IIIO ROMANTISMO

IIIO ROMANTISMO

A primeira fórma politica sob que o romantismo appareceu em Portugal foi a doutrina aprendida pelo duque de Palmella no retiro principesco de Coppet. Já falámos d’essa doutrina, mas nunca é de mais insistir nas particularidades de cada especie de liberalismo, porque só assim distinguiremos os partidos. De outra fórma, o indeterminado e o vago dos fundamentos das doutrinas não nos deixarão perceber, nos varios agrupamentos de homens, mais do que motivos pessoaes. Esses motivos havia, mas é errado suppôr que não houvesse outros. O proprio caracter do liberalismo, com a sua falta de criterio a não ser a palavraLIBERDADE,—uma palavra e nada mais,—era a causa da multiplicação dos modos de atraduzir.

Duas d’essas traducções, a de Mousinho e a de Passos, já nós conhecemos. Quanto á de Palmella nunca chegou a vingar entre nós, porque até 28 impediu-o o absolutismo, e depois da guerra já o não consentia a legislação da dictadura que destruira toda a sociedade antiga. O liberalismo de Palmella era a doutrina de um politico, habil e sceptico. Era amoderação, á maneira da que LuizXVIII, com um temperamento analogo, a entendia:uma cousa pratica. Mas, esta politica teve como sustentaculo a doutrina do primeiro romantismo, catholico, tradicionalista, monarchico, aristocratico, medievista, de Chateaubriand e dos allemães. Sabemos como Palmella se oppôz á abolição dos conventos, sem o conseguir; e como obteve que se não bolisse nos morgados.

O primeiro romantismo, pois, concebido, ou pelo menos personalisado em Palmella, operou apenas como obstaculo á plena expansão de um outro pensamento liberal sem ser romantico, o de Mousinho. Conhecemos assaz a doutrina do reformador para voltarmos a demorar-nos sobre ella. Radical, individualista, utilitario, no systema das suas idéas não entrava por cousa alguma a tradição: nem historica, nem religiosa, nem aristocratica. Era um absolutismo individualista. A existencia de uma religião d’Estado e de uma camara de pares, bem como a conservação dos vinculos, deixavam a sua obra incompleta, e o novo edificio social truncado. Palmella conseguira que houvesse pares e morgados; mas a aristocracia, sem adherir ao regime novo, fazia da camara alta um problema serio, porque a natureza tem horror ao vacuo.

Ao lado d’estes dois liberalismos, um romantico, o outro utilitario e radical; um, filiado mais ou menos directamente no idealismo allemão, o outro, filho directo do sensualismo inglez: ao lado de ambos e comprimido até á revolução de setembro, vinha existindo o liberalismo racionalista, de pura origem franceza, e que em francezes e portuguezes se transformára, do velho jacobinismo, n’uma doutrina democratica só diversa da antiga nas formulas e accidentes, mas em essencia fiel ao typo transacto.

Taes são as tres fórmas de liberalismo, as tresdiversas traducções da palavra idolatrada, que o critico descobre na sociedade portugueza de 34-38.

No fim d’este periodo, a desordem, o descredito e o cansaço já congregavam os homens em novos agrupamentos, ao mesmo tempo que, do absolutismo das doutrinas de Mousinho e do caracter em demasia historico das doutrinas de Palmella, saía uma combinação media, cujo interprete politico era Rodrigo da Fonseca, e cujo melhor defensor foi Herculano. Era um segundo romantismo, individualista sem engeitar a tradição, e até popular sem deixar de ser brandamente aristocrata. Era a constituição de 38, com um senado electivo e temporario.

Eis ahi o verbo novo, a palavra de paz, o evangelho da liberdade redemptora. Oprophetasonhava com ella desde 34, sem ainda a ter definido bem claramente; mas entrevendo-a nas affirmações doutrinarias de Mousinho e nas sympathias de Palmella pelas velhas instituições. E foi n’isto que rebentou o tumor democrata (1836). E aos que julgavam a victoria ganha, conquistada a paz, veiu a revolução dizer que tudo havia a recomeçar. E quem era esse novo apostolo da desordem? E que monstro de plebe solta vinha de tal fórma perturbar a paz dos philosophos? E desmanchar com uma lufada de simún as suas sabias architecturas politicas?

Quem a preparou e a fez surgir? Não sei. Ostensivamente os seus authores foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade d’aquelle féto politico.

Quem a preparou e a fez surgir? Não sei. Ostensivamente os seus authores foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade d’aquelle féto politico.

(Herculano,Opusculo, 1).

Então o propheta subiu ao seu Sinay e ouviu a voz de Deus que lhe disse cousas pavorosas:

A licença mata a liberdade, porque se livremente opprimes, livremente podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os outros o assassinarem-te.Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe para as mãos de algum despota que a devore.Crês porventura (rainha!) que é bello e generoso assentares-te n’um throno que a relé do povo conspurcou de lodo e infamia?

A licença mata a liberdade, porque se livremente opprimes, livremente podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os outros o assassinarem-te.

Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe para as mãos de algum despota que a devore.

Crês porventura (rainha!) que é bello e generoso assentares-te n’um throno que a relé do povo conspurcou de lodo e infamia?

(Herculano,A voz do propheta).

