Chapter 13

Estão em presença dois principios, o popular e o pessoal. Mas o governo pessoal não triumpha e o principio revolucionario vae supplantal-o. O que fica sendo uma realeza vencida? Que prestigio póde ter um rei que desembainha a espada ferrugenta e que depois é obrigado a despir a farda no meio da rua? A realeza vilipendiada não é somente inutil, é um mal. O paço é incorrigivel: conspira sempre. Uma rainha que se declara coacta seis mezes em cada anno, não é rainha. O paço é a espelunca de Caco, onde sempre se teem reunido os conspiradores. A purpura dos reis tem servido para varrer a immundicie dos palacios e dos cortezãos mais abjectos. (Espectro, O estado da questão)

Estão em presença dois principios, o popular e o pessoal. Mas o governo pessoal não triumpha e o principio revolucionario vae supplantal-o. O que fica sendo uma realeza vencida? Que prestigio póde ter um rei que desembainha a espada ferrugenta e que depois é obrigado a despir a farda no meio da rua? A realeza vilipendiada não é somente inutil, é um mal. O paço é incorrigivel: conspira sempre. Uma rainha que se declara coacta seis mezes em cada anno, não é rainha. O paço é a espelunca de Caco, onde sempre se teem reunido os conspiradores. A purpura dos reis tem servido para varrer a immundicie dos palacios e dos cortezãos mais abjectos. (Espectro, O estado da questão)

Assim vociferava o espectro jacobino, reclamando a abdicação da rainha; e ás suas vozes respondiam os eccos do espectro miguelista, condemnando a nova dynastia, acclamando o rei vencido em 34. E quando, no seu primeiro numero, oEspectrodesenrolavao sudario da crise financeira, a restauração no Minho, com uma voz mais verdadeira, não accusava Pedro nem Paulo, Cabraes nem Passos: accusava o liberalismo de ter emprazado o reino á praça de Londres, recordava D. Miguel que reinara cinco annos sem tomar dinheiro emprestado ao extrangeiro, e contava as riquezas desbaratadas, da patriarchal e da casa das rainhas e do infantado e dos conventos, vendo-se agora os frades famintos a pedir esmola miseravelmente.

E tomado de um accesso de franqueza e lucidez, o espectro de Lisboa, contra a rainha, confessava o crime juridico do liberalismo:

O throno da rainha só póde ser sustentado pelos liberaes: a sua corôa é condicional, segundo aCARTA. A um throno despotico, o direito de D. Miguel é melhor. (Espectron.º 2)

O throno da rainha só póde ser sustentado pelos liberaes: a sua corôa é condicional, segundo aCARTA. A um throno despotico, o direito de D. Miguel é melhor. (Espectron.º 2)

Era o que dizia o espectro minhoto, monarchico e legitimista: o nosso direito é o verdadeiro! O vosso rei um usurpador! O nosso rei é portuguez, o vosso extrangeiro. É uma rainha filha de mãe austriaca e pae brazileiro, casada com allemão; allemães são os mestres e os medicos do paço, o Dietz e o Kessler; inglezas as amas de leite, inglez o cocheiro, franceza a modista. Só ha um portuguez, o capellão, um padre indigno, o padre Marcos!

E os frades animavam-se, contando já com a restauração dos conventos, e os cadaveres da nação morta em 34 erguiam-se dos seus tumulos para ouvir, envolviam-se nos seus lençoes, saíam, caminhavam, em procissão lenta e funebre para Braga, onde Macdonell reinava, em nome do rei esperado dia a dia, outra vez adorado nos altares, chamadoem preces fervorosas. Mas Cazal que segunda vez descera de Traz-os-Montes e em volta do Porto andara farejando a ver se achava a combinada brecha, (Azevedo,Dois dias, etc.) de novo teve de retirar desilludido. A sua crueldade vingara-se primeiro sobre as populações das aldeias serranas, agora ia vingar-se na capital miguelista do Minho que atacou. (31 de dezembro) Vencida uma batalha sangrenta, começou pelas ruas a matança desapiedada. Eram tiros, gritos de misericordia, imprecações de desespero, e um matar cruel e duro na gente amontoada pelas ruas. O sonho de uma esperança morria breve afogado em sangue, e os cadaveres com os seus lençoes tintos de vermelho tornavam pesadamente ás suas covas. Caía a tarde, escurecia a noite, pelas esquinas das ruas havia montões de mortos e poças de sangue coalhado por entre as pedras. Os que ficavam, abraçados a Deus, varrida a esperança do Rei, foram pondo nos lugares da matança nichos sagrados com cruzes lugubres, allumiadas á noite por lampadas, com a triste lenda: Resae por alma de nossos irmãos que foram mortos n’esta rua! (Azevedo,Dois dias, etc.)

Então a voz do espectro miguelista sumiu-se n’um largo pranto ...

Mas o espectro jacobino de Lisboa, mundano e sem piedade, rangera os dentes, prorompera em bramidos ao presencear a carnagem de Torres-Vedras (22 de dezembro); e a sua colera não teve limites contra a rainha a quem—oh, velhas, mentidas esperanças!—dera em Londres o sceptro de ouro e aCARTAencadernada a primôr.

A côrte dançou quando ouviu dizer que houvera muito sangue derramado. O valido e os protectores beberam á saude das victimas! A rainha deu beija-mão á sua criadagem! (Espectron.º 5) Quando a rainha soube da morte e aprisionamento dos bravos, saíu ás janellas do palacio, e como uma bacchante gritou para a sua guarda—Victoria! victoria!—No dia da chegada dos prisioneiros saíu a passeio em signal de regosijo. (Ibid.n.º 6)

A côrte dançou quando ouviu dizer que houvera muito sangue derramado. O valido e os protectores beberam á saude das victimas! A rainha deu beija-mão á sua criadagem! (Espectron.º 5) Quando a rainha soube da morte e aprisionamento dos bravos, saíu ás janellas do palacio, e como uma bacchante gritou para a sua guarda—Victoria! victoria!—No dia da chegada dos prisioneiros saíu a passeio em signal de regosijo. (Ibid.n.º 6)

E o espectro, lembrando-se da longa e dura guerra de seis annos, do exilio e dos soffrimentos padecidos para exaltar essa rainha, dizia-lhe do fundo da sua recondita imprensa:

Morremos todos por via de ti! Morrendo te acclamámos, e tu exauthoraste-nos e mandaste-nos assassinar! O nosso sangue cairá sobre ti e sobre a tua descendencia! (Ibid.n.º 6)

