O CANTO DO COSSACO.

Não disse mais; e esvaeceu-se.Dom Sueiro, espavorido,Fugiu: sem volver os olhos,Sem parar, sempre ha corrido.Brilha a lua em seu crescente:Passa a noite silenciosa;E só lhe quebra o socegoO mocho e a fonte ruidosa.Á porta do seu castelloJá dom Sueiro chegava.Alli, vestida de branco,Do bosque a donzella estava.«Mal-hajas tu, cavalleiro:—Apenas o viu lhe disse:—O ter de mulheres medoÉ signalada pequice.Fui eu que fiz de phantasma:Teu valor conhecer quiz.Tremer como tu tremesteÉ só proprio de homens vís.—As faces do nobre alcaideDe vermelho se tingiram;Mas voltou logo a ternura;Passados sustos fugiram.«Vinde a meus braços, querida!Vinde: não vos detenhaes,Digna de ser minha esposaSó vós sois, e ninguem mais.Neste sitio, hoje vos juroAmor firme e puro e ardente:Em corpo e alma sou vosso;Sê-lo-hei eternamente.»—«Em corpo e alma!?—ella clama,Com uma voz sepulchral.—Certo será graciosaNossa união conjugal!»Então, qual bravo terçol,Que em sua presa poz mira,Ao mesquinho dom Sueiro,Abrindo os braços, se atira.«Arredo! Filha do inferno!—Grita o alcaide.—Isto o que é?»Ai!... olhou... É dona Dulce,Não a donzella, quem vê.Com os braços descarnadosElla o collo lhe estreitou,E os labios apodrecidosAos labios delle chegou.Mortal halito de serpeSeu halito assemelhava:Sua figura era horrivel:Tocada apenas gelava.«Deixa-te agora de medos:—Disse o espectro a dom Sueiro.—Que é da audacia que mostravas,Audacia de cavalleiro?Tremes?... De quê, assassino?Antes devêras tremer,Quando envenenaste Elvira,E a tua pobre mulher.Meu amor e meus encantosPouco tempo te prenderam:Em mim do sepulchro os vermesPor tua mão se pasceram.Depois, a amar-me tornando,Repetiste um crime horrivel...Teu amor é frouxo sempre;Teu odio sempre terrivel!Mas agora, odiada ou grata,Não sairei de teu lado:Nada quebra no outro mundoDos mortos negro noivado.Alma e corpo me cedeste:O corpo aqui dormirá:Porém tua alma comigoMais longe se acolherá!»Não lhe respondeu o alcaide,Que a morte empallidecera,E, ao som de arranco profundo,No chão, extincto, batera.Mas contam 'inda os pastores,Que á meia-noite vagueiaNas margens do ameno Lima,Que murmurando serpeia;E que, gritando e gemendo,O seguem duas figuras,Ambas com brancos vestidosE tisnadas cataduras.O CANTO DO COSSACO.(Béranger).Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo!Chama-te em altos sons tuba do norte.Prestes no saque, intrepido nas brigas,Dá, guiado por mim, asas á morte.Os teus jaezes não arreia o ouro;Mas de meus feitos o terás em paga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.Tuas rédeas me entrega a paz que foge.Ei-los por terra os europeus baluartes!Meus aureos sonhos realisa agora;Terás repouso na mansão das artes.Volve a terceira vez ao Sena inquieto,Que te lavou sangrento, e a sede apaga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram,Entre o choro de mi­seros humanos:—Cossacos, vinde ser de nós senhores!Servos seremos, por ficar tyrannos.»E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes;Que eu hei tomado minha lança e adaga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.De um enorme gigante vi o espectroNosso campo correr co' a vista ardente;E, gritando:—meu reino outra vez surge!»—Mostrar com a acha d'armas o occidente.A sombra era immortal do rei dos Hunos;D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.De que serve seu brilho á velha Europa?Que lhe presta o saber para salvar-se?Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la,Debaixo de teus pés vão levantar-se.Templos, palacios, leis, memorias, usos,Na correria extrema, e pisa e estraga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.O CAÇADOR FEROZ.(Burger).Sua buzina tocáraO conde, altivo senhor:«De pé, de cavallo, álerta!—Disse; e monta o corredor.O nobre animal relincha:Pula e parte; e a turba após.Ei-los vão! Quem era o conde?Era ocaçador feroz.Por estevaes e por sarças,Por campinas cultivadas,Voam rapidos. ResoamMotejos, gritos, risadas.O sol que vinha rompendoEm luz as veigas banhava,E do zimborio do temploO lanternim scintillava.«Tlim, tlão!—convocando á missa,Tangia o sagrado sino;E involto nos sons de um orgam,Do côro se ouvia o hymno.Duas sendas lá se cruzam;E a turba chegára lá.Da direita um cavalleiro,E outro da esquerda está.Nedio ginete, qual neveAlvo, guiava o primeiro;O segundo, á rédea solta,Esporeava um fouveiro.Quem taes cavalleiros eramCreio certo adivinha-lo,Bem que ainda com certezaNão me atreva a declara-lo.Da direita ao cavalleiroFulgia o rosto formoso;Porém no olhar do da esquerdaFulgor havia horroroso.«Bem vindos sois, cavalleiros;Bem vindos á montaria!Qual prazer, no céu, na terra,Ao nosso se igualaria!—Assim disse o conde, e rijaPalmada na côxa deu.Atirando pelos aresA grande altura o chapeu.