—Creio que mais, porque eu o adoro.
D. Fernanda não entendeu esta palavra.Creio que mais, por que eu o adoro!Era verdade, a conclusão não parecia estar nas premissas; mas era o caso de emendar outra vez Hamlet: «Ha entre o céo e a terra, Horacio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vãdialectica». Pobre D. Fernanda! Não conhecia o poeta, e provavelmente não se conhecia a si, que era ainda o meio mais seguro de decifrar a palavra obscura de Maria Benedicta. Esta começou a contar-lhe a viagem, a desfiar as suas impressões e reminiscencias; e, como o marido viesse ter com ellas, pouco depois, recorria á memoria delle para preencher as lacunas.
—Como foi, Carlos Maria?
Carlos Maria lembrava, explicava, ou rectificava, mas sem interesse, quasi impaciente. Adivinhára que Maria Benedicta acabava de confiar á outra as suas venturas, e mal podia encobrir o effeito desagradavel que isto lhe trazia. Para que dizer que era feliz com elle, se não podia ser outra cousa? E porque divulgar os seus carinhos e palavras, as suas misericordias de deus grande e amigo?
A volta ao Rio de Janeiro foi uma condescendencia sua. Maria Benedicta queria ter aqui o filho; o marido cedeu,—a custo, mas cedeu. A custo, por que? É difficil explical-o, não menos que entendel-o. Relativamente á maternidade, Carlos Maria tinha ideias pessoaes e singulares, reconditas, não confiadas a ninguem. Achava impudica a natureza em fazer da gestação humana um phenomeno publico, franco ás vistas, crescente até ao aleijão, suggestivo até ao desrespeito. D'ahi vinha o desejo da solidão, do mysterio e da ausencia. Viveria de boamente os ultimos tempos no interior de uma casa unica, posta no alto de um morro, vedada ao mundo, donde a mulher baixasse um dia com o filho nos braços e a divindade nos olhos.
Não fez sobre isto nenhuma proposta á mulher. Teria de discutir, e elle não gostava de discutir; preferia ceder. Maria Benedicta tinha naturalmente o sentimento contrario: considerava-se a si mesma um templo divino e recatado, em que vivia um deus, filho de outro deus. A gestação ia cheia de tedios, de dores, de incommodos que ella occultava o mais que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preço á creaturinha futura. Acolhia o mal com resignação,—se não é que o agasalhava com alegria,—uma vez que era a condição da vinda do fructo. Fazia cordialmente o officio da especie. E repetia sem palavras a resposta de Maria de Nazareth: «Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim a sua vontade».
—Você que tem? perguntou Maria Benedicta ao marido, logo que ficaram sós.
—Eu? Nada. Porque?
—Parecia estar aborrecido.
—Não, não estava aborrecido.
—Estava, sim, insistiu ella.
Carlos Maria sorriu, sem responder. Maria Benedicta já lhe conhecia esse sorriso especial, inexpressivo, sem ternura nem censura, superficial e pallido. Não teimou em querer saber, mordeu os beiços e retirou-se.
No quarto, durante algum tempo, não cuidou de outra cousa que não fosse aquelle sorriso descorado e mudo, signal de algum aborrecimento, cuja culpa não podia ser senão ella. E percorria toda a conversação, todos os gestos que fizera, e não achava nada que explicasse a frieza, ou o que quer que era de Carlos Maria. Talvez ella se mostrasse excessiva nas palavras; era seu costume, se estava contente, pôr o coração nas mãos e distribui-lo a amigos e a extranhos. Carlos Maria reprovava essa generosidade, porque dava um ar de sorte grande ao seu estado moral e domestico, e porque lhe parecia banal e inferior. Maria Benedicta recordava-se que, em Paris, na colonia brazileira, sentira mais de uma vez esse effeito de suas expansões, e reprimira-se. Mas D. Fernanda estaria no mesmo caso? Não era a autora da felicidade de ambos? Rejeitou essa hypothese, e tratou de ver outra. Não a achando,—voltou á primeira, e, segundo lhe succedia sempre, deu razão ao marido. Em verdade, por mais intima e grata que fosse, não devia contar á boa amiga as minucias da vida; era leviandade sua...
