IVOS IMPENITENTES

IVOS IMPENITENTES

Voltara a paz, e para que o leitor não proteste contra as côres funebres com que pintámos a guerra, seja-nos licito transcrever aqui a opinião contemporanea de um dos nossos mais levantados espiritos:

Hoje (1849) nos achamos entre um passado impassivel (depois das leis de Mousinho) entre um futuro tremendo porque é obscuro, insondavel e de nenhum modo preparado, e com um presente tão absurdo, tão desconnexo, tão incongruente, tão chimerico, tão ridiculo emfim, que se a perspectiva não viesse, como vem, tão cheia de lagrimas, seria para rir e tripudiar de gosto, ver como vivemos, como nos a tributamos, como nos administramos, como somos emfim um povo, uma nação, um reino! (Garrett,Mousinho da Silveira)

Hoje (1849) nos achamos entre um passado impassivel (depois das leis de Mousinho) entre um futuro tremendo porque é obscuro, insondavel e de nenhum modo preparado, e com um presente tão absurdo, tão desconnexo, tão incongruente, tão chimerico, tão ridiculo emfim, que se a perspectiva não viesse, como vem, tão cheia de lagrimas, seria para rir e tripudiar de gosto, ver como vivemos, como nos a tributamos, como nos administramos, como somos emfim um povo, uma nação, um reino! (Garrett,Mousinho da Silveira)

Voltara a paz, dissemos. Era chegado o momento de encarar de frente a situação do enfermo, que parecia mais incuravel depois do ultimo accesso. Extenuado, jazia exangue, não diremos nas vesperas da morte, porque o seu existir já não se podia chamar vida. As nações, como os individuos, tambem pódem arrastar-se vegetando, sem propriamente viverem. A guerra acabara, não ha duvida, mas faltava ainda liquidar a crise, e como a paznão significava abundancia, mas sim a continuação da miseria, continuava a mesma indecisão das medidas, ora dirigidas a manter o credito das notas, ora a sacrifical-as ás necessidades do Thesouro. O ministerio nomeado depois da paz reage contra as resoluções tomadas n’este ultimo sentido, e restabelece a proporção de metade apenas em dinheiro nos pagamentos do Estudo. A causa do agio, diz, fôra a guerra e a excessiva procura de moeda metallica para o exercito; mudaram as circumstancias e o augmento na relação das notas nos pagamentos concorrerá para diminuir o rebate. (Decr. de 11 de setembro) Mas o problema era mais complicado, as causas mais profundas, e tres mezes bastam para que esta doce illusão se dissipe. A loteria das suas esperanças ficava em papel; e nem por se ter acabado a guerra podia apparecer dinheiro, porque o não havia em casa, nem de fóra ninguem o daria, quando os juros da divida estavam por pagar. Tres mezes bastam, dizemos, para convencer de que o unico meio de resolver a questão é supprimil-a, por meio de banca-rota declarada. Tire-se ás notas o caracter de papel-moeda; negue-lhes, por uma vez, o Estado a sua garantia; declare que as considera um papel commercial, cotavel, e já não fará mais do que reconhecer o facto nas relações privadas, augmentando as receitas publicas insupportavelmente amesquinhadas pelo rebate d’aquella parte, o terço ou metade, realisada em notas. Os decretos de 9 e 14 de dezembro fizeram com effeito isto. Largas considerações, meritorias por serem sensatas, francas e verdadeiras, justificavam a medida que abolia o curso-forçado, retirava a garantia do Thesouro e o caracter de moeda a umas notas que o banco já não podia ser compellido a converter á vista, oque seria obrigal-o a fallir, por isso que a sua amortisação fôra anteriormente pactuada por meios e fórmas varias. A contar de 20 de dezembro as notas poderiam entrar por metade nos pagamentos ao Thesouro, mas não pelo valor nominal, só pelo valor real, segundo as cotações da bolsa.

Esta banca-rota positiva, mas opportuna e inevitavel vinha consummar a ruina da circulação fiduciaria portugueza, augmentando os embaraços de uma nação desprovida de capitaes circulantes e por isso mais necessitada de inventar um instrumento artificial de circulação que pudesse substituir a moeda escassa. Mas, para que os artificios sirvam, é sobretudo mistér juizo, prudencia, e paz, cousas que nós desconheciamos.

A revolução e a guerra, deitando por terra o castello de cartas da agiotagem cabralista, tinham arruinado comsigo, na queda, a circulação fiduciaria portugueza. Era mais um passo andado no caminho de uma decadencia economica, declarada desde o principio do seculo, e que até agora o liberalismo não conseguira corrigir. As estatisticas do commercio (V.Mappas geraes, 1848) demonstram-no de um modo eloquente:

Depois da primeira data, vem a invasão franceza e a franquia do Brazil ao commercio extrangeiro;depois da segunda, a separação e independencia da nossa colonia; depois da terceira, as revoluções liberaes e a anarchia constitucional: eis as causas successivas de empobrecimento. Agora começava a soprar uma aragem, prenuncio de melhores tempos: viria uma regeneração? Ainda era cedo para o crer, tanto mais que a França, infelizmente mestra dos nossos homens, ia lançar-se n’uma aventura democratica, fazer a sua revolução-de-setembro (em fevereiro), proclamando a republica. Não faltava entre nós quem suspirasse por ensaiar esta ultima definição verdadeira, absoluta do liberalismo, depois de desacreditadas as anteriores e successivas.

