas!
Felizmente, o jantar de D. Maria dos Anjos aquietou-a; e não digo que a enchesse de grande satisfação, porque não foi assim. Os modos de D. Benedicta não eram os do costume; eram frios, seccos, ou quasi seccos; ella, porém, explicou de si mesma a differença, noticiando o ameaço da enxaqueca, noticia mais triste do que alegre, e que, aliás, alegrou a alma de D. Maria dos Anjos, por esta razão fina e profunda: antes a frieza da amiga fosse originada na doença do que na quebra do affecto. Demais, a doença não era grave. E que fosse grave! Não houve naquelle dia mãos presas, olhos nos olhos, manjares comidos entre caricias mutuas; não houve nada do jantar de domingo. Um jantar apenas conversado; não alegre, conversado; foi o mais que alcançou o conego. Amavel conego! As disposições de Eulalia, naquelle dia, cumularam-n'o de esperanças; o riso que brincava nella, a maneira expansiva da conversa, a docilidade com que se prestava a tudo, a tocar, a cantar, e o rosto affavel, meigo, com que ouvia e fallava ao Leandrinlio, tudo isso foi para a alma do conego uma renovação de esperanças. Logo hoje é que D. Benedicta estava doente! Realmente, era caiporismo.
D. Benedicta reanimou-se um pouco, á noite, depois do jantar. Conversou mais, discutiu um projecto de passeio ao Jardim Botanico, chegou mesmo a propor que fosse logo no dia seguinte; mas Eulalia advertiu que era prudente esperar um ou dous dias até que os effeitos da enxaqueca desapparecessem de todo: e o olhar que mereceu á mãe, em trocado conselho, tinha a ponta aguda de um punhal. Mas a filha não tinha medo dos olhos maternos. De noite, ao despentear-se, recapitulando o dia, Eulalia repetiu consigo a palavra que lhe ouvimos, dias antes, á janella:
—Isto acaba.
E, satisfeita de si, antes de dormir, puxou uma certa gaveta, tirou uma caixinha, abriu-a, aventou um cartão de alguns centimetros de altura,—um retrato. Não era retrato de mulher, não só por ter bigodes, como por estar fardado; era, quando muito, um official de marinha. Se bonito ou feio, é materia de opinião. Eulalia achava-o bonito; a prova é que o beijou, não digo uma vez, mas tres. Depois mirou-o, com saudade, tornou a fechal-o e guardal-o.
Que fazias tu, mãe cautellosa e rispida, que não vinhas arrancar ás mãos e á boca da filha um veneno tão subtil e mortal? D. Benedicta, á janella, olhava a noite, entre as estrellas e os lampeões de gaz, com a imaginação vagabunda, inquieta, roida de saudades e desejos. O dia tinha-lhe saido mal, desde manhã. D. Benedicta confessava, naquella doce intimidade da alma consigo mesma, que o jantar de D. Maria dos Anjos não prestára para nada, e que a propria amiga não estava provavelmente nos seus dias de costume. Tinha saudades, não sabia bem de que, e desejos, que ignorava. De quando em quando, bocejava ao modo preguiçoso e arrastado dos que caem de somno; mas se alguma cousa tinha era fastio,—fastio, impaciencia, curiosidade. D. Benedicta cogitou seriamente em ir ter com o marido; e tão depressa a idéa do marido lhe penetrou no cerebro, como se lhe apertou o coração de saudades e remorsos, e o sangue pulou-lhe n'um tal impeto de ir ver o desembargador que, se o paquete do Norte estivesse na esquina da rua e as malas promptas, ella embarcaria logo e logo. Não importa; o paquete devia estar prestes a sair, oito ou dez dias; era o tempo de arranjar as malas. Iria por tres mezes sómente, não era preciso levar muita cousa. Eil-a que se consola da grande cidade fluminense, da similitude dos dias, da escassez das cousas, da persistencia das caras, da mesma fixidez das modas, que era um dos seus arduos problemas:—porque é que as modas hão de durar mais de quinze dias?
