Em seu pequeno jazigoDous dias chorou tambem;Ao terceiro o sino tristeDobrou á morte d'alguem.E á noite no cemiterioOutro jazigo se via:Era a mãe que ao pé do filhoNa sepultura dormia.SOCRATESJá proximo do occaso vae descendoO sol ao mar inquieto,Os moribundos raios estendendoNas alturas do Hymeto;E Socrates, sentado sobre o leito,Inda aos alumnos falla,No silencio geral notando o effeitoDa razão que os abala.A verdade sublime lhes revelaEm palavras ignotas,Suaves como a voz de Philomela,Ou do cysne do Eurotas.Cebes, o proprio Cebes emmudece,Simmias já não duvida:Nos olhos do inspirado resplandeceUm Deus e a eterna vida!Mas o sol expirava: era o momentoQue Athenas decretára:Cumpre os deuses vingar: o sabio attentoÁ morte se prepara.Os discipulos tremem contemplandoO dia já no resto;Eis o servo dos onze entra chorandoNo carcere funesto.O circulo cruzando, a bronzea taçaA Socrates estende;O philosopho a empunha com a graçaQue nos festins resplende.«Ergamos, disse, nossa prece Áquelle«Que ao longe nos convida,«Por que seja feliz por meio d'Elle«A viagem temida.»E aproximando intrepido e serenoA liquida cicuta,Como nectar a esgota, e do venenoEntrega a taça enxuta.Um lamento geral, um só transportePercorre em torno o bandoDos alumnos fieis, chorando a sorteDo mestre venerando.Apollodoro geme; succumbindo,Criton lhe corresponde;Phédon abaixa os olhos, e carpindoNo manto o rosto esconde.Elle sem vacillar, elle sómente,Sorrindo á turba anciada;«Amigos, que fazeis? um sol fulgente«Me luz em nova estrada.«De presagios felizes rodeemos«Os ultimos instantes!«Chore quem não tem fé: nós que já crêmos,«Nós sejamos constantes!»Disse, e deixando o leito em que jaziaSereno move o passo,Que o veneno lethargico deviaObrar pelo cansaço.Das grades se aproxima, olha o Parthénon,Olha os muros d'Athenas,O Phaléro, o Pireu e as que lhe acenamRegiões são serenas;Olha os céos, olha a terra, a luz do diaExpirando nas vagas,E de harmonias taes se ergue á harmoniaDe mais ditosas plagas.Depois, volvendo ao leito, diz a tudoO adeus da déspedida;Cobre o rosto c'o manto, e aguarda mudoO instante da partida.O veneno progride, e já do effeitoRedobra a intensidade;Dos membros se apodera, sobe ao peito,E o coração lhe invade.Estremeceu! do gelido trespasseEra emfim a agonia...O executor lhe descobriu a face:Socrates não vivia!Triumpha, cega Athenas, ao martyrioO sabio condemnaste,E d'olympicos deuses no delirioA razão engeitaste;Á voz do Areopágo, á voz de ferroSuffocaste a doutrina:A verdade succumbe, a sombra do erroNo mundo predomina.Mas que estrella futura se levantaRasgando a escuridade?Que palavra resôa, e o mundo espantaPrégando a alta verdade?É elle, é elle, o promettido ás gentesNa voz das prophecias!Curvae, ó gerações, curvae as frentesAo verbo do Messias!A***Acaso és tu a imagem vaporosaQue me sorriu nos sonhos d'outra idade,Como a luz da manhã sorri formosaNos espaços azues da immensidade?És tu esse astro que minha alma anhela,Que debalde busquei no mar da vida,Qual busca o nauta bonançosa estrellaNo meio da procella enfurecida?Ah! se és esse ente que meu ser domina,Se és essa estrella que meu fado encerra,Se és algum anjo da mansão divinaPairando sobre a terra;Já que baixaste a mim, já que a meu ladoMe apontaste sorrindo o ethereo véo,Não me deixes na terra abandonado,Transporta-me ao teu céo!ULTIMOS MOMENTOS DE ALBUQUERQUEAO MEU AMIGO A. AYRES DE GOUVEIACompanheiros, sinto a mortePairando já sobre mim;Cessaram vaivens da sorte,Desço á terra, d'onde vim...Do calix da desventuraEis esgotada a amargura;No leito da sepulturaTerei descanço por fim.Terei: a campa é um asyloQue ao impio deve aterrar,Mas eu dormirei tranquilloSob a lagea tumular.Eu... desgraçado, que digo!Nem lá espero um abrigo,Que os meus restos no jazigoIrão talvez insultar.Murmurando: «aqui repousaUm desleal portuguez,»Irão partir minha lousa,Meu nome calcar aos pés:E o guerreiro que descançaNão poderá, por vingança,Brandir na dextra uma lança,Cingir ao peito um arnez...Quaes foram, rei, os meus crimesPara haver tal galardão?Por que a fronte assim me opprimesCom a tua ingratidão?De vis intrigas cercadoOuviste seu impio brado.E sobre as cans do soldadoLançaste negro baldão.Não merecia tal premioQuem debaixo d'este céo,Da roxa aurora no gremio,Um novo imperio te deu;Quem á custa d'uma vidaNas batalhas consumida,Ante as quinas abatidaA India inteira rendeu.Por dar-te a c'rôa brilhanteQue em tua fronte reluz,Fiz a meus pés arquejanteCahir a opulenta Ormuz;Malaca sentiu meu raio,E em Gôa, roto o SabaioEntre o sangue, entre o desmaio,Alcei o pendão da cruz.Então desde o Nilo ao GangesCem povos armados vi,Erguendo torvas phalangesContra mim e contra ti;Vi os filhos do desertoEm ondas rugindo perto;Mas com ferro em campo abertoÁs suas iras sorri.Contra as lanças portuguezasA India luctou em vão,Que em troca d'ouro e riquezasVeio comprar seu grilhão.Aos golpes de meus soldadosVi seus thronos abalados,Vi ante mim ajoelhadosReis d'Onor e de Sião.Mas d'Asia não pôde o ouroCegar-me com seu fulgor,Porque a honra é o thesouroDos meus passados, senhor.Eu quiz adornar-te a frenteC'um diadema refulgente:Ganhei o sceptro do Oriente,E a teus pés o fui depôr.N'esses campos de batalhaOnde audaz o conquistei,Das armas sob a mortalhaPorque exangue não findei?Entre os louros da victoriaMorrêra ao menos com gloria;Do teu soldado a memoriaNão a mancháras, ó rei.Eu desleal?! se meus bradosPodem chegar até vós,Erguei-vos, restos sagradosDe meus extinctos avós!Erguei-vos da campa fria,E com sangue, á luz do dia,Lavae a nódoa sombriaQue arrojaram sobre nós!Eu desleal... mas ao mundoQue vale queixas mandar?As vozes d'um moribundoNão vão na terra eccoar...Surge, ó morte!... e vós, amigos,Socios de tantos perigos,Vinde... nem só inimigosMe restam ao expirar.No reino vos deixo um filho:Nossos feitos lhe ensinae;Dizei-lhe qual foi o trilhoQue em vida seguiu seu pae...Dizei-lhe qual foi meu norte;Mas, em quanto á minha sorte,Oh! não lhe aponteis a morte,A vida só lhe apontae...E se fallardes um diaA dom Manoel, o feliz,Dizei-lhe que na agoniaAlbuquerque o não maldiz;Que á beira da sepultura,Para um filho sem ventura,Invoco sua ternura,Se alguns serviços lhe fiz.E vós... e vós, portuguezes,Nossa patria defendei;Dae-lhe os peitos por arnezes,Seja a patria vossa lei.N'um throno que ella não tinhaEu vol-a deixo rainha,Mas não sei o que adivinhaMeu pensamento... não sei.Entre