Felicio amigo, se eu disser que os annosPassam correndo ou passam vagarosos,Segundo são alegres ou penosos,Tecidos de affeições ou desenganos,«Philosophia é esta de rançosos!»Dirás. Mas não ha outra entre os humanos.Não se contam sorrisos pelos damnos,Nem das tristezas desabrocham gozos.Banal, confesso. O precioso e o raroÉ, seja o céu nublado ou seja claro,Tragam os tempos amargura ou gosto,Não desdizer do mesmo velho amigo,Ser com os teus o que elles são comtigo,Ter um só coração, ter um só rosto.
Maria, ha no seu gesto airoso e nobre,Nos olhos meigos e no andar tão brando,Um não sei quê suave que descobre,Que lembra um grande passaro marchando.Quero, ás vezes, pedir-lhe que desdobreAs azas, mas não peço, reparandoQue, desdobradas, podem ir voandoLeval-a ao tecto azul que a terra cobre.E penso então, e digo então commigo:«Ao céu, que vê passar todas as gentesBastem outros primores de valia.«Passaro ou moça, fique o olhar amigo,O nobre gesto e as graças excellentesDa nossa cara e lepida Maria.»
Pensa em ti mesma, acharásMelhor poesia,Viveza, graça, alegria,Doçura e paz.Se já dei flôres um dia,Quando rapaz,As que ora dou tem assazMelancolia.Uma só das horas tuasValem um mezDas almas já ressequidas.Os soes e as luasCreio bem que Deus os fezPara outras vidas.
Era Clodia a vergontea illustre e raraDe uma familia antiga. Tez morena,Como a casca do pecego, deixavaTransparecer o sangue e a juventude.Era a romana ardente e imperiosaQue os écos fatigou de Roma inteiraCo'a narração das longas aventuras.Nunca mais gentil fronte o sol da ItaliaAmoroso beijou, nem mais graciosoCorpo envolveram tunicas de Tyro.Sombrios, como a morte, os olhos eram.A vermelha botina em si guardavaBreve, divino pé. Humida boca,Como a rosa que os zephyros convida,Os beijos convidava. Era o modeloDa luxuosa Lamia,—aquella moçaQue o marido esqueceu, e amou sem pejoO musico Pollião. De mais, faziaA illustre Clodia trabalhados versos;A cabeça curvava pensativaSobre as tabellas núas; invocavaDo classico Parnaso as musas bellas,E, se não mente linguaruda fama,Davam-lhe inspiração vadias musas.O ideal da matrona austera e fria,Caseira e nada mais, esse acabava.Bem hajas tu, patricia desligadaDe preconceitos vãos, tu que presidesAo festim dos rapazes, tu que estendesSobre verdes coxins airosas fórmas,Enquanto o esposo, consultando os dados,Perde risonho válidos sestereios...E tu, viuva misera, deixadaNa flôr dos anos, merencoria e triste,Que seria de ti, se o gozo e o luxoNão te alegrassem a alma? Cedo esqueceA memoria de um obito. E bem hajas,Discreto esposo, que morreste a tempo.Perdes, bem sei, dos teus rivaes sem contaOs custosos presentes, as ceiatas,Os jantares opiparos. Comtudo,Não verás cheia a casa de creançasLoiras obras de artífices extranhos.Baias recebe a celebrada moçaEntre festins e jubilos. FaltavaAo pomposo jardim das lacias flôresEsta rosa de Pœstum. Chega; é ella,É ella, a amavel dona. O céu ostentaA larga face azul, que o sol no occasoCo'os frouxos raios desmaiado tinge.Terno e brando abre o mar o espumeo seio;Molles respiram virações do golpho.Clodia chega. Tremei, moças amadas;Ovelhinhas dos placidos idylios,Roma vos manda esta faminta loba.Prendei, prendei com vínculos de ferro,Os voluveis amantes, que os não vejaEsta formosa Páris. Inventai-lhesUm philtro protector, um philtro ardente,Que o fogo leve aos corações rendidos,E aos vossos pés eternamente os prenda;Clodia... Mas, quem pudera, a frio e a salvo,Um requebro affrontar daquelles