Para quem tem estas crenças, a questão das monarchias e das republicas é uma questão secundaria. Se entende que a monarchia corresponde melhor aos fins, prefere-a; prefere a republica, se entende o contrario. Tão illegitimo acha odireito divinodo soberania régia, como odireito divinoda soberania popular. Para elle, a soberania não é direito, é facto;facto impreterivelpara a realisação dalei psychologica e até physiologicada sociabilidade;mas em rigor, negação, porque restricção, nos seus effeitos, do direito absoluto, e cujas condições são portanto determinadas só por motivos deconveniencia pratica, e dentro dos limites precisos da necessidade. Fóra d’isto, toda a soberania é illegitima e monstruosa. Que a tyrannia de dez milhões se exerça sobre um individuo, que a de um individuo se exerça sobre dez milhões d’elles, é sempre a tyrannia, é sempre uma cousa abominavel. (Ibid.)
Para quem tem estas crenças, a questão das monarchias e das republicas é uma questão secundaria. Se entende que a monarchia corresponde melhor aos fins, prefere-a; prefere a republica, se entende o contrario. Tão illegitimo acha odireito divinodo soberania régia, como odireito divinoda soberania popular. Para elle, a soberania não é direito, é facto;facto impreterivelpara a realisação dalei psychologica e até physiologicada sociabilidade;mas em rigor, negação, porque restricção, nos seus effeitos, do direito absoluto, e cujas condições são portanto determinadas só por motivos deconveniencia pratica, e dentro dos limites precisos da necessidade. Fóra d’isto, toda a soberania é illegitima e monstruosa. Que a tyrannia de dez milhões se exerça sobre um individuo, que a de um individuo se exerça sobre dez milhões d’elles, é sempre a tyrannia, é sempre uma cousa abominavel. (Ibid.)
Este periodo, eloquente, é revelador da energia que as idéas adquirem quando se tornam o sangue do nosso sangue, chegando a desorientar a rectidão ingenita da nossa intelligencia. Herculano, cujo bom-senso, cujo saber lhe não consentiam ir até aonde logicamente manda a doutrina, isto é, até á Anarchia systematica, negação de toda e qualquer sociedade, apotheose do estado selvagem de quasi puro individualismo: Herculano que não é Rousseau vê-se obrigado a chamar conveniencia practica, ao que linhas antes dissera lei psychologica e até physiologica do homem—a sociedade.
É que, com effeito, não basta o principio individualista para nos explicar a physionomia intellectual de Herculano. Varias causas concorriam para o temperar, ou desviar das suas conclusões logicas. O saber é uma d’essas, mas a principal é o seu temperamento estoico. Para Herculano, e em geral para o estoicismo, uma doutrina não é um productoda intelligencia pura, que póde ser, ou não, amado evivido. O estoicovivecom o que pensa, o seu pensamento está no seu coração: é a carne da sua carne, o sangue do seu sangue; é uma fé, não é apenas uma opinião. Eminentemente forte, é por, isso mesmo positivo e practico. As doutrinas são para elle realidades, não são abstracções; e nada valem quando nada representem na esphera da consciencia e da moral, quando nada valham na do direito e da economia. Por isso as conclusões extremas do individualismo, irrealisaveis, practicamente absurdas, immoraes até, repugnantes para o proprio instincto, contradictadas pelo saber mais mesquinho: essas conclusões, delicia de espiritos seccos, de philosophos abstrusos, de ignorantes ingenuos, não podia Herculano, sabio e estoico, abraçal-as. Parava, pois, afim de conciliar a sua opinião com o seu sentimento, e, se em resultado saiam inconsequencias, ellas não fazem senão demonstrar a verdadeira nobreza da sua alma e a tempera rija da sua intelligencia.
Lado nenhum das suas idéas mostra isso mais do que o economico. Tão livre-cambista como individualista, ou ainda mais, porque sentia e temia o socialismo, vendo n’elle um positivo e declarado inimigo e o problema vivo do futuro: ou ainda mais, dizemos, porque não parava, nem limitava as conclusões ultimas, Herculano era radical nofree trade, pois acreditava firmemente n’elle como n’uma panacéa. Estoico sempre, a doutrina da concorrencia apparecia-lhe principalmente por um lado secundario para os economistas. O livre-cambio, proclamado como a melhor receita para crear a riqueza,era para Herculano sobretudo a melhor fórma de a distribuir. Queria que as leis pulverisassem o solo, no qual não reconhecia outro valor senão o que o trabalho consolidara n’elle; e esperava que a concorrencia, desembaraçada de todas as peias, creasse uma sociedade proudhoniana, em que todos fossem capitalistas e proprietarios. Como estoico, era um socialista; mas o seu socialismo realisar-se-hia pela liberdade, pela concorrencia. E quando se lhe contavam os casos repetidos, actuaes, do sem numero de monopolios de facto, nascidos, não das leis, mas sim da guerra natural economica, elle parava, scismava e não respondia.
