ACTO SEGUNDO

ACTO SEGUNDOQUADRO TERCEIROCaza de Vinicio. O tablium ornado com flôres. Perfumadôres no chão.PETRONIOEstavas bebedo, hontem. Não gostei de te vêr. Andaste como um carroceiro dos montes Albanos. Não sejas nunca tão sôfrego. Lembra-te que um bom vinho deve ser bebido lentamente. Porque escravo a mandaste buscar?MARCOSPor Altacino.PETRONIOÉ de confiança?MARCOSDa maior.(passeia agitadíssimo)Que demora!PETRONIOE, faze por lhe alcançares as bôas graças. Pôe-na de bom humôr, para lhe destruires o máu effeito das brutalidades de hontem.MARCOSQue demora!PETRONIOSê generoso, que ella merece-o. É bella! Sê magnanimo!MARCOSDeviam, cá estar, ha meia hora.PETRONIODe certo. Queres tu, para matar o tempo, que te falle das prophecias de Appolonio de Tyana, ou das maximas de Aristóteles, meu mestre, o estheta maximo?MARCOSNão... Deviam já ter chegado.PETRONIOEstá dito... Deviam já ter chegado.MARCOSMalditos escravos. Teem as pernas ankilosadaspor falta de exercicio. Terei de os fazer correr diante das varas.PETRONIOElles não são o amante que espera. Tu não tens paciencia, nem serenidade. É precizo ser distincto, sempre! E, depois, não se traz assim uma princeza, uma filha do rei da Lygia.MARCOSTu zombas?... se fôsse comtigo!PETRONIOAgradeceria aos Deuses o fazer-me prelibar, mais amplamente, uma posse divina.MARCOSA demora não é natural... Eu vou vêr...PETRONIONão percas a tua bella linha esthetica. Espera; não sejas vulgar.(ouve-se ruido)Tanto mais, que me parece que chegam.(o ruido augmenta. Á porta apparecem quatro escravos. Dois d'elles com os rostos ensanguentados)MARCOSOnde está Lygia?OS ESCRAVOSAi, Senhôr!; ai, Senhôr!MARCOSOnde está Lygia?(avança furioso)OS ESCRAVOSVê o sangue, Senhor! Vê o sangue!UM ESCRAVODefendêmo-la, até á ultima.MARCOSQue é d'ella?UM ESCRAVORaptaram-na!MARCOSAh! miseravel.(atira-lhe uma taça á cabeça)Gulon?GULON,appareceSenhôr.MARCOSCem varadas a cada um.OS ESCRAVOSSenhôr, piedade!MARCOSAté a morte!(os escravos sahem, em grita, adiante de Gulon)PETRONIOEstá doido! Vamos ter carnificina. Repugnam-me os talhos. Vale.(sahe)MARCOS,postrado, senta-seMas quem poderia roubar-ma? Quem? Plaucio? Ai d'elle, se o foi! Ai d'elle!... Pedirei a Cezar a sua morte!... E, se foi Cezar? Pelas furias! se foi Néro n'uma das suas nocturnas «pescas de Perolas,» como elle lhes chama?! E, quem podia ser senão, elle, Néro? Quem ousaria oppôr-se á sua vontade? Viu-a hontem, apeteceu-lhe... roubou-ma! Cezar diverte-se comigo! Por Écate, por Érebo, por vós ó Deuses do lar,(toma terra n'um vaso e espalha-a pelo o chão)juro que quem quer que foi, escravo ou imperadôr, mendigo ou Cezar, mato o!(ao introductor, que apparece)O meu manto.O INTRODUCTORActêa deseja fallar-vos.MARCOSActêa? Em bôa hora. Venha.(A Actêa, que entra, agarrando-lhes as mãos)Onde está Lygia?ACTÊAVinha perguntar-t'o.MARCOSNão sei; roubaram-ma no caminho.(junto do rosto d'Actêa, com os dentes cerrados)Actêa, se tens amôr á vida, se não queres ser causa de desgraças, cujo alcance nem podes conhecer, diz-me a verdade: foi Cezar quem m'a robou?ACTÊACezar não sahiu hontem do palacio.MARCOSPela memoria de tua mãi, por todos os Deuses, Lygia não está no Palatino?ACTÊAPela memoria de minha mãi, Lygia não está no Palatino, nem foi Cezar quem t'a robou.MARCOS,cahindo na cadeira, com a cabeça nos punhosEntão foram os Plaucios! Ai d'elles!ACTÊAAulo Plaucio procurou-me, hoje, a saber de Lygia.MARCOSHypocrisia! Se não soubesse d'ella ter-me-hia procurado a mim.ACTÊATambem procurou.MARCOSA mim?ACTÊADe manhã.MARCOSNão o vi, nem me fallou.ACTÊAOs teus servos contaram-lhe o acontecido.(Pausa)Não, Marcos, o que aconteceu, aconteceu por vontade de Lygia.MARCOSTu sabias que ella queria fugir?ACTÊASabia que ella não consentiria em ser tua concubina!MARCOSE... tu? que tens sido toda a tua vida?ACTÊAEu?... És pouco generoso! Eu era uma escrava!MARCOSSeja como fôr. Cezar deu-ma! Descobril-a-hei nem que seja debaixo da terra. Farei d'ella o que eu quizer! A minha concubina... porque não? A minha concubina! Nem que seja precizo chicoteal-a, de dia e de noite! Dal-a-hei, ao ultimo dos meus escravos! Mandal-a-hei atrelar a um moinho da costa d'Africa. Procural-a-hei, eu. Procural-a-ha Cezar, inda que seja precizo empregar todas as legiões.ACTÊATu deliras...! Tem cautella em não metter Cezar, na busca, porque te arriscas a perdel-a para sempre, no dia em que elle a achar.MARCOSComo?ACTÊAOuve, Marcos. Hontem, antes de jantar levei Lygia, para a distrahir, a passeiar nos jardins. Encontrámos Poppêa e a pequena Augusta, sua filha e filha querida de Néro, nos braços da ama negra. Á tarde a creança cahiu doente e Lilith,a ama, diz que foi a estrangeira que a enfeitiçou! Se a creança melhora, tudo esquecerá: se peóra Poppêa será a primeira a accusar Lygia de feiticeria e, encontrada, não terá salvação!MARCOSTalvez que ella enfeitiçasse a creança... e a mim tambem!ACTÊAA negra diz que a pequenita se pôz a chorar logo que passou por nós. É certo, ouvi. Mera coincidencia. Procura-a; mas antes das melhoras da creança não falles de Lygia. Seus olhos choraram, bastante, de mais... por ti!MARCOSPor mim? Disse-t'o ella?ACTÊAEu o vi. As suas lagrimas eram sinceras e a sua dôr sentida. Como velei por ella no palacio de Cezar, quiz valer-lhe, se pudesse, ainda, junto de ti.MARCOSComo?ACTÊAInvocando a tua generosidade para ella.MARCOSZombas de mim: se não sei onde pára...ACTÊAAinda o podes saber: deixa-a em paz.MARCOSNão posso.ACTÊADesposa-a.MARCOSNunca!ACTÊANão é uma escrava, é um refem de guerra: os refens são sagrados.MARCOSConcorreste, já vejo, para o rapto?ACTÊATalvez.MARCOSContra, Cezar.ACTÊANão; contra ti.MARCOSE, dás-lhe razão?ACTÊADefendo-a.MARCOSTu ama-la?ACTÊAQuanto ella merece.MARCOSPorque te não paga, como a mim, o amôr com o desprêzo.ACTÊAHomem cégo, ella amava-te.MARCOSA mim? Que amôr é esse que prefere a vida errante, a indigencia do dia seguinte e talvez uma morte miseravel, a uma vida de riquezas e de alegria? Que amôr é esse, que tem mêdo do prazer e sêde dos sofrimentos? É que ella me odeia, do coração!ACTÊAComo imaginaste captival-a? Em vez de te inclinares diante dos seus pais adoptivos, os Plaucios, e de lh'a pedires para esposa, por surpreza, roubaste lh'a. Era a filha d'um rei, quizeste fazer d'ella a tua concubina! Feriste-lhe os olhos inocentes com o espectaculo da orgia, sem comprehenderes que aquella creança candida preferiria a morte á deshonra! Sabes tu quaes são as suas crenças? sabes que Deus adora? e se esse Deus não é melhordo que essa Vénus impudíca e essa Isis que os Romanos veneram, no seu impudôr? Que te importou tudo isto? A pobre creança, quando fallava de ti, córava: amava-te! Como lhe pagaste a aspiração pura do primeiro amôr? Enchendo-a de espanto, tratando-a como a uma escrava, insultando-a!MARCOSEu não a insultei!ACTÊAironicaGeneroso senhôr... vilmente! Venceste os Parthas, tu? Que é agora um coração de mulher para um famoso guerreiro? Enganaste-te: é mais facil vencer os barbaros. Amava-te; é possivel que te despreze, agora!MARCOSQue me importa? Amo-a eu; quero-a, hei-de tel-a.ACTÊASe ella te não amar, essa satisfação deve ser bem mesquinha. O amôr de dois é um misterio divino: o de um só: uma torpeza! Nobre consul, adeus!PETRONIO,entrando: a Actêa que vae a sahirSalve, divina Actêa.ACTÊASalve, galante Petronio.PETRONIODou-vos graças pela bondade com que tratastes Lygia.ACTÊAFiz o meu dever. Ella tem a candura d'uma virgem e a graça das pombas...PETRONIOQue vôam.ACTÊAOfficio de quem tem azas. Adeus.(sahe)PETRONIOSabes alguma coisa de Lygia? Actêa a que veio?MARCOSSaber d'ella... Não sahiu da cidade. Os meus escravos vigiam as portas. Ella ou o tal gigante, hão-de apparecer.PETRONIOTens sorte em que não seja Cezar o raptadôr. Trago-te uma boa nova.MARCOSQual?PETRONIOEunice, a minha escrava,—desde hontem que reparo que é verdadeiramente bella!