as sombras do futuro,Meu Deus! a patria em grilhões!Pelo mar em vão procuroSeus orgulhosos pendões...Coberta d'amargo pranto,Lá se envolve em negro manto...Lá roja a face em quebranto...Ella, a grande entre as nações!Oh! se este braço podéraA fria lousa quebrar,Este braço inda se erguêraDa tumba, para a salvar;Apontando-lhe a vingança,Inda lhe dera esperança,E empunhando a antiga lança,Á morte a fôra arrancar.Mas eis marcado o momentoNo livro d'além dos céos...Eis a morte... o passamento...São findos os dias meus...Companheiros de victoria,De tantos dias de gloria,Guardae... guardae na memoria,D'Albuquerque o extremo adeus...A morte... a morte... que anceio!Sinto um gêlo sepulchral...Abre-me, ó terra, o teu seio,Quero o repouso final...Desce, guerreiro cançado,Desce ao tumulo gelado...Mas a affronta... deshonrado...India... filho... Portugal!...A TIOh! quão formoso me surge o diaLá quando a noite se inclina ao mar,Quando na aurora, que me extasia,Teu bello rosto cuido avistar!Não sei que esp'rança jámais sentidaEntão me adeja no peito aqui;É que na aurora saúdo a vida,Outr'ora escura, sem luz, sem ti.Correm as horas, a noite avança,A lua brilha com meigo alvor;Então minha alma, que em paz descança,Divaga em sonhos d'ignoto amor.No véo d'estrellas, na branca luaMeus olhos buscam olhos que eu vi,E o pensamento longe fluctua,E uma saudade revôa a ti.Eis que adormeço, e um anjo assomaTodo cercado d'etherea luz;De seus cabellos recende o aromaDas castas rosas que o céo produz.O céo me aponta, sorri-lhe a face;Acordo, e o anjo foge d'alli;Mas em meu peito logo renasceDoce esperança que vem de ti.Já pela terra surgem verdores,Auras serenas baixam do céo,As aves cantam novos amores,Tudo se cobre d'um floreo véo;E céos e terra, montes, paizagem,Tudo a meus olhos, tudo sorri;É que alli vejo só tua imagem,E que hoje vivo mas só por ti.Talvez que eu sinta meu pobre enleioPassar qual brilho de luz fugaz:Que importa? ao menos dentro em meu seio,Já morta a esp'rança, tu viverás.Oh! sim, que os dias são mais serenosCom tua imagem gravada alli;Té mesmo a morte custará menos,Junto ao sepulchro pensando em ti.INFANCIA E MORTE«Ó mãe, o que fazes? em cama tão fria«Não durmas a noite... saiamos d'aqui...«Acorda! não ouves a pobre Maria,«Pequena, sósinha, chorando por ti?«Porque é que fugiste da nossa morada,«Que alveja saudosa no monte d'além?«Depois que tu dormes na terra gelada,«Quão só ficou tudo mal sabes, ó mãe.«A nossa janella não mais foi aberta,«O fogo apagou-se na cinza do lar,«As pombas são tristes, a casa deserta,«E as flores da Virgem se vão a murchar.«Oh! vamos, não tardes... mas tu não respondes...«Em vão todo o dia meu pranto correu;«No fundo da cova teu rosto me escondes,«Não ouves, não fallas... que mal te fiz eu?«Escuta! na torre de frestas sombrias«O sino da ermida começa a tocar...«Acorda! que o toque das Ave-Marias«Á imagem da Virgem nos manda rezar.«A lampada exhausta de Nossa Senhora«Ficou apagada, precisa de luz:«Oh! vem accendêl-a, e á Mãe que se adora«Alli rezaremos, e ao Filho na cruz.«Depois á costura, sentada a meu lado,«Tu has de contar-me, bem junto de mim,«Aquellas historias d'um rei encantado,«De fadas e moiras, d'algum cherubim.«A d'hontem foi triste, pois triste fallavas«De vida e de morte, d'um mundo melhor;«E o rosto cobrias, e muda choravas,«Lançando teus braços de mim ao redor.«Depois em silencio teus olhos fechaste,«Tão pallida e fria qual nunca te vi;«Chamei-te era dia, mas não acordaste,«E em quanto dormias trouxeram-te aqui.«Oh! vamos, não tardes, que as noites sombrias,«Sem ti a meu lado, me causam pavor;«Acorda! que o toque das Ave-Marias«Nos diz que rezemos á Mãe do Senhor.»Taes eram as queixas da pobre Maria...O sino da ermida cessou de tocar...E a mãe entretanto dormia, dormia;Do somno da morte não pôde acordar.Tres dias, tres noites a filha sósinhaNo adro da egreja por ella chamou...Ao fim do terceiro já força não tinha;Da mãe sobre a campa, gemendo, expirou.O CANTO DO LIVREAO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGAGema embora a terra inteiraAcurvada a iniquas leis:Esta fronte sobranceiraJámais de rojo a vereis.Oh! ninguem, ninguem a esmaga,Que eu sou livre como a vaga,Que sacode sobre a plagaO jugo d'altos baixeis.Liberdade é o mote escriptoNo céo, na terra, e no mar!Dil-o a féra no seu grito,E as aves cruzando o ar;Dil-o o vento da procella,A vaga que se encapella,E nos espaços a estrellaEm seu continuo gyrar.Dil-o tudo! mas aindaMais livre me creou DeusQue os astros da altura infinda,Os ventos, e os escarcéos.Eu tenho mais liberdadeD'esta alma na immensidade,Pois tenho n'ella a vontade,Tenho a razão, luz dos céos.Eu sou livre! erguendo a fronteDiz-m'o uma voz na amplidão,Quando de pé sobre o monteMe elevo rei da soidão;Quando além do firmamentoAlçando meu pensamento,Solto nas azas do ventoMeu canto d'inspiração.Eu sou livre! eis minha crença,Nem força contra ella val.Que um tyranno emfim me vença:Triumpharei por seu mal.Triumpharei, que algemadoE diante d'elle arrastado,Sou livre! será meu bradoTé ao momento final.E que importa que o tyranno,Jurando vingança atroz,Faça erguer, sorrindo ufano,Um cutelo á sua voz?Minha fronte sempre erguidaHa de encaral-o atrevida,E só cahir abatidaAo rolar aos pés do algoz.Mas nunca! pois fôra um preitoDar os pulsos ao grilhão.Tenho um ferro, e n'este peitoTenho um livre coração!Não! jámais serei captivo!Se vencido restar vivo,Cahirei, sorrindo altivo,Sob o punhal de Catão!SAUDADEAssim, pallida lua, assim teu rostoFulgurava tranquillo n'essa noiteEm que o adeus lhe murmurei sentido;Quando, após os momentos preciososEm que inda pude vêl-a, inda escutal-a,Afoitando meu animo indeciso,Sua trémula voz me disse: parte...Em tanto que uma lagrima furtivaLhe escorria na face melindrosa,Mais pallida que a tua...Astro saudoso;Astro da solidão, quanto me aprazes!Eu amo o teu silencio, amo o teu brilho,Mais que do sol os importunos raios.Que me importa d'esse astro a luz e a vida,Se a luz e a vida me ficaram longe?Se em meio do rumor que o dia espalha,A voz não ouço que responde á minha?Estes valles, e selvas, estes montes,Á luz do dia, são talvez formosos;Mas não é este o ar que ella respira,Não são estes os sitios que ella encantaCom seu mago sorriso. O dia é mudo;Porém tu surges, solitaria amiga,Tu vens fallar-me d'ella, astro saudoso.Lua, d'esse aureo throno onde campeias,Tu vês os sitios caros. Que