VIIEM RHODESApenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho, em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram n'ella, pois.Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu, tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo{116}a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde o destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para ficar com Thereza.Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para Rhodes, surge n'este porto.Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria, bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos, roubando e fazendo captivos muitos d'elles.Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só{117}davam passagem segura e pousada franca aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir ás virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o não terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes fidalga hospedagem de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que não só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra alheia.Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este; reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e restabelecer finalmente o importante commercio{118}dos rhodios, que tão notavel incremento havia já tomado; aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das mais florescentes cidades da Asia.Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia, foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado fraguedo, que se erguia do seio das ondas.Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo, que sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra, por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.—Depois de assalto á cidade fugiram para ella{119}grande numero de turcos. Attestaram estes com juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de Christo, da Virgem e de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um homem vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo um luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão—diziam os desertores—ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas, e para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.—Vencemos!—concluiu frei Fernão—. Mas sem aquelle celeste auxilio não podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar, que o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção distrahida{120}para Africa, e não nos auxilie em nossa empreza!...—Estou certo—retorquiu Pero da Covilhan—de que el-rei, meu Senhor, admira os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento da sagrada milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias do reino, não podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais porventura, que sua alteza deve consentir á sua porta, a vexar a christandade, o agareno insolito e maldito?...—Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem duvida obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se tivessemos seguro o nosso dominio na Asia...—Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta podésse ir á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica n'essas regiões remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...—Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um tal proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...—Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O que vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos aventureiros por indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma barreira constante, posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar; por isso natural é, que estejamos sempre{121}anciosos de vencer esse obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia os primeiros navegadores do mundo?!...—Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas... Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em Alexandria fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos mares, sem que ninguem póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura ella sonhasse, que por mar se podia ir á India, já lá tinha surgido a sua grande fróta...—Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...—Assim é...—Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do ouro. Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir mais além, uns retrocederam, outros ficaram...—Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é acredita-lo—interrompeu fr. Fernão.—Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...{122}—Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro razão sobeja me dá.—Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!...—Prouvéra a Deus, que assim fosse!...—exclamou com enthusiasmo fr. Fernão.—Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...—Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.—Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?—Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um seculo, e até hoje—que eu saiba!—não tem constado cá, haver-se descoberto o reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.—Informação de pêso é essa...—Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de Dario aos reis persas, o de Cesar{123}aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E esse imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem na India se chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha muito que desappareceu.—E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de mysterios o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu a Portugal não volto, sem colher informação segura, para a levar a el-rei, meu Senhor.—Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi tornar-se-lhe cada vez mais problematica a residencia, senão a existencia, do Préste João das Indias. Não soffreu com isso a menor contrariedade o seu animo imperturbavel; serviu antes de maior estimulo á sua diligencia.De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar, atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em mercadores.{124}{125}VIIIBOAS NOVASEra portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro ao porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno do costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e fazendo parecer, que o mar se transformára em um grande lago azul e tranquillo. Ao cabo de uma feliz derrota o navio deu fundo em frente da velha cidade egypcia, uma das mais bellas e graciosas cidades do mundo antigo, e laço de união da Europa com o Oriente.Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, noVIIseculo.De todas essas preciosidades historicas restavam{126}unicamente: a columna de Pompeu, denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois obeliscos, impropriamente chamadosAgulhas de Cleopatra, e as catacumbas.A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes peloSerapeion, ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos centros do saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu, testemunha sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte genuinamente grega mandou um prefeito romano erigir em honra do governador Diocleciano,genio tutelar da cidade, para lhe demonstrar a sua gratidão pelo trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era lavrada em syenito, com o sócco quadrado, em que assentava, e o capitel corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.AsAgulhasconsistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois monumentos: um, oSebasteion, em honra de Tiberio; o outro, á gloria de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor, e, por consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno, em que assentava a velha aldeia de Rakotis.No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome d'aquelle Pharaó.{127}Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus do Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis mais especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os removeram para Rakotis.Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á terra firme por meio de um mólhe de cantaria, denominadoHeptastadion, campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das maravilhas do mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do Egypto grego.Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de Cheops, e que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a revestir de marmore branco por Sostrato de Knido. Este architecto celebre gravou o proprio nome sobre o marmore, cobrindo a inscripção de encaustica brilhante, em que traçou o do soberano. O tempo encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a descoberto o nome do vaidoso e desleal artista.Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra igual Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da dynastia dos Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas a morte surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes,{128}e pouco mais, pois que uma fébre maligna os prostou.Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por haver successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e fazendo a ultima parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta região por entre alegres povoações mui visinhas umas das outras, e corria a pequena distancia da capital do Egypto, a qual demorava na margem direita.Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio, encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden. Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de Tór. D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda do golpho de Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco para Suaquem, riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar Vermelho, e d'ahi para Aden.Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído de Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada vez mais conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo consciencioso do commercio das especiarias.Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que a sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis mais lhe arraigava no coração as suas crenças.{129}O seu melhor companheiro, e confidente unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir audacioso e firme. Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma exclamação nem um gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de que não fosse mercador ismaelita.Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da Arabia produziu-lhe viva impressão, que passou completamente despercebida aos olhos dos tripulantes e mercadores que o cercavam.Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias quebradas e picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la assim recortada, lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui similhante. Parte d'ella mettia pelo mar, formando uma comprida peninsula, que talhava duas formosas e largas enseadas, e na de léste espelhava-se a muralha da cidade.Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a banda do mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos por meio de cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha cortada a pique, do outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um ilhéo com o preamar, e até ao seu cume, onde estava um castello, subia do baluarte um muro, que torneava o môrro. Por duas{130}portas, ambas juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres portas consecutivas, protegida cada uma por sua fortificação.Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo do clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes detraz da serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva em enormes tanques abertos na rocha.O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que sempre estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os productos de seus paizes, e d'ella levavam a varios mercados as exportações da India, para as caravanas de Damasco e de toda a Asia menor as passarem á Europa pelo Mediterraneo. Por tal motivo a maior parte das náus contentava-se com chegar a Aden, e não curava de entrar as portas do mar Vermelho.Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um grande rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias, convencionou com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no da India, aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar ambos em determinada época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das novas, que alcançassem.{131}Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu mourisca a cidade de Calicut.Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o Oceano Indico.A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só mastro sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da véla, que os ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas governava com gualdrópes para a borda, alados por um e outro bordo. Ligeiramente construida, de poucas cavernas, e forrada apenas exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual modo fixo ao cavername, marcava a differença que ella fazia das pregadiças, nas quaes em vez de quilha havia fundo largo.A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho da amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á náu navegar em melhor linha de bolina.Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear para cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma especie de rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito estanque, betumando as costuras do taboado comquil, e untando-as com azeite de peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim{132}vedavam tambem os tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes cubos de madeira com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as paredes escoradas interna e externamente.O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam da India para o mar Vermelho.Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras particularidades de construcção, esta náu differia muito das portuguezas. Sem coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis, levava a carga arrumada em compartimentos separados, e resguardada da chuva por folhas sêccas de palmeira, postas em fórma de telhado de duas aguas.Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e passageiros abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo quando o vento soprava muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes casos recolhiam-se em uma especie de choupana de óla, encostada ao mastro, ou armada a ré, por cima das esteiras de rotas, com que cobriam a carga.O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que serviam de trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os principaes manjares da quotidiana alimentação.{133}E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia a navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo depois varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que, sem um movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta travessia em similhantes condições, e nem um momento sentisse desfallecer-lhe o animo!Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua peregrinação arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a Thereza, por quem tudo soffria resignado!A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados, corriam por elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que sulcavam o mar cinco ou seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com cordilheiras de collinas, separadas umas das outras por largos e profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos de todas essas collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que refulgiam aqui e além as brilhantes côres do Iris, e levantava igualmente redemoinhos, como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel era, que os tôpos d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre si, formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes iracundas.{134}A náu, sem governo, vogava de capa, e não era senão joguete do vento e das ondas. Subia essas serranias inclinada sobre um dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, equilibrava-se, e descia depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em quanto se escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo lençól de espuma.Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca, mas horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.Salvou-se!Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a Cananor, para fazer aguada e tomar lenha.A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e, por ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de terra o seu rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido no seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a opulencia e a belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia, que lhe pintára com as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India, não o illudira, pois o maravilhoso painel, que estava contemplando, era superior ainda ao que a sua imaginação havia sonhado.Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos{135}arbitrariamente traçados, estava disseminada a casaria da cidade, sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras odoriferas dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos. Junto da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as dos pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações nobres, e a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a grandissima distancia da praia.A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos e frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a fugir, quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de serem suas victimas.Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes traziam a tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos quatorze annos, consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma especie de jumento silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de linha dobrada de tres fios, com a largura de dois dedos, como a correia.Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho, dois ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado{136}ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e resguardando-o do sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares chamavamboi.Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o trabalhador encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas ordens a uma certa distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar de fato, purificar-se. E mantinha-se tanto esta differença de castas, que um poleá nunca podia remir o peccado original do nascimento. Nascia villão, havia de morrer villão.Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de Pero da Covilhan.O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações eram por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias tirando d'ellas todo o proveito.Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio; Ormuz, o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da Africa meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro das minas de Monomotapa.{137}Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava, que lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia com o cuidado de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia aprazado com o seu companheiro, soube alli, que este fallecera.Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com os vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do Préste, não se animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não saciaria com tão pouco os vehementes desejos de D. João II, n'aquelle ponto.—De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me incumbira...—pensava Pero da Covilhan.Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais conviria ao serviço de seu real amo.N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus portuguezes, que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de Amron, na opulenta rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso d'essa Babel, em tão embaraçosas situações se viram, que tiveram por vezes perdida a esperança de encontra-lo.Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.—Á procura de vós andavamos!—exclamou o rabbi, ao dar casualmente com Pero da Covilhan.{138}Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo, experimentou um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:—Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia, de D. João II, disse-lhe:—Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por essas cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.—E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...—perguntou Pero da Covilhan.—Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão esquerda...—respondeu Abraham, apontando para ella.—Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei meu senhor!...—replicou Pero da Covilhan, sorrindo.—Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa physionomia, que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo crescida.Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que fosse mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda bem instruido de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do que sabia, não devendo voltar ao reino sem ter visto o Préste João.{139}Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá fallar muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da India ás cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram, fizera depois a narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra protecção, para emprehender esta nova viagem, que concertára com o rabbi.—De tudo estou inteirado—disse Pero da Covilhan.—A vós, Joseph, vou immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor; e—voltando-se para Abraham—comvosco tornarei a vêr Ormuz.N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego, fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes portos, que serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára, que a corrente d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em Alexandria, seu principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza a pósse, garantida por tratado com o sultão do Egypto.A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico, attrahido áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e opulentos mouros do Malabar.Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.{140}A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas de Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de Pegu, as espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande, assombroso, parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar eternamente um reflexo brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da Covilhan uma das suas cartas com a seguinte informação: «Navegando-se pela costa da Guiné adeante, chega-se ao termo do continente: persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa no Occeano indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que dos máres da Guiné se póde navegar para a India».Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva, communicava tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor ouvira fallar no Préste João, affirmando os mouros, «que este rei christão estava tão longe mettido nas suas terras, que não sabia, que cousa era gente do mundo, e que para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E, posto que os mouros não déssem a esse rei o nome de Préste, como já no Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da Covilhan muitas{141}cousas do rei abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem seus estados alguns mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que não tinha para que passar adeante, a buscar o que não sabia que houvesse, tendo tão pérto o que lhe diziam que na Ethiopia havia». Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e d'este porto sahiram para Ormuz.Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de conversar largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da côrte portugueza!...O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria realisados, era o melhor lenitivo da sua saudade.—Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a el-rei qual é o caminho da India pelo mar!...—repetiam os echos da sua alma radiante e apaixonada.E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar d'Oman.{142}{143}IXCONSTANCIANunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia, era unicamente por obediencia.Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a tudo estão attentos, reparavam, que a Maria{144}Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...—E o mais estranho—observou Pedro de Barcellos—é, que não occulta o seu mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...—Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se insiste...