Chapter 5

[1]Este escripto, publicado primeiro naGazeta de Noticias, como outros do livro, é o unico em que ha um sentido restricto:—as nossas alternativas eleitoraes. Creio que terão entendido isso mesmo, atravez da fórma allegorica.

[1]Este escripto, publicado primeiro naGazeta de Noticias, como outros do livro, é o unico em que ha um sentido restricto:—as nossas alternativas eleitoraes. Creio que terão entendido isso mesmo, atravez da fórma allegorica.

FIM DA SERENISSIMA REPUBLICA

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, varias questões de alta transcendencia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espiritos. A casa ficava no morro de Santa Thereza, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se mysteriosamente com o luar que vinha de fóra. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrellas pestanejavam, atravez de uma atmosphera limpida e socegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metaphysicas, resolvendo amigavelmente os mais arduos problemas do universo.

Porque quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que fallavam; mas, além d'elles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja esportula no debate não passava de um o outro resmungo de approvação. Esse homem tinha a mesma edade dos companheiros, entre quarenta e cincoenta annos, era provinciano, capitalista, intelligente, não sem instrucção, e, ao que parece, astuto e caustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão era a fórma polida do instincto batalhador,. que jaz no homem, como uma herança bestial; e acerescentava que os seraphins e os cherubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como désse esta mesma resposta maquella noite, contestou-lh'a um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava elle) reflectiu um instante, e respondeu:

—Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

Vai senão quando, no meio da noite, succedeu que este casmurro usou da palavra, e não dous ou tres minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veiu a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o accordo, mas a mesma discussão, tornou-se difficil, senão impossivel, pela multiplicidade de questões que se deduziram do tronco principal, e um pouco, talvez, pela inconsistencia dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião,—uma conjectura, ao menos.

—Nem conjectura, nem opinião, redarguiu elle; uma ou outra póde dar logar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que resalta a mais clara demonstração acerca da materia de que se trata. Em primeiro logar, não ha uma só alma, ha duas...

—Duas?

—Nada menos de duas almas. Cada creatura humana traz duas almas comsigo: uma que olha de dentro para fóra, outra que olha de fóra para dentro... Espantem-se á vontade; pódem ficar de bocca aberta, dar de hombros, tudo; não admitto replica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior póde ser um espirito, um fluido, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação. Ha casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa;—e assim tambem a polka, o voltarete, um livro, uma machina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o officio dessa segunda alma é transmittir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metaphysicamente fallando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existencia; e casos ha, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existencia inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquelle judeu eram os seus ducados; perdel-os equivalia a morrer, «Nunca mais verei o meu ouro, diz elle a Tubal;é um punhal que me enterras no coração». Vejam bem esta phrase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para elle. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

—Não?

—Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não alludo a certas almas absorventes, como a patria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de Cesar e de Cromwell. São almas energicas e exclusivas; mas ha outras, embora energicas, de natureza mudavel. Ha cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros annos, foi um chocalho ou um cavallinho de páu, e mais tarde uma provedoria de irmandade, supponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora,—na verdade, gentilissima,—que muda de alma exterior cinco, seis vezes por anno. Durante a estação lyrica é a opera; cessando a estação, a alma exterior substitue-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petropolis...

—Perdão; essa senhora quem é?

—Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião... E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado d'essas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episodio de que lhes fallei. Um episodio dos meus vinte e cinco annos...

Os quatro companheiros, anciosos de ouvir o caso promettido, esqueceram a controversia. Santa curiosidade! tu não és só a ama da civilisação, és tambem o pomo da concordia, fructa divina, de outro sabor que não aquelle pomo da mythologia. A sala, até ha pouco ruidosa de physica e metaphysica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memorias. Eis aqui como elle começou a narração:

—Tinha vinte e cinco annos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na villa, note-se bem, houve alguns despeitados; chôro e ranger de dentes, como na Escriptura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que estes perderam. Supponho tambem que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distincção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam commigo, e passaram a olhar-me de revez, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viuva do capitão Peçanha, que morava a muitas leguas da villa, n'um sitio escuso e solitario, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ella e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pagem, que d'ahi á dias tornou á villa, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sitio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mez, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me tambem o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a provincia não havia outro que me puzesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãosinho, como d'antes; e ella abanava a cabeça, bradando que não, que era o «senhor alferes». Um cunhado d'ella, irmão do finado Peçanha, que alli morava, não me chamava de outra maneira. Era o «senhor alferes», não por gracejo, mas a serio, e á vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor logar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o enthusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnifica, que destoava do resto da casa, cuja mobilia era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdára da mãe, que o comprára a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia n'isso de verdade; era a tradicção. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos angulos superiores da moldura, uns enfeites de madreperola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

—Espelho, grande?

—Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do proposito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o «senhor alferes» merecia muito mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, attenções, obsequios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

—Não.

—O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse á outra; ficou-me uma parte minima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era d'antes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortezia e os rapapés da casa, tudo o que me fallava do posto, nada do que me fallava do homem. A unica parte do cidadão que ficou commigo foi aquella que entendia com o exercicio da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?

—Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

—Vai entender. Os factos explicarão melhor os sentimentos; os factos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um philosopho antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos factos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciencia do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dôres humanas, as alegrias humanas se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apathica ou um sorriso de favor. No fim de tres semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma noticia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente d'alli a cinco leguas, estava mal e á morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ella, e a mim que tomasse conta do sitio. Creio que, se não fosse a afflicção, disporia o contrario; deixaria o cunhado, e iria commigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande oppressão, alguma cousa semelhante ao effeito de quatro paredes de um carcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espiritos boçaes. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciencia mais debil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortezias, que de certa maneira compensava a affeição dos parentes e a intimidade domestica interrompida. Notei mesmo, n'aquella noite, que elles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes de minuto a minuto. Nhô alferes é muito bonito; nhô alferes ha de ser coronel; nhô alferes ha de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e prophecias, que me deixou extatico. Ah! perfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

—Matal-o?

—Antes assim fosse.