faz ella?Acaso, como pomba fatigada,Repousa adormecida? Verte, ó lua,Verte-lhe em torno o perfumado alentoQue a noite rouba ás orvalhadas flôres.Mas não; talvez agora em mim pensando,Agora mesmo sobre o teu semblanteElla fixa tambem os olhos tristes,E nossos pensamentos, nossas vistasSe confundem em ti. Oh! não podermos,Adejando como elles n'esse espaço,Embora por momentos confundir-nosEm teu regaço, deslembrando a ausencia!Ao menos, astro amigo, ordena, ordenaQue o anjo da saudade, que em ti mora,Desça, e lhe diga o que minha alma sente.Oh! quando solto d'importunos laços,Demandando outros céos, hei de já livreVêl-a, ouvil-a, fallar-lhe? Quem o sabe?Mas tu entanto, confidente meiga,Em cada noite vem fallar-me d'ella;E em meu peito sombrio e solitarioDerrama, envolto no teu doce brilho,O balsamo suave da esperança.Assim possas tu ser, benigna deusa,A invocada dos tristes; e se acasoAmas tambem, se algum remoto lagoEntre floridas margens escondidoTe prende as affeições, possas tu sempreNo crystallino azul de suas aguasSem nuvens espelhar teu rosto ameno!AMOR E ETERNIDADERepara, doce amiga, olha esta lousa,E junto aquella que lhe fica unida:Aqui d'um terno amor, aqui repousaO despojo mortal, sem luz, sem vida.Esgotando talvez o fel da sorte,Poderam ambos descançar tranquillos;Amaram-se na vida, e inda na morteNão pôde a fria tumba desunil-os.Oh! quão saudosa a viração murmuraNo cypreste virenteQue lhes protege as urnas funerarias!E o sol, ao descahir lá no occidente,Quão bello lhes fulguraNas campas solitarias!Assim, anjo adorado, assim um diaDe nossas vidas murcharão flôres...Assim ao menos sob a campa friaSe reunam tambem nossos amores!Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,Teu bello rosto no meu seio inclinas,Pallido como o lirio que ao sol postoDesmaia nas campinas?Oh! vem, não perturbemos a venturaDo coração, que jubiloso anceia...Vem, gosemos da vida em quanto dura;Desterremos da morte a negra ideia!Longe, longe de nós essa lembrança!Mas não receies o funesto córte...Doce amiga, descança:Quem ama como nós, sorri á morte.Vês estas sepulturas?Aqui cinzas escuras,Sem vida, sem vigor, jazem agora;Mas esse ardor que as animou outr'ora,Voou nas azas d'immortal auroraA regiões mais puras.Não, a chamma que o peito ao peito enviaNão morre extincta no funereo gêlo.O coração é immenso: a campa friaÉ pequena de mais para contêl-o.Nada receies, pois: a tumba encerraUm breve espaço e uma breve idade;E o amor tem por patria o céo e a terra,Por vida a eternidade!O ESCRAVOTremes, escravo? baqueiasEntre os muros da prisão?Vergado sob as cadeiasRojas a fronte no chão?Já da turba ao longe o gritoPede teu sangue maldito:Sentes, escravo proscripto,Vacillar teu coração?Não sinto! nada perturbaMinha alegria feroz:Nem o bramir d'essa turba,Nem a lembrança do algoz.Vinguei-me! nada me aterra.Curvae-vos, homens da terra!Contra mim jurastes guerra;Guerra jurei contra vós.Eu era livre sem métaComo as ondas lá no mar;Era livre como a sétaQuando sibila no ar:Foi vossa avidez tyrannaQue me algemou deshumana.Ó minha pobre choupana!Ó florestas do meu lar!Além, além nas florestas,Foi além onde eu nasci;Onde sem prisões funestasJá venturoso vivi.Foi dos bosques na espessuraQue eu tive amor e ternura;Mas liberdade e ventura,Patria, amor, tudo perdi.Perdi tudo! além da morteJá não me resta ninguem.Tinha um pae: a negra sorteDo filho soffreu tambem.Trouxe da patria distanteO ferreo jugo aviltante,Inda eu era tenro infanteNos braços de minha mãe.Minha mãe!... oh! quantas vezesMe vinha a triste abraçar,E carpindo os seus revezesFitava os olhos no mar!Seu pranto cahia ardente,Em bagas, na minha frente;E eu, pobre infante innocente,Chorava de a vêr chorar.Mais tarde, quando o navioMe trazia á escravidão,Nas praias do mar bravioEu a vi cahir no chão;Via-a atravéz dos espaços,Morrendo, estender-me os braços...Sacudi meus ferreos laços;Mas, ai de mim! era em vão.Perdi-a! só me restavaA virgem do meu amor,Que a mulher que eu adoravaQuiz partilhar minha dôr.Mas tinha sua bellezaSó d'um escravo a defeza...Devia, oh raiva! ser prêzaDe meu infame senhor.E eu, soberbo vezes tantas,Curvei-me d'aquella vez:Arrastei ás suas plantasMinha feroz altivez.Debalde! que o vil tyrannoEscarneceu do africano;Maldição! vaidoso, ufano,Meu amor calcou aos pés.--É minha, só minha a escrava:A ti, pertence o grilhão:--Disse, e o sangue me escaldavaNo fundo do coração.Da vingança a torva imagemMe sorriu, me deu coragem,No meu gemido selvagemRugiu irado o leão.Era noite!--negro sonhoQue d'estes olhos não sae!--Era noite! em céo medonhoVi tua sombra, ó meu pae...Rojando um grilhão pesado,Teu espectro ensanguentadoSe ergueu sombrio a meu lado,Sem dar um gemido, um ai...Té que alçando a voz:--meu filho!Meu filho!--bradaste emfim,E os olhos turvos, sem brilho,Tinhas cravados em mim...Eu quiz lançar-me em teus braços,Quiz cingir-te em doces laços;Mas, fugindo aos meus abraços,Volvias a olhar-me assim.Foste escravo... teu destino,Tua morte compr'hendi,E um nome, o do assassino,Delirando te pedi;Mas sem attender a nada,Erguendo a dextra myrrhada,--Vingança!--com voz iradaBradaste, e não mais te vi.Sim, vingado foi teu sanguePor este braço a final,Que um d'elles cahiu exangueAos golpes do meu punhal.Era amargo o fel da taça:Vinguei a nossa desgraçaN'um dos tigres d'essa raça,No sangue do meu rival.Vinguei o meu e teu jugo!Que importam ferreos grilhões,O cadafalso e o verdugo,O supplicio e as maldições?Entre os gôsos da vingançaReluz emfim a esperança;Já não receio a lembrançaDe seus cruentos baldões.Sinto correr-me nas veiasO fogo que lhe ateei...Quebrai-vos, duras cadeias,Escravo não mais serei...Sou livre! a morte o proclamaN'este peito que se inflamma...Já n'elle circula a chammaDo veneno que eu tomei!O ANJO DA HUMANIDADEEra na estancia crystallina e pura,Que além do firmamento rutilanteSe ergue longe de nós, e está seguraEm milhões de columnas de diamante;Jerusalém celeste onde fulguraDo eterno dia o resplendor constante,E onde reside a gloria e magestadeD'Aquelle que povôa a immensidade.Na mansão mais recondita e profundaA soberana Essencia o throno encerra,D'onde a fonte de amor brota fecunda,Os astros animando, os céos e a terra;Um mar de luz seus penetraes circumda,Que o proprio archanjo deslumbrado aterra,Luz que em triangulo ardente se condensaQuando o Eterno os oraculos dispensa.Por toda a parte o azul e as pedrariasNa