E a democracia era lodo, era infamia. E porque o provo irritado matara um homem, era assassina a doutrina. E esse povo era plebe. E por sobre as ondas da turba desenfreada apparecia ao vidente biblico, romantico, o espectro de D. Miguel, um tyranno democrata:

Nas orgias de Roma, com teus sociosFolga, vil oppressor!Folga com os hypocritas iniquosMorreu teu vencedor ...Envolto em maldicções, em susto, em crimes,Fugiste miseravel.Elle, subindo ao céo, ouviu só queixasE um chôro lamentavel.

Nas orgias de Roma, com teus sociosFolga, vil oppressor!Folga com os hypocritas iniquosMorreu teu vencedor ...Envolto em maldicções, em susto, em crimes,Fugiste miseravel.Elle, subindo ao céo, ouviu só queixasE um chôro lamentavel.

Nas orgias de Roma, com teus sociosFolga, vil oppressor!Folga com os hypocritas iniquosMorreu teu vencedor ...Envolto em maldicções, em susto, em crimes,Fugiste miseravel.Elle, subindo ao céo, ouviu só queixasE um chôro lamentavel.

Nas orgias de Roma, com teus socios

Folga, vil oppressor!

Folga com os hypocritas iniquos

Morreu teu vencedor ...

Envolto em maldicções, em susto, em crimes,

Fugiste miseravel.

Elle, subindo ao céo, ouviu só queixas

E um chôro lamentavel.

(Herculano,Poesias(1.ª ed.)D. Pedro).

E o romantismo desvairava o pensamento do vidente, porque D. Miguel não fugira: fôra expulso; porque ao lado do chôro lamentavel, D. Pedro, se estivesse no céo, havia de tambem ouvir ainda o bater das pedradas nos tampos da sua carruagemfugindo a galope de San-Carlos. E as ordens que no Sinay, o deus dava ao propheta

Plante-se a acacia,—o liberal arbustoJunto ás cinzas do forte:Elle foi rei e combateu tyrannos:Chorae! chorae-lhe a morte!

Plante-se a acacia,—o liberal arbustoJunto ás cinzas do forte:Elle foi rei e combateu tyrannos:Chorae! chorae-lhe a morte!

Plante-se a acacia,—o liberal arbustoJunto ás cinzas do forte:Elle foi rei e combateu tyrannos:Chorae! chorae-lhe a morte!

Plante-se a acacia,—o liberal arbusto

Junto ás cinzas do forte:

Elle foi rei e combateu tyrannos:

Chorae! chorae-lhe a morte!

(Ibid.)

não eram cumpridas, porque ninguem se importava já com o homem que morrera em peccadoliberal.

E o propheta que, no calor das suas conversas com os deuses, falava a lingua de uma poesia sentida e bella, descendo á terra e vendo a desolação dos diluvios, vestia o manto de um Jeremias, ou a capa de um Diogenes, ou a toga de um Suetonio:

Homens que teriam legado á posteridade nomes gloriosos e sem mancha e que, mais modestos nas suas ambições materiaes seriam vultos heroicos da historia, pararam-se como condottieri mercenarios; ao passo que outros, depondo as armas e voltando á vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos, para exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados.

Homens que teriam legado á posteridade nomes gloriosos e sem mancha e que, mais modestos nas suas ambições materiaes seriam vultos heroicos da historia, pararam-se como condottieri mercenarios; ao passo que outros, depondo as armas e voltando á vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos, para exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados.

(Opusculos, 1).

E perguntas ainda, propheta! quem preparou e fez surgir a revolução? Quem? senão a colera do Senhor, como n’aquelle dia em que mandou o diluvio? E de toda a humanidade perdida apenas houve dois Noés, que merecessem graça aos olhos do Senhor! E um foi Passos, a quem elle chamou ao seio da eterna sabedoria, embalando risonho a filha sobre os joelhos, já esquecido da Liberdade; outro foi Sá, a quem confiou o commando da Arca sobre as aguas do diluvio. E dentro da Arca havia casaes de todas as especies. E quando o temporal cessou, Noé-Sá abriu a Arca. E havia a constituição novade 38, iris de bonança, fructo da copula das gerações condemnadas cujas sementes se guardavam na Arca. E era uma especie diversa do romantismo antigo ...

Portugal apparecia, com effeito, como emergindo de um diluvio que alagara e destruira tudo: as instituições e os caracteres, a riqueza e os costumes. Mas, por cima de todos os destroços, a imaginação dos poetas e artistas via os dos conventos. Não podia deixar de ser assim, n’um paiz que fôra um communismo monastico. Os frades tinham saído a campo a defender-se. Em 31 quasi todos os mosteiros ficaram abandonados á guarda de um ou dois leigos, porque as communidades arregimentavam-se:

Negros, uns vultos vaguear se viamA cruz do Salvador na esquerda erguidaNa dextra o ferro, preces blasfemando:Não perdoeis a um só! feros bradandoEntre as fileiras, rapidos, corriam.

Negros, uns vultos vaguear se viamA cruz do Salvador na esquerda erguidaNa dextra o ferro, preces blasfemando:Não perdoeis a um só! feros bradandoEntre as fileiras, rapidos, corriam.

Negros, uns vultos vaguear se viamA cruz do Salvador na esquerda erguidaNa dextra o ferro, preces blasfemando:Não perdoeis a um só! feros bradandoEntre as fileiras, rapidos, corriam.