—Cousa peior?

—Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento proprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguem, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum folego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguem, um molequinho que fosse. Gallos e gallinhas tão sómente, um par de mulas, que philosophavam a vida, sacudindo as moscas, e tres bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era peior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do damno causado á tia Marcolina; fiquei tambem um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ella, para lhe dar a triste noticia, ou ficar tomando conta da casa. Adoptei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia sómente augmentar a dor da mãe, sem remedio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse n'aquelle dia ou no outro, visto que tinham sahido havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestigio d'elle; e á tarde comecei a sentir uma sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a acção nervosa, e não tivesse consciencia da acção muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquella semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de seculo a seculo, no velho relogio da sala, cuja pendula,tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote continuo do eternidade. Quando, muitos annos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho:Never, for ever!—For ever, never!confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me d'aquelles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relogio da tia Marcolina:—Never, for ever!—For ever, never!Não eram golpes de pendula, era um dialogo do abysmo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silencio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga.Tic-tac, tic-tac.Ninguem nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguem em parte nenhuma... Riem-se?

—Sim, parece que tinha um pouco de medo.

—Oh! fôra bom se eu podesse ter medo! Viveria. Mas o caracteristico d'aquella situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicavel. Era como um defuncto andando, um somnambulo, um boneco mecanico. Dormindo, era outra cousa. O somno dava-me allivio, não pela razão commum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse phenomeno:—o somno, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava actuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da familia e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e promettia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando accordava, dia claro, esvaia-se com o somno, a consciencia do meu ser novo e unico,—porque a alma interior perdia a acção exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu sahia fóra, a um lado e outro, a ver se descobria algum signal de regresso.Sœur Anne, sœur Anne, ne vois-tu rien venir?Nada, cousa nenhuma; tal qual como na lenda franceza. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala.Tic-tac, tic-tac.Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janellas, assobiava. Em certa occasião lembrei-me de escrever alguma cousa, um artigo politico, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e phrases soltas, para intercalar no estylo. Mas o estylo, como a tia Marcolina, deixava-se estar.Sœur Anne, sœur Anne...Cousa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

—Mas não comia?

—Comia mal, fructas, farinha, conservas, algumas raizes tostadas ao fogo, mas supportaria tudo alegremente, se não fora a terrivel situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, lyras de Gonzaga, oitavas de Camões, decimas, uma anthologia em trinta volumes. Ás vezes fazia gymnastica; outras dava beliscões nas pernas; mas o effeito era só uma sensação physica de dôr ou de cançaço, e mais nada. Tudo silencio, um silencio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eternotic-tacda pendula.Tic-tac, tic-tac...

—Na verdade, era de enlouquecer.

—Vão ouvir cousa peior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhára uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, n'aquella casa solitaria; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradicção humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O proprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nitida e inteira, mas vaga, esfumada, diffusa, sombra de sombra. A realidade das leis physicas não permitte negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; attribui o phenomeno á excitação nervosa em que andava; receiei ficar mais tempo, e enlouquecer.—Vou-me embora, disse commigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando commigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrepito, affligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma diffusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicavel, por um impulso sem calculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéa...

—Diga.

—Estava a olhar para o vidro, com uma persistencia de desesperado, contemplando as proprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.

—Mas, diga, diga.

—Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, apromptei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, emfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sitio, dispersa e fugida com os escravos, eil-a recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco emerge de um lethargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objectos, mas não conhece individualmente uns nem outros; emfim, sabe que este é Fulano, aquelle é Sicrano; aqui está uma cadeira, alli um sofá. Tudo volta ao que era antes do somno. Assim foi commigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um automato, era um ente animado. D'ahi em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, tres horas, despia-me outra vez. Com este regimen pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...

Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

FIM DO ESPELHO

Corte, 20 de setembro de 1875.

Desculpe V. Ex. o tremido da lettra e o desgrenhado do estylo; entendel-os-ha d'aqui a pouco.

Hoje, á tardinha, acabado o jantar, em quanto esperava a hora do Cassino, estirei-me no sofá e abri um tomo de Plutarcho. V. Ex., que foi meu companheiro de estudos, ha de lembrar-se que eu, desde rapaz, padeci esta devoção do grego; devoção ou mania, que era o nome que V. Ex. lhe dava, e tão intensa que me ia fazendo reprovar em outras disciplinas. Abri o tomo, e succedeu o que sempre se dá commigo quando leio alguma cousa antiga: transporto-me ao tempo e ao meio da acção ou da obra. Depois de jantar é excellente. Dentro de pouco acha-se a gente n'uma via romana, ao pé de um portico grego ou na loja de um grammatico. Desapparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, o circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga, e de graça. Uma verdadeira digestão litteraria.

Foi o que se deu hoje. A pagina aberta acertou de ser a vida de Alcibiades. Deixei-me ir ao sabor da loquella attica; d'ahi a nada entrava nos jogos olympicos, admirava o mais guapo dos athenienses, guiando magnificamente o carro, com a mesma firmeza e donaire com que sabia reger as batalhas, os cidadãos e os proprios sentidos. Imagine V. Ex. se vivi! Mas, o moleque entrou e accendeu o gaz; não foi preciso mais para fazer voar toda a archeologia da minha imaginação. Athenas volveu á historia, em quanto os olhos me cabiam das nuvens, isto é, nas calças de brim branco, no paletó de alpaca e nos sapatos de cordovão. E então reflecti commigo:

—Que impressão daria ao illustre atheniense o nosso vestuario moderno?

Sou espiritista desde alguns mezes. Convencido de que todos os systemas são puras nihilidades, resolvi adoptar o mais recreativo d'elles. Tempo virá em que este não seja só recreativo, mas tambem util á solução dos problemas historicos; é mais summario evocar o espirito dos mortos, do que gastar as forças criticas, e gastal-as em pura perda, porque não ha raciocinio nem documento que nos explique melhor a intenção de um acto do que o proprio autor do acto. E tal era o meu caso d'esta noite. Conjecturar qual fosse a impressão de Alcibiades era despender o tempo, sem outra vantagem, além do gosto de admirar a minha propria habilidade. Determinei portanto, evocar o atheniense; pedi-lhe que comparecesse em minha casa, logo, sem demora.