Nauseas vieram interrompel-a neste ponto das reflexões. A natureza lembrava-lhe uma razão de Estado—a razão da especie,—mais instante e superior aos tedios do marido. Ella cedeu á necessidade; mas, poucos minutos depois, estava ao pé de Carlos Maria, contornando-lhe o pescoço com o braço direito. Elle, sentado, lia uma revista ingleza; pegou-lhe na mão, pendente sobre o peito, e acabou a pagina.
—Você me perdoa? perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto. Daqui em diante vou ser menos tagarella.
Carlos Maria pegou-lhe nas duas mãos, sorrindo e respondeu com a cabeça que sim. Foi como se lançasse uma onda de luz sobre ella; a alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-hia que o proprio feto repercutiu a sensação e abençoou o pae.
—Perfeitamente! Assim é que eu os quero ver! bradou uma voz do lado da varanda.
Maria Benedicta affastou-se rapidamente do marido. A varanda, que communicava para a sala, por tres portas, tinha uma destas aberta. Dalli viera a voz; dalli espiava e ria a cabeça de Rubião. Era a primeira vez que o viam. Carlos Maria, sem se levantar, olhava para elle, serio, esperando. E a cabeça ria, com os seus fartos bigodes de ponta de agulha, mirando um e outro, e repetindo:
—Perfeitamente! assim é que eu os quero ver!
Rubião entrou, estendeu-lhes a mão, que elles acceitaram sem carinho, disse muitas phrases de admiração e louvor a Maria Benedicta, ella tão galante, elle tão galhardo; notou que ambos tivessem o nome de Maria, especie de predestinação, e acabou noticiando a quéda do ministerio.
—Caiu o ministerio? perguntou involuntariamente Carlos Maria.
—Não se falla em outra cousa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir licença, já que não me offerecem cadeira, continuou elle, sentando-se, tirando a bengala que trazia debaixo do braço e firmando as mãos sobre ella. Pois é verdade, o ministerio pediu demissão. Vou organisar outro. Ha de entrar o Palha, o nosso Palha,—seu primo Palha,—e o senhor tambem, se lhe dá gosto, será ministro. Preciso de um bom gabinete, todo gente amiga e forte, capaz de dar a vida por mim. Hei de chamar o Morny, o Pio, o Camacho, o Rouher, o major Sequeira. A senhora lembra-se do major? Creio que fica com a guerra; não conheço homem mais apto para os negocios militares.
Maria Benecdicta, aborrecida e impaciente, andava pela sala, á espera que o marido mandasse alguma cousa; este disse-lhe com os olhos que se fosse embora; ella não aguardou outro gesto, pediu licença ao hospede e retirou-se. Rubião, depois que ella sahiu, elogiou-a novamente,—uma flor, disse elle; e emendou-se rindo: duas flores, creio que ha alli duas flores. Nosso Senhor as abençoe! Carlos Maria estendeu-lhe a mão em ar de despedida.
—Meu caro senhor...
—Posso incluil-o no ministerio? perguntou Rubião.
Não ouvindo resposta, entendeu que sim e prometteu-lhe uma boa pasta. O major iria para a guerra, e o Camacho para a justiça. Não os conhecia acaso? «Dous grandes homens, Camacho ainda maior que o outro.» E obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na direcção da porta, Rubião retirava-se sem se sentir; mas não sahiu tão prompto. Na varanda, antes de descer os degráos, referiu vários factos da guerra. Por exemplo, tinha restituido a Allemanha aos allemães; era bonito e politico. Já havia dado Veneza aos italianos. Não precisava mais territorio; as provincias do Rheno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.
—Meu caro senhor... insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mão.