Morremos todos por via de ti! Morrendo te acclamámos, e tu exauthoraste-nos e mandaste-nos assassinar! O nosso sangue cairá sobre ti e sobre a tua descendencia! (Ibid.n.º 6)

Mas quem observa, não acha na voz d’este espectro a sinceridade simples, a solemnidade epica das vozes espontaneas do povo—«Resae por alma de nossos irmãos!» Aalmaque aqui gemia era composta de fórmulas doutrinarias, intrigas politicas, odios e ambições pessoaes. O setembrismo falara sempre em nome dopovo, mas esse povo era uma fórmula rethorica, mais ou menos sincera no animo da gente democratica. Mais romanticos, menos doutrinarios, mais calorosos mas menos audazes e intellectualmente menos fortes, os setembristas eram mais sympathicos e mais chimericos. Opovode que falavam apenas acordara duas vezes: uma para queimar aspapeletas da ladroeiraem maio, outra para acclamar D. Miguel, para caír, e ficar resando por alma dos martyres, em dezembro. Partidos, intrigas, pessoas, ignorava-os.

Por isso a palavra doEspectroé contradictoriacomsigo propria; por isso a lingua se lhe enrola e as phrases saem confusas, baças, desde que, cessando de injuriar a rainha, pretende affirmar as ambições da nação. «O povo respeita a rainha, respeita o throno.» (n.º 2) Que atroz ironia é esta, depois doEstado da questãoque assentou o programma doEspectro? «Para o rei ser irresponsavel é necessario que não faça o mal.» (Ibid.) Singular aberração, a idéa de um rei irresponsavel no bem, responsavel no mal! É essa a doutrinaliberal, genuina, que oppunham ao cartismo?

Taes singularidades, que pintam o desnorteamento das cabeças setembristas, poderiam multiplicar-se, se fosse necessario insistir n’um facto já conhecido e demonstrado por varios modos. A guerra tinha principalmente por alvo o throno: pois que esse throno, no meio da incompatibilidade das clientelas politicas, era forçado a optar e optava por uma d’ellas; pois que a fome e a excitação dos animos faziam da politica uma campanha; pois que, finalmente, a rainha não possuia o caracter astuto para usar das artes de um Luis Philippe, mas sim a força viril para entrar pessoalmente na lucta. Declarada a crise, o liberalismo, com effeito, tem de abdicar, e manha ou força são indispensaveis no throno para illudir ou para rasgar as teias constitucionaes. Quando voltam a paz, a indifferença e a fartura, por isso, quando não haquestões, apparecem então os verdadeiros reis constitucionaes, pela razão simples de que a sociedade prescindiria perfeitamente de chefe.

A rainha «bate o pé no paço e diz que se vencer, a maior parte dos seus inimigos hade saír do reino. E se não vencer?» (

Espectro

n.º 6) Pois nem depois de Braga e Torres-Vedras tinha vencido? Não, não tinha; porque as forças odientas das clientelas politicas exprimiam a crise constitucional do paiz. Não tinha vencido; e para vencer seria mister que viesse de fóra uma intervenção apoiar e defender, ao mesmo tempo, o throno ameaçado pela revolução armada, e os proprios chefes d’essa revolução que tinham medo da victoria e queriam ser forçados a ficar vencidos.

Clame, clame embora oEspectroque «o tratado (34) morreu, apenas se conseguiu o fim especialissimo para que se contratara; e senão, risquem dos diplomas a phrase—rainha pela graça de Deus e da constituição, e substituam: por graça dos alliados e vontade dos extrangeiros»; clame, clame embora oEspectro. Essa intervenção, pedida a principio por Lisboa assustada, é no fim egualmente necessaria para o Porto embaraçado e afflicto com a quasi victoria consummada.

Essa intervenção é egualmente indispensavel, porque depois dos morticinios de Braga e de Torres-Vedras, os setembristas vencidos deram francamente a mão ao miguelismo que, tambem esmagado n’um ponto, se levanta em varios outros de um modo já prudente e politico, reconhecendo a liberdade patuléa. Manuel Passos mantinha ainda a velha esperança de nacionalisar o liberalismo, e fazel-o equivalia a converter os sectarios de D. Miguel. Povoas que saíra a campo na Beira, dizia-se convertido; mas repetiria o dito o partido inteiro, se acaso a revolução vencesse?

Á maneira que o miguelismo fôra crescendo, antes de Torres e Braga, crescera em Madrid a vontadede intervir, pois, além das instancias do conde de Thomar que os hespanhoes queriam para seu descanso vêr restaurado ao governo em Lisboa, (Livro azul, Southern a Palm. 28 de nov.) havia um medo positivo das faladas combinações entre o miguelismo e o carlismo do conde de Montemolim. (Bulwer a Palm. Madrid, 13 dez.) Assim, no meiado de dezembro, a Hespanha soffreada pela Inglaterra e reduzida a observar a fronteira com o seu exercito e a abastecer e auxiliar o de Cazal em Traz-os-Montes, (Southern a Palm. 28 nov.) declara terminantemente que intervirá, com ou sem o auxilio das potencias, se o miguelismo continuar a crescer. (Bulwer a Palm. Madrid, 13 dez.) A França falava pela bocca da nação nossa visinha; e perante o miguelismo, aberta, publicamente alliado aos setembristas depois de Torres, a Inglaterra teve de ceder. O embaixador em Madrid apenas conseguira que previamente o avisassem antes de os exercitos se pôrem em marcha. (Ibid.) No fim do anno de 46 a intervenção, pedida no ultimo trimestre, já parece o caso decidido que veiu a ser no meiado de 47.

O pobreEspectro, estonteado, inconsequente, enrouquece para proferir palavras de paz. Tambem elle teme a victoria dos seus: «Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e ahi pratique acções de cannibaes? O paço dos nossos reis é um foco de corrupção politica, mas não o é de corrupção moral. Não ha rainha mais virtuosa como esposa, nem como mãe de familias». (n. 27) OEspectro, cabisbaixo, com a voz que fôra eloquente, parece pedir perdão do clamor que levantára outr’ora, exigindo a abdicação d’essa propria rainha e a limpeza dacaverna de Caco. Porque é uma tal mudança? Foi o inglez (Seymour) que veiu (fevereiro) a vêr se conseguia compôr ospartidos em armas, a vêr se evitava ainda a acção da Hespanha; e oEspectro, e a gente que escolhera para seu orgão a voz de uma sombra, na esperança do poder, moderavam a furia, mudavam o rumo. Mas como rainha e governo se recusaram a pactuar com a revolta (abril), a voz doEspectrovoltou a vilipendiar aquella que tres mezes antes era o modelo das virtudes:

A côrte pela sua parte, toda sybarita, toda gastronomica, entra ainda na lucta com intenção doble. Se vence, o systema absoluto triumpha; se succumbe, acceita as condições e entrega os cadaveres dos seus amigos em holocausto á nacionalidade offendida, á moral publica ultrajada ...