olhosVer-lhe o turgido seio, as mãos, o talhe,O andar, a voz, ficar marmore frioAnte as supplices graças? Menor pasmoFôra, se ao gladiador, em pleno circo,A panthera africana os pés lambesse,Ou se, á cauda de indomito cavallo,Ovantes hostes arrastassem Cesar.Coroados de rosas os convivasEntram. Trajam com graça vestes novasTafues de Italia, finos e galhardosPatricios da republica expirante,E madamas faceiras. Vem entre ellesCelio, a flôr dos vadios, nobre moço,E opulento, o que é mais. AmbiciosoQuer triumphar na classica tribunaE honras aspira até do consulado.Mais custoso lavor não vestem damas,Nem aroma melhor do seio exhalam.Tem na altivez do olhar sincero orgulho,E certo que o merece. Entre os rapazesQue á noite correm solitarias ruas,Ou nos jardins de Roma o luxo ostentam,Nenhum como elle, com mais ternas falas,Galanteou, vencendo, as raparigas.Entra: pregam-se nelle cobiçososOlhos que amor venceu, que amor domina,Olhos fieis ao férvido Catullo.O poeta estremece. Brando e frio,O marido de Clodia os olhos lançaAo mancebo, e um sorriso complacenteA boca lhe abre. Imparcial na luta,Vença Catullo ou Celio, ou vençam ambos.Não se lhe oppõe o dono: o aresto acceita.Vistes já como as ondas tumultuosas,Uma após outra, vem morrer á praia,E mal se rompe o espumeo seio áquella.Já esta corre e expira? Tal no peitoDa calorosa Lesbia nascem, morremAs voluveis paixões. Vestal do crime,Dos amores vigia a chamma eterna,Não a deixa apagar; prompto lhe lançaOleo com que a alimente. EnrubescidoDe ternura e desejo o rosto volveAo mancebo gentil. Baldado empenho!Indifferente aos magicos encantos,Celio contempla a moça. Olhar mais frio,Ninguem deitou jamais a graças tantas.Ella insiste; ele foge-lhe. Vexada,A moça inclina languida a cabeça...Tu nada vês, desapegado esposo,Mas o amante vê tudo.Clodia arrancaUma rosa da fronte, e as folhas deitaNa taça que enche generoso vinho.«Celio, um brinde aos amores!» diz, e entregalh'a.O cortejado moço os olhos lança,Não a Clodia, que a taça lhe offerece,Mas a outra não menos afamada,Dama de igual prosapia e eguaes campanhas,E taça igual lhe acceita. Affronta é estaQue á moça faz subir o sangue ás faces,Aquelle sangue antigo, e raro, e illustre,Que atravessou purissimo e sem mesclaA corrente dos tempos... Uma Clodia!Tamanha injuria! Ai, não! mais que a vaidade,Mais que o orgulho de raça, o que te peza,O que te faz doer, viciosa dama,É ver que um rival merece o zeloDeste pimpão de amores e aventuras.Pega na taça o nescio esposo e bebe,Com o vinho, a vergonha. Sombra triste,Sombra de occultas e profundas magoas,Tolda a fronte ao poeta.Os mais, alegres,Vão ruminando a saborosa ceia;Circúla o dito equivoco e chistoso,Comentam-se os decretos do senado,O molho mais da moda, os versos ultimosDe Catullo, os leões mandados de AfricaE as victorias de Cesar. O epigrammaRasga a pelle ao caudilho triumphante;Chama-lhe este: «O larapio endividado»,Aquelle: «Venus calva», outro: «O bithynio...»Opposição de ceias e jantares,Que a marcha não impede ao crime e á gloria.Sem liteira, nem lybicos escravos,Clodia vae consultar armenio aruspice.Quer saber se hade Celio amal-a um diaOu desprezal-a sempre. O armenio estavaMeditabundo, á luz escassa e incertaDe uma candeia etrusca; aos ombros delleDecrepita coruja os olhos abre.«Velho, aqui tens dinheiro (a moça fala),Se á tua inspiração é dado agoraAdivinhar as cousas do futuro,Conta-me...» O resto expõe. Ergue-se o velhoSubito. Os olhos lança cobiçososÁ fulgente moeda.