cidade divina resplandecem;Mil arcadas de soes, mil galeriasDe brilhantes estrellas, a guarnecem;Os anjos em lustrosas jerarchiasNas harpas d'ouro melodias tecem,Outros em córos adejando vôam,E d'aromas e canto o céo povôam.Eis de repente nos umbraes divinos,Sobre as azas pairando, um anjo entrava,Parecendo de sitios peregrinosQue ás regiões celestes assomava;Cruzando o empyreo, as legiões, e os hymnos,Qual rapido luzeiro perpassava,Té que chegando ao throno do Increado,Nos ultimos degraus ficou poisado.Pelos eburneos hombros o cabelloEm annelladas ondas lhe cahia;A saphira das azas sobre o gêloDas roupagens luzentes refulgia.Mais brilhante não é, não é mais bello,Comparado com elle, o astro do dia,Ou a estrella que brilha quando a auroraDe purpurina luz o céo colora.Ao throno augusto levantou a frente,Mas com as azas a toldou ancioso,Não podendo soster o brilho ardenteQue despedia o fóco luminoso.A milicia dos anjos resplendenteFixou attenta seu irmão formoso;Os concertos pararam, e elle entantoAssim fallou entre o geral espanto:«Eterno Ser, que as divinaes moradas«Enches de gloria em magestoso assento,«Fonte de vida e creações variadas,«Que dás ao mundo poderoso alento;«A cujo acêno tremem abaladas«As columnas do ethereo firmamento,«E cujo nome, que o universo entôa,«No céo, na terra, e nos abysmos sôa!«Por teu mando supremo destinado«A conduzir a humana descendencia,«Desde que a mancha do cruel peccado«A fez cahir da primitiva essencia:«Venho a final, Senhor, de teu mandado«Dar-te conta fiel, apóz a ausencia;«Fazer-te ouvir da humanidade os prantos,«E aguardar teus preceitos sacrosanctos.«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre attento,«Proseguisse na terra a lei sob'rana«Que rege, na amplidão do firmamento,«A creação que de teu seio emana:«Essa lei de progresso e movimento«Tenho cumprido na familia humana,«Desde que ao mundo, a combater seu fado,«O desterrado do eden foi lançado.«Primeiro, sobre a terra esclarecendo«Seus duvidosos passos vacillantes;«Depois, o justo e seu baixel sostendo,«Nas aguas do diluvio sussurrantes:«De novo á terra, de pavor tremendo,«Conduzindo mais puros habitantes;«Mais tarde, junto ao berço do Messias,«Annunciando ao mundo novos dias.«Agora, sobre as ruinas d'um imperio«Outro imperio de novo edificando;«Agora, as povoações d'um hemispherio«Sobre as d'outro hemispherio derramando;«Já do teu Verbo o divinal mysterio,«Com as sanctas doutrinas, propagando;«Já mostrando por fim á humanidade«Nova luz de justiça, e de verdade.«Quantos velhos sophismas desterrados!«Quantos idolos falsos em ruinas!«Quantos sabios triumphos alcançados!«Quantas conquistas immortaes, divinas!«Calcando o pó dos seculos passados,«O homem corre ao fim que lhe destinas;«Mas ah! Senhor, no meio da tormenta«Seu valor esmorece e desalenta.«Seu valor esmorece! tantas lidas,«Tanto luctar continuo das idades,«Tanto sangue e martyrios, tantas vidas,«Tantas ruinas d'imperios e cidades:«E o homem soffre, e as gerações perdidas«Se revolvem n'um mar de tempestades,«Sem vêr luzir esse fanal jucundo«Que por teu Filho prometteste ao mundo.«Quantos males ainda! a lei sublime,«A lei d'amor que derramou teu Verbo,«Sobre a face da terra, á voz do crime,«Succumbe e morre por destino acerbo,«O ferreo jugo que as nações opprime,«Os humildes abate, ergue o soberbo,«E o rei da terra, sobre a terra escravo,«Soffre mesquinho seu eterno aggravo.«Por toda a parte, em lastimoso accento,«Se ouve gemer a humanidade afflicta.«A terra, a mãe commum, nega alimento«Dos filhos seus á multidão proscripta:«Emquanto folga em vicios o opulento«A indigencia cruel na choça habita,«E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho,«Aperta morto á fome o seu filhinho.«Entanto a guerra, que a ambição ateia,«Ensanguenta as campinas e as cidades;«A crua peste, que ninguem refreia,«Converte as povoações em soledades;«D'estes males crueis a terra cheia,«Cobre-se inda de mil iniquidades;«O vicio, o crime, a corrupção devora«A pobre humanidade, como outr'ora.«Ao vêr tanta miseria, o bom padece,«O mau blasphema de teu nome sancto,«A voz dos inspirados esmorece,«O futuro se envolve em negro manto...«Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece«Que a humanidade te dirige em pranto,«Subi confuso ao eternal assento,«A depôr a teus pés meu desalento.»Disse, e um gemido d'afflicção pungente,Semelhante a dulcisona harmonia,Soltou do peito, reclinando a frenteCom celeste e ideal melancholia:Assim pendendo ao longe no occidente,Se reclina saudoso o astro do dia;Assim reclina a pallida açucena,Açoitada do vento, a fronte amena.Depois continuando: «ó Deus, quem ha de«Sondar mysterios que teu seio esconde!«Tuas leis divinaes, tua vontade«Cumprirei sobre a terra. Eia responde:«Os passos da mesquinha humanidade«Aonde os levarei, Senhor, aonde?»Uma voz retumbou no céo radiante,Que ao anjo respondeu, dizendo:--ávante!PARTIDAAi, adeus! acabaram-se os diasQue ditoso vivi a teu lado;Sôa a hora, o momento fadado;É forçoso deixar-te e partir.Quão formosos, quão breves que foramEsses dias d'amor e ventura!E quão cheios de longa amarguraOs da ausencia vão ser no porvir!Olha em roda estas margens virentes:Já o outomno lhes despe os encantos;Cedo o inverno com gelidos mantosBaixará das montanhas d'além.Tudo triste, sombrio, e gelado,Ficará sem verdura nem flôres:Tal meu seio, privado d'amores,Ficará de ti longe tambem.Não sei mesmo, não sei se o destinoMe dará que eu te abrace na volta...Ai! quem sabe onde a vaga revoltaLevará meu perdido baixel?Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo,Açoitado por ventos funestos,Sumirá por ventura seus restosNas voragens d'ignoto parcel.Mas ah! longe esta ideia sombria!Longe, longe o cruel desalento!Apóz dias d'amargo tormentoVirão dias mais bellos talvez.Dá-me ainda um sorriso em teus labios,Uma esp'rança que esta alma alimente,E na volta da quadra florenteEu co'as flôres virei outra vez.Mas se as flôres dos campos voltaremSem que eu volte co'as flôres da vida,Chora aquelle que em tumba esquecidaDorme ao longe seu longo dormir;E cada anno que o sôpro do outomnoDesfolhar a verdura do olmeiro,Lembra-te inda do adeus derradeiro,D'este adeus que te disse ao partir!CANTO DE PRIMAVERA
Em seu pequeno jazigoDous dias chorou tambem;Ao terceiro o sino tristeDobrou á morte d'alguem.E á noite no cemiterioOutro jazigo se via:Era a mãe que ao pé do filhoNa sepultura dormia.