—Vou, não ha que ver, vou ao Pará, disse ella a meia voz.
Com effeito, no dia seguinte, logo de manhã, communicou a resolução á filha, que a recebeu sem abalo. Mandou ver as malas que tinha, achou que era preciso mais uma, calculou o tamanho, e determinou compral-a. Eulalia, por uma inspiração subita:
—Mas, mamãe, nós não vamos por tres mezes?
—Tres... ou dous.
—Pois, então, não vale a pena. As duas malas chegam.
—Não chegam.
—Bem; se não chegarem, pode-se comprar na vespera. E mamãe mesmo escolhe; é melhor do que mandar esta gente que não sabe nada.
D. Benedicta achou a reflexão judiciosa, e guardou o dinheiro. A filha sorriu para dentro. Talvez repetisse comsigo a famosa palavra da janella:—Isto acaba. A mãe foi cuidar dos arranjos, escolha de roupa, lista das cousas que precisava comprar, um presente para o marido, etc. Ah! que alegria que elle ia ter! Depois do meio dia sairam para fazer encommendas, visitas, comprar as passagens, quatro passagens; levavam uma escrava comsigo. Eulalia ainda tentou arredal-a da idéa, propondo a transferencia da viajem; mas D. Benedicta declarou peremptoriamente que não. No escriptorio da Companhia de Paquetes disseram-lhe que o do Norte saia na sexta-feira da outra semana. Ella pediu as quatro passagens; abriu a carteirinha, tirou uma nota, depois duas, reflectiu um instante.
—Basta vir na vespera, não?
—Basta, mas pode não achar mais.
—Bem; o senhor guarde os bilhetes: eu mando buscar.
—O seu nome?
—O nome? O melhor é não tomar o nome; nós viremos tres dias antes de sair o vapor. Naturalmente ainda haverá bilhetes.
—Pode ser.
—Hade haver.
Na rua, Eulalia observou que era melhor ter comprado logo os bilhetes; e, sabendo-se que ella não desejava ir para o Norte nem para o Sul, salvo na fragata em que embarcasse o original do retrato da vespera, hade suppor-se que a reflexão da moça era profundamente machiavelica. Não digo que não. D. Benedicta, entretanto, noticiou a viagem aos amigos e conhecidos, nenhum dos quaes a ouviu espantado. Um chegou a perguntar-lhe se, enfim, daquella vez era certo. D. Maria dos Anjos, que sabia da viagem pelo conego, se alguma cousa a assombrou, quando a amiga se despediu della, foram as attitudes geladas, o olhar fixo no chão, o silencio, a indifferença. Uma visita de dez minutos apenas, durante os quaes D. Benedicta disse quatro palavras no principio: Vamos para o Norte. E duas no fim:—Passe bem. E os beijos? Dous tristes beijos de pessoa morta.
A viagem não se fez por um motivo supersticioso. D. Benedicta, no domingo á noute, advertiu que o paquete seguia na sexta-feira, e achou que o dia era máu. Iriam no outro paquete. Não foram no outro; mas desta vez os motivos escapam inteiramente ao alcance do olhar humano, e o melhor alvitre em taes casos é não teimar com o impenetravel. A verdade é que D. Benedicta não foi, mas iria no terceiro paquete, a não ser um incidente que lhe trocou os planos.
Tinha a filha inventado uma festa e uma amizade nova. A nova amizade era uma familia do Andarahy; a festa não se sabe a que proposito foi, mas deve ter sido explendida, porque D. Benedicta ainda fallava della tres dias depois. Tres dias! Realmente, era demais. Quanto á familia, era impossivel ser mais amavel; ao menos, a impressão que deixou na alma de D. Benedicta foi intensissima. Uso este superlativo, porque ella mesma o empregou: é um documento humano.