«O som da tua buzina—Tornou logo o da direita—Nem aos canticos do côroNem do sino ao som se ageita.Ruim caçada te espera!Atrás te cumpre voltar.Contra ti a ira celesteNão queiras desafiar.»«Nobre conde monteae—Prestes o outro atalhou—Que importa a bulha do côro,E se o sino badalou?Deixae ao povo o seu medo:Que para a relé foi feito.Não são palavras sandíasDas que merecem respeito.—«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,Um heroe és quanto a mim.Só padre-nossos empecemA algum caçador ruim!Que tem missas, que tem resasCom o montear, sandeu?Se medo queres metter-me,Falhou o calculo teu.—Disse o conde. Ávante correm:Vão por campinas e outeiros.Sempre da direita e esquerdaEstão os dous cavalleiros.Eis, lá em distancia, um cervoBranco transpõe a assomada,Tendo de pontas galhosasA erguida fronte adornada.Então o conde a buzinaCom mais alento assoprou,E tudo, a pé, a cavallo,Com mais rapidez voou.Ora dos que por diante,Ora dos que de trás vão,Um ou outro rebentadoFica no meio do chão.E o conde:—Cahem? No infernoBaqueiar podesseis vós!Os que desalentam fiquem:Sem elles bem vamos nós.—N'uma seara guarida,Fugindo, o cervo buscou:O pobre dono do campo,Triste, ao conde se chegou:«Meu bom senhor—clamou elle—Compaixão, meu bom senhor!Ah, poupae mesquinhos fructosDe um abundante suor.—Da direita o cavalleiroO conde amoestou então:Cortezes eram seus dictos,Cortezes e de razão:Mas, atiçando-o o da esquerdaÁ maldade perpetrar,Desprezou o da direitaPara o maldicto o enredar.«Fóra cão!—ao camponezGrita o conde esbravejando—Quando não, com mil diabos,Soltar-te a matilha mando.Álerta, socios! O açoutePelas orelhas chegae-lhe;E que sou fiel ás jurasDessa maneira provae-lhe.»Dicto e feito. O conde saltaPor cima os vallos fronteiros;E atrás delle, estrepitando,Homens, cavallos, balseiros.O tropel, com grita horrenda,Pisa e destroe a seara;Que ninguem do lavradorDorido choro escutára.Pelo estridor acossado,Que já bem perto sentia,O cervo os crueis intentos,Veloz fugindo, illudia.Através de montes, valles,Perseguido e não tomado,Manhoso se foi metterEntre um rebanho de gado.Entrando do campo ao bosque,Saindo do bosque ao claro,Seguiram-no os cães, e em breveLhe acharam da pista o faro.Cheio de angustia o pastor,Por seu rebanho temendo,Por terra se arremessouAos pés do conde, tremendo.—Deixae meu pobre rebanho;Senhor, tende dó de mi:De muitas tristes viuvasO gado retouça aqui.Cada qual das pobrezinhasTem das rezes uma só:Eis toda a sua riqueza:Senhor, tende dellas dó.»Da direita o cavalleiroO conde amoestou então:Cortezes eram seus dictos,Cortezes e de razão:Mas a maldade do condeSempre atiçava o da esquerda,E elle, o bom ludibriando,Corria á ultima perda.«Cão! A mim oppôr-te queres?As contas vou-te eu fazer.Quem me déra entre essas vaccasComtigo as taes velhas ver;Que seria o mais suavePrazer do coração meuMontear-vos, mais que fossePelas campinas do céu.Álerta, socios, ávante!Cães, avança! csê! perdido!—E os cães no que acham mais pertoSaltam com fero latido.O pegureiro por terraCái em seu sangue banhado,E sanguento o gado ficaTodo alli atassalhado.Á morte escapou a custoO veado, que fugiaCada vez menos ligeiro,N'uma floresta sombria.Cuberto de escuma e sangue,Perdida a respiração,Do bosque em meio salvou-seNo alvergue de um ermitão.Segue-o o tropel incançavel:Estala o açoute incessante:Soam buzinas; retinemOs gritos de—abóca! ávante!»O solitario piedosoDa cabana então saíu,E ao conde, com brando gesto,Taes palavras dirigiu:—Senhor, deixa teus intentos,E o sacro asylo venera:A creatura ao céu se queixa;Delle teu castigo espera.Aos bons avisos, oh conde,Cede pela ultima vez;Quando não, na perdição,Certo, abysmado te vês.»Cuidadoso o da direitaAo conde correu então:Cortezes eram seus dictos,Cortezes e de razão.Mas o da esquerda atiçandoNelle o animo damnado,Do bom apesar do aviso,Ai, do mau foi enganado!«Perdição?! Disso me rio,Não cuideis que eu tenha susto.No terceiro céu que fôraMe escapára o cervo a custo.Que me importa a ira divina?Vae-te prégar ao deserto.Teus sermões a montariaNão farão falhar, por certo.—Assim disse o conde. O açouteSacode; as buzinas soam.«Csê! abóca!..—Ui! de dianteHomens e cabana voam.De trás corceis, homens fogem:Sons e gritos de caçadaSe esvaecem de repenteDa morte na paz gelada.Pávido o conde olha em roda:Tóca a buzina... não soa:Grita... em vão: nada ouve: o açouteVibra: mas no ar não toa.Para um e para outro ladoO seu cavallo esporeia...Nem para trás voltar póde,Nem àvante se meneia.Então escurece emtorno:Cada vez mais de ennegrece:Qual sepulchro fica: ao longeBramir triste o mar parece.Lá troa voz de trovão!Que era o que dizia a voz?Era a sentença do conde,Sentença medonha e atroz.