—conhece um homem capaz de a descobrir.MARCOSQuem é?PETRONIOUm tal Chilon, médico, sabio, feiticeiro, ou o que é, que lê o destino e prediz o futuro. Mandei-o chamar e trago-t'o. Queres fallar-lhe?MARCOSQue venha.Petronio faz signal para dentro. Chilon entra. É um corcovado, tunica no fio, esburacada, barba e cabelleira intonsas. Sandalias velhas, etc.CHILONSalve, senhores nobilissimos!MARCOSAproxima-te. Sabes bem do que queres encarregar-te?CHILONPelo o que em toda a Roma se falla, não é difficil de adivinhar. Roubaram aos teus escravos, nobre senhôr, Lygia, ou Calina, filha adoptiva dos Plaucios. Encarrego me de t'a descobrir, na cidade ou fóra, onde estiver.MARCOSQue meios tens para isso?CHILONOs meios tens, tu, senhôr. Eu só possúo o genio.PETRONIOÉ homem para a descobrir.MARCOSPrevino-te de que se me enganas para me apanhares dinheiro, mando-te desfazer com varadas.CHILONEu sou um pobre filosofo, senhôr, e um filosofonão pode deixar de pensar na recompensa, sobretudo quando ella pode sêr da especie que acabais de me fazer entrevêr, tão magnanimamente!PETRONIOEntão és filosofo?; mas Eunice disse-me que eras médico ou adivinho. D'onde a conheces?CHILONVeio consultar-me. A minha fama chegou até ella.PETRONIOSobre quê?CHILONMateria d'amôr. Queria curar-se d'um amôr, não partilhado.PETRONIOE, curaste-a?CHILONFiz mais. Dei-lhe um amuleto que faz nascer o amôr reciproco: um fio do cinto da Vénus de Chypre.PETRONIODe que escola és tu, divino sabio?CHILONSenhôr, pelo meu manto em escumadeira, sou um cynico: um estoico, pela paciencia com que soffro a minha miseria: e, porque, como não tenho liteira, tenho de andar a pé, de taberna em taberna, a dar lições aos que me pagam o vinho, sou um peripathetico.PETRONIOGostas de vinho?CHILONHeraclito disse que o vinho era fôgo e que o fôgo era uma divindade!PETRONIODeante da qual o teu nariz se illumina.MARCOSJá te tens empregado em cargos semelhantes?CHILONHoje, senhôr, a virtude e a sabedoria teem tão pouco valôr, que um pobre filosofo se vê forçado a lançar mão de todos os meios de existencia!MARCOSQuaes são os teus?CHILONSaber tudo o que se passa e offerecer os meus serviços a quem preciza d'elles.PETRONIOE pagas-te?CHILONConforme os meus meritos. Que remedio!MARCOSNão devem ser grandes porque te não deram ainda para um manto.CHILONSou modesto, senhôr. O que é pequeno não é o meu merito é a gratidão dos homens. Quando se esconde um escravo de preço quem o descobre? Quem indica os culpados dos pasquins emlouvôrde Poppêa, a divina? Quem descobre nas livrarias os versos contra Cezar? Quem leva as cartas que se não podem confiar aos escravos? Quem faz fallar os barbeiros, os alfaiates, os taberneiros e capta a confiança dos escravos a sabertudo o que se passa n'uma casa, do atrio ao jardim? Quem conhece todas as ruas, praças, bêcos, alfurjas, da cidade? Quem sabe o que se diz, nas thermas, no circo...PETRONIOBasta, por todos os Deuses, illustre sabio, ja sabemos quem és.CHILONE quanto valho.MARCOSBem. Tens necessidade de indicações?CHILONEu? Tenho necessidade de armas.MARCOSQuaes?CHILON,fazendo o gesto de dinheiroOs tempos vão tão máus, para os filosofos...MARCOS,atirando-lhe a bolsaAhi tens.CHILON,apanhando-aComeçamos a entender-nos. Nobre senhor, ouvide: Lygia não foi roubada por Aulo, nemestá no Palatino. O rapto foi feito por Ursus, o gigante seu escravo, e pelos christãos.PETRONIOOuve, Marcos.CHILONLygia adora a mesma divindade que Pomponia, a mais virtuosa das Romanas; é Christã...MARCOSComo o sabes?CHILON,com emphaseSou christão!PETRONIOTu?CHILONDesde hontem, senhôr, desde hontem.MARCOSReflecte Chilon. Tu não és um imbecil. Quererás presuadir-nos de que Pomponia e Lygia pertencem á seita dos inimigos do genero humano, dos envenenadôres, das gentes perdidas nos ultimos vicios?CHILONÉ christã, senhôr, tende a certeza absoluta.PETRONIOO que quer dizer que Pomponia e Lygia envenenam as fontes, immolam as creanças encontradas nas ruas e se entregam ao deboche? Tu que viveste em caza de Aulo vês como isto é uma calumnia ou uma tolice! Ou então os christãos não são o que se diz.MARCOSSeja como fôr. Foi então esse Ursus quem a roubou?CHILONCom os christãos.MARCOSE, encontral-a-has? Saberás onde está?CHILONEsta noite, ainda, trarei noticias.MARCOSDuplicarei a offerta se a achares. Gulon?(para dentro)GULONMeu senhôr.MARCOSDá um manto capaz a esse... filosofo.CHILONNobre consul, sois duplamente generoso: cobrís d'uma vez, com a mesma capa: a Sciencia e a Virtude! Nobre Petronio, vale.(Sahe)PETRONIOAdeus...collega. Não me desagrada o tal filosofo. Descobre Lygia, verás. Mas parece-me bom mandares desinfectar o atrio... A respeito de perfumes a filosofia está muito atrazada... só conhece... os naturaes. Fica-te com os Deuses... Sabes que amanhã é a festa do Lago?MARCOSSei.PETRONIODizem que Vatino inventou maravilhas. Não podes faltar. Cezar poderia notar a tua falta. E... bôas novas, até lá.MARCOSGulon?GULONMeu Senhôr. O jantar?MARCOSO meu manto e o estilete.(paseia agitado)GULONEil-os.(Veste-lhe o manto)Ides só?MARCOS,mettendo o estilete no cintoSó.(Sahe)O PANNO DESCEQUADRO QUARTOSalão no palacio de Néro. Ao fundo um terraço d'onde se vê Roma. Mezas, cadeiras. Anoitece, gradualmente, durante o acto.PETRONIO,a Marcos que vai a passar ao fundoDou graças aos Deuses, nobre consul, por te saber ainda vivo.MARCOSAh! Petronio.PETRONIONem me vias. D'onde te desenterraste? Em tua caza, em parte alguma se sabia onde estavas. Alguma Deusa te raptou para a sua morada?MARCOSTalvez.PETRONIOMas tu estás mal, meu sobrinho, muito mal. É evidente que Vénus te perturbou o espirito e te faz perder a razão! Por Pollux, se a chama que te consome te não reduz a cinzas, tu metamorfoseias-ten'aquella esphinge do Egypto, que dizem que perdida d'amôr pela Lua, se tornou indifferente ao dia, de modo a só esperar a noite, para poder com os olhos de pedra, namorar a amante!MARCOSOxalá me transformasse em esphinge!PETRONIO... Se não sou eu, na ultima vez que nos vimos, na festa do lago, ou tinhas de transformar-te em esfinge... ou eras um homem perdido.MARCOSComo assim?PETRONIOQuem era a mulher que, no bosque de Diana, te queria levar para entre as sombras?MARCOSA mulher mascarada?PETRONIOSim.MARCOSNão sube, nem quiz.PETRONIOEra Poppêa.MARCOSHeim?PETRONIOChamei-te a tempo. Ella fugiu. Se n'esse momento lhe negas o amôr, que era feito de ti?MARCOSTel-o-hia recuzado.PETRONIOEvitei essa asneira a tempo; mas a hesitação que mostraste, valeu-te o seu odio. As mulheres não perdôam, nunca, essas coisas... e então Poppêa...! Acautela-te.MARCOSDesprezo-a.PETRONIOA pequena Augusta morreu...MARCOSQue me importa?PETRONIOA morte atribue-se aos feitiços de Lygia.MARCOSImbecís!PETRONIOE, a proposito... Lygia?MARCOSTu não calculas, Petronio, o que me tem acontecido.PETRONIOMas diz. Tens-me causado sustos. Sabes que te quero...MARCOSN'essa noite... a do Lago, quando cheguei a caza esperava-me Chilon.PETRONIOO filosofo?MARCOSO tal. Sabia de Lygia, vinha propôr-me o raptal-a. Concordei. Fomos, eu, elle e Croton, o gladiadôr, embuçados, ao Ostrianum, o velho cemiterio, á sahida da porta Capuana. Alli se reunem escondidamente os Christãos e lá ouvi Paulo, o apostolo, pela primeira vez. Lygia estava junto d'elle, envolta n'um manto escuro, embebida, aouvil-o, n'uma allucinação de todo o seu sêr, arrebatada, divina! Se tivesses visto a sua figura d'uma belleza ideal...PETRONIOAdiante.MARCOSTodo o meu amôr renasceu com a furia d'um toiro das Hespanhas. Jurei tel-a. Alli, era perigoso: os christãos eram alguns centos. Seguimo-la até a caza, á sahida. Uma velha caza, no bairro do Transtiberino. Entrou n'um pateo com o velho apostolo e esse Ursus, o escravo gigante, que a não larga, nunca. Escondemo-nos n'um corredôr á espera de occasião propicia, eu e Croton, porque o filosofo não sendo capaz de entrar... ficou de vigia, na rua. Ursus veio buscar agua á cisterna do pateo. Era occasião: virei-me para Croton e disse-lhe: matta. O gladiadôr atirou-se ao escravo como um tigre; eu corri pelo corredôr, empurrei a porta entreaberta, agarrei Lygia ao collo e corri para fóra. Desmaiára.PETRONIOBello grupo dariam para um rapto.MARCOSAo chegar ao pateo eis o que eu vi. Ursus dominavaCroton vergado sobre um joelho, apertando-lhe, com uma das mãos, o pescoço. O gladiadôr tinha um estertôr na garganta, os olhos sahiam-lhe das orbitas! Ao vêr-me, Ursus, applicou sobre o peito de Croton um murro tal que este rolou pelo chão, de bôcca aberta, jorrando sangue. Estava morto!PETRONIOPor Hercules, que esse homem merece uma estatua.MARCOSDe chofre, voltou-se para mim, agarrou-me este braço e partiu-m'o.PETRONIODepois?MARCOSNão me lembra senão d'uma voz, feita de todos os sons das citharas, dizer: Ursus, não mates! Quando acordei estava n'uma cama e vigiava-me uma pobre viuva, um filho e... ella!PETRONIOE foi ella quem te tractou?MARCOSTratou-me um medico; mas salvou-me, ella! Que cuidados, que dedicação, dias e noites! Contandomesmo as horas dolorosas da doença, passei, alli, os