E aqui começa o extraordinario da aventura. Não se demorou Alcibiades em acudir ao chamado; dous minutos depois estava alli, na minha sala, perto da parede; mas não era a sombra impalpavel que eu cuidára ter evocado pelos methodos da nossa escola; era o proprio Alcibiades, carne e osso, vero homem, grego authentico, trajado á antiga, cheio d'quella gentileza e desgarre com que usava arengar ás grandes assembléas de Athenas, e tambem, um pouco, aos seus patáus. V. Ex., tão sabedor da historia, não ignora que tambem houve patáus em Athenas; sim, Athenas tambem os possuiu, e esse precedente é uma desculpa. Juro a V. Ex. que não acreditei; por mais fiel que fosse o testemunho dos sentidos, não podia acabar de crer que tivesse alli, em minha casa, não a sombra de Alcibiades, mas o proprio Alcibiades redivivo. Nutri ainda a esperança de que tudo aquillo não fosse mais do que o effeito de uma digestão mal rematada, um simples effluvio do chylo, através da luneta de Plutarcho; e então esfreguei os olhos, fitei-os, e...

—Que me queres? perguntou elle.

Ao ouvir isto, arrepiaram-se-me as carnes. O vulto fallava e fallava grego, o mais puro attico. Era elle, não havia duvidar que era elle mesmo, um morto de vinte seculos, restituido á vida, tão cabalmente como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão. Era claro que, sem o pensar, acabava eu de dar um grande passo na carreira do espiritismo; mas, ai de mim! não o entendi logo, e deixei-me ficar assombrado. Elle repetiu a pergunta, olhou em volta de si e sentou-se n'uma poltrona. Como eu estivesse frio e tremulo (ainda o estou agora) elle que o percebeu, fallou-me com muito carinho, e tratou de rir e gracejar para o fim de devolver-me o socego e a confiança. Habil como outr'ora! Que mais direi a V. Ex.? No fim de poucos minutos conversavamos os dous, em grego antigo, elle repotreado e natural, eu pedindo a todos as santos do céu a presença de um criado, de uma visita, de uma patrulha, ou, se tanto fosse necessario,—de um incendio.

Escusado é dizer a V. Ex. que abri mão da idéa de o consultar ácerca do vestuario moderno; pedira um espectro, não um homem «de verdade», como dizem as crianças. Limitei-me a responder ao que elle queria; pediu-me noticias de Athenas, dei-lh'as; disse-lhe que ella era emfim a cabeça de uma só Grecia, narrei-lhe a dominação musulmana, a independencia, Botzaris, lord Byron. O grande homem tinha os olhos pendurados da minha bocca; e, mostrando-me admirado de que os mortos lhe não houvessem contado nada, explicou-me que á porta, do outro mundo afrouxavam muito os interesses d'este. Não vira Botzaris nem lord Byron,—em primeiro logar, porque é tanta e tantissima a multidão de espiritos, que estes se fazem naturalmente desencontrados; em segundo logar, porque elles lá congregam-se, não por nacionalidades ou outra ordem, senão por categorias de indole, costume e profissão: assim é que elle Alcibiades, anda no grupo dos politicos elegantes e namorados, com o duque de Buckingham, o Garrett, o nosso Maciel Monteiro, etc. Em seguida pediu-me noticias actuaes; relatei-lhe o que sabia, em resumo; fallei-lhe do parlamento hellenico e do methodo alternativo com que Bulgaris e Comondouros, estadistas seus patricios, imitam Disraeli e Gladstone, revesando-se no poder, e, assim como estes, a golpes de discurso. Elle, que foi um magnifico orador, interrompeu-me:

—Bravo, athenienses!

Se entro n'estas minucias é para o fim de nada omittir do que possa dar a V. Ex. o conhecimento exacto do extraordinario caso que lhe vou narrando. Já disse que Alcibiades escutava-me com avidez; accrescentarei que era esperto e arguto; entendia as cousas sem largo dispendio de palavras. Era tambem sarcastico; ao menos assim me pareceu em um ou dois pontos da nossa conversação; mas no geral d'ella, mostrava-se simples, attento, correcto, sensivel e digno. E gamenho, note V. Ex., tão gamenho como outr'ora; olhava de soslaio para o espelho, como fazem as nossas e outras damas d'este seculo, mirava os borzeguins, compunha o manto, não saia de certas attitudes esculpturaes.

—Vá, continúa, dizia-me elle, quando eu parava de lhe dar noticias.

Mas eu não podia mais. Entrado no inextricavel, no maravilhoso, achava tudo possivel, não atinava porque razão, assim, como elle vinha ter commigo ao tempo, não iria eu ter com elle á eternidade. Esta idéa gelou-me. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda a hora do Cassino, a morte é o ultimo dos sarcasmos. Se pudesse fugir... Animei-me: disse-lhe que ia a um baile.

—Um baile? Que cousa é um baile?

Expliquei-lh'o.

—Ah! ver dansar a pyrrhica!

—Não, emendei eu, a pyrrhica já lá vai. Cada seculo, meu caro Alcibiades, muda de dansas como muda de ideias. Nos já não dansamos as mesmas cousas do seculo passado; provavelmente o seculo XX não dansará as d'este. A pyrrhica. foi-se, com os homens de Plutarcho e os numes de Hesiodo.

—Com os numes?

Repeti-lhe que sim, que o paganismo acabára, que as academias do seculo passado ainda lhe deram abrigo, mas sem-convicção, nem alma, que as mesmas bebedeiras arcadicas,

Evohé! padre Bassareu!Evohé! etc.

honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos, essas mesmas estavam curadas, radicalmente curadas. De longe em longe, accrescentei, um ou outro poeta, um o outro prosador allude aos restos da theogonia pagã, mas só o faz por gala ou brinco, ao passo que a sciencia reduziu todo o Olympo a uma symbolica. Morto, tudo morto.

