NOTASPag. 9«Fundação da monarchia»Neste quadro e em parte do seguinte tentámos resumir em breves paginas o que está admiravelmente exposto nos tomos 1.º e 2.º da Historia de Portugal, do sr. A. Herculano. Sem este facho brilhantissimo ser-nos-hia decerto impossivel sahir da confusão e obscuridade, em que se involvem os primeiros tempos da monarchia.{206}Pag. 21«Penetrando até o coração do Al-Gharb»Em quatro grandes divisões, conforme a geographia arabe, se repartia a Peninsula: Al-Djuf, o norte; Al-Kiblah, o meio dia; Al-Sharkiah, o oriente; Al-Gharb, o occidente. Com este nome, por isso, se designava n'aquelle tempo a vasta extensão de territorio, que comprehende hoje as provincias do Alemtejo a Algarve, e que, juntamente com uma porção da Extremadura hespanhola e acaso da Andaluzia, formava os estados dos emires de Badajoz.Pag. 30«Nos herdamentos, nas maladias, nos páramos»A palavra herdamento significou até o seculo XV o mesmo que herdade, quinta, casal ou qualquer predio rustico, arrendado ou não arrendado, e quer incluido dentro de muros ou marcos, quer composto de courellas separadas.A denominação de maladia, muito frequente nos documentos dos seculos XI, XII e XIII, indicava o tributo a que eram obrigados os individuos, que, incapazes por qualquer motivo de se defenderem e a seus bens, alcançavam protecção de algum homem poderoso, do qual por esse facto como que se constituiam servos. Chamavam-se{207}tambem maladias as habitações e terras, em que os serviços, foros ou pensões se pagavam.O termo páramos equivalia ao de honras e coutos, e designava qualquer porção de territorio, demarcado pela auctoridade do monarcha, e livre de imposições ou alcavalas.Pag. 34«Dirigiu-se a Lyão»Nessa épocha a cidade de Lyão, hoje uma das mais ricas e industriaes da Europa, pertencia nominalmente ao imperio romano-germanico, mas era na realidade tão independente do imperador da Alemanha como do rei de França, e só de algum modo estava sujeita ao proprio arcebispo.Pag. 45«Aly-Abul-Hassan»Os nossos chronistas, geralmente pouco escrupulosos em questões de investigação e de critica, chamam-lhe Ali-Boacem. A inscripção commemorativa que se encontra na cathedral de Evora, confundindo o nome de familia com o do individuo, designa-o por Abenamarim. Conde, na historia do dominio dos arabes, chama-lhe Aly-Abul-Hassan-ben-Otman-ben-Jacub-ben-Abdelhac de-Beni-Merin.Já que fallámos na inscripção que está na sé de Evora,{208}junto á capella da invocação da Cruz, transcrevel-a-hemos na integra, alterando unicamente a extravagante orthographia do original, porque não podemos comprehender que sirva conserval-a na publicação de antigos inéditos, senão para difficultar a leitura destes.==Era de 1378. Rei Abenamarim, senhor de alem do mar, confiando em si e do seu grande haver e poder, passou áquem do mar com Naforra, filha do rei de Tunes, para perseguir e destruir os christãos. Tarifa, e o seu poder era tamanho, que se não poude tomar, e pois rei D. Affonso viu que não pode ser certo, houve receio de por si veiu a Portugal a demandar ajuda ao IV Affonso de Portugal, seu sogro, e a elle prouve muito de lh'a fazer com seu corpo e com seu poder; logo sem tardança começou o caminho para a fronteira, e mandou que os seus se fossem apoz elle. De Evora levou cem cavalleiros e mil peões, de que Esteves Carvoeiro foi por alferes. Lidaram com os mouros, e o rei de Portugal entendeu com elrei de Granada, e rei de Castella com Abenamarim, e foi mercê de Deus que nunca mouro tornou rosto, e morreram delles tantos que não poderam dar conta. O rei Abenamarim e o de Granada fugiram. No arrayal de elrei Abenamarim acharam grande haver em ouro e prata, e o houve el-rei de Castella. Mataram alli Naforra, e muitos mouros ricos, e outros mouros, e meninos infinitos. Captivaram um filho de Abenamarim, um seu sobrinho{209}e uma sua neta. Deus seja para sempre bento, por tanta mercê, quanta fez aos christãos.==Pag. 133E D. Manuel...... accrescentou aos titulos do seu dictado os de senhor da conquista, navegação e commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India.»Nesse mesmo anno de 1499 mandou elrei lavrar os portuguezes de ouro, com a legenda==Emanuel Rex Portugaliae, Algarbiorum citra et ultra in Africa, et Dominus Guinae, e ao redor das armas==Conquista, Navegaçam, Commercio Aetiopiae, Arabiae, Persiae, Indiae.Decorrido pouco tempo eram já insufficientes esses titulos para corresponderem com exactidão aos descobrimentos, ás conquistas, á influencia e poder dos portuguezes. Hoje, que vivêmos ao crespusculo da nossa passada gloria, conservâmos ainda a antiga formula, van lembrança do largo patrimonio que dividimos com as outras nações.Pag. 153«O numero dos mortos nesses tres dias orçava por dous mil.»Os judeus, na allegação ao pontifice Paulo III, descrevendo as scenas de sangue e agonia, que neste quadro{210}tentámos esboçar, affirmavam que mais de quatro mil pessoas haviam nesses tres dias cahido ás mãos dos assassinos, em Lisboa e nas aldêas circumvisinhas; mas as memorias coévas e os historiadores calculam consoantemente em dous mil o numero dos que foram victimas na horrorosa hecatomba.{211}
Neste quadro e em parte do seguinte tentámos resumir em breves paginas o que está admiravelmente exposto nos tomos 1.º e 2.º da Historia de Portugal, do sr. A. Herculano. Sem este facho brilhantissimo ser-nos-hia decerto impossivel sahir da confusão e obscuridade, em que se involvem os primeiros tempos da monarchia.{206}
Em quatro grandes divisões, conforme a geographia arabe, se repartia a Peninsula: Al-Djuf, o norte; Al-Kiblah, o meio dia; Al-Sharkiah, o oriente; Al-Gharb, o occidente. Com este nome, por isso, se designava n'aquelle tempo a vasta extensão de territorio, que comprehende hoje as provincias do Alemtejo a Algarve, e que, juntamente com uma porção da Extremadura hespanhola e acaso da Andaluzia, formava os estados dos emires de Badajoz.
