MISCELANEA.

Que eu não possa ajuntar como o QuintellaÉ cousa, que me afflige o pensamento;Desinquieta a porra quer sustento,E a pivia tracta já de bagatella:Se n'outro tempo houve alguma bella,Que a amor só désse o cono pennugento,Isso foi, já não é; que o mais sebentoCagaçal quer durazia caravella.Perdem saude, bolsa, e economia;Nunca mais me verão meu membro roto;Esta a minha porral philosophia.Putas, adeus! Não sou vosso devoto;Co'um sesso enganarei a phantasia,N'uma escada enrabando um bom garoto.

Que eu não possa ajuntar como o QuintellaÉ cousa, que me afflige o pensamento;Desinquieta a porra quer sustento,E a pivia tracta já de bagatella:

Se n'outro tempo houve alguma bella,Que a amor só désse o cono pennugento,Isso foi, já não é; que o mais sebentoCagaçal quer durazia caravella.

Perdem saude, bolsa, e economia;Nunca mais me verão meu membro roto;Esta a minha porral philosophia.

Putas, adeus! Não sou vosso devoto;Co'um sesso enganarei a phantasia,N'uma escada enrabando um bom garoto.

Um tabellião caduco,Com mulher moça casado,Vaiportarno seu estadoPor fé o signalde cuco:Como já não deita succoPor mais que puche os atilhos,Não lhe hão de faltar casquilhosPara a moça amantes novos,Que lhe vão galando os ovos,E elle vá creando os filhos.

Um tabellião caduco,Com mulher moça casado,Vaiportarno seu estadoPor fé o signalde cuco:Como já não deita succoPor mais que puche os atilhos,Não lhe hão de faltar casquilhosPara a moça amantes novos,Que lhe vão galando os ovos,E elle vá creando os filhos.

Elle diz que assim o quer;Mas de raiva dará pulos,Vendo que sãoactos nullosOsactosque elle fizer:Sem terdireitoá mulherQue será d'este demonio?Logo então qualquer bolonioLhe desmancha o casamento,Porque não teminstrumentoCom que prove o matrimonio.

Elle diz que assim o quer;Mas de raiva dará pulos,Vendo que sãoactos nullosOsactosque elle fizer:Sem terdireitoá mulherQue será d'este demonio?Logo então qualquer bolonioLhe desmancha o casamento,Porque não teminstrumentoCom que prove o matrimonio.

Tenha embhora muita renda,Seja lavrador morgado,Mas para homem casadoSempre tem pouca fazenda.É provavel se arrependaA pobre da rapariga,Que se agatanhe e maldiga,Quando na noute da bodaCorrer a ceara toda,E não encontrar espiga.

Tenha embhora muita renda,Seja lavrador morgado,Mas para homem casadoSempre tem pouca fazenda.É provavel se arrependaA pobre da rapariga,Que se agatanhe e maldiga,Quando na noute da bodaCorrer a ceara toda,E não encontrar espiga.

Inda que não tome a monaPor ter fibra já cansada,Mal pode assistir á entradaDe Carlos em Barcelona:Que o leve ao porto de AnconaNão terá vento ponteiro,E andando sempre em cruzeiroQue fará este homem raro?Ser como os cães, que teem faro;Conhecel-o pelo cheiro.

Inda que não tome a monaPor ter fibra já cansada,Mal pode assistir á entradaDe Carlos em Barcelona:Que o leve ao porto de AnconaNão terá vento ponteiro,E andando sempre em cruzeiroQue fará este homem raro?Ser como os cães, que teem faro;Conhecel-o pelo cheiro.

Por mais que á moça infelizFaça protestos de amor,Sempre se quer fiadorD'homem sem bens de raiz;Só crerá no que elle dizSeescripturalhe fizer;E elle pode-lhe fazerUma duzia, e uma centena;Mas nunca molhando a pennaNo tinteiro da mulher.

Por mais que á moça infelizFaça protestos de amor,Sempre se quer fiadorD'homem sem bens de raiz;Só crerá no que elle dizSeescripturalhe fizer;E elle pode-lhe fazerUma duzia, e uma centena;Mas nunca molhando a pennaNo tinteiro da mulher.

São tristes da moça os fados,Pois lhe não consentem que ellaAvance pela ArreitellaTé Pica de Regalados:Logo entre estes dous casadosSe trava renhido pleito,Mas se poraggravoofeitoElle leva á Relação,Lá ninguem lhe dá razão,Sem que mostre odireito.

São tristes da moça os fados,Pois lhe não consentem que ellaAvance pela ArreitellaTé Pica de Regalados:Logo entre estes dous casadosSe trava renhido pleito,Mas se poraggravoofeitoElle leva á Relação,Lá ninguem lhe dá razão,Sem que mostre odireito.

O inferno do Ciume.

O inferno do Ciume.

Esse abysmo, esse Orco eternoNão é filho da razão;Os pavores da illusãoÉ que pariram o inferno:Pelo sizo me governo,Que louco e falso o presume;Mas, se não creio esse lume,Nem esse invento maldicto,Por exp'riencia acreditoO inferno do Ciume.

Esse abysmo, esse Orco eternoNão é filho da razão;Os pavores da illusãoÉ que pariram o inferno:Pelo sizo me governo,Que louco e falso o presume;Mas, se não creio esse lume,Nem esse invento maldicto,Por exp'riencia acreditoO inferno do Ciume.

Em vão prégador rançosoLá do pulpito vozêa,Quando a triste imagem fêaTraça do inferno horroroso:É systema fabuloso,Que á razão embota o gume;Não, não ha Tartareo lume,Que devore a humanidade:Sabeis vós o que é verdade?O inferno do Ciume.

Em vão prégador rançosoLá do pulpito vozêa,Quando a triste imagem fêaTraça do inferno horroroso:É systema fabuloso,Que á razão embota o gume;Não, não ha Tartareo lume,Que devore a humanidade:Sabeis vós o que é verdade?O inferno do Ciume.

Venha cá, sô Boticario,Vossê sabe em que se mette,De tão rafado cadeteSendo terceiro, está vario?Advirta que é necessarioReportar acções insanas;Estude em fazer tisanas,Algum purgante ligeiro,Mas não seja alcoviteiroMuito menos de sacanas.

Venha cá, sô Boticario,Vossê sabe em que se mette,De tão rafado cadeteSendo terceiro, está vario?Advirta que é necessarioReportar acções insanas;Estude em fazer tisanas,Algum purgante ligeiro,Mas não seja alcoviteiroMuito menos de sacanas.

P'ra que viva a cosinheira,Que tão boaspapasfez!Confesso por esta vezQue bem me sabe, e me cheira:O Papa em sua cadeiraVestido de estola e capa,Não faz cousa tão guapa:A cosinheira faz mais;O Papa faz Cardeaes,A cosinheira fazpapas.

P'ra que viva a cosinheira,Que tão boaspapasfez!Confesso por esta vezQue bem me sabe, e me cheira:O Papa em sua cadeiraVestido de estola e capa,Não faz cousa tão guapa:A cosinheira faz mais;O Papa faz Cardeaes,A cosinheira fazpapas.

Poeta.

Tejo, que tens, estás quedo?Não banhas hoje esta praia?De que o teu valor desmaia?

Tejo, que tens, estás quedo?Não banhas hoje esta praia?De que o teu valor desmaia?

Tejo.

Eu t'o digo, mas segredo:Confesso que tenho medoDo teu ranchinho infernal.