Via-se que lá dentro luctavam a doutrina e a lucidez; e, sem se convencer, sem mudar, apparecia o moralista invectivando os vencedores d’essa lucta d’onde elle esperava a justiça, e d’onde apenas saía o dolo. Ninguem o excedia então; e ao ouvil-o, dir-se-hia algum fugido de Paris, dos tempos da Communa, pois nos referimos agora aos seus ultimos annos, ás vesperas da sua morte, quando a agiotagemlivrede Lisboa e Porto provocou uma crise bancaria. Quiz então o governo cohibir a liberdade de emissão, mas não o pôde.
Do folheto do meu amigo[36]o que infiro é que esses banquistas d’ahi são uma alcateia de tratantes e burlões e que o governo quer o monopolio da cousa para uns amigos seus de Lisboa que vam tratando da vida, mas com quem o governo se acha nos apertos trazidos por despezas tantas vezes, posto que nem sempre, irreflectidas e insensatas. As façanhas e cavallarias dos banqueiros do Porto resultam claramente do seu folheto: as do governo são inferencias que d’elle tira a minha damnada má fé.—O governo que faça a sua obrigação; que tenha bem azeitados os gonzos efechaduras das cellulas e bem safas as escotilhas dos navios da carreira d’Africa. Por indulgencia com a imbecilidade humana (sejamos indulgentes) quando a tratantada fosse de algum banco, bastaria dissolvel-o e filar a direcção. (Ibid.c. de fev. de 77)
Do folheto do meu amigo[36]o que infiro é que esses banquistas d’ahi são uma alcateia de tratantes e burlões e que o governo quer o monopolio da cousa para uns amigos seus de Lisboa que vam tratando da vida, mas com quem o governo se acha nos apertos trazidos por despezas tantas vezes, posto que nem sempre, irreflectidas e insensatas. As façanhas e cavallarias dos banqueiros do Porto resultam claramente do seu folheto: as do governo são inferencias que d’elle tira a minha damnada má fé.—O governo que faça a sua obrigação; que tenha bem azeitados os gonzos efechaduras das cellulas e bem safas as escotilhas dos navios da carreira d’Africa. Por indulgencia com a imbecilidade humana (sejamos indulgentes) quando a tratantada fosse de algum banco, bastaria dissolvel-o e filar a direcção. (Ibid.c. de fev. de 77)
Pobre governo que caíu! Pobre Estado, sem força para bater-se com os novissimos Senhorios creados pela liberdade que o philosopho prégava! Porque até perante um claro exemplo das consequencias da concorrencia, como que ferido por um remorso, por uma vaga duvida, Herculano insiste, defendendo a sua opinião arraigada:
Preto velho não aprende lingua. A questão unica de doutrina que me parece haver em toda essa embrulhada é a emissão de notas: se ha de ser livre, se restricta, se monopolisada. Liberdadeiro empedernido no peccado, adopta a primeira solução em toda a sua amplitude. O meu amigo vae para o monopolio: tambem isso é natural. O socialisto vê no individuo a cousa da sociedade: o liberal vê na sociedade a cousa do individuo.Fimpara o socialista, ella não é para o liberal senão ummeio; creação do individuo que a precedeu, que lhe estampou o seu sello; porque, faça ella o que fizer, nunca poderá manifestar a sua existencia e a sua acção senão por actos individuaes, unidos ou separados. O collectivo n’essas manifestações não passa de uma concepção subjectiva; não existe no mundo real. (Ibid.)