Negros, uns vultos vaguear se viam

A cruz do Salvador na esquerda erguida

Na dextra o ferro, preces blasfemando:

Não perdoeis a um só! feros bradando

Entre as fileiras, rapidos, corriam.

(Herculano,Poesias).

Já a doutrina os tinha condemnado; já Mousinho na Terceira havia escripto a sentença da sua abolição; e depois, e mais em nome da vingança dos vencedores do que em nome da doutrina, foram exterminados. «Negros, uns vultos vaguear se viam» agora, esmolando miseraveis, ou foragidos pelas serras, homisiados, precítos, caçados e escarnecidos. Herculano, com uma corajosa humanidade, protestava: era «uma das realidades mais torpes, mais ignominiosas, mais brutaes, mais estupidase covardemente crueis do seculo presente». (Os egressos, op.) Fôra um roubo a expropriação:

Pague-se um juro modico dos valores que nos apropriámos. Se o fizermos, em lugar de sermos mil vezes uma cousa cujo nome não escreverei aqui, sel-o hemos só 999; porque teremos restituido a milesima parte do que loucamente havemos desbaratado. (Ibid.)

Pague-se um juro modico dos valores que nos apropriámos. Se o fizermos, em lugar de sermos mil vezes uma cousa cujo nome não escreverei aqui, sel-o hemos só 999; porque teremos restituido a milesima parte do que loucamente havemos desbaratado. (Ibid.)

O sentimento de uma justiça absoluta imperava já, no espirito do poeta stoico, por sobre as paixões de uma guerra passada, por sobre o enthusiasmo de una victoria—tão triste! por sobre o systema das opiniões politicas e o conjuncto das impressões partidarias. Era um acto de justiça humanitaria que nem poderia remir os crimes commettidos. A educação kantista do poeta fazia-o, como a Mousinho, ter um culto pela propriedade, expressão social positiva do individuo. Mas a theoria era condemnada pela politica. Se se não tivesse sequestrado no Porto, ter-se-hia morrido; se os bens dos frades se não tivessem confiscado e retalhado, o liberalismo teria caído no dia seguinte ao da victoria.

Não era porém só o kantismo que entrava na composição do estado de espirito dos novos romanticos. Era a tradição, o amor vago do passado, que os levava á inconsequencia de renegar o kantista Mousinho, reprovador da historia nacional. Era a tradição religiosa:

Os tempos são hoje outros: os liberaes já conhecem que devem ser tolerantes e que precisam de ser religiosos. A religião de Christo é a mãe da liberdade, a religião do patriotismo a sua companheira. O que não respeita os templos,os monumentos de uma e outra cousa, é mau inimigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, entrega-a á irrisão e ao odio do povo. (Garrett,Viagens)

Os tempos são hoje outros: os liberaes já conhecem que devem ser tolerantes e que precisam de ser religiosos. A religião de Christo é a mãe da liberdade, a religião do patriotismo a sua companheira. O que não respeita os templos,os monumentos de uma e outra cousa, é mau inimigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, entrega-a á irrisão e ao odio do povo. (Garrett,Viagens)

Atacando por este lado a tradição radical de Mousinho, abraçavam por isso os romanticos a eschola opposta, embora tambem liberal (sempre e todas, por diversas que sejam, sãoliberaes) de Palmella e do primeiro romantismo? Não. Depois do diluvio da revolução setembrista ficára no ar uma nevoa de indecisões poeticas. Queriam-se nomes, não se queriam cousas: aristocracia, sem pares vitalicios; religião d’Estado, mas tolerante eliberal; antiguidades, tradições, mas apenas como thema para romances e xacaras. Amava-se com furor a Edade-media, mas no papel. Era a sombra do primeiro romantismo, este de agora. Palmella não tinha querido que os conventos se abolissem: Garrett não os queria restaurar, lamentando porém que os frades tivessem desapparecido: davam um tom pittoresco e côr local aos quadros: «Nos campos o effeito era ainda muito maior: caracterisavam a paysagem». (Viagens) A doutrina dissolvia-se politicamente n’uma anarchia positiva; e moralmente acabava n’um desejo vago de artistas ou em contradictorias exclamações de poetas. Qual era o novo codigo da novissima, da terceira eschola liberal? Quem o sabe? Tudo; nada—o nevoeiro que o diluvio deixára sobre as terras quando, perante os clamores unanimes dos neo-romanticos, o setembrismo acabou.

Não se creia, porém, que homens como Herculano e Garrett, poucoimportantesna politica e porisso mesmo mais livres: homens cheios do talento e estudo, não percebessem o fundo real das cousas. A propria inconsistencia, a indeterminação mais ou menos sentida das doutrinas que seguiam, davam-lhes ainda uma facilidade maior para verem a verdade. Nós conhecemos em que termos Herculano apreciava os homens do dia; e Garrett, além dos motivos de artista, via outros para lamentar a queda do passado.

O barão mordeu no frade, devorou-o ... e escouceou-nos a nós depois ... Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu; e nós não comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer ... E quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades—não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. (Ibid.)

O barão mordeu no frade, devorou-o ... e escouceou-nos a nós depois ... Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu; e nós não comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer ... E quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades—não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. (Ibid.)