Eu t'o digo, mas segredo:Confesso que tenho medoDo teu ranchinho infernal.

Poeta.

O teu susto é natural,Parecem tres furiasinhas;Mas comtudo são mansinhas,Não mordem, nem fazem mal.

O teu susto é natural,Parecem tres furiasinhas;Mas comtudo são mansinhas,Não mordem, nem fazem mal.

São uns cornos mui bem feitos,Uns cornos mui delicados,São cornos, que torneadosSe podem trazer aos peitos:Cornos que sobem direitos,Pela sua varonia,E sem mais chronologiaTem gravados na armaduraOs timbres da fidalguia.

São uns cornos mui bem feitos,Uns cornos mui delicados,São cornos, que torneadosSe podem trazer aos peitos:Cornos que sobem direitos,Pela sua varonia,E sem mais chronologiaTem gravados na armaduraOs timbres da fidalguia.

Á meia nouteSaíu de um canoCheio de merdaCrispiniano.Eis que da rondaTropel insanoDivisa ao longeCrispiniano.Capuz o cobre;«És franciscano?»— Sou (lhe responde)«Crispiniano.»Chega o Alcaide,Dá-lhe um abano;Sáe da gravataCrispiniano..

Á meia nouteSaíu de um canoCheio de merdaCrispiniano.

Eis que da rondaTropel insanoDivisa ao longeCrispiniano.

Capuz o cobre;«És franciscano?»— Sou (lhe responde)«Crispiniano.»

Chega o Alcaide,Dá-lhe um abano;Sáe da gravataCrispiniano..

Genio só dado a sordidas torpezas,Que usas comprar na immunda CotoviaChochos agrados de venaes bellezas:Solto o cabello, as carnes arripiaNa morte d'esta illustre recoveira,E inspira-me tristissima elegia.Honrada, e a mais sabida alcoviteira,A ti consagro este cypreste umbroso,Com que te enramo a esqualida caveira;Em quanto pelo rio pantanosoA ouvir te leva o pallido CharonteSeveras leis de Minos rigoroso.Alçando para o ar a crespa fronteOs ouvidos estende ás vozes minhas,Quando no mundo os teus louvores conte.Vós, moças do Bairro-Alto e Fontainhas,Vós testemunhas sois da grande faltaQue chorando contais entre as visinhas.Ai! Que ha de ser de vós, gente de malta!Eu vejo em vossas faces o desgosto,E a dor, que os corações vos sobresalta!Morreu a vossa mãe, o vosso encosto,Que vos ganhava o pão honradamente,Inda que com suor do vosso rosto!Não mais vereis entre a mundana genteD'aquella honrada bôca o grato riso,Que descubria um solitario dente!Morreu a discrição, foi-se o juizo,Vós o sabeis: melhor que esta viuvaNinguem fez um recado de improviso.Embrulhada na capa ao vento, á chuva,Ella comprar-vos ia caridosaAs ginjas, os melões, a pêra, a uva:Vendo qualquer de vós triste e chorosa,Ella desassocega, ella trabalhaPor livrar-vos da pena lamentosa:Conhecia os tafues já pela malha,Ella vos apartava dos sovinas,Para aquelles que dão maior medalha:Chupista de dinheiro e de tolinas,Por todas repartindo esta pendanga,Ella era o vosso bem, e as vossas minas.C'os homens depravados tinha zanga,Gostava da modestia, e da virtudeDos que dão a beijar cordão e manga.Se a mandavam beber, era um almude,E ás vezes não parava até que a bôcaSe lhe punha mais grossa do que grude.A que a buscava, e que não era louca,A recolhia em casa, e pela mammaApenas lhe levava cousa pouca.Sempre de todas dava boa fama,De freguezes lhe armava quantidade,Té as pôr sobre si com casa e cama.Nos ganhos não levou nunca metade;Qualquer cousa aceitava, porque pensaQue o mais era faltar á charidade.Dotada foi de charidade immensa;Sempre ao lado se achou da sua amigaNo tempo da saude, e da doença.Aquella moça gordalhuda o diga;Ella pode pintar mais vivos quadrosD'esta estimavel, d'esta amante liga.No tempo em que ella andou vagando os adrosMil vezes lhe curou c'os seus inventosCrueis camadas de piolhos ladros.Ella mesma c'os dedos fedorentosCheia de amor, de charidade cheia,Lhe ministrava os fetidos unguentos.Á frouxa luz da tremula candêa,Que tem no chammejar seus intervalos,As chagas cura, a porquidade aceia:De alvissima pomada untando os callos,As partes amacîa, que mordêraO dente de ardentissimos cavallos.Jámais no seu trajar luxo tivera,Nem na sua cabeça houve polvilhos,Depois que seu marido lhe morrêra.Foi a primeira em dar ensino aos filhos;Procurai este trilho verdadeiroVós, oh paes, que seguis diff'rentes trilhos.Uma filha, que Deus lhe deu primeiro,Arrimada a deixou com loja aberta;Teve um filho, que foi alcoviteiro.Eia, paes de familias, olho álerta;Se quereis vossos filhos empregados,Tendes seculo bom, e é móca certa.Dispoz da sua terça, que tiradosOs gastos funeraes, que lhe fariamOs devotos irmãos, gatos-pingados,Os seus testamenteiros comprariamC'o resto uma barraca, em que decenteUma casa d'alcouce erigiriam:Que haveriam noviças e regente;Proveu logo este cargo na Coveira,Por ser mais respeitosa, e mais prudente:A Santarena fica thesoureira;Chamou para escrivan a Ignacia China,Felicia de Chaté madre rodeira.Ninguem melhor os seus vintens destina,Porque para solteiras e casadasVejam que seminario de doctrina!Entre as ultimas vozes já truncadas,Chamando a filha com afago, e rogoFicaram entre os braços enlaçadas.«A mecha (lhe diz ella) junto ao fogo«É facil de pegar…» Ia adiante,Porém não disse mais, que morreu logo.De pallidez cobriu-se-lhe o semblante,Ouviram-se ao redor gritos immensosDa turba feminil, pouco constante.Ternos suspiros pelos ares densosVão abraçar o seu cadaver frio,Cobrem-se os olhos de engomados lenços.Cortou a Parca d'esta vida o fio,O esp'rito nú, da carne desatado,Lá vai cruzando o lutulento rio.Oh dia com razão amargurado!Em quanto nos lembrar tão triste imagem,Sempre serás dos bons tafues chorado.Cobrir tu viste com pesada lagemAquella que nos fez o beneficioDe nos dar uma casa d'estalagem.Ninguem soube melhor do seu officio;Nem se achára tão destra alcoviteiraSómente com trinta annos d'exercicio.E vós, mulheres, que gostais d'asneira,Honrai as suas cinzas, os seus ossos,E respeitai-lhe a funebre caveira.A morte dá nos velhos e nos moços;Ninguem se escapa da carranca feiaDepois de preso em seus calabres grossos.Conservai pois esta fatal idéa,E rodeando o corpo desditoso,Accendei cada qual uma candêa,E fazei-lhe um sepulchro apparatoso.