melhores dias da minha vida. O apostolo, contava toda a vida e morte de Cristo, seus milagres e douctrina. Vi os mais bellos exemplos de caridade, de amôr e de perdão! Se tu o ouvisses!PETRONIONão me faltava mais nada! O que faz o amôr! Começavas a achar essa religião adoravel, porque era a de Lygia.MARCOSTalvez.PETRONIOÉ assim. O amôr transforma as pessôas completamente, opiniões e gostos. Como a mim me está acontecendo. D'antes só gostava do perfume da verbena; lembras-te? Hoje, como a bella Eunice prefere o das violetas, é d'este que eu gosto mais.MARCOSEunice?PETRONIOSim, Eunice. Ah! tu não sabias ainda... Tenho que te agradecer aquella recuza... É uma maravilha de esthetica, a loira Eunice! Uma obra de Praxiteles...!MARCOSE a tua Chrisotémis?PETRONIOMandei-lhe umas sandalias bordadas a perolas... É como quem diz: vai passeiar. É o meu processo; ellas já sabem. Chrisotémis, francamente, era contemporanea da guerra de Troia. E, afinal, melhoraste, sahiste... e o que é feito da tua Lygia?MARCOSFugiu-me.PETRONIOOutra vez?MARCOSNo dia em que me levantei, ella sahiu.PETRONIOTinha mêdo de ti?MARCOSTinha mêdo de si, propria.PETRONIOÉ extraordinario!MARCOSDizes bem. Ella não é como as outras mulheres!PETRONIOAh! não? Então não perdes nada com a abstinencia.MARCOSNão podemos entender-nos.PETRONIODecerto, não. Que o Hades confunda esses christãos que te fazem perder o senso commum.MARCOSTu não conheces a sua doutrina.PETRONIOEnganas-te, conheço. Já li as taes cartas de Paulo de Tarso. Babozeiras. É uma doutrina anti-humana: porque a felicidade só vem da belleza, do amôr, e da força! A isto, chama elle, vaidades! E que theorias! Retribuir o mal com o bem... Que justiça! O que devemos ao bem? Se a sanção é a mesma para o bem e para o mal, porque seriam os homens bons?MARCOSSegundo elles a sanção começa na vida futura, eterna.PETRONIOIsso são coisas a verificar... depois da morte.MARCOSA vida para elles começa com a morte.PETRONIOÉ natural. É como se se dissesse: o dia começa com a noite! Vais raptar Lygia outra vez?MARCOSNão. Prometti-o.PETRONIOTens tenção de adoptar a doutrina christã?MARCOSQuerel-o-hia; mas toda a minha natureza se oppõe.PETRONIOEmfim, és capaz de esquecer Lygia?MARCOSNunca!PETRONIOEntão vai... viajar.(entram escravos com amphoras e taças que collocam nas mezas do 1.º salão e nas da varanda)Vem Cezar. O que vieste fazer?MARCOSCezar mandou-me convidar para a leitura da Tróiada.PETRONIOTambem? E... se elle te perguntar por Lygia?MARCOSNão sei...PETRONIODize-lhe... que a tens guardada... que esta ausencia... foi a lua de mel.Entra Cezar, Poppêa, Tigelino, Vitelio, Senecion, Vatino etc. escravos. Poppêa sobe para o terraço, com outras damas, onde bebem. Os éphebos galanteiam, etc.NÉRO,aborrecidissimoSalve, Petronio. Inda bem que chegaste. Creio que vou morrer de tédio, de aborrecimento! A minha viagem á Grecia, adiada!PETRONIOPorquê?NÉROVesta, a propria Deusa, me avisou, no templo. Venho agora de lá. Tão ao ouvido me disse: addia a viagem, que me assustou.TIGELINOFicámos todos aterrados. A vestal Rubria desmaiou.NEROQue linda garganta que tem Rubria! Que branca!(bebe)Eu precizo distrahir-me. Vinheis ouvir o poema! Não posso lêr! Nem cantar! Nem tenho paciencia. Não posso ficar em Roma, irei para Ancio. Abafo, n'estes bairros apertados, no meio de cazas que se desmuronam, de ruellas immundas. Um ar empestado chega até aos jardins, chega até aqui! Porque não houve, nunca, um tremôr de terra que destruisse Roma? Se um Deus, na sua colera, a nivelasse com a terra, eu ensinaria como se edificava uma cidade para capital do mundo!TIGELINONão dizes, tu, Cezar: se um Deus destruisse a cidade?NÉROSim e então?TIGELINONão és, tu, um Deus?SENECIONPodes fazel-o.VATINOFal-o.NÉRO...Não lerei o meu poema! O meu incendio de Troia flameja timidamente! Julgava que egualaria Homero e tinha ficado contente.PETRONIONão o egualaste?NÉRONão...! Um esculptor quando por esculpir a estatua de um Deus, escolhe um modêlo. Nunca vi arder uma cidade, não o posso pintar.PETRONIOMas tens genio para tanto se o quizeres fazer, Cezar. Aposto que os teus versos...NÉRONão, não. Responde-me a uma questão, Petronio. Tens pena que tenha ardido Troia?PETRONIOPena de quê? Por Marte, pelo contrario. Tróia não teria ardido sem o fôgo dado por Prometheu aos homens e sem os gregos terem declarado a guerra a Priamo. D'ahi veio que Eschylo escreveu o seu Prometheo e Homero a Illiada. Quero mais a estes dois poemas do que á tal Troia, provavelmente uma villoria de cazas de madeira, velhas e sujas!NÉROEis o que é fallar com tino. Á poesia e á arte tem-se obrigação de sacrificar, tudo. Felizes os Gregos que deram a Homero o assumpto do seu poêma! Feliz Priamo que viu as ruinas da sua patria!... Eu nunca vi uma cidade em chamas!Silencio geral de receio.VITELIO,avinhadoNem eu!; mas se fosse Cezar e a quizesse vêr, via-a!TIGELINOEra facil.PITAGORASPoppêa e as damas, Cezar, pedem-te para vires cantar.PETRONIOAproxima-se a noite, o sol agoniza, a tarde é bella, o ar cheio de perfumes dos jardins. Á natureza só falta um cantico...MARCOSO teu, Cezar!NÉROÉ cêdo ainda.(olha para Tigelino, misteriosamente)É cêdo, ainda.VITELIOEu adoro a musica.PETRONIODas taças.NÉRODize-me, Petronio, que pensas tu da musica?PETRONIOA tua, sobretudo, quando a oiço, faz-me sentir um mundo de prazeres novos. A musica é um mar, onde á onda succede a onda, á agua, agua semfim, até... ao infinito...! e é sempre impossivel vêr a outra margem.NÉROÉ assim que eu penso da musica. Quando canto e tóco, eu, Cezar, senhôr do Mundo, descubro reinos desconhecidos, mares virgens, mundos nunca sonhados! Vejo os Deuses! subo ao Olimpo! Um sôpro estranho passa, a esphera vibra em roda de mim e dir-te-hei(leva Petronio, pelo braço, para o lado)que eu, Cezar e Deus(muito baixo)me sinto tão pequeno como um grão d'areia!PETRONIOSó os grandes artistas se sentem pequenos deante da belleza!NÉROMorro de aborrecimento, aqui! Ouve: imaginas que sou cégo ou idiota? Pensas que não sei que por essa Roma pregam, todos os dias, inscripções injuriosas, pelas esquinas? que me chamam matricida, assassino de meu irmão, e de minha mulher? Que me chamam algoz, porque tenho morto a meus inimigos?... Um homem bom póde ser cruel?PETRONIOPóde.NÉROEis o meu caso. Quando a musica acalenta a minh'a alma, eu sinto-me tão bom como uma creança no bêrço.PETRONIOOs Romanos nunca vos souberam apreciar.NÉROOs Romanos! Como eu odeio os Romanos!(Vai á meza beber. Anoitece mais)Tigelino?VITELIOSahiu. Disse que ia mandar accender as lampadas.NEROAh! sim... Escurece.PITAGORASCezar, o cantico?(ao fundo)CEZARAinda é cêdo...(Desce a Petronio)Sou em tudo um artista. A musica abre-me as portas d'uma prespectiva indizivel; devo aos Deuses o explorar esse infinito! Para ascender ás regiões olimpicasnão será precizo, primeiro, praticar algum prodigioso acto propiciatorio?PETRONIONão te entendo, Cezar.NÉRO,baixoPara abrir as portas do mundo desconhecido, eu quiz fazer o maior sacrificio que pode fazer um homem: minha mulher... minha mãi... foi para isso que ellas morreram! Mas é precizo um sacrificio ainda maior para abrir as portas do Olimpo! Cumpra-se a vontade dos Oraculos!PETRONIO...Qual é o teu projecto?NÉROVais vêr... de aqui a pouco.(sobe)PETRONIO,aparteExtranho-o.NÉRO,bebe e desceMas, antes, vê bem que ha dois Néros: um o que os homens conhecem; o outro o que só tu conheces: o que mata como a Morte e o que delira como Bacho! E, mata, porque odeia a baixeza, tudo o queé vil e lhe repugna tudo o que não merece a vida! E mata e elimina!... Como a vida será pequena quando eu desapparecer!PETRONIOComprehendo o teu coração e as tuas máguas!NÉROComo o meu coração é, por vezes, negro! Como este mundo e esta terra são pequenos, mesquinhos, para mim! Mas, quanto eu puder, aniquilarei esta vida, e esmagarei este mundo!(Subito Roma apparece incendiada por diversos lados. Ouve-se ruido ao longe. Pitagoras, desce)PITAGORASCezar, Roma está a arder!PETRONIOQuê?TODOS,levantando-se e olhandoA ardêr?NÉROÓ Deuses immortaes!... eu vos dos dou graças!.. Posso em fim vêr uma grande cidade em chammas! Posso acabar o meu canto!VOZES,do fundoCezar? Cezar?NÉROAh! É agora o momento. A minha cithara?(Sobe)UM CENTURIÃO,entrando rapidoDivino imperador?NÉROQuê?CENTURIÃOA cidade é um oceano de chamas! Os homens cahem asfixiados! O terrôr enloquece!NÉROÉ a vontade dos Deuses! A minha cithara?