Não crescia, caía todos os dias o commercio externo, metro seguro da prosperidade de um povo culto. Mas augmentava sempre, assustadoramente, a divida contrahida para ensaiar, com intrigas e revoltas, essas varias fórmas da doutrina. E a divida crescia, porque os ensaios, arruinando internamente a nação, não consentiam que os seus redditos augmentassem. O imposto não dava:

Já appareciam as observações retrospectivas e confissões sinceras dos males accumulados. Eram reconhecidamente muitos: os erros administrativos e financeiros, as eleições corruptoras ou barbaras, as sociedades secretas, a licença da imprensa, os excessos da tribuna, e sobre tudo amendicidade dos empregos: «as guerras civis de Portugal são evidentemente as guerras dos empregos publicos». (Autopsia dos partidos politicos, op. anon.) São, nem podiam ser outra cousa, porque o communismo burocratico substituira o monastico, no regime de uma nação cachetica:

N’esta babel em que vivemos, tudo passa inapercebido, no meio da confusão de todo o pensar e sentir. Esta é a terra classica da ingratidão regada pelo Lethes do Desmazelo e do Não-se-me-dá, da mais estupenda caducidade em que póde caír um povo. (Garrett,Mousinho)

N’esta babel em que vivemos, tudo passa inapercebido, no meio da confusão de todo o pensar e sentir. Esta é a terra classica da ingratidão regada pelo Lethes do Desmazelo e do Não-se-me-dá, da mais estupenda caducidade em que póde caír um povo. (Garrett,Mousinho)

Não-se-me-dá é a expressão natural dos pobres que nada teem a perder, e por isso a ninguem se lhe dava que as cousas caminhassem para uma banca-rota, já desde 38 considerada inevitavel, e util pelos que propunham oponto geral. Não se descobria, com effeito, o modo de solver encargos progressivamente crescentes, perante recursos, ou paralisados ou decadentes. O governo confessava o deploravel estado das cousas, (V. o relatorio notavel do min. Falcão; março de 48) e os observadores comparavam os numeros e apertavam a cabeça com as mãos, vendo a perdição irremediavel. (V.Autopsia, etc.)

Quintuplicara, e para que? para ensaiar systemas, matar gente com revoltas, e pauperisar cada vez mais o reino. E além d’essa divida, havia a mais a fluctuante, em mais de dez mil contos que dariam o dôbro, expressos em titulosfundados. Enão se contava a dividamansa; e os bens nacionaes vendidos tinham ainda assim produzido cerca de vinte mil contos, e ás classes activas devia-se mais de um anno, ás inactivas quasi dois, apesar das decimas, das capitalisações e dos pontos anteriores successivos. (Autopsia, etc.)

Como se havia de existir, com uma fome assim? Londres renegara-nos. Os tempos dourados de Mendizabal-Carvalho não tornavam. O paço dos judeus inglezes, o Stock-exchange, dera-nos com as portas na cara, não nos julgando crédores da honra de sermos apresentados e cotados. Valiamos nada.

Seria interessante saber se no meio da penuria, da anarchia e da guerra, a população crescia. Não espantaria que crescesse, pois a indigencia é prolifica, pois a legislação reduzira o numero dos celibatarios, pois as guerras eram mais vergonhosas do que propriamente mortiferas. Mas os subsidios faltam, e os poucos existentes merecem pequeno credito. (V. Luis Mousinho, na ref. admin. 1836; C. Adriano da Costa,Rev. de Recens.1838;Relat.do minist. do reino, 1849 e 50)

A dar authoridade a estes numeros, conclue-se que a população crescera duzentos mil habitantes em quatorze annos, ou a razão de 6,5 por mil ao anno. A comparação dos recenseamentos de 1826 (NoAlmanach de Lisboa) e de 1838 apresenta um progresso quasi egual, (3:013—3:224, augm. 210) mas a estatistica d’esses dois annos contradiria o resultado observado acima no periodo posterior ao segundo, (V.Quadro, noDiario, 21 de abril de 40)

porque, ao passo que em 26 ha uma sobra de (102-66) 36, em 38 essa sobra é de (99-67) 32 apenas: a mortalidade seria no primeiro caso de menos de 66 p. 100 da natalidade e no segundo de quasi 67.