Já proximo do occaso vae descendo
O sol ao mar inquieto,
Os moribundos raios estendendo
Nas alturas do Hymeto;
E Socrates, sentado sobre o leito,
Inda aos alumnos falla,
No silencio geral notando o effeito
Da razão que os abala.
A verdade sublime lhes revela
Em palavras ignotas,
Suaves como a voz de Philomela,
Ou do cysne do Eurotas.
Cebes, o proprio Cebes emmudece,
Simmias já não duvida:
Nos olhos do inspirado resplandece
Um Deus e a eterna vida!
Mas o sol expirava: era o momento
Que Athenas decretára:
Cumpre os deuses vingar: o sabio attento
Á morte se prepara.
Os discipulos tremem contemplando
O dia já no resto;
Eis o servo dos onze entra chorando
No carcere funesto.
O circulo cruzando, a bronzea taça
A Socrates estende;
O philosopho a empunha com a graça
Que nos festins resplende.
«Ergamos, disse, nossa prece Áquelle
«Que ao longe nos convida,
«Por que seja feliz por meio d'Elle
«A viagem temida.»
E aproximando intrepido e sereno
A liquida cicuta,
Como nectar a esgota, e do veneno
Entrega a taça enxuta.
Um lamento geral, um só transporte
Percorre em torno o bando
Dos alumnos fieis, chorando a sorte
Do mestre venerando.
Apollodoro geme; succumbindo,
Criton lhe corresponde;
Phédon abaixa os olhos, e carpindo
No manto o rosto esconde.
Elle sem vacillar, elle sómente,
Sorrindo á turba anciada;
«Amigos, que fazeis? um sol fulgente
«Me luz em nova estrada.
«De presagios felizes rodeemos
«Os ultimos instantes!
«Chore quem não tem fé: nós que já crêmos,
«Nós sejamos constantes!»
Disse, e deixando o leito em que jazia
Sereno move o passo,
Que o veneno lethargico devia
Obrar pelo cansaço.
Das grades se aproxima, olha o Parthénon,
Olha os muros d'Athenas,
O Phaléro, o Pireu e as que lhe acenam
Regiões são serenas;
Olha os céos, olha a terra, a luz do dia
Expirando nas vagas,
E de harmonias taes se ergue á harmonia
De mais ditosas plagas.
Depois, volvendo ao leito, diz a tudo
O adeus da déspedida;
Cobre o rosto c'o manto, e aguarda mudo
O instante da partida.
O veneno progride, e já do effeito
Redobra a intensidade;
Dos membros se apodera, sobe ao peito,
E o coração lhe invade.
Estremeceu! do gelido trespasse
Era emfim a agonia...
O executor lhe descobriu a face:
Socrates não vivia!
Triumpha, cega Athenas, ao martyrio
O sabio condemnaste,
E d'olympicos deuses no delirio
A razão engeitaste;
Á voz do Areopágo, á voz de ferro
Suffocaste a doutrina:
A verdade succumbe, a sombra do erro
No mundo predomina.
Mas que estrella futura se levanta
Rasgando a escuridade?
Que palavra resôa, e o mundo espanta
Prégando a alta verdade?
É elle, é elle, o promettido ás gentes
Na voz das prophecias!
Curvae, ó gerações, curvae as frentes
Ao verbo do Messias!
Acaso és tu a imagem vaporosaQue me sorriu nos sonhos d'outra idade,Como a luz da manhã sorri formosaNos espaços azues da immensidade?És tu esse astro que minha alma anhela,Que debalde busquei no mar da vida,Qual busca o nauta bonançosa estrellaNo meio da procella enfurecida?Ah! se és esse ente que meu ser domina,Se és essa estrella que meu fado encerra,Se és algum anjo da mansão divina
Pairando sobre a terra;
Já que baixaste a mim, já que a meu ladoMe apontaste sorrindo o ethereo véo,Não me deixes na terra abandonado,
Transporta-me ao teu céo!
Companheiros, sinto a mortePairando já sobre mim;Cessaram vaivens da sorte,Desço á terra, d'onde vim...Do calix da desventuraEis esgotada a amargura;No leito da sepulturaTerei descanço por fim.Terei: a campa é um asyloQue ao impio deve aterrar,Mas eu dormirei tranquilloSob a lagea tumular.Eu... desgraçado, que digo!Nem lá espero um abrigo,Que os meus restos no jazigoIrão talvez insultar.
Murmurando: «aqui repousaUm desleal portuguez,»Irão partir minha lousa,Meu nome calcar aos pés:E o guerreiro que descançaNão poderá, por vingança,Brandir na dextra uma lança,Cingir ao peito um arnez...Quaes foram, rei, os meus crimesPara haver tal galardão?Por que a fronte assim me opprimesCom a tua ingratidão?De vis intrigas cercadoOuviste seu impio brado.E sobre as cans do soldadoLançaste negro baldão.Não merecia tal premioQuem debaixo d'este céo,Da roxa aurora no gremio,Um novo imperio te deu;Quem á custa d'uma vidaNas batalhas consumida,Ante as quinas abatidaA India inteira rendeu.
Por dar-te a c'rôa brilhanteQue em tua fronte reluz,Fiz a meus pés arquejanteCahir a opulenta Ormuz;Malaca sentiu meu raio,E em Gôa, roto o SabaioEntre o sangue, entre o desmaio,Alcei o pendão da cruz.Então desde o Nilo ao GangesCem povos armados vi,Erguendo torvas phalangesContra mim e contra ti;Vi os filhos do desertoEm ondas rugindo perto;Mas com ferro em campo abertoÁs suas iras sorri.Contra as lanças portuguezasA India luctou em vão,Que em troca d'ouro e riquezasVeio comprar seu grilhão.Aos golpes de meus soldadosVi seus thronos abalados,Vi ante mim ajoelhadosReis d'Onor e de Sião.
Mas d'Asia não pôde o ouroCegar-me com seu fulgor,Porque a honra é o thesouroDos meus passados, senhor.Eu quiz adornar-te a frenteC'um diadema refulgente:Ganhei o sceptro do Oriente,E a teus pés o fui depôr.N'esses campos de batalhaOnde audaz o conquistei,Das armas sob a mortalhaPorque exangue não findei?Entre os louros da victoriaMorrêra ao menos com gloria;Do teu soldado a memoriaNão a mancháras, ó rei.Eu desleal?! se meus bradosPodem chegar até vós,Erguei-vos, restos sagradosDe meus extinctos avós!Erguei-vos da campa fria,E com sangue, á luz do dia,Lavae a nódoa sombriaQue arrojaram sobre nós!
Eu desleal... mas ao mundoQue vale queixas mandar?As vozes d'um moribundoNão vão na terra eccoar...Surge, ó morte!... e vós, amigos,Socios de tantos perigos,Vinde... nem só inimigosMe restam ao expirar.No reino vos deixo um filho:Nossos feitos lhe ensinae;Dizei-lhe qual foi o trilhoQue em vida seguiu seu pae...Dizei-lhe qual foi meu norte;Mas, em quanto á minha sorte,Oh! não lhe aponteis a morte,A vida só lhe apontae...E se fallardes um diaA dom Manoel, o feliz,Dizei-lhe que na agoniaAlbuquerque o não maldiz;Que á beira da sepultura,Para um filho sem ventura,Invoco sua ternura,Se alguns serviços lhe fiz.