(Trazem-lh'a. Terpnos, Diodoro e os musicos correm)Ó Deuses, que espectaculo sublime! Graças, por poder vêr, como Priamo, o incendio de minha patria! Agora, vou cantar!(sobe)MARCOSCenturião, sabes tu se o bairro do Transtevero, foi invadido, já?CENTURIÃOTodo, Senhôr. Foi o primeiro.MARCOSMaldicção! Se ella morreu...(sahe, doido)(O incendio generalisa-se. De todos os lados do palacio corre gente para o terraço. Néro sobe os degráus e de cithara em punho, acompanhado, canta)NÉROBerço de meus pais,Roma divina!Quanto eras caraÁ minh'alma!...O ruido, ao longe, cresce. Ouvem-se os rugidos das féras. O panno desce.FIM DO SEGUNDO ACTOACTO TERCEIROQUADRO QUINTOSala no palacio de Néro. Néro e Poppêa, Vinicio, Tigelino, Petronio, Vitelio, Senecion e Vatino.NÉRO,descendoHa tres dias que componho o meu poema. Não posso perder tempo. Sejamos breves. Roma está exaltada?TIGELINOGravemente.NÉROA animadversão cresce?TIGELINOCada vez mais.NÉROO Senado?TIGELINOIndignadissimo contra ti.NÉROÓ o Senado! Reedificarei a cidade! Dar-lhe-hei uma outra digna do povo romano; que mais quer?TIGELINOMas as miserias, as mortes causadas...NÉRONão abri os meus jardins ao povo? Não tem elle que comer, á farta?TIGELINOOs pequenos estão satisfeitos. Os grandes...NÉROÉ preciza uma decisão rapida. Que havemos de fazer, o que será conveniente...? A tua opinião, Petronio.PETRONIOVamos para a Grecia e depois para o Egypto.SENECIONÉ facil partir: voltar é que não será tão facil.PETRONIOPor Hercules, voltaremos, se fôr precizo, á frente das legiões da Asia!NÉROAssim, farei.TIGELINOEscuta-me, Cezar. O conselho é desastroso. Antes de chegares a Ostia, rebentará a guerra civil. E sabes, tu, se algum vago descendente do divino Augusto, se não se fará proclamar imperador?NÉROFarei que nenhum exista. Tu sabes como.TIGELINOMas será um outro. Hontem, os meus soldados ouviram dizer á multidão que se devia proclamar alguem, como Thrazéias!NÉROPovo insaciavel e ingrato! Que mais quer?TIGELINOA vingança.NÉROA vingança?... quer victimas?(Pausa e silencio)Se nós lançassemos a nova de que foi...(olhando-os)Vatino, quem incendiou a cidade?VATINO,empalidecendoEu?... Quem sou eu, ó divindade...?NÉROTens razão. É preciso alguem mais importante.(circunvagando o olhar): Vitelio!VITELIO,riso amarelloAs minhas banhas farão rebentar um novo incendio.NÉROTigelino?... Tigelino, fôste tu que incendiaste Roma!TIGELINO,audazPor tua ordem, Cezar!NÉROÉs meu amigo?TIGELINOTu o sabes, Senhôr.NÉROBem. Sacrifica-te por mim.TIGELINO,hypocritamenteEu bem o quizera, Senhôr; mas não posso fazêl-o.(ironico)O povo murmura e revolta-se. Queres tu que a guarda pretoriana faça o mesmo, pelo seu chefe?UM ESCRAVOA divina Augusta deseja fallar-te, Tigelino.TIGELINO,a CezarPermittis?(Cezar, faz signal aprovativo. Tigelino sahe)NÉROAqueci uma serpente no seio!(a Petronio)Vamos, falla tu. Confio em ti. Tens mais senso do que todos elles juntos e és meu amigo.PETRONIOVamos para a Grecia.NÉROEsperava mais do teu juizo. Se parto quem me garante que o senado não proclame outro imperadôr? O povo era-me fiel... não é. O senado!... Ah! se este povo e este senado tivesse uma cabeça, só!PETRONIOSe queres conservar Roma, Cezar, é precizo deixares alguns Romanos.NÉRORoma, os Romanos, que me importam? Escutar-me-hiam na Helada! Ao redor de mim, aqui, não ha, senão traição!(subito)Petronio, a plebe murmura pelas praças... se eu fôsse ao Campo de Marte e cantasse o meu hymno; o que cantei durante o incendio... não poderia, eu, como Orpheu, encantal-os?VATINOA difficuldade, Cezar, era elles deixarem-te principiar.NÉROPois vamos para a Grecia.POPPÊA,entrando com TigelinoOuve-me, Cezar. O povo quer uma vingança e uma victima! Que digo eu? uma? centenas, milhares! Existem as que o devem sêr, devem-se-lhe. Ignoras que na cidade se acoita um exercito de christãos? Não os conheces? Não te fallei, eu, tanta vez dos seus crimes e das suas infames cerimonias?das suas profecias segundo as quaes o mundo acabará pelo fôgo? O povo, instintivamente, odeia-os e suspeita d'elles. Ninguem os vê nos templos, no circo, nas corridas! Murmura contra ti e não fôste, tu, Cezar, nem eu, quem incendiou a cidade! Foram elles! É preziso dizêl-o. Viram-nos levando nas mãos as tochas incendiarias! O povo tem sêde de vingança? dá-lha. O povo quer circo, quer sangue? dá-lh'o! Conheces os culpados! manda!PETRONIOa Marcos, aparteA caça a Lygia.PETRONIOCoragem!NÉRO,levantando as mãos ao ceuOh! Zeus, Appolo, Hera, Actréa, vós, todos, ó Deuses immortaes, porque nos não socorresteis? Que tinha feito essa bella Roma, a esses energumenos?TIGELINOVinga-a!VATINOFaz justiça!NÉROQue castigo terrivel, que torturas serão bastantespara punir tal crime? Com a ajuda das potencias do Tartaro, darei ao meu povo um tal espectaculo, que d'elle se falará, em Roma, pelos seculos dos seculos!PETRONIO,aparteQue Cezar bandido!(olhando Marcos, que passeia louco)É precizo salvar Lygia. Ou me perco, ou a salvo.(approximando-se galante, natural, brincando com a tunica gracioso)Assim... encontrastes as victimas? bem; mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos pretorianos, tendes a fôrça! Então sêdes leaes. Entregai os christãos ao povo, supliciais-os; mas confessai primeiro que não foram elles que incendiaram Roma! Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas as elegancias dir-vos-hei, que não supporto tão miseraveis comedias!(Pasmo)Com relação a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da posteridade, reflecte o que ella dirá de ti! Pela divina Clio! Néro-Senhôr do mundo, Nero-Deus queimou Roma porque era tão formidavel na Terra, como Zeus no Olympo! Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que lhe sacrificou a Patria! Desde o principio do mundo, ninguem ousou pensar em tão extraordinaria coisa! Tu o fizeste, esta gloria é tua, não arenegues. Ao pé de ti o que será Priamo, Agamenon, Achilles? os proprios Deuses? Coragem. Livra-te de abdicações indignas; porque então a posteridade poderá dizer-te: Nero queimou Roma; mas tão pussilamine Cezar, como pussilanime poeta, negou o facto, e atirou, cobardemente, a falta por sobre os innocentes! Tal acção não honrará a tua memoria!TIGELINOSenhôr, dá-me licença para que sáia. Aconselham-te a lançares-te no maior perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante... Os meus ouvidos recuzam se a ouvir mais.PETRONIO,aparteCezar hesita? Estou perdido!(a Tigelino)Tigelino, a ti é que eu chamei comediante, porque o és, ainda n'este momento.TIGELINOPorque não posso escutar as tuas injurias?PETRONIOPorque figuras um grande amôr por Cezar e ainda ha pouco, ouvimo-lo todos e elle, o ameaçaste com a guarda de pretorianos.POPPÊACezar, como permittes que taes pensamentos venham a alguem e que esse alguem os diga deante de ti?NÉROÉ assim que tu sabes reconhecer a amizade que sempre te tive?MARCOS,apartePetronio perdeu-se por mim!PETRONIOSe me enganei, Cezar, mostra-me o meu erro; mas sabe que te disse o que me ditou a lealdade que, emfim, te devo!POPPÊARenova os insultos.TIGELINOPunide-o, Senhôr.VATINOCastigai o insultadôr.VOZESCastigai-o!(affastam-se de Petronio)NÉROQuereis que o puna? Foi sempre o meu companheiro e meu amigo! Feriu-me o coração; mas quero que elle saiba que este coração só tem para os amigos, o perdão.PETRONIO,aparteConheço o teu perdão!(alto)Cezar!(inclinando-se, faz signal a Marcos, e sahem.)POPPÊAQuereis ouvir as testemunhas?NEROQue venham.Um escravo sahe e traz dois rabinos de longas togas e mitras, um escriba e Chilon.1.º RABINOSalve, monarcha dos monarchas, rei dos reis!2.º RABINOSalve, Senhôr do mundo!CHILONSalve, Cezar, Leão entre os homens! tu cujo reinoé semelhante á claridade do sol, ao cedro do Libano, ao balsamo de Jerichó!NÉROAccusais os christãos de terem incendiado Roma?1.º RABINONós, Senhôr, só os accusamos de serem inimigos dos homens, e inimigos de Roma. De terem muita vez ameaçado a cidade e o mundo, com o fogo do céu! O resto dil-o-ha este homem, de cujos labios nunca sahiu a mentira, porque nas veias de sua mãi corria o sangue do povo escolhido!NÉROQuem és, tu?CHILONO teu cão fiel, divino Osiris! Um pobre estoico!NÉRODetesto os estoicos: o seu desprezo pela arte e a sua linguagem repugnam-me; como a sua miseria e falta d'aceio. Por isso mandei matar Musonio...CHILONSenhôr, eu sou um estoico por necessidade. Cobreo meu estoicismo, ó Resplandecente, com uma corôa de rozas e poê-lhe, deante, uma taça de vinho e elle cantará Anacréonte!NÉRO