Genio só dado a sordidas torpezas,Que usas comprar na immunda CotoviaChochos agrados de venaes bellezas:Solto o cabello, as carnes arripiaNa morte d'esta illustre recoveira,E inspira-me tristissima elegia.Honrada, e a mais sabida alcoviteira,A ti consagro este cypreste umbroso,Com que te enramo a esqualida caveira;Em quanto pelo rio pantanosoA ouvir te leva o pallido CharonteSeveras leis de Minos rigoroso.Alçando para o ar a crespa fronteOs ouvidos estende ás vozes minhas,Quando no mundo os teus louvores conte.Vós, moças do Bairro-Alto e Fontainhas,Vós testemunhas sois da grande faltaQue chorando contais entre as visinhas.Ai! Que ha de ser de vós, gente de malta!Eu vejo em vossas faces o desgosto,E a dor, que os corações vos sobresalta!Morreu a vossa mãe, o vosso encosto,Que vos ganhava o pão honradamente,Inda que com suor do vosso rosto!Não mais vereis entre a mundana genteD'aquella honrada bôca o grato riso,Que descubria um solitario dente!Morreu a discrição, foi-se o juizo,Vós o sabeis: melhor que esta viuvaNinguem fez um recado de improviso.Embrulhada na capa ao vento, á chuva,Ella comprar-vos ia caridosaAs ginjas, os melões, a pêra, a uva:Vendo qualquer de vós triste e chorosa,Ella desassocega, ella trabalhaPor livrar-vos da pena lamentosa:Conhecia os tafues já pela malha,Ella vos apartava dos sovinas,Para aquelles que dão maior medalha:Chupista de dinheiro e de tolinas,Por todas repartindo esta pendanga,Ella era o vosso bem, e as vossas minas.C'os homens depravados tinha zanga,Gostava da modestia, e da virtudeDos que dão a beijar cordão e manga.Se a mandavam beber, era um almude,E ás vezes não parava até que a bôcaSe lhe punha mais grossa do que grude.A que a buscava, e que não era louca,A recolhia em casa, e pela mammaApenas lhe levava cousa pouca.Sempre de todas dava boa fama,De freguezes lhe armava quantidade,Té as pôr sobre si com casa e cama.Nos ganhos não levou nunca metade;Qualquer cousa aceitava, porque pensaQue o mais era faltar á charidade.Dotada foi de charidade immensa;Sempre ao lado se achou da sua amigaNo tempo da saude, e da doença.Aquella moça gordalhuda o diga;Ella pode pintar mais vivos quadrosD'esta estimavel, d'esta amante liga.No tempo em que ella andou vagando os adrosMil vezes lhe curou c'os seus inventosCrueis camadas de piolhos ladros.Ella mesma c'os dedos fedorentosCheia de amor, de charidade cheia,Lhe ministrava os fetidos unguentos.Á frouxa luz da tremula candêa,Que tem no chammejar seus intervalos,As chagas cura, a porquidade aceia:De alvissima pomada untando os callos,As partes amacîa, que mordêraO dente de ardentissimos cavallos.Jámais no seu trajar luxo tivera,Nem na sua cabeça houve polvilhos,Depois que seu marido lhe morrêra.Foi a primeira em dar ensino aos filhos;Procurai este trilho verdadeiroVós, oh paes, que seguis diff'rentes trilhos.Uma filha, que Deus lhe deu primeiro,Arrimada a deixou com loja aberta;Teve um filho, que foi alcoviteiro.Eia, paes de familias, olho álerta;Se quereis vossos filhos empregados,Tendes seculo bom, e é móca certa.Dispoz da sua terça, que tiradosOs gastos funeraes, que lhe fariamOs devotos irmãos, gatos-pingados,Os seus testamenteiros comprariamC'o resto uma barraca, em que decenteUma casa d'alcouce erigiriam:Que haveriam noviças e regente;Proveu logo este cargo na Coveira,Por ser mais respeitosa, e mais prudente:A Santarena fica thesoureira;Chamou para escrivan a Ignacia China,Felicia de Chaté madre rodeira.Ninguem melhor os seus vintens destina,Porque para solteiras e casadasVejam que seminario de doctrina!Entre as ultimas vozes já truncadas,Chamando a filha com afago, e rogoFicaram entre os braços enlaçadas.«A mecha (lhe diz ella) junto ao fogo«É facil de pegar…» Ia adiante,Porém não disse mais, que morreu logo.De pallidez cobriu-se-lhe o semblante,Ouviram-se ao redor gritos immensosDa turba feminil, pouco constante.Ternos suspiros pelos ares densosVão abraçar o seu cadaver frio,Cobrem-se os olhos de engomados lenços.Cortou a Parca d'esta vida o fio,O esp'rito nú, da carne desatado,Lá vai cruzando o lutulento rio.Oh dia com razão amargurado!Em quanto nos lembrar tão triste imagem,Sempre serás dos bons tafues chorado.Cobrir tu viste com pesada lagemAquella que nos fez o beneficioDe nos dar uma casa d'estalagem.Ninguem soube melhor do seu officio;Nem se achára tão destra alcoviteiraSómente com trinta annos d'exercicio.E vós, mulheres, que gostais d'asneira,Honrai as suas cinzas, os seus ossos,E respeitai-lhe a funebre caveira.A morte dá nos velhos e nos moços;Ninguem se escapa da carranca feiaDepois de preso em seus calabres grossos.Conservai pois esta fatal idéa,E rodeando o corpo desditoso,Accendei cada qual uma candêa,E fazei-lhe um sepulchro apparatoso.

Este poema parece ter sido um dos primeiros ensaios da musa de Bocage. Inducções fundadas em boa razão nos levam a conjecturar que a composição d'elle data de tempos anteriores ao da partida do poeta para Gôa, isto é, do anno 1785. O transumpto pelo qual se fez a presente edição, é sem duvida preferivel por sua correcção ao de que se serviu quem ha já bastantes annos fez imprimir em Paris o referido poema, juntamente com outras poesias do mesmo genero em um folheto de oitavo grande. Posto que sobejem fundamentos para julgar reaes as personagens, e passados em verdade os factos, que despertaram a vêa satyrica do poeta, suscitando-lhe a idéa de tal composição, não é comtudo possivel entrar em algumas particularidades a esse respeito: e até julgâmos pouco provavel que, mesmo em Setubal, se conserva ainda a memoria das façanhas do azevichado heróe, que mereceu obter a immortalidade nos versos doBardo do Sado.

Resumindo aqui as indicações constantes de uma nota, que encontrámos appensa a um antigo manuscripto d'este poema, sem todavia nos responsabilisarmos por sua veracidade, diremos que a protagonista D.nnaJacques Manteigui, natural de Damão, vivia na cidade de Gôa em companhia de um marido de boa feição (cujo nome e circumstancias não vieram ao nosso conhecimento). Esta dama tornava-se notavel não menos pela sua belleza que por sua desenvoltura e ambição; e sabia fazer dos seus encantos um trafico por extremo lucrativo. D. Frederico Guilherme de Sousa, então Governador geral da India, apaixonando-se por ella, a tomara por sua amiga; porém isso não obstava a que ella não lhe fizesse repetidas infidelidades. Entre outras era accusada pela voz publica de entreter luxurioso commercio com um negro, seu escravo, moço bem fornido, ao qual dava de graça o mesmo que o Governador só podia comprar por alto preço! — Disse-se que na presente composição entrara por muito a vingança pessoal de Bocage, despeitado porque a dama se recusara abertamente a corresponder-lhe, pleiteando elle com ancia os seus favores. O que parece fóra de duvida é que d'aqui lhe proveiu em parte a sua desgraça; pois que chegando esta satyra ás mãos de D. Frederico, este se julgou altamente offendido na pessoa da sua bella, e irritado contra o poeta o mandou incontinente deportado para Macau, d'onde a muito custo pôde obter licença e meios de transportar-se a Lisboa.

