XIINA ABYSSINIAAo cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da Abyssinia.Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o islamismo.{192}Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?—Ninguem sabia responder; pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido, talvez por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto, elevado entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao Norte pela Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão africano oriental, a Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas distinctas: a inferior, ou oKolla, em que a temperatura varia de 20 a 40° centigrados, encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical, a fauna e a flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o solo sem cultura; a media, ou oOnaïna Déga, com a temperatura de 15 a 30°, sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a superior, ou oDéga, cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo de zero nas mais altas montanhas.As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O numero d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens condensadas em volta dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a quem as vê, quanto mais a quem as passa. E raramente se faz jornada, em que não haja necessidade impreterivel de as collear e transpôr; por{193}isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da Covilhan, se houvessem abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão invios caminhos, voltassem para traz.Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para escalar o Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com agudas arestas a desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os diluvios do tropico tinham cavado corregos profundos. Lá do cume as torrentes, no periodo annual das chuvas, despenham-se com violencia nos valles estreitos, indo engrossar os numerosos cursos de agua, que serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.Então o Tacazé ouNilo negro, que na bacia hydrographica septentrional recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem banha, vae, sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado impeto. E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ouNilo azul, atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo extenso e tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume, que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.{194}Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se fôra em mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o sussurro das florestas proximas é um fundo de concerto, que faz sobresair o canto alegre das aves, como a doce verdura é o fundo da côr, sobre que se destaca o brilho das flores e dos fructos.Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido, aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto varía, determinada pelas grandes differenças de nivel!A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune todas as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar, terrenos contrarios no mesmo solo.O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil apanhar insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo vê massas centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie, para se lhe mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante observar a formação das nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se acima d'ellas.Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua accusa as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.{195}Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções extraordinarias, bem como oteff, coberto de flôres purpurinas, e cujo grão oblongo dá uma farinha saborosa.O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do Sudão, devastam as ceáras, oenséte, que é uma especie de bananeira, cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos, obrigam a vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua invasão unicamente de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.O agigantadobaobah, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a palmeira excelsa, okuaracom as suas bellas flôres coralinas, amimosa, ocusco, owansey, cujas flôres alvissimas abrem todas a um tempo, odaro, que escolhe, para os abrigar com a sua sombra benefica, os sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores egualmente frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros massiços de folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais singulares e formosos cambiantes.No mesmo solo humedecido, e alcatifado de{196}flôres odoriferas, crescem elegantes arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cipó flexivel, os pampanos carregados de uvas pretas, se abraçam ao tronco das arvores protectoras, revestindo-os de gala, subindo até se suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos passos do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico quadro, uma scena animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle, vivacidade de seus movimentos, agilidade de seu andar; outros pela frescura de suas pennas, graça de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade de suas fórmas. O esmalte das flôres mistura-se com o brilho das folhas, e são apagados ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mórmente da dosonis-manga, oucynnirus splendidus, conforme a denominação scientifica moderna.Nas regiões mais aridas, ocactus, a especie de euphorbio, denominadakolquall, a palmeira anã, okautuffacoberto de espinhos, dão signal de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são testemunhas das perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, corças, e outros antilopes, como obeni-israil, igualmente elegantes, que logram escapar, por causa da ligeireza dos{197}movimentos e rapidez da carreira, a esses crueis inimigos.Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem de asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos girátacácheus, a todos esses monstros ferozes, de que é como que patria o continente negro.Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto, garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas hastes elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do rhinoceronte bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os crocodilos infestam os rios, em cujas margens vôam innumeras aves aquaticas.No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem oKousso-Brayera anthelmintica, e oGibarra—Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.{198}Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não só pela multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham dispostas.Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos, pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma grande{199}tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos arruamentos milhares de outras, todas brancas.Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu, por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada sensação no ajuntamento.Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico—já n'esse tempo a lingua da côrte—que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença d'elle Pero da Covilhan.Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado da sua côrte.Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe. O Préste mandou-o{200}levantar, fez-lhe algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de D. João II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse descançar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.A côrte compunha-se doBellátimoche goytá, mordomo-mór; doTecácase Bellátimoche-goytá, pequeno mordomo-mór; dos doisBetendet, os validos do imperador; doTitaurári, que fazia o officio de marechal; e outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava diariamente a tenda imperial oAbima, que quer dizer páe, e era o metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha grande auctoridade, oétch'égé, prelado do numeroso clero regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado peloabimaTekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par doabima, havia oLabeata, padre de nomeação imperial. Junto do soberano funccionavam osAzageseUmbares, dezembargadores e{201}ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo immenso de trapaças.O livro da lei,Fitha Negoust, compunha-se de textos mal traduzidos do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que jurava: amen.O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que sobre tudo temia.As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias festivos e para as{202}grandes recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta, na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar unicamente na direcção dos homens que o antecediam.Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido, que fazia afastar a gente.Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita pedraria falsa.O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.OTitauráriescolhia o lugar do arraial, assignalando{203}com uma lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um tiro de bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo de um pallio.Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil; tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não faltava, o que para uma povoação em taes condições se tornava mister.As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente.As pessoas pobres dormiam sobre o seuNeté, que era um coiro de boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á{204}sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa, reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso, puniam-n'o sem julgamento prévio.Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamadabercutá, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito enfeitados.Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ásápas, espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a doterauxe a docousio, e que tambem lhes servia de alimento.Sobre asápascollocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina, chamadasescambiás.Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca, embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavamberindóa este amargo manjar, um dos mais delicados da sua mesa.Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o hydromel; que{205}constava de cinco ou seis partes de agua, uma de mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominadosardó, que em cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do mel.Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com barro e selladas, e denominavam-segombos. Os portadores d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam da canna para alimento.Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo escassa a producção de hortaliças.Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria a quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas, os patos bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas do mato. As perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da mesma côr e feição das nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos; outras, corpulentas como gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as restantes, do tamanho das nossas, differindo d'ellas sómente na côr pardacenta dos bicos e pés.{206}Appareciam tambem coelhos e lebres.Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de cidade, nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral abertas; e unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam fronteiras dos gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com perpetuas correrias lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de refugio. Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o nome degueddame seus governadores o dealikas.A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes de algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as paredes formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com açoteas em vez de telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por terem as paredes de pedra ligada com argamassa, e o vigamento do tecto ser de aguieiros de cedro tão unidos, que serviam de forro, effectuando-se essa união por meio de cordões de varias côres, que produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de pedra ensôssa até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe muito bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres muito delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda muito aprazivel dos senhores.{207}Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os orientaes lhes chamamhobesch. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou menos aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes nas veias sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato d'esta palavra, dofoulahoupeulh—raça vermelha, do arabe e do africano puro. N'esta mistura dominam successivamente, segundo as regiões, os typos secundarios mais proximos,bedjas,somali,gallae o syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito, encontrando-se o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém, exangue e sem graça.Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que se não occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam de pequenos, e n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção leve, e pouco largo, de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno enrolada á cintura. Uma capa de egual tecido mais encorpado, e sobre ella uma pelle de panthéra negra ou de leão. Calçavam alparcatas, e andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal cobria estas até ao joelho.Em geral a plebe não usava calçado, e o seu{208}vestuario reduzia-se a umas bragas de algodão e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo panno tambem de algodão.Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para baixo, e d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya, faziam-n'os de teada. Os calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás pernas, e as cabayas, como as dos baneanes, abertas até á cinta, eram abotoadas com botões miudos. Em um collarinho cozido a umas mangas estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofetás de Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, consistia a camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino da terra ou de bofetá.Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste, emquanto andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os hombros,ainda não estava na graça do Senhor; mas logo que fallasse com o Préste, e saisse da sua tenda vestido,já estava na graça do Senhor.Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados caprichosos. As mulheres{209}encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre os hombros.O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo, com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadasbolotás; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso; e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros com zargunchos estreitos, como se foram dardos.Os mais nobres cingiam espada—de que raras vezes se serviam—com empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns traziam tambem adaga.Os cavalleiros com sáia de malha—que poucos eram—não se curavam de rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.Além da gente de armas, era muita mais a que{210}seguia o arraial e a bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem asápase o hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles mantimentos aos camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamadosamalé, cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras com a corrente das aguas.A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.{211}Junto de um immensodaroelevava-se o templo christão, que era de formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a prophecia de David.Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de judaismo, com traços de budhismo.Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se{212}facilmente, que não deixaram discipulos os artistas, que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares, sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava á porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio, deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a lingua lithurgica.O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se affirmava.Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o contrahia com o tacito{213}ou expresso consentimento de se poderem apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso, das causas de divorcio.As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia rapada, deixando, porém, crescer as barbas.Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar, quando iam já distantes.A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano não podia considerar-se completamente absoluto.E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:{214}arcyprestes—komosats; conegos—debterats; curas—kasis; vigarios—nefk-kasis; diaconos—diakons; e sub-diaconos—nefk-diakons.Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas, cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso emfim.A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar á patria.Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da sua casa.Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se{215}perder na obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade tambem distante!...E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vêr!...Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem perspectiva.Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o alfabeto ethiopico do das{216}inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a direita.O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão aparentado com o egypcio antigo.Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á porfia procuravam conhecer e servir onovo senhor. O seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou filha,{217}que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em nós um amigo.»Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade: «Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.»Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes entregou.Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente sêdas da India, colchas da China, e arreios de cavallos.Helena considerava-se a mais ditosa filha da{218}Ethiopia. Sentada ao lado de Pero da Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia, disse-lhe, tomando-o pela cintura, e fitando-o enlevada: «Ha muito, que suspirava por ser vossa!... Como sou feliz!... Agora para sempre ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os corações no amor de Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que eu já quero á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos dodaro, que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que vou viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o buscava!... Amo-te muito!... muito!...»Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face duas lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...—E porque chorava?!...Pobre coração humano!...{219}XIIIREMATEO casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D. Leonor de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria a realizar-se. Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de timbrar em progredir no estudo das sciencias, que cursaria na Universidade, e, comquanto a vehemencia do seu desejo de saber não apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o coração, amortece-la-ia ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar, eram no conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse amor.Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo do amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não tardaria a engrinardar-lhe o nome. Assim o{220}esperava Maria Thereza, e tinha para isso fundamento.D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança tambem de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas devoções, apenas ella completasse os seus estudos. E, como a formosa rainha era dotada de um espirito não só eminentemente religioso e caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo e pratico, imaginem-se os primores de educação, dada por essa Senhora a Maria Thereza, que logo nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e uma docilidade encantadora!Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a fazia já sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca do seu vasto plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o qual havia traçado com o fim de collaborar, no desenvolvimento da prosperidade nacional, e na exaltação da fé catholica.No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha não olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a si propria impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve sempre em vista eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os recursos intellectuaes, para associa-la na execução das obras meritorias, que projectava.{221}Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto d'elle uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua memoria da sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento do necessario para a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia Borgia, o papa Alexandre VI, indulgencia plenaria para os enfermos, que lá fallecessem, muito embóra não houvessem contemplado o hospital em seus testamentos.Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos que fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para Lisboa, antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,[9]a qual occupava as casas, de que lhe havia feito doação o infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé, contra o muro velho da cidade.O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes, conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem suppunha fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza do seu pórte, era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas Geraes. As raparigas do sitio sabiam já a hora, a queellepassava para as aulas, ou saía a passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e, ao vê-lo, iam-se-lhe os{222}olhos no galantemoço. Maria Thereza ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava a despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de acompanhar a sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez sorria-se maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam a Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no saber, e até na graça da palestra.Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no acto para licenciado, causou assombro aos mestres.Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito canonico.Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo docente foi logo convida-la, para reger a cadeira,[10]que ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o convite, respondeu: «Sem approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não pósso acceitar encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de que a não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza se façam».Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e Maria Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com que,{223}durante quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade, saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou ás Alcaçovas, onde residia então sua real ama.D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da Abyssinia por creados seus;[11]como, porém, estivesse em preparativos de passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus padecimentos nas caldas de Monchique, ficaram para depois da sua saída, as novas, que D. Leonor queria dar a Maria Thereza.Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á rainha o escrinio, onde guardava aquellas cartas.Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua doença, que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se cada vez peor, desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo tempo tenção de communicar a este, que em testamento o declarava por só e legitimo herdeiro do throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo seu, D. Jorge de Alencastro—que era o filho D. João II e de D. Anna de Mendoça.Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal,{224}d'aqui atravessaria por terra para Alcochete, e seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e pittoresca rainha do Riba-Tejo. Este itinerario, differente do que para si traçára o monarcha, pareceu o mais commodo, por estar D. Leonor ainda convalescente da grave doença, que a pozéra ás portas da morte.Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou D. João II, oumorreu o homem, como sentenciosamente disse Isabel, a Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque, nova certa do fallecimento.Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade de vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos a crêr, que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal era a paixão, que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado principe D. Affonso—quem sabe se nas festas de Evora!...No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e satisfez uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que D. João II havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu cartas para alguns principes do Oriente, incluindo o Préste João, conforme as informações e documentos, que deixára e houvera d'aquellas partes o Principe Perfeito.Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem duvida os de maior transcendencia,{225}que seu irmão praticou no começo do seu reinado.Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega d'esta ao novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso explorador, mas apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma embaixada, que o acreditasse junto do Préste, confirmando as cartas, que lhe levou, e com instancia solicitasse a resposta.Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo, nem gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal sem novas nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por fim primario apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso predominio nos mares levantinos, facil seria estabelecer relações com o abexim, e até este as buscaria.A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan, porque já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não perdia o ensejo, agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio uma grande idéa de Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que o tinha enviado junto d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma solemne embaixada.{226}Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e experiencia de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre VI, do imperador Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma qualidade para a Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o mandamento, por haver fallecido na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis mezes, e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag Segued, e por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso, durante a sua menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só pelos islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre as ruinas do imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os turcos, que sustentados por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos tudo, desde as cumiadas do Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do Egypto, juntando-o ao imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar Vermelho. Djiddah, Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnições de janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses{227}paizes. A mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus effeitos rapidos.Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão terrivel vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu povo, a protecção de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto exaltava, e de cujas victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas contra os mahometanos, já se ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada sempre, como todos os da sua raça, tratou de procurar pessoa, que podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da India, como das coisas que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe perguntava.Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais proprio, do que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com effeito, ao nosso reino, mas secretamente, o embaixador Matheus com cartas da imperatriz em nome do Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz, como signal da fé professada na Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, não dever demorar o delegado da imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando a Diogo Lopes de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu commando conduzisse Matheus á ilha de Massuah.A esquadra, composta de dez náus, largou do{228}porto de Lisboa no dia 27 de março de 1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á Ethiopia com uma embaixada do rei D. Manoel para o Préste. Eram treze as pessoas, que constituiam a comitiva do embaixador, e n'aquelle numero contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do rei.Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a embaixada portugueza.Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao seu destino, depois de longas e arduas jornadas.Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao lembrar-se da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que tinha tomado.Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de muito lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e honradamente sacrificou a vida pelo seu paiz.Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo de Lima, dizia:«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára, até ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a elle, e sabe como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito desejo».{229}Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar Massuah e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o desbaratariam e aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que necessario fôsse emfim, lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar Zeila, porque d'este porto iriam as mercadorias para Aden, Djiddah e toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculoXVI, sem comtudo irmos mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder.Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:Maria TherezaSabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu desejava, ou—porque não direi?—como nós ambos desejavamos.Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei meu Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez, para de longe conversar{230}comvosco, condemnado, como estou a não mais vos vêr, nem ouvir.A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro, ao lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação precisa, e a minha alma se fortaleça com tão duras provações!...De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje, tem El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me unicamente dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre, em merecer o agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando, estudei o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os principaes portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia vir de Portugal á India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão Cairo para aquella cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras indianas, traziam os mouros fortes armadas de muitas náus com grande trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca, fui ver com meus proprios olhos o centro d'este mercado.Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o rabbi Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca no mar Vermelho.{231}Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir visitar acidade santa, como elles fanaticamente chamavam a Mecca, encorporei-me na sua caravana.Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella, senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual decerto moveram mais as vossas orações do que as minhas.Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar pelos meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os seus lugares santos...Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que tive de tomar parte—perdôe-me Deus!—na terra natal de Mohammed. Sómente vos direi, que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira humana!É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam nos bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei dopropheta, e fazem-se negocios importantes.De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo dosancarrão. Atravessei igualmente uma região immensa, adusta e maninha.Terminada a peregrinação, retirei para Yambo,{232}que é no mar Vermelho o porto, que abastece Medina, e alli embarquei logo em um zambuco, no qual me dirigi a Tor.Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé. O Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por onde vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até entrarem na Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés dictou a lei aos hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez brotar um jôrro de agua com o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na caverna do monte Horeb, onde o propheta Elias se escondeu, para escapar á vingança da rainha Jesabel. Percorri emfim toda essa região pedragosa e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz biblico, um dos mais celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de Petrea, que fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional, bem como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os aromas, recebendo em troca os productos da Phenicia.Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui desembarcar em Zeila.Tinha chegado ás portas da Abyssinia.A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma altissima serra,{233}como se fôra inexpugnavel fortaleza. Por cima d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual no espaço de um tiro de bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens a cavallo, indo emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á qual conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo com o prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e perdem-se totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis despenhadeiros abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte e da outra umas como portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que por lá passam com tamanho risco de suas vidas.Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E sabeis vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?—Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar por fiador, me mandaria a Portugal!Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas perder-se-ia tudo quanto{234}tenho feito. Se eu me retirasse, esta gente sempre desconfiada, e em geral de pouca verdade, ficaria tendo-me na conta de um embusteiro; no que não perigava a minha consciencia, mas o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim tomariam por grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome de meu Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere, respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não resolver o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio a natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria comsigo muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder conquistar e conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que ficaria este sem as necessarias para a sua conservação. Prefere decerto Sua Alteza crear e manter as mais pacificas relações de amisade com o Préste.Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de lisonjear-lhes a vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque depois será menos difficil admittirem o meu conselho. Como prouve a Deus, que eu viesse acabar meus dias a{235}este exilio, empregal-os-ei todos no serviço d'El-Rei, e da patria.Fui constrangido a constituir familia, e todavia—crêde-me, Thereza!—vivo em uma solidão immensa!...Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas as suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o verdadeiro lugar do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente o meu coração. E, emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas orações e os nossos votos juntar-se-hão no caminho do céo...Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não ser visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de abatimento, que repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta separação nos não custe, experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu amar-vos menos...Não nos é dado realizar o impossivel!O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára, acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...Adeus.Pero da Covilhan.Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a candida cecem das matutinas{236}lagrimas rociada»; mas tinha ao pé de si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os suspiros, que as entrecortavam.Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e exclamou:—Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as coisas d'esta vida!...—Tambem as ha certas—interrompeu D. Leonor com muito carinho—e uma d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...—Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza me permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da Covilhan: «de outro jámais serei!»—Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes—tornou a rainha—; mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em galanteios!... Emfim é necessario, que penses no teu futuro...—Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a vêr Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle voltasse já não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.—Não póde haver união mais santa—retorquiu com jubilo a rainha—; mas sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...—Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu proposito; anima-me,{237}pelo contrario, a esperança, de que, servindo melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan, orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha fraqueza de o não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois corações...—Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o teu coração de ouro!...Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos, regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do mesmo affecto finissimo.Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia de Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria para immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.{238}Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo para dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus primeiros ensaios em Portugal.Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se votou.Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás mãos de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito, portador o P. Francisco Alvarez:Pero da CovilhanSois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos sacrificios.Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus, fundado em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na minha clausura, onde espéro servir melhor a{239}Deus, do que se ficára no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o Eterno Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção pura, com que lh'as dirijo.Elle vos acompanhe sempre!Adeus.Maria Thereza.Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em Xabregas, onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do mosteiro, á porta da casa do capitulo, foram cobertos seus venerandissimos restos por uma singela lapide, na qual se lia unicamente;AQUI ESTÁ A RAINHAD. LEONOR.Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do glorificado.O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal, que tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das Misericordias.As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se{240}definitivamente no seculoXVI, e conservaram-se até o seculo seguinte.Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande pensamento de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do Nilo, para a banda do mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre aquelle rio e o Atharah, abrindo um novo leito, e entulhando aquelle pelo qual descia para o Egypto. D'esse modo esterelizaria os campos egypcios, que eram os principaes graneis do sultão ottomano.E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de Massuah a 9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado pelo scheick de Zeila.D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o sentir.»Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a morte do seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.Aureos tempos!...Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras em latim,[12]e sendo por{241}isso aurora brilhantissima da renascença das lettras em Portugal.Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá contemplava o Tejo...Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se com ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!...{242}{243}
Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da Abyssinia.
Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o islamismo.{192}
Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?—Ninguem sabia responder; pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido, talvez por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.
Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto, elevado entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao Norte pela Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão africano oriental, a Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas distinctas: a inferior, ou oKolla, em que a temperatura varia de 20 a 40° centigrados, encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical, a fauna e a flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o solo sem cultura; a media, ou oOnaïna Déga, com a temperatura de 15 a 30°, sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a superior, ou oDéga, cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo de zero nas mais altas montanhas.