—Aquella gente? Oh! deixou-me uma impressão intensissima.
E toca a andar para Andarahy, namorada de D. Petronilha, esposa do conselheiro Beltrão, e de uma irmã della, D. Maricota, que ia casar com um official de marinha, irmão de outro oflicial de marinha, cujos bigodes, olhos, cara, porte, cabellos, são os mesmos do retrato qu e o leitor entreviu ha tempos na gavetinha de Eulalia. A irmã casada tinha trinta e dous annos, e uma seriedade, umas maneiras tão bonitas, que deixaram encantada a esposa do desembargador. Quanto á irmã solteira era uma flor, uma flor de cera, outra expressão de D. Benedicta, que não altero com receio de entibiar a verdade.
Um dos pontos mais obscuros desta curiosa historia é a pressa com que as relações se travaram, e os acontecimentos se succederam. Por exemplo, uma das pessoas que estiveram em Andarahy, com D. Benedicta, foi o official de marinha retratado no cartão particular de Eulalia, 1otenente Mascarenhas, que o conselheiro Beltrão proclamou futuro almirante. Vede, porém, a perfídia do official: vinha fardado; e D. Benedicta, que amava os expectaculos novos, achou-o tão distincto, tão bonito, entre os outros moços á paisana, que o preferiu a todos, e lh'o disse. O official agradeceu commovido. Ella offereceu-lhe a casa; elle pediu-lhe licença para fazer uma visita.
—Uma visita? Vá jantar comnosco.
Mascarenhas fez uma cortezia de acquiescencia.
—Olhe, disse D. Benedicta, vá amanhã.
Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedicta fallou-lhe da vida do mar; elle pediu-lhe a filha em casamento. D. Benedicta ficou sem voz, pasmada. Lembrou-se, é verdade, que desconfiára delle, um dia, nas Larangeiras; mas a suspeita acabara. Agora não os vira conversar nem olhar uma só vez. Em casamento! Mas seria mesmo em casamento? Não podia ser outra cousa; a attitude séria, respeitosa, implorativa do rapaz dizia bem que se tratava de um casamento. Que sonho! Convidar um amigo, e abrir a porta a um genro: era o cumulo do inesperado. Mas o sonho era bonito; o official de marinha era um galhardo rapaz, forte, elegante, sympathico, mettia toda a gente no coração, e principalmente parecia adoral-a, a ella, D. Benedicta. Que magnifico sonho! D. Benedicta, voltou do pasmo, e respondeu que sim, que Eulalia era sua. Mascarenhas pegou-lhe na mão e beijou-a filialmente.
—Mas o desembargador? disse elle.
—O desembargador concordará commigo.
Tudo andou assim depressa. Certidões passadas, banhos corridos, marcou-se o dia do casamento; seria vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do desembargador. Que alegria a da boa mãe! que actividade no preparo do enxoval, no plano e nas encommendas da festa, na escolha dos convidados, etc.! Ella ia de um lado para outro, ora a pé, ora de carro, fizesse chuva ou sol. Não se detinha no mesmo objecto muito tempo; a semana do enxoval não era a do preparo da festa, nem a das visitas; alternava as cousas, voltava atraz, com certa confusão, é verdade. Mas ahi estava a filha para supprir as faltas, corrigir os defeitos, cercear as demazias, tudo com a sua habilidade natural. Ao contrario de todos os noivos, este não as importunava; não jantava todos os dias com ellas, segundo lhe pedia a dona da casa; jantava aos domingos, e visitava-as uma vez por semana. Matava as saudades por meio de cartas, que eram continuas, longas e secretas, como no tempo do namoro. D. Benedicta não podia explicar uma tal esquivança, quando ella morria por elle; e então vingava-se da exquisitice, morrendo ainda mais, e dizendo delle por toda a parte as mais bellas cousas do mundo.
—Uma perola! uma perola!
—E um bonito rapaz, accrescentavam.