«Genio infernal, atrevidoContra Deus, homens e feras!Das creaturas os gemidosResoaram nas espheras.Tuas maldades e insultosAlto pedem punição,Onde da vingança o fachoOndeia erguido clarão.Malvado, foge; que os monstrosDo inferno te vão seguir,Para que sejas exemploAos tyrannos do porvir!»Qual d'aurora boreal,Flavo pallido fulgorTingiu então na florestaDas folhas a verde côr.Immovel, pasmado, mudo,Gelado o conde ficou;Trépida angustia dos ossosÁ medulla lhe chegou.Frio susto pela frenteContra elle arroja o terror:Pelas costas o persegueO trovão atroador.O susto o gela; o céu ruge...Da terra vai-se elevandoNegra agigantada mão,Ora abrindo, ora fechando.Pelos cabellos da fronte,Ai, quer o conde prender!..Elle atrás o rosto volta;Nem mais o pôde volver.Em roda chammeja a terraVerde, azul, vermelho fogo:Delle um mar rodeia o conde:Surge o inferno em peso logo.Lá dos abysmos profundosSáem mil mastins raivosos,Que, pelo averno açodados,Se tornam mais furiosos.Toma alento o conde, e foge:Por montes, por campos vai,Do seio arrancando a espaçosDo espanto terrivel ai:Mas por todo o largo mundoAtrás delle ruge o inferno,De dia do orbe no centro,De noite no ar superno.Ficou-lhe a face voltada,Por mais que ávante corresse,Sem que dos horridos monstrosOs olhos tirar podesse.Eis como a caçada foiDo tropel desenfreiado,A qual até nossos diasTão constante tem passado,Que, muitas vezes, duranteAs horas da noite escura,Ainda ao dissoluto causaDo medo o horror e amarguraDe bastantes caçadoresPodia a boca dize-lo,Se antes não lhes conviesseCalado comsigo te-lo.O CÃO DO LOUVRE.(Delavigne).Tu que passas, descobre-te! Alli dormeO forte que morreu.Dá ao martyr do Louvre algumas flores;Dá pão ao seu lebreu.Da batalha era o dia. O canhão troa:E o livre corre á morte, e juncto delleO seu cão vai:A mesma bala ambos feriu: o martyrNão deploreis: o amigo seu que viveSó pranteai!Tristonho, sobre o forte elle se inclina,Affagando-o e gemendo; e a ver se acordaPõe-se a latir;E do seu companheiro no combateSobre o cadaver sanguinoso o prantoDeixa cahir.Essa gleba guardando onde repousamAs cinzas dos heroes, nada o consolaNo seu gemer;E ao que o ameiga triste repellindo,«Oh, que não és meu dono!—o cão pareceTentar dizer.Quando sobre as grinaldas de perpetuasO matutino alvor da aurora o orvalhoFaz scintillar,Os olhos abre vívidos, e pulaPara affagar seu dono, que elle pensaHa-de voltar!Quando da noite a viração as c'roasFez ranger sobre a cruz do monumento,Desanimou:Elle quizera que seu dono o ouvisse;E ladra e uiva; mas o adeus de á noiteLá lhe faltou!O inverno chega, e a neve, com violencia,Cái, e branqueia, e esconde esse geladoLeito de morte:Ei-lo que sólta um lugubre gemido,E busca, alli deitando-se, ampara-loDo frio norte.Antes que os membros lhe entorpeça o somno,Mil tentativas para erguer a campaInuteis faz:Depois comsigo diz, como hontem disse,—Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.»E dorme em paz.Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras,E seu dono entre as balas encontradasCahir ferido:E ouve-o que o chama com sibillo usado;E ergue-se e corre após uma van sombra,Dando um bramido.É alli que elle espera horas e horas,E saudoso murmura: alli pranteia,E morrerá.O seu nome qual é? Todos o ignoram.O que o sabía, o dono seu querido,Nunca o dirá!..Tu que passas, descobre-te! Além dormeO forte que morreu.Dá ao martyr do Louvre algumas flores,E esmola ao seu lebreu.LEONOR.(Burger).Ralada de ruins sonhosJá desperta está Leonor,E 'inda agora os céus d'orienteDa manhan tingiu o alvor.«Guilherme, és morto?—ella exclama—Ou trahiste a pobre amante?Se vives, porque retardasDe te eu ver feliz instante?»Nas tropas de FridericoTempo havia que partíraPara a batalha de Praga,E cartas delle quem vira?Mas a imperatriz e o rei[1],De guerras, emfim, cansados,Depondo os animos feros,De paz faziam tractados.Já aos seus lares tornavamAmbas as hostes folgando.Cingem frentes ramos verdes;Vem atabales rufando.E por montes e por vallesVelhos e moços chegavam,Dando brados de alegria,A encontrar os que voltavam.«Boa vinda! Adeus!—diziamAs filhas, noivas, e esposas.E Leonor? Nenhum dos vindosLhe faz caricias saudosas.Por Guilherme ella pergunta;Por qual estrada viria.Vão trabalho; vans perguntas:Novas delle quem sabia?Não o vê. Passaram todos...Em furioso devaneio,Ei-la arranca as negras tranças;Fere crua o lindo seio.Sua mãe, correndo a ella:«Valha-me Deus!—lhe bradou.—Minha filha, pois que é isso?!»E entre os braços a apertou.«Minha mãe, perdeu-se tudo!O mundo, tudo perdi:De nada Deus se condoe...Oh dor, oh pobre de mi!—«Ai! Jesus venha á minha alma!Filha, um padre-nosso resa.Deus é pae: sempre nos ouve:Nunca a humana dor despreza.—«Minha mãe, inutil crença!Que bens me tem feito Deus?Padre-nossos!.. padre-nossos!..Que importam resas aos céus?—«Ai! Jesus venha á minha alma!Pois não é quem resa ouvido?Busca da igreja o consoloVerás teu pesar vencido.