As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O numero d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens condensadas em volta dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a quem as vê, quanto mais a quem as passa. E raramente se faz jornada, em que não haja necessidade impreterivel de as collear e transpôr; por{193}isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da Covilhan, se houvessem abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão invios caminhos, voltassem para traz.
Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para escalar o Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com agudas arestas a desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os diluvios do tropico tinham cavado corregos profundos. Lá do cume as torrentes, no periodo annual das chuvas, despenham-se com violencia nos valles estreitos, indo engrossar os numerosos cursos de agua, que serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.
Então o Tacazé ouNilo negro, que na bacia hydrographica septentrional recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem banha, vae, sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado impeto. E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ouNilo azul, atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo extenso e tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume, que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.{194}
Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.
Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se fôra em mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o sussurro das florestas proximas é um fundo de concerto, que faz sobresair o canto alegre das aves, como a doce verdura é o fundo da côr, sobre que se destaca o brilho das flores e dos fructos.
Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido, aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto varía, determinada pelas grandes differenças de nivel!
A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune todas as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar, terrenos contrarios no mesmo solo.
O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil apanhar insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo vê massas centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie, para se lhe mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante observar a formação das nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se acima d'ellas.
Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua accusa as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.{195}
Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções extraordinarias, bem como oteff, coberto de flôres purpurinas, e cujo grão oblongo dá uma farinha saborosa.
O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do Sudão, devastam as ceáras, oenséte, que é uma especie de bananeira, cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.
Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos, obrigam a vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua invasão unicamente de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.
O agigantadobaobah, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a palmeira excelsa, okuaracom as suas bellas flôres coralinas, amimosa, ocusco, owansey, cujas flôres alvissimas abrem todas a um tempo, odaro, que escolhe, para os abrigar com a sua sombra benefica, os sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores egualmente frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros massiços de folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais singulares e formosos cambiantes.
No mesmo solo humedecido, e alcatifado de{196}flôres odoriferas, crescem elegantes arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cipó flexivel, os pampanos carregados de uvas pretas, se abraçam ao tronco das arvores protectoras, revestindo-os de gala, subindo até se suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.
E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos passos do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico quadro, uma scena animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle, vivacidade de seus movimentos, agilidade de seu andar; outros pela frescura de suas pennas, graça de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade de suas fórmas. O esmalte das flôres mistura-se com o brilho das folhas, e são apagados ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mórmente da dosonis-manga, oucynnirus splendidus, conforme a denominação scientifica moderna.
Nas regiões mais aridas, ocactus, a especie de euphorbio, denominadakolquall, a palmeira anã, okautuffacoberto de espinhos, dão signal de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são testemunhas das perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, corças, e outros antilopes, como obeni-israil, igualmente elegantes, que logram escapar, por causa da ligeireza dos{197}movimentos e rapidez da carreira, a esses crueis inimigos.
Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem de asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos girátacácheus, a todos esses monstros ferozes, de que é como que patria o continente negro.
Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto, garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas hastes elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do rhinoceronte bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os crocodilos infestam os rios, em cujas margens vôam innumeras aves aquaticas.
No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem oKousso-Brayera anthelmintica, e oGibarra—Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.
Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.{198}
Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não só pela multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham dispostas.
Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos, pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma grande{199}tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos arruamentos milhares de outras, todas brancas.
Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu, por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada sensação no ajuntamento.
Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico—já n'esse tempo a lingua da côrte—que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença d'elle Pero da Covilhan.
Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado da sua côrte.
Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe. O Préste mandou-o{200}levantar, fez-lhe algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de D. João II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse descançar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.
Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.
A côrte compunha-se doBellátimoche goytá, mordomo-mór; doTecácase Bellátimoche-goytá, pequeno mordomo-mór; dos doisBetendet, os validos do imperador; doTitaurári, que fazia o officio de marechal; e outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava diariamente a tenda imperial oAbima, que quer dizer páe, e era o metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha grande auctoridade, oétch'égé, prelado do numeroso clero regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado peloabimaTekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par doabima, havia oLabeata, padre de nomeação imperial. Junto do soberano funccionavam osAzageseUmbares, dezembargadores e{201}ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo immenso de trapaças.
O livro da lei,Fitha Negoust, compunha-se de textos mal traduzidos do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que jurava: amen.
O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que sobre tudo temia.
As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias festivos e para as{202}grandes recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.
Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta, na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar unicamente na direcção dos homens que o antecediam.
Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido, que fazia afastar a gente.
Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita pedraria falsa.
O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.
OTitauráriescolhia o lugar do arraial, assignalando{203}com uma lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um tiro de bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo de um pallio.
Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil; tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não faltava, o que para uma povoação em taes condições se tornava mister.
As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente.
As pessoas pobres dormiam sobre o seuNeté, que era um coiro de boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.
Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á{204}sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa, reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso, puniam-n'o sem julgamento prévio.
Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamadabercutá, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito enfeitados.
Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ásápas, espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a doterauxe a docousio, e que tambem lhes servia de alimento.
Sobre asápascollocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina, chamadasescambiás.
Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca, embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavamberindóa este amargo manjar, um dos mais delicados da sua mesa.
Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o hydromel; que{205}constava de cinco ou seis partes de agua, uma de mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominadosardó, que em cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do mel.
Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com barro e selladas, e denominavam-segombos. Os portadores d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.
Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam da canna para alimento.
Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo escassa a producção de hortaliças.
Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria a quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas, os patos bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas do mato. As perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da mesma côr e feição das nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos; outras, corpulentas como gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as restantes, do tamanho das nossas, differindo d'ellas sómente na côr pardacenta dos bicos e pés.{206}
Appareciam tambem coelhos e lebres.
Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de cidade, nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral abertas; e unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam fronteiras dos gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com perpetuas correrias lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.
Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de refugio. Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o nome degueddame seus governadores o dealikas.
A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes de algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as paredes formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com açoteas em vez de telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por terem as paredes de pedra ligada com argamassa, e o vigamento do tecto ser de aguieiros de cedro tão unidos, que serviam de forro, effectuando-se essa união por meio de cordões de varias côres, que produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de pedra ensôssa até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe muito bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres muito delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda muito aprazivel dos senhores.{207}
Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os orientaes lhes chamamhobesch. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou menos aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes nas veias sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato d'esta palavra, dofoulahoupeulh—raça vermelha, do arabe e do africano puro. N'esta mistura dominam successivamente, segundo as regiões, os typos secundarios mais proximos,bedjas,somali,gallae o syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito, encontrando-se o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém, exangue e sem graça.
Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que se não occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam de pequenos, e n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção leve, e pouco largo, de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno enrolada á cintura. Uma capa de egual tecido mais encorpado, e sobre ella uma pelle de panthéra negra ou de leão. Calçavam alparcatas, e andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal cobria estas até ao joelho.
Em geral a plebe não usava calçado, e o seu{208}vestuario reduzia-se a umas bragas de algodão e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo panno tambem de algodão.
Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para baixo, e d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya, faziam-n'os de teada. Os calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás pernas, e as cabayas, como as dos baneanes, abertas até á cinta, eram abotoadas com botões miudos. Em um collarinho cozido a umas mangas estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofetás de Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, consistia a camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino da terra ou de bofetá.
Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste, emquanto andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os hombros,ainda não estava na graça do Senhor; mas logo que fallasse com o Préste, e saisse da sua tenda vestido,já estava na graça do Senhor.
Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados caprichosos. As mulheres{209}encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre os hombros.
O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo, com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadasbolotás; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso; e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros com zargunchos estreitos, como se foram dardos.
Os mais nobres cingiam espada—de que raras vezes se serviam—com empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns traziam tambem adaga.
Os cavalleiros com sáia de malha—que poucos eram—não se curavam de rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.
Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.
Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.
Além da gente de armas, era muita mais a que{210}seguia o arraial e a bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem asápase o hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles mantimentos aos camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.
Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamadosamalé, cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.
Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras com a corrente das aguas.
A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.
A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.{211}
Junto de um immensodaroelevava-se o templo christão, que era de formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.
Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.
N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a prophecia de David.
Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de judaismo, com traços de budhismo.
Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.
Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se{212}facilmente, que não deixaram discipulos os artistas, que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares, sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.
Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava á porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio, deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a lingua lithurgica.
O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se affirmava.
Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.
O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o contrahia com o tacito{213}ou expresso consentimento de se poderem apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso, das causas de divorcio.
As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia rapada, deixando, porém, crescer as barbas.
Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar, quando iam já distantes.
A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano não podia considerar-se completamente absoluto.
E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:{214}arcyprestes—komosats; conegos—debterats; curas—kasis; vigarios—nefk-kasis; diaconos—diakons; e sub-diaconos—nefk-diakons.
Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas, cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso emfim.
A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar á patria.
Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da sua casa.
Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se{215}perder na obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...
Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade tambem distante!...
E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vêr!...
Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...
A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.
Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem perspectiva.
Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o alfabeto ethiopico do das{216}inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a direita.
O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão aparentado com o egypcio antigo.
Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á porfia procuravam conhecer e servir onovo senhor. O seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou filha,{217}que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em nós um amigo.»
Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade: «Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.»
Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes entregou.
Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente sêdas da India, colchas da China, e arreios de cavallos.
Helena considerava-se a mais ditosa filha da{218}Ethiopia. Sentada ao lado de Pero da Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia, disse-lhe, tomando-o pela cintura, e fitando-o enlevada: «Ha muito, que suspirava por ser vossa!... Como sou feliz!... Agora para sempre ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os corações no amor de Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que eu já quero á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos dodaro, que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que vou viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o buscava!... Amo-te muito!... muito!...»
Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face duas lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...
Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...
—E porque chorava?!...
Pobre coração humano!...{219}
O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D. Leonor de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria a realizar-se. Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de timbrar em progredir no estudo das sciencias, que cursaria na Universidade, e, comquanto a vehemencia do seu desejo de saber não apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o coração, amortece-la-ia ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar, eram no conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse amor.
Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo do amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não tardaria a engrinardar-lhe o nome. Assim o{220}esperava Maria Thereza, e tinha para isso fundamento.
D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança tambem de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas devoções, apenas ella completasse os seus estudos. E, como a formosa rainha era dotada de um espirito não só eminentemente religioso e caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo e pratico, imaginem-se os primores de educação, dada por essa Senhora a Maria Thereza, que logo nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e uma docilidade encantadora!
Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a fazia já sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca do seu vasto plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o qual havia traçado com o fim de collaborar, no desenvolvimento da prosperidade nacional, e na exaltação da fé catholica.