A côrte pela sua parte, toda sybarita, toda gastronomica, entra ainda na lucta com intenção doble. Se vence, o systema absoluto triumpha; se succumbe, acceita as condições e entrega os cadaveres dos seus amigos em holocausto á nacionalidade offendida, á moral publica ultrajada ...

E quando, afinal, a Inglaterra teve de annuir cabalmente ás exigencias da França-Hespanha, consequindo apenas tomar tambem parte na intervenção; quando as forças extrangeiras chegaram, para que os chefes da revolta, não sabendo que fazer d’ella, se lhe entregassem, fingindo obedecer á força, oEspectro, voltando a achar a eloquencia dos primeiros dias, dizia nos ultimos:

A côrte, o ministerio, o rei, tudo isso desappareceu. Não caíram ás nossa mãos, que nol-as ataram; mas sumiram-se na voragem de um protocollo. Isso que ahi se chama rei é um espantalho, os ministros são os lacaios de lord Palmerston. Foi a rainha, foram os Cabraes, quem nos vendeu, quem nos trahiu ... (n. 63. julho, 3)

A côrte, o ministerio, o rei, tudo isso desappareceu. Não caíram ás nossa mãos, que nol-as ataram; mas sumiram-se na voragem de um protocollo. Isso que ahi se chama rei é um espantalho, os ministros são os lacaios de lord Palmerston. Foi a rainha, foram os Cabraes, quem nos vendeu, quem nos trahiu ... (n. 63. julho, 3)

Não seria acaso tambem o conde das Antas, indo metter-se com toda a sua gente na bocca do lobo inglez que viam aberta á barra do Douro? Não seria tambem Sá-da-Bandeira, por não querer passar de Setubal a Lisboa? Não seriam tambem os chefes da revolução armada, politicos, generaes,cortezãos em vez de tribunos, com medo da demagogia que passaria por sobre elles, se acaso consummassem a victoria? A intervenção servir-lhes-hia, se a Inglaterra a fizesse a favor do seu partido: como a fez a favor do inimigo, a intervenção era um crime.

Quanto esteespectroé com effeito a imagem sumida da viva personalidade do tribuno Passos em Belem! Dez annos bastaram para mumificar a democracia; n’esses dez annos, os seus chefes tinham fechado oArsenal, dissolvido os batalhões, entregando-se nos braços daordem. Dez annos (32-42) tinham bastado tambem para que o desenvolvimento necessario das premissas postas na legislação liberal apparecesse: aliberdadeera um absolutismo da nova aristocracia dos ricos nascida da concorrencia; e em vez de Mousinho, um Bentham, apparecia imperando um homem duro e pratico, o conde de Thomar, imagem ossea de um systema já consolidado.

Democratas, liberaes, eram agora todos, as sombras dos que tinham sido. A miseria crua do paiz reduzia-os á condição de seres famintos, amesquinhando-lhes os caracteres, baixando-lhes a estatura, avolumando só a podridão natural das covas. Que o extrangeiro viesse a este cemiterio afastado, mandar a cada espectro para a sua tumba, acabar a funebre revolta de cadaveres, não admirava ninguem, porque aliberdadetrouxera-a elle. Estava obrigando a manter osystema. Mas, dez annos havia, o extrangeiro encontrara cá um povo singular, extravagante, um dos sete dormentes da Europa, inaccessivel ás idéas novas, mas vivo, abraçado de joelhos ao throno-altar. Agora, voltando, o extrangeiro só via tambem o espectro d’esse povo antigo: sombras errantes falando uma linguagem archaicatremida nos labios brancos de frades rotos e senectos; cordões de mulheres luctuosas ajoelhadas perante os nichos allumiados, resando «por alma dos nossos irmãos que foram mortos n’esta rua!»

Uns dos mortos voltavam para sempre aos eternos jazigos; outros fugiam do velho cemiterio das doutrinas, deitavam fóra o lençol da liberdade, e a correr batendo os ossos, vestiam as fardasregeneradoraslantejouladas, e, mirando-se em trajos de vivos, ficavam crendo ter resuscitado.[32]

Encetaremos a narrativa dos casos d’esta segunda e ultima epocha da guerra dizendo o que sabemos das relações entre setembristas e miguelistas armados, depois do desbarato de Macdonell em Braga. Fôra a 28 de novembro que o caudilho, levantando abertamente a bandeira da restauraçãode D. Miguel, entrara na cidade catholica, primaz das Hespanhas. Com o escocez andavam as guerrilhas do padre Casimiro e do padre Manuel Agra contando ao todo de dois a tres mil homens, dominando no Minho e em parte de Traz-os-Montes, como dissemos. Não lhes faltava dinheiro: davam cinco moedas a cada cavalleiro e uma a cada infante armado, que se apresentassem, pagando o elevado soldo de 240 réis á cavallaria, de 160 réis á infanteria. Cazal dispersou e anniquillou, segundo contámos, esse fóco miguelista de Braga, quasi ao mesmo tempo que Saldanha derrotava em Torres os setembristas; e a crueldade do general no Minho não foi menor, antes excedeu a do governo de Lisboa. Cento e quarenta pessoas foram trucidadas em Braga pelo vencedor que não perdoou aos prisioneiros. (Livro azul, Southern a Palm., 5 de jan.)

Macdonell conseguira fugir, apenas acompanhado pelo seu estudo-maior, pondo-se a caminho de Traz-os-Montes, onde um piquete de cavallaria da divisão de Vinhaes, acossando-o, o prendeu e matou nos ultimos dias de janeiro. (Azevedo,Dois dias, etc.)