—Morto Zeus?

—Morto.

—Dyonisos, Aphrodita?...

—Tudo morto.

O homem de Plutarcho levantou-se, andou um pouco, contendo a indignação, como se dissesse comsigo, imitando o outro:—Ah! se lá estou com os meus athenienses!—Zeus, Dyonisos, Aphrodita... murmurava de quando em quando. Lembrou-me então que elle fôra uma vez accusado de desacato aos deuses e perguntei a mim mesmo d'onde vinha aquella indignação posthuma, e naturalmente postiça. Esquecia-me,—um devoto do grego!—esquecia-me que elle era tambem um refinado hypocrita, um illustre dissimulado. E quasi não tive tempo de fazer esse reparo, porque Alcibiades, detendo-se repentinamente declarou-me que iria ao baile commigo.

—Ao baile? repeti attonito.

—Ao baile, vamos ao baile.

Fiquei atterrado, disse-lhe que não, que não era possivel, que não o admittiriam, com aquelle trajo; pareceria doudo; salvo se elle queria ir lá representar alguma comedia de Aristophanes, accrescentei rindo, para disfarçar o medo. O que eu queria era deixal-o, entregar-lhe a casa, e uma vez na rua, não iria ao Cassino, iria ter com V. Ex. Mas o diabo do homem não se movia; escutava-me com os olhos no chão, pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei a cuidar que o pesadelo ia acabar, que o vulto ia desfazer-se, e que eu ficava alli com as minhas calças, os meus sapatos e o meu seculo.

—Quero ir ao baile, repetiu elle. Já agora não vou sem comparar as dansas.

—Meu caro Alcibiades, não acho prudente um tal desejo. Eu teria certamente a maior honra, um grande desvanecimento em fazer entrar no Cassino, o mais gentil, o mais feiticeiro dos athenienses; mas os outros homens de hoje, os rapazes, as moças, os velhos... é impossivel.

—Porque?

—Já disse; imaginarão que és um doudo ou um comediante, porque essa roupa...

—Que tem? A roupa muda-se. Irei á maneira do seculo. Não tens alguma roupa que me emprestes?

Ia a dizer que não; mas occorreu-me logo que o mais urgente era sair, e que uma vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e então disse-lhe que sim.

—Pois bem, tornou elle levantando-se, irei á maneira do seculo. Só peço que te vistas primeiro, para eu aprender e imitar-te depois.

Levantei-me tambem, e pedi-lhe que me acompanhasse. Não se moveu logo; estava assombrado. Vi que só então reparara nas minhas calças brancas; olhava para ellas com os olhos arregalados, a bocca aberta; emfim, perguntou por que motivo trazia aquelles canudos de panno. Respondi que por maior commodidade; accrescentei que o nosso seculo, mais recatado e util do que artista, determinára trajar de um modo compativel com o seu decóro e gravidade. Demais nem todos seriam Alcibiades. Creio que o lisongeei com isto; elle sorriu e deu de hombros.

—Emfim!

Seguimos para o meu quarto de vestir, e comecei a mudar de roupa, ás pressas. Alcibiades sentou-se mollemente n'um divan, não sem elogial-o, não sem elogiar o espelho, a palhinha, os quadros.—Eu vestia-me, como digo, ás pressas, ancioso por sahir á rua, por metter-me no primeiro tilbury que passasse...

—Canudos pretos! exclamou elle.

Eram as calças pretas que eu acabava de vestir. Exclamou e riu, um risinho em que o espanto vinha mesclado de escarneo, o que offendeu grandemente o meu melindre de homem moderno. Porque, note V. Ex., ainda que o nosso tempo nos pareça digno de critica, e até de execração, não gostamos de que um antigo venha mofar d'elle ás nossas barbas. Não respondi ao atheniense; franzi um pouco o sobr'olho e continuei a abotoar os suspensorios. Elle perguntou-me então por que motivo usava uma cor tão feia...

—Feia, mas séria, disse-lhe. Olha, entretanto, a graça do córte, vê como cai sobre o sapato, que é de verniz, embora preto, e trabalhado com muita perfeição.

E vendo que elle abanava a cabeça:

—Meu caro, disse-lhe, tu pódes certamente exigir que o Jupiter Olympico seja o emblema eterno da majestade: é o dominio da arte ideal, desinteressada, superior aos tempos que passam e aos homens que os acompanham. Mas a arte de vestir é outra cousa. Isto que parece absurdo ou desgracioso é perfeitamente racional e bello,—bello á nossa maneira, que não andamos a ouvir na rua os rhapsodas recitando os seus versos, nem os oradores os seus discursos, nem os philosophos as suas philophias. Tu mesmo, se te acostumares a ver-nos, acabarás por gostar de nós, porque...

—Desgraçado! bradou elle atirando-se a mim.

Antes de entender a causa do grito e do gesto, fiquei sem pinga de sangue. A causa era uma illusão. Como eu passasse a gravata á volta do pescoço e tratasse de dar o laço. Alcibiades suppoz que ia enforcar-me, segundo confessou depois. E, na verdade, estava pallido, tremulo, em suores frios. Agora quem se riu fui eu. Ri-me, e expliquei-lhe o uso da gravata, e notei que era branca, não preta, posto usassemos tambem gravatas pretas. Só depois de tudo isso explicado é que elle consentiu em restituir-m'a. Atei-a emfim, depois vesti o collete.

—Por Aphrodita! exclamou elle. És a cousa mais singular que jamais vi na vida e na morte. Estás todo cor da noite—uma noite com tres estrellas apenas—continuou apontando para os botões do peito. O mundo deve andar immesamente melancholico, se escolheu para uso uma cor tão morta e tão triste. Nós eramos mais alegres; viviamos...

Não pode concluir a phrase; eu acabava de enfiar a casaca, e a consternação do atheniense foi indescriptivel. Cahiram-lhe os braços, ficou suffocado, não podia articular nada, tinha os olhos cravados em mim, grandes, abertos. Creia V. Ex. que fiquei com medo, e tratei de apressar ainda mais a sabida.