—«Mãe, oh mãe, esta amarguraNenhum sacramento adoça:Não sei nenhum sacramento,Que aos mortos dar vida possa.—«Filha, quem sabe se, ingrato,Elle ás promessas faltou;E lá na remota HungriaNovo amor o captivou?Se, mudavel, te abandona,Do crime o premio terá:Do ultimo trance na angustiaO remorso o punirá.—«Morreu-me, oh mãe, a esperança.Perdido... tudo é perdido!Morrer, tambem, só me resta.Nunca eu houvera nascido!Foge, oh sol resplandecente!Manda a noite e os seus terrores...Deus, oh Deus, que nunca escutasO gemer de humanas dores.—«Meu Senhor! A desditosaNão pensa o que a lingua exprime.Não julgues a filha tua:Nem te lembres do seu crime.Vans paixões esquece, oh filha:Cogita no goso eterno,No sangue que te remiu,E nos tormentos do inferno.—«O que é goso eterno, oh mãe,E o inferno em que consiste?Com Guilherme ha goso eterno,Sem Guilherme o inferno existe.Sem elle, que a luz fugindo,Se troque em nocturno horror;Sem elle, no céu, na terraSó conheço acerba dor!»Assim no sangue e na menteFuria insana lhe fervia:Cruel chamando ao Senhor,Mil blasphemias repetia.Desde o sol brilhar no orienteAté que o céu se estrellava,As mãos, louca, retorcia,O brando seio pisava.Porém ouçamos!.. A terraPisa um cavallo lá fóra!..E pelos degraus da escadaTinem sons d'espada e espóra...Ouçamos! Batem na argolaPancadas que mal feriram...E através das portas, claro,Estas palavras se ouviram:«Oh lá, querida, abre a porta.Dormes? Estás acordada?Folgas em riso? Pranteias?De mim és 'inda lembrada?—«Guilherme, tu?! Na alta noite?Tenho velado e gemido.Quanto padeci!.. Mas, d'ondeAté 'qui tens tu corrido?!—«Nós montamos á meia-noiteSó. Vim tarde, mas ligeiro,Desde a Bohemia, e comigoLevar-te-hei, por derradeiro.—«Oh meu querido Guilherme,Vem depressa: aqui te abrigaEntre meus braços; que o ventoDo bosque as crinas fustiga.—«Rugir o deixa nos matos.Sibilla? Sibille embora!Não paro... que o meu gineteEscarva o chão... tine a espóra...Nosso leito nupcialDista cem milhas d'aqui.Sobraça as roupas... vem... saltaNo murzelo, atrás de mi.—«Além cem milhas, me queresHoje ao thalamo guiar?Ouve... o relogio ainda soa:Doze vezes fere o ar.—«Olha em roda! A lua é clara:Nós e os mortos bem corremos.Aposto eu que n'um instanteAo leito nupcial iremos?—«Mas dize-me, onde é que habitas?Como é o leito do noivado?—«Longe, quedo, fresco, breve:De oito taboas é formado.—«Para dous?—«Para nós ambos.Sobraça as roupas: vem cá.Os convidados esperam:O quarto patente está.—Sobraçada a roupa, a bellaPara o ginete saltou,E ao seu leal cavalleiroCo' as alvas mãos se enlaçou.Ei-los vão! Soa a corrida.Ei-los vão, á fula-fula!Ginete e guerreiro arquejam:A faisca, a pedra pula.Ui, como, á direita, á esquerda,Ante seus olhos se escoamPrado e selva, e do galopeSob a ponte os sons ecchoam!«Tremes, cara? A lua é pura.Depressa o morto andar usa.Tens medo de mortos?—«Não.Mas delles falar se escusa.—«Que sons e cantos são estes?O corvo alli remoinha!Sons de sino? Hymnos de morte?É morto que se avizinha!—Era de feito um saimento,Que andas e esquife levava:Aos silvos de cobra em pégoSeu canto se assemelhava.«Um enterro á meia-noite,Com psalmos e com lamento,E eu a minha noiva levoAo sarau do casamento?Vinde, sacristão e o côro,O ephitalamio entoai-nos;Vinde, abbade, e antes que entremosNo leito, a bençam lançai-nos.—Cala o som e o canto: a tumbaSome-se: finda o clamorA seu mando; e o tropel voaNa pista do corredor.Sempre mais alto a corridaSoa. Vão á fula-fula.Ginete e guerreiro arquejam:A faisca, a pedra pula.Como á dextra e esquerda fogemMontes, bosques, matagaes!Como á dextra e esquerda fogemCidades, villas, casaes!«Tremes, cara? A lua é pura.Depressa o morto usa andar.Temes os mortos, querida?—«Ai, deixa-os lá repousar!—«Olha! Ao redor de uma forcaDançar em tropel não vêsAereos corpos, que alvejamDa luz da lua através?Oh lé, birbantes, aqui!Birbantes, acompanhai-me!Vinde. A dança do noivadoJuncto do leito dançai-me.—E os vultos vem após logo,Ruído immenso fazendo,Como o furacão nas folhasSeccas do vergel rangendo.E resoando a corridaEi-los vão, á fula-fula.Ginete e guerreiro arquejam:A faisca, a pedra pula.Para trás fugir pareceQuanto o luar allumia;Para trás suas estrellasSumir o céu parecia.«Tremes, cara? A lua é pura.Depressa o morto andar usa.Temes os mortos, querida?—«Ai, delles falar se escusa!—«Murzelo, o gallo ouvír creio!Breve a areia ha-de correr...Murzelo, avia-te, voa;Que sinto o ar do amanhecer!Nossa jornada está finda:Ao leito nupcial chegámos:Ligeiro os mortos caminham:A méta final tocámos.—D'uma porta ás grades ferreasÁ rédea solta chegaram,E de fragil vara ao toqueFerrolho e chave saltaram.Fugiram piando as aves:A corrida, emfim, paráraSobre campas. Os moimentosAlvejam; que a noite é clara.Peça após peça, ao guerreiroCáe a armadura lustrosaEm negro pó impalpavel,Qual de isca fuliginosa.