—«Saber queresSe te hade amar esse mancebo esquivo?»—«Sim.»—Cochilava a um canto descuidadaA avezinha de Venus, branca pomba.Lança mão della o aruspice, e de um golpeDas entranhas lhe arranca o sangue e a vida.Olhos fitos no velho a moça aguardaA sentença da sorte; empallideceOu ri, conforme do ancião no rostoOcultas impressões vem debuxar-se.«Bem haja Venus! a victoria é tua!O coração da victima palpitaInda que morto já...»Não eram ditasEstas palavras, entra um vulto... É elle?És tu, cioso avante!A voz lhes faltaAos dous, contemplam-se ambos, interrogam-se;Rompe afinal o lugubre silencio...Quando o vate acabou, tinha nos braçosA namorada moça. Lacrimosa,Tudo confessa. Tudo lhe perdôaO desvairado amante. «Nuvem leveIsto foi; deixa lá memorias tristes,Erros que te perdoo; amemos, Lesbia;A vida é nossa; é nossa a juventude.»«Oh! tu és bom!»—«Não sei; amo e mais nada.Foge o mal donde amor plantou seus lares.Amar é ser do céu.» Supplices olhosQue a dor humedecera e que umedecemLagrimas de ternura, os olhos buscamDo poeta; um sorriso lhes responde,E um beijo sella esta alliança nova.Quem jamais construiu solida torreSobre a arêa voluvel? Poucos diasDecorreram; viçosas esperançasSubito renascidas, folha a folha,Alastraram a terra. Ingrata e fria,Lesbia esqueceu Catullo. Outro lhe pedePremio á recente, abrasadora chamma;Faz-se agora importuno o que era esquivo.Victoria é della; o arúspice acertára.
ReinavaAffonso VI. Da corôa em nomeGovernava Alvarenga, incorruptivelNo serviço do rei, astuto e manso,Alcaide-mór e protector das armas;No mais, amigo deste povo infante,Em cujo seio placido viviaAté que uma revolta mysteriosaNa cadeia o metteu. O douto MustreA vara de ouvidor nas mãos sustinha.
Que lance ha ahi, nessa comedia humana,Em que não entrem moças? Descorada,Como heroina de romance do hoje,Alva, como as mais alvas deste mundo,Tal, que disseras lhe negara o sangueA madre natureza, MargaridaTinha o suave, delicado aspectoDe uma santa de cêra, antes que a tintaO matiz beatifico lhe ponha,Era alta e fina, senhoril e bella,Delicada e subtil. Nunca mais vivoTransparecera em rosto de donzellaVergonhoso pudor, agreste e rude,Que até de uns simples olhos se offendiaE chegava a corar, se o pensamentoLhe adivinhava anonymo suspiroOu remota ambição de amante ousado.Era vel-a, ao domingo, caminhandoÁ missa, co'os parentes o os escravosA um de fundo, em grave e compassadaProcissão; era ver-lhe a compostura,A devoção com que escutava o padre,E noagnus-deilevava a mão ao peito,Mão que enchia do fogos e desejosDez ou doze amadores respeitososDe suas graças, varios na figura,Na posição, na edade e no juizo,E que alli mesmo, á luz dos bentos cyrios(Tão de longe vêm já os maus costumes)!Ousavam inda suspirar por ella.
Entre esses figurava o moço Vasco.Vasco, a flôr dos vadios da cidade,Namorador dos adros das egrejas,Taful de cavalhadas, consummadoNas hippicas façanhas, era o nomeQue mais na baila andava. Moça haviaQue por elle trocara (erro do moça)!O seu logar no céu; e este peccado,Inda que todo interior e mudo,Dous terços lhe custou de penitenciaQue o confessor lhe impoz. Era sabidoQue nas salas da casa do governo,Certa noite, de magua desmaiaramDuas damas rivaes, porque o maganoAs cartas confundira do namoro.Estas proezas taes, que o fertil vulgoCom argumentos de casa encarecia,E a bem lançada perna, e o luzidioDos sapatos, e as sedas e os velludos,E o franco applauso de uns, e a inveja do outros,O sceptro lhe doaram dos peraltas.