Não podiam ser, não; não podiam ser outros do que tinham sido, do que ficaram até hoje, onde ficaram, do que serão emquanto existirem. Como poderia o frade, crendo na ordem divina de um mundo formado tal-qual por uma vontade absoluta, admittir a doutrina que põe na razão do homem a origem de todas as cousas? Iria adorar, em vez da Trindade, o vosso Architecto-supremo, ó maçons? Nem o frade vos comprehendia, nem vós ao frade; e assim devia ser: porque abroca da analysenão profundára ainda a natureza das vossas doutrinas, varrendo as chimeras das vossas illusões. O frade vinha ligado a um passado real, e vós apparecieis prégando uma doutrina de inconsequencia, em que esse passado vivo se tornava em miragem poetica, e o presente, com as vossas idéas nebulosas, na realidade crua do novo imperio dos barões.

Tal aristocracia, materialista, brutal, sem lustrenem dignidade, mandava a natureza que saísse da concorrencia livre entre individuos soberanos. Ou renegar o individualismo, voltando ao romantismo velho; ou reconhecer no barão um filho legitimo. Não o fazer, demonstra sem duvida falta absoluta de senso. Chorar—e ainda bem!—prova que os homens não tinham seccado de todo. Mas, em vez de chorar em publico, na frente dos barões que se riam digerindo, não era melhor fazer como o democrata condemnado: recolher-se a casa baloiçando a filha sobre os joelhos?

Não seria; e já que os escriptores, redigindo a doutrina do terceiro ou quarto liberalismo, sentiam a inutilidade das combinações, a vaidade das esperanças e a victoria inevitavel dos barões; já que, sem se convencerem, se submettiam, melhor era com effeito que, deixando a politica, baloiçassem outra filha querida—a arte, as lettras. Litterato sobretudo é, com effeito, o segundo romantismo, no qual os principios do primeiro se tornaram themas de poesia. Aos barões que imperavam na sociedade positiva, apesar das fórmulas e dos preceitos da novissima constituição ordeira, havia que pedir esmola para os frades mendigos, para os estudos abandonados.

Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos sabios, dos nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! Pão para os que foram victimas das crenças, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome e frio! (Herculano,Os egressos, op.)

Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos sabios, dos nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! Pão para os que foram victimas das crenças, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome e frio! (Herculano,Os egressos, op.)

Passos clamara misericordia para o miguelista, Herculano pedia pão para o frade: nenhum foi ouvido. O primeiro demittiu-se; o segundo abandonou a politica pelas lettras; e com as ruinas davelha poesia, elle, Garrett, e os discipulos de ambos propuzeram-se crear a tradição que convinha ao novo regime.

A historia nacional, que a nova geração se decidiu a estudar, restaurando a erudição academica e monastica, offerecia tradições varias. A primeira e mais importante, a que distinguia Portugal do commum das nações; a do imperio de vastos dominios ultramarinos, Hollanda do extremo occidente, que vivera da exploração de regiões extra-europêas, nação de navegadores e colonisadores—nem foi lembrada. Além de não estarem em moda os estudos geographicos, primando a tudo a historia das instituições; além de ter ficado arruinado completamente o systema colonial portuguez com a separação do Brazil e com a abolição do trafico de escravos em Africa:[21]o pensamento economico da eschola era o de Mousinho, e nós sabemos como elle condemnou o passado, querendo que a nação vivesse por si, de si, com o seu trabalho, sobre o chão que tinha na Europa. Apenas Sá-da-Bandeira instava pela volta á politica colonial; mas fazia-o de um modo indiscretamente humanitario, esperando construir um Brazil em Africa, com o trabalho livre e a concorrencia e garantias liberaes. N’isto se mostrava o seuromantismo. A sua preoccupação colonial passava por mania, e chegava a sel-o.

Outra das tradições portuguezas, bastante ligada com a anterior, era a do absolutismo ou do imperialismo: a fórma organica adequada á existenciade uma nação, vivendocontra naturamda exploração de terras distantes: a monarchia de D. JoãoIIe D. Manuel, a D. JoãoV, e por fim a do Marquez de Pombal. Como reconheceria o romantismo esta tradição, quando a alma do seu pensamento politico era a soberania do individuo? É ocioso insistir em demonstrar as causas de antipathia.

A terceira, finalmente, das tradições portuguezas era a catholica. O reino creara-se como feudo do papado; as ordens monasticas tinham sido um dos principaes elementos da sua povoação na metade austral;[22]e por fim, em tempos mais recentes, o jesuitismo invadira o espirito da nação e os seus dominios ultramarinos. A Companhia foi a educadora e colonisadora, em Portugal, na Africa e no Brazil,[23]depois de ser missionaria no Oriente, na Africa e na America. De taes motivos resultara a nação de sacristães, frades e beatos do XVIII seculo, estonteados no seguinte, quando lhes faltaram as rendas do Brazil. Não fôra contra esta que se batalhara por annos? Como havia de continual-a, a gente que a destruira? Tradição propriamente aristocratica não existia, porque toda a monarchia de Aviz se occupara com exito em deprimir a nobreza medieval, e depois, a de Bragança teve de acabar com ella, por castelhana, no tempo de D. JoãoIV, por teimosa, no tempo de Pombal.[24]

Que tradição de historia invocar, pois, quando a revolução romantica era a negação da historia nacional? Iria o liberalismo acclamar os despotas? Iria defender a escravisação das raças africanas eamericanas, o individualista inchado com a noção da soberania do homem abstracto espiritual? Iria o livre-cambista, discipulo de Smith, applaudir as protecções e monopolios á sombra dos quaes se formara a riqueza nacional?