—Não é? De truz.
A mesma cousa repetia ao marido nas cartas que lhe mandava, antes e depois de receber a resposta da primeira. A resposta veiu; o desembargador deu o seu consentimento, accrescentando que lhe doia muito não poder vir assistir ás bodas, por achar-se um tanto adoentado; mas abençoava de longe os filhos, e pedia o retrato do genro.
Cumpriu-se o accordo á risca. Vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do Pará effectuou-se o casamento, que foi uma festa admiravel, esplendida, no dizer de D. Benedicta, quando a contou a algumas amigas. Officiou o conego Roxo, e claro é que D. Maria dos Anjos não esteve presente, e menos ainda o filho. Ella esperou, note-se, até á ultima hora um billhete de participação, um convite, uma visita, embora se abstivesse de comparecer; mas não recebeu nada. Estava attonita, revolvia a memoria a ver se descobria alguma inadvertencia sua que podesse explicar a frieza das relações; não achando nada, suppoz alguma intriga. E suppoz mal, pois foi um simples esquecimento. D. Benedicta, no dia do consorcio, de manhã, teve ideia de que D. Maria dos Anjos não recebera participação.
—Eulalia, parece que não mandamos participação a D. Maria dos Anjos? disse ella á filha, almoçando.
—Não sei; mamãe é quem se incumbiu dos convites.
—Parece que não, confirmou D. Benedicta. João, dá cá mais assucar.
O copeiro deu-lhe o assucar; ella, mexendo o chá, lembrou-se do carro que iria buscar o conego, e reiterou uma ordem da vespera.
Mas a fortuna é caprichosa. Quinze dias depois do casamento, chegou a noticia do obito do desembargador. Não descrevo a dôr de D. Benedicta; foi dilacerante e sincera. Os noivos, que devaneavam na Tijuca, vieram ter com ella; D. Benedicta chorou todas as lagrymas de uma esposa austera e fidelissima. Depois da missa do setimo dia, consultou a filha e o genro ácerca da ideia de ir ao Pará, erigir um tumulo ao marido, e beijar a terra em que elle repousava. Mascarenhas trocou um olhar com a mulher; depois disse á sogra que era melhor irem juntos, porque elle devia seguir para o Norte dahi a tres mezes em commissão do governo. D. Benedicta recalcitrou um pouco, mas aceitou o prazo, dando desde logo todas as ordens necessarias á construcção do tumulo. O tumulo fez-se; mas a commissão não veiu, e D. Benedicta não pôde ir.
Cinco mezes depois, deu-se um pequeno incidente na familia. D. Benedicta mandara construir uma casa no caminho da Tijuca, e o genro, com o pretexto de uma interrupção na obra, propoz acabal-a. D. Benedicta consentiu, e o acto era tanto mais honroso para ella, quanto que o genro começava a parecer-lhe insupportavel com a sua excessiva disciplina, com as suas teimas, impertinencias, etc. Verdadeiramente, não havia teimas: nesse particular, o genro de D. Benedicta contava tanto com a sinceridade da sogra que nunca teimava; deixava que ella propria se desmentisse dias depois. Mas pode ser que isto mesmo a mortificasse. Felizmente, o governo lembrou-se de o mandar ao Sul; Eulalia, gravida, ficou com a mãe.
Foi por esse tempo que um negociante, viuvo, teve ideia de cortejar D. Benedicta. O primeiro anno da viuvez estava passado. D. Benedicta acolheu a ideia com muita sympathia, embora sem alvoroço. Defendia-se comsigo; allegava a edade e os estudos do filho, que em breve estaria a caminho de S. Paulo, deixando-a só, sosinha no mundo. O casamento seria uma consolação, uma companhia. E comsigo, na rua ou em casa, nas horas disponiveis, aprimorava o plano com todos os floreios da imaginação vivaz e subita; era uma vida nova, pois desde muito, antes mesmo da morte do marido, pode-se dizer que era viuva. O negociante gozava do melhor conceito: a escolha era excellente.