E, comtudo, era em vão que á ingenua damaA flôr do esquivo coração pedia;Inuteis os suspiros lhe brotavamDo intimo do peito; nem da espertaMucama,—natural complice amigaDesta sorte de crimes,—lhe valiamOs recados de boca;—nem as longas,Maviosas lettras em papel bordado,Atadas co'a symlolica fitinhaCor de esperança,—e olhares derretidos,Se a topava á janella,—raro evento,Que o pae, varão de bolsa e qualidade,Que repousava das fadigas longasHavidas no mercado de africanos,Era um typo de solidas virtudesE muita experiencia. Poucas vezesIa á rua. Nas horas de fastio,A jogar o gamão, ou recostado,Com um vizinho, a tasquinar nos outros,Sem trabalho maior, passava o tempo.
Ora, em certo domingo, houve luzidaFesta de cavalhadas e argolhinhas,Com danças ao ar livre e outros folgares,Recreios do bom tempo, infancia d'arte,Que o progresso apagou, e nós trocamosPor brincos mais da nossa juventudeE melhores de certo; tão ingenuos,Tão simples, não. Vão longe aquellas festas,Usos, costumes são que se perderam,Como se hão perder os nossos de hoje,Nesso rio caudal que tudo levaImpetuoso ao vasto mar dos seculos.
Abolada a cidade, quasi tantoComo nos dias da solemne festaDa grande acclamação, de que inda fallamCom saudade os muchachos de outro tempo.Varões agora do medida e peso,Todo o povo deixara as casas suas.Grato ensejo era aquelle! ResolutoA correr desta vez uma argolinha,O intrepido mancebo empunha a lançaDos combates, na fronte um capaceteDe longa, verde, fluctuante pluma,Escancha-se no dorso de um cavalloE armado vae para a festiva guerra.Ia a passo o corcel, como ia a passoSeu pensamento, certo da conquista,Se ella visse o brilhante cavalleiroQue, por amor daquelles bellos olhos,Derrotar promettia na estacadaUm cento de rivaes. SubitamenteVê apontar a rispida figuraDo rispido negreiro; a esposa o segue,E logo atraz a suspirada moça,Que lentamente e placida caminhaCom os olhos no chão. Corpilho a vesteDe azul velludo; a manga arregaçadaAte á doce curva, o braço amostraDelicioso e nú. A indiana sedaQue a linda mão de moça arregaçava,Com aquella sagaz indifferençaQue o demo ensina ás mais singelas damas,A furto lhe mostrou, breve e apertadoNo sapatinho fino, o mais gracioso,O mais galante pé que inda ha nascidoNestas terras:—tacão alto e forradoDe setim rubro lhe alteava o corpo,E airoso modo lhe imprimia ao passo.
Ao brioso corcel encurta as redeasVasco, e detem-se. A bella ia caminhoE iam com ella seus perdidos olhos,Quando (visão terrivel)! a figuraPallida e commovida lhe appareceDo Freire, que, como elle namorado,Contempla a dama, a suspirar por ella.Era um varão distincto o honrado Freire,Tabellião da terra, não mettidoNas arengas do bairro. Pouco amanteDessa gloria que tantas vezes fulgeQuando os mortaes merecedores dellaJazem no eterno pó, não se illustraraCom actos de bravura ou de grandeza,Nem cobiçara as distincções do mando.Confidente supremo dos que á vidaDizem o ultimo adeus, só lhe importavaDeitar em amplo in-folio as derradeirasVontades do homem, repartir co'a pennaPingue ou magra fazenda, já cercadaDe farejantes corvos,—grato empregoA um coração philosopho, e remedioPara matar as illusões no peito.Certo, ver o usurario, que a riquezaObteve á custa dos vintens do proximo,Comprar a eterna paz na eterna vidaCom biocos do posthumas virtudes;Em torno delle contemplar anciadosOs que, durante longo-aridos annos,De lisonjas e afagos o cercaram;Depois alegres uns, sombrios outros,Conforme foi silencioso ou gratoO abastado defuncto,—emprego é essePouco adequado a jovens e a poetas.