Preto velho não aprende lingua. A questão unica de doutrina que me parece haver em toda essa embrulhada é a emissão de notas: se ha de ser livre, se restricta, se monopolisada. Liberdadeiro empedernido no peccado, adopta a primeira solução em toda a sua amplitude. O meu amigo vae para o monopolio: tambem isso é natural. O socialisto vê no individuo a cousa da sociedade: o liberal vê na sociedade a cousa do individuo.Fimpara o socialista, ella não é para o liberal senão ummeio; creação do individuo que a precedeu, que lhe estampou o seu sello; porque, faça ella o que fizer, nunca poderá manifestar a sua existencia e a sua acção senão por actos individuaes, unidos ou separados. O collectivo n’essas manifestações não passa de uma concepção subjectiva; não existe no mundo real. (Ibid.)
Mas, se essa liberdade expressa na concorrencia economica—a franca emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo: mas se essa liberdade conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que haja um vicio no mechanismo das instituições. E ha, ha sem duvida, diz Herculano, é o anonymato.
Na essencia, abanknoteé a expressão do credito que o individuo attribue a si. Que se reunam 7,70 ou 700 individuos para sommarem essas avaliações; que se chamem banco e que exprimam collectivamente o total, isso nãomuda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidadeslimitadas. A responsabilidade é de sua natureza illimitada até onde chegam os recursos e a pessoa do responsavel.Non habet in posse, dicat in corpore, é maxima que se não devia despresar n’esta questão do abuso do credito. Note que eu desejaria supprimidas todas as responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou disfarçadas. (Ibid.)
Na essencia, abanknoteé a expressão do credito que o individuo attribue a si. Que se reunam 7,70 ou 700 individuos para sommarem essas avaliações; que se chamem banco e que exprimam collectivamente o total, isso nãomuda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidadeslimitadas. A responsabilidade é de sua natureza illimitada até onde chegam os recursos e a pessoa do responsavel.Non habet in posse, dicat in corpore, é maxima que se não devia despresar n’esta questão do abuso do credito. Note que eu desejaria supprimidas todas as responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou disfarçadas. (Ibid.)
Vimos antes como o espirito do historiador erudito corrigia em certo ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir o livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem temperava os principios do philosopho, e essas correcções eram-lhe indispensaveis para que os seus pensamentos se mantivessem de accôrdo com os seus rectos instinctos, com as suas bellas aspirações: eram-lhe indispensaveis, porque o estoico não admitte divergencia entre a intelligencia e a moral, entre o mundo das idéas e o das realidades.
Mas, se ha pouco notámos a inconsequencia, não é verdade que a opinião de abolir o anonymato é paradoxal—fóra do socialismo que reconhece a instituição anonyma por excellencia, o Estado? Sem anonymato, como levareis a cabo as obras colossaes, a que nenhuma responsabilidade individual basta? Ou condemnareis a realidade fatal em nome dos principios? Como Herculano claramente o via, o anonymato, isto é, a fragmentação do Estado em senhorios economicos, uma especie nova do feodalismo, consequencia necessaria de todas as anarchias: o anonymato é a refutação do individualismo na economia social. Destruindo toda a propriedade collectiva, roubando ao Estado toda a força real, resta apenas á lei um prestigio abstracto que é logo vencidopelas influencias anarchicas oufeodaesdo capitalismo individualista. Liberdade quer dizer responsabilidade; e, se uma é um principio absoluto, a outra ha de tambem ser absoluta. Esta é a regra; e n’este ponto não era Herculano, era a fatalidade a origem da inconsequencia. Por cima das theorias galgam e vencem sempre os factos necessarios.
Assim no direito publico o processo das maiorias apezar deignaras; assim na economia o anonymato, apesar de juridicamente infundado, passam por cima do individuo, da liberdade, da responsabilidade. E, os que vêem com outros olhos os phenomenos sociaes, encontram n’esses factos os primeiros esboços do futuro Estado, que se reconstruirá depois de terminada a evolução natural dos principios liberaes-individualistas. Das maiorias, organicamente representadas, sairá a representação da vontade collectiva; das companhias, opportunamente transformadas, sairá a unificação do poder publico. O voto universal e o anonymato são o esboço rudo da constituição do novo direito politico e da nova constituição economica de sociedades em que o liberalismo destruiu as instituições de protecção e o direito monarchico.
Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios—liberal e socialista, ou individualista e collectivista—era indifferente a questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se sente n’um throno, n’uma poltrona ou n’uma tripeça». E essa questão da republica ou monarchia, é para elle um problema não só historico, mas tambem religioso.