Da morte de Macdonell, com o qual acabava a sedição francamente restauradora de D. Miguel, começa uma historia nova com o anno de 47. A crueldade de Cazal em Braga, a morte do cabecilha, foram o rebate para um levantamento geral, mas menos atrevido, do miguelismo. O padre Casimiro esperava o apparecimento de guerrilhas carlista do outro lado da fronteira, para organisar as d’este; mas, ao mesmo tempo, os antigos generaes Povoas e Guedes eram enviados ao Porto para tratarem com aJUNTAas bases de uma alliança. Diversas foram as versões correntes. Uns falavam da simultanea abdicação de D. Miguel e D. MariaIIo tio e a sobrinha, noivos de outro tempo, acclamando-seD. Pedro V com o governo representativo, mas gabinete miguelista. (Livro azul, Southern a Palm., 5 de jan.) Outros diziam que aJUNTAse disposera a acclamar D. Miguel em pessoa, e que para tanto já Manuel Passos partira para Londres, o que era falso. (Azevedo,Dois dias, etc.)

Era comtudo verdade a fuga de D. Miguel, de Roma, e de crer que projectasse vir a Portugal. (Thomar a Bulwer, Madrid, 29 de dez.) Esta noticia enthusiasmava muita gente no Porto, embora os planos em que se falava provocassem descontentamento em alguns corpos. Esses planos dizia-se consistirem na entrada de dois generaes miguelistas naJUNTA, no subsidio de 5:000 homens, na acclamação de D. Miguel rei constitucional, na successão da corôa á casa Cadaval. (Livro azul, cartas do consul Johnston, 1, 7, e 11 de janeiro) Quaesquer, porém, que tivessem sido as verdades traduzidas por esta serie de boatos, o facto é que, no meiado de janeiro, a situação definia-se claramente. Punham-se de parte as combinações, sem se chegar a convenio de especie alguma. AJUNTAacceitava o auxilio incondicional dos miguelistas, deixando-lhes os logares e patentes, caso annuissem ás decisões que ella tomasse depois de vencedora. (Ibid.Southern a Palm. 30 de jan.) Era acoalisãoem armas. E Povoas saíu logo a campo, da sua casa da Beira, proclamando a religião catholica apostolica romana, a nação portugueza e o seu heroico pronunciamento; (V. proclam. de 17 de jan.) deixando, como se vê, em aberto todas as questões politicas e dynasticas. Acaso á sombra do equivoco se vencesse o que não vencera a denodada affirmação.

Nem D. Miguel, nem uma parte grave do seu partido no reino, parece que approvavam este proceder dubio epolitico. A tradição custa a morrer, e a tradição legitimista era pela nitidez das affirmações.D. Miguel escapara com effeito de Roma disfarçado em crendo de um capitão Bennett, e a policia ingleza sabia do seu esconderijo de Londres; sabia que pensava partir para Portugal, pôr-se ao lado de Macdonell no Minho. (Ibid.Palm. a Bulwer em Madrid; 16 de fev.) É desde então que o ministro inglez principia a acreditar no miguelismo. Elle espera comtudo que a derrota de Macdonell, noticia que acabava de chegar, faria mudar de tenção o pretendente; (Ibid.) e com effeito assim foi, o que leva a crêr que o principe não approvasse a politica da coalisão, já anteriormente condemnada nas circulares de Saraiva.

Coalisado com aJUNTA, o miguelismo perde a individualidade politica, sem por isso deixar de ser um risco; porque se aJUNTAchegasse a vencer, teria de começar a debater-se com os seus alliados: os miguelistas á direita, os demagogos á esquerda; uns accordando em pedir D. Miguel, outros D. PedroV: ambos a queda da rainha, ambos uma revolução que levaria Portugal, ou á restauração do absolutismo, ou á implantação de uma republica. Qualquer das hypotheses era antipathica á Inglaterra, que desde então reconheceu a necessidade de intervir. Mas essa intervenção desejava ella que fosse um pacto, um accordo entre os partidos constitucionaes belligerantes, e não viesse alargar a Portugal a influencia da França doutrinaria, já exclusiva em Hespanha, defendendo a todo o transe o partido cartista e a clientella dos Cabraes.

Depois de Torres-Vedras, o conde das Antas evacuou Santarem. A 27 estava em Alcobaça,retirando sobre Coimbra. Saldanha perseguia-o, (Livro azul, Wylde a Palm. 29 dez.) sem força para o bater. O resultado da victoria era nenhum, porque, passada a primeira impressão, a revolta, generalisada a todo o reino, em vez de amansar, crescia.

Foi então que Povoas desceu da serra da Estrella, a vêr se podia obrigar o general de Lisboa a não chegar ao Porto. Saldanha parou no Sardão, e Antas entrava na cidade daJUNTApreparando a defeza (Azevedo,Dois dias, etc.) Ia repetir-se um cerco? Ia outra vez haver o que houvera em 32-3? Haveria, se agora, como então, os do Porto podessem obter de fóra soldados, munições, dinheiro. Torres-Vedras limpara de inimigos o centro do reino; mas, emquanto o Porto se mantinha firme, e, no Minho disputado, Cazal e Antas jogavam o xadrez, no sul do Tejo succedia proximamente o mesmo entre Schwalbach e o conde de Mello que em vão atacava Estremoz (27 de fevereiro) sendo obrigado a retirar sobre Marvão, (Ibid.) esperando. Saldanha, entretanto, avançava até Oliveira-de-Azemeis; e Antas, abandonando o Minho, recolhia ao Porto, friamente recebido pelos junteiros que o accusavam de nada ter feito. (Ibid.) E Saldanha que fazia? Nada tambem, porque lhe faltava tudo. Pedia para Lisboa armas e dinheiro, mas o governo não os tinha para lh’os dar. «Se isto continua, o caso póde ser grave». Já o povo de Braga arrazara a casa onde Cazal dormira, e aJUNTAfôra acclamada logo que o vencedor voltara costas, e os ex-frades e fidalgos preparavam uma insurreição medonha. O caso póde ser grave ... (Livro azul, Wylde a Palm. 18 de jan.)

O mez de janeiro consumiu-o aJUNTApreparando-se para o cerco, lançando contribuições sobre os bancos, trabalhando activamente na defeza. A 26 estava acabado o primeiro circulo de barricadas emuito adiantado o segundo; mas as deserções continuavam: dez ou doze homens por dia. (Livro azul,Cartas do consul, 1, 7, 11, 26 de jan.) E ao mesmo tempo que Antas perdia o tempo no Minho, Cazal recebia pela fronteira da Galliza centenas de recrutas hespanhoes e material de guerra. (Ibid.Carta de Vigo, 24) Sem poder intervir directamente, a Hespanha fazia agora aos cartistas o que em 26-7 fizera aos apostolicos. Em Vigo fundeavam duas fragatas, armadas, apparelhadas, promptas a saír para o Douro á primeira ordem. (Ibid.) AJUNTAainda se mantinha duvidosamente fiel á rainha, mas ameaçava desthronal-a, se Saldanha avançasse do Sardão, e o ministerio teimasse em não caír. Os meios não faltavam no Porto, mas já se sentia no Minho uma carestia insupportavel: o milho regulava a 520 o alqueire. (Ibid.Cartas do consul, 21 jan. 17 fever.) Saldanha, avançando até Azemeis, obrigara Antas a recolher ao Porto: que ia haver? Um cerco? Naturalmente.