E vós... e vós, portuguezes,Nossa patria defendei;Dae-lhe os peitos por arnezes,Seja a patria vossa lei.N'um throno que ella não tinhaEu vol-a deixo rainha,Mas não sei o que adivinhaMeu pensamento... não sei.Entre as sombras do futuro,Meu Deus! a patria em grilhões!Pelo mar em vão procuroSeus orgulhosos pendões...Coberta d'amargo pranto,Lá se envolve em negro manto...Lá roja a face em quebranto...Ella, a grande entre as nações!Oh! se este braço podéraA fria lousa quebrar,Este braço inda se erguêraDa tumba, para a salvar;Apontando-lhe a vingança,Inda lhe dera esperança,E empunhando a antiga lança,Á morte a fôra arrancar.
Mas eis marcado o momentoNo livro d'além dos céos...Eis a morte... o passamento...São findos os dias meus...Companheiros de victoria,De tantos dias de gloria,Guardae... guardae na memoria,D'Albuquerque o extremo adeus...A morte... a morte... que anceio!Sinto um gêlo sepulchral...Abre-me, ó terra, o teu seio,Quero o repouso final...Desce, guerreiro cançado,Desce ao tumulo gelado...Mas a affronta... deshonrado...India... filho... Portugal!...
Oh! quão formoso me surge o diaLá quando a noite se inclina ao mar,Quando na aurora, que me extasia,Teu bello rosto cuido avistar!Não sei que esp'rança jámais sentidaEntão me adeja no peito aqui;É que na aurora saúdo a vida,Outr'ora escura, sem luz, sem ti.Correm as horas, a noite avança,A lua brilha com meigo alvor;Então minha alma, que em paz descança,Divaga em sonhos d'ignoto amor.No véo d'estrellas, na branca luaMeus olhos buscam olhos que eu vi,E o pensamento longe fluctua,E uma saudade revôa a ti.
Eis que adormeço, e um anjo assomaTodo cercado d'etherea luz;De seus cabellos recende o aromaDas castas rosas que o céo produz.O céo me aponta, sorri-lhe a face;Acordo, e o anjo foge d'alli;Mas em meu peito logo renasceDoce esperança que vem de ti.Já pela terra surgem verdores,Auras serenas baixam do céo,As aves cantam novos amores,Tudo se cobre d'um floreo véo;E céos e terra, montes, paizagem,Tudo a meus olhos, tudo sorri;É que alli vejo só tua imagem,E que hoje vivo mas só por ti.Talvez que eu sinta meu pobre enleioPassar qual brilho de luz fugaz:Que importa? ao menos dentro em meu seio,Já morta a esp'rança, tu viverás.Oh! sim, que os dias são mais serenosCom tua imagem gravada alli;Té mesmo a morte custará menos,Junto ao sepulchro pensando em ti.
«Ó mãe, o que fazes? em cama tão fria«Não durmas a noite... saiamos d'aqui...«Acorda! não ouves a pobre Maria,«Pequena, sósinha, chorando por ti?«Porque é que fugiste da nossa morada,«Que alveja saudosa no monte d'além?«Depois que tu dormes na terra gelada,«Quão só ficou tudo mal sabes, ó mãe.«A nossa janella não mais foi aberta,«O fogo apagou-se na cinza do lar,«As pombas são tristes, a casa deserta,«E as flores da Virgem se vão a murchar.«Oh! vamos, não tardes... mas tu não respondes...«Em vão todo o dia meu pranto correu;«No fundo da cova teu rosto me escondes,«Não ouves, não fallas... que mal te fiz eu?
«Escuta! na torre de frestas sombrias«O sino da ermida começa a tocar...«Acorda! que o toque das Ave-Marias«Á imagem da Virgem nos manda rezar.«A lampada exhausta de Nossa Senhora«Ficou apagada, precisa de luz:«Oh! vem accendêl-a, e á Mãe que se adora«Alli rezaremos, e ao Filho na cruz.«Depois á costura, sentada a meu lado,«Tu has de contar-me, bem junto de mim,«Aquellas historias d'um rei encantado,«De fadas e moiras, d'algum cherubim.«A d'hontem foi triste, pois triste fallavas«De vida e de morte, d'um mundo melhor;«E o rosto cobrias, e muda choravas,«Lançando teus braços de mim ao redor.«Depois em silencio teus olhos fechaste,«Tão pallida e fria qual nunca te vi;«Chamei-te era dia, mas não acordaste,«E em quanto dormias trouxeram-te aqui.«Oh! vamos, não tardes, que as noites sombrias,«Sem ti a meu lado, me causam pavor;«Acorda! que o toque das Ave-Marias«Nos diz que rezemos á Mãe do Senhor.»
Taes eram as queixas da pobre Maria...O sino da ermida cessou de tocar...E a mãe entretanto dormia, dormia;Do somno da morte não pôde acordar.Tres dias, tres noites a filha sósinhaNo adro da egreja por ella chamou...Ao fim do terceiro já força não tinha;Da mãe sobre a campa, gemendo, expirou.
Gema embora a terra inteiraAcurvada a iniquas leis:Esta fronte sobranceiraJámais de rojo a vereis.Oh! ninguem, ninguem a esmaga,Que eu sou livre como a vaga,Que sacode sobre a plagaO jugo d'altos baixeis.Liberdade é o mote escriptoNo céo, na terra, e no mar!Dil-o a féra no seu grito,E as aves cruzando o ar;Dil-o o vento da procella,A vaga que se encapella,E nos espaços a estrellaEm seu continuo gyrar.
Dil-o tudo! mas aindaMais livre me creou DeusQue os astros da altura infinda,Os ventos, e os escarcéos.Eu tenho mais liberdadeD'esta alma na immensidade,Pois tenho n'ella a vontade,Tenho a razão, luz dos céos.Eu sou livre! erguendo a fronteDiz-m'o uma voz na amplidão,Quando de pé sobre o monteMe elevo rei da soidão;Quando além do firmamentoAlçando meu pensamento,Solto nas azas do ventoMeu canto d'inspiração.Eu sou livre! eis minha crença,Nem força contra ella val.Que um tyranno emfim me vença:Triumpharei por seu mal.Triumpharei, que algemadoE diante d'elle arrastado,Sou livre! será meu bradoTé ao momento final.
E que importa que o tyranno,Jurando vingança atroz,Faça erguer, sorrindo ufano,Um cutelo á sua voz?Minha fronte sempre erguidaHa de encaral-o atrevida,E só cahir abatidaAo rolar aos pés do algoz.Mas nunca! pois fôra um preitoDar os pulsos ao grilhão.Tenho um ferro, e n'este peitoTenho um livre coração!Não! jámais serei captivo!Se vencido restar vivo,Cahirei, sorrindo altivo,Sob o punhal de Catão!
Assim, pallida lua, assim teu rostoFulgurava tranquillo n'essa noiteEm que o adeus lhe murmurei sentido;Quando, após os momentos preciososEm que inda pude vêl-a, inda escutal-a,Afoitando meu animo indeciso,Sua trémula voz me disse: parte...Em tanto que uma lagrima furtivaLhe escorria na face melindrosa,Mais pallida que a tua...