São na essencia o mesmo o calvinismo e o puritanismo, e o calvinismo penetrou tão profundamente na vida moral dos suissos, como o puritanismo nas antigas colonias inglezas emancipadas. Mas o calvinismo e o puritanismo que são, senão a democracia republicana na sociedade espiritual? A vida politica das duas sociedades foi, digamos assim, uma prolação da sua vida moral. Quando as instituições e as idéas politicas de um povo derivam das suas crenças e instituições religiosas, a manutenção tenaz das primeiras nada tem de extraordinario. (Ibid.c. de 15 de nov. de 72)
São na essencia o mesmo o calvinismo e o puritanismo, e o calvinismo penetrou tão profundamente na vida moral dos suissos, como o puritanismo nas antigas colonias inglezas emancipadas. Mas o calvinismo e o puritanismo que são, senão a democracia republicana na sociedade espiritual? A vida politica das duas sociedades foi, digamos assim, uma prolação da sua vida moral. Quando as instituições e as idéas politicas de um povo derivam das suas crenças e instituições religiosas, a manutenção tenaz das primeiras nada tem de extraordinario. (Ibid.c. de 15 de nov. de 72)
Pondo de parte, pois, a questão da opportunidade no momento de uma crise, a republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a estas sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça[37]que estanceiam ao occidente ... educadas pelo catholicismo que, na pureza da sua indole é o typo da monarchia representativa». (Ibid.)
A tradição religiosa, ou antes aquella pseudo tradição de um catholicismo liberal inventada pelo romantismo, servia, pois, ao philosopho para temperar o seu individualismo, conciliando-o com um resto de authoridade social consagrada nas prerogativas do throno representativo. De tal modo se combinava o racionalismo com o romantismo, e este traço é o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina, um caracter de individualidade original, depois do ensino apenas racionalista de Mousinho da Silveira.
Tambem o temperamento entrava, ao lado da educação, para acabar de afeiçoar a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus kantista não bastava á sua indole peninsular. A imaginação pedia-lhe a antiga historia tradicional;o sentimento reclamava o quer que é de affectuoso e meigo—a doce caridade catholica—e o bom senso exigia o culto e pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das suas acerbas satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias de canonista. Nada propenso ao mysticismo, e até rebelde a comprehendel-o fóra da caridade practica, via, porém, na religião principalmente a Egreja—instituição e disciplina. Roma e a politica ultramontana, n’isto se resumia para elle a historia do catholicismo a partir de certo concilio em que pela primeira vez se infringiram certos canones. Por este lado, o seu pensamento, aliás tão grave, aproxima-se mais do espirito superficial e em demasia negativo do seculo XVIII, do que do espirito placido e comprehensivo do seculo em que vivemos. Fazendo da questão religiosa uma questão de datas e leis, marcava a éra em que a Egreja começara a mentir ao seu papel, e aos que lhe falavam em nome do Espirito, respondia com a Historia: a morte veiu achal-o occupado na empreza van de converter um rapaz mystico e catholico. Tinha odios ao papado, e a paixão do sectario, quando se erguia contra os desvarios dos seus contemporaneos, cegava-o até ao ponto de desconhecer o passado e de applicar as fórmulas da nossa éra a todas as edades. Assim, para elle, a solução da questão religiosa estava no regresso ao puro espirito do catholicismorepresentativo, religião que concebia como canonista e não como philosopho. Punha Döllinger muito acima de Luthero; Hegel, Feuerbach ou Strauss mereciam-lhe apenas um sorriso desdenhoso.
Esta maneira, evidentemente incompleta, de comprehender a religião levava-o a consideral-a, por um lado, como cousa puramente individual, en’este sentido apoiava a celebre fórmula «Egreja livre no Estado livre»; em quanto por outro, olhando-a como instituição positiva, a julgava simples materia administrativa. O publicista liberal assustado pela força da Reacção, cujo verdadeiro caracter não percebia, erguia-se, pois, para debellar com leis o que só a prégação moral póde encaminhar e dirigir, jámais vencer: a irresistivel tendencia do espirito collectivo para affirmar religiosamente a sua unidade.
A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia de um espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu verdadeiro e intimo deus. É essa a religião do estoico; e o deus daHarpa do Crenteé um ser eminentemente livre que por um acto de vontade absoluta creou tudo o que existe: o deus do estoico é a divinisação da personalidade. E, como todos sabem por quanto esta antiga philosophia entrou na formação do christianismo, é desnecessario mostrar, desenvolvidamente como e até que ponto, Deus era para Herculano o deus christão.