Despediu-o e fechou a porta; Rubião proferiu ainda algumas palavras e desceu os degráos. Maria Benedicta, que os espreitava do fundo, veiu ter com o marido, reteve-o pela mão, e ficou a ver o Rubião que atravessava o jardim. Não ia direito, nem appressado, nem calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho secco, vendo mil cousas no ar, mais galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono. Da vidraça miravam o nosso amigo, e, em certo lance grotesco, Maria Benedicta não pôde suster o riso; Carlos Maria, porém, olhava placido.
—Mas se a quéda do ministerio é verdadeira disse ella, sabe você quem está ministro?
—Quem? perguntou Carlos Maria com os olhos.
—Seu primo Theophilo. A prima contou-me que elle andava com suas esperanças, e foi por isso que ficou este anno na Corte. Desconfiou, ou já se falava na sahida do ministerio; talvez desconfiasse. Não me lembra bem o que ella me disse; mas parece que entra.
—Pode ser.
—Olha, lá sahiu Rubião; mas não, parou, está olhando para cima, espera talvez a diligencia ou o carro. Elle tinha carro. Lá vae andando...
—Com quê, o Theophilo está ministro! exclamou Carlos Maria.
E, depois de um instante:
—Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me tambem ministro?
—Se você gostasse, que remedio?
—De maneira que, por teu voto, não o era? perguntou Carlos Maria.
—Que heide responder? pensou ella, escrutando o rosto do marido.
Elle, rindo:
—Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de ministro.
—Justamente! exclamou a moça, lançando-lhe os braços aos hombros.
Carlos Maria affagou-lhe os cabellos, e murmurou serio:—Bernadotte foi rei, e Bonaparte imperador. Você queria ser a rainha-mãe da Suecia?
Maria Benedicta não entendeu a pergunta nem elle a explicou. Para explical-a seria mister dizer que possivelmente trazia ella no seio um Bernadotte; mas esta supposição significava um desejo, e o desejo uma confissão de inferioridade. Carlos Maria espalmou outra vez as mãos sobre a cabeça da mulher, com um gesto que parecia dizer: "Maria, tu escolheste a melhor parte..." E ella pareceu entender o sentido d'aquelle gesto.
—Sim! sim!
O marido sorriu e tornou á revista ingleza. Ella, encostada á poltrona, passava-lhe os dedos pelos cabellos, muito ao de leve e caladinha para não perturbal-o. Elle ia lendo, lendo, lendo. Maria Benedicta foi attenuando a caricia, retirando os dedos aos poucos, até que sahiu da sala, onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charles Little, M. P., sobre a famosa estatueta de Narciso, do Museu de Napoles.
Quando Rubião foi á casa de D. Fernanda, á tardinha, ouviu do criado que não podia subir. A senhora estava incommodada; o senhor estava com ella; parece que esperavam o medico. O nosso amigo não teimou, e sahiu.
Era o contrario; era o senhor que estava doente, e a senhora que o acompanhava; mas o criado não podia trocar o recado que lhe deram. Outro criado desconfiou, é certo, que o doente fosse elle e não ella, porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto delles, havia algum rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervallos de silencio. Uma criadinha, que subira pé ante pé, desceu dizendo que ouvira lastimar-se o amo; provavelmente a senhora estava perdida. Em baixo, um palavrear surdo, ouvidos compridos, conjecturas; notavam que de cima não pedissem agua, qualquer remedio, um caldo, ao menos. A meza posta, o criado engravatado, o cozinheiro orgulhoso e ancioso... Justamente, um dos melhores jantares!
Que era? Theophilo tinha ainda o gesto abatido com que entrou; estava sentado em um canapé, sem collete, olhos fixos. Ao pé delle, sentada tambem, segurando-lhe uma das mãos, D. Fernanda pedia-lhe que socegasse, que não valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o rosto, chamava-o para si, queria que elle encostasse a cabeça ao hombro della...
—Deixa, deixei, murmurava o marido.