Joven não era, nem poeta o Freire;Tinha oito lustros e fallava em prosa.Mas que és tu; mocidade? e tu, poesia?Um auto de baptismo? quatro versos?Ou brancas azas da sensivel pombaQue arrulha em peito humano? Unico as perdeQuem o lume do amor nos seios d'almaApagar-se-lhe sente. A nevoa póde,Qual turbante mourisco, a cumiadaDas montanhas cingir da nossa terra,Que muito, se ao redor viceja aindaPrimavera immortal? Um dia, ao vel-aDe tantos requestada a esquiva moça,Sente o Freire bater-lhe as adormidasAzas do coração. Que não desdoura,Antes lhe dá realce e lhe desvincaA nobre fronte a um homem de justiça,Como os outros mortaes, morrer de amores;E amar e ser amado é, neste mundo,A tarefa melhor da nossa especie,Tão cheia de outras que não valem nada.
O poeta chegára ao alto da montanha,E quando ia a descer a vertente do oeste,Viu uma cousa extranha,Uma figura má.Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,N'um tom medroso e agrestePergunta o que será.Como se perde no ar um som festivo e doce,Ou bem como se fosseUm pensamento vão,Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.Para descer a encostaO outro estendeu-lhe a mão.
[1]Os poetas classicos francezes usavão muito esta fórma a que chamavãotriolet.Depois do longo desuso, alguns poetas d'este seculo resuscitarão otriolet, não desmerecendo dos antigos modelos. Não me consta que se haja tentado empregal-a em portuguez, nem talvez seja cousa que mereça trasladação. A fórma entretanto é graciosa e não encontra difficuldade na nossa lingua, creio eu.
[1]Os poetas classicos francezes usavão muito esta fórma a que chamavãotriolet.Depois do longo desuso, alguns poetas d'este seculo resuscitarão otriolet, não desmerecendo dos antigos modelos. Não me consta que se haja tentado empregal-a em portuguez, nem talvez seja cousa que mereça trasladação. A fórma entretanto é graciosa e não encontra difficuldade na nossa lingua, creio eu.
[2]Maximiliano, quando estava em Miramar, costumava retratar photographicamente a archiduqueza, escrevendo por baixo do retrato: «La marchesa de Miramar.»
[2]Maximiliano, quando estava em Miramar, costumava retratar photographicamente a archiduqueza, escrevendo por baixo do retrato: «La marchesa de Miramar.»
[3]Perdoem-me estes versos em francez; e para que de todo em todo não fique a pagina perdida aqui lhes dou a traducção que fez dos meus versos, o talentoso poeta maranhense Joaquim Serra:É um velho paiz, de luz e sombras,Onde o dia traz pranto, e a noite a scisma;Um paiz do orações e de blasphemia,N'elle a crença na duvida se abysma.Ahi, mal nasce a flôr, o verme a corta,O mar é um escarcéo, e o sol sombrio;Se a ventura n'um sonho transpareceA suffoca em seus braços o fastio.Quando o amor, qual sphynge indecifravelAhi vai a bramir, perdido o sizo...Ás vezes ri alegre, e outras vezesÉ um triste soluço esse sorriso...Vive-se n'esse e paiz com a mágoa e o riso;Quem d'lle se ausentou treme e maldiz;Mas ai, eu n'elle passo a mocidade,Pois é meu coração esse paiz!
[3]Perdoem-me estes versos em francez; e para que de todo em todo não fique a pagina perdida aqui lhes dou a traducção que fez dos meus versos, o talentoso poeta maranhense Joaquim Serra:
É um velho paiz, de luz e sombras,Onde o dia traz pranto, e a noite a scisma;Um paiz do orações e de blasphemia,N'elle a crença na duvida se abysma.Ahi, mal nasce a flôr, o verme a corta,O mar é um escarcéo, e o sol sombrio;Se a ventura n'um sonho transpareceA suffoca em seus braços o fastio.Quando o amor, qual sphynge indecifravelAhi vai a bramir, perdido o sizo...Ás vezes ri alegre, e outras vezesÉ um triste soluço esse sorriso...Vive-se n'esse e paiz com a mágoa e o riso;Quem d'lle se ausentou treme e maldiz;Mas ai, eu n'elle passo a mocidade,Pois é meu coração esse paiz!
[4]Os poetas postos n'esta colecção são todos contemporaneos. Encontrei-os no livro publicado em 1868 pela Sra. Judith Walter, distincta viajante que dizem conhecer profundamente a lingua chineza, e que os traduziu em simples e corrente prosa.