Duas palavras agora ácerca do escriptor: duas palavras apenas, porque não tratamos da historia litteraria, mas temos de nos occupar de litteratura, sempre que ella influe, como n’este caso, na vida geral ou total da sociedade.
Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres physionomias distinctas. A primeira official e grave, são os seus trabalhos historicos, onde o periodo redondo e classico, mas sem affectação quinhentista, se desenvolve alimentado peloscaldos de Vieiraque nos receitava, a nós os moços, para educar a mão. A segunda são os seus romances e escriptos humoristicos, onde, mal ataviado o periodo jesuitico, ás vezes combinado com fórmas etoursextrangeirados, transparece sempre ogout du terroir, o cunho de portuguezismo duro e pesado, mais aggressivo do que engraçado. Na terceira, finalmente, em nossa opinião a mais bella; nos escriptos de polemista, a phrase rotunda é quente, a aggressão é viva, as palavras têem calor, e a dureza do genio lusitano acha nos sentimentos expressos em orações duras, uma convicção, uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do estoico, e ha uma harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte, e o estylo redondo, sobrio e nobre. A rhetorica classica é o molde proprio do classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica, (Carta á Academia das sciencias) onde o homem intimo, sensivel, caridoso e simples, esse homem que nós esboçámos fugitivamente, porque a vida, a educação, o temperamento, de mãos dadas concorriam para o subalternisar ao homem estoico: ha uma, dizemos, em que as palavras não falam apenas, choram e vociferam, têem lagrimas e imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua existencia, o homem poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do artista obtem com intuição, consegue-o o poeta com emoção. ACarta á Academiaé tão bella como as melhores das poesias intimas de Herculano.
Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus romances), a litteratura era uma missão e não um dilettantismo. O universo, a historia, a sociedade não se lhe apresentavam como assumpto de estudos subtís e curiosos, de observações finas ou profundas, de quadros brilhantes,vivos ou commoventes; mas sim como objecto de affirmações ou negações, inspiradas pela convicção estoica. Nos seus livros póde seguir-se ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu pensamento e a historia da sua consciencia. São o retrato da alma do author, ora apaixonada, ora melancholica; quasi sempre triste, mas sempre convicta, energica e franca.
AsPoesiase oEuricorevelam-nos o crente na providente liberdade de um Deus poderoso e justo, a alma rijamente temperada contra o acaso funesto, o coroação aberto ás emoções da natureza que se lhe manifestam com o caracter de uma fatalidade cruel e de um desabrimento cego. Deus, a Natureza o Homem, são, n’essas obras, personagens de uma tragedia biblica, tendo a tempestade rouca por musicas e por fundos de scena bulcões de nuvens negras a velar o azul do céu.
Vêem depois na obras polemicas, vasta e riquissima collecção (reunida nosOpusculos,I-IVe segg. em via de publ.) que patenteia a omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o caracter de um philosopho, cujo pensamento, em vez de se manifestar em tratados, se exprime em controversias. Profissionalmente, era historiador. AHistoria de Portugale os trabalhos que com ella formam o corpo dos estudos do erudito (aHist. da Origem e Est. da Inquisição; os opusculos sobre a batalha de Ourique; oDo estado das classes servas; os diversos ensaios noPanorama; o ined. sobre o feodalismo em resp. a Cárdenas; as edições daChron. de D. Sebastião, de Bernardo da Cruz, dosAnnaes de D. JoãoIII, de Fr. Luis de Sousa, doRoteiro de Vasco da Gama; a collecção dosPortugalliæ monumenta historica; etc.[38]) são a obra mais importante do escriptor e o solido fundamentodo seu nome immorredouro na historia litteraria portugueza. Reunindo a um saber geral vasto e forte a paciencia do erudito e o escrupulo do critico, esses trabalhos não respiram a seccura pedante do especialismo; e, se não constituem nem podem constituir uma historia nacional, fizeram com que os problemas das origens sociaes e politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. A historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um nome que se conservará ao lado do de Mommsen ou de Guizot, cujos golpes de vista comprehensivos partilhava; e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade de representar vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua alma, como um Michelet) as passadas gerações; avantajando-se a ambos na coragem com que arcou com o trabalho improbo de colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monumentos historicos de um povo que não tivera benedictinos eruditos. Robinson de nova especie, Herculano achou-se como n’um paiz deserto e teve de descobrir os materiaes antes que podesse pôr mãos ó obra.
Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, aHistoria de Portugalé um monumento; entretanto, devemos dizel-o, se quizermos ser inteiramente justos, mais de uma cousa lhe falta, para poder ser considerada um typo, e o seu author um grande historiador, como um Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de discussões eruditas; falta-lhe, sobretudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquellas vistas rigorosamente objectivas, aquella isenção critica, impassivel perante as escholas, os systemas, os partidos, sem a qual a historia deixa de o ser. Herculano peccava, com toda a eschola romantica, Guizot áfrente, porque a opinião e a politica de mãos dadas o levavam a fazer da historia da Edade-media uma apologia do systema representativo. Como Guizot, tambem estoico, Herculano era demasiado convicto e apaixonado para poder prescindir de si, das suas crenças, das suas opiniões. Levava, pois, para o estudo do passado as preoccupações do presente, porque essas preoccupações eram a essencia da sua vida moral. O romantico de 30, o liberal ardente, o soldado daCARTA, enfatuado com as suas theorias constitucionaes e municipalistas, tinha de condemnarin liminea centralisação monarchica dos seculosXVIeXVII, consequencia indiscutivelmente necessaria, consequencia europêa da Edade-media e preparação dos tempos modernos.
Além d’isto, ha uma falta de nexo naHistoria de Portugal, resultado do modo como primeiro foi concebida. «Eu comecei por imaginar apenas uma historia do povo e das suas instituições, alguma cousa no genero daHistoire du tiers état, de Thierry, mas mais desenvolvida—dizia-nos Herculano—porém tendo colligido materiaes para a primeira epocha, vi que possuia n’elles tudo o que era necessario para a historia politica: d’ahi veiu a resolução de escrever umaHistoria de Portugal». É por isso que as duas faces do livro se não ligam; é por isso que os homens e os seus actos nos apparecem como um appendice, subalterno, indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido outros e diversos, nem por isso a vida anonyma da sociedade poderia ter seguido rumo differente. E, se não vemos a acção dos elementos voluntario-individuaes ou fortuitos sobre os elementos sociaes, nem a inversa, perdendo assim a historia o seu caracter eminente de realidade, juxtapondo artificialmente, a uma chronica veridica desinçadados erros e das invenções fradescas, uma dissertação erudita sobre o desenvolvimento das instituições: succede tambem que a apreciação dos elementos moraes, crenças individuaes, phenomenos de psychologia collectiva, é feita á luz de doutrinas quasi voltairianas; e, no avaliar das lendas religiosas e da acção do clero, o historiador prescinde de profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario que nos bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da astucia e uma Babylonia de perversão.
Tal foi aHistoria de Portugalque o romantismo concebeu; e demorámo-nos tanto sobre ella porque vimos ahi um symptoma caracteristico para apreciar o valor d’essa fórma de Liberdade que teve em Herculano o seu derradeiro e mais illustre sectario. Para o romantismo, a renovação social era uma volta a tradições scindidas pela monarchia absoluta: já o dissemos, e não é portanto necessario repetil-o. E essas tradições que deviam ser—oh, singular confusão da intelligencia!—o alicerce de uma liberdade racionalista, inspiravam a Garrett oFrei Luis de Sousa, elegia mystica, e a Herculano um fragmento deHistoriapara uso dos sabios, apenas popular por ter sido mais um ataque ao catholicismo tradicional portuguez.
O clero pagou com guerra o odio que o historiador lhe dispensava nos seus livros aggressivos. Conjuraram-se os padres, e Portugal assistiu a mais um protesto do espirito antigo, inconvertivel, impenitente. Em vez de congregar o povo na communhão de um pensamento nacional, aHistoriasaía como uma arma de combate. As tradições vivas, possiveis, eram todas inacceitaveis, como o leitor já sabe. As guerrilhas do Minho em 46 foram trucidadas em Braga, mas o enraizado espirito catholico não se podia vencer nem com armas, nem com livros: só acabaria com os caminhos-de-ferro, com as pontes e estradas, com a Regeneração utilitaria, materialista e practica.