—Não vale a pena, Theophilo! Pois agora um ministerio...? Valerá tanto um cargo de pouco tempo, cheio de desgostos, insultos, trabalhos, para que? Não é melhor a vida tranquilla? Vá que haja injustiça; creio que sim, você tem serviços; mas será tamanha perda assim? Anda, querido, socega; vamos jantar.
Theophilo mordia os beiços, puxando uma das soiças. Não ouvira nada do que a mulher dissera, nem exhortações nem consolações. Ouvia as conversas da noite anterior e daquella manhã, as combinações politicas, os nomes lembrados, os recusados e os acceitos. Nenhuma combinação o incluiu, posto que elle fallasse com muita gente ácerca do verdadeiro aspecto da situação. Era ouvido com attenção por uns, com impaciencia por outros. Uma vez, os oculos do organisador pareceram interrogal-o,—mas foi rapido o gesto e illusorio. Theophilo recompunha agora a agitação de tantas horas e logares,—lembrava os que o olhavam de esguelha, os que sorriam, os que trariam a mesma cara que elle. Para o fim já não fallava; as ultimas esperanças estalavam-lhe nos olhos como lamparina de madrugada. Ouvira os nomes dos ministros, fora obrigado a achal-os bons; mas que força não lhe era precisa para articular alguma palavra! Receiava que lhe descobrissem o abatimento ou despeito, e todos os seus esforços concluiam por accentual-os ainda mais. Empallidecia, tremiam lhe os dedos.
—Anda, vamos jantar, repetiu D. Fernanda.
Theophilo deu um golpe no joelho, com a mão aberta, e levantou-se, dizendo palavras soltas e raivosas, andando de um lado para outro, batendo o pé, ameaçando. D. Fernanda não pôde vencer a violencia daquelle novo accesso, esperou que fosse curto, e foi curto; Theophilo chegou-se a uma poltrona, sacudiu a cabeça e cahiu outra vez prostrado. D. Fernanda pegou de uma cadeira e sentou-se ao pé delle. Os olhos com que lhe fallou não tinham a doçura captiva e dependente de Maria Benedicta, para quem o marido era tudo debaixo do sol. Não era bem a esposa que fallava, mas uma creatura humana que via padecer outra.
—Tens razão, Theophilo; mas é preciso ser homem. És moço e forte, tens ainda futuro, e talvez grande futuro. Quem sabe se, entrando agora no ministerio, não perderias mais tarde? Entrarás em outro. Ás vezes, o que parece desgraça é felicidade.
Theophilo apertou-lhe a mão agradecido.
—É perfidia, é intriga, murmurava elle, olhando para ella; eu conheço toda essa canalha. Si eu contasse a você tudo, tudo... Mas para que? Prefiro esquecer... Não é por causa de uma miseravel pasta que estou aborrecido, continuou elle depois de alguns instantes. Pastas não valem nada. Quem sabe trabalhar e tem talento póde zombar das pastas, e mostrar que é superior a ellas. A maior parte dessa gente, Nanan, não me chega aos calcanhares. Disso estou certo e elles tambem. Sucia de intrigantes! Onde acharão mais sinceridade, mais fidelidade, mais ardor para a luta? Quem trabalhou mais na imprensa, no tempo do ostracismo? Desculpam-se; dizem que os gabinetes já vem organisados de S. Christovão... Ah! eu quizera fallar ao Imperador!
—Theophilo!
—Eu diria ao Imperador: «Senhor, Vossa Magestade não sabe o que é essa politica de corredores, esses arranjos de camarilha. Vossa Magestade quer que os melhores trabalhem nos seus conselhos, mas os mediocres é que se arranjam... O merecimento fica para o lado.» É o que lhe heide dizer um dia; póde ser até que amanhã...
Calou-se. Depois de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava ao pé do quarto; a mulher acompanhou-o.