—accrescentou Jorge da Silveira.—De experimentados fallais ambos!...—atalhou D. João de Menezes—Quem não hade gostar de Thereza!...—tornou Pedro de Barcellos.—Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa menina!...—exclamou Gonçalo da Fonseca.{145}Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter d'esse soberano, como o leitor vae vêr.Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.Voltemos, porém, ao ponto.A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo Garcia de Rezende, se deu principio aojogo dos naipes.Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma, os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais desagradaveis ainda, havia chegado a{146}uma janella aberta sobre um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e esse prazer parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que lhe agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar sempre de alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela rainha.Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou rapidamente a seguinte exclamação:—infeliz lembrança!... E tenho de attender com fingido agrado este importuno!...Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em ancias de tranzido amor.O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:—como sois bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia angelica!...—e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não logrando evitar,{147}que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação banal:—Não vos interessa ojogo dos naipes?—É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz tomar hoje parte n'essa diversão—respondeu Maria Thereza.—Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que mereceis...—Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...—Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...—retorquiu com certa intimativa Pedro de Barcellos.—Eu!?... Grande poder me confiais!...—E não o quereis?...—Para quê?...—Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...—Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...—É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...—Devaneais, primo!—Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?—instou Pedro de Barcellos com forçado sorriso.—Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas,{148}e leva a palma aos mais vaidosos em prendas de cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar, com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia d'elles...—redarguiu com reflexiva gravidade Maria Thereza.—Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro, porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...—Porque nunca poderia corresponder-lhe.—Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...—Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II, os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria Thereza:—Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:«Por mais mal que me façaisnunca mudar me fareisaté que não me acabeis.Minha fé, minha firmezaEm vosso poder está;soffrerei minha tristeza,pois vossa mercê m'a dá.{149}E meu bem nunca farámudança, nem a vereis,até que não me acabeis.»[7]—Bello villancete, primo!...—Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me lembrei de recita-lo...—E não tendes prezente composição alguma vossa?...—Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...—Não vos disse já, que vos estimo?...Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a maior formalidade:—Porque me não concedeis a vossa mão?...—Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...—respondeu Maria Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo respeito a Pedro de Barcellos.Este, reconhecendo que seria importuna e pouco{150}delicada qualquer instancia, disse a Maria Thereza:—Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais saberá, senão vós.E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte villancete:Aqui, onde vou deixar-vos,esse vosso doce olharnunca me verá tornar.Para o mar vou sem ventura,sendo mais vosso cativo!Serei morto, sendo vivo,sem ver vossa formosura,pois que a minha sorte durade vós me quér apartarpara nunca mais tornar.E se bem, que me confórte,esperar me não é dado,melhor é ditosa morte,que viver desesperado.Acabe assim o cuidadode sómente em vós cuidar,e no vosso doce olhar!...—É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito... Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que fico sendo-vos muito affeiçoada...Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado longo.{151}Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica, do que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no coração diamantino da sua filha adoptiva.D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa primazia.Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.{152}Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e voltou a Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dosRicos-homensdeEntre Homem e Cavado, e por consequencia tambemrico-homem.—No principio da monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não só o rei lhes chamavaprimos, senão tambem estavam cobertos e assentados na sua presença; e não tomava o soberano deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o conselho d'elles.Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro varão, que nasceu na Terceira.Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio de seu páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se{153}João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando Annes ou Joannes.Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado, primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram as principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de descobrir novas terras.Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.{154}Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II, animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus brios de homem digno.Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo recebido com particular carinho no solar deEntre Homem e Cavado, e tornou logo para a Terceira.Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua viagem em 1495,depois de ter descoberto a costa do Labrador.Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3 de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle a uma região doNovo Mundo. E assim succedeu, com effeito. O facto, porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada o torna superior{155}ao nosso Pedr'Alvares Cabral,a quem a patria não fez ainda a devida justiça.Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador, concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e privilegios de nobres e fidalgos, por procederemda geração e linhagem dos Machados, por parte de sua mãe e avós.Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses dois problemas.{156}Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo daBôa Esperança, e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que D. João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da Covilhan, em Santarem?Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado?Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario, quando na familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais direito do que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D. Manoel uma esphera por empreza, cujaalmaera:Spera in Deo? Não parece ser um presentimento muito singular?...{157}
Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho, em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.
Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram n'ella, pois.
Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu, tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo{116}a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde o destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para ficar com Thereza.
Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.
A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para Rhodes, surge n'este porto.
Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.
Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria, bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos, roubando e fazendo captivos muitos d'elles.
Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só{117}davam passagem segura e pousada franca aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir ás virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o não terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.
Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes fidalga hospedagem de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que não só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra alheia.
Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este; reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e restabelecer finalmente o importante commercio{118}dos rhodios, que tão notavel incremento havia já tomado; aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das mais florescentes cidades da Asia.
Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia, foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado fraguedo, que se erguia do seio das ondas.
Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo, que sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.
Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra, por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.
—Depois de assalto á cidade fugiram para ella{119}grande numero de turcos. Attestaram estes com juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de Christo, da Virgem e de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um homem vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo um luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão—diziam os desertores—ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas, e para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.
—Vencemos!—concluiu frei Fernão—. Mas sem aquelle celeste auxilio não podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar, que o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção distrahida{120}para Africa, e não nos auxilie em nossa empreza!...
—Estou certo—retorquiu Pero da Covilhan—de que el-rei, meu Senhor, admira os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento da sagrada milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias do reino, não podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais porventura, que sua alteza deve consentir á sua porta, a vexar a christandade, o agareno insolito e maldito?...
—Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem duvida obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se tivessemos seguro o nosso dominio na Asia...
—Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta podésse ir á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica n'essas regiões remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...
—Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um tal proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...
—Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O que vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos aventureiros por indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma barreira constante, posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar; por isso natural é, que estejamos sempre{121}anciosos de vencer esse obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia os primeiros navegadores do mundo?!...
—Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas... Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em Alexandria fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos mares, sem que ninguem póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura ella sonhasse, que por mar se podia ir á India, já lá tinha surgido a sua grande fróta...
—Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...
—Assim é...
—Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do ouro. Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir mais além, uns retrocederam, outros ficaram...
—Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é acredita-lo—interrompeu fr. Fernão.
—Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...{122}
—Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro razão sobeja me dá.
—Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!...
—Prouvéra a Deus, que assim fosse!...—exclamou com enthusiasmo fr. Fernão.
—Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...
—Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.
—Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?
—Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um seculo, e até hoje—que eu saiba!—não tem constado cá, haver-se descoberto o reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.
—Informação de pêso é essa...
—Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de Dario aos reis persas, o de Cesar{123}aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E esse imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem na India se chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha muito que desappareceu.
—E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de mysterios o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu a Portugal não volto, sem colher informação segura, para a levar a el-rei, meu Senhor.
—Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.
O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi tornar-se-lhe cada vez mais problematica a residencia, senão a existencia, do Préste João das Indias. Não soffreu com isso a menor contrariedade o seu animo imperturbavel; serviu antes de maior estimulo á sua diligencia.
De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar, atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em mercadores.{124}{125}
Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro ao porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno do costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e fazendo parecer, que o mar se transformára em um grande lago azul e tranquillo. Ao cabo de uma feliz derrota o navio deu fundo em frente da velha cidade egypcia, uma das mais bellas e graciosas cidades do mundo antigo, e laço de união da Europa com o Oriente.
Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, noVIIseculo.
De todas essas preciosidades historicas restavam{126}unicamente: a columna de Pompeu, denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois obeliscos, impropriamente chamadosAgulhas de Cleopatra, e as catacumbas.
A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes peloSerapeion, ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos centros do saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu, testemunha sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte genuinamente grega mandou um prefeito romano erigir em honra do governador Diocleciano,genio tutelar da cidade, para lhe demonstrar a sua gratidão pelo trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era lavrada em syenito, com o sócco quadrado, em que assentava, e o capitel corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.
AsAgulhasconsistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois monumentos: um, oSebasteion, em honra de Tiberio; o outro, á gloria de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor, e, por consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno, em que assentava a velha aldeia de Rakotis.
No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome d'aquelle Pharaó.{127}
Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus do Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis mais especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os removeram para Rakotis.
Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á terra firme por meio de um mólhe de cantaria, denominadoHeptastadion, campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das maravilhas do mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do Egypto grego.
Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de Cheops, e que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a revestir de marmore branco por Sostrato de Knido. Este architecto celebre gravou o proprio nome sobre o marmore, cobrindo a inscripção de encaustica brilhante, em que traçou o do soberano. O tempo encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a descoberto o nome do vaidoso e desleal artista.
Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra igual Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da dynastia dos Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas a morte surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.
Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes,{128}e pouco mais, pois que uma fébre maligna os prostou.
Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por haver successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e fazendo a ultima parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta região por entre alegres povoações mui visinhas umas das outras, e corria a pequena distancia da capital do Egypto, a qual demorava na margem direita.
Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio, encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden. Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de Tór. D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda do golpho de Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco para Suaquem, riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar Vermelho, e d'ahi para Aden.
Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído de Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada vez mais conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo consciencioso do commercio das especiarias.
Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que a sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis mais lhe arraigava no coração as suas crenças.{129}O seu melhor companheiro, e confidente unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir audacioso e firme. Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma exclamação nem um gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de que não fosse mercador ismaelita.
Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da Arabia produziu-lhe viva impressão, que passou completamente despercebida aos olhos dos tripulantes e mercadores que o cercavam.
Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias quebradas e picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la assim recortada, lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui similhante. Parte d'ella mettia pelo mar, formando uma comprida peninsula, que talhava duas formosas e largas enseadas, e na de léste espelhava-se a muralha da cidade.
Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a banda do mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos por meio de cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha cortada a pique, do outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um ilhéo com o preamar, e até ao seu cume, onde estava um castello, subia do baluarte um muro, que torneava o môrro. Por duas{130}portas, ambas juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres portas consecutivas, protegida cada uma por sua fortificação.
Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo do clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes detraz da serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva em enormes tanques abertos na rocha.
O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que sempre estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os productos de seus paizes, e d'ella levavam a varios mercados as exportações da India, para as caravanas de Damasco e de toda a Asia menor as passarem á Europa pelo Mediterraneo. Por tal motivo a maior parte das náus contentava-se com chegar a Aden, e não curava de entrar as portas do mar Vermelho.
Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um grande rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias, convencionou com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no da India, aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar ambos em determinada época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das novas, que alcançassem.{131}
Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu mourisca a cidade de Calicut.
Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o Oceano Indico.
A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só mastro sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da véla, que os ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas governava com gualdrópes para a borda, alados por um e outro bordo. Ligeiramente construida, de poucas cavernas, e forrada apenas exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual modo fixo ao cavername, marcava a differença que ella fazia das pregadiças, nas quaes em vez de quilha havia fundo largo.
A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho da amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á náu navegar em melhor linha de bolina.
Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear para cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma especie de rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.
Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito estanque, betumando as costuras do taboado comquil, e untando-as com azeite de peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim{132}vedavam tambem os tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes cubos de madeira com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as paredes escoradas interna e externamente.
O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam da India para o mar Vermelho.
Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras particularidades de construcção, esta náu differia muito das portuguezas. Sem coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis, levava a carga arrumada em compartimentos separados, e resguardada da chuva por folhas sêccas de palmeira, postas em fórma de telhado de duas aguas.
Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e passageiros abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo quando o vento soprava muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes casos recolhiam-se em uma especie de choupana de óla, encostada ao mastro, ou armada a ré, por cima das esteiras de rotas, com que cobriam a carga.
O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que serviam de trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os principaes manjares da quotidiana alimentação.{133}
E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia a navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo depois varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.
Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que, sem um movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta travessia em similhantes condições, e nem um momento sentisse desfallecer-lhe o animo!
Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua peregrinação arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a Thereza, por quem tudo soffria resignado!
A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados, corriam por elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que sulcavam o mar cinco ou seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com cordilheiras de collinas, separadas umas das outras por largos e profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos de todas essas collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que refulgiam aqui e além as brilhantes côres do Iris, e levantava igualmente redemoinhos, como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel era, que os tôpos d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre si, formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes iracundas.{134}A náu, sem governo, vogava de capa, e não era senão joguete do vento e das ondas. Subia essas serranias inclinada sobre um dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, equilibrava-se, e descia depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em quanto se escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo lençól de espuma.
Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca, mas horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.
Salvou-se!
Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a Cananor, para fazer aguada e tomar lenha.
A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e, por ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de terra o seu rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.
Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido no seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a opulencia e a belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia, que lhe pintára com as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India, não o illudira, pois o maravilhoso painel, que estava contemplando, era superior ainda ao que a sua imaginação havia sonhado.
Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos{135}arbitrariamente traçados, estava disseminada a casaria da cidade, sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras odoriferas dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos. Junto da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as dos pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações nobres, e a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a grandissima distancia da praia.
A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos e frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a fugir, quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de serem suas victimas.
Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes traziam a tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos quatorze annos, consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma especie de jumento silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de linha dobrada de tres fios, com a largura de dois dedos, como a correia.
Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho, dois ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado{136}ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e resguardando-o do sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares chamavamboi.
Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o trabalhador encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas ordens a uma certa distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar de fato, purificar-se. E mantinha-se tanto esta differença de castas, que um poleá nunca podia remir o peccado original do nascimento. Nascia villão, havia de morrer villão.
Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de Pero da Covilhan.
O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações eram por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.
Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias tirando d'ellas todo o proveito.
Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio; Ormuz, o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da Africa meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro das minas de Monomotapa.{137}
Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava, que lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia com o cuidado de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia aprazado com o seu companheiro, soube alli, que este fallecera.
Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com os vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do Préste, não se animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não saciaria com tão pouco os vehementes desejos de D. João II, n'aquelle ponto.
—De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me incumbira...—pensava Pero da Covilhan.
Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais conviria ao serviço de seu real amo.
N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus portuguezes, que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de Amron, na opulenta rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso d'essa Babel, em tão embaraçosas situações se viram, que tiveram por vezes perdida a esperança de encontra-lo.
Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.
—Á procura de vós andavamos!—exclamou o rabbi, ao dar casualmente com Pero da Covilhan.{138}
Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo, experimentou um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:
—Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...
Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia, de D. João II, disse-lhe:
—Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por essas cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.
—E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...—perguntou Pero da Covilhan.
—Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão esquerda...—respondeu Abraham, apontando para ella.
—Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei meu senhor!...—replicou Pero da Covilhan, sorrindo.
—Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa physionomia, que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo crescida.
Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que fosse mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda bem instruido de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do que sabia, não devendo voltar ao reino sem ter visto o Préste João.{139}
Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá fallar muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da India ás cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram, fizera depois a narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra protecção, para emprehender esta nova viagem, que concertára com o rabbi.
—De tudo estou inteirado—disse Pero da Covilhan.—A vós, Joseph, vou immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor; e—voltando-se para Abraham—comvosco tornarei a vêr Ormuz.
N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego, fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes portos, que serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára, que a corrente d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em Alexandria, seu principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza a pósse, garantida por tratado com o sultão do Egypto.
A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico, attrahido áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e opulentos mouros do Malabar.
Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.{140}
A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas de Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de Pegu, as espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.
Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande, assombroso, parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar eternamente um reflexo brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da Covilhan uma das suas cartas com a seguinte informação: «Navegando-se pela costa da Guiné adeante, chega-se ao termo do continente: persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa no Occeano indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que dos máres da Guiné se póde navegar para a India».
Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva, communicava tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor ouvira fallar no Préste João, affirmando os mouros, «que este rei christão estava tão longe mettido nas suas terras, que não sabia, que cousa era gente do mundo, e que para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E, posto que os mouros não déssem a esse rei o nome de Préste, como já no Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da Covilhan muitas{141}cousas do rei abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem seus estados alguns mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que não tinha para que passar adeante, a buscar o que não sabia que houvesse, tendo tão pérto o que lhe diziam que na Ethiopia havia». Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.
Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e d'este porto sahiram para Ormuz.
Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de conversar largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da côrte portugueza!...
O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...
Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria realisados, era o melhor lenitivo da sua saudade.
—Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a el-rei qual é o caminho da India pelo mar!...—repetiam os echos da sua alma radiante e apaixonada.
E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar d'Oman.{142}{143}
Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.
Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia, era unicamente por obediencia.
Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a tudo estão attentos, reparavam, que a Maria{144}Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.
Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.
Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...
—E o mais estranho—observou Pedro de Barcellos—é, que não occulta o seu mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...
—Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se insiste...—accrescentou Jorge da Silveira.
—De experimentados fallais ambos!...—atalhou D. João de Menezes
—Quem não hade gostar de Thereza!...—tornou Pedro de Barcellos.
—Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa menina!...—exclamou Gonçalo da Fonseca.{145}
Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter d'esse soberano, como o leitor vae vêr.
Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».
Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.
Voltemos, porém, ao ponto.
A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo Garcia de Rezende, se deu principio aojogo dos naipes.
Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma, os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais desagradaveis ainda, havia chegado a{146}uma janella aberta sobre um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e esse prazer parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que lhe agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar sempre de alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela rainha.
Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou rapidamente a seguinte exclamação:—infeliz lembrança!... E tenho de attender com fingido agrado este importuno!...
Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em ancias de tranzido amor.
O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:—como sois bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia angelica!...—e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.
Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não logrando evitar,{147}que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação banal:
—Não vos interessa ojogo dos naipes?
—É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz tomar hoje parte n'essa diversão—respondeu Maria Thereza.
—Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que mereceis...
—Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...
—Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...—retorquiu com certa intimativa Pedro de Barcellos.
—Eu!?... Grande poder me confiais!...
—E não o quereis?...
—Para quê?...
—Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...
—Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...
—É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...
—Devaneais, primo!
—Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?—instou Pedro de Barcellos com forçado sorriso.
—Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas,{148}e leva a palma aos mais vaidosos em prendas de cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar, com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia d'elles...—redarguiu com reflexiva gravidade Maria Thereza.
—Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro, porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...
—Porque nunca poderia corresponder-lhe.
—Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...
—Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.
Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II, os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria Thereza:
—Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:
«Por mais mal que me façaisnunca mudar me fareisaté que não me acabeis.Minha fé, minha firmezaEm vosso poder está;soffrerei minha tristeza,pois vossa mercê m'a dá.{149}E meu bem nunca farámudança, nem a vereis,até que não me acabeis.»[7]
—Bello villancete, primo!...
—Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me lembrei de recita-lo...
—E não tendes prezente composição alguma vossa?...
—Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...
—Não vos disse já, que vos estimo?...
Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a maior formalidade:
—Porque me não concedeis a vossa mão?...
—Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...—respondeu Maria Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo respeito a Pedro de Barcellos.
Este, reconhecendo que seria importuna e pouco{150}delicada qualquer instancia, disse a Maria Thereza:
—Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais saberá, senão vós.
E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte villancete:
Aqui, onde vou deixar-vos,esse vosso doce olharnunca me verá tornar.Para o mar vou sem ventura,sendo mais vosso cativo!Serei morto, sendo vivo,sem ver vossa formosura,pois que a minha sorte durade vós me quér apartarpara nunca mais tornar.E se bem, que me confórte,esperar me não é dado,melhor é ditosa morte,que viver desesperado.Acabe assim o cuidadode sómente em vós cuidar,e no vosso doce olhar!...
—É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito... Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que fico sendo-vos muito affeiçoada...
Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado longo.{151}
Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica, do que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no coração diamantino da sua filha adoptiva.
D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa primazia.
Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.
Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.{152}
Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e voltou a Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dosRicos-homensdeEntre Homem e Cavado, e por consequencia tambemrico-homem.—No principio da monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não só o rei lhes chamavaprimos, senão tambem estavam cobertos e assentados na sua presença; e não tomava o soberano deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o conselho d'elles.
Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro varão, que nasceu na Terceira.
Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio de seu páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se{153}João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando Annes ou Joannes.
Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado, primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram as principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.
Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de descobrir novas terras.
Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.{154}
Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II, animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.
Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus brios de homem digno.
Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo recebido com particular carinho no solar deEntre Homem e Cavado, e tornou logo para a Terceira.
Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua viagem em 1495,depois de ter descoberto a costa do Labrador.
Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3 de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle a uma região doNovo Mundo. E assim succedeu, com effeito. O facto, porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada o torna superior{155}ao nosso Pedr'Alvares Cabral,a quem a patria não fez ainda a devida justiça.
Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador, concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e privilegios de nobres e fidalgos, por procederemda geração e linhagem dos Machados, por parte de sua mãe e avós.
Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.
Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses dois problemas.{156}
Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo daBôa Esperança, e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que D. João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.
Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da Covilhan, em Santarem?
Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado?
Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario, quando na familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais direito do que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D. Manoel uma esphera por empreza, cujaalmaera:Spera in Deo? Não parece ser um presentimento muito singular?...{157}