Herculano, vendo-se isolado, vendo no pulpito o padre excommungando-o, no governo «o bom homem que, nas horas vagas de certas funcções elevadas, espairecia os tedios da vida revolvendo com o bico da bota a velha corôa de D. João I n’uma celha de lodo que viera do Tibre»; Herculano, clamando sem ser ouvido, a Sá-da-Bandeira: «Acorda, moderno Bayard, que te matam!» (A reacção ultramontana, 1857) abdicou e homisiou-se, levando para a sua thebaida a crença na ruina fatal. Os antigos não se convertiam, os novos entregavam-se de corpo e alma á Regeneração: elle, só, chorava as desgraças da patria que saía da sacristia para entrar na tavolagem, trocando a egreja pela bolsa, e os bentinhos e os rosarios pelos arrebiques dos peralvilhos e pelas tabuadas de financeiros: o Breviario pelos Melhoramentos.—E o evangelho? oh, gente perdida! E a justiça? e a moral? e a liberdade? e a poesia? A turba não podia mais ouvil-o: com a liberdade fôra-se a religião; com o romantismo salvador, a perdida nação jesuita! Velhos e novos, de mãos dadas, adoravam o deus novo—Regeneração! cujo sacerdote em Rodrigo, Fontes o diacono, e Saldanha o idolo bem fardado.
Herculano abdicou, pois. Durante o periodo que medeiou entre a sua abdicação e a sua morte, o espirito europeu, abandonando a vereda romantica de um subjectivismo que desde 89 assolava o mundocom revoltas, restauradas as sociedades latinas pelo utilitarismo imperialista que as enriqueceu outra vez: o espirito europeu, dizemos, retemperou-se na tradição naturalista, constituindo um corpo inteiro de conhecimentos novos, transformando os methodos das sciencias, esboçando philosophias originaes. O antigo estoico, o kantista de 30, com as suas idéas exclusivas, com o seu racionalismo frio, com o seu methodo subjectivo, com a sua comprehensão formal das cousas, com o seu deus mechanico, e a sua liberdade dogmatica: homem como que abstracto, vendo os homens fóra do mundo e da evolução, como um milagre divino: esse homem, solitario em Val-de-Lobos, adorado por quantos o conheciam, estudado como um monumento da historia por muitos dos que o tractavam, não podia mais dirigir a educação da gente nova.
Nem o conhecimento intimo da natureza viva obtido pela sciencia, nem o sentimento ideal do Universo, profundado pelas philosophias allemans (concepções até agora oppostas, mas que o tempo approxima todos os dias e virá a combinar afinal); nenhuma das acquisições fecundas do espirito humano nos ultimos quarenta annos, poderam destruir no pensamento de Herculano o systema granitico das suas idéas. O maravilhoso corpo de sciencias philologicas que a Allemanha construira e que são como que a embryogenia das sociedades e suas idéas politicas, juridicas e religiosas, revelando uma biologia social tão positiva e verdadeira como a zoologica, mostrando-nos a sociedade como realmente é—um organismo vivo: esse mundo novo do saber que destruia o individualismo e apeiava do seu throno a Liberdade, não só era desconhecido para o solitario estoico, mas era objecto das suas ironias melancolicas—«os desvios das symbolicas,das estheticas, das syntheticas, das dogmaticas, das heroicas, das harmonicas, etc.» (Corr. com o a.carta de 1869) em que «lhe faria pena vêr perdido» qualquer escriptor moço.
E quando, elle que observara impenitente o velho Portugal, abandonados ao lodo utilitario os seus coevos, via tambem a mocidade mediocremente respeitosa por essa religião do Individuo que era a sua; quando via as tendencias centralistas e socialistas,—confessas ou inconscientes—dominarem nos governos e opposições, nos partidos conservadores e nos revolucionarios, elle chorava, outro Isaías, sobre as ruinas do templo abatido, sem reconhecer que as pedras d’esse edificio derrubado já começavam a formar um novo monumento.