De poema «Manteigui» temos visto tres ou quatro edições diversas; todas feitas, ao que parece, em Lisboa. Não nos ligámos a alguma em particular, mas aproveitámos de todas as variantes que offereciam visos de mais correctas, confrontando-as sempre com os manuscriptos que possuiamos, e preferindo em todos os casos o que se nos afigurava por mais exacto, e conforme ao texto original.

Esta peça, mais conhecida sob a denominação de «Noute de Inverno» e já por vezes impressa, tem sido quasi universalmente attribuida a Bocage; pareceu portanto que não devia omittir-se na presente edição. Devemos porém declarar aos leitores, que segundo o testemunho de pessoas mui auctorisadas, ella não é obra do nosso poeta, e sim do seu contemporaneo e amigo Sebastião Xavier Botelho. De outras, que estão em caso analogo, e que similhantemente vão aqui incorporadas, iremos dando razão nos logares competentes.

Todas as pessoas lidas na historia de Bocage sabem que esta epistola, e o soneto que damos a pag. 111 do presente volume, lhe serviram principalmente de corpo de delicto, quando, perseguido por ordem da Intendencia geral da policia, foi a final preso em 10 de agosto de 1797; sendo então transportado de bordo da embarcação onde se refugiara para os segredos da cadêa do Limoeiro, e d'ahi passados alguns mezes removido para os carceres da Inquisição. (Veja-se o «Estudo Biographico» que vem no tomo I. das Poesias de Bocage, edição de 1853, a pag. XL e seguintes.)

Antonio Maria do Couto nas «Memorias» que escreveu ácerca da vida do poeta, affirma em tom decisivo —que a Epistola a Marilia fora feita por occasião de ser seu mestre um frade (graciano) que a requestava: assim será; mas parece-nos, lendo esta composição, que o poeta exigia da sua bella mais alguma cousa do que pol-a de aviso contra as seducções do frade.

Quando começaram a divulgar-se algumas copias d'esta epistola, varios engenhos devotos e de animo timorato, escandalisados justamente da erronea philosophia do auctor, e muito mais do modo impio e libertino com que elle dogmatisara,estabelecendo e propalando principios tão anti-religiosos, e anti-sociaes, entenderam que era do seu dever opporem-se a taes doctrinas: para que o antidoto seguisse de perto o veneno, julgaram por melhor servir-se das mesmas armas, empregando egualmente a linguagem das musas, e ligando á força dos raciocinios as graças da metrificação. Das «Refutações» que n'este sentido appareceram conservâmos duas em nosso poder; e como as suppomos desconhecidas para o commum dos leitores, ahi lh'as apresentamos, desejando que n'ellas encontrem um correctivo seguro contra as falsas e seductoras maximas da epistola bocagiana.

A primeira é obra de Manuel Thomás Pinheiro de Aragão, admirador e amigo de Bocage, falecido ha poucos annos, e que por muitos exerceu em Lisboa com bons creditos o magisterio na instrucção da mocidade. Quanto á segunda não podémos, apesar de toda a diligencia, conhecer até agora o nome do seu auctor.

Fatal meditação da Eternidade,Dos vivos illusão, vida dos mortos;Ou gloria para sempre, ou sempre inferno;De desordens, de crimes oppressora,Não forjada por despotas, por bonzos,Mas sim por divinal credulidade;Dogma infallivel, que o prazer arreigasQuando a sizania c'o remorso arrancas;Dogma infallivel, favoravel crença,Digno premio de peitos innocentes,Das delicias gosando, que mal fingemImpavidos á furia Centimanos,Que vomitando estão perpetua chamma;Superiores motejam seu enganoNo limiar das Parcas, eis o quadroQue observa em vivas côres a ignorancia,Egualmente a sciencia em vivas côres;Inda que eu por sciente só conheçoA quem teme os castigos no ameaço,A quem teme tornar um páe tyranno,A quem lamenta inuteis suas preces,Por mais que em giro ao throno elle as espalhe.Teme o sabio que um Deus irado o fira,E penitente vae, supplíca a veniaAo dispenseiro seu, nobre, e sagrado.Que ora as graças lhe abre, ora as ferrolha;As graças, que co'as leis da naturezaSe ligam sempre, eternas, necessarias,E só quando a vontade as torna em crimesCruel desunião n'ellas fomenta;Por vêl-a rebellada lhe fulminaPrisões suaves no jejum, cilicio,Que n'um geral conselho só lhe arbitra;Humilde, pode resarcir-se a benção;Suberba, porque quer desenfadar-seNo jugo, que remata nas delicias,Recáe n'outro maior, que a morte vende.

Fatal meditação da Eternidade,Dos vivos illusão, vida dos mortos;Ou gloria para sempre, ou sempre inferno;De desordens, de crimes oppressora,Não forjada por despotas, por bonzos,Mas sim por divinal credulidade;Dogma infallivel, que o prazer arreigasQuando a sizania c'o remorso arrancas;Dogma infallivel, favoravel crença,Digno premio de peitos innocentes,Das delicias gosando, que mal fingemImpavidos á furia Centimanos,Que vomitando estão perpetua chamma;Superiores motejam seu enganoNo limiar das Parcas, eis o quadroQue observa em vivas côres a ignorancia,Egualmente a sciencia em vivas côres;Inda que eu por sciente só conheçoA quem teme os castigos no ameaço,A quem teme tornar um páe tyranno,A quem lamenta inuteis suas preces,Por mais que em giro ao throno elle as espalhe.Teme o sabio que um Deus irado o fira,E penitente vae, supplíca a veniaAo dispenseiro seu, nobre, e sagrado.Que ora as graças lhe abre, ora as ferrolha;As graças, que co'as leis da naturezaSe ligam sempre, eternas, necessarias,E só quando a vontade as torna em crimesCruel desunião n'ellas fomenta;Por vêl-a rebellada lhe fulminaPrisões suaves no jejum, cilicio,Que n'um geral conselho só lhe arbitra;Humilde, pode resarcir-se a benção;Suberba, porque quer desenfadar-seNo jugo, que remata nas delicias,Recáe n'outro maior, que a morte vende.