[4]Os poetas postos n'esta colecção são todos contemporaneos. Encontrei-os no livro publicado em 1868 pela Sra. Judith Walter, distincta viajante que dizem conhecer profundamente a lingua chineza, e que os traduziu em simples e corrente prosa.
[5]É do Sr. Antonio Feliciano de Castilho a traducção d'esta odezinha, que deu lugar á composição do meu quadro. Foi immediatamente á leitura daLyrica de Anacreonte, que eu tive a idéa de pôr em acção a ode do poeta de Teos, tão portuguezmente sahida das mãos do Sr. Castilho que mais parece original quo traducção. A concha não vale a perola; mas o delicado da perola disfarçará o grosseiro da concha.
[5]É do Sr. Antonio Feliciano de Castilho a traducção d'esta odezinha, que deu lugar á composição do meu quadro. Foi immediatamente á leitura daLyrica de Anacreonte, que eu tive a idéa de pôr em acção a ode do poeta de Teos, tão portuguezmente sahida das mãos do Sr. Castilho que mais parece original quo traducção. A concha não vale a perola; mas o delicado da perola disfarçará o grosseiro da concha.
[6]Simão de Vasconcellos não declara o nome da india, cuja acção refere em suaChronica.Achei que não foi o caso desta tamoya o unico em que tão galhardamente se manifestou a fidelidade conjugal e christã. O padre Anchieta, na carta escripta ao padre-mestre Laynez, a 16 de Abril de 1563, menciona o exemplo de uma india, mulher de um colono, a qual, depois de lh'o matarem os indios, caiu em poder destes, cujo Principal a quiz violentar. Ella resistiu e desapareceu. Os indios fizeram correr a voz de que se matára; Anchieta suppõe que elles mesmos lhe tiraram a vida. Caso analogo é referido pelo padre João Daniel (Thesouro descoberto no Amazonas, p. 2, cap. III); essa chamava-se Esperança e era da aldêa de Cabu.
[6]Simão de Vasconcellos não declara o nome da india, cuja acção refere em suaChronica.
Achei que não foi o caso desta tamoya o unico em que tão galhardamente se manifestou a fidelidade conjugal e christã. O padre Anchieta, na carta escripta ao padre-mestre Laynez, a 16 de Abril de 1563, menciona o exemplo de uma india, mulher de um colono, a qual, depois de lh'o matarem os indios, caiu em poder destes, cujo Principal a quiz violentar. Ella resistiu e desapareceu. Os indios fizeram correr a voz de que se matára; Anchieta suppõe que elles mesmos lhe tiraram a vida. Caso analogo é referido pelo padre João Daniel (Thesouro descoberto no Amazonas, p. 2, cap. III); essa chamava-se Esperança e era da aldêa de Cabu.
[7]A villa de S. Vicente.
[7]A villa de S. Vicente.
[8]Tinham os indios a religião monetheista que a tradicção lhes attribue? Nega-o positivamente o Sr. Dr. Conto de Magalhães em seu excellente estudo acerca dos selvagens, asseverando nunca ter encontrado a palavraTupannas tribus que frequentou, o ser admissivel a ideia de tal deus, no estado rudimentar dos nossos aborigenes.O Sr. Dr. Magalhães restitue aos selvagens a theogonia verdadeira. Não integramente, mas só em relação ao sol e á lua. (Coaracy e Jacy), acho noticia della noThesourodo padre João Daniel (citado em [1]); e o que então faziam os indios, quando apparecia a lua nova, me serviu á composição que vae incluida neste livro.Sem embargo das razões allegadas pelo Sr. Dr. Magalhães, que todas são de incontestavel procedencia, conservei Tupan nos versos que ora dou a lume; fil-o por ir com as tradicções litterarias que achei, tradicções que nada valem no terreno da investigação scientifica, mas que tem por si o serem acceitas e haverem adquirido um como direito de cidade.
[8]Tinham os indios a religião monetheista que a tradicção lhes attribue? Nega-o positivamente o Sr. Dr. Conto de Magalhães em seu excellente estudo acerca dos selvagens, asseverando nunca ter encontrado a palavraTupannas tribus que frequentou, o ser admissivel a ideia de tal deus, no estado rudimentar dos nossos aborigenes.
