V

VTomada de Ceuta1415Rica mais do que nenhuma em homens e feitos grandiosos é a historia da gente portugueza. Quem, lançando os olhos para um mappa da Europa, divisa ao occidente da Peninsula este paiz, encerrado na estreiteza de breves limites, imperceptivel quasi no meio dos grandes imperios da terra; e considera que ahi existe ha sete seculos uma nação independente, e que chegou a estender o seu dominio por uma{70}parte da Asia, da Africa, da America, e até ás regiões encantadas e indefinitas do Oceano Austral, antevê logo n'esse povo grandes virtudes politicas e guerreiras, e nos seus fastos uma excellente escola de enthusiasmo e heroicidade. E se depois d'isso volta o pensamento para as recordações bellas e puras, para os tropheus e monumentos honrosissimos d'esta mimosa e abençoada região, que não deixou parte alguma no mundo onde não chegasse um ecco das suas glorias de todo o genero, o resultado d'esse estudo é a confirmação incontrastavel das primeiras impressões.Pequeno e fraco na origem, Portugal é apenas um condado, que ameaçam ao mesmo tempo o já então vastissimo imperio de Leão e Castella, e o poder ainda formidavel dos bellicosos sarracenos, e todavia não só lhes{71}resiste com intrepidez e constancia, mas até ousa invadir o territorio dos seus dois temiveis inimigos, conservando sempre hasteado o pendão da nacionalidade. Depois, logo no começo da monarchia, os portuguezes, movidos pelo amor da patria, affecto que amadurecêra e se radicára nos animos de um modo indestructivel, conquistam uma grande parte da Hespanha mussulmana, terra abundante de população, enriquecida pela industria, cheia de villas e cidades importantissimas, fortificada por todos os meios que a experiencia d'aquelles tempos ensinava, e defendida por homens naturalmente esforçados, e aos quaes o aferro á terra natal e o fervor religioso ainda, como é de crer, multiplicavam os brios. Depois estabelecem-se em larga escala os concelhos; promove-se a vinda de colonos; povoam-se granjas{72}e aldeias; arroteam-se charnecas e mattos; repairam-se e abastecem-se castellos; organisa-se a milicia, a administração, a magistratura judicial, a fazenda publica; consolidam-se intimas allianças com algumas das maiores nações, e dá-se sufficiente vigor ao espirito municipal, que em parte alguma talvez, durante a edade media, teve mais viva influencia no progresso da civilisação. Em seguida, apenas Portugal se vê collocado vantajosamente com relação aos varios povos da Peninsula, já não lhe basta a certeza da sua inviolabilidade, e confiado nas proprias forças e destinos, eil-o que se apressa em ir pagar ao islamismo, no solo abrazado de Africa, a divida da invasão e os trances do jugo estranho.Reinava então em Portugal D. João I. Ao monarcha inconstante e frivolo, cujos defeitos como homem bastam para{73}escurecer os actos do legislador, succedêra o principe mais popular que se encontra nas nossas dynastias de imperantes; a um rei hereditario um rei eleito. Ganha a victoria de Aljubarrota, recuperadas uma a uma as praças de guerra, de que o soberano estrangeiro se havia assenhoreado; firmada, emfim, a paz com Castella depois de longos annos de lucta frenetica, começaram os infantes a instar com D. João I para que emprehendesse conquistar Ceuta, a famosa cidade que desde o tempo dos romanos até ao fim do reinado de Witiza fôra dependencia de Hespanha; conquista que lhes daria ensejo de alcançarem com honra o grau de cavalleiros, e que dilataria ao mesmo tempo os limites do imperio e os da fé. Folgou com a idéa o monarcha, a quem os annos não haviam amortecido o pensamento{74}fixo de gloria, a que devem attribuir-se quasi todos os actos da sua vida, mas não quiz resolver-se sem pesar cuidadosamente os perigos e vantagens do commettimento, que não se limitava ao assalto de uma praça, aliás bem defendida e guardada, mas que era de feito um repto aos infieis, que, inflammados em brios nacionaes e em fanatismo ardente, formariam cem exercitos poderosos e intrepidos contra os temerarios invasores.Reflectiu, pois, em todas essas circumstancias; ponderou o voto dos guerreiros illustres, a censura dos conselheiros leaes, as preoccupações populares; avaliou com exacção a importancia dos esforços e a escacez dos recursos; viu que ia travar uma lucta em que todo o odio e valor da raça inimiga haviam de empenhar o ultimo alento; mas lembrou-se de{75}que era preciso não deixar esquecer aos seus soldados o duro mister da guerra, de que o unico systema consequente e legitimo de engrandecimento para o reino era alargar-lhe os limites pelas fronteiras costas africanas, de que celebraria assim com um feito memoravel o occaso da sua venturosa carreira, e decidiu-se por fim á expedição mais determinado, mais perseverante, mais enthusiasta do que os proprios filhos. Conciliando, todavia, a confiança na sua fortuna com as admoestações da prudencia, tratou dos apercebimentos adequados á magnitude da empreza, e para evitar suspeitas que de certo trariam raiz de taes preparativos, resolveu que se aproveitasse o pretexto da pirataria com que os hollandezes infestavam as nossas costas, e se reclamasse satisfação do conde de Hollanda com ameaças de guerra.{76}Fernão Fogaça, veador do principe, homem astuto, cauteloso e atrevido, foi enviado a Hollanda para proclamar em embaixada publica os aggravos e exigencias do soberano portuguez, e revelar secretamente ao conde a verdadeira causa da sua vinda. Prestou-se este ao disfarce, lisongeado pela demonstração de confiança, ou por ventura aterrado com a lembrança de que as ameaças podessem ainda traduzir-se em factos, e o artificio produziu o desejado effeito de socegar até certo ponto as populações de Hespanha e Africa, posto que não tanto que os reis de Castella, de Aragão e de Granada não mandassem immediatamente embaixadores a Portugal, renovando todas as garantias de paz e amizade.Preparado tudo, levantou ancora do porto de Lisboa a poderosa armada aos 25 de julho de 1415, não obstante{77}haver fallecido poucos dias antes D. Philippa de Lencastre, chamada pelo povo a boa rainha, e a cujas virtudes e desvelos deveu acaso Portugal a mais generosa prole, que tem rodeado um throno. Partiu em demanda das praias sarracenas; em desaffronta dos gravames n'outro tempo padecidos; em nome da raça romano-gothica contra o islamismo que lhe lançára a luva; da supremacia da civilisação christã contra as caducas instituições politicas, estribadas nas doutrinas falsas ou incompletas do koran. Partiu, sem que nem um leve estremecimento pelo futuro quebrantasse o enthusiasmo dos que iam participar dos riscos da empreza; o excitamento religioso, o espirito aventureiro, a emulação de esforço, e em muitos ainda a cubiça, menos hypocrita que n'estes nossos tempos, erguiam com demasiada força{78}aquelles animos para que lhes consentissem vacillar.O mysterio da expedição, na qual tomavam parte os grandes, os nobres, os infantes, o herdeiro do throno e o proprio monarcha, assustou de novo toda a costa de Africa, e não menos a de Hespanha, que ainda occupavam mouros; mas sobretudo as terras de Gibraltar, por se verem abertas e mal defensaveis. Em breve, porém, se dissiparam esses receios, porque, consultados em Algeziras os principaes capitães, foi fixado o dia 12 de agosto para se caminhar contra Ceuta.Ahi de feito surgiu a frota no dia designado, mas depois de duas tentativas de desembarque, que o temporal estorvou, foi constrangida a voltar para Algeziras. O contratempo desanimou alguns. Eram esses de voto que não se tentasse outra vez o desembarque{79}em Ceuta, que para gloria bastava já o arrojo da empresa, e que se não deviam tornar ao reino sem tingir as mãos em sangue inimigo, se dirigisse a armada a Gibraltar, que n'aquella conjunctura se offerecia como facil conquista, e que daria campo aos valentes para mostrarem esforço, ao passo que satisfaria as ambições do povo e os interesses da patria. Nenhuma consideração, todavia, dissuadiu D. João I do intentado proposito. Perseverante como o homem que, apontando fixamente ao alvo, não desvia nem por um momento a arma senão depois de acertar, desprezou os avisos cautelosos, que aliás já não poderiam ser acceitos sem desaire, e, como é facil de suppor, foi a vontade do monarcha que afinal prevaleceu.Entretanto os mouros, attribuindo a medo a demora dos portuguezes, trataram{80}de despedir as tribus numidas que os tinham vindo auxiliar, Soldadesca indisciplinada e feroz, que nem só entre os inimigos deixava largos vestigios de ruinas e estragos; mas ainda ellas mal tinham sahido, quando no dia 20, ao declinar da tarde, se dirigiu contra a cidade toda a armada christã. Confiados na fortuna, os habitantes de Ceuta pareciam desprezar a procella que de perto os ameaçava, e quando a noite desceu com denso manto de trevas, illuminaram-se as casas em signal de torva alegria.Com a primeira luz da manhã seguinte a gente da armada, mettendo-se nas fustas, dirigiu-se para a cidade, e os infantes D. Henrique e D. Duarte, saltando em terra com cento e cincoenta soldados, começaram a peleja com os mouros que fóra das portas os desafiavam, terçando lanças, arremessando{81}azagaias, e animando-se uns aos outros com pragas e insultos contra os invasores, intelligiveis para estes pelos gestos de rancor dos que as proferiam. N'aquelle primeiro impulso os alfanges sarracenos cruzaram as espadas portuguezas com todo o estrepito do enthusiasmo guerreiro, com todo o ardor do excitamento religioso, com todo o fogo de uma colera por muito tempo concentrada. Dir-se-ia, ao ver a furia do combate, que só adejaria a victoria sobre um dos campos quando tivesse cahido sobre o outro a total ruina. No entanto foram desembarcando mais soldados portuguezes, e, havendo já na praia trezentos homens escolhidos, apertaram estes com os mouros, que, levados mais pelo temor que pelo perigo, voltaram costas retirando-se para a cidade. Lembraram-se então os infantes{82}de que n'aquelle mesmo dia poderiam talvez dar fim á empresa, evitando assim o trabalho e combate incessante de semanas e mezes, que naturalmente resultaria de um longo assedio, e os perigos a que se expunham n'uma terra callidissima, onde de certo recrudeceria a peste que de Lisboa os seguíra. Decidiram, pois, entrar na cidade com os que fugiam, e, lançando mão do ensejo que o caso offerecia, perseguiram rijamente os mouros, arrancando-os de todas as posições, e fazendo-os apinhar sobre as portas.Ahi foi terrivel o recontro e disputada tenazmente a victoria. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros, atravez da qual já quasi não era possivel abrir caminho sem galgar por cima dos cadaveres amontoados, que embargavam os passos{83}dos vivos; nem os invasores desistiam nem os da cidade affrouxavam, e de um e outro lado os contendores haviam chegado áquelle paroxismo de furor, que faz desprezar a vida para só cuidar em produzir a morte. Por fim, não obstante o muito que os defensores trabalharam, não poderam cerrar as portas, nem tolher entrarem os nossos de involta com elles. Os portuguezes dividiram-se então em dous bandos; D. Duarte, capitaneando um d'elles, foi subindo aos logares altos e fazendo-se senhor de todos até chegar á maior eminencia da cidade; D. Henrique tomou por outras ruas; e ambos encontraram porfiada resistencia, porque aos habitantes de Ceuta, reduzidos á defensiva, o affecto, que nos costuma prender ao lar domestico, redobrava alento e brios. Afinal, porém, essa mesma resistencia acabou; os vãos{84}esforços da população mussulmana para salvar Ceuta foram os clarões derradeiros da lampada que se extinguia. A audacia dos infantes e dos que os seguiam, a cobardia do chefe sarraceno, Salat-ben-Salat, que fugiu apenas soube ter sido entrada a cidade, e o habito da victoria, que, desde a batalha das Navas de Tolosa, os proprios mahometanos, consideravam como devendo tarde ou cedo pertencer definitivamente aos inimigos da sua crença, facilitaram a conquista de uma das povoações de Africa mais de receiar para os povos christãos do mediterraneo. El-rei, tendo posto em terra toda a sua gente, mandou fazer alto, e logo que soube estar a cidade de todo ganha, deliberou começar a combater o castello. Depois, impellido pelo enthusiasmo religioso, entrou n'uma mesquita, e ahi de joelhos agradeceu a Deus{85}esse feliz resultado de uma tentativa que a muitos parecêra loucura. Recebendo então a noticia de que o castello estava sem defensa e despejado, mandou arvorar na mais alta torre o estandarte real; e os raios do sol, que se escondia no occidente, já não encontraram a bandeira de islam, derribada n'esse dia para nunca mais se erguer sobre os muros da soberba Ceuta.Assim, por meio de uma victoria alcançada em poucas horas, dilatou D. João I as fronteiras da monarchia pelos territorios africanos, principiando a realisar o grande pensamento dos reis chamados da primeira raça, e abrindo caminho aos vastos projectos, ás atrevidas empresas, aos descobrimentos e conquistas, que deram a esta nossa boa terra portugueza uma epocha de gloria e predominio, das maiores que o mundo tem visto.