Mas seria perdermos o tempo architectar hypotheses sobre alicerces tão falliveis e grosseiros. Chama-nos a conclusão d’esse balanço economico do paiz para um calculo interessante do custo da sua ultima revolução. (V.Diariode 8 de junho de 47)

Perdas de credito

Perdas do thesouro

Perdas geraes

As verbas indeterminadas calcule-as quem puder, e achará que a revolução e a guerra deram uma ultima sangria não inferior a 50 mil contos ao corpo já quasi exangue da nação. Que admira pois a cachexia universal? «Recordei-me com amargura e desconsolação dos tremendos sacrificios a que foi condemnada esta geração, Deus sabe para quê,—Deus sabe se para expiar as faltas dos nossos passados, se para comprar a felicidade dos nossos vindouros.» (Garrett,Viagens) Assim, poeticamente, se exprimia Garrett, memorando casos transactos; e o que succedia depois não authorisava a crer que se tivesse comprado então a felicidade dos vindouros. Expiar-se-hiam as faltas passadas? Expiavam-se, expiavam-se de certo as consequencias de uma deploravel educação historica; mas tambem se soffria o resultado natural de uma illusão ephemera creada por uma philosophia erronea. Como nós, a Hespanha saía das mãos do illuminismo jesuita para caír nas mãos do espiritualismo liberal, e a historia da Hespanha era o mesmo que a nossa. Mas a França, que toda a Europa seguia, semter tido essa educação mortifera, soffria como nós as consequencias do romantismo politico, do doutrinarismo individualista, e da anarchia positiva: do governo immoral, além de tyranno, da burguezia rica, imperio formado espontaneamente sobre as ruinas do velho Estado monarchico.

O setembrismo morrera de vez depois de terem desempenhado o seu triste papel os chefes timidos que por suas mãos tinham abafado a revolução. Mas teria a historia dos ultimos dois annos convertido os cabralistas, cuja tyrannia brutal, cuja avidez deshonesta, alliadas á energia no mando e á audacia no pensamento, provocaram o desespero e a revolta do povo? Viu-se que não. Consideraram-se vencedores; e se o extrangeiro lhes não permittiu vingarem-se, e se o desmoronamento da machina agiota não consentia voltar-se aos doirados tempos, os cabralistas seguiam, mais modestos, mais moderados, governando o reino como cousa sua.

Como rasto de um terramoto, a segunda metade de 47, depois de Gramido e da victoria do governo, agitada com o borborinho das eleições proximas, arrastou-se com um cortejo de vinganças e desordens. A soldadesca desenfreadamente espancava nas cidades e especialmente no Porto—agora tão odiado como antes o fôra no tempo de D. Miguel. Artilheria 3 era apontada como eximia em arruaças cabralistas. Os vidros das casas patuléas, do José Passos e d’outros, voavam em estilhas com pedradas. ONacional, oEcco popular, orgãos dos vencidos, eram colhidos das mãos dos distribuidores e rasgados aos centos. Por todo o reino haviaroubos, espancamentos, assassinatos. Só em Evora, nos tres mezes depois de Gramido, houvera doze attentados em publico pela soldadesca. (Rev. de Setembro, 8 de set. 47) ONacional, cuja typographia fôra assaltada, e a commissão opposicionista para as eleições, pediam protecção ás potencias alliadas, reclamando a amnistia promettida. Era um reflexo pallido do que succedera em 34 ao miguelismo, tambem amnistiado depois de Evora-Monte.

As eleições de 48 trouxeram o conde de Thomar á camara. Chegava triumphante, depois de um desterro, já transformado em uma embaixada, d’onde guiara o seu lugar-tenente Saldanha, d’onde urdira a trama da intervenção hespanhola que afinal arrastara a Inglaterra, congregando os elementos da victoria. Os vencidos, vendo-o regressar ao seu posto, á camara, primeiro degrau de um segundo throno, foram-se ás armas, pegaram das munições, prepararam-se desde logo para uma nova campanha. Costa-Cabral, o conde de Thomar, era mais do que um homem: era um systema e um phantasma. No odio com que o recebiam mostravam-lhe quanto elle valia, pelo medo que lhe tinham.

A cadeira de deputado foi, com effeito, a breve transição da embaixada para o governo, onde substituiu Saldanha. (18 de junho de 49) Essa restauração teria tido lugar muito antes, se a guerra não tivesse respondido ao golpe-d’Estado de 6 de outubro, no qual Saldanha era apenas a força bruta do exercito destinada a preparar a volta do estadista banido em maio.

Eis, portanto, de novo as cousas no estado em que a primavera de 46 as achára; eis perdido otempo, e o dinheiro, e as vidas, e dois annos de revolução e guerra. Congregam-se outra vez as guerrilhas? agita-se de novo o povo? Não. A Maria-da-Fonte morreu; Macdonell morreu; os camponezes voltaram para suas casas batidos por uma saraivada de desesperanças, decididos a não querer saber mais do governo; os miguelistas resolutamente se fecharam nas suas covas. Nenhum espectro surgia ...