A palavra herdamento significou até o seculo XV o mesmo que herdade, quinta, casal ou qualquer predio rustico, arrendado ou não arrendado, e quer incluido dentro de muros ou marcos, quer composto de courellas separadas.
A denominação de maladia, muito frequente nos documentos dos seculos XI, XII e XIII, indicava o tributo a que eram obrigados os individuos, que, incapazes por qualquer motivo de se defenderem e a seus bens, alcançavam protecção de algum homem poderoso, do qual por esse facto como que se constituiam servos. Chamavam-se{207}tambem maladias as habitações e terras, em que os serviços, foros ou pensões se pagavam.
O termo páramos equivalia ao de honras e coutos, e designava qualquer porção de territorio, demarcado pela auctoridade do monarcha, e livre de imposições ou alcavalas.
Nessa épocha a cidade de Lyão, hoje uma das mais ricas e industriaes da Europa, pertencia nominalmente ao imperio romano-germanico, mas era na realidade tão independente do imperador da Alemanha como do rei de França, e só de algum modo estava sujeita ao proprio arcebispo.
Os nossos chronistas, geralmente pouco escrupulosos em questões de investigação e de critica, chamam-lhe Ali-Boacem. A inscripção commemorativa que se encontra na cathedral de Evora, confundindo o nome de familia com o do individuo, designa-o por Abenamarim. Conde, na historia do dominio dos arabes, chama-lhe Aly-Abul-Hassan-ben-Otman-ben-Jacub-ben-Abdelhac de-Beni-Merin.
Já que fallámos na inscripção que está na sé de Evora,{208}junto á capella da invocação da Cruz, transcrevel-a-hemos na integra, alterando unicamente a extravagante orthographia do original, porque não podemos comprehender que sirva conserval-a na publicação de antigos inéditos, senão para difficultar a leitura destes.
==Era de 1378. Rei Abenamarim, senhor de alem do mar, confiando em si e do seu grande haver e poder, passou áquem do mar com Naforra, filha do rei de Tunes, para perseguir e destruir os christãos. Tarifa, e o seu poder era tamanho, que se não poude tomar, e pois rei D. Affonso viu que não pode ser certo, houve receio de por si veiu a Portugal a demandar ajuda ao IV Affonso de Portugal, seu sogro, e a elle prouve muito de lh'a fazer com seu corpo e com seu poder; logo sem tardança começou o caminho para a fronteira, e mandou que os seus se fossem apoz elle. De Evora levou cem cavalleiros e mil peões, de que Esteves Carvoeiro foi por alferes. Lidaram com os mouros, e o rei de Portugal entendeu com elrei de Granada, e rei de Castella com Abenamarim, e foi mercê de Deus que nunca mouro tornou rosto, e morreram delles tantos que não poderam dar conta. O rei Abenamarim e o de Granada fugiram. No arrayal de elrei Abenamarim acharam grande haver em ouro e prata, e o houve el-rei de Castella. Mataram alli Naforra, e muitos mouros ricos, e outros mouros, e meninos infinitos. Captivaram um filho de Abenamarim, um seu sobrinho{209}e uma sua neta. Deus seja para sempre bento, por tanta mercê, quanta fez aos christãos.==
Nesse mesmo anno de 1499 mandou elrei lavrar os portuguezes de ouro, com a legenda==Emanuel Rex Portugaliae, Algarbiorum citra et ultra in Africa, et Dominus Guinae, e ao redor das armas==Conquista, Navegaçam, Commercio Aetiopiae, Arabiae, Persiae, Indiae.
Decorrido pouco tempo eram já insufficientes esses titulos para corresponderem com exactidão aos descobrimentos, ás conquistas, á influencia e poder dos portuguezes. Hoje, que vivêmos ao crespusculo da nossa passada gloria, conservâmos ainda a antiga formula, van lembrança do largo patrimonio que dividimos com as outras nações.
Os judeus, na allegação ao pontifice Paulo III, descrevendo as scenas de sangue e agonia, que neste quadro{210}tentámos esboçar, affirmavam que mais de quatro mil pessoas haviam nesses tres dias cahido ás mãos dos assassinos, em Lisboa e nas aldêas circumvisinhas; mas as memorias coévas e os historiadores calculam consoantemente em dous mil o numero dos que foram victimas na horrorosa hecatomba.{211}