{86}{87}VIRegencia do infante D. Pedro.—Combate de Alfarrobeira1439 A 1449O cadaver do virtuoso D. Duarte havia descido ao sepulchro, onde, emfim, repousava das amarguras de tão curto como desditoso reinado. Para a menoredade de seu filho Affonso V, que então contava seis annos, ficára regente do reino a rainha D. Leonor. Esta, sentindo a necessidade de buscar na côrte seguro esteio contra a má vontade dos subditos, que lhe não perdoavam ser mulher e estrangeira, e{88}sobretudo ter contribuido com solicitações e conselhos para a funesta empresa de Tanger, procurou associar ao imperio o infante D. Pedro, duque de Coimbra, promettendo-lhe ao mesmo tempo o casamento do rei com sua filha D. Isabel, e julgando prendel-o assim pelo esplendor da invejada alliança. Em breve, porém, instigada pela cubiça do poder, que foi a paixão predominante dos ultimos annos da sua vida, ligou-se com o conde de Barcellos, filho natural de D. João I, e á frente dos seus parciaes, aproveitando todos os pretextos, tentou de dia em dia coarctar a auctoridade do infante.Então o povo de Lisboa começou a alborotar-se, e depois de muitos tumultos e desordens proclamou regente e defensor do reino o duque de Coimbra. Suppondo que pouco duraria um poder, assente em tão movediço alicerce{89}como é o favor da plebe, a rainha acolheu-se a Alemquer, onde se fez forte; mas as côrtes, reunindo-se immediatamente, confirmaram a nova regencia, e resolveram que a educação d'el-rei e de seu irmão fosse confiada a D. Pedro.O estado da nação n'aquella épocha era, na verdade, lastimoso. Parecia que uma estrella aziaga tinha constantemente presidido aos destinos do fallecido monarcha. A peste assolava o reino; a miseria publica tomava todos os aspectos; o infante D. Fernando, heroe e martyr, jazia captivo em Africa; as prophecias de mestre Guedelha, o astrologo judeu, realisavam-se fatalmente; e as gloriosas recordações de Aljubarrota e de Ceuta tornavam ainda mais duros os flagellos com que a fortuna, como que arrependida de ter sempre protegido D. João I, se{90}vingára em crueldades sobre o seu successor. Por cumulo de infortunios o prior do Crato, o conde de Barcellos e outros fidalgos, poderosos em influencia e valor, julgaram opportuno o ensejo para realisarem projectos de ambição, e proclamando a resistencia em nome da viuva de D. Duarte, constrangeram o regente a empunhar as armas para os conter. Apezar de tudo, porém, D. Pedro dirigiu com tal prudencia o leme do estado, que dentro de pouco tempo desvaneciam-se os fumos da discordia, e Portugal respirava á sombra das leis, dilatando as forças e engrossando as riquezas no seio de perfeita bonança.Chegado el-rei aos quatorze annos, edade em que, segundo o fôro de Hespanha, qualquer principe devia haver inteiramente posse do seu reino e senhorio, quiz o duque de Coimbra entregar-lhe{91}o supremo poder, que D. Affonso, ainda não pervertido por suggestões calumniosas, recusou acceitar. A inveja, comtudo, não se enfreia nem com as ligações de familia, nem com as obrigações de gratidão, simples vinculos moraes que a historia tem muitas vezes mostrado serem fracos para conter a violencia das paixões; e as intrigas do conde de Barcellos, já então elevado á dignidade de duque de Bragança por aquelle mesmo contra quem conspirava, fizeram com que o moço rei exigisse pouco depois ao infante os fios da administração, para os sujeitar ás influencias de uma nobreza aventurosa, insoffrida de todo o jugo, mais habituada aos enredos da côrte que ás pesadas occupações do governo, e incapaz por isso de sustentar com lealdade, energia e destreza os interesses da monarchia.{92}Tornados d'este modo reis de facto na resolução das questões mais importantes, os conselheiros de D. Affonso V sentiram recrudecer ainda a aversão contra o principe, cujo caracter generoso e firme os havia confundido ou humilhado. Ha almas impiedosas, abysmo de odios violentos e de paixões profundas, que, no momento em que se realisa a ventura por largo tempo sonhada, se deixam, todavia, subjugar por estranho sentimento de benevolencia; n'outras, porém, a perversidade é singular genero de fome que quanto mais damno causa mais appetece, é lodaçal que até entre formosas paizagens impregna a atmosphera de miasmas pestiferos. No regaço da fortuna continuaram, pois, esses homens a malquistar o infante com o monarcha, que, apesar de ter já casado com sua prima D. Isabel, entrou a{93}afastar o sogro e a dar-lhe claros signaes de que condescendia sem hesitar com as villezas d'aquelles, por quem mostrára sempre decisiva predilecção. Dotado de indole altiva e pouco soffredora, lasso do serpeiar flexuoso dos cortezãos, D. Pedro, em vez de permanecer junto do sobrinho a fim de lhe expungir da mente as perfidas calumnias, retirou-se logo para Coimbra, deixando d'esse modo livre o campo aos adversarios para a seu salvo satisfazerem rancores, que o tempo cada vez mais exacerbára.Debalde correu então á côrte a defender o irmão o infante D. Henrique, que já n'essa quadra residia em Sagres; debalde o conde de Avranches, D. Alvaro Vaz de Almada, o mais illustre cavalleiro da Peninsula, alma grande, generosa, leal e intrepida, reptou os accusadores do duque de Coimbra,{94}nenhum dos quaes se atreveu a levantar o guante; debalde interveiu a propria rainha, procurando entre lagrimas e caricias reconciliar o marido com o pae. Tudo foi inutil. Dominado pela contumacia dos validos e cego pelo orgulho dos verdes annos, D. Affonso V prohibiu ao sogro que voltasse á côrte, e como este se recusasse a entregar as armas que possuia em Coimbra, allegando que necessitava dellas para se defender dos seus inimigos, declarou-o rebelde e partiu contra elle á frente de um poderoso exercito.Este procedimento do monarcha operou no animo de D. Pedro uma revolução moral, d'essas que só as grandes crises podem produzir; foi sobresalto, embate, transformação repentina de todas as suas idéas e sentimentos. Entretanto, aconselhando-se com aquelles{95}em que principalmente confiava sobre o que havia de fazer, acceitou o aviso do conde de Avranches; e, partindo de Coimbra com diminuta hoste, determinou buscar o sobrinho e genro, pedir-lhe justiça contra os que o infamavam, e se a moderação e firmeza não bastassem, rota a ultima barreira, repellir a força com a força, arvorando o pendão negro da revolta.Chegando proximo a Alverca, assentou D. Pedro arrayal nos plainos de Alfarrobeira em sitio assás defensavel. Ahi o encontrou el-rei, e logo o cercou completamente, mandando ao mesmo tempo apregoar por seus arautos, que seriam tidos por traidores todos os que não desamparassem o infante. Essa intimação, todavia, não produziu o ambicionado exito, e pelo contrario alguns cavalleiros e soldados, movidos por nobre sentimento de generosidade,{96}vieram unir-se áquelle que o soberano tratava como rebelde. Emquanto isto succedia, e talvez fosse possivel evitar o funesto conflicto dos dous bandos, um acontecimento fortuito apressou o desfecho do terrivel drama.Os bésteiros e espingardeiros do exercito real, abrigados uns pelo denso arvoredo que sombreava o ribeiro de Alfarrobeira, collocados outros no cimo de um outeiro que dominava o acampamento, começaram a varejar com tiros o arrayal do infante. Vendo este os seus leaes companheiros immolados sem combate nem gloria, mandou disparar algumas bombardadas, uma das quaes acertou perto da tenda de el-rei. Então a briga empenhou-se decisivamente. De uma parte estava um troço de homens intrepidos, aos quaes a desesperança augmentava o esforço; da outra{97}um exercito numeroso e aguerrido, contra cujo poder seria impossivel a resistencia. Como se não bastasse, porém, a desegualdade entre os dous contendores, o infante, ferido por uma setta que lhe varou o corpo, tombou por terra logo ao principio da peleja, e com a sua morte feneceu em redor d'elle todo o esforço dos animos mais robustos. Sómente o conde de Avranches, que havia jurado não sobreviver a D. Pedro, luctou denodadamente contra os de el-rei, já senhores da victoria. Cegos de furor, cavalleiros e peões arrojavam-se e cahiam diante d'aquelle vulto, como os vagalhões de mar tempestuoso se arremessam e desfazem em frente dos rochedos da costa. No meio de larga clareira, só, impavido e magestoso, D. Alvaro derribava a seus pés quantos d'elle se aproximavam, e parecia, como o Campaneu de Stacio,{98}ameaçar os deuses e os homens. Afinal, perdidas as forças, baqueou por entre os inimigos, que a poder de golpes depressa o acabaram.O sangue do infante, vertido n'esta carnificina, a que mal podemos dar o nome de batalha, não ficou inulto. Da filha do duque de Coimbra nasceu o principe que tomou sobre si a obra terrivel da expiação. O cadafalso de D. Fernando de Bragança vingou o assassinio do infante D. Pedro, e mais uma vez se realisou a terrivel sentença biblica, que ameaça punir nos filhos as iniquidades dos paes.{99}VIIConspiração da nobreza contra D. João II1481 A 1484Nos ultimos annos de D. Affonso V a aristocracia tinha chegado ao apogeo do predominio, e as instituições feudaes, que se haviam mesclado com a nossa primitiva organisação social, achavam-se enraizadas e vigorosas, parecendo poder resistir perpetuamente aos esforços do povo e do monarcha. Já D. João I, o rei de boa memoria, quizera destruir a quasi independencia dos orgulhosos barões, que governavam{100}nos seus solares como senhores absolutos, não hesitando, sob quaesquer pretextos, em arvorar o estandarte da revolta, e até em combater contra a patria; mas os principes, que se lhe tinham seguido, haviam governado com tal frouxidão e timidez, que a nobreza retomára o antigo valimento, e preparára-se para defender a todo o custo os seus fóros e prerogativas. Foi então que subiu ao throno D. João II, alma energica, robusta e negra, que conseguiu debellar o poder dos fidalgos, apoiando-se no braço do povo, e enfraquecer o braço do povo, pesando depois sobre elle com toda a força e intensidade do poder da corôa.A uma falta absoluta de escrupulos juntava D. João II grande firmeza de genio, extraordinaria sagacidade e o retrahimento bastante para occultar,{101}debaixo de um aspecto frio e de sorrir forçado, o ardor de violentas paixões. Os chronistas, que escreveram sob o patrocinio dos immediatos successores d'este soberano, chamaram-lhe o principe perfeito. Poucas vezes, porém, escriptores cortezãos e lisongeiros têm respeitado menos a verdade dos factos. Retrato vivo do seu contemporaneo Luiz XI de França, manifestou sempre, quer nas leis geraes, quer nos actos proprios e espontaneos, a influencia de um pensamento capital, a que sujeitou todos os affectos e considerações; e esse foi o de alluir de vez a preeminencia e immunidade dos grandes