Não. Seria demasiada inconsequencia. Inconsequente era o romantico, pretendendo conciliar uma tradição com o seu racionalismo abstracto; inconsequente, comtudo, por necessidade, pois ainda «a broca da analyse» não patenteara o systema das leis da evolução, que mostram não haver na realidade absolutos, apenas formas transitorias, relacionadas sempre, deduzindo-se naturalmente, espontaneamente. O romantismo ou eschola historica prevía, precedia esta doutrina; mas o espiritualismo racionalista que lhe andava ligado não o deixava avançar, e precipitava-o em aventuras singulares.

Uma das mais conspicuas foi de certo a tentativa de crear uma tradição nacional portugueza, contra os elementos de uma historia de cinco seculos, quando a duração total da nossa historia não excedia sete. Mas esses dois primeiros affiguravam-se os puros: sendo o resto erros, desvios da genuina tradição. De tal fórma se obedecia á moda que lavrava nas nações germanicas; mas n’esses paizes a tradição medieval era viva, estavam ainda de pé as instituições antigas; pois só na França e na Hespanha se tinham constituido absolutismos, e só a Peninsula tinha tido, para além dos territorios europeus, vastos dominios ultramarinos.

Embora dirigidos por um criterio errado, os propugnadores do romantismo, a cuja frente seviam Herculano e Garrett, mettiam mãos a uma obra em todo o caso necessaria. A abolição dos conventos destruira o systema dos estudos; e se cumpria aos governos organisar a instrucção publica, era a obrigação dos escriptores novos continuar a obra dos frades. Do valor esthetico ou scientifico d’esses trabalhos litterarios da geração que nos precedeu não temos que nos occupar aqui, pois não tratamos da historia litteraria, aproveitando das lettras apenas como documento historico da sociedade.

As estancias do Tasso, retumbando das bocas dos barqueiros nas margens do Brenta e do Adige e os romances de Burger, cantados em sons monodicos á lareira nas longas noites da Germania, e as trovas de Beranger repetidas por milhões de bocas em todos os angulos da França, dizem mais a favor da poesia em que transluz a nacionalidade do que largas dissertações metaphisicas.

As estancias do Tasso, retumbando das bocas dos barqueiros nas margens do Brenta e do Adige e os romances de Burger, cantados em sons monodicos á lareira nas longas noites da Germania, e as trovas de Beranger repetidas por milhões de bocas em todos os angulos da França, dizem mais a favor da poesia em que transluz a nacionalidade do que largas dissertações metaphisicas.

(Jornal da soc. dos am. das lettras).

Herculano escrevia isto em 34, applaudindo osCiumes do Bardode Castilho,pastichecrú, nem portuguez, nem cousa nenhuma. Mau symptoma: porque o critico confundia ogeneroem litteratura com o renascimento da nacionalidade.

Burger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes; e é a elle a Voss que devemos a renovação d’estegenerointeiramente extincto na Europa depois doXVIseculo ... A poesia deve ter, além do bello de todos os tempos, de todos os paizes, um caracter do nacionalidade, sem o qual nenhum povo se póde gabar de ter uma litteratura propria.

Burger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes; e é a elle a Voss que devemos a renovação d’estegenerointeiramente extincto na Europa depois doXVIseculo ... A poesia deve ter, além do bello de todos os tempos, de todos os paizes, um caracter do nacionalidade, sem o qual nenhum povo se póde gabar de ter uma litteratura propria.

(Herculano, nasMem. do Conserv.)

Mãos, portanto, á obra. A «sociedade doa amigos das lettras», dos Castilhos, não vingara. Com Bernardino Gomes, no Porto, já Herculano tinha fundado a «sociedade das sciencias medicas e litteratura»—duascousas talvez admiradas de se acharem reunidas. Agora, em Lisboa, o renovador dos estudos, o chefe da nova eschola, creava a «sociedade propagadora dos conhecimentos uteis» cujo orgão, oPanorama, adquiria uma circulação extraordinaria. Não havia outra cousa que lêr, e lêr começava a ser moda na sociedadedas luzes, como diziam, com ironia e despeito, os antigos. OPanoramatrazia bonecos e receitas, além de trazer os estudos iniciadores da tradição nova, assignados «A. H.»

Que eram, que são esses trabalhos? (Lendas e Narrativas,Monge de Cister,Bobo, etc.) Sabiamente extrahidos das chronicas por um erudito, que relação havia entre elles e as memorias e lembranças vivas na imaginação popular? Nenhuma. Falasse a litteratura ao povo nas aventuras das viagens, nas historias dos naufragios, e de certo acharia ainda um ecco: mas em D. Fuas ou no celebre Paio-Peres-Correia? Quem se lembrava de tal? que sentimentos, que memorias estavam ligadas a essas façanhas de tempos breves e sem caracter particularmente portuguez? Ogeneroporém impunha estes assumptos, e a educação litteraria, de mãos dados com a philosophica e economica, repelliam os outros, oriundos da positiva historia da nação. O modelo era Walter Scott, traduzido pelo Ramalho. Nas novellas do escocez se achava o typo dastradições nacionaes.