Caza de Vinicio. O tablium ornado com flôres. Perfumadôres no chão.

Estavas bebedo, hontem. Não gostei de te vêr. Andaste como um carroceiro dos montes Albanos. Não sejas nunca tão sôfrego. Lembra-te que um bom vinho deve ser bebido lentamente. Porque escravo a mandaste buscar?

Por Altacino.

É de confiança?

Da maior.(passeia agitadíssimo)Que demora!

E, faze por lhe alcançares as bôas graças. Pôe-na de bom humôr, para lhe destruires o máu effeito das brutalidades de hontem.

Que demora!

Sê generoso, que ella merece-o. É bella! Sê magnanimo!

Deviam, cá estar, ha meia hora.

De certo. Queres tu, para matar o tempo, que te falle das prophecias de Appolonio de Tyana, ou das maximas de Aristóteles, meu mestre, o estheta maximo?

Não... Deviam já ter chegado.

Está dito... Deviam já ter chegado.

Malditos escravos. Teem as pernas ankilosadaspor falta de exercicio. Terei de os fazer correr diante das varas.

Elles não são o amante que espera. Tu não tens paciencia, nem serenidade. É precizo ser distincto, sempre! E, depois, não se traz assim uma princeza, uma filha do rei da Lygia.

Tu zombas?... se fôsse comtigo!

Agradeceria aos Deuses o fazer-me prelibar, mais amplamente, uma posse divina.

A demora não é natural... Eu vou vêr...

Não percas a tua bella linha esthetica. Espera; não sejas vulgar.(ouve-se ruido)Tanto mais, que me parece que chegam.(o ruido augmenta. Á porta apparecem quatro escravos. Dois d'elles com os rostos ensanguentados)

Onde está Lygia?

Ai, Senhôr!; ai, Senhôr!

Onde está Lygia?(avança furioso)

Vê o sangue, Senhor! Vê o sangue!

Defendêmo-la, até á ultima.

Que é d'ella?

Raptaram-na!

Ah! miseravel.(atira-lhe uma taça á cabeça)Gulon?

Senhôr.

Cem varadas a cada um.

Senhôr, piedade!

Até a morte!(os escravos sahem, em grita, adiante de Gulon)

Está doido! Vamos ter carnificina. Repugnam-me os talhos. Vale.(sahe)

Mas quem poderia roubar-ma? Quem? Plaucio? Ai d'elle, se o foi! Ai d'elle!... Pedirei a Cezar a sua morte!... E, se foi Cezar? Pelas furias! se foi Néro n'uma das suas nocturnas «pescas de Perolas,» como elle lhes chama?! E, quem podia ser senão, elle, Néro? Quem ousaria oppôr-se á sua vontade? Viu-a hontem, apeteceu-lhe... roubou-ma! Cezar diverte-se comigo! Por Écate, por Érebo, por vós ó Deuses do lar,(toma terra n'um vaso e espalha-a pelo o chão)juro que quem quer que foi, escravo ou imperadôr, mendigo ou Cezar, mato o!(ao introductor, que apparece)O meu manto.

Actêa deseja fallar-vos.

Actêa? Em bôa hora. Venha.(A Actêa, que entra, agarrando-lhes as mãos)Onde está Lygia?

Vinha perguntar-t'o.

Não sei; roubaram-ma no caminho.(junto do rosto d'Actêa, com os dentes cerrados)Actêa, se tens amôr á vida, se não queres ser causa de desgraças, cujo alcance nem podes conhecer, diz-me a verdade: foi Cezar quem m'a robou?

Cezar não sahiu hontem do palacio.

Pela memoria de tua mãi, por todos os Deuses, Lygia não está no Palatino?

Pela memoria de minha mãi, Lygia não está no Palatino, nem foi Cezar quem t'a robou.

Então foram os Plaucios! Ai d'elles!

Aulo Plaucio procurou-me, hoje, a saber de Lygia.

Hypocrisia! Se não soubesse d'ella ter-me-hia procurado a mim.

Tambem procurou.

A mim?

De manhã.

Não o vi, nem me fallou.

Os teus servos contaram-lhe o acontecido.(Pausa)Não, Marcos, o que aconteceu, aconteceu por vontade de Lygia.

Tu sabias que ella queria fugir?

Sabia que ella não consentiria em ser tua concubina!

E... tu? que tens sido toda a tua vida?

Eu?... És pouco generoso! Eu era uma escrava!

Seja como fôr. Cezar deu-ma! Descobril-a-hei nem que seja debaixo da terra. Farei d'ella o que eu quizer! A minha concubina... porque não? A minha concubina! Nem que seja precizo chicoteal-a, de dia e de noite! Dal-a-hei, ao ultimo dos meus escravos! Mandal-a-hei atrelar a um moinho da costa d'Africa. Procural-a-hei, eu. Procural-a-ha Cezar, inda que seja precizo empregar todas as legiões.

Tu deliras...! Tem cautella em não metter Cezar, na busca, porque te arriscas a perdel-a para sempre, no dia em que elle a achar.

Como?

Ouve, Marcos. Hontem, antes de jantar levei Lygia, para a distrahir, a passeiar nos jardins. Encontrámos Poppêa e a pequena Augusta, sua filha e filha querida de Néro, nos braços da ama negra. Á tarde a creança cahiu doente e Lilith,a ama, diz que foi a estrangeira que a enfeitiçou! Se a creança melhora, tudo esquecerá: se peóra Poppêa será a primeira a accusar Lygia de feiticeria e, encontrada, não terá salvação!

Talvez que ella enfeitiçasse a creança... e a mim tambem!

A negra diz que a pequenita se pôz a chorar logo que passou por nós. É certo, ouvi. Mera coincidencia. Procura-a; mas antes das melhoras da creança não falles de Lygia. Seus olhos choraram, bastante, de mais... por ti!

Por mim? Disse-t'o ella?

Eu o vi. As suas lagrimas eram sinceras e a sua dôr sentida. Como velei por ella no palacio de Cezar, quiz valer-lhe, se pudesse, ainda, junto de ti.

Como?

Invocando a tua generosidade para ella.

Zombas de mim: se não sei onde pára...

Ainda o podes saber: deixa-a em paz.

Não posso.

Desposa-a.

Nunca!

Não é uma escrava, é um refem de guerra: os refens são sagrados.

Concorreste, já vejo, para o rapto?

Talvez.

Contra, Cezar.

Não; contra ti.

E, dás-lhe razão?

Defendo-a.

Tu ama-la?

Quanto ella merece.

Porque te não paga, como a mim, o amôr com o desprêzo.

Homem cégo, ella amava-te.

A mim? Que amôr é esse que prefere a vida errante, a indigencia do dia seguinte e talvez uma morte miseravel, a uma vida de riquezas e de alegria? Que amôr é esse, que tem mêdo do prazer e sêde dos sofrimentos? É que ella me odeia, do coração!

Como imaginaste captival-a? Em vez de te inclinares diante dos seus pais adoptivos, os Plaucios, e de lh'a pedires para esposa, por surpreza, roubaste lh'a. Era a filha d'um rei, quizeste fazer d'ella a tua concubina! Feriste-lhe os olhos inocentes com o espectaculo da orgia, sem comprehenderes que aquella creança candida preferiria a morte á deshonra! Sabes tu quaes são as suas crenças? sabes que Deus adora? e se esse Deus não é melhordo que essa Vénus impudíca e essa Isis que os Romanos veneram, no seu impudôr? Que te importou tudo isto? A pobre creança, quando fallava de ti, córava: amava-te! Como lhe pagaste a aspiração pura do primeiro amôr? Enchendo-a de espanto, tratando-a como a uma escrava, insultando-a!