vassallos da corôa. No seu reinado tem de ir tambem buscar o historiador a fixação das fórmas politicas, que ressumbram em toda a legislação subsequente, e a que poderemos chamar a transfiguração do absolutismo{102}em despotismo, como a estructura social anterior se póde igualmente considerar um meio termo entre a monarchia e as instituições representativas.Tal era o inimigo com que a nobreza tinha de combater para conservar a sua preponderancia nos negocios publicos, inimigo formidavel não só pelo seu caracter, mas ainda pelo prestigio que o rodeava, e pelas circumstancias que favoreciam os planos da sua politica. O throno, affagando as sympathias democraticas do terceiro estado, que já começava a conhecer a sua força, lançava mão do instrumento mais seguro para assentar o poder em bases solidas. O resultado, pois, da lucta não podia ser duvidoso. Nos paizes governados pela vontade de um só homem, quando á pressão enorme d'essa vontade se associa a opinião{103}popular, o pensamento que vive no animo do principe e das multidões, quer justo quer iniquo, hade triumphar infallivelmente, e a lucta dos que lhe resistem pode ser grande e nobre, mas é inutil esforço.Logo que falleceu D. Affonso V, o primeiro acto de D. João II foi a convocação das côrtes em Evora, onde lhe prestaram homenagem os senhores, villas e cidades do reino. Ahi começaram os golpes profundos na propriedade, na jurisdicção e em toda a especie de regalias das classes privilegiadas; reformas cujo fim capital era abater a nobreza e em parte o clero, invalidando-lhes duas poderosas armas, a que dá a riqueza e a que provém da opinião. Exigiu-se, pois, dos alcaides e donatarios nova fórma de menagem, chamaram-se a exame as cartas de mercês e doações, cerceou-se{104}muito a jurisdicção criminal, que os fidalgos exerciam em suas terras quasi sem peias nem termo, e ampliou-se o direito de appellação para as justiças reaes.Os nobres não souberam encobrir o descontentamento. Educados na guerra e na côrte de D. Affonso V, habituados a illimitado poder dentro dos seus coutos e honras, unidos, em fim, pela communidade de interesses e de perigos, de boa e de má fortuna, offenderam-se de que o rei ousasse tomar-lhes contas das violencias de um valimento, ao qual a impunidade de largos annos quasi dera fundamento legitimo. D. Fernando, duque de Bragança e de Guimarães, marquez de Villa Viçosa, conde de Ourem, de Barcellos, de Arrayolos, de Neiva e de Penafiel, senhor de trinta villas, e por nobreza e possessões o principe mais illustre{105}das Hespanhas, foi escolhido como chefe dos descontentes, e isto bastou para o seu tragico fim. As expressões arrogantes dos fidalgos contra a quebra dos seus fóros, os alvitres suggeridos a alguns procuradores do povo, as vãs ameaças, os secretos conluios, e até os actos inoffensivos e indifferentes, tudo foi traduzido, decifrado, envenenado e exposto com as côres necessarias para que D. João II podesse, de um só lance, satisfazer os aggravos de rei e as vinganças de homem. Prevenido a tempo dos riscos que o cercavam, o duque de Bragança não soube ou não quiz evital-os; e em vez de se refugiar em Castella, asylo fiel contra a cólera do monarcha, dirigiu-se á côrte, que então estanciava em Evora, e ahi foi recebido com taes demonstrações de contentamento e affecto, que chegou a julgar-se{106}tão seguro ao lado do seu implacavel inimigo, como no palacio de Villa Viçosa no gremio dos seus parciaes.Não tardou, todavia, que a confiança se lhe convertesse em arrependimento, e que ao bater a hora da desgraça, conhecesse por dolorosa experiencia que um coração como o do monarcha, abysmo insondavel de perversidade e hypocrisia, podia disfarçar odios, mas não sabia esquecel-os. Indo n'um dia, ao cahir da tarde, despedir-se de D. João II para voltar ás suas terras, conduziu-o este a uma casa apartada, onde, certo de que não vibraria já em vão o golpe, lhe disse que convinha ficasse preso até se averiguarem as suspeitas do crime de rebellião que lhe imputavam. Vendo o perigo que corria o duque, muitos fidalgos offereceram dar a el-rei suas alcaidarias em refens{107}pelo nobre vassallo; e porque, ao tempo em que essas propostas foram feitas, ainda D. João II receiava as consequencias do terrivel lance que tentára, quasi conveiu em acceital-as. Apenas soube, porém, que as comarcas, villas e fortalezas que mandára cobrar tinham sido entregues, e que de Castella não havia a temer clamores importunos, mandou logo que o caso se visse e determinasse por justiça. Assim se exprimem os dous panegyristas do principe perfeito, Ruy de Pina e Garcia de Resende, pobres homens cujo espirito cortezão nem sempre soube esconder a tenebrosa astucia e a suprema perversão moral do heroe dos seus fastos.A justiça fez-se vingança, e a execução significou sómente um assassinio judicial, fria e solemnemente resolvido. Accusado por testemunhas vis{108}e por inimigos inexoraveis, julgado tumultuariamente por juizes não seus pares, aos quaes a presença do rei coagia além d'isso o voto, o amigo e conselheiro de D. Affonso V foi condemnado sem o ouvirem, e entregou a vida ao cutello do algoz, no meio dos brados e doestos de uma multidão sem piedade nem pudor, que de toda a parte corrêra frenetica para assistir ao cruento espectaculo. N'esse mesmo dia (20 de junho de 1483), e depois de ter ficado exposto o cadaver por espaço de uma hora, os conegos da sé de Evora sepultaram no mosteiro de S. Domingos os restos do homem, que fôra por muito tempo talvez o arbitro do reino.Á conjuração, por ventura chimerica, succedeu outra verdadeira. O desgosto dos grandes, durante algum tempo sopeado pelo temor ou pela esperança,{109}convertêra-se em odio profundo. Decididos a vingarem a morte do duque de Bragança, e a restabelecerem os fóros e immunidades da nobreza, accordaram que o meio mais adequado aos seus intentos era assassinarem o monarcha. O duque de Vizeu, o bispo de Evora, seu irmão D. Fernando de Menezes, Fernão da Silveira, D. Gutterres Coutinho, D. Alvaro e D. Pedro de Athaide, o conde de Penamacor e Pedro de Albuquerque eram os cabeças da insurreição; o bispo de Evora, porém, é que, como a aranha no centro da têa, urdia e combinava os planos. D'ahi lhes proveiu a ruina, porque o incauto prelado não soube prever a traição, e foi justamente essa falta, que destruiu todos os seus calculos. Fiado na apparente amisade de Diogo Tinoco, cuja irmã seduzira, revellou tudo a esse{110}homem, não se lembrando de que lhe dava assim ensejo de vingar offensas, que não podia ter esquecido; e o aviltado cavalleiro preveniu logo Antão de Faria, camareiro do rei e seu privado, e, encontrando-se depois com o proprio D. João II no convento de S. Francisco em Setubal, relatou-lhe circumstanciadamente os projectos dos conspiradores.Agradecendo a Tinoco com dadivas e promessas o serviço que prestára, o rei recommendou-lhe inviolavel segredo, e continuou, como se tudo ignorasse, abalançando-se indefenso no meio dos conjurados, oppondo dissimulação a dissimulação, e enganando com fingido affecto aquelles de quem mais se temia. Era a calmaria que antecede a procella. No seio das trevas o filho de D. Affonso V ia aperfeiçoando os planos de vingança, e{111}por isso aguardava sem impaciencia o dia propicio em que podesse colher no fôjo os seus mortaes inimigos.Este finalmente chegou. Depois de terem por vezes tentado em vão assassinar o rei, os fidalgos assentaram esperal-o em Setubal, ao desembarcar vindo de Alcacer, e realisarem então o seu intento. D. João II, porém, que lhe presentia os movimentos, fez o caminho da Landeira por terra, bem acompanhado pelos ginetes de Fernão Martins, e pelos besteiros e espingardeiros da guarda; e chegando a Setubal no dia 22 de agosto de 1484, mandou logo na manhã seguinte chamar o duque de Vizeu, que pousava em Palmella. Resolvêra, emfim, tirar a mascara, e a explosão devia ser tanto mais terrivel, quanto fôra duradoura e profunda a necessidade de conservar latente, debaixo de superficie{112}de gelo, o ardor de odio intenso e concentrado.Entrando o duque no palacio ao anoitecer, chamou-o el-rei ao aposento que lhe servia de guarda-roupa, e ahi, accusando-o de traição, o matou ás punhaladas, na presença de alguns cavalleiros, que para assistirem a esse acto tinham sido convocados. Na manhã seguinte via-se sobre um estrado, no centro da egreja matriz da villa, o cadaver do duque de Vizeu, com o rosto descoberto e dez feridas de punhal. D'ahi a poucos dias o bispo de Evora, preso na camara da rainha, morria envenenado no castello de Palmella; D. Fernando de Menezes, D. Pedro de Athaide e Pedro de Albuquerque eram degollados na praça publica; e D. Gutterres Coutinho expirava ás mãos do carrasco no fundo de um calabouço. Emfim, passados cinco annos,{113}Fernão da Silveira, a quem a nobre dedicação de um amigo salvára do patibulo, cahia assassinado em França por mandado do rei de Portugal.A negrura de semelhante proceder é evidente; e se as cousas da terra podessem despertar o profundo somno dos mortos, os cadaveres d'esses homens deveriam muitas vezes apparecer á consciencia de D. João II, tornando ainda mais penosas as desgraças, que lhe enlutaram o coração durante os restantes annos do seu curto reinado.{114}{115}VIIIPrimeira viagem de Vasco da Gama á India1497 a 1499Julgam profundos historiadores que os descobrimentos além do cabo Bojador, posto que encetassem para o reino uma grande epocha de gloria e prosperidade, foram talvez a causa capital da rapida e angustiosa decadencia a que chegámos nos fins do seculo XVI. Entretanto não seremos nós que condemnaremos esse espirito aventuroso e intrepido, que levou os nossos marinheiros e soldados a practicarem{116}tantos feitos assombrosos de ousadia, de abnegação, de patriotismo. Das victorias que alcançaram já nem existem tropheus, das nações que se prostraram ao seu esforço indomavel são outros hoje os senhores, do respeito e temor em que os tinha o mundo apenas resta a lembrança, e todavia a maravilhosa narração das façanhas d'aquellas eras, das homericas batalhas de poucos homens contra exercitos, das expedições e conquistas que ergueram uma nação pequena e pobre ao fastigio da soberania e da opulencia, ainda nos alvoroça o coração de enthusiasmo e amor patrio, não obstante as preoccupações prosaicas e calculadoras do seculo em que vivemos.O descobrimento do caminho maritimo para a India é, sobretudo, um d'aquelles factos extraordinarios, de{117}que o espirito mais penetrante mal póde medir a extensão. Não fallando já dos paizes e regiões incognitas que acrescentámos á communhão europea, do aperfeiçoamento da navegação e do commercio, do novo e immenso mercado que abrimos a todas as industrias, do ascendente da classe média que eficazmente fomentámos, basta dizer-se que ás victorias dos portuguezes na India deve talvez a Europa não ter succumbido ao jugo mahometano. Ao passo que nós e os castelhanos nos preparávamos para dilatar os ambitos do mundo conhecido, hastear por toda a parte a cruz, e estabelecer em redor d'ella uma transformação social; ao passo que as outras nações christãs, agitadas por muitas e diversas causas, se entretinham em luctas feudaes de castello com castello, e de paiz com paiz; os mussulmanos{118}iam crescendo em poder, as suas dynastias radicavam-se desde o Indostão até o Mediterraneo, os seus navios sulcavam todos os mares, o monopolio do commercio asiatico constituia os povos em vassallagem dos seus mercados, e os seus exercitos, animados pelo amor da guerra e pelo fanatismo da crença, ameaçavam de nova invasão os estados da christandade. Veneza, a rainha do Adriatico, ousava a custo contrastar em parte a influencia de Constantinopla, mas esse obstaculo depressa desappareceria se as conquistas dos portuguezes não viessem produzir no mundo completa metamorphose mercantil e politica. Malaca e Ormuz, os dous principaes emporios das producções