Resolveu-se, pois, repetir a historia anterior; e para abreviar os episodios, começar desde logo pela expedição do Algarve confiada a Sá—o Terceira de agora. A divisão, forte de mil homens, embarcou (28 de março) indo tomar terra em Lagos, atravessando livremente o Alemtejo, de correrias celebre, vindo entrar em Setubal onde se reuniu ás forças do conde de Mello, inactivas desde fevereiro. Mas para cobrir a capital, já o governo destacara Vinhaes para o sul, fortificando-se nas collinas de Azeitão que, prolongando a serra d’Arrabida, dividem as duas bacias do Tejo e do Sado. No Vizo, comoro das vertentes austraes, ás portas de Setubal, feriu-se uma batalha (1 de maio) cujo vencedor se duvidou quem fosse. Se a vantagem ficou por alguem, não foi pelo governo; mas já a esse tempo os inglezes protegiam a rainha, como vamos vêr,impedindo o general rebelde de proseguir. Desejava, pedia elle outra cousa? Quereria entrar em Lisboa vencedor, para ter de se voltar, nas suas ruas, contra os que commandava? para defender o throno, como em 38? Não, decerto. A ponto de vencer, via-se perdido; e protestando, exultava por achar os inglezes a vedar-lhe o passo, obrigando-o a render-se.

No Porto succedia o mesmo ao conde das Antas. Felizmente os inglezes tinham bloqueado a barra (27 de maio): estava chegado o momento de saír da posição falsa em que se collocara. Nem a rainha nem o ministerio cediam, e para os chefes a revolta não tinha mais valor do que uma ameaça. Jogando com fogo democrata, miguelista, temiam a labareda que tinham soprado. Quem viria apagal-a, sem os expôr ao labéo de traição ou cobardia? Pois não chegava a tempo a intervenção, tão necessaria a Lisboa como ao Porto, ao governo como áJUNTA? Abençoada esquadra ingleza! providencial bloqueio do Douro!

Porque, se não fossem ambos, era forçoso vencer. No dia 20 tinham chegado os vapores de Setubal para conduzir segunda expedição á ultima campanha. Os quatro a cinco mil homens das excellentes tropas do conde das Antas deviam desembarcar na Extremadura, cortando a Saldanha a retirada de Lisboa, ao mesmo tempo que Povoas o acossaria do lado das Beiras. (Azevedo,Dois dias, etc.) Esse plano de campanha parecia feito a proposito para terminar tudo conforme convinha. Tres dias havia que os inglezes bloqueavam a barra, e sabia-se isso muito bem no Porto,—como se ignoraria?—quando a 30 o conde das Antas embarcou a sua divisão e a sua pessoa. Ás seis da manhan do dia seguinte, os vapores saíam a barra ... paraentrar no seio salvador da esquadra ingleza. Prisioneiros, protestando em boas e graves phrases, viam-se salvos. Os inglezes foram deixal-os em S. Julião, na barra de Lisboa, presospro-fórma, já amnistiados por uma convenção.

Ao mesmo tempo uma divisão hespanhola transpunha a raia do Minho e Traz-os-Montes, e Saldanha avançava de Oliveira de Azemeis sobre o Porto. Que restava da revolta? AJUNTAainda, em agonias.

Mas nada sabemos da capital, n’esse primeiro e funebre semestre de 47. Vimos o que a gente armada fez, mas ignoramos o que o gabinete fazia, e que sorte a guerra dava á miseranda população de Lisboa.

Desde o principio do anno que as cadeias estavam cheias de setembristas e miguelistas; desde então as emigrações ferviam. (Livro azul, Southern a Palm. 10 de jan.) O governo communicára ás potencias a decisão de bloquear o Douro, mas isso não passava de uma fórmula, porque a marinha portugueza acabara de todo, e os poucos vapores que havia tinham caído em poder dos rebeldes, senhores do mar. Mas o mais triste, o mais grave, era o caso das notas do banco, infernal papelada que, engordando os rebatedores, levava a miseria a toda a parte. Cada moeda já tinha o desconto de mais de tres pintos; e apesar das ameaças só recebia notas quem não podia evital-as. Papeis, inscripções, não tinham compradores. As acções do banco tinham baixado de 385 a 300 mil réis: só os homens daConfiança, a quem o decreto de 19 de novembro salvara, viam subir as acções de 15 a 22, á custa do povo arruinado com o sacrificio da emissão do banco.

O visconde de Algés, no Thesouro, achava-se perdido, porque de fóra não vinha dinheiro, e em casa não o havia antes—quanto mais agora, no calor da sedição. Se nem para Saldanha chegava! Em Madrid estava embaixador o conde de Thomar e para elle se voltavam os olhos, se dirigiam as supplicas e pedidos de conselhos. Não seria possivel arranjar em Madrid um emprestimo? Em Lisboa preparar-se hia tudo: custava pouco. Supprimiam-se as decimas das inscripções, externas, internas; (Dec. de 29 jan. e 25 fever. revogando o de 21 de agosto) e para pagar o coupon do 2.º semestre de 46, em divida, creavam-sebonds(600:000 lib.) garantidos pelo rendimento das alfandegas. Quanto ás notas, revogavam-se as penas, e o Estado reconhecia-as como suas: um verdadeiro papel-moeda. Não temesse o povo: iam-secarimbare em breve chegaria ouro bastante para as queimar todas! (Decr.1 de fever. art. doDiario)

Com effeito, o conde de Thomar em Madrid conseguira alguma cousa. Os banqueiros propunham-se dar tres milhões esterlinos a 43 com a commissão de dois e meio. Um ovo por um real. Mas ... davam no primeiro anno só um milhão, o resto depois. Um milhão seja: tudo o que vier ... Mas «queremos tres annos de juros adiantados».—O governo, desanimado, caíu em si. Um pouco mais, e os banqueiros, cobrando adiantados os juros, não dariam nada, ficando credores de muito. O que promettiam emprestar vinha a saír a 25,5 por cento. (Southern a Palm. noLivro azul, 31 jan.)