E inda dizem que Deus é vingativo,Se com razão sacode o raio ardente?…Antes te louvarei, por que não désteO justo premio a muitos, que arrojandoContra si tremendissima sentençaJulgam pela grandeza propria o crime,E não querem fazer seu peito escravoNo castigo, que affirmam ser-lhes duro!Será eterna a pena n'esses peitos,Que d'um Deus se não movem ao interesse,E o desaggravo indomito attribuemMenos ao Sempiterno, do que a todosTemendo perdurar como a mesma alma,Verdades proferidas nos altares,Onde ha satisfação, e não cruezas:Vemos ali ministro venerando,Longe de renovar suppostos odios,Defendendo nos crimes a innocencia,Primeiro recusando alto dominio,C'o peso superior por tempo incita:Eil-o na honra altissima abrasado,Com sangue apaga inundações de fogo;Testemunhas do zelo a voz, e a espuma;Mandado por um Deus, tão bom como elle,Pede ao Senhor não multiplique exemplosCom que já se consterna a phantasia!Victima impura de outra vez no povo,Livremente seu povo entrega á morte:Defuncto o servo, que esfriava os raios,Punia sem limite o Omnipotente;Inda lembra ao Sinai tremer-lhe a terra,Quando Adonai lhe intima seus decretos.Ah! Moysés, que não podes ser astuto,Contra a publica voz, que assim troveja!O teu povo confessa os seus furores,Quando entregue de um Deus á justa raivaSua clemencia, succumbia á tua:Na inteireza, que tens, creio; confioQue a tocha da verdade te precede,Para mais deslumbrar aos que te offendem:Que se o ferro fatal já não se ensopaNo resto d'estas animadas cinzas,Da lei da graça os divinaes incensosPor disfarçar a pena tornam surdosÁ voz interna os que não crêem no inferno:Tremenda lei, se a pena lhe retardas!Mas se lh'a appressa executor prophetaLhe acalma as iras, porque vae, diffundeO pavoroso medo nos sequazesDo idolatra e espantoso fanatismo.Convocam-se os levitas, os quaes matamAos cumplices de tal atrocidade:Comprimida gemeu a Natureza;Por um Deus os consortes, páes, e filhosCom seu sangue as espadas, vestes tingem:Recobra o páe quem faz o parricidio,E aos campos, que de victimas se alastramChovem mil novas graças como em rios.Acalmada a justiça a teus clamores,Por honra do teu Deus, servo sedento,Co'um só estrago evitas mil estragos,Ferrando a todos do leão as garras.E tu, impio, as blasphemias que derramasEscusa, lendo a historia dos tyrannos.Os de Israel não foram que este exemploTomaram por fazer pesado o jugo;Por uma vil paixão, cruel, não manchesOs direitos de um Ser eterno, augusto.De um Deus real Moysés real validoDeu cultos á verdade, corte ao genio,E codigo de leis mais necessarioDeu a todos, que a bem de si o imitam,Prova fiel de que um Deus senhor existe.

E inda dizem que Deus é vingativo,Se com razão sacode o raio ardente?…Antes te louvarei, por que não désteO justo premio a muitos, que arrojandoContra si tremendissima sentençaJulgam pela grandeza propria o crime,E não querem fazer seu peito escravoNo castigo, que affirmam ser-lhes duro!Será eterna a pena n'esses peitos,Que d'um Deus se não movem ao interesse,E o desaggravo indomito attribuemMenos ao Sempiterno, do que a todosTemendo perdurar como a mesma alma,Verdades proferidas nos altares,Onde ha satisfação, e não cruezas:Vemos ali ministro venerando,Longe de renovar suppostos odios,Defendendo nos crimes a innocencia,Primeiro recusando alto dominio,C'o peso superior por tempo incita:Eil-o na honra altissima abrasado,Com sangue apaga inundações de fogo;Testemunhas do zelo a voz, e a espuma;Mandado por um Deus, tão bom como elle,Pede ao Senhor não multiplique exemplosCom que já se consterna a phantasia!Victima impura de outra vez no povo,Livremente seu povo entrega á morte:Defuncto o servo, que esfriava os raios,Punia sem limite o Omnipotente;Inda lembra ao Sinai tremer-lhe a terra,Quando Adonai lhe intima seus decretos.Ah! Moysés, que não podes ser astuto,Contra a publica voz, que assim troveja!O teu povo confessa os seus furores,Quando entregue de um Deus á justa raivaSua clemencia, succumbia á tua:Na inteireza, que tens, creio; confioQue a tocha da verdade te precede,Para mais deslumbrar aos que te offendem:Que se o ferro fatal já não se ensopaNo resto d'estas animadas cinzas,Da lei da graça os divinaes incensosPor disfarçar a pena tornam surdosÁ voz interna os que não crêem no inferno:Tremenda lei, se a pena lhe retardas!Mas se lh'a appressa executor prophetaLhe acalma as iras, porque vae, diffundeO pavoroso medo nos sequazesDo idolatra e espantoso fanatismo.Convocam-se os levitas, os quaes matamAos cumplices de tal atrocidade:Comprimida gemeu a Natureza;Por um Deus os consortes, páes, e filhosCom seu sangue as espadas, vestes tingem:Recobra o páe quem faz o parricidio,E aos campos, que de victimas se alastramChovem mil novas graças como em rios.Acalmada a justiça a teus clamores,Por honra do teu Deus, servo sedento,Co'um só estrago evitas mil estragos,Ferrando a todos do leão as garras.E tu, impio, as blasphemias que derramasEscusa, lendo a historia dos tyrannos.Os de Israel não foram que este exemploTomaram por fazer pesado o jugo;Por uma vil paixão, cruel, não manchesOs direitos de um Ser eterno, augusto.De um Deus real Moysés real validoDeu cultos á verdade, corte ao genio,E codigo de leis mais necessarioDeu a todos, que a bem de si o imitam,Prova fiel de que um Deus senhor existe.

O quadro original eis, oh Marilia,Em que a verdade ha tempos anda envolta,Sem que pinceis deslustrem d'esses temposOs que fieis copiam pinceis nossos.Tradição verdadeira desarreigaToda a suspeita de fallaz doctrina,Quando entre mil e mil preoccupadosNos podêmos suppôr de horridas sombras,Formando povo, juram que a piedadeExiste em Deus, inda quando te flagella.Não julga o impio assim, que todo é fogo,Que o Deus tem nas paixões, e vive d'ellas;Forma um Nume, que ao seu dictame ajusta,E por elle regula a infeliz vida.Simulacro liberrimo é suave,Dirige a seu exemplo as acções todas,E em tanto que se escuta a natureza,Vae fugindo a razão, e céga a muitos.Ambas, sendo guiadas, não differem,Dos factos aos reflexos só conduzem;E a mesma, que soccorre ao indigente,Que alenta, que consola o triste afflicto,A mesma em si reflecte consternadaQuando algum seu alumno entrega os pulsosVoluntario de amor ás vís algemas:Amor, que uma inspirou, ambas approvam,E ambas murmuram aliás da insaniaQue os humanos colloca a par dos brutos,Queda, vicio total, que os desacorda,Do qual preoccupados, uns aos outrosInvenciveis motivam feros males.Ah! não sejam, Marilia, nossas mentesTomadas do dictame em que jaz crime!Do remorso a lembrança evite a culpa;Um Deus em nosso bem benigno existe,Que te pode escudar o pensamentoAo golpe do que fragil se arrepende.Não são aos actos intenções oppostas,Antes estas áquelles dando exemplosNa contemplação propria culpam a alma.

O quadro original eis, oh Marilia,Em que a verdade ha tempos anda envolta,Sem que pinceis deslustrem d'esses temposOs que fieis copiam pinceis nossos.Tradição verdadeira desarreigaToda a suspeita de fallaz doctrina,Quando entre mil e mil preoccupadosNos podêmos suppôr de horridas sombras,Formando povo, juram que a piedadeExiste em Deus, inda quando te flagella.Não julga o impio assim, que todo é fogo,Que o Deus tem nas paixões, e vive d'ellas;Forma um Nume, que ao seu dictame ajusta,E por elle regula a infeliz vida.Simulacro liberrimo é suave,Dirige a seu exemplo as acções todas,E em tanto que se escuta a natureza,Vae fugindo a razão, e céga a muitos.Ambas, sendo guiadas, não differem,Dos factos aos reflexos só conduzem;E a mesma, que soccorre ao indigente,Que alenta, que consola o triste afflicto,A mesma em si reflecte consternadaQuando algum seu alumno entrega os pulsosVoluntario de amor ás vís algemas:Amor, que uma inspirou, ambas approvam,E ambas murmuram aliás da insaniaQue os humanos colloca a par dos brutos,Queda, vicio total, que os desacorda,Do qual preoccupados, uns aos outrosInvenciveis motivam feros males.Ah! não sejam, Marilia, nossas mentesTomadas do dictame em que jaz crime!Do remorso a lembrança evite a culpa;Um Deus em nosso bem benigno existe,Que te pode escudar o pensamentoAo golpe do que fragil se arrepende.Não são aos actos intenções oppostas,Antes estas áquelles dando exemplosNa contemplação propria culpam a alma.