indianas, abriram seus portos sómente aos novos dominadores; as armadas turcas e as do Achem e Jaoa,{119}os exercitos de Cambaya e Cananor, as forças do Samorim, dos reis de Dekan, do Hidalcão e do soldão do Egypto não conseguiram arrancar das nossas mãos o imperio da Asia; e as nações mussulmanas, perdido o principal elemento da sua força, foram-se desmembrando, fundindo, esvaecendo, e eil-as as que restam, fracas e decrepitas, alongando humildemente os olhos para o occidente, na esperança de que os filhos do christianismo estendam um braço que ampare os representantes e sectarios do propheta.Foi essa a epocha da nossa gloria mais esplendida. Quem examinasse então um mappa cosmographico, desde a linha que distingue a Europa e a Africa até ao cabo da Boa Esperança, quasi não encontraria ilha, promontorio, costa, golpho ou enseada, onde a fama do nome portuguez não guardasse{120}por si só a conquista; e montando o cabo veria tremular o pendão das quinas nos pontos mais importantes do Oriente, e ainda nos remotos archipelagos que depois se deviam chamar a Oceania. Antes d'essa epocha, porém, houve uma lucta, que durou perto de um seculo, e que votou ás paginas da historia universal e ao applauso da posteridade a memoria d'esses homens valorosos, que alteraram os destinos do mundo em proveito do christianismo, da civilisação e da politica. Os descobrimentos de Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, de Gil Annes, de Nuno Tristão, de Gonçalo de Cintra, de Lançarote, de Gonçalo Velho, de Antonio de Nolle, de João de Santarem, de Pedro d'Escobar, de Diogo da Azambuja, de Diogo Cão, de Bartholomeu Dias e João Infante foram como que os preliminares{121}dos grandes commettimentos. D. Manuel, subindo ao throno no anno de 1495, resolveu continuar a empreza de seus antecessores, porfia magnanima que tantos sacrificios tinha já custado. Ao infante D. Henrique haviam-se devido os primeiros trabalhos e tentativas que prepararam o descobrimento da India; D. João II fundára na Africa o imperio portuguez, e deixára ao seu successor abundantes materiaes para o estabelecer na Asia; ao monarcha venturoso estava destinada a missão de traduzir n'um facto estupendo este vasto projecto.Vigorosa foi, comtudo, a resistencia que D. Manuel encontrou nos seus conselheiros. Reprovavam estes o descobrimento como origem infallivel de ruina, lembrando os riscos de mar e terra, o acanhamento do reino e de{122}seus recursos, a vastidão e difficuldade da conquista, e propondo que a vida energica da metropole se applicasse exclusivamente a explorar as possessões adquiridas, o que aliás era já difficil encargo para um povo tão pouco numeroso. Mas nem duvidas nem suggestões abalaram a vontade do monarcha, que, na febre do enthusiasmo que o incitava á tentativa, como que antevia a aurora do triumpho. Encarregou, pois, de executar a empreza a Vasco da Gama, filho do alcaide mór da villa de Sines, Estevão da Gama, e, entregando-lhe em acto publico a bandeira, determinou a partida.Prestes a armada, que se compunha de duas naus,S. GabrieleS. Raphael, da caravellaBerrio, e de um navio de mantimentos, embarcaram-se em Restello todos os que deviam ir na{123}expedição, e que seriam cento e sessenta homens entre marinheiros e soldados. Magestoso espectaculo offereceram então aquellas praias. Era o dia 8 de julho de 1497. O sol esplendido banhava de luz o Tejo, as suas margens e a pobre ermida da Senhora da Invocação de Belem, ermida que o infante D. Henrique mandára construir para animar a devoção dos maritimos, e que depois tinha de converter-se no grandioso templo dos Jeronymos. D'ahi sahia uma procissão, guiada pelos freires da ordem de Christo, e seguida de grande concurso de povo, que consternado tinha vindo despedir-se dos audazes navegadores. O fito que attrahia a multidão provinha do enlevo que excitam sempre as tentativas arrojadas, e esse sentimento achava-se ahi concentrado como no seu grande fóco, ancioso pelas contingencias{124}da viagem, afflicto pela probabilidade das catastrophes, engrandecido pela communicação rapida, electrica, fascinadora, irresistivel de tantos espectadores. Tristes estavam todos, excepto os que partiam, porque a esses animava o fervor e alvoroço da empreza, não obstante irem cruzar mares nunca navegados, dobrar promontorios, evitar restingas, resistir a tempestades e correntes, domar barbaros de Africa, combater os mouros, procurar, emfim, o desconhecido com todos os seus encantos e esperanças, mas com todos os seus assombros e perigos.Desfraldadas as velas partiram-se de foz em fóra, aportaram a Cabo Verde, entraram na bahia de Sancta Helena, e depois de montarem o cabo da Boa Esperança com menos tormentas e riscos do que os marinheiros temiam,{125}e de passarem pela aguada de S. Braz, pela costa do Natal, pelo rio dos Bons Signaes, chegaram, no fim de quasi oito mezes de viagem, a Moçambique, d'onde logo desaferraram algumas barcas, ahi chamadas zambucos, que vieram abicar ás naus. Guarneciam-n'as muitos indigenas, e entre elles alguns brancos que pelos trajos e linguagem se conheceu serem mouros. Por um d'elles, natural de Fez, mandou Vasco da Gama ao xeque d'aquella terra, dizendo que se dirigia á India, e que para esse fim lhe pedia um piloto. Prometteu o xeque satisfazer o pedido e veiu visitar os navegantes, porque, a despeito das informações obtidas, cuidava ainda que seriam turcos; conhecendo, porém, que eram christãos, determinou destruil-os, e quando, desfeitos os varios ardis que para a traição empregára, se viu constrangido a{126}entregar um piloto, instruiu-o para que em vez de guiar os navios procurasse perdel-os. A fortuna, todavia, que no meio dos seus caprichos se inclina a proteger os que muito ousam, salvou os portuguezes, que no dia 7 de abril de 1498 chegaram a Mombaça, cidade importante e para esses tempos civilisada, onde tambem escaparam a graves perigos. Em Melinde, em fim, o rei, não obstante o antagonismo de crenças e de raça, entendeu que devia soccorrer os estrangeiros, e com esse intuito acolheu-os sem perfidia e deu-lhes um habil piloto que os levasse á India.Vinte e tres dias depois de terem partido de Melinde suppozeram os marinheiros ver terra. Já por vezes, em dias anteriores, se lhes tinha affigurado o mesmo, e haviam estremecido de contentamento e esperança; mas o{127}tempo mostrára sempre que taes imagens eram apenas hallucinação, e a alegria se lhes transformára em profunda tristeza, porque cousa alguma abate mais os animos do que essas alternativas de illusões e desenganos, que são como os sarcasmos do destino. Desalentados, pois, e fitos sombriamente os olhos no horisonte, os mesmos homens, que com tão escassos recursos, e estando ainda na infancia a arte nautica, se haviam affoutado aos abysmos com desassombrada resolução, trepidavam agora, e quasi que sentiam as angustias do desespero. D'esta vez, porém, apresentava-se a realidade incontestavel, e não tardou muito que distinctamente se conhecesse a proximidade de um continente vastissimo. Appareciam afinal essas praias da India, que eram já para os atrevidos navegadores o sonho, o enlevo,{128}a paixão que a todos avassallava, paixão que fôra crescendo com os obstaculos até constituir a idéa fixa, o pensamento constante d'aquellas almas energicas.Chegada a noite tornou-se necessario virar de bordo, porque fôra perigoso no meio das trevas entestar com a terra, mas no dia seguinte, ao romper da manhã, corria a armada ao longo da costa com vento bonançoso. Uma cadeia de montanhas, tendo por corôa as nuvens, sobresahia em distancia; por entre florestas de palmeiras divisavam-se soberbos edificios; o Oriente, emfim, o recesso dos mysterios, a região dos prodigios, cujas fabulas nebulosas eram ainda inferiores ás maravilhas que já se presentiam, patenteava-se com toda a magestade da sua vegetação opulenta. Avisinhavam-se n'aquella costa tres povoações: Calecut,{129}Capocate e Pandarane. Os marinheiros, tomando a segunda pela primeira, por engano de Canacá, o piloto indiano, dirigiram as naus a Capocate, pobre aldeia de pescadores; mas, sabendo ahi qual das povoações era Calecut, foram lançar ferro na enseada da cidade.Considerava-se n'esse tempo Calecut uma das mais importantes escalas commerciaes da India, e era sem duvida a mais poderosa de todas as terras do Malabar. Viam-se girar no seu commercio os diamantes e pedras preciosas das ricas minas de Narsinga e do Pegú, as perolas de Kalckar, o oiro de Sumatra, o ambar das Maldivas, o marfim, a porcelana, as sedas e damascos da China, o sandalo de Timor, o algodão, o anil, o assucar, as especiarias mais apreciadas, tudo, emfim, quanto póde contribuir para o uso e{130}delicias da vida. Capital do reino do mesmo nome, constituia Calecut a séde do sacerdocio e do imperio; tinha, além de innumeraveis casas feitas de madeira e cobertas de palma, muitos palacios, templos, arcos e torres soberbas; e estendia-se por largo espaço, contendo, segundo o computo dos naturaes, cerca de duzentos mil habitantes. Fundada com pouco poder, havia ganho dentro de breve tempo aquelle grande esplendor, e o seu rei, a que chamavam o Samorim, era o mais respeitado e temido entre os monarchas do Indostão.Annunciada a vinda dos portuguezes, recebeu-os o principe com affago, deu audiencia a Vasco da Gama, e declarou acceitar a alliança do rei de Portugal, promettendo que na frota lhe enviaria embaixadores. Os mouros, porém, costumados de longo tempo{131}aos lucros commerciaes d'aquella terra riquissima, e receiando que a influencia dos portuguezes não lhes consentisse de futuro nem protecção, nem accordo, nem tregoas, nem misericordia, começaram a urdir traições, tentando persuadir o Samorim de que os navegantes eram piratas miseraveis que levariam o terror do seu nome aos confins do imperio, como já em Moçambique e Mombaça tinham deixado vestigios de crueldade e perfidia; e de que ainda quando fossem subditos de monarcha poderoso, eram decerto homens orgulhosos e ávidos, que não pretendiam, sob as apparencias de paz e amisade, senão a conquista e posse exclusiva do solo descoberto. Convenceu-se facilmente o principe indiano, e desde logo se lhe transformou a boa vontade, dissimulando apenas o seu odio para encontrar ensejo favoravel{132}de colher ás mãos os estrangeiros.Debellados, todavia, os tramas pela intrepidez e astucia de Vasco da Gama, levantaram ancora as naus, e depois de quasi tres mezes de demora n'esse paiz inimigo, seguiram viagem para Portugal, tendo que vencer de novo graves perigos, e perdendo tantos a vida com as febres, que dos cento e sessenta homens que partiram poucos mais de sessenta regressaram á patria.Em Portugal a noticia do descobrimento da India encheu de enthusiasmo todo o reino. Estavam depostos os temores, patente o caminho, encetada, em summa, a nova cruzada de religião, de guerra, de industria e de gloria, que ia devassar as barreiras da antiga civilisação oriental. Justificára-se o firme proposito que vencêra{133}as apprehensões anteriores, e D. Manuel, depois de premiar Vasco da Gama e os famosos companheiros,acrescentou aos titulos do seu dictado os de senhor da conquista, navegação e commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India.O soberbo mosteiro dos Jeronymos foi o padrão erguido á grandeza do emprehendimento, á fortuna do resultado, ao favor da providencia; a torre de S. Vicente de Belem, edificada quasi no mesmo periodo, tornou-se a testemunha gloriosa do immenso poder que depois alcançámos, e que ao passo que avassallava o imperio da Asia, vencia na Berberia as bellicosas turbas agarenas, cravava marcos de posse em quasi tres mil legoas da costa oriental da Africa, e dava á Europa a primazia entre as outras partes do mundo, abrindo caminho á grande revolução{134}intellectual, moral, politica, mercantil e guerreira, que tornou o seculo XVI talvez a epocha mais maravilhosa da historia da civilisação.{135}