Não disse mais; e esvaeceu-se.

Dom Sueiro, espavorido,Fugiu: sem volver os olhos,Sem parar, sempre ha corrido.

Brilha a lua em seu crescente:

Passa a noite silenciosa;E só lhe quebra o socegoO mocho e a fonte ruidosa.

Á porta do seu castello

Já dom Sueiro chegava.Alli, vestida de branco,Do bosque a donzella estava.

«Mal-hajas tu, cavalleiro:—

Apenas o viu lhe disse:—O ter de mulheres medoÉ signalada pequice.

Fui eu que fiz de phantasma:

Teu valor conhecer quiz.Tremer como tu tremesteÉ só proprio de homens vís.—

As faces do nobre alcaide

De vermelho se tingiram;Mas voltou logo a ternura;Passados sustos fugiram.

«Vinde a meus braços, querida!

Vinde: não vos detenhaes,Digna de ser minha esposaSó vós sois, e ninguem mais.

Neste sitio, hoje vos juro

Amor firme e puro e ardente:Em corpo e alma sou vosso;Sê-lo-hei eternamente.»—

«Em corpo e alma!?—ella clama,

Com uma voz sepulchral.—Certo será graciosaNossa união conjugal!»

Então, qual bravo terçol,

Que em sua presa poz mira,Ao mesquinho dom Sueiro,Abrindo os braços, se atira.

«Arredo! Filha do inferno!—

Grita o alcaide.—Isto o que é?»Ai!... olhou... É dona Dulce,Não a donzella, quem vê.

Com os braços descarnados

Ella o collo lhe estreitou,E os labios apodrecidosAos labios delle chegou.

Mortal halito de serpe

Seu halito assemelhava:Sua figura era horrivel:Tocada apenas gelava.

«Deixa-te agora de medos:—

Disse o espectro a dom Sueiro.—Que é da audacia que mostravas,Audacia de cavalleiro?

Tremes?... De quê, assassino?

Antes devêras tremer,Quando envenenaste Elvira,E a tua pobre mulher.

Meu amor e meus encantos

Pouco tempo te prenderam:Em mim do sepulchro os vermesPor tua mão se pasceram.

Depois, a amar-me tornando,

Repetiste um crime horrivel...Teu amor é frouxo sempre;Teu odio sempre terrivel!

Mas agora, odiada ou grata,

Não sairei de teu lado:Nada quebra no outro mundoDos mortos negro noivado.

Alma e corpo me cedeste:

O corpo aqui dormirá:Porém tua alma comigoMais longe se acolherá!»

Não lhe respondeu o alcaide,

Que a morte empallidecera,E, ao som de arranco profundo,No chão, extincto, batera.

Mas contam 'inda os pastores,

Que á meia-noite vagueiaNas margens do ameno Lima,Que murmurando serpeia;

E que, gritando e gemendo,

O seguem duas figuras,Ambas com brancos vestidosE tisnadas cataduras.

Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo!Chama-te em altos sons tuba do norte.Prestes no saque, intrepido nas brigas,Dá, guiado por mim, asas á morte.Os teus jaezes não arreia o ouro;Mas de meus feitos o terás em paga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.Tuas rédeas me entrega a paz que foge.Ei-los por terra os europeus baluartes!Meus aureos sonhos realisa agora;Terás repouso na mansão das artes.Volve a terceira vez ao Sena inquieto,Que te lavou sangrento, e a sede apaga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram,Entre o choro de mi­seros humanos:—Cossacos, vinde ser de nós senhores!Servos seremos, por ficar tyrannos.»E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes;Que eu hei tomado minha lança e adaga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.De um enorme gigante vi o espectroNosso campo correr co' a vista ardente;E, gritando:—meu reino outra vez surge!»—Mostrar com a acha d'armas o occidente.A sombra era immortal do rei dos Hunos;D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.De que serve seu brilho á velha Europa?Que lhe presta o saber para salvar-se?Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la,Debaixo de teus pés vão levantar-se.Templos, palacios, leis, memorias, usos,Na correria extrema, e pisa e estraga.Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Sua buzina tocára

O conde, altivo senhor:«De pé, de cavallo, álerta!—Disse; e monta o corredor.

O nobre animal relincha:

Pula e parte; e a turba após.Ei-los vão! Quem era o conde?Era ocaçador feroz.

Por estevaes e por sarças,

Por campinas cultivadas,Voam rapidos. ResoamMotejos, gritos, risadas.

O sol que vinha rompendo

Em luz as veigas banhava,E do zimborio do temploO lanternim scintillava.

«Tlim, tlão!—convocando á missa,

Tangia o sagrado sino;E involto nos sons de um orgam,Do côro se ouvia o hymno.

Duas sendas lá se cruzam;

E a turba chegára lá.Da direita um cavalleiro,E outro da esquerda está.

Nedio ginete, qual neve

Alvo, guiava o primeiro;O segundo, á rédea solta,Esporeava um fouveiro.

Quem taes cavalleiros eram

Creio certo adivinha-lo,Bem que ainda com certezaNão me atreva a declara-lo.

Da direita ao cavalleiro

Fulgia o rosto formoso;Porém no olhar do da esquerdaFulgor havia horroroso.

«Bem vindos sois, cavalleiros;

Bem vindos á montaria!Qual prazer, no céu, na terra,Ao nosso se igualaria!—

Assim disse o conde, e rija

Palmada na côxa deu.Atirando pelos aresA grande altura o chapeu.

«O som da tua buzina—

Tornou logo o da direita—Nem aos canticos do côroNem do sino ao som se ageita.

Ruim caçada te espera!

Atrás te cumpre voltar.Contra ti a ira celesteNão queiras desafiar.»

«Nobre conde monteae—

Prestes o outro atalhou—Que importa a bulha do côro,E se o sino badalou?

Deixae ao povo o seu medo:

Que para a relé foi feito.Não são palavras sandíasDas que merecem respeito.—

«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,

Um heroe és quanto a mim.Só padre-nossos empecemA algum caçador ruim!