O governo não teve coragem para tanto: o ministro sumiu-se, deixando o lugar a Tojal. (20 de fever.) E o rebate das notas a crescer, e gemendo todos com fome, e a bordo doAudazcobertos de feridas os infelizes prisioneiros de Torres, á espera do degredo!E uma rebeldia surda a sussurrar por todos os cantos!.. No governo-civil o marquez de Fronteira, com seu irmão D. Carlos Mascarenhas á frente da guarda municipal, mantinham difficilmente uma ordem similhante á de Varsovia. Lisboa parecia um acampamento; tudo estava armado em batalhões de côres e feitios diversos: voluntarios, fusileiros, caçadores da rainha, caçadores daCARTA. Havia exercicios constantes, e paradas, e revistas, e o commandante em chefe, D. Fernando, que não nascera para emprezas bellicosas, via-se forçado a arrastar a sua indolencia, correndo os quarteis, vivendo n’um estado penoso de agitação por cousas que, bem no fundo, lhe eram, ou antipathicas, ou indifferentes. E por entre esta borborinhar de tropas mais ou menos grutescas, pullulavam os turbulentos, os homens de má-nota, emprezarios debernardas. Aos empregados não se pagava desde outubro, em Lisboa que é uma cidade-secretaria. (V.Livro-azul, Southern a Palm. 15 fever.) A desordem, a excitação, a fome, traziam á flôr do charco social os detritos humanos das cidades; e como nem na revolução, nem na reacção, havia profundos motivos moraes, o caracter da crise, em vez de ser tragico, era grutesco; e Lisboa que já fôra em 28 uma Jerusalem, era em 46 como Byzancio cercada por um turco—setembrista.

Vendo chegar Tojal, o commercio bateu palmas. (Ibid.26 fever.) O homem valia e trazia comsigo boticadas novas: «absurdo esperar dinheiro de fóra, quando a exportação, sempre inferior á importação, era agora, com a guerra, nulla; o ouro fugia para pagar o que compravamos fóra; a guerra engulia o resto, e não lhe chegava; a desconfiança aferrolhava as economias; havia juros em divida, e o Thesouro vazio, e o curso-forçado das notas expulsavao ouro do mercado. Uma chimera o emprestimo! Arranjassemo-nos com a prata de casa.» (V.Diario, art. fever.) Mas que prata? se havia apenas cobre e falso! A prata eram notas, notas infames com o rebate de metade! (2:250, abril) Moderar o curso-forçado, fazendo entrar só por metade as notas nos pagamentos; dar curso legal ás moedas americanas e hespanholas de ouro e prata; elevar a 50 contos por mez a amortisação das notas; crear um emprestimointernode 2:400 contos para abreviar a supressão das notas—eis ahi orecipede Tojal. (V.Dec.10 março) O doente vomitou-o, ou não o quiz tomar: o medicamentointernonão valia mais do que oexterno. Farejaram-se os armarios e veiu de lá o Dulcamara com drogas antigas, da velha alchymia: o emprestimo seria uma loteria, com premios depapel, e bilhetes pagos a notas. (Decr.9 de abril) A fazenda receberia em notas tudo o que lhe deviam fóra de Lisboa: isto é, onde o inimigo cobrava os debitos. (Decr.6 de abril) Os titulos do emprestimomansode 27 seriam convertidos em inscripções sob condição de pagamento de um quarto nominal em notas. (Decr.23 de abril) E por fim os papeis andavam tão de rastos, tão rebatidos, que se reduziu a proporção d’elles a um terço nos pagamentos. (Decr.15 de junho)

Positiva fome lavrava em Lisboa no segundo trimestre do anno funebre de 47. Para lhe accudir distribuiam-se diariamente 2:500 pães. (V. as listas e contas noDiario) E o vasio dos estomagos, e exaltação das cabeças, o desespero do governo ameaçado, batido por toda a parte, fazem d’essa epocha um melodrama, lugubre nos soffrimentos do povo, na morte dos soldados, entremeiado de fomes e cadaveres, de intrigas e miserias, de sangue e lodo: farrapos de pobreza universal, pobreza de genio ede caracter, pobreza de dinheiro e de força. Era verdadeiramente uma lucta de espectros.

Como sombras se tinham visto dissipar-se muitas forças do governo. A columna que em Alcacer defendia Lisboa da patuléa do Alemtejo, fôra uma noite aprisionada inteira. A tripulação doPorto, vapor mandado a Vigo e a Vianna em serviço, prendeu em viagem os officiaes na camara e levou o barco ao Porto, a entregar-se áJUNTA. (Wylde a Palm., 18, 27 fevereiro, noLivro azul) O mez de março declinava, approximava-se o abril terrivel. Em Lisboa havia constantes rusgas para arregimentarvoluntarios, e Saldanha, immovel por impotente, avisava do seu quartel general que resignaria a presidencia do conselho se não viessem soldados de Hespanha, ou um accordo com o inimigo. O gabinete resolveu então decididamente implorar o soccorro ao reino visinho, que ardia por que lh’o pedissem, mordendo impaciente o freio posto pela Inglaterra. (Ibid.Seymour a Palm. 14, 18 de março)

No principio de fevereiro a historia diplomatica da guerra chegára a um momento decisivo, com o facto da alliança das forças miguelistas ás daJUNTA, depois de Torres-Vedras. Costa Cabral, nosso ministro em Madrid, conhecedor das resistencias da Inglaterra, declarara a Bulwer Litton que se as forças miguelistas engrossassem, elle pediria soccorros á Hespanha, invocando o tratado de 34 ou da quadrupla alliança; (Ibid.30 de janeiro) e o inglez, ao mesmo tempo que protestava contra, escrevia-o para Londres contando os fundamentos das insistencias do portuguez: que a alliança miguelista-setembrista era um facto, um artificio o não se proclamarD. Miguel, positivo ocasus fœderis; que o irmão de Sá-da-Bandeira (Antonio Cabral) fôra a Londres comprar munições, e Passos Manuel a Roma buscar D. Miguel (segundo falsamente corria e convinha ao governo de Lisboa fazer crer). A Hespanha terminava, decidida a intervir, não o fará comtudo sem accordo comnosco. (Ibid.Bulwer a Palm 5 de fev.)