Rica mais do que nenhuma em homens e feitos grandiosos é a historia da gente portugueza. Quem, lançando os olhos para um mappa da Europa, divisa ao occidente da Peninsula este paiz, encerrado na estreiteza de breves limites, imperceptivel quasi no meio dos grandes imperios da terra; e considera que ahi existe ha sete seculos uma nação independente, e que chegou a estender o seu dominio por uma{70}parte da Asia, da Africa, da America, e até ás regiões encantadas e indefinitas do Oceano Austral, antevê logo n'esse povo grandes virtudes politicas e guerreiras, e nos seus fastos uma excellente escola de enthusiasmo e heroicidade. E se depois d'isso volta o pensamento para as recordações bellas e puras, para os tropheus e monumentos honrosissimos d'esta mimosa e abençoada região, que não deixou parte alguma no mundo onde não chegasse um ecco das suas glorias de todo o genero, o resultado d'esse estudo é a confirmação incontrastavel das primeiras impressões.

Pequeno e fraco na origem, Portugal é apenas um condado, que ameaçam ao mesmo tempo o já então vastissimo imperio de Leão e Castella, e o poder ainda formidavel dos bellicosos sarracenos, e todavia não só lhes{71}resiste com intrepidez e constancia, mas até ousa invadir o territorio dos seus dois temiveis inimigos, conservando sempre hasteado o pendão da nacionalidade. Depois, logo no começo da monarchia, os portuguezes, movidos pelo amor da patria, affecto que amadurecêra e se radicára nos animos de um modo indestructivel, conquistam uma grande parte da Hespanha mussulmana, terra abundante de população, enriquecida pela industria, cheia de villas e cidades importantissimas, fortificada por todos os meios que a experiencia d'aquelles tempos ensinava, e defendida por homens naturalmente esforçados, e aos quaes o aferro á terra natal e o fervor religioso ainda, como é de crer, multiplicavam os brios. Depois estabelecem-se em larga escala os concelhos; promove-se a vinda de colonos; povoam-se granjas{72}e aldeias; arroteam-se charnecas e mattos; repairam-se e abastecem-se castellos; organisa-se a milicia, a administração, a magistratura judicial, a fazenda publica; consolidam-se intimas allianças com algumas das maiores nações, e dá-se sufficiente vigor ao espirito municipal, que em parte alguma talvez, durante a edade media, teve mais viva influencia no progresso da civilisação. Em seguida, apenas Portugal se vê collocado vantajosamente com relação aos varios povos da Peninsula, já não lhe basta a certeza da sua inviolabilidade, e confiado nas proprias forças e destinos, eil-o que se apressa em ir pagar ao islamismo, no solo abrazado de Africa, a divida da invasão e os trances do jugo estranho.

Reinava então em Portugal D. João I. Ao monarcha inconstante e frivolo, cujos defeitos como homem bastam para{73}escurecer os actos do legislador, succedêra o principe mais popular que se encontra nas nossas dynastias de imperantes; a um rei hereditario um rei eleito. Ganha a victoria de Aljubarrota, recuperadas uma a uma as praças de guerra, de que o soberano estrangeiro se havia assenhoreado; firmada, emfim, a paz com Castella depois de longos annos de lucta frenetica, começaram os infantes a instar com D. João I para que emprehendesse conquistar Ceuta, a famosa cidade que desde o tempo dos romanos até ao fim do reinado de Witiza fôra dependencia de Hespanha; conquista que lhes daria ensejo de alcançarem com honra o grau de cavalleiros, e que dilataria ao mesmo tempo os limites do imperio e os da fé. Folgou com a idéa o monarcha, a quem os annos não haviam amortecido o pensamento{74}fixo de gloria, a que devem attribuir-se quasi todos os actos da sua vida, mas não quiz resolver-se sem pesar cuidadosamente os perigos e vantagens do commettimento, que não se limitava ao assalto de uma praça, aliás bem defendida e guardada, mas que era de feito um repto aos infieis, que, inflammados em brios nacionaes e em fanatismo ardente, formariam cem exercitos poderosos e intrepidos contra os temerarios invasores.

Reflectiu, pois, em todas essas circumstancias; ponderou o voto dos guerreiros illustres, a censura dos conselheiros leaes, as preoccupações populares; avaliou com exacção a importancia dos esforços e a escacez dos recursos; viu que ia travar uma lucta em que todo o odio e valor da raça inimiga haviam de empenhar o ultimo alento; mas lembrou-se de{75}que era preciso não deixar esquecer aos seus soldados o duro mister da guerra, de que o unico systema consequente e legitimo de engrandecimento para o reino era alargar-lhe os limites pelas fronteiras costas africanas, de que celebraria assim com um feito memoravel o occaso da sua venturosa carreira, e decidiu-se por fim á expedição mais determinado, mais perseverante, mais enthusiasta do que os proprios filhos. Conciliando, todavia, a confiança na sua fortuna com as admoestações da prudencia, tratou dos apercebimentos adequados á magnitude da empreza, e para evitar suspeitas que de certo trariam raiz de taes preparativos, resolveu que se aproveitasse o pretexto da pirataria com que os hollandezes infestavam as nossas costas, e se reclamasse satisfação do conde de Hollanda com ameaças de guerra.{76}Fernão Fogaça, veador do principe, homem astuto, cauteloso e atrevido, foi enviado a Hollanda para proclamar em embaixada publica os aggravos e exigencias do soberano portuguez, e revelar secretamente ao conde a verdadeira causa da sua vinda. Prestou-se este ao disfarce, lisongeado pela demonstração de confiança, ou por ventura aterrado com a lembrança de que as ameaças podessem ainda traduzir-se em factos, e o artificio produziu o desejado effeito de socegar até certo ponto as populações de Hespanha e Africa, posto que não tanto que os reis de Castella, de Aragão e de Granada não mandassem immediatamente embaixadores a Portugal, renovando todas as garantias de paz e amizade.

Preparado tudo, levantou ancora do porto de Lisboa a poderosa armada aos 25 de julho de 1415, não obstante{77}haver fallecido poucos dias antes D. Philippa de Lencastre, chamada pelo povo a boa rainha, e a cujas virtudes e desvelos deveu acaso Portugal a mais generosa prole, que tem rodeado um throno. Partiu em demanda das praias sarracenas; em desaffronta dos gravames n'outro tempo padecidos; em nome da raça romano-gothica contra o islamismo que lhe lançára a luva; da supremacia da civilisação christã contra as caducas instituições politicas, estribadas nas doutrinas falsas ou incompletas do koran. Partiu, sem que nem um leve estremecimento pelo futuro quebrantasse o enthusiasmo dos que iam participar dos riscos da empreza; o excitamento religioso, o espirito aventureiro, a emulação de esforço, e em muitos ainda a cubiça, menos hypocrita que n'estes nossos tempos, erguiam com demasiada força{78}aquelles animos para que lhes consentissem vacillar.

O mysterio da expedição, na qual tomavam parte os grandes, os nobres, os infantes, o herdeiro do throno e o proprio monarcha, assustou de novo toda a costa de Africa, e não menos a de Hespanha, que ainda occupavam mouros; mas sobretudo as terras de Gibraltar, por se verem abertas e mal defensaveis. Em breve, porém, se dissiparam esses receios, porque, consultados em Algeziras os principaes capitães, foi fixado o dia 12 de agosto para se caminhar contra Ceuta.

Ahi de feito surgiu a frota no dia designado, mas depois de duas tentativas de desembarque, que o temporal estorvou, foi constrangida a voltar para Algeziras. O contratempo desanimou alguns. Eram esses de voto que não se tentasse outra vez o desembarque{79}em Ceuta, que para gloria bastava já o arrojo da empresa, e que se não deviam tornar ao reino sem tingir as mãos em sangue inimigo, se dirigisse a armada a Gibraltar, que n'aquella conjunctura se offerecia como facil conquista, e que daria campo aos valentes para mostrarem esforço, ao passo que satisfaria as ambições do povo e os interesses da patria. Nenhuma consideração, todavia, dissuadiu D. João I do intentado proposito. Perseverante como o homem que, apontando fixamente ao alvo, não desvia nem por um momento a arma senão depois de acertar, desprezou os avisos cautelosos, que aliás já não poderiam ser acceitos sem desaire, e, como é facil de suppor, foi a vontade do monarcha que afinal prevaleceu.

Entretanto os mouros, attribuindo a medo a demora dos portuguezes, trataram{80}de despedir as tribus numidas que os tinham vindo auxiliar, Soldadesca indisciplinada e feroz, que nem só entre os inimigos deixava largos vestigios de ruinas e estragos; mas ainda ellas mal tinham sahido, quando no dia 20, ao declinar da tarde, se dirigiu contra a cidade toda a armada christã. Confiados na fortuna, os habitantes de Ceuta pareciam desprezar a procella que de perto os ameaçava, e quando a noite desceu com denso manto de trevas, illuminaram-se as casas em signal de torva alegria.

Com a primeira luz da manhã seguinte a gente da armada, mettendo-se nas fustas, dirigiu-se para a cidade, e os infantes D. Henrique e D. Duarte, saltando em terra com cento e cincoenta soldados, começaram a peleja com os mouros que fóra das portas os desafiavam, terçando lanças, arremessando{81}azagaias, e animando-se uns aos outros com pragas e insultos contra os invasores, intelligiveis para estes pelos gestos de rancor dos que as proferiam. N'aquelle primeiro impulso os alfanges sarracenos cruzaram as espadas portuguezas com todo o estrepito do enthusiasmo guerreiro, com todo o ardor do excitamento religioso, com todo o fogo de uma colera por muito tempo concentrada. Dir-se-ia, ao ver a furia do combate, que só adejaria a victoria sobre um dos campos quando tivesse cahido sobre o outro a total ruina. No entanto foram desembarcando mais soldados portuguezes, e, havendo já na praia trezentos homens escolhidos, apertaram estes com os mouros, que, levados mais pelo temor que pelo perigo, voltaram costas retirando-se para a cidade. Lembraram-se então os infantes{82}de que n'aquelle mesmo dia poderiam talvez dar fim á empresa, evitando assim o trabalho e combate incessante de semanas e mezes, que naturalmente resultaria de um longo assedio, e os perigos a que se expunham n'uma terra callidissima, onde de certo recrudeceria a peste que de Lisboa os seguíra. Decidiram, pois, entrar na cidade com os que fugiam, e, lançando mão do ensejo que o caso offerecia, perseguiram rijamente os mouros, arrancando-os de todas as posições, e fazendo-os apinhar sobre as portas.

Ahi foi terrivel o recontro e disputada tenazmente a victoria. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros, atravez da qual já quasi não era possivel abrir caminho sem galgar por cima dos cadaveres amontoados, que embargavam os passos{83}dos vivos; nem os invasores desistiam nem os da cidade affrouxavam, e de um e outro lado os contendores haviam chegado áquelle paroxismo de furor, que faz desprezar a vida para só cuidar em produzir a morte. Por fim, não obstante o muito que os defensores trabalharam, não poderam cerrar as portas, nem tolher entrarem os nossos de involta com elles. Os portuguezes dividiram-se então em dous bandos; D. Duarte, capitaneando um d'elles, foi subindo aos logares altos e fazendo-se senhor de todos até chegar á maior eminencia da cidade; D. Henrique tomou por outras ruas; e ambos encontraram porfiada resistencia, porque aos habitantes de Ceuta, reduzidos á defensiva, o affecto, que nos costuma prender ao lar domestico, redobrava alento e brios. Afinal, porém, essa mesma resistencia acabou; os vãos{84}esforços da população mussulmana para salvar Ceuta foram os clarões derradeiros da lampada que se extinguia. A audacia dos infantes e dos que os seguiam, a cobardia do chefe sarraceno, Salat-ben-Salat, que fugiu apenas soube ter sido entrada a cidade, e o habito da victoria, que, desde a batalha das Navas de Tolosa, os proprios mahometanos, consideravam como devendo tarde ou cedo pertencer definitivamente aos inimigos da sua crença, facilitaram a conquista de uma das povoações de Africa mais de receiar para os povos christãos do mediterraneo. El-rei, tendo posto em terra toda a sua gente, mandou fazer alto, e logo que soube estar a cidade de todo ganha, deliberou começar a combater o castello. Depois, impellido pelo enthusiasmo religioso, entrou n'uma mesquita, e ahi de joelhos agradeceu a Deus{85}esse feliz resultado de uma tentativa que a muitos parecêra loucura. Recebendo então a noticia de que o castello estava sem defensa e despejado, mandou arvorar na mais alta torre o estandarte real; e os raios do sol, que se escondia no occidente, já não encontraram a bandeira de islam, derribada n'esse dia para nunca mais se erguer sobre os muros da soberba Ceuta.