Que tem missas, que tem resas

Com o montear, sandeu?Se medo queres metter-me,Falhou o calculo teu.—

Disse o conde. Ávante correm:

Vão por campinas e outeiros.Sempre da direita e esquerdaEstão os dous cavalleiros.

Eis, lá em distancia, um cervo

Branco transpõe a assomada,Tendo de pontas galhosasA erguida fronte adornada.

Então o conde a buzina

Com mais alento assoprou,E tudo, a pé, a cavallo,Com mais rapidez voou.

Ora dos que por diante,

Ora dos que de trás vão,Um ou outro rebentadoFica no meio do chão.

E o conde:—Cahem? No inferno

Baqueiar podesseis vós!Os que desalentam fiquem:Sem elles bem vamos nós.—

N'uma seara guarida,

Fugindo, o cervo buscou:O pobre dono do campo,Triste, ao conde se chegou:

«Meu bom senhor—clamou elle—

Compaixão, meu bom senhor!Ah, poupae mesquinhos fructosDe um abundante suor.—

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:Cortezes eram seus dictos,Cortezes e de razão:

Mas, atiçando-o o da esquerda

Á maldade perpetrar,Desprezou o da direitaPara o maldicto o enredar.

«Fóra cão!—ao camponez

Grita o conde esbravejando—Quando não, com mil diabos,Soltar-te a matilha mando.

Álerta, socios! O açoute

Pelas orelhas chegae-lhe;E que sou fiel ás jurasDessa maneira provae-lhe.»

Dicto e feito. O conde salta

Por cima os vallos fronteiros;E atrás delle, estrepitando,Homens, cavallos, balseiros.

O tropel, com grita horrenda,

Pisa e destroe a seara;Que ninguem do lavradorDorido choro escutára.

Pelo estridor acossado,

Que já bem perto sentia,O cervo os crueis intentos,Veloz fugindo, illudia.

Através de montes, valles,

Perseguido e não tomado,Manhoso se foi metterEntre um rebanho de gado.

Entrando do campo ao bosque,

Saindo do bosque ao claro,Seguiram-no os cães, e em breveLhe acharam da pista o faro.

Cheio de angustia o pastor,

Por seu rebanho temendo,Por terra se arremessouAos pés do conde, tremendo.

—Deixae meu pobre rebanho;

Senhor, tende dó de mi:De muitas tristes viuvasO gado retouça aqui.

Cada qual das pobrezinhas

Tem das rezes uma só:Eis toda a sua riqueza:Senhor, tende dellas dó.»

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:Cortezes eram seus dictos,Cortezes e de razão:

Mas a maldade do conde

Sempre atiçava o da esquerda,E elle, o bom ludibriando,Corria á ultima perda.

«Cão! A mim oppôr-te queres?

As contas vou-te eu fazer.Quem me déra entre essas vaccasComtigo as taes velhas ver;

Que seria o mais suave

Prazer do coração meuMontear-vos, mais que fossePelas campinas do céu.

Álerta, socios, ávante!

Cães, avança! csê! perdido!—E os cães no que acham mais pertoSaltam com fero latido.

O pegureiro por terra

Cái em seu sangue banhado,E sanguento o gado ficaTodo alli atassalhado.

Á morte escapou a custo

O veado, que fugiaCada vez menos ligeiro,N'uma floresta sombria.

Cuberto de escuma e sangue,

Perdida a respiração,Do bosque em meio salvou-seNo alvergue de um ermitão.

Segue-o o tropel incançavel:

Estala o açoute incessante:Soam buzinas; retinemOs gritos de—abóca! ávante!»

O solitario piedoso

Da cabana então saíu,E ao conde, com brando gesto,Taes palavras dirigiu:

—Senhor, deixa teus intentos,

E o sacro asylo venera:A creatura ao céu se queixa;Delle teu castigo espera.

Aos bons avisos, oh conde,

Cede pela ultima vez;Quando não, na perdição,Certo, abysmado te vês.»

Cuidadoso o da direita

Ao conde correu então:Cortezes eram seus dictos,Cortezes e de razão.

Mas o da esquerda atiçando

Nelle o animo damnado,Do bom apesar do aviso,Ai, do mau foi enganado!

«Perdição?! Disso me rio,

Não cuideis que eu tenha susto.No terceiro céu que fôraMe escapára o cervo a custo.

Que me importa a ira divina?

Vae-te prégar ao deserto.Teus sermões a montariaNão farão falhar, por certo.—

Assim disse o conde. O açoute

Sacode; as buzinas soam.«Csê! abóca!..—Ui! de dianteHomens e cabana voam.

De trás corceis, homens fogem:

Sons e gritos de caçadaSe esvaecem de repenteDa morte na paz gelada.

Pávido o conde olha em roda:

Tóca a buzina... não soa:Grita... em vão: nada ouve: o açouteVibra: mas no ar não toa.

Para um e para outro lado

O seu cavallo esporeia...Nem para trás voltar póde,Nem àvante se meneia.

Então escurece emtorno:

Cada vez mais de ennegrece:Qual sepulchro fica: ao longeBramir triste o mar parece.

Lá troa voz de trovão!

Que era o que dizia a voz?Era a sentença do conde,Sentença medonha e atroz.

«Genio infernal, atrevido

Contra Deus, homens e feras!Das creaturas os gemidosResoaram nas espheras.

Tuas maldades e insultos

Alto pedem punição,Onde da vingança o fachoOndeia erguido clarão.

Malvado, foge; que os monstros

Do inferno te vão seguir,Para que sejas exemploAos tyrannos do porvir!»

Qual d'aurora boreal,

Flavo pallido fulgorTingiu então na florestaDas folhas a verde côr.