Astro saudoso;
Astro da solidão, quanto me aprazes!Eu amo o teu silencio, amo o teu brilho,Mais que do sol os importunos raios.Que me importa d'esse astro a luz e a vida,Se a luz e a vida me ficaram longe?Se em meio do rumor que o dia espalha,A voz não ouço que responde á minha?
Estes valles, e selvas, estes montes,Á luz do dia, são talvez formosos;Mas não é este o ar que ella respira,Não são estes os sitios que ella encantaCom seu mago sorriso. O dia é mudo;Porém tu surges, solitaria amiga,Tu vens fallar-me d'ella, astro saudoso.Lua, d'esse aureo throno onde campeias,Tu vês os sitios caros. Que faz ella?Acaso, como pomba fatigada,Repousa adormecida? Verte, ó lua,Verte-lhe em torno o perfumado alentoQue a noite rouba ás orvalhadas flôres.Mas não; talvez agora em mim pensando,Agora mesmo sobre o teu semblanteElla fixa tambem os olhos tristes,E nossos pensamentos, nossas vistasSe confundem em ti. Oh! não podermos,Adejando como elles n'esse espaço,Embora por momentos confundir-nosEm teu regaço, deslembrando a ausencia!Ao menos, astro amigo, ordena, ordenaQue o anjo da saudade, que em ti mora,Desça, e lhe diga o que minha alma sente.Oh! quando solto d'importunos laços,Demandando outros céos, hei de já livreVêl-a, ouvil-a, fallar-lhe? Quem o sabe?
Mas tu entanto, confidente meiga,Em cada noite vem fallar-me d'ella;E em meu peito sombrio e solitarioDerrama, envolto no teu doce brilho,O balsamo suave da esperança.Assim possas tu ser, benigna deusa,A invocada dos tristes; e se acasoAmas tambem, se algum remoto lagoEntre floridas margens escondidoTe prende as affeições, possas tu sempreNo crystallino azul de suas aguasSem nuvens espelhar teu rosto ameno!
Repara, doce amiga, olha esta lousa,E junto aquella que lhe fica unida:Aqui d'um terno amor, aqui repousaO despojo mortal, sem luz, sem vida.Esgotando talvez o fel da sorte,Poderam ambos descançar tranquillos;Amaram-se na vida, e inda na morteNão pôde a fria tumba desunil-os.Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerarias!E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulguraNas campas solitarias!
Assim, anjo adorado, assim um diaDe nossas vidas murcharão flôres...Assim ao menos sob a campa friaSe reunam tambem nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,Teu bello rosto no meu seio inclinas,Pallido como o lirio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh! vem, não perturbemos a venturaDo coração, que jubiloso anceia...Vem, gosemos da vida em quanto dura;Desterremos da morte a negra ideia!Longe, longe de nós essa lembrança!Mas não receies o funesto córte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri á morte.
Vês estas sepulturas?Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;Mas esse ardor que as animou outr'ora,Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito enviaNão morre extincta no funereo gêlo.O coração é immenso: a campa friaÉ pequena de mais para contêl-o.Nada receies, pois: a tumba encerraUm breve espaço e uma breve idade;E o amor tem por patria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
Tremes, escravo? baqueiasEntre os muros da prisão?Vergado sob as cadeiasRojas a fronte no chão?Já da turba ao longe o gritoPede teu sangue maldito:Sentes, escravo proscripto,Vacillar teu coração?Não sinto! nada perturbaMinha alegria feroz:Nem o bramir d'essa turba,Nem a lembrança do algoz.Vinguei-me! nada me aterra.Curvae-vos, homens da terra!Contra mim jurastes guerra;Guerra jurei contra vós.
Eu era livre sem métaComo as ondas lá no mar;Era livre como a sétaQuando sibila no ar:Foi vossa avidez tyrannaQue me algemou deshumana.Ó minha pobre choupana!Ó florestas do meu lar!Além, além nas florestas,Foi além onde eu nasci;Onde sem prisões funestasJá venturoso vivi.Foi dos bosques na espessuraQue eu tive amor e ternura;Mas liberdade e ventura,Patria, amor, tudo perdi.Perdi tudo! além da morteJá não me resta ninguem.Tinha um pae: a negra sorteDo filho soffreu tambem.Trouxe da patria distanteO ferreo jugo aviltante,Inda eu era tenro infanteNos braços de minha mãe.
Minha mãe!... oh! quantas vezesMe vinha a triste abraçar,E carpindo os seus revezesFitava os olhos no mar!Seu pranto cahia ardente,Em bagas, na minha frente;E eu, pobre infante innocente,Chorava de a vêr chorar.Mais tarde, quando o navioMe trazia á escravidão,Nas praias do mar bravioEu a vi cahir no chão;Via-a atravéz dos espaços,Morrendo, estender-me os braços...Sacudi meus ferreos laços;Mas, ai de mim! era em vão.Perdi-a! só me restavaA virgem do meu amor,Que a mulher que eu adoravaQuiz partilhar minha dôr.Mas tinha sua bellezaSó d'um escravo a defeza...Devia, oh raiva! ser prêzaDe meu infame senhor.
E eu, soberbo vezes tantas,Curvei-me d'aquella vez:Arrastei ás suas plantasMinha feroz altivez.Debalde! que o vil tyrannoEscarneceu do africano;Maldição! vaidoso, ufano,Meu amor calcou aos pés.--É minha, só minha a escrava:A ti, pertence o grilhão:--Disse, e o sangue me escaldavaNo fundo do coração.Da vingança a torva imagemMe sorriu, me deu coragem,No meu gemido selvagemRugiu irado o leão.Era noite!--negro sonhoQue d'estes olhos não sae!--Era noite! em céo medonhoVi tua sombra, ó meu pae...Rojando um grilhão pesado,Teu espectro ensanguentadoSe ergueu sombrio a meu lado,Sem dar um gemido, um ai...
Té que alçando a voz:--meu filho!Meu filho!--bradaste emfim,E os olhos turvos, sem brilho,Tinhas cravados em mim...Eu quiz lançar-me em teus braços,Quiz cingir-te em doces laços;Mas, fugindo aos meus abraços,Volvias a olhar-me assim.Foste escravo... teu destino,Tua morte compr'hendi,E um nome, o do assassino,Delirando te pedi;Mas sem attender a nada,Erguendo a dextra myrrhada,--Vingança!--com voz iradaBradaste, e não mais te vi.Sim, vingado foi teu sanguePor este braço a final,Que um d'elles cahiu exangueAos golpes do meu punhal.Era amargo o fel da taça:Vinguei a nossa desgraçaN'um dos tigres d'essa raça,No sangue do meu rival.
Vinguei o meu e teu jugo!Que importam ferreos grilhões,O cadafalso e o verdugo,O supplicio e as maldições?Entre os gôsos da vingançaReluz emfim a esperança;Já não receio a lembrançaDe seus cruentos baldões.Sinto correr-me nas veiasO fogo que lhe ateei...Quebrai-vos, duras cadeias,Escravo não mais serei...Sou livre! a morte o proclamaN'este peito que se inflamma...Já n'elle circula a chammaDo veneno que eu tomei!