O Sr. Dr. Magalhães restitue aos selvagens a theogonia verdadeira. Não integramente, mas só em relação ao sol e á lua. (Coaracy e Jacy), acho noticia della noThesourodo padre João Daniel (citado em [1]); e o que então faziam os indios, quando apparecia a lua nova, me serviu á composição que vae incluida neste livro.
Sem embargo das razões allegadas pelo Sr. Dr. Magalhães, que todas são de incontestavel procedencia, conservei Tupan nos versos que ora dou a lume; fil-o por ir com as tradicções litterarias que achei, tradicções que nada valem no terreno da investigação scientifica, mas que tem por si o serem acceitas e haverem adquirido um como direito de cidade.
[9]É ocioso explicar em notas o sentido desta palavra e de outras, comopocema, mussurana, tangapema, kanitar, com as quais todo o leitor brasileiro está já familiarisado, graças ao uso que dellas teem feito poetas e prosadores. É tambem desnecessario fundamentar com trechos das chronicas a scena do sacrificio do prisioneiro, na estancia XI; são cousas comezinhas.
[9]É ocioso explicar em notas o sentido desta palavra e de outras, comopocema, mussurana, tangapema, kanitar, com as quais todo o leitor brasileiro está já familiarisado, graças ao uso que dellas teem feito poetas e prosadores. É tambem desnecessario fundamentar com trechos das chronicas a scena do sacrificio do prisioneiro, na estancia XI; são cousas comezinhas.
[10]Simão de Vasconcellos (Not. do Bras., liv. 2o.) citando Marcgraff e outros autores, conta, como verdadeira, a fabula a que alludem estes versos. Aproveitou-se d'alli uma comparação poetica: nada mais.
[10]Simão de Vasconcellos (Not. do Bras., liv. 2o.) citando Marcgraff e outros autores, conta, como verdadeira, a fabula a que alludem estes versos. Aproveitou-se d'alli uma comparação poetica: nada mais.
[11]Veja G. Dias,Ult. Cant., pag. 159:... Quando meu corpoÁ terra, mãe commum...
[11]Veja G. Dias,Ult. Cant., pag. 159:
... Quando meu corpoÁ terra, mãe commum...
[12]Anagéna lingua geral, quer dizer gavião.
[12]Anagéna lingua geral, quer dizer gavião.
[13]Tratando de descobrir a significação dePanenioxe, conforme escreve Rodrigues Prado, apenas achei no escasso vocabulario guaycurú, que vem em Ayres do Casal, a palavranioxetraduzida por jacaré. Não pude accertar com a significação do primeiro membro da palavra,pane; ha talvez relação entre elle e o nome do rio Yppané.
[13]Tratando de descobrir a significação dePanenioxe, conforme escreve Rodrigues Prado, apenas achei no escasso vocabulario guaycurú, que vem em Ayres do Casal, a palavranioxetraduzida por jacaré. Não pude accertar com a significação do primeiro membro da palavra,pane; ha talvez relação entre elle e o nome do rio Yppané.
[14]«Estas duas armas (lança e facão) tem sido tomadas aos portuguezes e hespanhóes, e algumas compradas a estes que inadvertidamente lh'as tem vendido.» (RODR. PRADO,Hist. dos Índios Cavalleiros.)
[14]«Estas duas armas (lança e facão) tem sido tomadas aos portuguezes e hespanhóes, e algumas compradas a estes que inadvertidamente lh'as tem vendido.» (RODR. PRADO,Hist. dos Índios Cavalleiros.)
[15]Nanine é o nome transcripto naHist. dos Índios Cavalleiros. Na lingua geral temosniani, que Martius traduz porinfans.Esta fórma pareceu mais graciosa; e não duvidei adoptal-a, desde que o meu distincto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me asseverou que, no dialecto guaycurú, de que elle ha feito estudos,nianiexprime a ideia demoça franzina, delicada, não lhe parecendo que exista a fórma empregada na monographia de Rodrigues Prado.
[15]Nanine é o nome transcripto naHist. dos Índios Cavalleiros. Na lingua geral temosniani, que Martius traduz porinfans.Esta fórma pareceu mais graciosa; e não duvidei adoptal-a, desde que o meu distincto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me asseverou que, no dialecto guaycurú, de que elle ha feito estudos,nianiexprime a ideia demoça franzina, delicada, não lhe parecendo que exista a fórma empregada na monographia de Rodrigues Prado.