Supplemento d'acção faz doce encantoO que antes era objecto de terrores,E convertido n'um final interesseEmprega a bem dos crentes a astucia:Oxalá, doce amada, que no infernoNão padecesse o pensamento angustiasDo crime o galardão, merecido premio!Que eu de amor aos fatidicos embustesMe entregára por ti, se o não houvera!Além de contemplar-te deusa bella,Novo altar te formára em minha mente.Mas ah! que a minha lei, se rigorosaMostra um semblante no ext'rior severo.Seus nobres fins a tornam jugo amante.Concedendo-me em doce ajuste sacroA posse eterna do que pinta a idéa!Em teus dotes mais ricos do que o mundoTu bem podes gravar pacto solemne,Que é desejado mais quando te esquivas;Porque o pejo innocente foge ao laçoQue inculcando te estou, te estou pedindo.Sacra alliança pedem teus direitosPor belleza e traição só extorquidos.Approva ternamente o jus paternoA chamma, quando pura se affoguêa.Então desfructarás da liberdade,Quando maior sentires este jugo[1]

Supplemento d'acção faz doce encantoO que antes era objecto de terrores,E convertido n'um final interesseEmprega a bem dos crentes a astucia:Oxalá, doce amada, que no infernoNão padecesse o pensamento angustiasDo crime o galardão, merecido premio!Que eu de amor aos fatidicos embustesMe entregára por ti, se o não houvera!Além de contemplar-te deusa bella,Novo altar te formára em minha mente.Mas ah! que a minha lei, se rigorosaMostra um semblante no ext'rior severo.Seus nobres fins a tornam jugo amante.Concedendo-me em doce ajuste sacroA posse eterna do que pinta a idéa!Em teus dotes mais ricos do que o mundoTu bem podes gravar pacto solemne,Que é desejado mais quando te esquivas;Porque o pejo innocente foge ao laçoQue inculcando te estou, te estou pedindo.Sacra alliança pedem teus direitosPor belleza e traição só extorquidos.Approva ternamente o jus paternoA chamma, quando pura se affoguêa.Então desfructarás da liberdade,Quando maior sentires este jugo[1]

Quando quer sustentar que amor com guardasInfluencias não pode ter propicias,Emmudeça tambem o louco Elmano,Que ignora do seu Deus os sanctos lares,E quer solemnisar a união de almasDando por testemunhas venerandasAs trevas, apezar que nada sejam:Deixado o sacerdote, ampliado o templo,Celebra o matrimonio em toda a terra:Quem faz caso porém de seus transportes?Seu coração ao menos desafogueEm proclamar, mas por que não incitaO vedado prazer de horrivel nome.E querendo render nossas vontadesCo'as falsas persuasões, que mal recebem,Na religião pretende amortecer-te,Porque possa appetite aviventar-te.Ah! que não se propõe ser teu amanteQuem quer na confusão de mil suspirosTão infeliz fazer-te quanto é elle!Entretanto, Marilia, não te privesD'outras estimações de quem te adora;Na minha lei tu podes ser amada,E amares, se á razão não fores surda.Meu coração de ver-te enfeitiçadoEmprega provas mil suas, e minhas,Porque ames, sem deixar de ser ditosa.Deve a religião guiar teu gosto,A lembrança final desterre o crime:Que apezar do vicioso, que pregôa,Existem céos, existe o negro inferno;Laurea-se n'aquelles a virtude,Arderá n'este para sempre o vicio.

Quando quer sustentar que amor com guardasInfluencias não pode ter propicias,Emmudeça tambem o louco Elmano,Que ignora do seu Deus os sanctos lares,E quer solemnisar a união de almasDando por testemunhas venerandasAs trevas, apezar que nada sejam:Deixado o sacerdote, ampliado o templo,Celebra o matrimonio em toda a terra:Quem faz caso porém de seus transportes?Seu coração ao menos desafogueEm proclamar, mas por que não incitaO vedado prazer de horrivel nome.E querendo render nossas vontadesCo'as falsas persuasões, que mal recebem,Na religião pretende amortecer-te,Porque possa appetite aviventar-te.Ah! que não se propõe ser teu amanteQuem quer na confusão de mil suspirosTão infeliz fazer-te quanto é elle!Entretanto, Marilia, não te privesD'outras estimações de quem te adora;Na minha lei tu podes ser amada,E amares, se á razão não fores surda.Meu coração de ver-te enfeitiçadoEmprega provas mil suas, e minhas,Porque ames, sem deixar de ser ditosa.Deve a religião guiar teu gosto,A lembrança final desterre o crime:Que apezar do vicioso, que pregôa,Existem céos, existe o negro inferno;Laurea-se n'aquelles a virtude,Arderá n'este para sempre o vicio.

Até aqui M.P. Thomaz Pinheiro d'Aragão. Veja-se agora a Refutação anonyma.