Apenas a imprensa desvairada dos politicos batia sem piedade o homem a quem se costumara a cobrir de lama. E a velha calumnia da lenda do castello de Thomar levantava a cabeça, não poupando a reputação pessoal da rainha a quem, confundindo a politica e a modestia, equivocamente chamava tolerada. Accusavam de seu amante o ministro, e elle, o homem forte, commetteu a maior das fraquezas, mandando processar em Londres oMorning Postque repetiu as infamias das folhas de Lisboa. É que tambem caía, tambem descia, o antigo tribuno dosCamillos, o cansado tyranno de Lisboa.

Só não cansava a imprensa, no seu desalmado ataque. ANação, na capital, imprimia um requerimento á rainha: «Senhora! o vosso ministro é accusado de receber um caleche e dar por elle uma commenda. Senhora! o vosso ministro pedia-vos uma commenda para pagar os caleches com que o peitavam». E oNacional, no Porto, publicava uma scena dramatica, entre burlesca e tragica, amorosa e torpe, em que o côro exclamava—ó ladrão! larga o caleche! (ass. C. Castello-Branco, 19 de dezembro, 1849) OSupplemento burlesco, em lithographias toscas e caricaturas grosseiras insultava diariamente os Cabraes e a sua gente, mostrando que o antigo genio soez da satyra portugueza não se extinguira. Aquivinha oTriumpho do Chibo: um bode (o conde de Thomar) com um sacco aos hombros e o letreiroroubo; o chibo sobre um andor que é um cofre, o Thesouro, levado por Saldanha e por José Cabral, o dos conegos, de vestes talares. (n. 39, dez. 23 de 47) Além é oChibo d’Algodres, um grande bode com a face do conde de Thomar, de pé, tendo uma vara ao hombro e pendentes, á laia de sacco, os palacios famosos: Thomar, a Estrella; o rabo do bicho está enlaçado com folhas tendo escriptos os nomes das companhias do tempo. (n. 28 nov. 15) N’outro apparece o famoso padre Marcos, oArcebispodoCartaxo, Porto e Chamusca: é uma botija, tendo na bocca a cabeça do padre mitrada, e nas azas ou mãos, o baculo de um lado, o copo do outro. (n. 32 nov. 29) OJosé dos Conegostambem é chibo com o trajo talar arregaçado, pistolas ao cinto, na mão aArte de furtar. (n. 42 jan. 3 de 48) Veem tambem os empregados publicos, aranhas, esqueletos, mirrados e seccos, e no centro da folha o conde de Thomar com um ventre inchado, monstruoso «cheio como um ovo». (n. 29 nov. 18 de 47) Não falta o Saldanha naArvore das caras, em que os ramos, os rebentos, os tortulhos do chão, tudo sãocarasdiversas do versatil, regadas pelo jardineiro de Thomar com dinheiro em vez de agua. (n.º 41 dez. 30) E assim por diante, os pasquins pintados coadjuvavam as diatribes escriptas. Veiu alei-das-rolhas, e Cazal Ribeiro, bem moço ainda, mas ensopado no virus politico, cheio de talento e enthusiasmo, homem de uma geração nova que mal fazia em se envolver nas questões da antiga, declamava n’um estylo obeso:

Conde de Thomar, sois um concussionario porque entrastes para o poder pobre e tendes adquirido uma fortunaimmensa por meios torpes e vergonhosos. Conde de Thomar, sois um traidor, porque vendestes ao paço a causa do povo em 1840; porque vos revoltastes contra a constituição que servieis em 1842; porque arrastaes agora o throno e a nação a um precipicio certo e talvez á invasão extrangeira. Conde de Thomar, sois um despota ignobil porque calcaes a decencia, as leis, a constituição, e governaes só pela bitola do vosso capricho. Conde de Thomar, sois um imbecil, porque a vossa habilidade cifra-se na intriga e o vosso poder depende só do favoritismo. Conde de Thomar, sois um miseravel, porque vos servís, como meio politico, da honra de uma senhora, de uma rainha: porque a sacrificaes impudentemente aos vossos nefandos fins. (Cazal Ribeiro, AImprensa e o conde de Thomar, 1850.)

Conde de Thomar, sois um concussionario porque entrastes para o poder pobre e tendes adquirido uma fortunaimmensa por meios torpes e vergonhosos. Conde de Thomar, sois um traidor, porque vendestes ao paço a causa do povo em 1840; porque vos revoltastes contra a constituição que servieis em 1842; porque arrastaes agora o throno e a nação a um precipicio certo e talvez á invasão extrangeira. Conde de Thomar, sois um despota ignobil porque calcaes a decencia, as leis, a constituição, e governaes só pela bitola do vosso capricho. Conde de Thomar, sois um imbecil, porque a vossa habilidade cifra-se na intriga e o vosso poder depende só do favoritismo. Conde de Thomar, sois um miseravel, porque vos servís, como meio politico, da honra de uma senhora, de uma rainha: porque a sacrificaes impudentemente aos vossos nefandos fins. (Cazal Ribeiro, AImprensa e o conde de Thomar, 1850.)