Eu não a insultei!

Generoso senhôr... vilmente! Venceste os Parthas, tu? Que é agora um coração de mulher para um famoso guerreiro? Enganaste-te: é mais facil vencer os barbaros. Amava-te; é possivel que te despreze, agora!

Que me importa? Amo-a eu; quero-a, hei-de tel-a.

Se ella te não amar, essa satisfação deve ser bem mesquinha. O amôr de dois é um misterio divino: o de um só: uma torpeza! Nobre consul, adeus!

Salve, divina Actêa.

Salve, galante Petronio.

Dou-vos graças pela bondade com que tratastes Lygia.

Fiz o meu dever. Ella tem a candura d'uma virgem e a graça das pombas...

Que vôam.

Officio de quem tem azas. Adeus.(sahe)

Sabes alguma coisa de Lygia? Actêa a que veio?

Saber d'ella... Não sahiu da cidade. Os meus escravos vigiam as portas. Ella ou o tal gigante, hão-de apparecer.

Tens sorte em que não seja Cezar o raptadôr. Trago-te uma boa nova.

Qual?

Eunice, a minha escrava,—desde hontem que reparo que é verdadeiramente bella!—conhece um homem capaz de a descobrir.

Quem é?

Um tal Chilon, médico, sabio, feiticeiro, ou o que é, que lê o destino e prediz o futuro. Mandei-o chamar e trago-t'o. Queres fallar-lhe?

Que venha.

Petronio faz signal para dentro. Chilon entra. É um corcovado, tunica no fio, esburacada, barba e cabelleira intonsas. Sandalias velhas, etc.

Salve, senhores nobilissimos!

Aproxima-te. Sabes bem do que queres encarregar-te?

Pelo o que em toda a Roma se falla, não é difficil de adivinhar. Roubaram aos teus escravos, nobre senhôr, Lygia, ou Calina, filha adoptiva dos Plaucios. Encarrego me de t'a descobrir, na cidade ou fóra, onde estiver.

Que meios tens para isso?

Os meios tens, tu, senhôr. Eu só possúo o genio.

É homem para a descobrir.

Previno-te de que se me enganas para me apanhares dinheiro, mando-te desfazer com varadas.

Eu sou um pobre filosofo, senhôr, e um filosofonão pode deixar de pensar na recompensa, sobretudo quando ella pode sêr da especie que acabais de me fazer entrevêr, tão magnanimamente!

Então és filosofo?; mas Eunice disse-me que eras médico ou adivinho. D'onde a conheces?

Veio consultar-me. A minha fama chegou até ella.

Sobre quê?

Materia d'amôr. Queria curar-se d'um amôr, não partilhado.

E, curaste-a?

Fiz mais. Dei-lhe um amuleto que faz nascer o amôr reciproco: um fio do cinto da Vénus de Chypre.

De que escola és tu, divino sabio?

Senhôr, pelo meu manto em escumadeira, sou um cynico: um estoico, pela paciencia com que soffro a minha miseria: e, porque, como não tenho liteira, tenho de andar a pé, de taberna em taberna, a dar lições aos que me pagam o vinho, sou um peripathetico.

Gostas de vinho?

Heraclito disse que o vinho era fôgo e que o fôgo era uma divindade!

Deante da qual o teu nariz se illumina.

Já te tens empregado em cargos semelhantes?

Hoje, senhôr, a virtude e a sabedoria teem tão pouco valôr, que um pobre filosofo se vê forçado a lançar mão de todos os meios de existencia!

Quaes são os teus?

Saber tudo o que se passa e offerecer os meus serviços a quem preciza d'elles.

E pagas-te?

Conforme os meus meritos. Que remedio!

Não devem ser grandes porque te não deram ainda para um manto.

Sou modesto, senhôr. O que é pequeno não é o meu merito é a gratidão dos homens. Quando se esconde um escravo de preço quem o descobre? Quem indica os culpados dos pasquins emlouvôrde Poppêa, a divina? Quem descobre nas livrarias os versos contra Cezar? Quem leva as cartas que se não podem confiar aos escravos? Quem faz fallar os barbeiros, os alfaiates, os taberneiros e capta a confiança dos escravos a sabertudo o que se passa n'uma casa, do atrio ao jardim? Quem conhece todas as ruas, praças, bêcos, alfurjas, da cidade? Quem sabe o que se diz, nas thermas, no circo...

Basta, por todos os Deuses, illustre sabio, ja sabemos quem és.

E quanto valho.

Bem. Tens necessidade de indicações?

Eu? Tenho necessidade de armas.

Quaes?

Os tempos vão tão máus, para os filosofos...

Ahi tens.

Começamos a entender-nos. Nobre senhor, ouvide: Lygia não foi roubada por Aulo, nemestá no Palatino. O rapto foi feito por Ursus, o gigante seu escravo, e pelos christãos.

Ouve, Marcos.

Lygia adora a mesma divindade que Pomponia, a mais virtuosa das Romanas; é Christã...

Como o sabes?

Sou christão!

Tu?

Desde hontem, senhôr, desde hontem.

Reflecte Chilon. Tu não és um imbecil. Quererás presuadir-nos de que Pomponia e Lygia pertencem á seita dos inimigos do genero humano, dos envenenadôres, das gentes perdidas nos ultimos vicios?

É christã, senhôr, tende a certeza absoluta.

O que quer dizer que Pomponia e Lygia envenenam as fontes, immolam as creanças encontradas nas ruas e se entregam ao deboche? Tu que viveste em caza de Aulo vês como isto é uma calumnia ou uma tolice! Ou então os christãos não são o que se diz.

Seja como fôr. Foi então esse Ursus quem a roubou?

Com os christãos.

E, encontral-a-has? Saberás onde está?

Esta noite, ainda, trarei noticias.

Duplicarei a offerta se a achares. Gulon?(para dentro)

Meu senhôr.

Dá um manto capaz a esse... filosofo.

Nobre consul, sois duplamente generoso: cobrís d'uma vez, com a mesma capa: a Sciencia e a Virtude! Nobre Petronio, vale.(Sahe)

Adeus...collega. Não me desagrada o tal filosofo. Descobre Lygia, verás. Mas parece-me bom mandares desinfectar o atrio... A respeito de perfumes a filosofia está muito atrazada... só conhece... os naturaes. Fica-te com os Deuses... Sabes que amanhã é a festa do Lago?

Sei.

Dizem que Vatino inventou maravilhas. Não podes faltar. Cezar poderia notar a tua falta. E... bôas novas, até lá.

Gulon?

Meu Senhôr. O jantar?

O meu manto e o estilete.(paseia agitado)

Eil-os.(Veste-lhe o manto)Ides só?

Só.(Sahe)

O PANNO DESCE

Salão no palacio de Néro. Ao fundo um terraço d'onde se vê Roma. Mezas, cadeiras. Anoitece, gradualmente, durante o acto.

Dou graças aos Deuses, nobre consul, por te saber ainda vivo.

Ah! Petronio.

Nem me vias. D'onde te desenterraste? Em tua caza, em parte alguma se sabia onde estavas. Alguma Deusa te raptou para a sua morada?

Talvez.

Mas tu estás mal, meu sobrinho, muito mal. É evidente que Vénus te perturbou o espirito e te faz perder a razão! Por Pollux, se a chama que te consome te não reduz a cinzas, tu metamorfoseias-ten'aquella esphinge do Egypto, que dizem que perdida d'amôr pela Lua, se tornou indifferente ao dia, de modo a só esperar a noite, para poder com os olhos de pedra, namorar a amante!

Oxalá me transformasse em esphinge!

... Se não sou eu, na ultima vez que nos vimos, na festa do lago, ou tinhas de transformar-te em esfinge... ou eras um homem perdido.

Como assim?

Quem era a mulher que, no bosque de Diana, te queria levar para entre as sombras?

A mulher mascarada?

Sim.

Não sube, nem quiz.

Era Poppêa.

Heim?

Chamei-te a tempo. Ella fugiu. Se n'esse momento lhe negas o amôr, que era feito de ti?

Tel-o-hia recuzado.

Evitei essa asneira a tempo; mas a hesitação que mostraste, valeu-te o seu odio. As mulheres não perdôam, nunca, essas coisas... e então Poppêa...! Acautela-te.

Desprezo-a.

A pequena Augusta morreu...

Que me importa?

A morte atribue-se aos feitiços de Lygia.

Imbecís!

E, a proposito... Lygia?

Tu não calculas, Petronio, o que me tem acontecido.

Mas diz. Tens-me causado sustos. Sabes que te quero...

N'essa noite... a do Lago, quando cheguei a caza esperava-me Chilon.

O filosofo?

O tal. Sabia de Lygia, vinha propôr-me o raptal-a. Concordei. Fomos, eu, elle e Croton, o gladiadôr, embuçados, ao Ostrianum, o velho cemiterio, á sahida da porta Capuana. Alli se reunem escondidamente os Christãos e lá ouvi Paulo, o apostolo, pela primeira vez. Lygia estava junto d'elle, envolta n'um manto escuro, embebida, aouvil-o, n'uma allucinação de todo o seu sêr, arrebatada, divina! Se tivesses visto a sua figura d'uma belleza ideal...

Adiante.

Todo o meu amôr renasceu com a furia d'um toiro das Hespanhas. Jurei tel-a. Alli, era perigoso: os christãos eram alguns centos. Seguimo-la até a caza, á sahida. Uma velha caza, no bairro do Transtiberino. Entrou n'um pateo com o velho apostolo e esse Ursus, o escravo gigante, que a não larga, nunca. Escondemo-nos n'um corredôr á espera de occasião propicia, eu e Croton, porque o filosofo não sendo capaz de entrar... ficou de vigia, na rua. Ursus veio buscar agua á cisterna do pateo. Era occasião: virei-me para Croton e disse-lhe: matta. O gladiadôr atirou-se ao escravo como um tigre; eu corri pelo corredôr, empurrei a porta entreaberta, agarrei Lygia ao collo e corri para fóra. Desmaiára.