Não casou. O genro tornou do Sul, a filha deu á luz um menino robusto e lindo, que foi a paixão da avó durante os primeiros mezes. Depois, o genro, a filha e o neto foram para o Norte. D. Benedicta achou-se só e triste; o filho não bastava aos seus affectos. A ideia de viajar tornou a rutilar-lhe na mente, mas como um phosphoro, que se apaga logo. Viajar sosinha era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo; achou melhor ficar. Uma companhia lyrica, adventicia, sacudiu-lhe o torpor, e restituiu-a á sociedade. A sociedade incutiu-lhe outra vez a ideia do casamento, e apontou-lhe logo um pretendente, desta vez um advogado, tambem viuvo.
—Casarei? não casarei?
Uma noite, volvendo D. Benedicta este problema, á janella da casa de Botafogo, para onde se mudara desde alguns mezes, viu um singular expectaculo. Primeiramente uma claridade opaca, especie de luz coada por um vidro fosco, vestia o espaço da enseada, fronteiro á janella. Nesse quadro appareceu-Ihe uma figura vaga e transparente, trajada de nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar. A figura veiu até ao peitoril da janella de D. Benedicta; e de um gesto somnolento, com uma voz de criança, disse-lhe estas palavras sem sentido:
—Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e casas... casando...
D. Benedicta ficou atterrada, sem poder mexer-se; mas ainda teve a força de perguntar á figura quem era. A figura achou um principio de riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira ao nascimento de D. Benedicta: Meu nome é Velleidade, concluiu; e, como um suspiro, dispersou-se na noite e no silencio.
FIM DE D. BENEDICTA
Atraz deixei narrado o que se passou n'esta cidade Fucheo, capital do reino de Bungo, com o padre mestre Francisco, e de como el-rey se houve com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao padre as primazias da nossa santa religião. Agora direi de uma doutrina não menos curiosa que saudavel ao espirito, e digna de ser divulgada a todas as republicas da christandade.
Um dia, andando a passeio com Diogo Meirelles, n'esta mesma cidade Fucheo, n'aquelle anno de 1552, succedeu deparar-se-nos um ajuntamento de povo, á esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com grande abundancia de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões sómente, e todos embasbacados. Diogo Meirelles, que melhor conhecia a lingua da terra, pois alli estivera muitos mezes, quando andou com bandeira de veniaga (agora occupava-se no exercicio da medicina, que estudara convenientemente, e em que era eximio) ia-me repetindo pelo nosso idioma o que ouvia ao orador, e que em resumo, era o seguinte:—Que elle não queria outra cousa mais do que affirmar a origem dos grillos, os quaes procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova; que este descobrimento, impossivel a quem não fosse, como elle, mathematico, physico e philosopho, era fructo de dilatados annos de applicação, experiencia e estudo, trabalhos e até perigos de vida; mas emfim, estava feito, e todo redundava em gloria do reino de Bungo, e especialmente da cidade Fucheo, cuja filho era; e, se por ter aventado tão sublime verdade, fosse necessario aceitar a morte, elle a aceitaria alli mesmo, tão certo era que a sciencia valia mais do que a vida e seus deleites.
A multidão, tanto que elle acabou, levantou um tumulto de acclamações, que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alçou nos braços o homem, bradando: Patimau, Patimau, viva Patimau que descobriu a origem dos grillos. E todos se foram com elle ao alpendre de um mercador, onde lhe deram refrescos e lhe fizeram muitas saudações e reverencias, á maneira d'este gentio, que é em extremo obsequioso e cortezão.