—Estás completo? perguntou-me elle.

—Não: falta o chapéu.

—Oh! venha alguma cousa que possa corrigir o resto! tornou Alcibiades com voz supplicante. Venha, venha. Assim pois, toda a elegancia que vos legamos está reduzida a um par de canudos fechados e outra par de canudos abertos (e dizia isto levantando-me as abas da casaca), e tudo d'essa cor enfadonha e negativa? Não não posso crel-o! Venha alguma cousa que corrija isso. O que é que falta, dizes tu?

—O chapéo.

—Põe o que te falta, meu caro, põe o que te falta.

Obedeci; fui d'alli ao cabide, despendurei o chapéu, e pul-o na cabeça. Alcibiades olhou para mim, cambaleou e caiu. Corri ao illustre atheniense, para levantal-o, mas (com dor o digo) era tarde; estava morto, morto pela segunda vez. Rogo a V. Ex. se digne de expedir suas respeitaveis ordens para que o cadaver seja transportado ao necroterio, e se proceda ao corpo de delicto, relevando-me de não ir pessoalmente á casa de V. Ex. agora mesmo (dez da noite) em attenção ao profundo abalo por que acabo de passar, o que aliás farei amanhã de manhã, antes das oito.

[1]Este escripto teve um primeiro texto, que reformei totalmente mais tarde, não aproveitando mais do que a ideia. O primeiro foi dado com um pseudonymo e passou despercebido.

[1]Este escripto teve um primeiro texto, que reformei totalmente mais tarde, não aproveitando mais do que a ideia. O primeiro foi dado com um pseudonymo e passou despercebido.

FIM DE UMA VISITA DE ALCIBIADES

«... Item, é minha ultima vontade que o caixão em que o meu corpo houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, á rua da Alfandega. Desejo que elle tenha conhecimento d'esta disposição, que tambem será publica. Joaquim Soares não me conhece; mas é digno da distincção, por ser dos nossos melhores artistas, e um dos homens mais honrados da nossa terra...»

Cumpriu-se á risca esta verba testamentaria. Joaquim Soares fez o caixão em que foi mettido o corpo do pobre Nicoláu B. de C.; fabricou-o elle mesmo,con amore; e, no fim, por um movimento cordial, pediu licença para não receber nenhuma renumeração. Estava pago; o favor do defunto era em si mesmo um premio insigne. Só desejava uma cousa: a copia authentica da verba. Deram lh'a; elle mandou-a encaixilhar e pendurar de um prego, na loja. Os outros fabricantes de caixões, passado o assombro, chamaram que o testamento era um desproposito. Felizmente,—e esta é uma das vantatagens do estado social,—felizmente, todas as demais classes adiaram que aquella mão, saindo do abysmo para abençoar a obra de um operario modesto, praticára uma acção rara e magnanima. Era em 1855; a população estava mais conchegada; não se fallou de outra cousa. O nome do Nicoláu reboou por muitos dias na imprensada corte, d'onde passou á das provincias. Mas a vida universal é tão variada, os successos accumulam-se em tanta multidão, e com tal presteza, e, finalmente, a memoria dos homens é tão fragil, que um dia chegou em que a acção de Nicoláu mergulhou de todo no olvido.

Não venha restaural-a. Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escripto. Obra de lapis e esponja. Não, não venho restaural-a. Ha milhares de acções tão bonitas, ou ainda mais bonitas do quo a do Nicoláu, e comidas do esquecimento. Venho dizer que a verba testamentaria não é um effeito sem causa; venho mostrar uma das maiores curiosidades morbidas d'este seculo.

Sim, leitor amado, vamos entrar em plena pathologia. Esse menino que ahi vês, nos fins do seculo passado (em 1855, quando morreu, tinha o Nicoláu sessenta e oito annos), esse menino não é um producto são, não é um organismo perfeito.—Ao contrario, desde os mais tenros annos, manifestou por actos reiterados que ha n'elle algum vicio interior, alguma falha organica. Não se póde explicar de outro modo a obstinação com que elle corre a destruir os brinquedos dos outros meninos, não digo os que são eguaes aos d'elle, ou ainda inferiores, mas os que são melhores ou mais ricos. Menos ainda se comprehende que, nos casos em que o brinquedo é unico, ou somente raro, o joven Nicoláu console a victima com dons ou tres pontapés; nunca menos de um. Tudo isso é obscuro. Culpa do pae não póde ser. O pae era um honrado negociante ou commissario (a maior parte das pessoas a que aqui se dá o nome do commerciantes, dizia o marquez de Lavradio, nada são que uns simples commissarios), que viveu com certo luzimento, no ultimo quartel do seculo, homem rispido, austero, que admoestava o filho, e, sendo necessario, castigava-o. Mas nem admoestações, nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicoláu era mais efficaz do que todos os bastões paternos; e, uma ou duas vezes por semana, o pequeno reincidia no mesmo delicto. Os desgostos da familia eram profundos. Deu-se mesmo um caso, que, por suas gravissimas consequencias, merece ser contado.