O leitor sabe que Palmerston enviára especialmente um legado militar, o coronel Wylde, para obter a paz entre os belligerantes, para «servir de medianeiro entre aJUNTAe o duque de Saldanha.» Restabelecer-se-hia a constituição de 38, convocar-se-hiam côrtes, expulsar-se-hiam os cabralistas do governo. (Palm. a Wilde, 5 de fev.) Não seria bem a victoria daJUNTA, mas sim a do grupoordeiro, vencido em 42. E quando leu os fundamentos da nota do conde de Thomar a Bulwer, o inglez pegou da penna e mandou dizer a Wylde que o tratado de 34 acabara, que fôra especial e não permanente, que não só não havia motivo para intervir, mas ainda quando houvesse, não se podia invocar um tratado acabado. (Palm. a Bulwer, 11 de fev.)

Wylde nada conseguira daJUNTA, nem tambem do governo. Via-se impossivel a transacção, e, impedida pela Inglaterra a intervenção da Hespanha, qual seria a sorte de Portugal? Ficaria abandonado ao resultado de uma revolta, de que os generaes temiam os soldados? Venceria o governo? Venceria aJUNTA, e com ella passariam por sobre as cabeças dos chefes, as columnas dos demagogos? e as legiões dos miguelistas? Em março, como o leitor observou, parecia provavel a victoria final da revolta. E em taes apuros, Saldanha, vendo que a Inglaterra teimava em não deixar a Hespanha intervir, pediu licença ao governo visinho para alistar tres mil homens. (Livro azul, Seymour a Palm. 19-21 de março)A Hespanha recusa, «mas se isto durar annuirá». (Bulwer a Palm. 24) Com effeito, o aperto era tão grande que o ministro francez foi ás Necessidades offerecer a sua protecção á rainha. (Seymour a Palm. 20)

Perante uma situação assim, Palmerston começou a hesitar. Com o seu empenho de bater em Portugal o cabralismo que era o alliado do doutrinarismo hespanhol, e ambos a copia do ministerio Guizot, ambos a expressão da influencia franceza na Peninsula: com esse empenho, não iria elle, acaso, servir a demagogia ou o absolutismo? Desde fevereiro, a Hespanha e a França estavam de accordo em considerar vigente o tratado de 34, (Bulwer a Palm. 23 de fevereiro, Madrid) que elle Palmerston insistia em declarar abolido. Não seria um erro, uma temeridade? Com effeito, a linguagem da Inglaterra muda. «Nem a lettra, nem o espirito do tratado de 34 são applicaveis a Portugalagora». Reconhece pois a existencia do tratado, e já chega a admittir a hypothese da intervenção, mas insistindo pelas condições anteriores: amnistia geral e plena, restabelecimento das leis constitucionaes, ministerio nem cabralista nem setembrista (ministerio Rodrigo,ordeiro) expulsão do Dietz—instituição portugueza, oh miseria! Assim que o governo annuir, parta Wylde para o Porto a convencer aJUNTA. (Palm. a Wylde, 5 de abril)

Ora o governo não annuiu, e a crise precipitava-se. Tojal desesperava-se, porque os seus amigos Barings de Londres recusavam as trezentas mil libras com que se havia de pagar o dividendo externo: os temerarios não sabiam que a victoria da revolução seria um traço,riscandoa divida extrangeira! Saldanha, irritado, oppunha-se á amnistia. (Seymour a Palm. 26 de março) Havia em Lisboa uma grande miseria, uma carestia excessiva de tudo, umdoloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e as notas fluctuando como os trapos de neve caíndo, cobrindo tudo, nos dias mornos que precedem o desencadear da tormenta.

A procella descia pelo Alemtejo com a divisão de Sá-da-Bandeira que a 9 de abril se juntava em Setubal ás tropas do conde do Mello, do Galamba, a todas as guerrilhas do sul, para virem, reunidos, conquistar Lisboa. Em Setubal, o Logar-tenente daJUNTA(assim se intitulava Sá-da-Bandeira) formava uma especie de governo: Braamcamp era o secretario civil, Mendes Leite tinha a Marinha, José Estevão dizia-se Quartel-mestre general. (Elog. hist. de Braamcamp, do a.) Em Lisboa os ministros, attonitos, correram a Seymour implorando soccorro; e elle de accordo com o ministro hespanhol que tinha no Tejo tres centenas de homens, prometteu defender a rainha n’esse dia 11, aprazado para a chegada da patuléa a Almada. (Seymour a Palm. 9 de abril) A força das cousas transtornava os planos da Inglaterra; o setembrismo vencia mais uma vez aordeme as suas combinações; e as potencias viam-se obrigadas a fazer uma nova belemzada.

E Sá-da-Bandeira porque não chegava no dia 11 aprazado? Porque elle, o infeliz homem de bem, achava-se outra vez na triste situação de 37, á frente de uma revolução para a moderar. Porque via perdido todo o seu improbo trabalho de 38. Porque media as consequencias da sua entrada em Lisboa. Porque não queria, elle o monarchico leal, o sincero amigo do povo, ser o instrumento da anarchia destruidora do throno, o orgão daplebe acclamada. Porque, finalmente, sabia os planos combinados para lhe facultar a entrada na capital,—planos tristes, deploraveis. Haveria tumultos de noite, lançar-se-hia fogo a diversas casas e arrombar-se-hiam as cadeias, soltando-se os presos. As prevenções estavam, porém, tomadas: quando o castello desse tres tiros, as tropas inglezas e hespanholas desembarcariam. Não tiveram de o fazer, porque os sediciosos temeram. Apenas no Terreiro-do-Paço brigaram soldados com officiaes, indo sessenta presos para o Bugio e um cadaver para a cova.

Almada estava já fortificada e D. Fernando, generalissimo, arrastava melancolicamente a sua espada de Lisboa para a Outra-banda, aborrecido, descontente do seu emprego de rei em uma nação tão pouco ajuizada, tão mesquinha e miseravel. Dias depois houve um tumulto em Cintra, mas já Vinhaes ao sul do rio guardava a capital; e se não fosse batido, o perigo immediato estaria conjurado, a não ser o perigo constante do espirito sedicioso de Lisboa. Contra a cidade, contra o caso da victoria de Sá-da-Bandeira, para o salvar a elle e á rainha, havia porém sempre o ultimo recurso: as forças anglo-hespanholas fundeadas no Tejo. (Seymour a Palm. 14-16 de abril)