E a decadencia dos caracteres era—e continuou a ser—tal e tanta, que os inimigos trocavam entre si as maximas injurias, sem logo se apunhalarem, ou se baterem a tiro, a tres passos. Não! erapolitica. Dias depois sorriam lado a lado, sentados juntos na mesma camara. Erapolitica! Não se está sentindo a necessidade de umaregeneração? Não se percebe que o momento da victoria final da rapoza se approxima? De gritar estão fartos, de nodoas todos sujos, de gritar todos surdos: abracemo-nos todos! Vinte annos escassos de uma historia que o conde de Thomar, como um dormente, protrahia de mais, levavam a esse abraço fatidico.

De um e de outro lado já se encontram nomes novos: Cazal e Latino na opposição; Corvo, pelo governo, mostrando aos adversarios a inconsequencia de atacar o gabinete por se apoiar no exercito, quando tinham por chefe um general, (Antas) patenteando o vasio dos seus desejos, o indeterminado dos seus programmas. (Corvo,Fallou a opposição!op.) E dos velhos jacobinos, dispersos, aborrecidos, desilludidos, apenas um restava para condemnar não sóo governo, como o soberano; não só a rainha, como a dynastia inteira dos Braganças:

De quantas dynastias senhoream hoje a Europa, é a de Bragança, que nos governa, a mais ominosa de todas, como quem teve principio em crimes e traições abominaveis. (D. Affonso matara o conde D. Pedro em Alfarrobeira; e o neto fôra degollado por D. João II em Evora) D’essa familia não se póde contar nenhum rei que fosse patriota; e se não fossem os extrangeiros (em 47) ter-se-hia dado o espectaculo novo de um rei expulso pelo povo portuguez.—Por Deus, senhora D. Maria II! Veja V. M. o paradeiro que teve em palacio, á vista da rainha D. Leonor Telles, o conde Andeiro! (J. B. Rocha,Rev. de Portugal, 52)

De quantas dynastias senhoream hoje a Europa, é a de Bragança, que nos governa, a mais ominosa de todas, como quem teve principio em crimes e traições abominaveis. (D. Affonso matara o conde D. Pedro em Alfarrobeira; e o neto fôra degollado por D. João II em Evora) D’essa familia não se póde contar nenhum rei que fosse patriota; e se não fossem os extrangeiros (em 47) ter-se-hia dado o espectaculo novo de um rei expulso pelo povo portuguez.—Por Deus, senhora D. Maria II! Veja V. M. o paradeiro que teve em palacio, á vista da rainha D. Leonor Telles, o conde Andeiro! (J. B. Rocha,Rev. de Portugal, 52)

O conde Andeiro ria sarcasticamente. Chamavam-lhe estafador, concussionario, ladrão publico; e elle mordia-se de colera, se é que o habito lhe não dera já impassibilidade. Sabia demasiado o modo de não irritar o povo: deixar-se de innovações perigosas, deixar seguir o barco da conservação na maré da banca-rota. Seguro o exercito, conhecido o modo defazeras eleições, legalisado o systema, que lhe importava o ladrar dos inimigos? Mas é que esses ataques passavam por sobre elle, iam direitos ao soberano: «Protege V. M. os homens sabedores? Favorece os artistas? Acode á pobreza desvalida?—Nada d’isso: só deu a Costa-Cabral o Alfeite.» (Ibid.) E os periodistas o follicularios já não se pejavam de propagar, clara, abertamente, a urgencia da abdicação da rainha.

Tão longe não iam os pares na sua camara, mas nenhuma voz era mais cruelmente desapiedada do que a voz sibillante do terrivel Lavradio. O ministro rira até então, mas quando Saldanha,fosse pelo que fosse, passou para a opposição, tornou-se serio, e nas vesperas de acabar viu-se ainda o homem antigo. O marechal, passando-se, via o exercito inteiro a bandear-se: imagine-se com que abraços a opposição o não receberia! Quem se lembra já de Torres-Vedras, e das injurias, e dos degredos! Politica! Mas Costa-Cabral propoz-se demonstrar que Saldanha era nada: um homem-de-ferro, como o de S. Jorge na procissão deCorpus; no que se não enganava inteiramente, como 51 o demonstrou e veremos. O marechal foi demittido do paço, e logo pediu a demissão de todas as suas honras e cargos. Deu-se-lhe; e o ministro, outra vez temerario, não se lembrou de que um antigo Cid, umcondottiere, patrono de tão consideravel clientela, não se mata por metades. Ou se fusila, ou se compra. O povo sempre disse: «quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre.»

Varios symptomas indicavam a morte proxima do cabralismo; mas, assim como os doentes nas vesperas de acabar têem ás vezes como um clarão de saude, assim é necessario, antes de apreciarmos as causas directas da quéda proxima do conde de Thomar, contar o seu ultimo dia, quando a antiga força pareceu reviver e o sangue todo circular com energia antes de o coração parar.