Sacrilego impostor, que renovandoOs antigos delirios da ignorancia,Mil vezes felizmente refutados,Pretendes illudir a innocencia,Fabricando um systema monstruoso,Incrivel mesmo aos olhos da impiedade:Quando a mão temeraria assim levantasContra o dogma fatal da eternidade,Aviltando o teu ser, dize, profano,Não te grita a razão — Suspende o braço?Esse Deus, que confessas amoroso,Deus de paz, pae dos homens, não flagello,Como esses attributos desempenhaCom frouxa indifferença submergindoNo embrião do nada aquelles entesEm que quiz esculpir a sua imagem?Onde estará o amor, onde a ternuraD'esse Ente nosso pae? Em ter creadoDe motu proprio uns miseraveis entes,Que depois de passarem opprimidosSobre este globo cheio de trabalhos,Devem ser outra vez depois da morteReduzidos ao nada? Dize, infame,O que vale a virtude, essa virtudeÁ custa de mil lagrimas comprada,Se a alma não passa além da sepultura,Onde só pode achar a recompensa?Para que o feio vicio é condemnado,Que os sentidos encanta e lisonjêa?Se da nossa existencia é o sepulchroO novissimo termo, é impiedadeContrastar o appetite, e devem todosÁs avidas paixões largar as redeas,Pois mais felicidade não se espera.Réo de taes sentimentos, e dos crimesQue são d'elles precisas consequencias,Attreves-te a chamar sonho, e chiméraEsse logar terrivel, que desejasNão existisse para teu flagello!Dogma fatal, mas dogma necessario,Cuja existencia só negar se attreveQuem pondo-se ao nivel dos mesmos brutosA razão, como tu, tem degradado!Dize, infeliz: se o homem virtuosoVês sem estimação, sem recompensa,Luctando co'a desgraça, em dura guerraCom as suas paixões continuamente,Se o vês dos orgulhosos opprimido,Da miseria arrastando as vís cadêas,E os flagellos soffrendo da injustiça,Dirás que o justo Deus adormecidoLhe não reserva digna recompensaDe o chamar ao seu seio, repartindoCom elle os dons da doce eternidade?Se o impio vês, pizando impunementeAs sanctas leis aos pés, e da venturaOs favores gosar, se o vês honrado,E talvez recebendo inda favoresPor opprimir a candida virtudeDos que gemem debaixo do seu throno;Se leis não pondo ao avido appetite,Gosa a satisfação, que tanto prezas,Dirás que o mesmo Deus deixa impunidaPor frouxidão a sua iniquidade,E que lhe não destina calabouçosOnde a pena receba de seus crimes?O estado feliz das almas justas,Nem de Deus fora digno, nem perfeito,Se sendo limitado a algum espaçoNão se estendesse a toda a eternidade:Pois que durando n'ella essa virtudePorque alcançaram esse dom supremoÉ conforme á justiça que em Deus sejaO premio assim tambem continuado:Pelos mesmos principios são eternosOs castigos do impio: um juiz justoNão pode perdoar um crime grave,Se d'elle o aggressor não se arrepende.Nos precitos ha sempre pertinacia,E por isso serão eternamenteDa justiça divina castigados.Aos sanctos livros… porém não profanesCo'a impia mão as paginas sagradas,Que estas tristes verdades nos relevam;Só chegar deve a este sanctuarioQuem cheio de temor, e de respeitoAs palavras adora, que elle encerra.Para te confundir, a outras fontesMais dignas de teus vís impuros labios.Por tua confusão quero guiar-te,Porque vejas que o cego gentilismoFalto das luzes sanctas do evangelho,Por entre as grossas trevas da ignoranciaO dogma conheceu, que tu condemnas:Ouve Platão, que manda os assassinosPara o Tartaro negro, e tenebroso,Onde diz que os tormentos são eternos.De Sycione ao philosopho perguntaQuem lhe ensinou que havia dous logaresPara o premio e castigo além da morte?Ouve Plutarco, que esta mesma crençaCom a maior clareza te annuncia:Lê finalmente gregos e romanos,Egypcios e chaldeos, verás em todosEste logar ao vivo retratado:Verás gemer Sisyphos carregadosC'o peso rude de infernaes penedos;Promethêos opprimidos de cadêas,Ticios de abutres feros devorados,Tantalos, e outros mil, que submergidosNo abrasado barathro nos pintam:São fabulas, eu sei; mas esta idéaPosto que com ficções desfiguradaSó de uma tradição a mais amigaPodia deduzir a sua origem.Escravo das paixões, a que te entregas,Pretendes, temerario, collocal-asPar a par da virtude, blasphemandoDe quem por torpes vicios as condemna?Aprende a defendel-as, ignorante;Verás que da razão sendo inimigasNão se podem livrar de ser culpaveis.Perdendo a graça, dize, fementido,Qual é o meio de revindical-a?Duvîdas de que o summo sacerdotePara estes infelizes naufragantesDa penitencia não deixou a taboa?Duvidarás que foi aos sacerdotesA quem deu o poder illimitadoDe atar e desatar os criminosos?Se não duvidas, deves confessar-meQue antes de proferirem a sentençaDevem primeiro conhecer a culpa.Ajoelha, profano, mentecapto,Ante este tribunal, de que escarneces,Fonte de graça, que te fugiu d'alma.Respeita nos ministros, que a despendem,Não as suas fraquezas, que são homens,Mas aquelle de quem são commissarios.Não é Deus oppressor, não vingativo,Por vibrar com a dextra o raio ardenteContra os que seguem, como tu, com furiaDa carne os criminosos movimentos,Que sua lei, tua razão condemnam.Dizes que a punição excede o crime;Blasphemo, que tu és! Pesa, se podesDa offensa a infinita gravidade,E verás que o castigo não excede.Apostata infeliz, como te atrevesA tractar de tyranno o Omnipotente,O Deus, que no Sinay envolto em gloriaSanctas leis d'Israel dictou ao povo?Achas indigno d'ellas o exterminioD'esses torpes idolatras, mil vezesIngratos de seu Deus aos beneficios?Arbitro absoluto dos viventes,Não pode, prescindindo inda da culpa,As vidas acabar, que lhe pertencem?E conclues d'aqui, que o seu ministroMoysés incomparavel, foi um monstroDe furor, impostura, e fanatismo?Hallucinado monstro, onde bebestePara tua desgraça tal doctrina?Podia um impostor fender as aguasCom a força enganosa dos prestigios,Fazendo pelo leito do mar-RoxoCaminho só aos peixes conhecido?Poderia de um arido rochedoSó com o leve toque de uma varaFazer sair uma abundante fontePara o povo com sede fatigado?Seria a sua astucia só bastantePara outros mil prodigios d'esta ordem,Em que de Pharaoth os mesmos magosConfessaram andar de Deus o dedo?Vae ler sem prevenção os seus escriptos,Que são retratos os mais vivos d'alma,N'elles descobrirás quanto é diversoAquelle original da negra copiaQue desenhou a tua mão indignaPor fascinar os olhos da innocencia.Lê nos mesmos pagãos os elogiosQue soube merecer-lhe o seu caracter,Já que da sancta Egreja os testemunhosIndigno desertor assim desprezas.Para enganar a credula innocencia,Que seduzir pretendes insensato,Confundes o amor que Deus ordena,Com aquella paixão, aquella insania,Que arrasta os homens ao nivel dos brutos?Que idéa, dize, tens da Divindade?Confessas que é delicto aos similhantesTraçar damnos crueis, injustos males,E pretendes sem culpa assassinar-lheA virtude, roubando-lhe a innocencia?Indigno, inconsequente, mentecapto,Das luzes da razão abandonado,Que dogmatisar queres vãos deliriosUns a outros oppostos, e que offendemNatureza, Razão, e Divindade;Degradas o teu ser, não consentindoQue haja além do sepulchro Eternidade.Aviltas a Razão, suppondo-a dignaDe approvar teu delirio extravagante;A Divindade offendes, quando a pintasCom attributos, que lhe são contrarios.Esconde a face, e nunca as claras luzesVejas do céo, cuja existencia negas;Sepultado nas trevas da ignorancia,A que te guiam voluntarios erros,Costuma-te aos horrores d'esse abysmo,Em que, apezar de o teres por chimera,Confessarás um dia, mas já tarde,Não ser uma illusão a Eternidade.

Sacrilego impostor, que renovandoOs antigos delirios da ignorancia,Mil vezes felizmente refutados,Pretendes illudir a innocencia,Fabricando um systema monstruoso,Incrivel mesmo aos olhos da impiedade:Quando a mão temeraria assim levantasContra o dogma fatal da eternidade,Aviltando o teu ser, dize, profano,Não te grita a razão — Suspende o braço?Esse Deus, que confessas amoroso,Deus de paz, pae dos homens, não flagello,Como esses attributos desempenhaCom frouxa indifferença submergindoNo embrião do nada aquelles entesEm que quiz esculpir a sua imagem?Onde estará o amor, onde a ternuraD'esse Ente nosso pae? Em ter creadoDe motu proprio uns miseraveis entes,Que depois de passarem opprimidosSobre este globo cheio de trabalhos,Devem ser outra vez depois da morteReduzidos ao nada? Dize, infame,O que vale a virtude, essa virtudeÁ custa de mil lagrimas comprada,Se a alma não passa além da sepultura,Onde só pode achar a recompensa?Para que o feio vicio é condemnado,Que os sentidos encanta e lisonjêa?Se da nossa existencia é o sepulchroO novissimo termo, é impiedadeContrastar o appetite, e devem todosÁs avidas paixões largar as redeas,Pois mais felicidade não se espera.