Desandando o caminho, vinhamos nós, Diogo Meirelles e eu, fallando do singular achado da origem dos grillos, quando, a pouca distancia d'aquelle alpendre, obra de seis credos, não mais, achámos outra multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficámos espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meirelles, visto que tambem este fallava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da oração. E dizia este outro, com grande admiração e applauso da gente que o cercava, que emfim descobrira o principio da vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruida, e era nada menos que uma certa gota de sangue de vacca; d'ahi provinha a excellencia da vacca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse distincto animal era procurado por muitos homens á hora de morrer; descobrimento que elle podia affirmar com fé e verdade, por ser obra de experiencias repetidas e profunda cogitação, não desejando nem pedindo outro galardão mais que dar gloria ao reino de Bungo e receber d'elle a estimação que os bons filhos merecem. O povo, que escutára esta falla com muita veneração, fez o mesmo alarido e levou o homem ao dito alpendre, com a differença que o trepou a uma charola; alli chegando, foi regalado com obsequios eguaes aos que faziam a Patimau, não havendo nenhuma distincçao entre elles, nem outra competencia nos banqueteadores, que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados.
Ficámos sem saber nada d'aquillo, porque nem nos parecia casual a semelhança exacta dos dous encontros, nem racional ou crivel a origem dos grillos, dada por Patimau, ou o principio da vida futura, descoberto por Langurú, que assim se chamava o outro. Succedeu, porém, costearmos a casa de um certo Titané, alparqueiro, o qual correu a fallar a Diogo Meirelles, de quem era amigo. E, feitos os cumprimentos, em que o alparqueiro chamou as mais galantes cousas a Diogo Meirelles, taes como—ouro da verdade e sol do pensamento,—contou-lhe este o que viramos e ouviramos pouco antes. Ao que Titané acudiu com grande alvoroço:—Póde ser que elles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem que inventada por um bonzo de muito saber, morador em umas casas pegadas ao monte Coral. E porque ficassemos cubiçosos de ter alguma noticia da doutrina, consentiu Titané em ir comnosco no dia seguinte ás casas do bonzo, e accrescentou:—Dizem que elle não a confia a nenhuma pessoa, se não ás que de coração se quizerem filiar a ella; e, sendo assim, podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir; e se fôr boa, chegaremos a pratical-a á nossa vontade.
No dia seguinte, ao modo concertado, fomos ás casas do dito bonzo, por nome Pomada, um ancião de cento e oito annos, muito lido e sabido nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquella gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se finavam de puro ciume. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem eramos e o que queriamos, iniciou-nos primeiro com varias ceremonias e bugiarias necessarias á recepção da doutrina, e só depois d'ella é que alçou a voz para confial-a e explical-a.
Haveis de entender, começou elle, que a virtude e o saber, tem duas existencias parallelas, uma no sugeito que as possue, outra no espirito dos que o ouvem ou contemplam. Se puzerdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitario, remoto de todo contacto com outros homens, é como se elles não existissem. Os fructos de uma larangeira, se ninguem os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguem os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais energicas, não ha expectaculo sem expectador. Um dia, estando a cuidar n'estas cousas, considerei que, para o fim de allumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos annos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existencia de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo effeito, poupando taes trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.
N'este ponto, afiámos os ouvidos e ficámos pendurados da boca do bonzo, o qual, como lhe dissesse Diogo Meirelles que a lingua da terra me não era familiar, ia fallando com grande pausa, porque eu nada perdesse. E continuou dizendo:—Mal podeis adivinhar o que me deu idéa da nova doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra tão luminosa que, posta no cabeço de uma montanha ou no pincaro de uma torre, dá claridade a uma campina inteira, ainda a mais dilatada. Uma tal pedra, com taes quilates de luz, não existiu nunca, e ninguem jámais a viu; mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que a viu com os seus proprios olhos. Considerei o caso, e entendi que, se uma cousa póde existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existencias parallelas a única necessaria é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente. Tão depressa fiz este achado especulativo, como dei graças a Deus do favor especial, e determinei-me a verifical-o por experiencias; o que alcancei, em mais de um caso, que não relato, por vos não tomar o tempo. Para comprehender a efficacia do meu systema, basta advertir que os grillos não podem nascer do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova, e por outro lado, o principio da vida futura não está em uma certa gotta de sangue de vacca; mas Patimáu e Langurú, varões astutos, com tal arte souberam metter estas duas idéas no animo da multidão, que hoje desfructam a nomeada de grande physicos e maiores philosophos, e tem comsigo pessoas capazes de dar a vida por elles.