Saldanha renegara-o; os pares da opposição (Taipa, Lavradio, Loulé, etc.) tinham pedido á rainha a demissão do ministro odiado, accusado de crimes torpes que manchavam de lodo o governo e até o throno. Abertas as camaras no principio de 50, osdebates pareciam audiencias e o ministro um réu. As galerias dos Pares, cheias de povo, estavam com a accusação: o conde de Thomar era, como Guizot e os doutrinarios em geral, antipathico. O povo não ama a seccura e a rigidez das formulas pedantes; o povo está prompto a crêr sempre na criminalidade dos que o governam, desde que o principio da rebeldia constitucional contra o Estado appareceu e venceu; desde que se poz no direito publico um dualismo organico entre aliberdadee aauthoridade, supposta antinomia. O conde de Thomar era antipathico, e não tinha para contrariar esta consequencia da indole da sua politica, nem os creditos de integro, nem os de sabio, que escudavam o seu modelo Guizot.

«Eu não posso ser considerado como obnoxio á nação que sendo chamada á urna me favorece sempre com a sua opinião quasi geral.» (Disc. de 12 de jan.) Em vez de atacar, defendia-se, o ministro: evidente prova de fraqueza; e a defeza era triste, molle. A quem pretendia enganar, ou convencer? Pois sala e galerias, pares e povo, não sabiam todos o que eram eleições e urna? Tanto sabiam, que estrepitosos risos acolheram a saída do diogenes burocratico: fraco cynismo, se provoca o riso!

Mas essas gargalhadas os esporearam-no. Pulou. Torcia-se-lhe a face, luziam-lhe os olhos, e resuscitava o homem de 42. Então, depois da aventura do Porto, olhando a desafiar os inimigos, dissera-lhes: Conspirei? tambem vós! conspirámos todos. Agora a accusação era outra, mas o processo identico: Roubei? tambem vós! roubámos todos.

E sarcastico, odiento, inverteram-se os papeis: o réu passou para o banco da accusação. Tinha diante de si um masso de jornaes impressos, e abrindo-os, via-se cada folha tremer com a convulsãodo pulso do ministro: Accusam-me de ladrão? E quem? Saldanha não saberia que a propriaRevolução de Setembrolhe dissera o mesmo a elle? Porque não a processou, e quer que a processe agora eu?—E abria o papel, lia o que occorrera em certa arrematação das Sete-Casas: «A praça estava aberta, as condições foram umas e a arrematação foi feita por outras. Não é isto uma burla?» Que motivos houvera? «Estavam jácalçadas as luvas. Vencedor de Torres! não córes; tudo se sabe». (Rev. de Set.10 de jan. de 48)

Nem a sala, nem as galerias riam já. O caracter não era ainda uma ficção, como a Urna. O ministro feria com acerto, e, ávida de escandalo, a assembléa, muda, obedecia-lhe.—Quereis mais? Ouvi: «Mais vergonhosa ainda é aquella historia do retrato. O retratista recebeu 180$000 rs. para elle; para 400, vão 220 que faltam. Onde se sumiram, duque de Saldanha?» Outro artigo: «Miseria, sr. ministro, é o roubo de 220 mil réis; miseria é v. ex.ª considerar uma miseria a accusação por esse roubo ... Quem recebeu mais de sete contos por um emprego que nunca exerceu, não admira que considere 220 mil réis uma miseria». (Rev. de Set.18 de jan.)

O bote estava dado em cheio no refalsado peito do marechal que o atraiçoara, depois de por tanto tempo o servir. Mudando o tom e a voz, com uma gravidade de secretaria, o ministro observava, dobrando os jornaes, que era «o primeiro a fazer justiça á honra e probidade do digno par», mas que se achava na obrigação de defender-se. Todos os homens d’Estado d’este paiz tinham sido accusados de ladrões pelos jornaes diffamadores, e todos os tinham desprezado, nenhum os chamara ao jury: elle faria outro tanto, seguiria tão bons exemplos.E admirava-se de que fosse o marechal quem se voltasse contra elle; o marechal que, ao saír da presidencia do conselho, declarára ser com elle, ministro, «uma e a mesma cousa»; o marechal que em dezembro de 47 o mandara embaixador para Paris; o marechal, etc. (Disc.de 12 de jan. de 50)

Fustigado, bem moído, este primeiro e novo inimigo, o conde de Thomar voltou-se para os antigos. A opposição, no seu manifesto, reclamava a demissão d’elle sob pena de uma revolução terrivel ou do dominio hespanhol; e o ministro, firmando bem os pés no chão, n’um accesso de furia, respondeu-lhe suffocado, rôxo:—«Não saírei d’aqui!» Dominou-se, porém, logo, a contar como as cousas se dispunham na camara para o atacar. «Havia pelotões para dar apoiados.» (A sala inteira riu francamente). Observara-se como certos dignos pares que nunca falavam, se agrupavam no cumprimento d’esse dever. Faziam bem: para nada serviam! (Ibid.)