No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha não olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a si propria impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve sempre em vista eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os recursos intellectuaes, para associa-la na execução das obras meritorias, que projectava.{221}
Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto d'elle uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua memoria da sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento do necessario para a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia Borgia, o papa Alexandre VI, indulgencia plenaria para os enfermos, que lá fallecessem, muito embóra não houvessem contemplado o hospital em seus testamentos.
Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos que fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.
Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para Lisboa, antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,[9]a qual occupava as casas, de que lhe havia feito doação o infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé, contra o muro velho da cidade.
O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes, conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem suppunha fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza do seu pórte, era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas Geraes. As raparigas do sitio sabiam já a hora, a queellepassava para as aulas, ou saía a passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e, ao vê-lo, iam-se-lhe os{222}olhos no galantemoço. Maria Thereza ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava a despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de acompanhar a sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez sorria-se maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.
Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam a Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no saber, e até na graça da palestra.
Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no acto para licenciado, causou assombro aos mestres.
Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito canonico.
Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo docente foi logo convida-la, para reger a cadeira,[10]que ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o convite, respondeu: «Sem approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não pósso acceitar encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de que a não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza se façam».
Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e Maria Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com que,{223}durante quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade, saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou ás Alcaçovas, onde residia então sua real ama.
D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da Abyssinia por creados seus;[11]como, porém, estivesse em preparativos de passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus padecimentos nas caldas de Monchique, ficaram para depois da sua saída, as novas, que D. Leonor queria dar a Maria Thereza.
Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á rainha o escrinio, onde guardava aquellas cartas.
Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua doença, que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se cada vez peor, desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo tempo tenção de communicar a este, que em testamento o declarava por só e legitimo herdeiro do throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo seu, D. Jorge de Alencastro—que era o filho D. João II e de D. Anna de Mendoça.
Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal,{224}d'aqui atravessaria por terra para Alcochete, e seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e pittoresca rainha do Riba-Tejo. Este itinerario, differente do que para si traçára o monarcha, pareceu o mais commodo, por estar D. Leonor ainda convalescente da grave doença, que a pozéra ás portas da morte.
Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou D. João II, oumorreu o homem, como sentenciosamente disse Isabel, a Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque, nova certa do fallecimento.
Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade de vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos a crêr, que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal era a paixão, que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado principe D. Affonso—quem sabe se nas festas de Evora!...
No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e satisfez uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que D. João II havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu cartas para alguns principes do Oriente, incluindo o Préste João, conforme as informações e documentos, que deixára e houvera d'aquellas partes o Principe Perfeito.
Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem duvida os de maior transcendencia,{225}que seu irmão praticou no começo do seu reinado.
Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega d'esta ao novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso explorador, mas apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma embaixada, que o acreditasse junto do Préste, confirmando as cartas, que lhe levou, e com instancia solicitasse a resposta.
Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo, nem gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal sem novas nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por fim primario apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso predominio nos mares levantinos, facil seria estabelecer relações com o abexim, e até este as buscaria.
A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan, porque já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não perdia o ensejo, agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio uma grande idéa de Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que o tinha enviado junto d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma solemne embaixada.{226}
Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e experiencia de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre VI, do imperador Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma qualidade para a Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o mandamento, por haver fallecido na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.
Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis mezes, e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.
Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag Segued, e por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso, durante a sua menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.
As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só pelos islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre as ruinas do imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os turcos, que sustentados por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos tudo, desde as cumiadas do Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do Egypto, juntando-o ao imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar Vermelho. Djiddah, Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnições de janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses{227}paizes. A mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus effeitos rapidos.
Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão terrivel vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu povo, a protecção de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto exaltava, e de cujas victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas contra os mahometanos, já se ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada sempre, como todos os da sua raça, tratou de procurar pessoa, que podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da India, como das coisas que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe perguntava.
Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais proprio, do que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com effeito, ao nosso reino, mas secretamente, o embaixador Matheus com cartas da imperatriz em nome do Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz, como signal da fé professada na Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, não dever demorar o delegado da imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando a Diogo Lopes de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu commando conduzisse Matheus á ilha de Massuah.
A esquadra, composta de dez náus, largou do{228}porto de Lisboa no dia 27 de março de 1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á Ethiopia com uma embaixada do rei D. Manoel para o Préste. Eram treze as pessoas, que constituiam a comitiva do embaixador, e n'aquelle numero contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do rei.
Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a embaixada portugueza.
Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao seu destino, depois de longas e arduas jornadas.
Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao lembrar-se da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que tinha tomado.
Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de muito lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e honradamente sacrificou a vida pelo seu paiz.
Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo de Lima, dizia:
«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára, até ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a elle, e sabe como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito desejo».{229}
Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar Massuah e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o desbaratariam e aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que necessario fôsse emfim, lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar Zeila, porque d'este porto iriam as mercadorias para Aden, Djiddah e toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.
Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...
Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculoXVI, sem comtudo irmos mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder.
Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:
Maria Thereza
Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu desejava, ou—porque não direi?—como nós ambos desejavamos.
Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei meu Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez, para de longe conversar{230}comvosco, condemnado, como estou a não mais vos vêr, nem ouvir.
A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro, ao lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação precisa, e a minha alma se fortaleça com tão duras provações!...
De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje, tem El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me unicamente dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre, em merecer o agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.
Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando, estudei o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os principaes portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia vir de Portugal á India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão Cairo para aquella cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras indianas, traziam os mouros fortes armadas de muitas náus com grande trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca, fui ver com meus proprios olhos o centro d'este mercado.
Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o rabbi Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca no mar Vermelho.{231}
Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir visitar acidade santa, como elles fanaticamente chamavam a Mecca, encorporei-me na sua caravana.
Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella, senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual decerto moveram mais as vossas orações do que as minhas.
Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar pelos meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.
Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os seus lugares santos...
Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que tive de tomar parte—perdôe-me Deus!—na terra natal de Mohammed. Sómente vos direi, que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira humana!
É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam nos bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei dopropheta, e fazem-se negocios importantes.
De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo dosancarrão. Atravessei igualmente uma região immensa, adusta e maninha.
Terminada a peregrinação, retirei para Yambo,{232}que é no mar Vermelho o porto, que abastece Medina, e alli embarquei logo em um zambuco, no qual me dirigi a Tor.
Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé. O Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por onde vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até entrarem na Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés dictou a lei aos hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez brotar um jôrro de agua com o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na caverna do monte Horeb, onde o propheta Elias se escondeu, para escapar á vingança da rainha Jesabel. Percorri emfim toda essa região pedragosa e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz biblico, um dos mais celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de Petrea, que fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional, bem como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os aromas, recebendo em troca os productos da Phenicia.
Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui desembarcar em Zeila.
Tinha chegado ás portas da Abyssinia.
A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.
Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma altissima serra,{233}como se fôra inexpugnavel fortaleza. Por cima d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual no espaço de um tiro de bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens a cavallo, indo emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á qual conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo com o prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e perdem-se totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis despenhadeiros abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte e da outra umas como portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que por lá passam com tamanho risco de suas vidas.
Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E sabeis vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?
—Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar por fiador, me mandaria a Portugal!
Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!
A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.
Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas perder-se-ia tudo quanto{234}tenho feito. Se eu me retirasse, esta gente sempre desconfiada, e em geral de pouca verdade, ficaria tendo-me na conta de um embusteiro; no que não perigava a minha consciencia, mas o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim tomariam por grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome de meu Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere, respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não resolver o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.
De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio a natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria comsigo muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder conquistar e conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que ficaria este sem as necessarias para a sua conservação. Prefere decerto Sua Alteza crear e manter as mais pacificas relações de amisade com o Préste.
Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.
Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de lisonjear-lhes a vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque depois será menos difficil admittirem o meu conselho. Como prouve a Deus, que eu viesse acabar meus dias a{235}este exilio, empregal-os-ei todos no serviço d'El-Rei, e da patria.
Fui constrangido a constituir familia, e todavia—crêde-me, Thereza!—vivo em uma solidão immensa!...
Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas as suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o verdadeiro lugar do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente o meu coração. E, emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas orações e os nossos votos juntar-se-hão no caminho do céo...
Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não ser visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de abatimento, que repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta separação nos não custe, experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu amar-vos menos...
Não nos é dado realizar o impossivel!
O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára, acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...
Adeus.
Pero da Covilhan.
Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a candida cecem das matutinas{236}lagrimas rociada»; mas tinha ao pé de si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os suspiros, que as entrecortavam.
Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e exclamou:
—Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as coisas d'esta vida!...
—Tambem as ha certas—interrompeu D. Leonor com muito carinho—e uma d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...
—Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza me permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da Covilhan: «de outro jámais serei!»
—Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes—tornou a rainha—; mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em galanteios!... Emfim é necessario, que penses no teu futuro...
—Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a vêr Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle voltasse já não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.
—Não póde haver união mais santa—retorquiu com jubilo a rainha—; mas sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...
—Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu proposito; anima-me,{237}pelo contrario, a esperança, de que, servindo melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan, orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha fraqueza de o não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois corações...
—Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o teu coração de ouro!...
Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos, regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...
Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do mesmo affecto finissimo.
Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia de Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria para immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.{238}
Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo para dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus primeiros ensaios em Portugal.
Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.
N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se votou.
Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás mãos de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito, portador o P. Francisco Alvarez:
Pero da Covilhan
Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos sacrificios.
Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus, fundado em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na minha clausura, onde espéro servir melhor a{239}Deus, do que se ficára no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o Eterno Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção pura, com que lh'as dirijo.
Elle vos acompanhe sempre!
Adeus.
Maria Thereza.
Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em Xabregas, onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do mosteiro, á porta da casa do capitulo, foram cobertos seus venerandissimos restos por uma singela lapide, na qual se lia unicamente;
AQUI ESTÁ A RAINHAD. LEONOR.
Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!
As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do glorificado.
O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal, que tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das Misericordias.
As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se{240}definitivamente no seculoXVI, e conservaram-se até o seculo seguinte.
Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande pensamento de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do Nilo, para a banda do mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre aquelle rio e o Atharah, abrindo um novo leito, e entulhando aquelle pelo qual descia para o Egypto. D'esse modo esterelizaria os campos egypcios, que eram os principaes graneis do sultão ottomano.
E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de Massuah a 9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado pelo scheick de Zeila.
D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o sentir.»
Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a morte do seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.
Aureos tempos!...
Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras em latim,[12]e sendo por{241}isso aurora brilhantissima da renascença das lettras em Portugal.
Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá contemplava o Tejo...
Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se com ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...
E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!...{242}{243}