O vice-rei, que era então o conde de Rezende, andava preoccupado com a necessidade de construir um caes na praia de D. Manuel. Isto, que seria hoje um simples episodio municipal, era n'aquelle tempo, attentas as proporções escassas da cidade, uma empreza importante. Mas o vice-rei não tinha recursos; o cofre publico mal podia acudir ás urgencias ordinarias. Homem de estado, e provavelmente philosopho, engendrou um expediente não menos suave que proficuo: distribuir, a troco de donativos pecuniarios, postos de capitão, tenente e alferes. Divulgada a resolução, entendeu o pae do Nicoláu que era occasião de figurar, sem perigo, na galeria militar do seculo, ao mesmo tempo que desmentia uma doutrina brahmanica. Com effeito, está nas leis de Manú, que dos braços de Brahma nasceram os guerreiros, e do ventre os agricultores e commerciantes; o pae do Nicoláu, adquirindo o despacho de capitão, corrigia esse ponto da anatomia gentilica. Outro commerciante, que com elle competia em tudo, embora familiares e amigos, apenas teve noticia do despacho, foi tambem levar a sua pedra ao caes. Desgraçadamenteu o despeito de ter ficado atraz alguns dias, suggeriu-llie um arbitrio de máu gosto e, no nosso caso, funesto; foi assim que elle pediu ao vice-rei outro posto de official do caes (tal era o nome dado aos agraciados por aquelle motivo) para um filho de sete annos. O vice-rei hesitou; mas o pretendente, além de duplicar o donativo, metteu grandes empenhos, e o menino saiu nomeado alferes. Tudo correu em segredo; o pae de Nicoláu só teve noticia do caso no domingo proximo, na egreja do Carmo, ao ver os dous, pae e filho, vindo o menino com uma fardinha, que, por galanteria, lhe metteram no corpo. Nicoláu, que tambem alli estava, fez-se livido; depois, n'um impeto, atirou-se sobre o joven alferes e rasgou-lhe a farda, antes que os paes pudessem acudir. Um escandalo. O reboliço do povo, a indignação dos devotos, as queixas do aggredido, interromperam por alguns instantes as ceremonias ecclesiasticas. Os paes trocaram algumas palavras acerbas, fóra, no adro, e ficaram brigados para todo o sempre.

—Este rapaz ha de ser a nossa desgraça! bradava o pae de Nicoláu, em casa, depois do episodio.

Nicoláu apanhou então muita pancada, curtiu muita dor, chorou, soluçou; mas de emenda cousa nenhuma. Os brinquedos dos outros meninos não ficaram menos expostos. O mesmo passou a acontecer ás roupas. Os meninos mais ricos do bairro não sabiam fora senão com as mais modestas vestimentas caseiras, unico modo de escapar ás unhas de Nicoláu. Com o andar do tempo, estendeu elle a aversão ás proprias caras, quando eram bonitas, ou tidas como taes. A rua em que elle residia, contava um sem numero de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As cousas chegaram a tal ponto, que o pae resolveu trancal-o em casa durante uns tres ou quatro mezes. Foi um palliativo, e, como tal, excellente. Emquanto durou a reclusão, Nicoláu mostrou-se nada menos que angelico; fóra d'aquelle séstro morbido, era meigo, docil, obediente, amigo da familia, pontual nas rezas. No fim dos quatro mezes, o pae soltou-o; era tempo de o metter com um professor de leitura e grammatica.

—Deixe-o commigo, disse o professor; deixe-o commigo, e com esta (apontava para a palmatoria)... Com esta, é duvidoso que elle tenha vontade de maltratar os companheiros.

Frivolo! tres vezes frivolo professor! Sim, não ha duvida, que elle conseguiu poupar os meninos bonitos e as roupas vistosas, castigando as primeiras investidas do pobre Nicoláu; mas em que é que este sarou da molestia? Ao contrario, obrigado a conter-se, a engolir o impulso, padecia dobrado, fazia-se mais livido, com reflexos de verde bronze; em certos casos, era compellido a voltar os olhos ou fechal-os, para não arrebentar, dizia elle. Por outro lado, se deixou de perseguir os mais graciosos ou melhor adornados, não perdoou aos que se mostravam mais adiantados no estudo; espancava-os, tirava-lhes os livros, e lançava-os fóra, nas praias ou no mangue. Rixas, sangue, odios, taes eram os fructos da vida, para elle, além das dores crueis que padecia, e que a familia teimava em não entender. Se accrescentarmos que elle não pôde estudar nada seguidamente, mas a troncos, e mal, como os vagabundos comem, nada fixo, nada methodico, teremos visto algumas das dolorosas consequencias do facto morbido, occulto e desconhecido. O pae, que sonhava para o filho a Universidade, vendo-se obrigado a estrangular mais essa illusão, esteve prestes a amaldiçoal-o; foi a mãe que o salvou.

Saiu um seculo, entrou outro, sem desapparecer a lesão do Nicoláu. Morreu-lhe o pae em 1807 e a mãe em 1809; a irmã casou com um medico hollandez, treze mezes depois. Nicoláu passou a viver só. Tinha vinte e tres annos; era um dos petimetres da cidade, mas um singular petimetre, que não podia encarar nenhum outro, ou fosse mais gentil de feições, ou portador de algum collete especial, sem padecer uma dor violenta, tão violenta, que o obrigava ás vezes a trincar o beiço até deitar sangue. Tinha occasiões de cambalear; outras de escorrer-lhe pelo canto da boca um fio quasi imperceptivel de espuma. E o resto não era menos cruel. Nicoláu ficava então rispido; em casa achava tudo máu, tudo incommodo, tudo nauseabundo; feria a cabeça aos escravos com os pratos, que iam partir-se tambem, e perseguia os cães, a pontapés; não socegava dez minutos, não comia, ou comia mal. Emfim dormia; e ainda bem que dormia. O somno reparava tudo. Acordava lhano e meigo, alma de patriarcha, beijando os cães entre as orelhas, deixando-se lamber por elles, dando-lhes do melhor que tinha, chamando aos escravos as cousas mais familiares e ternas. E tudo, cães e escravos, esqueciam as pancadas da vespera, e acudiam ás vozes d'elle obedientes, namorados, como se este fosse o verdadeiro senhor, e não o outro.

Um dia, estando elle em casa da irmã, perguntou-lhe esta por que motivo não adoptava uma carreira qualquer, alguma cousa em que se oecupasse, e...

—Tens razão, vou ver, disse elle.