Com este sarcasmo voltara a accusar. O conde da Taipa dissera que «o presidente do conselho era objecto do odio geral», e quando repetia estas palavras, o conde de Thomar exprimia aquelle orgulho quasi voluptuoso que os homens da sua tempera sentem ao perceber, no odio, a importancia que têem e o medo que inspiram.—Era objecto de odio geral, dizia o conde: logo falariam; mas elle, ministro, buscava as demonstrações legaes, e dizia que nos governos representativos a Urna era toda a legalidade—resvalando outra vez o doutrinario para a perigosa selva das fórmulas. Havia rumor, sussurro, na sala e nas galerias, sempre que se falava na Urna.

«Se a guerra é contra mim, tenham a coragem de me accusar em fórma: se o não fizerem hãode permittir que lhes diga que são hypocritas.» A voz tremia-lhe, e agitando-se, crescendo-lhe o odio, chegava á eloquencia verdadeira e forte. Com a audacia de um vencedor, encarando de frente os inimigos, ensinava-lhes como haviam de formar o libello.—Digam, vamos: 1.º O presidente do conselho commetteu o crime de peita, dando uma commenda e recebendo por ella um caleche.—Sigam: 2.º Tem palacios, tem quintas, tem castellos, tem ricas tapeçarias e um luxo asiatico ... A camara, pasmada vergava: era um monstro de cynismo? Elle aproveitava a emoção, continuando: 3.º Tem um tinteiro de ouro!—e vencia, arrancando aos ouvintes uma gargalhada unisona.—Não parem: 4.º Quando a rainha o honrou, visitando-o no seu palacio de Thomar, elle apresentou-lhe um serviço de ouro tão rico que a soberana disse: é mais rico do que o meu!—Mais ainda: 5.º Está edificando uma sumptuosa sala de baile, aproveitando-se dos marmores e madeiras do palacio d’Ajuda.—Outra: 6.º Empalmou uma letra de mais de mil libras, mandada do Brazil por um portuguez para as urgencias do Estado.—Mais: 7.º OMindelloveiu carregado de espelhos para o seu palacio.—Mais: 8.º Possue a mais rica garrafeira.—Mais: 9.º Recebeu por peita um cavallo.—«Havia mais? Dizia a imprensa alguma outra cousa? Juntassem, sommassem; mas tivessem a coragem de o accusar, alli, clara, publicamente.»

Até ahi o seu discurso galopava, esmagando tudo; mas quando, ao parar, regressou, perdeu-se. Não teve habilidade para acabar, e quiz defender-se. Guizot vencia pedagogicamente leccionando; não respondia a ataques. Costa-Cabral vencia tambem, á peninsular, investindo: porque se deixava bater, discutindo? Algum motivo inconsciente oimpellia a explicar casos que não seriam inteiramente calumnias? Se assim era, provava a sua fraqueza; do contrario, a sua simplicidade. O discurso continua embrulhado, pastoso, monotono. As explicações podem satisfazer, mas com o odio, com as paixões, não se debate. Seria mistér que ao periodo dos sarcasmos se seguisse uma d’estas provas theatraes, dramaticas, capazes de impressionar a imaginação, embora não convençam a razão fria que é sempre o dote do menor numero. Era isso o que faltava ao ministro, a imaginação; era isto o que sobrava ao outro homem que a historia põe diante d’elle, Passos. D’ahi vinha a um o ser odiado, adorado o outro: apesar do segundo ser muito superior, como força e verdadeiro talento. E Passos era virtuoso, podendo deixar de o ser sem perder por isso a popularidade; e Cabral passava pelo não ser, sem que podesse ganhar sympathias, ainda que o fosse.

O povo, como massa, tem um modo de sentir e de se decidir, para o qual não colhem as fórmas simplesmente logicas da argumentação. Foi o que o conde de Thomar e toda a eschola doutrinaria jámais perceberam, teimando em convencer as massas com raciocinios e fórmulas, e opprimindo ou burlando quando viam não serem comprehendidos. Nenhum systema politico se presta mais á tyrannia e á burla do que o systema arithmetico do governo das maiorias.

Inorganico, ou se perde na confusão da anarchia, ou cáe na paz da indifferença apathica, ou n’uma corrupção systematica, n’um processo de burlas e sophismas. O leitor viu a primeira conclusão, verá dentro em pouco a segunda: a terceira é a de agora. E a fraqueza do Guizot portuguez estava no acanhamento do seu espiritosêcco, tomando as fórmulas escholarmente a sério. Hirto, duro, era um ariete para bater; mas sem plasticidade, sem o que quer que é de communicativo e seductor que arrasta o povo, em qualquer sentido. Era a Antipathia personalisada. Vencia, mas não convertia. O advogado argumentava, depois que o tribuno aggredira; e o povo, impressionado pela violencia, ficava indifferente ás argucias. Não as comprehendia, e repugnavam-lhe. O conde de Thomar era a personalisação, como que o symbolo da antiga historia de delapidações: o povo espontaneamente o apedrejava, como victima expiatoria. Pagava os crimes de muitos. Não era o sangue, eram os roubos de uma geração que lhe caíam sobre a cabeça. Para se salvar de uma tal situação, seriam mistér qualidades, genio, imaginação, phrases, que não tinha. O clamor accusava-o de roubos: era necessario mostrar-se modesto e desvalido. De que servia saber-se que a rainha lhe arrendára o Alfeite? Nos governos de publicidade o rei é nada. Quando aopiniãogoverna, é necessario que fique, ou pareça ficar pobre, aquelle que para o governo não entrou rico. Ai, dos que enriquecem, embora lisa, honestamente. O politico é como a mulher de Cesar; e na psychologia daopiniãoentra sempre e por muito a inveja. O marquez de Pombal podia teraguas-furtadas, porque estava na indole do velho regime monarchico-aristocratico o enriquecimento dos ministros, valídos d’um rei,donoainda da nação. Mas agora o rei já não era senhor, nem amo, nem cousa alguma: deslocara-se a noção da origem do poder, e com ella o criterio da moralidade na politica.