Assim, por meio de uma victoria alcançada em poucas horas, dilatou D. João I as fronteiras da monarchia pelos territorios africanos, principiando a realisar o grande pensamento dos reis chamados da primeira raça, e abrindo caminho aos vastos projectos, ás atrevidas empresas, aos descobrimentos e conquistas, que deram a esta nossa boa terra portugueza uma epocha de gloria e predominio, das maiores que o mundo tem visto.{86}

{87}

O cadaver do virtuoso D. Duarte havia descido ao sepulchro, onde, emfim, repousava das amarguras de tão curto como desditoso reinado. Para a menoredade de seu filho Affonso V, que então contava seis annos, ficára regente do reino a rainha D. Leonor. Esta, sentindo a necessidade de buscar na côrte seguro esteio contra a má vontade dos subditos, que lhe não perdoavam ser mulher e estrangeira, e{88}sobretudo ter contribuido com solicitações e conselhos para a funesta empresa de Tanger, procurou associar ao imperio o infante D. Pedro, duque de Coimbra, promettendo-lhe ao mesmo tempo o casamento do rei com sua filha D. Isabel, e julgando prendel-o assim pelo esplendor da invejada alliança. Em breve, porém, instigada pela cubiça do poder, que foi a paixão predominante dos ultimos annos da sua vida, ligou-se com o conde de Barcellos, filho natural de D. João I, e á frente dos seus parciaes, aproveitando todos os pretextos, tentou de dia em dia coarctar a auctoridade do infante.

Então o povo de Lisboa começou a alborotar-se, e depois de muitos tumultos e desordens proclamou regente e defensor do reino o duque de Coimbra. Suppondo que pouco duraria um poder, assente em tão movediço alicerce{89}como é o favor da plebe, a rainha acolheu-se a Alemquer, onde se fez forte; mas as côrtes, reunindo-se immediatamente, confirmaram a nova regencia, e resolveram que a educação d'el-rei e de seu irmão fosse confiada a D. Pedro.

O estado da nação n'aquella épocha era, na verdade, lastimoso. Parecia que uma estrella aziaga tinha constantemente presidido aos destinos do fallecido monarcha. A peste assolava o reino; a miseria publica tomava todos os aspectos; o infante D. Fernando, heroe e martyr, jazia captivo em Africa; as prophecias de mestre Guedelha, o astrologo judeu, realisavam-se fatalmente; e as gloriosas recordações de Aljubarrota e de Ceuta tornavam ainda mais duros os flagellos com que a fortuna, como que arrependida de ter sempre protegido D. João I, se{90}vingára em crueldades sobre o seu successor. Por cumulo de infortunios o prior do Crato, o conde de Barcellos e outros fidalgos, poderosos em influencia e valor, julgaram opportuno o ensejo para realisarem projectos de ambição, e proclamando a resistencia em nome da viuva de D. Duarte, constrangeram o regente a empunhar as armas para os conter. Apezar de tudo, porém, D. Pedro dirigiu com tal prudencia o leme do estado, que dentro de pouco tempo desvaneciam-se os fumos da discordia, e Portugal respirava á sombra das leis, dilatando as forças e engrossando as riquezas no seio de perfeita bonança.

Chegado el-rei aos quatorze annos, edade em que, segundo o fôro de Hespanha, qualquer principe devia haver inteiramente posse do seu reino e senhorio, quiz o duque de Coimbra entregar-lhe{91}o supremo poder, que D. Affonso, ainda não pervertido por suggestões calumniosas, recusou acceitar. A inveja, comtudo, não se enfreia nem com as ligações de familia, nem com as obrigações de gratidão, simples vinculos moraes que a historia tem muitas vezes mostrado serem fracos para conter a violencia das paixões; e as intrigas do conde de Barcellos, já então elevado á dignidade de duque de Bragança por aquelle mesmo contra quem conspirava, fizeram com que o moço rei exigisse pouco depois ao infante os fios da administração, para os sujeitar ás influencias de uma nobreza aventurosa, insoffrida de todo o jugo, mais habituada aos enredos da côrte que ás pesadas occupações do governo, e incapaz por isso de sustentar com lealdade, energia e destreza os interesses da monarchia.{92}

Tornados d'este modo reis de facto na resolução das questões mais importantes, os conselheiros de D. Affonso V sentiram recrudecer ainda a aversão contra o principe, cujo caracter generoso e firme os havia confundido ou humilhado. Ha almas impiedosas, abysmo de odios violentos e de paixões profundas, que, no momento em que se realisa a ventura por largo tempo sonhada, se deixam, todavia, subjugar por estranho sentimento de benevolencia; n'outras, porém, a perversidade é singular genero de fome que quanto mais damno causa mais appetece, é lodaçal que até entre formosas paizagens impregna a atmosphera de miasmas pestiferos. No regaço da fortuna continuaram, pois, esses homens a malquistar o infante com o monarcha, que, apesar de ter já casado com sua prima D. Isabel, entrou a{93}afastar o sogro e a dar-lhe claros signaes de que condescendia sem hesitar com as villezas d'aquelles, por quem mostrára sempre decisiva predilecção. Dotado de indole altiva e pouco soffredora, lasso do serpeiar flexuoso dos cortezãos, D. Pedro, em vez de permanecer junto do sobrinho a fim de lhe expungir da mente as perfidas calumnias, retirou-se logo para Coimbra, deixando d'esse modo livre o campo aos adversarios para a seu salvo satisfazerem rancores, que o tempo cada vez mais exacerbára.

Debalde correu então á côrte a defender o irmão o infante D. Henrique, que já n'essa quadra residia em Sagres; debalde o conde de Avranches, D. Alvaro Vaz de Almada, o mais illustre cavalleiro da Peninsula, alma grande, generosa, leal e intrepida, reptou os accusadores do duque de Coimbra,{94}nenhum dos quaes se atreveu a levantar o guante; debalde interveiu a propria rainha, procurando entre lagrimas e caricias reconciliar o marido com o pae. Tudo foi inutil. Dominado pela contumacia dos validos e cego pelo orgulho dos verdes annos, D. Affonso V prohibiu ao sogro que voltasse á côrte, e como este se recusasse a entregar as armas que possuia em Coimbra, allegando que necessitava dellas para se defender dos seus inimigos, declarou-o rebelde e partiu contra elle á frente de um poderoso exercito.

Este procedimento do monarcha operou no animo de D. Pedro uma revolução moral, d'essas que só as grandes crises podem produzir; foi sobresalto, embate, transformação repentina de todas as suas idéas e sentimentos. Entretanto, aconselhando-se com aquelles{95}em que principalmente confiava sobre o que havia de fazer, acceitou o aviso do conde de Avranches; e, partindo de Coimbra com diminuta hoste, determinou buscar o sobrinho e genro, pedir-lhe justiça contra os que o infamavam, e se a moderação e firmeza não bastassem, rota a ultima barreira, repellir a força com a força, arvorando o pendão negro da revolta.

Chegando proximo a Alverca, assentou D. Pedro arrayal nos plainos de Alfarrobeira em sitio assás defensavel. Ahi o encontrou el-rei, e logo o cercou completamente, mandando ao mesmo tempo apregoar por seus arautos, que seriam tidos por traidores todos os que não desamparassem o infante. Essa intimação, todavia, não produziu o ambicionado exito, e pelo contrario alguns cavalleiros e soldados, movidos por nobre sentimento de generosidade,{96}vieram unir-se áquelle que o soberano tratava como rebelde. Emquanto isto succedia, e talvez fosse possivel evitar o funesto conflicto dos dous bandos, um acontecimento fortuito apressou o desfecho do terrivel drama.

Os bésteiros e espingardeiros do exercito real, abrigados uns pelo denso arvoredo que sombreava o ribeiro de Alfarrobeira, collocados outros no cimo de um outeiro que dominava o acampamento, começaram a varejar com tiros o arrayal do infante. Vendo este os seus leaes companheiros immolados sem combate nem gloria, mandou disparar algumas bombardadas, uma das quaes acertou perto da tenda de el-rei. Então a briga empenhou-se decisivamente. De uma parte estava um troço de homens intrepidos, aos quaes a desesperança augmentava o esforço; da outra{97}um exercito numeroso e aguerrido, contra cujo poder seria impossivel a resistencia. Como se não bastasse, porém, a desegualdade entre os dous contendores, o infante, ferido por uma setta que lhe varou o corpo, tombou por terra logo ao principio da peleja, e com a sua morte feneceu em redor d'elle todo o esforço dos animos mais robustos. Sómente o conde de Avranches, que havia jurado não sobreviver a D. Pedro, luctou denodadamente contra os de el-rei, já senhores da victoria. Cegos de furor, cavalleiros e peões arrojavam-se e cahiam diante d'aquelle vulto, como os vagalhões de mar tempestuoso se arremessam e desfazem em frente dos rochedos da costa. No meio de larga clareira, só, impavido e magestoso, D. Alvaro derribava a seus pés quantos d'elle se aproximavam, e parecia, como o Campaneu de Stacio,{98}ameaçar os deuses e os homens. Afinal, perdidas as forças, baqueou por entre os inimigos, que a poder de golpes depressa o acabaram.

O sangue do infante, vertido n'esta carnificina, a que mal podemos dar o nome de batalha, não ficou inulto. Da filha do duque de Coimbra nasceu o principe que tomou sobre si a obra terrivel da expiação. O cadafalso de D. Fernando de Bragança vingou o assassinio do infante D. Pedro, e mais uma vez se realisou a terrivel sentença biblica, que ameaça punir nos filhos as iniquidades dos paes.{99}

Nos ultimos annos de D. Affonso V a aristocracia tinha chegado ao apogeo do predominio, e as instituições feudaes, que se haviam mesclado com a nossa primitiva organisação social, achavam-se enraizadas e vigorosas, parecendo poder resistir perpetuamente aos esforços do povo e do monarcha. Já D. João I, o rei de boa memoria, quizera destruir a quasi independencia dos orgulhosos barões, que governavam{100}nos seus solares como senhores absolutos, não hesitando, sob quaesquer pretextos, em arvorar o estandarte da revolta, e até em combater contra a patria; mas os principes, que se lhe tinham seguido, haviam governado com tal frouxidão e timidez, que a nobreza retomára o antigo valimento, e preparára-se para defender a todo o custo os seus fóros e prerogativas. Foi então que subiu ao throno D. João II, alma energica, robusta e negra, que conseguiu debellar o poder dos fidalgos, apoiando-se no braço do povo, e enfraquecer o braço do povo, pesando depois sobre elle com toda a força e intensidade do poder da corôa.

A uma falta absoluta de escrupulos juntava D. João II grande firmeza de genio, extraordinaria sagacidade e o retrahimento bastante para occultar,{101}debaixo de um aspecto frio e de sorrir forçado, o ardor de violentas paixões. Os chronistas, que escreveram sob o patrocinio dos immediatos successores d'este soberano, chamaram-lhe o principe perfeito. Poucas vezes, porém, escriptores cortezãos e lisongeiros têm respeitado menos a verdade dos factos. Retrato vivo do seu contemporaneo Luiz XI de França, manifestou sempre, quer nas leis geraes, quer nos actos proprios e espontaneos, a influencia de um pensamento capital, a que sujeitou todos os affectos e considerações; e esse foi o de alluir de vez a preeminencia e immunidade dos grandes vassallos da corôa. No seu reinado tem de ir tambem buscar o historiador a fixação das fórmas politicas, que ressumbram em toda a legislação subsequente, e a que poderemos chamar a transfiguração do absolutismo{102}em despotismo, como a estructura social anterior se póde igualmente considerar um meio termo entre a monarchia e as instituições representativas.