Interveiu o cunhado e opinou por um emprego na diplomacia. O cunhado principiava a desconfiar de alguma doença e suppunha que a mudança de clima bastava a restabelecel-o. Nicoláu arranjou uma carta de apresentação, e foi ter com o ministro de estrangeiros. Achou-o rodeado de alguns officiaes da secretaria, prestes a ir ao paço, levar a noticia da segunda quéda de Napoleão, noticia que chegára alguns minutos antes. A figura do ministro, as circumstancias do momento, as reverencias dos officiaes, tudo isso deu um tal rebate ao coração do Nicoláu, que elle não pôde encarar o ministro. Teimou, seis ou oito vezes, em levantar os olhos, e da unica em que o conseguiu, fizeram-se-lhe tão vesgos, que não via ninguem, ou só uma sombra, um vulto, que lhe doia nas pupilas, ao mesmo tempo que a face ia ficando verde. Nicoláu recuou, estendeu a mão tremula ao reposteiro, e fugiu.

—Não quero ser nada! disse elle á irmã, chegando á casa; fico com vocês e os meus amigos.

Os amigos eram os rapazes mais antipathicos da cidade, vulgares e infimos. Nicoláu escolhera-os de proposito. Viver segregado dos principaes era para elle um grande sacrificio; mas, como teria de padecer muito mais vivendo com elles, tragava a situação. Isto prova que elle tinha um certo conhecimento empirico do mal e do palliativo. A verdade é que, com esses companheiros, desappareciam todas as perturbações physiologicas do Nicoláu. Elle fitava-os sem lividez, sem olhos vesgos, sem cambalear, sem nada. Além d'isso, não só elles lhe poupavam a natural irritabilidade, como porfiavam em tornar-lhe a vida, senão deliciosa, tranquilla; e para isso, diziam-lhe as maiores finezas do mundo, em attitudes captivas, ou com uma certa familiaridade inferior. Nicoláu amava em geral as naturezas subalternas, como os doentes amam a droga que lhes restituo a saúde; acariciva-as paternal mente, dava-lhes o louvor abundante e cordial, emprestava-lhes dinheiro, distribuia-lhes mimos, abria-lhes a alma...

Veiu o grito do Ypiranga; Nicoláu metteu-se na politica. Em 1823 vamos achal-o na Constituinte. Não ha que dizer ao modo por que elle cumpriu os deveres do cargo. Integro, desinteressado, patriota, não exercia de graça essas virtudes publicas, mas á custa de muita tempestade moral. Póde-se dizer, methaphoricamente, que a frequencia da camara custava-lhe sangue precioso. Não era só porque os debates lhe pareciam insupportaveis, mas tambem porque lhe era difficil encarar certos homens, especialmente em certos dias. Montezuma, por exemplo, parecia-lhe balofo, Vergueiro, massudo, os Andradas, execraveis. Cada discurso, não só dos principaes oradores, mas dos secundarios, era para o Nicoláu verdadeiro supplicio. E, não obstante, firme, pontual. Nunca a votação o achou ausente; nunca o nome delle soou sem echo pela augusta sala. Qualquer que fosse o seu desespero, sabia conter-se e pôr a idéa da patria acima do allivio proprio. Talvez applaudissein pettoo decreto da dissolução. Não affirmo; mas ha bons fundamentos para crer que o Nicoláu, apezar das mostras exteriores, gostou de ver dissolvida a assembléa. E se essa conjectura é verdadeira, não menos o será esta outra;—que a deportação de alguns dos chefes constituintes, declarados inimigos publicos, veiu aguar-lhe aquelle prazer. Nicoláu, que padecera com os discursos delles, não menos padeceu com o exilio, posto lhes désse um certo relevo. Se elle também fosse exilado!

—Você podia casar, mano, disse-lhe a irmã.

—Não tenho noiva.

—Arranjo-lhe uma. Valeu?

Era um plano do marido. Na opinião d'este, a molestia do Nicoláu estava descoberta; era um verme do baço, que se nutria da dor do paciente, isto é, de uma secreção especial, produzida pela vista de alguns factos, situações ou pessoas. A questão era matar o verme; mas, não conhecendo nenhuma substancia chimica propria a destruil-o, restava o recurso de obstar á secreção, cuja ausencia daria egual resultado. Portanto, urgia casar o Nicoláu, com alguma moça bonita e prendada, separal-o do povoado, mettel-o em alguma fazenda, para onde levaria a melhor baixella, os melhores trastes, os mais reles amigos, etc.

—Todas as manhãs, continuou elle, receberá o Nicoláu um jornal que vou mandar imprimir com o unico fim de lhe dizer as cousas mais agradaveis do mundo, e dizel-as nominalmente, recordando os seus modestos, mas proficuos trabalhos da Constituinte, e attribuindo-lhe, muitas aventuras namoradas, agudezas de espirito, rasgos de coragem. Já fallei ao almirante hollandez para consentir que, de quando em quando, vá ter com o Nicoláu algum dos nossos officiaes dizer-lhe que não podia voltar para a Haya sem a honra de contemplar um cidadão tão eminente e sympathico, em quem se reunem qualidades raras, e, de ordinario, dispersas. Você, se puder alcançar de alguma modista, a Gudin, por exemplo, que ponha o nome de Nicoláu em um chapeu ou mantelete, ajudará nmito a cura de seu mano. Cartas amorosas anonymas, enviadas pelo correio, são um recurso efficaz... Mas comecemos pelo principio, que é casal-o.

Nunca um plano foi mais conscienciosamente executado. A noiva escolhida era a mais esbelta, ou uma das mais esbeltas da capital. Casou-os o proprio bispo. Recolhido á fazenda, foram com elle sómente alguns de seus mais triviaes amigos; fez-se o jornal, mandaram-se as cartas, peitaram-se as vistas. Durante tres mezes tudo caminhou ás mil maravilhas. Mas a natureza, apostada era lograr o homem, mostrou ainda desta vez que ella possue segredos inopinaveis. Um dos meios de agradar ao Nicoláu era elogiar a belleza, a elegancia e as virtudes da mulher; mas a molestia caminhara, e o que parecia remedio excellente foi simples aggravação do mal. Nicoláu, ao fim de certo tempo, achava ociosos e excessivos tantos elogios á mulher, e bastava isto a impaciental-o, e a impaciencia a produzir-lhe a fatal secreção. Parece masmo que chegou ao ponto de não poder encaral-a muito tempo, e a encaral-a mal; vieram algumas rixas, que seriam o principio de uma separação, se ella não morresse d'ahi a pouco. A dor do Nicoláu foi profunda e verdadeira; mas a cura interrompeu-se logo, porque elle desceu ao Rio de Janeiro, onde o vamos achar, tempos depois, entre os revolucionarios de 1831.