Bello grupo dariam para um rapto.

Ao chegar ao pateo eis o que eu vi. Ursus dominavaCroton vergado sobre um joelho, apertando-lhe, com uma das mãos, o pescoço. O gladiadôr tinha um estertôr na garganta, os olhos sahiam-lhe das orbitas! Ao vêr-me, Ursus, applicou sobre o peito de Croton um murro tal que este rolou pelo chão, de bôcca aberta, jorrando sangue. Estava morto!

Por Hercules, que esse homem merece uma estatua.

De chofre, voltou-se para mim, agarrou-me este braço e partiu-m'o.

Depois?

Não me lembra senão d'uma voz, feita de todos os sons das citharas, dizer: Ursus, não mates! Quando acordei estava n'uma cama e vigiava-me uma pobre viuva, um filho e... ella!

E foi ella quem te tractou?

Tratou-me um medico; mas salvou-me, ella! Que cuidados, que dedicação, dias e noites! Contandomesmo as horas dolorosas da doença, passei, alli, os melhores dias da minha vida. O apostolo, contava toda a vida e morte de Cristo, seus milagres e douctrina. Vi os mais bellos exemplos de caridade, de amôr e de perdão! Se tu o ouvisses!

Não me faltava mais nada! O que faz o amôr! Começavas a achar essa religião adoravel, porque era a de Lygia.

Talvez.

É assim. O amôr transforma as pessôas completamente, opiniões e gostos. Como a mim me está acontecendo. D'antes só gostava do perfume da verbena; lembras-te? Hoje, como a bella Eunice prefere o das violetas, é d'este que eu gosto mais.

Eunice?

Sim, Eunice. Ah! tu não sabias ainda... Tenho que te agradecer aquella recuza... É uma maravilha de esthetica, a loira Eunice! Uma obra de Praxiteles...!

E a tua Chrisotémis?

Mandei-lhe umas sandalias bordadas a perolas... É como quem diz: vai passeiar. É o meu processo; ellas já sabem. Chrisotémis, francamente, era contemporanea da guerra de Troia. E, afinal, melhoraste, sahiste... e o que é feito da tua Lygia?

Fugiu-me.

Outra vez?

No dia em que me levantei, ella sahiu.

Tinha mêdo de ti?

Tinha mêdo de si, propria.

É extraordinario!

Dizes bem. Ella não é como as outras mulheres!

Ah! não? Então não perdes nada com a abstinencia.

Não podemos entender-nos.

Decerto, não. Que o Hades confunda esses christãos que te fazem perder o senso commum.

Tu não conheces a sua doutrina.

Enganas-te, conheço. Já li as taes cartas de Paulo de Tarso. Babozeiras. É uma doutrina anti-humana: porque a felicidade só vem da belleza, do amôr, e da força! A isto, chama elle, vaidades! E que theorias! Retribuir o mal com o bem... Que justiça! O que devemos ao bem? Se a sanção é a mesma para o bem e para o mal, porque seriam os homens bons?

Segundo elles a sanção começa na vida futura, eterna.

Isso são coisas a verificar... depois da morte.

A vida para elles começa com a morte.

É natural. É como se se dissesse: o dia começa com a noite! Vais raptar Lygia outra vez?

Não. Prometti-o.

Tens tenção de adoptar a doutrina christã?

Querel-o-hia; mas toda a minha natureza se oppõe.

Emfim, és capaz de esquecer Lygia?

Nunca!

Então vai... viajar.(entram escravos com amphoras e taças que collocam nas mezas do 1.º salão e nas da varanda)Vem Cezar. O que vieste fazer?

Cezar mandou-me convidar para a leitura da Tróiada.

Tambem? E... se elle te perguntar por Lygia?

Não sei...

Dize-lhe... que a tens guardada... que esta ausencia... foi a lua de mel.

Entra Cezar, Poppêa, Tigelino, Vitelio, Senecion, Vatino etc. escravos. Poppêa sobe para o terraço, com outras damas, onde bebem. Os éphebos galanteiam, etc.

Salve, Petronio. Inda bem que chegaste. Creio que vou morrer de tédio, de aborrecimento! A minha viagem á Grecia, adiada!

Porquê?

Vesta, a propria Deusa, me avisou, no templo. Venho agora de lá. Tão ao ouvido me disse: addia a viagem, que me assustou.

Ficámos todos aterrados. A vestal Rubria desmaiou.

Que linda garganta que tem Rubria! Que branca!(bebe)Eu precizo distrahir-me. Vinheis ouvir o poema! Não posso lêr! Nem cantar! Nem tenho paciencia. Não posso ficar em Roma, irei para Ancio. Abafo, n'estes bairros apertados, no meio de cazas que se desmuronam, de ruellas immundas. Um ar empestado chega até aos jardins, chega até aqui! Porque não houve, nunca, um tremôr de terra que destruisse Roma? Se um Deus, na sua colera, a nivelasse com a terra, eu ensinaria como se edificava uma cidade para capital do mundo!

Não dizes, tu, Cezar: se um Deus destruisse a cidade?

Sim e então?

Não és, tu, um Deus?

Podes fazel-o.

Fal-o.

...Não lerei o meu poema! O meu incendio de Troia flameja timidamente! Julgava que egualaria Homero e tinha ficado contente.

Não o egualaste?

Não...! Um esculptor quando por esculpir a estatua de um Deus, escolhe um modêlo. Nunca vi arder uma cidade, não o posso pintar.

Mas tens genio para tanto se o quizeres fazer, Cezar. Aposto que os teus versos...

Não, não. Responde-me a uma questão, Petronio. Tens pena que tenha ardido Troia?

Pena de quê? Por Marte, pelo contrario. Tróia não teria ardido sem o fôgo dado por Prometheu aos homens e sem os gregos terem declarado a guerra a Priamo. D'ahi veio que Eschylo escreveu o seu Prometheo e Homero a Illiada. Quero mais a estes dois poemas do que á tal Troia, provavelmente uma villoria de cazas de madeira, velhas e sujas!

Eis o que é fallar com tino. Á poesia e á arte tem-se obrigação de sacrificar, tudo. Felizes os Gregos que deram a Homero o assumpto do seu poêma! Feliz Priamo que viu as ruinas da sua patria!... Eu nunca vi uma cidade em chamas!

Silencio geral de receio.

Nem eu!; mas se fosse Cezar e a quizesse vêr, via-a!

Era facil.

Poppêa e as damas, Cezar, pedem-te para vires cantar.

Aproxima-se a noite, o sol agoniza, a tarde é bella, o ar cheio de perfumes dos jardins. Á natureza só falta um cantico...

O teu, Cezar!

É cêdo ainda.(olha para Tigelino, misteriosamente)É cêdo, ainda.

Eu adoro a musica.

Das taças.

Dize-me, Petronio, que pensas tu da musica?

A tua, sobretudo, quando a oiço, faz-me sentir um mundo de prazeres novos. A musica é um mar, onde á onda succede a onda, á agua, agua semfim, até... ao infinito...! e é sempre impossivel vêr a outra margem.

É assim que eu penso da musica. Quando canto e tóco, eu, Cezar, senhôr do Mundo, descubro reinos desconhecidos, mares virgens, mundos nunca sonhados! Vejo os Deuses! subo ao Olimpo! Um sôpro estranho passa, a esphera vibra em roda de mim e dir-te-hei(leva Petronio, pelo braço, para o lado)que eu, Cezar e Deus(muito baixo)me sinto tão pequeno como um grão d'areia!

Só os grandes artistas se sentem pequenos deante da belleza!

Morro de aborrecimento, aqui! Ouve: imaginas que sou cégo ou idiota? Pensas que não sei que por essa Roma pregam, todos os dias, inscripções injuriosas, pelas esquinas? que me chamam matricida, assassino de meu irmão, e de minha mulher? Que me chamam algoz, porque tenho morto a meus inimigos?... Um homem bom póde ser cruel?

Póde.

Eis o meu caso. Quando a musica acalenta a minh'a alma, eu sinto-me tão bom como uma creança no bêrço.

Os Romanos nunca vos souberam apreciar.

Os Romanos! Como eu odeio os Romanos!(Vai á meza beber. Anoitece mais)Tigelino?

Sahiu. Disse que ia mandar accender as lampadas.

Ah! sim... Escurece.

Cezar, o cantico?(ao fundo)

Ainda é cêdo...(Desce a Petronio)Sou em tudo um artista. A musica abre-me as portas d'uma prespectiva indizivel; devo aos Deuses o explorar esse infinito! Para ascender ás regiões olimpicasnão será precizo, primeiro, praticar algum prodigioso acto propiciatorio?

Não te entendo, Cezar.

Para abrir as portas do mundo desconhecido, eu quiz fazer o maior sacrificio que pode fazer um homem: minha mulher... minha mãi... foi para isso que ellas morreram! Mas é precizo um sacrificio ainda maior para abrir as portas do Olimpo! Cumpra-se a vontade dos Oraculos!

...Qual é o teu projecto?

Vais vêr... de aqui a pouco.(sobe)

Extranho-o.

Mas, antes, vê bem que ha dois Néros: um o que os homens conhecem; o outro o que só tu conheces: o que mata como a Morte e o que delira como Bacho! E, mata, porque odeia a baixeza, tudo o queé vil e lhe repugna tudo o que não merece a vida! E mata e elimina!... Como a vida será pequena quando eu desapparecer!

Comprehendo o teu coração e as tuas máguas!