Réo de taes sentimentos, e dos crimesQue são d'elles precisas consequencias,Attreves-te a chamar sonho, e chiméraEsse logar terrivel, que desejasNão existisse para teu flagello!Dogma fatal, mas dogma necessario,Cuja existencia só negar se attreveQuem pondo-se ao nivel dos mesmos brutosA razão, como tu, tem degradado!Dize, infeliz: se o homem virtuosoVês sem estimação, sem recompensa,Luctando co'a desgraça, em dura guerraCom as suas paixões continuamente,Se o vês dos orgulhosos opprimido,Da miseria arrastando as vís cadêas,E os flagellos soffrendo da injustiça,Dirás que o justo Deus adormecidoLhe não reserva digna recompensaDe o chamar ao seu seio, repartindoCom elle os dons da doce eternidade?Se o impio vês, pizando impunementeAs sanctas leis aos pés, e da venturaOs favores gosar, se o vês honrado,E talvez recebendo inda favoresPor opprimir a candida virtudeDos que gemem debaixo do seu throno;Se leis não pondo ao avido appetite,Gosa a satisfação, que tanto prezas,Dirás que o mesmo Deus deixa impunidaPor frouxidão a sua iniquidade,E que lhe não destina calabouçosOnde a pena receba de seus crimes?O estado feliz das almas justas,Nem de Deus fora digno, nem perfeito,Se sendo limitado a algum espaçoNão se estendesse a toda a eternidade:Pois que durando n'ella essa virtudePorque alcançaram esse dom supremoÉ conforme á justiça que em Deus sejaO premio assim tambem continuado:Pelos mesmos principios são eternosOs castigos do impio: um juiz justoNão pode perdoar um crime grave,Se d'elle o aggressor não se arrepende.Nos precitos ha sempre pertinacia,E por isso serão eternamenteDa justiça divina castigados.Aos sanctos livros… porém não profanesCo'a impia mão as paginas sagradas,Que estas tristes verdades nos relevam;Só chegar deve a este sanctuarioQuem cheio de temor, e de respeitoAs palavras adora, que elle encerra.Para te confundir, a outras fontesMais dignas de teus vís impuros labios.Por tua confusão quero guiar-te,Porque vejas que o cego gentilismoFalto das luzes sanctas do evangelho,Por entre as grossas trevas da ignoranciaO dogma conheceu, que tu condemnas:Ouve Platão, que manda os assassinosPara o Tartaro negro, e tenebroso,Onde diz que os tormentos são eternos.De Sycione ao philosopho perguntaQuem lhe ensinou que havia dous logaresPara o premio e castigo além da morte?Ouve Plutarco, que esta mesma crençaCom a maior clareza te annuncia:Lê finalmente gregos e romanos,Egypcios e chaldeos, verás em todosEste logar ao vivo retratado:Verás gemer Sisyphos carregadosC'o peso rude de infernaes penedos;Promethêos opprimidos de cadêas,Ticios de abutres feros devorados,Tantalos, e outros mil, que submergidosNo abrasado barathro nos pintam:São fabulas, eu sei; mas esta idéaPosto que com ficções desfiguradaSó de uma tradição a mais amigaPodia deduzir a sua origem.Escravo das paixões, a que te entregas,Pretendes, temerario, collocal-asPar a par da virtude, blasphemandoDe quem por torpes vicios as condemna?Aprende a defendel-as, ignorante;Verás que da razão sendo inimigasNão se podem livrar de ser culpaveis.Perdendo a graça, dize, fementido,Qual é o meio de revindical-a?Duvîdas de que o summo sacerdotePara estes infelizes naufragantesDa penitencia não deixou a taboa?Duvidarás que foi aos sacerdotesA quem deu o poder illimitadoDe atar e desatar os criminosos?Se não duvidas, deves confessar-meQue antes de proferirem a sentençaDevem primeiro conhecer a culpa.Ajoelha, profano, mentecapto,Ante este tribunal, de que escarneces,Fonte de graça, que te fugiu d'alma.Respeita nos ministros, que a despendem,Não as suas fraquezas, que são homens,Mas aquelle de quem são commissarios.Não é Deus oppressor, não vingativo,Por vibrar com a dextra o raio ardenteContra os que seguem, como tu, com furiaDa carne os criminosos movimentos,Que sua lei, tua razão condemnam.Dizes que a punição excede o crime;Blasphemo, que tu és! Pesa, se podesDa offensa a infinita gravidade,E verás que o castigo não excede.Apostata infeliz, como te atrevesA tractar de tyranno o Omnipotente,O Deus, que no Sinay envolto em gloriaSanctas leis d'Israel dictou ao povo?Achas indigno d'ellas o exterminioD'esses torpes idolatras, mil vezesIngratos de seu Deus aos beneficios?Arbitro absoluto dos viventes,Não pode, prescindindo inda da culpa,As vidas acabar, que lhe pertencem?E conclues d'aqui, que o seu ministroMoysés incomparavel, foi um monstroDe furor, impostura, e fanatismo?Hallucinado monstro, onde bebestePara tua desgraça tal doctrina?Podia um impostor fender as aguasCom a força enganosa dos prestigios,Fazendo pelo leito do mar-RoxoCaminho só aos peixes conhecido?Poderia de um arido rochedoSó com o leve toque de uma varaFazer sair uma abundante fontePara o povo com sede fatigado?Seria a sua astucia só bastantePara outros mil prodigios d'esta ordem,Em que de Pharaoth os mesmos magosConfessaram andar de Deus o dedo?Vae ler sem prevenção os seus escriptos,Que são retratos os mais vivos d'alma,N'elles descobrirás quanto é diversoAquelle original da negra copiaQue desenhou a tua mão indignaPor fascinar os olhos da innocencia.Lê nos mesmos pagãos os elogiosQue soube merecer-lhe o seu caracter,Já que da sancta Egreja os testemunhosIndigno desertor assim desprezas.Para enganar a credula innocencia,Que seduzir pretendes insensato,Confundes o amor que Deus ordena,Com aquella paixão, aquella insania,Que arrasta os homens ao nivel dos brutos?Que idéa, dize, tens da Divindade?Confessas que é delicto aos similhantesTraçar damnos crueis, injustos males,E pretendes sem culpa assassinar-lheA virtude, roubando-lhe a innocencia?Indigno, inconsequente, mentecapto,Das luzes da razão abandonado,Que dogmatisar queres vãos deliriosUns a outros oppostos, e que offendemNatureza, Razão, e Divindade;Degradas o teu ser, não consentindoQue haja além do sepulchro Eternidade.Aviltas a Razão, suppondo-a dignaDe approvar teu delirio extravagante;A Divindade offendes, quando a pintasCom attributos, que lhe são contrarios.Esconde a face, e nunca as claras luzesVejas do céo, cuja existencia negas;Sepultado nas trevas da ignorancia,A que te guiam voluntarios erros,Costuma-te aos horrores d'esse abysmo,Em que, apezar de o teres por chimera,Confessarás um dia, mas já tarde,Não ser uma illusão a Eternidade.


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