Comquanto pareça temerario dizer as causas que levaram o Nicoláu para o campo da Acclamação, na noite de 6 para 7 de abril, penso que não estará longe da verdade quem suppuzer que—foi o raciocinio de um atheniense celebre e anonymo. Tanto os que diziam bem, como os que diziam mal do imperador, tinham enchido as medidas ao Nicoláu. Esse homem, que inspirava enthusiasmos e odios, cujo nome era repetido onde quer que o Nicoláu estivesse, na rua, no theatro, nas casas alheias, tornou-se uma verdadeira perseguição morbida, d'ahi o fervor com elle metteu a mão no movimento de 1831. A abdicação foi um allivio. Verdade é que a Regencia o achou dentro de pouco tempo ontre os seus adversarios; e ha quem affirme que elle se filiou ao partido caramurú ou restaurador, posto não ficasse prova do acto. O que é certo é que a vida publica do Nicoláu cessou com a Maioridade.

A doença apoderara-se definitivamente do organismo. Nicoláu ia, a pouco e pouco, recuando na solidão. Não podia fazer certas visitas, frequentar certas casas. O theatro mal chegava a distrahil-o. Era tão melindroso o estado dos seus orgãos auditicos, que o ruido dos applausos causava-lhe dores atrozes. O enthusiasmo da população fluminense para com a famosa Candiani e a Meréa, mas a Candiani principalmente, cujo carro puxaram alguns braços humanos, obsequio tanto mais insigne quanto que o não fariam ao proprio Platão, esse enthusiasmo foi uma das maiores mortificações do Nicoláu. Elle chegou ao ponto de não ir mais ao theatro, de achar a Candiani insupportavel, e preferir aNormados realejos á da prima-donna. Não era por exageração de patriota que elle gostava de ouvir o João Caetano, nos primeiros tempos; mas afinal deixou-o tambem, e quasi que inteiramente os theatros.

—Está perdido! pensou o cunhado. Se pudessemos dar-lhe um baço novo...

Como pensar em semelhante absurdo? Estava naturalmente perdido. Já não bastavam os recreios domesticos. As tarefas litterarias a que se deu, versos de familia, glosas a premio e odes politicas, não duraram muito tempo, e póde ser até que lhe dobrassem o mal. De facto, um dia, pareceu-lhe que essa occupação era a cousa mais ridicula do mundo, e os applausos ao Gonçalves Dias, por exemplo, deram-lhe idéa de um Povo trivial e de máu gosto. Esse sentimento litterario, fructo de uma lesão organica, reagiu sobre a mesma lesão, ao ponto de produzir graves crises, que o tiveram algum tempo na cama. O cunhado aproveitou o momento para-desterrar-lhe da casa todos os livros de certo porte.

Explica-se menos o desalinho com que d'ahi a mezes começou a vestir-se. Educado com habitos de elegancia, era antigo freguez de um dos principaes alfaiates da côrte, o Plum, não passando um só dia em que não fosse pentear-se ao Desmarais e Gérard,coiffeurs de la cour, á rua do Ouvidor. Parece que achou infatuada esta denominação de cabelleireiros do paço, e castigou-os indo pentear-se a um barbeiro infimo. Quanto ao motivo que o levou a trocar de traje, repito que é inteiramente obscuro, e a não haver suggestão da edade, é inexplicavel. A despedida do cosinheiro é outro enigma. Nicoláu, por insinuação do cunhado, que o queria distrahir, dava dois jantares por semana; e os convivas eram unanimes em achar que o cozinheiro d'elle primava sobre todos os do capital. Realmente os pratos eram bons, alguns optimos, mas o elogio era um tanto emphatico, excessivo, para o fim justamente de ser agradavel ao Nicoláu, e assim aconteceu algum tempo. Como entender, porém, que um domingo, acabado o jantar, que fora magnifico, despedisse elle um varão tão insigne, causa indirecta de alguns dos seus mais deleitosos momentos na terra? Mysterio impenetravel.

—Era um ladrão! foi a resposta que elle deu ao cunhado.

Nem os esforços d'este nem os da irmã e dos amigos, nem os bens, nada melhorou o nosso triste Nicoláu. A secreção do braço tornou-se perenne, e o verme reproduziu-se aos milhões, theoria que não sei se é verdadeira, mas emfim era a do cunhado. Os ultimos annos foram crudelissimos. Quasi se póde jurar que elle viveu então continuamente verde, irritado, olhos vesgos, padecendo comsigo ainda muito mais do que fazia padecer aos outros. A menor ou maior cousa triturava-lhe os nervos: um bom discurso, um artista habil, uma sege, uma gravata, um soneto, um dito, um sonho interessante, tudo dava de si uma crise.

Quiz elle deixar-se morrer? Assim se poderia suppor, ao ver a impassibilidade com que rejeitou os remedios dos principaes medicos da côrte; foi necessario recorrer á simulação, e dal-os, emfim, como receitados por um ignorantão do tempo. Mas era tarde. A morte levou-o, ao cabo de duas semanas.

—Joaquim Soares? bradou attonito o cunhado, ao saber da verba testamentaria do defunto, ordenando que o caixão fosse fabricado por aquelle industrial. Mas os caixões d'esse sujeito não prestam para nada, e...

—Paciencia! interrompeu a mulher; a vontade do mano ha de comprir-se.

FIM DA VERBA TESTAMENTARIA

INDICE

ADVERTENCIAO ALIENISTATHEORIA DO MEDALHÃOA CHINELA TURCANA ARCAD. BENEDICTAO SEGREDO DO BONZOO ANNEL DE POLYCRATESO EMPRESTIMOA SERENISSIMA REPUBLICAO ESPELHOUMA VISITA DE ALCIBIADESVERBA TESTAMENTARIA


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