Mas, no acume da crise, abandonava-se o plano dos soccorros hespanhoes? socegava o conde de Thomar em Madrid, esquecendo os delegados que tinha em Lisboa? Não. Insistia cada vez mais, patenteava o horror das consequencias, e obtinha por fim a ordem de marcha de um exercito de doze mil homens para a fronteira, prompto a transpol-a para embargar a marcha da patuléa sobre Lisboa. E que fazia o delegado de Palmerston? Desde que a Inglaterra reconhecera a existencia dotratado de 34 e o principio da intervenção—embora não reconhecesse a opportunidade—a força das cousas obrigava-a a seguir a Hespanha, só lhe consentia moderar-lhe os impetos. Foi isso o que fez. Bulwer em Madrid conseguiu que a Hespanha enviasse um emissario a Sá-da-Bandeira com umultimatum, e que se esperasse o resultado d’essa tentativa para proceder ou não á intervenção armada. Com o marquez de Hespanha, enviado, veiu da embaixada ingleza Fitch por parte do seu governo com instrucções de que «folgaria que a sua linguagem fosse mais para aconselhar do que para ameaçar: porém até a ameaça póde ser empregada com delicadeza». (Bulwer a Palm. 19)

Entretanto, o embaixador inglez de Lisboa procurava fazer acceitar as bases de conciliação propostas por Palmerston, mas batia em vão na teima do governo. (Seymour a Palm. 16) Corajosamente, o cabralismo debatia-se contra a guerra civil, contra a protecção falsa dos inglezes, promptos a defender a rainha, sob condição de condemnar o systema e os seus defensores. Restava porém a estes a Hespanha—e a rainha em pessoa que não queria ser defendida, sendo ao mesmo tempo humilhada; restava-lhes a capacidade do chefe, a cohesão dos partidarios, a timidez de inimigos temerosos de vencer, e o panico de uma perspectiva de restauração miguelista ou de desordens setembristas.

No dia 29 Lisboa presenceou um ensaio d’essas scenas previstas: era o plano forjado para 11 e que fôra adiado. Ao caír da tarde, pelas cinco e meia abriram-se as portas do Limoeiro e os presos saíram em columna, com populares, direitos ao castello,para o tomarem. Eram seis centos, e vendo-se recebidos a tiro, fugíram. Repellidos do castello, bandidos, vadios e politicos, espalharam-se em grupos por toda a cidade. Houve durante uma hora combates nas ruas. As casas fechavam-se, os habitantes recolhiam-se; fortes patrulhas circulavam e D. Fernando, arrastando a sua espada, era apupado. A bordo dos seus navios, o almirante Parker tinha já as guarnições formadas, promptas a desembarcar. Viera a noite, a fusilaria continuava, não já em combates, mas na caça dos presos fugidos, dos quaes trezentos (sobre um total de 1:014) conseguiram evadir-se para os arrabaldes, sumindo-se. E d’este bello ensaio de revoluçãodemocraticaficavam mortas oitenta pessoas, diz para Londres o ministro inglez; oito ou dez, accusa oEspectro.

Qual acerta? Pouco importa. O grave é que Sá-da-Bandeira de certo não podia querer vencer, para ser vencido pelos bandidos ou por quem os soltava. Por isso, embora jámais o confessasse, é mais do que seguro acreditar que a chegada dos emissarios da Hespanha e da Inglaterra lhe tirou um grande peso de cima do coração. Perdeu 500 homens na acção do alto do Vizo, o general setembrista; mas ovetoque os emissarios pozeram á sua marcha valia para elle muito mais. Já entre Fitch, o marquez de Hespanha e o governo de Lisboa (que mudara de pessoal, sem mudar de politica) se assignara o protocollo de 28 de abril, estatuindo a amnistia como condição de paz e impondo um armisticio.

A campainha diplomatica do conde de Thomar em Madrid conseguia uma victoria, porque, embora cedesse a amnistia, ganhava o essencial, que era aCARTA, obrigando a Inglaterra a desistir dassuas pretensõesordeiras. O doutrinarismo vencia, depois de intricadas complicações; e o partido de 38, com o seu chefe Rodrigo, via perdidas as esperanças de herdar o governo, batendo com a Inglaterra cartistas e setembristas, Lisboa e Porto, a corôa e aJUNTA.

Esta, porém, onde os elementos democraticos dominavam, recusou-se a aceitar as condições do convenio; disposta a ceder, sim, mas sem mentir ás patentes que distribuira a miguelistas e patuléas, ás medidas fiscaes que tomara. O seu exercito estava de pé, não fôra batido: mas quereria o outro general, Antas, leval-o á guerra? Era isso o que as cabeças exaltadas reclamavam—uma loucura. Ainda antes de ter chegado a acta do protocollo finalmente assignado em Londres (21 de maio) para a intervenção combinada das potencias signatarias do tratado de 34, já em Lisboa Seymour e Ayllon, de mãos dadas, tinham resolvido mandar para o Porto navios, afim de impedir um derramamento inutil de sangue.

Porém os navios anglo-hespanhoes não impediam o general do Porto de levar a expedição por terra, se acaso elle tambem não desejasse sobretudo vêr terminada a arriscada empreza em que se mettera. Por isso embarcou para ser aprisionado, conforme contámos. De que valiam, depois, as reclamações e os protestos, senão para mascarar a quéda com uma certa dignidade apparente, e manter no animo dos ingenuos a idéa de que se obedecera á fatalidade da força? senão para conservar de pé a accusação de extrangeira, contra uma côrte que, vencida em Belem, realisava agora o seu plano,escravisando o povocom as forças inglezas e hespanholas? Taes palavras serviriam para as campanhas ulteriores da politica, mas não têem valorpara a historia. Caíndo, aJUNTAsabia muito bem o motivo porque caía, e não se lhe dava de acabar assim. Que estimaria mais as primeiras condições inglezas, é fóra de duvida; mas que preferisse á intervenção a guerra e a propria victoria, é o que não é licito acreditar perante o procedimento dos seus chefes. Os inglezes occuparam a Foz, os hespanhoes o Porto, e a 24 de julho estava tudo acabado pela convenção de Gramido.

DaJUNTAdissolvida nada restava. Saldanha e os cabralistas continuavam a governar com aCARTA. O Porto vira nos dois irmãos Passos as duas faces da physionomia espontanea e popular da revolução: em um a poesia minhota, em outro o genio burguez antigo. O poeta voltava para casa chorando: chorando assistira á entrada de Concha. O burguez, pomposamente, declarava ser necessario morrer! E morreu, veiu a acabar, mas demente, dezeseis annos mais tarde. O leitor não carece de que se lhe explique, nem a rasão das lagrimas, nem a causa da demencia. Viu como as folhas caíram (1842): depois d’esse outomno chegou o inverno frio e morto ...


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