Era na estancia crystallina e pura,Que além do firmamento rutilanteSe ergue longe de nós, e está seguraEm milhões de columnas de diamante;Jerusalém celeste onde fulguraDo eterno dia o resplendor constante,E onde reside a gloria e magestadeD'Aquelle que povôa a immensidade.Na mansão mais recondita e profundaA soberana Essencia o throno encerra,D'onde a fonte de amor brota fecunda,Os astros animando, os céos e a terra;Um mar de luz seus penetraes circumda,Que o proprio archanjo deslumbrado aterra,Luz que em triangulo ardente se condensaQuando o Eterno os oraculos dispensa.
Por toda a parte o azul e as pedrariasNa cidade divina resplandecem;Mil arcadas de soes, mil galeriasDe brilhantes estrellas, a guarnecem;Os anjos em lustrosas jerarchiasNas harpas d'ouro melodias tecem,Outros em córos adejando vôam,E d'aromas e canto o céo povôam.Eis de repente nos umbraes divinos,Sobre as azas pairando, um anjo entrava,Parecendo de sitios peregrinosQue ás regiões celestes assomava;Cruzando o empyreo, as legiões, e os hymnos,Qual rapido luzeiro perpassava,Té que chegando ao throno do Increado,Nos ultimos degraus ficou poisado.Pelos eburneos hombros o cabelloEm annelladas ondas lhe cahia;A saphira das azas sobre o gêloDas roupagens luzentes refulgia.Mais brilhante não é, não é mais bello,Comparado com elle, o astro do dia,Ou a estrella que brilha quando a auroraDe purpurina luz o céo colora.
Ao throno augusto levantou a frente,Mas com as azas a toldou ancioso,Não podendo soster o brilho ardenteQue despedia o fóco luminoso.A milicia dos anjos resplendenteFixou attenta seu irmão formoso;Os concertos pararam, e elle entantoAssim fallou entre o geral espanto:«Eterno Ser, que as divinaes moradas«Enches de gloria em magestoso assento,«Fonte de vida e creações variadas,«Que dás ao mundo poderoso alento;«A cujo acêno tremem abaladas«As columnas do ethereo firmamento,«E cujo nome, que o universo entôa,«No céo, na terra, e nos abysmos sôa!«Por teu mando supremo destinado«A conduzir a humana descendencia,«Desde que a mancha do cruel peccado«A fez cahir da primitiva essencia:«Venho a final, Senhor, de teu mandado«Dar-te conta fiel, apóz a ausencia;«Fazer-te ouvir da humanidade os prantos,«E aguardar teus preceitos sacrosanctos.
«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre attento,«Proseguisse na terra a lei sob'rana«Que rege, na amplidão do firmamento,«A creação que de teu seio emana:«Essa lei de progresso e movimento«Tenho cumprido na familia humana,«Desde que ao mundo, a combater seu fado,«O desterrado do eden foi lançado.«Primeiro, sobre a terra esclarecendo«Seus duvidosos passos vacillantes;«Depois, o justo e seu baixel sostendo,«Nas aguas do diluvio sussurrantes:«De novo á terra, de pavor tremendo,«Conduzindo mais puros habitantes;«Mais tarde, junto ao berço do Messias,«Annunciando ao mundo novos dias.«Agora, sobre as ruinas d'um imperio«Outro imperio de novo edificando;«Agora, as povoações d'um hemispherio«Sobre as d'outro hemispherio derramando;«Já do teu Verbo o divinal mysterio,«Com as sanctas doutrinas, propagando;«Já mostrando por fim á humanidade«Nova luz de justiça, e de verdade.
«Quantos velhos sophismas desterrados!«Quantos idolos falsos em ruinas!«Quantos sabios triumphos alcançados!«Quantas conquistas immortaes, divinas!«Calcando o pó dos seculos passados,«O homem corre ao fim que lhe destinas;«Mas ah! Senhor, no meio da tormenta«Seu valor esmorece e desalenta.«Seu valor esmorece! tantas lidas,«Tanto luctar continuo das idades,«Tanto sangue e martyrios, tantas vidas,«Tantas ruinas d'imperios e cidades:«E o homem soffre, e as gerações perdidas«Se revolvem n'um mar de tempestades,«Sem vêr luzir esse fanal jucundo«Que por teu Filho prometteste ao mundo.«Quantos males ainda! a lei sublime,«A lei d'amor que derramou teu Verbo,«Sobre a face da terra, á voz do crime,«Succumbe e morre por destino acerbo,«O ferreo jugo que as nações opprime,«Os humildes abate, ergue o soberbo,«E o rei da terra, sobre a terra escravo,«Soffre mesquinho seu eterno aggravo.
«Por toda a parte, em lastimoso accento,«Se ouve gemer a humanidade afflicta.«A terra, a mãe commum, nega alimento«Dos filhos seus á multidão proscripta:«Emquanto folga em vicios o opulento«A indigencia cruel na choça habita,«E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho,«Aperta morto á fome o seu filhinho.«Entanto a guerra, que a ambição ateia,«Ensanguenta as campinas e as cidades;«A crua peste, que ninguem refreia,«Converte as povoações em soledades;«D'estes males crueis a terra cheia,«Cobre-se inda de mil iniquidades;«O vicio, o crime, a corrupção devora«A pobre humanidade, como outr'ora.«Ao vêr tanta miseria, o bom padece,«O mau blasphema de teu nome sancto,«A voz dos inspirados esmorece,«O futuro se envolve em negro manto...«Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece«Que a humanidade te dirige em pranto,«Subi confuso ao eternal assento,«A depôr a teus pés meu desalento.»
Disse, e um gemido d'afflicção pungente,Semelhante a dulcisona harmonia,Soltou do peito, reclinando a frenteCom celeste e ideal melancholia:Assim pendendo ao longe no occidente,Se reclina saudoso o astro do dia;Assim reclina a pallida açucena,Açoitada do vento, a fronte amena.Depois continuando: «ó Deus, quem ha de«Sondar mysterios que teu seio esconde!«Tuas leis divinaes, tua vontade«Cumprirei sobre a terra. Eia responde:«Os passos da mesquinha humanidade«Aonde os levarei, Senhor, aonde?»Uma voz retumbou no céo radiante,Que ao anjo respondeu, dizendo:--ávante!
Ai, adeus! acabaram-se os diasQue ditoso vivi a teu lado;Sôa a hora, o momento fadado;É forçoso deixar-te e partir.Quão formosos, quão breves que foramEsses dias d'amor e ventura!E quão cheios de longa amarguraOs da ausencia vão ser no porvir!Olha em roda estas margens virentes:Já o outomno lhes despe os encantos;Cedo o inverno com gelidos mantosBaixará das montanhas d'além.Tudo triste, sombrio, e gelado,Ficará sem verdura nem flôres:Tal meu seio, privado d'amores,Ficará de ti longe tambem.
Não sei mesmo, não sei se o destinoMe dará que eu te abrace na volta...Ai! quem sabe onde a vaga revoltaLevará meu perdido baixel?Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo,Açoitado por ventos funestos,Sumirá por ventura seus restosNas voragens d'ignoto parcel.Mas ah! longe esta ideia sombria!Longe, longe o cruel desalento!Apóz dias d'amargo tormentoVirão dias mais bellos talvez.Dá-me ainda um sorriso em teus labios,Uma esp'rança que esta alma alimente,E na volta da quadra florenteEu co'as flôres virei outra vez.Mas se as flôres dos campos voltaremSem que eu volte co'as flôres da vida,Chora aquelle que em tumba esquecidaDorme ao longe seu longo dormir;E cada anno que o sôpro do outomnoDesfolhar a verdura do olmeiro,Lembra-te inda do adeus derradeiro,D'este adeus que te disse ao partir!