Estas considerações fizemol-as, emquanto o ministro, do seu lugar, alinhavou pastosamente, comoum advogado, a sua defeza. Não valia a pena ouvil-o. Mas agora, transposta a parte molle do seu discurso: agora que o aggressor volta, e a voz se lhe aquece e o olhar se lhe aviva, é indispensavel observar a conclusão da batalha.

Não appella para o jury, repete, porque despreza as calumnias. Segue o exemplo dos accusadores. Começara por Saldanha; era a vez do conde da Taipa, agora.—Um par houve accusado de ladrão e até de espião pago!—Taipa: E quem é esse par?—V. Ex.ª—Eu leio;—e voltou a desenrolar um jornal, já antigo, amarello do tempo, como um espectro evocado do tumulo: «Ao Gago ladrão, oRaio», assim começava o artigo. Esse gago era um desprezivel saltimbanco sem honra e sem virtudes. Respondeu a conselho de guerra por ladrão da fazenda publica. Mancha a sociedade com o seu halito immundo. Era devasso, vivia em orgias dissolutas, recebendo 3:200 por dia para ser instrumento do Marinho: as suas denuncias atulharam as prisões. (Raio, 21 de maio de 36) Era o ladrão da caixa militar do regimento de cavallaria 7, o espião dos 3:200, o urco de 1823 ainda empoeirado com a viagem de Villa-Franca, o militar cobarde fugindo sem se saber porquê, (Raio, 9 de agosto de 36) etc. Tudo isto dissera oRaio, e o digno par não appellara para o jury!

O odio crescia na camara indignada contra o temerario que, para se defender, ia revolver assim, em publico, sujas aguas corridas, levantando lodos que manchavam os legisladores. E era urgente olvidar o passado, e as suas campanhas. Todos se sentiam anciosos de esquecimento. Rodrigo começava a abrir os seus braços para o amplexo final, fraterno ... Fóra, o importuno, o impenitente, que aos seus crimes junta o crime de accusar o proximo!

Fatigada estava a camara, extenuado o orador: todos anciavam pelo fim, por umaregeneração. A voz do ministro extinguia-se, e o corpo pedia-lhe uma pausa.—«Para ganhar tempo, e não ouvir a resposta?» perguntou Taipa. Esporeado, o conde saíu ainda: «Não é, não: ficarei até ás dez da noite, se preciso fôr».—Taipa: «Eu não necessito estudar!»—Thomar: «Preciso eu; mas para responder ao digno par—nunca!»

O resto foi um disturbio parlamentar, que os gritos de, ordem! a custo dominavam. Acabava a scena em uma desordem: que era tudo senão anarchia, desde os principios e doutrinas, até aos caracteres e á moral?

Assim foi o ultimo dia do conde de Thomar. Dera o que tinha. Durante nove annos (42-51) contivera a maré do scepticismo pacifico, lançando a patria nas aventuras de umliberalismonovo. Agora, o padrão d’essa doutrina, o padrão francez de Guizot, já fôra despedaçado em Paris pela revolução (fevereiro de 48); os tempos mudavam, e a atmosphera adequada ao temperamento do ministro desapparecera. A força das cousas ordenava-lhe a abdicação, mas o genio rebellava-se-lhe. Como o toiro que o matador só consegue abater depois de successivas estocadas, mas que tem na espada o instrumento de uma morte fatal: assim o ministro ainda marrou, erguendo-se, investindo, appellando ainda para a tribuna, para asbernardas, mas perdendo sempre sangue, esvaindo-se até se rojar vencido na fria arena das embaixadas.

É mais um dos successivos mortos do liberalismo, este duro beirão de Algodres. Mas que morte a sua, tão diversa do sacrificio espontaneo do minhoto, poetico Passos, caminhando para o altar coroado de flôres, alegre, pacifico, resignado; confessandoos seus erros antigos, o dissipar das suas illusões, negando a verdade dos systemas, a força dos homens, a vitalidade da patria! É que para dentro de tudo isso o poeta sentia esperanças novas, para além d’esses dias fugidos, auroras vagas: ao passo que o politico, uma vez rasgadas as fórmulas, achava-se perdido n’um vacuo.


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