Meu amigo; provavelmente não tardará muito que eu vá dar um passeio ao outro mundo sem tenção de voltar. Passado um seculo, é muito possivel que o liberalismo tenha desaparecido. As gerações precisam ás vezes retemperar-se nas luctas da anarchia ou nas dores da servidão: concentram-se para a explosão calcadas sob o pé ferreo da força brutal. Deixe-me levar, para me entreter a ruminal-a pelo caminho, a convicção de que, entalada entre duas betas negras,—a tyrannia em nome do céu e a tyrannia em nome do algarismo,—surgirá como um foco de luz, nas paginas da historia, a epocha em que se proclamavam os direitos individuaes absolutos e imprescriptiveis, embora as paixões humanas nem sempre os respeitassem. (Ibid. carta de fev. de 77)
Meu amigo; provavelmente não tardará muito que eu vá dar um passeio ao outro mundo sem tenção de voltar. Passado um seculo, é muito possivel que o liberalismo tenha desaparecido. As gerações precisam ás vezes retemperar-se nas luctas da anarchia ou nas dores da servidão: concentram-se para a explosão calcadas sob o pé ferreo da força brutal. Deixe-me levar, para me entreter a ruminal-a pelo caminho, a convicção de que, entalada entre duas betas negras,—a tyrannia em nome do céu e a tyrannia em nome do algarismo,—surgirá como um foco de luz, nas paginas da historia, a epocha em que se proclamavam os direitos individuaes absolutos e imprescriptiveis, embora as paixões humanas nem sempre os respeitassem. (Ibid. carta de fev. de 77)
Mezes depois morria; mas esse fóco de luz não se extinguia, porque entre os varios symptomas da vida organica de uma sociedade está o respeito e a admiração pelos seus grandes homens. Esse fóco de luz não se extinguia tambem—ainda hoje o dos estoicos da Antiguidade nos allumia!—porque os direitos individuaes são funcções imprescriptiveis do organismo social, embora não sejam a expressãosummaria da sociedade; porque as duas betas negras, se têem essa côr quando o desvairamento dos homens ou a fatalidade das cousas dão lugar á tyrannia, têem realmente côr diversa, uma côr viva e pura! São a propria existencia do organismo collectivo, destruido sempre que deixar porém de ter uma unidade moral e economica, uma authoridade positiva, eminente, real, e poderosa. Assim é nos centros nervosos do animal que, recebendo as impressões externas as unificam, as synthetisam, e d’ahi imprimem a acção, a vontade e o pensamento ao homem, que é tambem, dizem-no os naturalistas, uma sociedade de individuos physiologicos.
No declinar da vida, teria fraquejado a convicção do estoico? Batido por tantas e tão variadas tendencias: umas que odiava sectariamente, outras que justamente condemnava, outras finalmente que a sua alma nobre e bondosa instinctivamente respeitava; contrariado pelo passado catholico, pelo presenteregenerador, e por um futuro que reconhecia conquistado para o socialismo—não hesitaria? Quem sabe? Não houve alguem que em palavras espontaneas, irreflectidas, lhe descortinasse, ou um symptoma de duvida intima, ou um vislumbre de conversão? Talvez houvesse. Como porém morreu sem se confessar, a pedra do tumulo guarda esse segredo. Antes de expirar disse apenas: «Isto dá vontade de morrer!» Traduza cada qual o enygma ao sabor da sua opinião.
NOTAS DE RODAPÉ:[33]O que se conta, sempre que a origem se não cita, provém da narrativa que ha cinco ou seis annos o seu chorado mestre e amigo fez verbalmente ao author.[34]V.Os dois mundos, out. de 77.[35]V.Elem. de Anthropol.(2.ª ed.) pp. 195-7; eInst. primit.V-VII.[36]ed. reorgan. do banco de Port.[37]V.Hist. da civil. iber.; introd.—Hist. de Portugal, l. 1, 3.[38]V.Hist de Portugal;app.111.
[33]O que se conta, sempre que a origem se não cita, provém da narrativa que ha cinco ou seis annos o seu chorado mestre e amigo fez verbalmente ao author.
[33]O que se conta, sempre que a origem se não cita, provém da narrativa que ha cinco ou seis annos o seu chorado mestre e amigo fez verbalmente ao author.
[34]V.Os dois mundos, out. de 77.
[34]V.Os dois mundos, out. de 77.
[35]V.Elem. de Anthropol.(2.ª ed.) pp. 195-7; eInst. primit.V-VII.
[35]V.Elem. de Anthropol.(2.ª ed.) pp. 195-7; eInst. primit.V-VII.
[36]ed. reorgan. do banco de Port.
[36]ed. reorgan. do banco de Port.
[37]V.Hist. da civil. iber.; introd.—Hist. de Portugal, l. 1, 3.
[37]V.Hist. da civil. iber.; introd.—Hist. de Portugal, l. 1, 3.
[38]V.Hist de Portugal;app.111.
[38]V.Hist de Portugal;app.111.