Mais perspicaz, Garrett punha em scena o marquez de Pombal (A sobrinha do Marquez), typo vivo, presente, popular; e se tambem ia á Edade-media (Arco-de-Sant’Anna,Alfageme), era para explorar a moda, aproveitando os nomes antigos em dramas ou comedias da actualidade. Mais perspicaz, via que no povo portuguez não havia tradições medievaes, eque as lendas das chronicas eram objecto de erudição, mas não de litteratura ou poesia nacional. Em vão se procuraria ahi o renascimento. Cavou mais fundo e foi aos romances e historias da tradição oral: essa era a poesia da raça, não a poesia historica ou nacional. ORomanceiro, feito com um proposito litterario e não ethnologico—Garrett não era como os Grimm—não tinha comtudo alcance para o renascimento da nacionalidade, porque, em Portugal, a nação provinha de uma historia e não de uma raça individualisada. A poesia popular funde as nossas populações no corpo das populações ibericas.

Em vão, portanto, o romantismo procurava uma tradição. Não a achava, porque as idéas philosophico-economicas condemnavam as conhecidas; e não havendo outras a descobrir, os romanticos implantavam umgenerolitterario de importação da Escocia,á Walter-Scott, sem conseguirem acordar no povo lembranças d’esses dois seculos de Edade-media de que elle não tinha recordações, porque n’elles a vida da nação não tivera caracter proprio. Senhorio rebellado, como tantos outros, até ao fim doXIIIseculo, é só com a vida maritima então iniciada que principia uma historia particularmente portugueza.

No lugar onde a Inquisição tinha sido, fôra o Thesouro que ardera, e ficara—ficou até hoje!—em ruinas. N’esse lugar historico se levantou o templo romantico do renascimento da tradição nacional. Pobre theatro de D. MariaII! que vives da traducção das comedias francezas. Em vez de representarem ahi as tragedias portuguezas: a historia das viagens, dos naufragios e aventuras do Ultramar,a historia das cruezas da Inquisição e a tortura do judeu, talvez até a historia da propria queima do dominio do velho Estado, no lugar onde o Thesouro ardeu—representaram scenas tão horrendas quanto frias: os melodramas romanticos, de montantes e couraças, n’um estylo arrevezado e cheio de «sus! eias! bofés! t’arrengos!» Á força de lagrimas, adormecia-se, em vez de se acordar para a renascença de uma tradição apagada, tanto mais que nunca existira. Garrett disse-nos como essa tradição se fazia:

Vae-se aos figurinos francezes de Dumas, de Sue, de Victor-Hugo, e recorta a gente de cada um d’elles as figuras que precisa, gruda-os sobre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul; fórma com elles os grupos e situações que lhe parece: não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vae-se ás chronicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos: com os nomes chrismam-se os figurões, com os palavrõesilluminam-se, etc. (Viagens).

Vae-se aos figurinos francezes de Dumas, de Sue, de Victor-Hugo, e recorta a gente de cada um d’elles as figuras que precisa, gruda-os sobre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul; fórma com elles os grupos e situações que lhe parece: não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vae-se ás chronicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos: com os nomes chrismam-se os figurões, com os palavrõesilluminam-se, etc. (Viagens).

Assim era no theatro; assim na imprensa, Herculano, condemnando a aristocracia e os seus vinculos, o Estado e a sua authoridade, o throno e o seu poder; condemnando todas as instituições historicas, apenas descobria uma, unica n’esses tempos breves, antigos e genuinos, depois dos quaes tudo fôra erro,—o municipio. (V.Hist. de Portugal) Mas esse municipio redemptor, verdadeira e pura tradição nacional, que era? Elle nol-o diz tambem: (Parocho d’aldeia,Carta aos eleitores, etc.) uma assembléa de cretinos.

A sociedade é materialista; e a litteratura que é a expressão da sociedade é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de facto! Quixote, rei de direito!... É a litteratura que é uma hypocrita. (Garrett,Viagens).

A sociedade é materialista; e a litteratura que é a expressão da sociedade é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de facto! Quixote, rei de direito!... É a litteratura que é uma hypocrita. (Garrett,Viagens).

Hypocrisia? não: innocencia, propria de litteratos ou doutrinarios. O romantismo ficava sendo umgeneroe falso; a sociedade seguia o seu caminho. Sancho reinava. O municipalismo ficava sendo o que era, o que podia ser, um instrumento administrativo. Dir-se-hia, pois, que tudo eram tambem ruinas por este lado, e tudo anarchia? Não. Quando os homens valem, as suas obras fructificam, apesar das formulas a que obedecem. A natureza é mais forte do que as doutrinas, a realidade sobrepuja as chimeras. Como obra de homens ficaram os trabalhos de erudição historica de Herculano; ficou, para attestar o genio do artista Garrett, uma tragedia em que a tradição realmente o inspirou, oFrei Luiz de Sousa.

Na sua commovedora simplicidade, o drama representa o fundo intimo da vida portugueza, com a mistura de anceios e tristezas, esperanças envenenadas de fortunas apparentes e impossiveis que conduzem a essa devoradora melancolia que se chama saudade. O effeito é tanto mais desolador, quanto a esperança realisada apenas serve para despedaçar os corações. No fim, quando os personagens principaes dizem adeus ao mundo para entrar no convento, parece que a nação inteira pronuncía os votos.