Como o meu coração é, por vezes, negro! Como este mundo e esta terra são pequenos, mesquinhos, para mim! Mas, quanto eu puder, aniquilarei esta vida, e esmagarei este mundo!

(Subito Roma apparece incendiada por diversos lados. Ouve-se ruido ao longe. Pitagoras, desce)

Cezar, Roma está a arder!

Quê?

A ardêr?

Ó Deuses immortaes!... eu vos dos dou graças!.. Posso em fim vêr uma grande cidade em chammas! Posso acabar o meu canto!

Cezar? Cezar?

Ah! É agora o momento. A minha cithara?(Sobe)

Divino imperador?

Quê?

A cidade é um oceano de chamas! Os homens cahem asfixiados! O terrôr enloquece!

É a vontade dos Deuses! A minha cithara?(Trazem-lh'a. Terpnos, Diodoro e os musicos correm)Ó Deuses, que espectaculo sublime! Graças, por poder vêr, como Priamo, o incendio de minha patria! Agora, vou cantar!(sobe)

Centurião, sabes tu se o bairro do Transtevero, foi invadido, já?

Todo, Senhôr. Foi o primeiro.

Maldicção! Se ella morreu...(sahe, doido)

(O incendio generalisa-se. De todos os lados do palacio corre gente para o terraço. Néro sobe os degráus e de cithara em punho, acompanhado, canta)

Berço de meus pais,Roma divina!Quanto eras caraÁ minh'alma!...

O ruido, ao longe, cresce. Ouvem-se os rugidos das féras. O panno desce.

FIM DO SEGUNDO ACTO

Sala no palacio de Néro. Néro e Poppêa, Vinicio, Tigelino, Petronio, Vitelio, Senecion e Vatino.

Ha tres dias que componho o meu poema. Não posso perder tempo. Sejamos breves. Roma está exaltada?

Gravemente.

A animadversão cresce?

Cada vez mais.

O Senado?

Indignadissimo contra ti.

Ó o Senado! Reedificarei a cidade! Dar-lhe-hei uma outra digna do povo romano; que mais quer?

Mas as miserias, as mortes causadas...

Não abri os meus jardins ao povo? Não tem elle que comer, á farta?

Os pequenos estão satisfeitos. Os grandes...

É preciza uma decisão rapida. Que havemos de fazer, o que será conveniente...? A tua opinião, Petronio.

Vamos para a Grecia e depois para o Egypto.

É facil partir: voltar é que não será tão facil.

Por Hercules, voltaremos, se fôr precizo, á frente das legiões da Asia!

Assim, farei.

Escuta-me, Cezar. O conselho é desastroso. Antes de chegares a Ostia, rebentará a guerra civil. E sabes, tu, se algum vago descendente do divino Augusto, se não se fará proclamar imperador?

Farei que nenhum exista. Tu sabes como.

Mas será um outro. Hontem, os meus soldados ouviram dizer á multidão que se devia proclamar alguem, como Thrazéias!

Povo insaciavel e ingrato! Que mais quer?

A vingança.

A vingança?... quer victimas?(Pausa e silencio)Se nós lançassemos a nova de que foi...(olhando-os)Vatino, quem incendiou a cidade?

Eu?... Quem sou eu, ó divindade...?

Tens razão. É preciso alguem mais importante.(circunvagando o olhar): Vitelio!

As minhas banhas farão rebentar um novo incendio.

Tigelino?... Tigelino, fôste tu que incendiaste Roma!

Por tua ordem, Cezar!

És meu amigo?

Tu o sabes, Senhôr.

Bem. Sacrifica-te por mim.

Eu bem o quizera, Senhôr; mas não posso fazêl-o.(ironico)O povo murmura e revolta-se. Queres tu que a guarda pretoriana faça o mesmo, pelo seu chefe?

A divina Augusta deseja fallar-te, Tigelino.

Permittis?(Cezar, faz signal aprovativo. Tigelino sahe)

Aqueci uma serpente no seio!(a Petronio)Vamos, falla tu. Confio em ti. Tens mais senso do que todos elles juntos e és meu amigo.

Vamos para a Grecia.

Esperava mais do teu juizo. Se parto quem me garante que o senado não proclame outro imperadôr? O povo era-me fiel... não é. O senado!... Ah! se este povo e este senado tivesse uma cabeça, só!

Se queres conservar Roma, Cezar, é precizo deixares alguns Romanos.

Roma, os Romanos, que me importam? Escutar-me-hiam na Helada! Ao redor de mim, aqui, não ha, senão traição!(subito)Petronio, a plebe murmura pelas praças... se eu fôsse ao Campo de Marte e cantasse o meu hymno; o que cantei durante o incendio... não poderia, eu, como Orpheu, encantal-os?

A difficuldade, Cezar, era elles deixarem-te principiar.

Pois vamos para a Grecia.

Ouve-me, Cezar. O povo quer uma vingança e uma victima! Que digo eu? uma? centenas, milhares! Existem as que o devem sêr, devem-se-lhe. Ignoras que na cidade se acoita um exercito de christãos? Não os conheces? Não te fallei, eu, tanta vez dos seus crimes e das suas infames cerimonias?das suas profecias segundo as quaes o mundo acabará pelo fôgo? O povo, instintivamente, odeia-os e suspeita d'elles. Ninguem os vê nos templos, no circo, nas corridas! Murmura contra ti e não fôste, tu, Cezar, nem eu, quem incendiou a cidade! Foram elles! É preziso dizêl-o. Viram-nos levando nas mãos as tochas incendiarias! O povo tem sêde de vingança? dá-lha. O povo quer circo, quer sangue? dá-lh'o! Conheces os culpados! manda!

A caça a Lygia.

Coragem!

Oh! Zeus, Appolo, Hera, Actréa, vós, todos, ó Deuses immortaes, porque nos não socorresteis? Que tinha feito essa bella Roma, a esses energumenos?

Vinga-a!

Faz justiça!

Que castigo terrivel, que torturas serão bastantespara punir tal crime? Com a ajuda das potencias do Tartaro, darei ao meu povo um tal espectaculo, que d'elle se falará, em Roma, pelos seculos dos seculos!

Que Cezar bandido!(olhando Marcos, que passeia louco)É precizo salvar Lygia. Ou me perco, ou a salvo.(approximando-se galante, natural, brincando com a tunica gracioso)Assim... encontrastes as victimas? bem; mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos pretorianos, tendes a fôrça! Então sêdes leaes. Entregai os christãos ao povo, supliciais-os; mas confessai primeiro que não foram elles que incendiaram Roma! Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas as elegancias dir-vos-hei, que não supporto tão miseraveis comedias!(Pasmo)Com relação a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da posteridade, reflecte o que ella dirá de ti! Pela divina Clio! Néro-Senhôr do mundo, Nero-Deus queimou Roma porque era tão formidavel na Terra, como Zeus no Olympo! Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que lhe sacrificou a Patria! Desde o principio do mundo, ninguem ousou pensar em tão extraordinaria coisa! Tu o fizeste, esta gloria é tua, não arenegues. Ao pé de ti o que será Priamo, Agamenon, Achilles? os proprios Deuses? Coragem. Livra-te de abdicações indignas; porque então a posteridade poderá dizer-te: Nero queimou Roma; mas tão pussilamine Cezar, como pussilanime poeta, negou o facto, e atirou, cobardemente, a falta por sobre os innocentes! Tal acção não honrará a tua memoria!

Senhôr, dá-me licença para que sáia. Aconselham-te a lançares-te no maior perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante... Os meus ouvidos recuzam se a ouvir mais.

Cezar hesita? Estou perdido!(a Tigelino)Tigelino, a ti é que eu chamei comediante, porque o és, ainda n'este momento.

Porque não posso escutar as tuas injurias?

Porque figuras um grande amôr por Cezar e ainda ha pouco, ouvimo-lo todos e elle, o ameaçaste com a guarda de pretorianos.

Cezar, como permittes que taes pensamentos venham a alguem e que esse alguem os diga deante de ti?

É assim que tu sabes reconhecer a amizade que sempre te tive?

Petronio perdeu-se por mim!

Se me enganei, Cezar, mostra-me o meu erro; mas sabe que te disse o que me ditou a lealdade que, emfim, te devo!

Renova os insultos.

Punide-o, Senhôr.

Castigai o insultadôr.

Castigai-o!(affastam-se de Petronio)

Quereis que o puna? Foi sempre o meu companheiro e meu amigo! Feriu-me o coração; mas quero que elle saiba que este coração só tem para os amigos, o perdão.

Conheço o teu perdão!(alto)Cezar!(inclinando-se, faz signal a Marcos, e sahem.)

Quereis ouvir as testemunhas?

Que venham.

Um escravo sahe e traz dois rabinos de longas togas e mitras, um escriba e Chilon.

Salve, monarcha dos monarchas, rei dos reis!

Salve, Senhôr do mundo!

Salve, Cezar, Leão entre os homens! tu cujo reinoé semelhante á claridade do sol, ao cedro do Libano, ao balsamo de Jerichó!

Accusais os christãos de terem incendiado Roma?

Nós, Senhôr, só os accusamos de serem inimigos dos homens, e inimigos de Roma. De terem muita vez ameaçado a cidade e o mundo, com o fogo do céu! O resto dil-o-ha este homem, de cujos labios nunca sahiu a mentira, porque nas veias de sua mãi corria o sangue do povo escolhido!

Quem és, tu?

O teu cão fiel, divino Osiris! Um pobre estoico!

Detesto os estoicos: o seu desprezo pela arte e a sua linguagem repugnam-me; como a sua miseria e falta d'aceio. Por isso mandei matar Musonio...

Senhôr, eu sou um estoico por necessidade. Cobreo meu estoicismo, ó Resplandecente, com uma corôa de rozas e poê-lhe, deante, uma taça de vinho e elle cantará Anacréonte!


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