Tal era o inimigo com que a nobreza tinha de combater para conservar a sua preponderancia nos negocios publicos, inimigo formidavel não só pelo seu caracter, mas ainda pelo prestigio que o rodeava, e pelas circumstancias que favoreciam os planos da sua politica. O throno, affagando as sympathias democraticas do terceiro estado, que já começava a conhecer a sua força, lançava mão do instrumento mais seguro para assentar o poder em bases solidas. O resultado, pois, da lucta não podia ser duvidoso. Nos paizes governados pela vontade de um só homem, quando á pressão enorme d'essa vontade se associa a opinião{103}popular, o pensamento que vive no animo do principe e das multidões, quer justo quer iniquo, hade triumphar infallivelmente, e a lucta dos que lhe resistem pode ser grande e nobre, mas é inutil esforço.

Logo que falleceu D. Affonso V, o primeiro acto de D. João II foi a convocação das côrtes em Evora, onde lhe prestaram homenagem os senhores, villas e cidades do reino. Ahi começaram os golpes profundos na propriedade, na jurisdicção e em toda a especie de regalias das classes privilegiadas; reformas cujo fim capital era abater a nobreza e em parte o clero, invalidando-lhes duas poderosas armas, a que dá a riqueza e a que provém da opinião. Exigiu-se, pois, dos alcaides e donatarios nova fórma de menagem, chamaram-se a exame as cartas de mercês e doações, cerceou-se{104}muito a jurisdicção criminal, que os fidalgos exerciam em suas terras quasi sem peias nem termo, e ampliou-se o direito de appellação para as justiças reaes.

Os nobres não souberam encobrir o descontentamento. Educados na guerra e na côrte de D. Affonso V, habituados a illimitado poder dentro dos seus coutos e honras, unidos, em fim, pela communidade de interesses e de perigos, de boa e de má fortuna, offenderam-se de que o rei ousasse tomar-lhes contas das violencias de um valimento, ao qual a impunidade de largos annos quasi dera fundamento legitimo. D. Fernando, duque de Bragança e de Guimarães, marquez de Villa Viçosa, conde de Ourem, de Barcellos, de Arrayolos, de Neiva e de Penafiel, senhor de trinta villas, e por nobreza e possessões o principe mais illustre{105}das Hespanhas, foi escolhido como chefe dos descontentes, e isto bastou para o seu tragico fim. As expressões arrogantes dos fidalgos contra a quebra dos seus fóros, os alvitres suggeridos a alguns procuradores do povo, as vãs ameaças, os secretos conluios, e até os actos inoffensivos e indifferentes, tudo foi traduzido, decifrado, envenenado e exposto com as côres necessarias para que D. João II podesse, de um só lance, satisfazer os aggravos de rei e as vinganças de homem. Prevenido a tempo dos riscos que o cercavam, o duque de Bragança não soube ou não quiz evital-os; e em vez de se refugiar em Castella, asylo fiel contra a cólera do monarcha, dirigiu-se á côrte, que então estanciava em Evora, e ahi foi recebido com taes demonstrações de contentamento e affecto, que chegou a julgar-se{106}tão seguro ao lado do seu implacavel inimigo, como no palacio de Villa Viçosa no gremio dos seus parciaes.

Não tardou, todavia, que a confiança se lhe convertesse em arrependimento, e que ao bater a hora da desgraça, conhecesse por dolorosa experiencia que um coração como o do monarcha, abysmo insondavel de perversidade e hypocrisia, podia disfarçar odios, mas não sabia esquecel-os. Indo n'um dia, ao cahir da tarde, despedir-se de D. João II para voltar ás suas terras, conduziu-o este a uma casa apartada, onde, certo de que não vibraria já em vão o golpe, lhe disse que convinha ficasse preso até se averiguarem as suspeitas do crime de rebellião que lhe imputavam. Vendo o perigo que corria o duque, muitos fidalgos offereceram dar a el-rei suas alcaidarias em refens{107}pelo nobre vassallo; e porque, ao tempo em que essas propostas foram feitas, ainda D. João II receiava as consequencias do terrivel lance que tentára, quasi conveiu em acceital-as. Apenas soube, porém, que as comarcas, villas e fortalezas que mandára cobrar tinham sido entregues, e que de Castella não havia a temer clamores importunos, mandou logo que o caso se visse e determinasse por justiça. Assim se exprimem os dous panegyristas do principe perfeito, Ruy de Pina e Garcia de Resende, pobres homens cujo espirito cortezão nem sempre soube esconder a tenebrosa astucia e a suprema perversão moral do heroe dos seus fastos.

A justiça fez-se vingança, e a execução significou sómente um assassinio judicial, fria e solemnemente resolvido. Accusado por testemunhas vis{108}e por inimigos inexoraveis, julgado tumultuariamente por juizes não seus pares, aos quaes a presença do rei coagia além d'isso o voto, o amigo e conselheiro de D. Affonso V foi condemnado sem o ouvirem, e entregou a vida ao cutello do algoz, no meio dos brados e doestos de uma multidão sem piedade nem pudor, que de toda a parte corrêra frenetica para assistir ao cruento espectaculo. N'esse mesmo dia (20 de junho de 1483), e depois de ter ficado exposto o cadaver por espaço de uma hora, os conegos da sé de Evora sepultaram no mosteiro de S. Domingos os restos do homem, que fôra por muito tempo talvez o arbitro do reino.

Á conjuração, por ventura chimerica, succedeu outra verdadeira. O desgosto dos grandes, durante algum tempo sopeado pelo temor ou pela esperança,{109}convertêra-se em odio profundo. Decididos a vingarem a morte do duque de Bragança, e a restabelecerem os fóros e immunidades da nobreza, accordaram que o meio mais adequado aos seus intentos era assassinarem o monarcha. O duque de Vizeu, o bispo de Evora, seu irmão D. Fernando de Menezes, Fernão da Silveira, D. Gutterres Coutinho, D. Alvaro e D. Pedro de Athaide, o conde de Penamacor e Pedro de Albuquerque eram os cabeças da insurreição; o bispo de Evora, porém, é que, como a aranha no centro da têa, urdia e combinava os planos. D'ahi lhes proveiu a ruina, porque o incauto prelado não soube prever a traição, e foi justamente essa falta, que destruiu todos os seus calculos. Fiado na apparente amisade de Diogo Tinoco, cuja irmã seduzira, revellou tudo a esse{110}homem, não se lembrando de que lhe dava assim ensejo de vingar offensas, que não podia ter esquecido; e o aviltado cavalleiro preveniu logo Antão de Faria, camareiro do rei e seu privado, e, encontrando-se depois com o proprio D. João II no convento de S. Francisco em Setubal, relatou-lhe circumstanciadamente os projectos dos conspiradores.

Agradecendo a Tinoco com dadivas e promessas o serviço que prestára, o rei recommendou-lhe inviolavel segredo, e continuou, como se tudo ignorasse, abalançando-se indefenso no meio dos conjurados, oppondo dissimulação a dissimulação, e enganando com fingido affecto aquelles de quem mais se temia. Era a calmaria que antecede a procella. No seio das trevas o filho de D. Affonso V ia aperfeiçoando os planos de vingança, e{111}por isso aguardava sem impaciencia o dia propicio em que podesse colher no fôjo os seus mortaes inimigos.

Este finalmente chegou. Depois de terem por vezes tentado em vão assassinar o rei, os fidalgos assentaram esperal-o em Setubal, ao desembarcar vindo de Alcacer, e realisarem então o seu intento. D. João II, porém, que lhe presentia os movimentos, fez o caminho da Landeira por terra, bem acompanhado pelos ginetes de Fernão Martins, e pelos besteiros e espingardeiros da guarda; e chegando a Setubal no dia 22 de agosto de 1484, mandou logo na manhã seguinte chamar o duque de Vizeu, que pousava em Palmella. Resolvêra, emfim, tirar a mascara, e a explosão devia ser tanto mais terrivel, quanto fôra duradoura e profunda a necessidade de conservar latente, debaixo de superficie{112}de gelo, o ardor de odio intenso e concentrado.

Entrando o duque no palacio ao anoitecer, chamou-o el-rei ao aposento que lhe servia de guarda-roupa, e ahi, accusando-o de traição, o matou ás punhaladas, na presença de alguns cavalleiros, que para assistirem a esse acto tinham sido convocados. Na manhã seguinte via-se sobre um estrado, no centro da egreja matriz da villa, o cadaver do duque de Vizeu, com o rosto descoberto e dez feridas de punhal. D'ahi a poucos dias o bispo de Evora, preso na camara da rainha, morria envenenado no castello de Palmella; D. Fernando de Menezes, D. Pedro de Athaide e Pedro de Albuquerque eram degollados na praça publica; e D. Gutterres Coutinho expirava ás mãos do carrasco no fundo de um calabouço. Emfim, passados cinco annos,{113}Fernão da Silveira, a quem a nobre dedicação de um amigo salvára do patibulo, cahia assassinado em França por mandado do rei de Portugal.

A negrura de semelhante proceder é evidente; e se as cousas da terra podessem despertar o profundo somno dos mortos, os cadaveres d'esses homens deveriam muitas vezes apparecer á consciencia de D. João II, tornando ainda mais penosas as desgraças, que lhe enlutaram o coração durante os restantes annos do seu curto reinado.{114}

{115}

Julgam profundos historiadores que os descobrimentos além do cabo Bojador, posto que encetassem para o reino uma grande epocha de gloria e prosperidade, foram talvez a causa capital da rapida e angustiosa decadencia a que chegámos nos fins do seculo XVI. Entretanto não seremos nós que condemnaremos esse espirito aventuroso e intrepido, que levou os nossos marinheiros e soldados a practicarem{116}tantos feitos assombrosos de ousadia, de abnegação, de patriotismo. Das victorias que alcançaram já nem existem tropheus, das nações que se prostraram ao seu esforço indomavel são outros hoje os senhores, do respeito e temor em que os tinha o mundo apenas resta a lembrança, e todavia a maravilhosa narração das façanhas d'aquellas eras, das homericas batalhas de poucos homens contra exercitos, das expedições e conquistas que ergueram uma nação pequena e pobre ao fastigio da soberania e da opulencia, ainda nos alvoroça o coração de enthusiasmo e amor patrio, não obstante as preoccupações prosaicas e calculadoras do seculo em que vivemos.

O descobrimento do caminho maritimo para a India é, sobretudo, um d'aquelles factos extraordinarios, de{117}que o espirito mais penetrante mal póde medir a extensão. Não fallando já dos paizes e regiões incognitas que acrescentámos á communhão europea, do aperfeiçoamento da navegação e do commercio, do novo e immenso mercado que abrimos a todas as industrias, do ascendente da classe média que eficazmente fomentámos, basta dizer-se que ás victorias dos portuguezes na India deve talvez a Europa não ter succumbido ao jugo mahometano. Ao passo que nós e os castelhanos nos preparávamos para dilatar os ambitos do mundo conhecido, hastear por toda a parte a cruz, e estabelecer em redor d'ella uma transformação social; ao passo que as outras nações christãs, agitadas por muitas e diversas causas, se entretinham em luctas feudaes de castello com castello, e de paiz com paiz; os mussulmanos{118}iam crescendo em poder, as suas dynastias radicavam-se desde o Indostão até o Mediterraneo, os seus navios sulcavam todos os mares, o monopolio do commercio asiatico constituia os povos em vassallagem dos seus mercados, e os seus exercitos, animados pelo amor da guerra e pelo fanatismo da crença, ameaçavam de nova invasão os estados da christandade. Veneza, a rainha do Adriatico, ousava a custo contrastar em parte a influencia de Constantinopla, mas esse obstaculo depressa desappareceria se as conquistas dos portuguezes não viessem produzir no mundo completa metamorphose mercantil e politica. Malaca e Ormuz, os dous principaes emporios das producções indianas, abriram seus portos sómente aos novos dominadores; as armadas turcas e as do Achem e Jaoa,{119}os exercitos de Cambaya e Cananor, as forças do Samorim, dos reis de Dekan, do Hidalcão e do soldão do Egypto não conseguiram arrancar das nossas mãos o imperio da Asia; e as nações mussulmanas, perdido o principal elemento da sua força, foram-se desmembrando, fundindo, esvaecendo, e eil-as as que restam, fracas e decrepitas, alongando humildemente os olhos para o occidente, na esperança de que os filhos do christianismo estendam um braço que ampare os representantes e sectarios do propheta.