Immovel, pasmado, mudo,

Gelado o conde ficou;Trépida angustia dos ossosÁ medulla lhe chegou.

Frio susto pela frente

Contra elle arroja o terror:Pelas costas o persegueO trovão atroador.

O susto o gela; o céu ruge...

Da terra vai-se elevandoNegra agigantada mão,Ora abrindo, ora fechando.

Pelos cabellos da fronte,

Ai, quer o conde prender!..Elle atrás o rosto volta;Nem mais o pôde volver.

Em roda chammeja a terra

Verde, azul, vermelho fogo:Delle um mar rodeia o conde:Surge o inferno em peso logo.

Lá dos abysmos profundos

Sáem mil mastins raivosos,Que, pelo averno açodados,Se tornam mais furiosos.

Toma alento o conde, e foge:

Por montes, por campos vai,Do seio arrancando a espaçosDo espanto terrivel ai:

Mas por todo o largo mundo

Atrás delle ruge o inferno,De dia do orbe no centro,De noite no ar superno.

Ficou-lhe a face voltada,

Por mais que ávante corresse,Sem que dos horridos monstrosOs olhos tirar podesse.

Eis como a caçada foi

Do tropel desenfreiado,A qual até nossos diasTão constante tem passado,

Que, muitas vezes, durante

As horas da noite escura,Ainda ao dissoluto causaDo medo o horror e amargura

De bastantes caçadores

Podia a boca dize-lo,Se antes não lhes conviesseCalado comsigo te-lo.

Tu que passas, descobre-te! Alli dorme

O forte que morreu.

Dá ao martyr do Louvre algumas flores;

Dá pão ao seu lebreu.

Da batalha era o dia. O canhão troa:E o livre corre á morte, e juncto delle

O seu cão vai:

A mesma bala ambos feriu: o martyrNão deploreis: o amigo seu que vive

Só pranteai!

Tristonho, sobre o forte elle se inclina,Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda

Põe-se a latir;

E do seu companheiro no combateSobre o cadaver sanguinoso o pranto

Deixa cahir.

Essa gleba guardando onde repousamAs cinzas dos heroes, nada o consola

No seu gemer;

E ao que o ameiga triste repellindo,«Oh, que não és meu dono!—o cão parece

Tentar dizer.

Quando sobre as grinaldas de perpetuasO matutino alvor da aurora o orvalho

Faz scintillar,

Os olhos abre vívidos, e pulaPara affagar seu dono, que elle pensa

Ha-de voltar!

Quando da noite a viração as c'roasFez ranger sobre a cruz do monumento,

Desanimou:

Elle quizera que seu dono o ouvisse;E ladra e uiva; mas o adeus de á noite

Lá lhe faltou!

O inverno chega, e a neve, com violencia,Cái, e branqueia, e esconde esse gelado

Leito de morte:

Ei-lo que sólta um lugubre gemido,E busca, alli deitando-se, ampara-lo

Do frio norte.

Antes que os membros lhe entorpeça o somno,Mil tentativas para erguer a campa

Inuteis faz:

Depois comsigo diz, como hontem disse,—Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.»

E dorme em paz.

Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras,E seu dono entre as balas encontradas

Cahir ferido:

E ouve-o que o chama com sibillo usado;E ergue-se e corre após uma van sombra,

Dando um bramido.

É alli que elle espera horas e horas,E saudoso murmura: alli pranteia,

E morrerá.

O seu nome qual é? Todos o ignoram.O que o sabía, o dono seu querido,

Nunca o dirá!..

Tu que passas, descobre-te! Além dorme

O forte que morreu.

Dá ao martyr do Louvre algumas flores,

E esmola ao seu lebreu.

Ralada de ruins sonhos

Já desperta está Leonor,E 'inda agora os céus d'orienteDa manhan tingiu o alvor.

«Guilherme, és morto?—ella exclama—

Ou trahiste a pobre amante?Se vives, porque retardasDe te eu ver feliz instante?»

Nas tropas de Friderico

Tempo havia que partíraPara a batalha de Praga,E cartas delle quem vira?

Mas a imperatriz e o rei[1],

De guerras, emfim, cansados,Depondo os animos feros,De paz faziam tractados.

Já aos seus lares tornavam

Ambas as hostes folgando.Cingem frentes ramos verdes;Vem atabales rufando.

E por montes e por valles

Velhos e moços chegavam,Dando brados de alegria,A encontrar os que voltavam.

«Boa vinda! Adeus!—diziam

As filhas, noivas, e esposas.E Leonor? Nenhum dos vindosLhe faz caricias saudosas.

Por Guilherme ella pergunta;

Por qual estrada viria.Vão trabalho; vans perguntas:Novas delle quem sabia?

Não o vê. Passaram todos...

Em furioso devaneio,Ei-la arranca as negras tranças;Fere crua o lindo seio.

Sua mãe, correndo a ella:

«Valha-me Deus!—lhe bradou.—Minha filha, pois que é isso?!»E entre os braços a apertou.

«Minha mãe, perdeu-se tudo!

O mundo, tudo perdi:De nada Deus se condoe...Oh dor, oh pobre de mi!—

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Filha, um padre-nosso resa.Deus é pae: sempre nos ouve:Nunca a humana dor despreza.—

«Minha mãe, inutil crença!

Que bens me tem feito Deus?Padre-nossos!.. padre-nossos!..Que importam resas aos céus?—

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Pois não é quem resa ouvido?Busca da igreja o consoloVerás teu pesar vencido.—

«Mãe, oh mãe, esta amargura

Nenhum sacramento adoça:Não sei nenhum sacramento,Que aos mortos dar vida possa.—

«Filha, quem sabe se, ingrato,

Elle ás promessas faltou;E lá na remota HungriaNovo amor o captivou?