[16]Os Guaycurus dividem-se em nobres, plebeus ou soldados, e captivos. Do proprio texto que me serviu esta composição se vê a que ponto repugna aos nobres toda a alliança com pessoas de condição inferior.A este proposito direi a anedocta que me foi referida por um distincto official da nossa armada, o capitão de fragata Sr. Henrique Baptista, que em 1857 esteve no Paraguay commandando oJaporá, entre o forte Coimbra e o estabelecimento Sebastopol. Ia muita vez a bordo doJaporáum chefe guaycurú, Capitãosinho, muito amigo da nossa officialidade. Tinha elle uma irmã, que outro chefe guaycurú, Lapagata, cortejava e desejava receber por espôsa. Lapagata recebêra o titulo de capitão das mãos do presidente de Matto-Grosso. Oppunha-se com todas as forças ao enlace o Capitãozinho. Um dia, perguntando-lhe o Sr. H. Batista por que motivo não consentia no casamento da irmã com Lapagata, respondeu o altivo Guaycurú:—Oponho-me, porque eu sou capitão por herança de meu pae, que já o era por herança do pae delle. Lapagata é capitão de papel.
[16]Os Guaycurus dividem-se em nobres, plebeus ou soldados, e captivos. Do proprio texto que me serviu esta composição se vê a que ponto repugna aos nobres toda a alliança com pessoas de condição inferior.
A este proposito direi a anedocta que me foi referida por um distincto official da nossa armada, o capitão de fragata Sr. Henrique Baptista, que em 1857 esteve no Paraguay commandando oJaporá, entre o forte Coimbra e o estabelecimento Sebastopol. Ia muita vez a bordo doJaporáum chefe guaycurú, Capitãosinho, muito amigo da nossa officialidade. Tinha elle uma irmã, que outro chefe guaycurú, Lapagata, cortejava e desejava receber por espôsa. Lapagata recebêra o titulo de capitão das mãos do presidente de Matto-Grosso. Oppunha-se com todas as forças ao enlace o Capitãozinho. Um dia, perguntando-lhe o Sr. H. Batista por que motivo não consentia no casamento da irmã com Lapagata, respondeu o altivo Guaycurú:
—Oponho-me, porque eu sou capitão por herança de meu pae, que já o era por herança do pae delle. Lapagata é capitão de papel.
[17]As bocayuvas servem de alimento aos Guaycurús; nas proximidades de sazonarem os cocos fazem elles grandes festas. (Veja CASAL e PRADO).
[17]As bocayuvas servem de alimento aos Guaycurús; nas proximidades de sazonarem os cocos fazem elles grandes festas. (Veja CASAL e PRADO).
[18]Taes eram os adornos das mulheres guaycurús. (Veja PRADO, CASAL e D'AZARA).
[18]Taes eram os adornos das mulheres guaycurús. (Veja PRADO, CASAL e D'AZARA).
[19]«As moças ricas vão enfeitadas, como se ornariam para o proprio noivado.» (AIRES DO CASAL,Coroa., 280).
[19]«As moças ricas vão enfeitadas, como se ornariam para o proprio noivado.» (AIRES DO CASAL,Coroa., 280).
[20]Allude a um trecho do propheta Daniel:«9.—E lavei-te na agua, e alimpei-te do teu sangue; e te ungi com um oleo;«13.—E foste enfeitada de ouro e prata, e vestida de linho e de roupas bordadas, e de diversas cores; nutriste-te da farinha e de mel e de azeite, e foste mui aformoseada em extremo.» (DANIEL, XV)
[20]Allude a um trecho do propheta Daniel:
«9.—E lavei-te na agua, e alimpei-te do teu sangue; e te ungi com um oleo;
«13.—E foste enfeitada de ouro e prata, e vestida de linho e de roupas bordadas, e de diversas cores; nutriste-te da farinha e de mel e de azeite, e foste mui aformoseada em extremo.» (DANIEL, XV)
[21]Rebecca, filha da Mesopotamia.
[21]Rebecca, filha da Mesopotamia.