Na sua commovedora simplicidade, o drama representa o fundo intimo da vida portugueza, com a mistura de anceios e tristezas, esperanças envenenadas de fortunas apparentes e impossiveis que conduzem a essa devoradora melancolia que se chama saudade. O effeito é tanto mais desolador, quanto a esperança realisada apenas serve para despedaçar os corações. No fim, quando os personagens principaes dizem adeus ao mundo para entrar no convento, parece que a nação inteira pronuncía os votos.

(Quinet,Vacances en Espagne).

OFrei Luiz de Sousaé a tragedia portugueza, sebastianista.[25]O fatalismo e a candura, a energia e a gravidade, a tristeza e a submissão do genio nacional, estão alli. Não é classico, nem romantico: é tragico, na bella e antiga accepção da palavra: superior ás escholas e aos generos, dando a mão, por sobre Shakespeare e Goethe, a Sophocles. N’um momento unico de intuição genial, Garrett viu por dentro o homem e sentiu o palpitardas entranhas portuguezas. Que ouviu? Um choro de afflicções tristes, uma resignação heroicamente passiva, uma esperança vaga, etherea, na imaginação de uma rapariga phtysica, e no tresvario de um escudeiro sebastianista.

Quando o genio tinha uma revelação d’estas, estaria forte, viva, crente n’uma tradição seguida, ávida por um futuro certo, a nação entregue aos braços da Liberdade?

Balouçada nos joelhos do tribuno a filhinha sorria, e elle tristemente se consolava, esperando, esperando ... mas para longe, quando, tudo acabado, D. Sebastião voltasse em uma manhan do nevoa ... um D. Sebastião iberico ...

Por ora, não. O povo inteiro pronunciava os votos cada dia mais formaes de uma abstenção decidida. Deixal-os, os politicos, fazer systemas e revoluções, cartas, juntas, programmas, côrtes, leis; deixal-os comer e engordar e devorarem-se: elles cançarão!

Já desanimados, tinham cançado Mousinho e Passos; mas havia gente nova, para uma terceira investida, um terceiro liberalismo: a Ordem. Mas como póde haver ordem nos factos, se as idéas são uma desordem? Como conciliar as instituições e as idéas, quando as primeiras, reconhecendo a aristocracia n’uma segunda camara, a, theocracia n’uma religião d’Estado obedecem ainda ao pensamento do primeiro romantismo, ou do tradição historica? quando o segundo fez recuar essa tradição para o campo vago de uma poesia, além de insufficiente para dar consistencia ao organismo social, falsa e artificial, obra de litteratos, paixãode archeologos e eruditos, inaccessivel ao povo? Como conciliar essas instituições com o principio da soberania do individuo, já combinado pela revolução com o da soberania do povo? e com o systema da concorrencia livre, prejudicado pela revolução, tambem, com o systema da protecção ás industrias? Essa ordem é um cháos, de instituições e idéas. Já não ha, é claro, uma Anarchia systematica, tal como a concebera Mousinho; mas em vez d’ella ha uma mistura de elementos contradictorios, liberaes, democraticos, romanticos, d’onde sae a supposta ordem da constituição de 38.

Assim, tambem, já não ha bandidos: os marechaes voltaram e juraram; mas sob a paz apparente lavram os germens de novas desordens. A anarchia fôra até 36 um systema. Agora pedia-se ordem; mas as vida antiga ia continuar contra a vontade dos homens já saciados, já desejosos de gozar em paz o fructo dos seus trabalhos. Rodrigo apparecia á frente dos setembristas e cartistas fusionados para o descanço: Rodrigo sceptico desde o berço, mas talvez crente em que no scepticismo estivesse a sabedoria, e por isso na constituição de 38 o porto desejado da vida liberal.

Não, não podia ser: a confusão dos elementos não podia dar a ordem nas instituições. Foi a rainha quem fez da Costa Cabral um instrumento para restaurar aCARTA(1842), cudilhar Rodrigo e os ordeiros fusionados, e os romanticos? Talvez fosse; talvez não fosse: logo o vermos. Mas o facto é que ostatus quonão era viavel, apezar das affirmações em contrario dos vencidos.

Palmella com o seu romantismo aristocratico pugnára pela conservação de uma camara de pares vitalicia, hereditaria; mas a revolução veiu e destruiu-a. Depois, em 38, o meio-termo creou a camarados senadores temporarios, electivos. É verdade que, extincta ou protestante por miguelista, a antiga aristocracia não podia preencher os lugares da camara; mas não é menos verdade que um senado temporario e electivo só é viavel dentro de um systema de representação de orgãos e classes da sociedade; sendo uma chimera, um accessorio inutil, uma duplicação van (como agora mesmo se vê em França), quando procede, como a camara-baixa, do suffragio popular, directo ou indirecto.

A antiga aristocracia demittira-se, é verdade; mas a liberdade e a concorrencia tinham creado um poder real e novo, uma plutocracia: a classe dos burguezes ricos que não podiam deixar o seu poder, os seus interesses, á mercê dos acasos das eleições; que não pactuavam com o individualismo, nem com a democracia, querendo para si o dominio seguro a que de facto lhes dava direito o seu poder estavel. Derrubadas todas as authoridades em holocausto á doutrina, só uma não podiam os doutrinarios destruir: o dinheiro. O dinheiro, pois, creou para si uma doutrina nova, que teve por defensor Costa-Cabral. Era um quarto, ou quinto liberalismo que surgia e vencia todos os anteriores.