Se, mudavel, te abandona,

Do crime o premio terá:Do ultimo trance na angustiaO remorso o punirá.—

«Morreu-me, oh mãe, a esperança.

Perdido... tudo é perdido!Morrer, tambem, só me resta.Nunca eu houvera nascido!

Foge, oh sol resplandecente!

Manda a noite e os seus terrores...Deus, oh Deus, que nunca escutasO gemer de humanas dores.—

«Meu Senhor! A desditosa

Não pensa o que a lingua exprime.Não julgues a filha tua:Nem te lembres do seu crime.

Vans paixões esquece, oh filha:

Cogita no goso eterno,No sangue que te remiu,E nos tormentos do inferno.—

«O que é goso eterno, oh mãe,

E o inferno em que consiste?Com Guilherme ha goso eterno,Sem Guilherme o inferno existe.

Sem elle, que a luz fugindo,

Se troque em nocturno horror;Sem elle, no céu, na terraSó conheço acerba dor!»

Assim no sangue e na mente

Furia insana lhe fervia:Cruel chamando ao Senhor,Mil blasphemias repetia.

Desde o sol brilhar no oriente

Até que o céu se estrellava,As mãos, louca, retorcia,O brando seio pisava.

Porém ouçamos!.. A terra

Pisa um cavallo lá fóra!..E pelos degraus da escadaTinem sons d'espada e espóra...

Ouçamos! Batem na argola

Pancadas que mal feriram...E através das portas, claro,Estas palavras se ouviram:

«Oh lá, querida, abre a porta.

Dormes? Estás acordada?Folgas em riso? Pranteias?De mim és 'inda lembrada?—

«Guilherme, tu?! Na alta noite?

Tenho velado e gemido.Quanto padeci!.. Mas, d'ondeAté 'qui tens tu corrido?!—

«Nós montamos á meia-noite

Só. Vim tarde, mas ligeiro,Desde a Bohemia, e comigoLevar-te-hei, por derradeiro.—

«Oh meu querido Guilherme,

Vem depressa: aqui te abrigaEntre meus braços; que o ventoDo bosque as crinas fustiga.—

«Rugir o deixa nos matos.

Sibilla? Sibille embora!Não paro... que o meu gineteEscarva o chão... tine a espóra...

Nosso leito nupcial

Dista cem milhas d'aqui.Sobraça as roupas... vem... saltaNo murzelo, atrás de mi.—

«Além cem milhas, me queres

Hoje ao thalamo guiar?Ouve... o relogio ainda soa:Doze vezes fere o ar.—

«Olha em roda! A lua é clara:

Nós e os mortos bem corremos.Aposto eu que n'um instanteAo leito nupcial iremos?—

«Mas dize-me, onde é que habitas?

Como é o leito do noivado?—«Longe, quedo, fresco, breve:De oito taboas é formado.—

«Para dous?—«Para nós ambos.

Sobraça as roupas: vem cá.Os convidados esperam:O quarto patente está.—

Sobraçada a roupa, a bella

Para o ginete saltou,E ao seu leal cavalleiroCo' as alvas mãos se enlaçou.

Ei-los vão! Soa a corrida.

Ei-los vão, á fula-fula!Ginete e guerreiro arquejam:A faisca, a pedra pula.

Ui, como, á direita, á esquerda,

Ante seus olhos se escoamPrado e selva, e do galopeSob a ponte os sons ecchoam!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa.Tens medo de mortos?—«Não.Mas delles falar se escusa.—

«Que sons e cantos são estes?

O corvo alli remoinha!Sons de sino? Hymnos de morte?É morto que se avizinha!—

Era de feito um saimento,

Que andas e esquife levava:Aos silvos de cobra em pégoSeu canto se assemelhava.

«Um enterro á meia-noite,

Com psalmos e com lamento,E eu a minha noiva levoAo sarau do casamento?

Vinde, sacristão e o côro,

O ephitalamio entoai-nos;Vinde, abbade, e antes que entremosNo leito, a bençam lançai-nos.—

Cala o som e o canto: a tumba

Some-se: finda o clamorA seu mando; e o tropel voaNa pista do corredor.

Sempre mais alto a corrida

Soa. Vão á fula-fula.Ginete e guerreiro arquejam:A faisca, a pedra pula.

Como á dextra e esquerda fogem

Montes, bosques, matagaes!Como á dextra e esquerda fogemCidades, villas, casaes!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto usa andar.Temes os mortos, querida?—«Ai, deixa-os lá repousar!—

«Olha! Ao redor de uma forca

Dançar em tropel não vêsAereos corpos, que alvejamDa luz da lua através?

Oh lé, birbantes, aqui!

Birbantes, acompanhai-me!Vinde. A dança do noivadoJuncto do leito dançai-me.—

E os vultos vem após logo,

Ruído immenso fazendo,Como o furacão nas folhasSeccas do vergel rangendo.

E resoando a corrida

Ei-los vão, á fula-fula.Ginete e guerreiro arquejam:A faisca, a pedra pula.

Para trás fugir parece

Quanto o luar allumia;Para trás suas estrellasSumir o céu parecia.

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa.Temes os mortos, querida?—«Ai, delles falar se escusa!—

«Murzelo, o gallo ouvír creio!

Breve a areia ha-de correr...Murzelo, avia-te, voa;Que sinto o ar do amanhecer!

Nossa jornada está finda:

Ao leito nupcial chegámos:Ligeiro os mortos caminham:A méta final tocámos.—

D'uma porta ás grades ferreas

Á rédea solta chegaram,E de fragil vara ao toqueFerrolho e chave saltaram.

Fugiram piando as aves:

A corrida, emfim, paráraSobre campas. Os moimentosAlvejam; que a noite é clara.

Peça após peça, ao guerreiro

Cáe a armadura lustrosaEm negro pó impalpavel,Qual de isca fuliginosa.


Back to IndexNext