Foi essa a epocha da nossa gloria mais esplendida. Quem examinasse então um mappa cosmographico, desde a linha que distingue a Europa e a Africa até ao cabo da Boa Esperança, quasi não encontraria ilha, promontorio, costa, golpho ou enseada, onde a fama do nome portuguez não guardasse{120}por si só a conquista; e montando o cabo veria tremular o pendão das quinas nos pontos mais importantes do Oriente, e ainda nos remotos archipelagos que depois se deviam chamar a Oceania. Antes d'essa epocha, porém, houve uma lucta, que durou perto de um seculo, e que votou ás paginas da historia universal e ao applauso da posteridade a memoria d'esses homens valorosos, que alteraram os destinos do mundo em proveito do christianismo, da civilisação e da politica. Os descobrimentos de Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, de Gil Annes, de Nuno Tristão, de Gonçalo de Cintra, de Lançarote, de Gonçalo Velho, de Antonio de Nolle, de João de Santarem, de Pedro d'Escobar, de Diogo da Azambuja, de Diogo Cão, de Bartholomeu Dias e João Infante foram como que os preliminares{121}dos grandes commettimentos. D. Manuel, subindo ao throno no anno de 1495, resolveu continuar a empreza de seus antecessores, porfia magnanima que tantos sacrificios tinha já custado. Ao infante D. Henrique haviam-se devido os primeiros trabalhos e tentativas que prepararam o descobrimento da India; D. João II fundára na Africa o imperio portuguez, e deixára ao seu successor abundantes materiaes para o estabelecer na Asia; ao monarcha venturoso estava destinada a missão de traduzir n'um facto estupendo este vasto projecto.

Vigorosa foi, comtudo, a resistencia que D. Manuel encontrou nos seus conselheiros. Reprovavam estes o descobrimento como origem infallivel de ruina, lembrando os riscos de mar e terra, o acanhamento do reino e de{122}seus recursos, a vastidão e difficuldade da conquista, e propondo que a vida energica da metropole se applicasse exclusivamente a explorar as possessões adquiridas, o que aliás era já difficil encargo para um povo tão pouco numeroso. Mas nem duvidas nem suggestões abalaram a vontade do monarcha, que, na febre do enthusiasmo que o incitava á tentativa, como que antevia a aurora do triumpho. Encarregou, pois, de executar a empreza a Vasco da Gama, filho do alcaide mór da villa de Sines, Estevão da Gama, e, entregando-lhe em acto publico a bandeira, determinou a partida.

Prestes a armada, que se compunha de duas naus,S. GabrieleS. Raphael, da caravellaBerrio, e de um navio de mantimentos, embarcaram-se em Restello todos os que deviam ir na{123}expedição, e que seriam cento e sessenta homens entre marinheiros e soldados. Magestoso espectaculo offereceram então aquellas praias. Era o dia 8 de julho de 1497. O sol esplendido banhava de luz o Tejo, as suas margens e a pobre ermida da Senhora da Invocação de Belem, ermida que o infante D. Henrique mandára construir para animar a devoção dos maritimos, e que depois tinha de converter-se no grandioso templo dos Jeronymos. D'ahi sahia uma procissão, guiada pelos freires da ordem de Christo, e seguida de grande concurso de povo, que consternado tinha vindo despedir-se dos audazes navegadores. O fito que attrahia a multidão provinha do enlevo que excitam sempre as tentativas arrojadas, e esse sentimento achava-se ahi concentrado como no seu grande fóco, ancioso pelas contingencias{124}da viagem, afflicto pela probabilidade das catastrophes, engrandecido pela communicação rapida, electrica, fascinadora, irresistivel de tantos espectadores. Tristes estavam todos, excepto os que partiam, porque a esses animava o fervor e alvoroço da empreza, não obstante irem cruzar mares nunca navegados, dobrar promontorios, evitar restingas, resistir a tempestades e correntes, domar barbaros de Africa, combater os mouros, procurar, emfim, o desconhecido com todos os seus encantos e esperanças, mas com todos os seus assombros e perigos.

Desfraldadas as velas partiram-se de foz em fóra, aportaram a Cabo Verde, entraram na bahia de Sancta Helena, e depois de montarem o cabo da Boa Esperança com menos tormentas e riscos do que os marinheiros temiam,{125}e de passarem pela aguada de S. Braz, pela costa do Natal, pelo rio dos Bons Signaes, chegaram, no fim de quasi oito mezes de viagem, a Moçambique, d'onde logo desaferraram algumas barcas, ahi chamadas zambucos, que vieram abicar ás naus. Guarneciam-n'as muitos indigenas, e entre elles alguns brancos que pelos trajos e linguagem se conheceu serem mouros. Por um d'elles, natural de Fez, mandou Vasco da Gama ao xeque d'aquella terra, dizendo que se dirigia á India, e que para esse fim lhe pedia um piloto. Prometteu o xeque satisfazer o pedido e veiu visitar os navegantes, porque, a despeito das informações obtidas, cuidava ainda que seriam turcos; conhecendo, porém, que eram christãos, determinou destruil-os, e quando, desfeitos os varios ardis que para a traição empregára, se viu constrangido a{126}entregar um piloto, instruiu-o para que em vez de guiar os navios procurasse perdel-os. A fortuna, todavia, que no meio dos seus caprichos se inclina a proteger os que muito ousam, salvou os portuguezes, que no dia 7 de abril de 1498 chegaram a Mombaça, cidade importante e para esses tempos civilisada, onde tambem escaparam a graves perigos. Em Melinde, em fim, o rei, não obstante o antagonismo de crenças e de raça, entendeu que devia soccorrer os estrangeiros, e com esse intuito acolheu-os sem perfidia e deu-lhes um habil piloto que os levasse á India.

Vinte e tres dias depois de terem partido de Melinde suppozeram os marinheiros ver terra. Já por vezes, em dias anteriores, se lhes tinha affigurado o mesmo, e haviam estremecido de contentamento e esperança; mas o{127}tempo mostrára sempre que taes imagens eram apenas hallucinação, e a alegria se lhes transformára em profunda tristeza, porque cousa alguma abate mais os animos do que essas alternativas de illusões e desenganos, que são como os sarcasmos do destino. Desalentados, pois, e fitos sombriamente os olhos no horisonte, os mesmos homens, que com tão escassos recursos, e estando ainda na infancia a arte nautica, se haviam affoutado aos abysmos com desassombrada resolução, trepidavam agora, e quasi que sentiam as angustias do desespero. D'esta vez, porém, apresentava-se a realidade incontestavel, e não tardou muito que distinctamente se conhecesse a proximidade de um continente vastissimo. Appareciam afinal essas praias da India, que eram já para os atrevidos navegadores o sonho, o enlevo,{128}a paixão que a todos avassallava, paixão que fôra crescendo com os obstaculos até constituir a idéa fixa, o pensamento constante d'aquellas almas energicas.

Chegada a noite tornou-se necessario virar de bordo, porque fôra perigoso no meio das trevas entestar com a terra, mas no dia seguinte, ao romper da manhã, corria a armada ao longo da costa com vento bonançoso. Uma cadeia de montanhas, tendo por corôa as nuvens, sobresahia em distancia; por entre florestas de palmeiras divisavam-se soberbos edificios; o Oriente, emfim, o recesso dos mysterios, a região dos prodigios, cujas fabulas nebulosas eram ainda inferiores ás maravilhas que já se presentiam, patenteava-se com toda a magestade da sua vegetação opulenta. Avisinhavam-se n'aquella costa tres povoações: Calecut,{129}Capocate e Pandarane. Os marinheiros, tomando a segunda pela primeira, por engano de Canacá, o piloto indiano, dirigiram as naus a Capocate, pobre aldeia de pescadores; mas, sabendo ahi qual das povoações era Calecut, foram lançar ferro na enseada da cidade.

Considerava-se n'esse tempo Calecut uma das mais importantes escalas commerciaes da India, e era sem duvida a mais poderosa de todas as terras do Malabar. Viam-se girar no seu commercio os diamantes e pedras preciosas das ricas minas de Narsinga e do Pegú, as perolas de Kalckar, o oiro de Sumatra, o ambar das Maldivas, o marfim, a porcelana, as sedas e damascos da China, o sandalo de Timor, o algodão, o anil, o assucar, as especiarias mais apreciadas, tudo, emfim, quanto póde contribuir para o uso e{130}delicias da vida. Capital do reino do mesmo nome, constituia Calecut a séde do sacerdocio e do imperio; tinha, além de innumeraveis casas feitas de madeira e cobertas de palma, muitos palacios, templos, arcos e torres soberbas; e estendia-se por largo espaço, contendo, segundo o computo dos naturaes, cerca de duzentos mil habitantes. Fundada com pouco poder, havia ganho dentro de breve tempo aquelle grande esplendor, e o seu rei, a que chamavam o Samorim, era o mais respeitado e temido entre os monarchas do Indostão.

Annunciada a vinda dos portuguezes, recebeu-os o principe com affago, deu audiencia a Vasco da Gama, e declarou acceitar a alliança do rei de Portugal, promettendo que na frota lhe enviaria embaixadores. Os mouros, porém, costumados de longo tempo{131}aos lucros commerciaes d'aquella terra riquissima, e receiando que a influencia dos portuguezes não lhes consentisse de futuro nem protecção, nem accordo, nem tregoas, nem misericordia, começaram a urdir traições, tentando persuadir o Samorim de que os navegantes eram piratas miseraveis que levariam o terror do seu nome aos confins do imperio, como já em Moçambique e Mombaça tinham deixado vestigios de crueldade e perfidia; e de que ainda quando fossem subditos de monarcha poderoso, eram decerto homens orgulhosos e ávidos, que não pretendiam, sob as apparencias de paz e amisade, senão a conquista e posse exclusiva do solo descoberto. Convenceu-se facilmente o principe indiano, e desde logo se lhe transformou a boa vontade, dissimulando apenas o seu odio para encontrar ensejo favoravel{132}de colher ás mãos os estrangeiros.

Debellados, todavia, os tramas pela intrepidez e astucia de Vasco da Gama, levantaram ancora as naus, e depois de quasi tres mezes de demora n'esse paiz inimigo, seguiram viagem para Portugal, tendo que vencer de novo graves perigos, e perdendo tantos a vida com as febres, que dos cento e sessenta homens que partiram poucos mais de sessenta regressaram á patria.

Em Portugal a noticia do descobrimento da India encheu de enthusiasmo todo o reino. Estavam depostos os temores, patente o caminho, encetada, em summa, a nova cruzada de religião, de guerra, de industria e de gloria, que ia devassar as barreiras da antiga civilisação oriental. Justificára-se o firme proposito que vencêra{133}as apprehensões anteriores, e D. Manuel, depois de premiar Vasco da Gama e os famosos companheiros,acrescentou aos titulos do seu dictado os de senhor da conquista, navegação e commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India.

O soberbo mosteiro dos Jeronymos foi o padrão erguido á grandeza do emprehendimento, á fortuna do resultado, ao favor da providencia; a torre de S. Vicente de Belem, edificada quasi no mesmo periodo, tornou-se a testemunha gloriosa do immenso poder que depois alcançámos, e que ao passo que avassallava o imperio da Asia, vencia na Berberia as bellicosas turbas agarenas, cravava marcos de posse em quasi tres mil legoas da costa oriental da Africa, e dava á Europa a primazia entre as outras partes do mundo, abrindo caminho á grande revolução{134}intellectual, moral, politica, mercantil e guerreira, que tornou o seculo XVI talvez a epocha mais maravilhosa da historia da civilisação.{135}


Back to IndexNext