Não sabiamos em que maneira déssemos ao bonzo as mostras do nosso vivo contentamento e admiração. Elle interrogou-nos ainda algum tempo, compridamente, ácerca da doutrina e dos fundamentos d'ella, e depois de reconhecer que a entendiamos, incitou-nos a pratical-a, a divulgal-a cautelosamente, não porque houvesse nada contrario ás leis divinas ou humanas, mas porque a má comprehensão d'ella podia damnal-a e perdel-a em seus primeiros passos; emfim, despediu-se de nós com a certeza (são palavras suas) de que abalavamos d'alli com a verdadeira alma de pomadistas; denominação esta que, por se derivar do nome d'elle, lhe era em extremo agradavel.
Com effeito, antes de cair a tarde, tinhamos os tres combinado em pôr por obra uma idéa tão judiciosa quão lucrativa, pois não é só lucro o que se póde haver em moeda, senão tambem o que traz consideração e louvor, que é outra e melhor especie de moeda, comquanto não dê para comprar damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois, á guisa de experiencia, metter cada um de nós, no animo da cidade Fucheo, uma certa convicção, mediante a qual houvessemos os mesmos beneficios que desfructavam Patimau e Langurú; mas, tão certo é que o homem não olvida o seu interesse, entendeu Titané que lhe cumpria lucrar de duas maneiras, cobrando da experiencia ambas as moedas, isto é, vendendo tambem as suas alparcas: ao que nos não oppuzemos, por nos parecer que nada tinha isso com o essencial da doutrina.
Consistiu a experiencia de Titané em uma cousa que não sei como diga para que a entendam. Usam n'este reino de Bungo, e em outros d'estas remotas partes, um papel feito de casca de canella moida e gomma, obra mui prima, que elles talham depois em pedaços de dois palmos de comprimento, e meio de largura, nos quaes desenham com vivas e variadas côres, e pela lingua do paiz, as noticias da semana, politicas, religiosas, mercantis e outras, as novas leis do reino, os nomes das fustas, lancharas, balões e toda a casta de barcos que navegam estes mares, ou em guerra, que a ha frequente, ou de veniaga. E digo as noticias da semana, porque as ditas folhas são feitas de oito em oito dias, em grande copia, e distribuidas ao gentio da terra, a troco de uma esportula, que cada um dá de bom grado para ter as noticias primeiro que os demais moradores. Ora, o nosso Titané não quiz melhor esquina que este papel, chamado pela nossa linguaVida e claridade das cousas mundanas e celestes, titulo expressivo, ainda que um tanto derramado. E, pois, fez inserir no dito papel que acabavam de chegar noticias frescas de toda a costa de Malabar e da China, conforme as quaes não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas d'elle Titané; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo, por serem mui solidas e graciosas; que nada menos de vinte e dous mandarins iam requerer ao imperador para que, em vista do explendor das famosas alparcas de Titané, as primeiras do universo, fosse creado o titulo honorifico de «alparca do Estado», para recompensa dos que se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento; que eram grossissimas as encommendas feitas de todas as partes, ás quaes elle Titané ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela gloria que d'alli provinha á nação; não recuando, todavia, do proposito em que estava e ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cincoenta corjas das ditas alparcas, conforme já fizera declarar a el-rey e o repetia agora; emfim, que apezar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida em toda a terra, elle sabia os deveres da moderação, e nunca se julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da gloria do reino de Bungo.