Guizot e Luiz-Philippe tiveram de fazer em França o mesmo que D. MariaIIe Cabral fizeram cá. Aos burguezes diziam—enriquecei-vos! e ás instituições e garantias reformavam-nas no sentido de crear e consolidar a nova aristocracia dos ricos. Era uma fórma de Ordem que escapou ás previsões dos romanticos: os seus medos e coleras tinham-se voltado e consumido contra a democracia! O inimigo surgia abruptamente d’onde o não esperavam, e bateu-os com a maxima fortuna. Restaurou-se aCARTA, sem ser necessarioum tiro: é verdade tambem que da mesma fórma caíra em 10 de setembro. Os romanticos sinceros, ingenuos, esperando a acção dos meios moraes, esqueciam a força dos elementos positivos: a ordem que tinham fundado era uma bola de sabão. Um sopro desmanchou-a.

E assim devia ser tambem, perante a natureza das doutrinas. Pois se a unica fonte da authoridade moral e politica era o individuo, pois se a propriedade era a sagração de uma personalidade soberana, onde se havia de ir buscar o mandato, senão á vontade da maioria? como se havia de desconhecer a importancia suprema da riqueza? Porque protestavam, pois, contra os setembristas, chamandoignarasás maiorias? e contra os cabralistas chamando nomes aos argentarios? Ou o dominio do numero, ou o imperio do dinheiro: eis ahi onde aliberdadeconduzia fatalmente. Onde conduziria, senão á affirmação de uma authoridade cega do numero ou das forças brutas, a doutrina que negára a authoridade social em nome da natureza do individuo?

Falhára a conclusão democratica; mas ia vencer a aristocracia nova: assim terminavam noabsolutismo illustradoos diversos liberalismos.

D’esta ultima ruina qual é o cadaver que surge? Quem é agora o successor de Mousinho ou de Passos? Ninguem; não ha, porque não houve tempo bastante para fazer desilludidos. O tempo virá, e d’aqui por dez ou doze annos, veremos como acabam de vez as illusões de Herculano, o romantico ordeiro. O tempo virá, e na mesma hora veremos Rodrigo, já cabalmente educado, jáde todo em todo sceptico. Aprendera afinal a conhecer a sua terra, a sua gente, o seu tempo! Singular cegueira fôra o que suppunha em si perspicacia: «não o cudilhariam outra vez».

Agora, ainda o consummado actor não compunha bem o seu sorriso final, satanico, de uma ironia e desprezo universaes; ainda tinha despeito e até colera, vendo a victoria do rival duro e forte. Agora, representava-se oFrei Luiz de Sousae as platéas, commovidas, choravam, pensavam tristes. Ruinas, sempre ruinas!... Ergue-se, porém, um homem novo: será um messias? será D. Sebastião? Mas recordavam-se de o ter ouvido nos Camillos, e extranhavam ao vêl-o agora nos degraus do throno. Entre duvidas, esperanças, tristezas, submissões, desesperos, acabava a anarchia liberal, para dar logar ao absolutismo novo, erguido sobre a Babel das riquezas obtidas, Deus sabe como! nos tempos da desordem.

A magnificencia de Lisboa é mais triste do que as charnecas de Hespanha: ruas sumptuosas, praças immensas, a cabeça de um grande imperio,—e o silencio, a solidão d’uma terra, ou d’uma Gomhorra subvertida. Feria-me sobretudo esta melancolia, quando a comparava á embriaguez das cidades de Castella e da Andaluzia. A Hespanha dança por sobre as suas ruinas: Portugal agonisa no atrio de um palacio. (Quinet,Vacances en Espagne)

A magnificencia de Lisboa é mais triste do que as charnecas de Hespanha: ruas sumptuosas, praças immensas, a cabeça de um grande imperio,—e o silencio, a solidão d’uma terra, ou d’uma Gomhorra subvertida. Feria-me sobretudo esta melancolia, quando a comparava á embriaguez das cidades de Castella e da Andaluzia. A Hespanha dança por sobre as suas ruinas: Portugal agonisa no atrio de um palacio. (Quinet,Vacances en Espagne)

NOTAS DE RODAPÉ:[21]V.O Brazil e as colon. port.II, 1, 5.[22]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)I, pp. 123-5.[23]V.O Brazil e as col. port.(2.ª ed.)I, 1, 5.[24]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)II, pp. 129-30 e 177-8.[25]V.Hist. de Portugal, l.V, 4.

[21]V.O Brazil e as colon. port.II, 1, 5.

[21]V.O Brazil e as colon. port.II, 1, 5.

[22]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)I, pp. 123-5.

[22]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)I, pp. 123-5.

[23]V.O Brazil e as col. port.(2.ª ed.)I, 1, 5.

[23]V.O Brazil e as col. port.(2.ª ed.)I, 1, 5.

[24]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)II, pp. 129-30 e 177-8.

[24]V.Hist. de Port.(3.ª ed.)II, pp. 129-30 e 177-8.

[25]V.Hist. de Portugal, l.V, 4.

[25]V.Hist. de Portugal, l.V, 4.


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