Per me si vá nella citá dolente ...Per me si vá n’ell’ eterno dolore ...
Per me si vá nella citá dolente ...Per me si vá n’ell’ eterno dolore ...
Per me si vá nella citá dolente ...Per me si vá n’ell’ eterno dolore ...
Per me si vá nella citá dolente ...
Per me si vá n’ell’ eterno dolore ...
No largo do palacio o povo espesso, na sua afflicção, dividia-se entre as lagrimas e as coleras. Era um espectaculo antigo, como quando outr’ora, nos seus pequenos reinos, os reis eram paes, protectores, quasi idolos. A um povo desgraçado, a desgraça do rei apparecia como symbolo dos proprios infortunios; e a crueldade de uma estrella funesta tinha o condão de ferir ainda a alma de uma gente já descrente e scepticamente regenerada; tinha uma virtude que decerto não teria tido o talento, a audacia, a ambição de um rei heroe. A morte no paço era symbolica, e a turba obedecia inconscientemente a um d’esses movimentos de psychologia collectiva, tão mysteriosos ainda. A morte no paço era o symbolo da morte no reino, e por isso, repetimos, na sua afflicção, o povo dividia-se entre as lagrimas e a colera. Os olhos choravam a sorte do rei, a sorte de todos! e o sangue pulava nas veias contra os réus do assassinato—do rei? da nação? Envenenadores, salteadores, burlões, homicidas!
Quando finalmente se soube que D. PedroVtinha expirado (11 de novembro de 1861), o clamor das coleras reunidas soltou-se, extravagante, absurdo, cruel, mas inconscientemente justo, como é sempre o povo em massa. O symbolo do Juizo-de-Deus, grosseira expressão de um mysterio de electricidade popular, via-se no calor com que pelas ruas, n’essas noites attribuladas, a turba corria proclamando a sentença final de uma historia miseravel. Partiam ás pedradas as vidraças dos palacios dosgrandes, pediam as vidas dos ministros, tombavam da sua carruagem e deixavam por morto na estrada o typo dos amoucos do palacio. Todos eram réus.
Tinham envenenado o rei! Tinham envenenado tudo! Tinham roubado, tinham vendido, tinham retalhado o povo, o reino, a fazenda, e a nossa miseria era a consequencia dos seus crimes. Agora este queria para si a corôa, aquelle queria vender-nos a Castella: queriam todos a desgraça do povo. Havia ahi partidos? Não; esse clamor provocado pela morte do rei martyr era uma condemnação total, universal, espontanea! Era um ultimo adeus ao ultimo dos reis amados, um dissolver da monarchia, em lagrimas tristes, soluçadas!
Objectarão os homens seccos que umas companhias de tropa bastaram para emmudecer as vozes desvairadas da turba. É verdade. Nem de outro modo podia ser. As revoluções não saem dos tumulos. As covas provocam lagrimas e arrancar de cabellos. Mas o que á historia importa agora, não é a força d’essas turbas afflictas, pois sabemos todos por que vias a nação chegara a sentir cravada em si a estrella fatidica do rei; pois sabemos todos que pessimismo intimo, que desesperança absoluta, que vaga tristeza, que anemia organica, a historia demeio seculo nos trouxera. Não é pois uma força que todos sabemos extincta, é o caracter do protesto, é a natureza dos clamores condemnando a côrte e o governo na sua totalidade, os partidos, os estadistas e a historia: é esse caracter singular que tem para nós uma gravidade reveladora ...
As companhias de tropa acalmaram a turba; e quando se fez o enterro, só já se ouvia o sussurro languido dos soluços. Cem mil pessoas estavam nas ruas. Tambem o azul do céu de Lisboa entristecera, tambem se cobrira de dó n’esse dia nublado e triste; tambem chorava lagrimas, ennegrecendo com chuva o basalto das calçadas. «Deus mandou a chuva, para até as pedras vestir de luto!» diziam mulheres carpindo. E todos ouviam os soluços murmurar, como se ouve o bater das azas quando passa nos ares um bando. Eram esperanças, aladas, brancas, fugindo tambem, voando!
NOTAS DE RODAPÉ:[41]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)II, pag. 42-5.
[41]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)II, pag. 42-5.
[41]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)II, pag. 42-5.