Era já escuro, accendeu o bico de gaz, e circulou pelo gabinete os olhos velados de melancholia. Havia alli quatro largas estantes cheias de livros, de relatorios, de orçamentos, de balanços do Thesouro. A secretária estava em ordem. Tres armarios altos, sem portas, guardavam os manuscriptos, notas, lembranças calculos, apontamentos, tudo empilhado e rotulado methodicamente;—creditos extraordinarios,—creditos supplementares,—creditos de guerra—creditos de marinha,—emprestimo de 1868,—estradas de ferro,—divida interna,—exercicio de 61—62,—de 62—63,—de 63—64, etc.Era alli que trabalhava de manhã e de noite, som mando, calculando, recolhendo os elementos dos seus discursos e pareceres porque era membro de tres commissões parlamentares, e trabalhava geralmente por si e pelos seis collegas; estes ouviam e assignavam. Um delles, quando os pareceres eram extensos, assignava-os sem ouvir.
—Homem, você é mestre e basta, dizia-lhe, dê cá a penna.
Tudo alli respirava attenção, cuidado, trabalho assiduo, meticuloso e util. Da parede, em ganchos, pendiam os jornaes da semana, que eram depois tirados, guardados e finalmente encadernados semestralmente, para consultas. Os discursos do deputado, impressos e brochados em-4° enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto, adereço, nada para recrear, nada para admirar;—tudo secco, exacto, administrativo.
—De que vale tudo isto? perguntou Theophilo á mulher, após alguns instantes de contemplação triste. Horas cançadas, longas horas da noite até madrugada, ás vezes... Não se dirá que este gabinete é de homem vadio; aqui trabalha-se. Você é testemunha que eu trabalho. Tudo para que?
—Consola-te trabalhando, murmurou ella.
Elle, acerbo:
—Ruim consolação! Não, não, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha, na camara, todos me consultam, até os ministros—porque sabem que eu applico-me deveras ás cousas da administração. Que premio? Vir para cá, em maio, applaudir os novos senhores?
—Pois não applaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obsequio? Vamos á Europa, em março ou abril, e voltemos d'aqui a um anno. Pede licença á camara, d'onde quer que estejamos,—de Varsovia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsovia, continuou sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda que é para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o vapor sae amanhã. Está dito; vamos a Varsovia?
—Não brinques, Nanan, que isto não é objecto de brincadeira.
—Falo seriamente. Já ha muito tempo que ando para propor a você uma viagem, a ver se descança desta papelada infernal. É demais, Theophilo! Você mal se pode arranjar depois para uma visita. Passeio, é raro. Quasi não conversa. Os nossos filhos mal veem seu pae, porque aqui não se entra quando você trabalha... É preciso descançar; peço-lhe um anno de repouso. Olhe que é serio. Vamos para a Europa em março.
—Não pode ser, balbuciou elle.
—Porque não?
Não podia ser. Era convidal-o a sahir da propria pelle. Politica valia tudo. Que tambem houvesse politica lá fora, sim; mas que tinha elle com ella? Theophilo não sabia nada do que ia por fora, excepto a nossa divida em Londres, e meia duzia de economistas. Comtudo, agradeceu á mulher a intenção da proposta:
—Tu és bôa.
E um sentimento vago de esperança restituia á voz do deputado a brandura que perdera naquella grande crise moral. Os papeis sopravam-lhe animo. Toda aquella massa de estudos apparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia mais tarde ou mais cedo, o grelo brotaria e a arvore daria fructos. Era justamente o que a mulher havia dito por outras palavras directas e proprias; mas só agora é que elle via a possibilidade da colheita. Lembrou-se das explosões de colera, de indignação, de desespero, das queixas de ha pouco, ficou vexado. Quiz rir, e fel-o mal. Ao jantar e ao café entreteve-se com os filhos, que naquella noite recolheram-se mais tarde. Nuno, que já andava no collegio, onde ouvira falar da mudança de gabinete, disse ao pae que queria ser ministro.
Theophilo ficou serio.
—Meu filho, disse elle, escolhe outra cousa, menos ministro.
—Diz que é bonito, papae; diz que anda de carro com soldado atraz.
—Pois eu te dou um carro.
—Papae já foi ministro?
Theophilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a occasião para mandar deitar os filhos.
—Já, já fui ministro, respondeu o pae beijando a testa ao Nuno; mas não quero mais, é muito feio, dá trabalho. Tu has de ser capellão.
—Que é capellão?
—Capellão é cama, respondeu D. Fernanda; vae dormir, Nuno.
Ao almoço, no dia seguinte, Theophilo recebeu uma carta por uma ordenança.
—Ordenança?
—Sim, senhor, diz que vem da parte do Sr. presidente do conselho.
Theophilo abriu a carta, com a mão tremula. Que podia ser? Tinha lido nos jornaes a relação dos novos ministros; o gabinete estava completo. Não havia divergencia de nomes. Que podia ser? D. Fernanda, defronte do marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da carta. Via uma claridade; percebeu que a boca soffreava um sorriso de satisfação,—de esperança, ao menos.
—Diga que espere, ordenou Theophilo ao creado.
Foi ao gabinete, e tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se á mesa, calado, dando tempo a que o creado entregasse a carta á ordenança. Desta vez, como estava prevenido, ouviu as patas do cavallo, e logo depois a galope, rua fóra e sentiu-se bem.
—Lê, disse elle.
D. Fernanda leu a carta do presidente do conselho; era um pedido para ir falar-lhe ás duas horas da tarde.
—Mas então o ministerio...?
—Está completo, deu-se pressa em dizer o deputado; os ministros estão nomeados.
Não acreditava de todo o que dizia. Imaginava alguma vaga da ultima hora, e a necessidade urgente de a preencher.
—Hade ser alguma conferencia politica, ou talvez queira conversar sobre o orçamento,—ou incubir-me algum estudo.
Dizendo isto, para illudir a mulher, sentiu a probabilidade das hypotheses, e outra vez se abateu; mas, tres minutos depois, as borboletas da esperança volteavam deante delle, não duas, nem quatro, mas um turbilhão, que cegava o ar.
D. Fernanda esperou, cheia de ancias, como se o ministerio fosse para ella, e lhe viesse dar qualquer gosto, que não fosso amargo o complicado. Uma vez, porém, que satisfizesse o marido, tudo iria pelo melhor. Theophilo tornou ás cinco horas e meia. Pelo aspecto reconheceu que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mãos.
—Que ha?
—Pobre Nanan! Ahi vamos com a trouxa ás costas. O marquez pediu-me instantemente que acceitas-se uma presidencia de primeira ordem. Não podendo metter-me no gabinete, onde tinha logar marcado, desejava, queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade politica e administrativa do governo, assumindo uma presidencia. Não podia, em nenhum caso, dispensar o meu prestigio (são palavras delle), e espera que na camara acceite o logar de chefe de maioria. Que dizes?
—Que arranjemos a trouxa, respondeu D. Fernanda.
—Achas que podia recusar?
—Não.
—Não podia. Você sabe, não se podem negar serviços destes a um governo amigo; ou então deixa-se a politica. Tratou-me muito bem o marquez; eu já sabia que era homem superior; mas que risonho e affavel! não imaginas. Quer tambem que compareça a uma reunião intima, os ministros e alguns amigos, poucos, meia duzia. Confiou-me já o programma do gabinete, em reserva...
—Quando sahimos?
—Não sei; heide estar com elle amanhã, á noite. A reunião é amanhã ás oito horas... Mas não te parece que fiz bem, acceitando?
—De certo.
—Sim; se recusasse censurar-me-hiam, e com razão. Em politica, a primeira cousa que se perde é a liberdade. Agora você é que se quizesse, podia ficar; daqui a cinco mezes,—ou quatro,—abrem-se as camaras; mal terei tempo de chegar e olhar.
D. Fernanda acceitou a proposta; não interrompia a educação do filho; era uma separação de quatro mezes. Theophilo partiu d'ahi a dias. Na manhã do dia do embarque, logo cedo, foi despedir-se do gabinete de trabalho. Deitou os ultimos olhos aos livros, relatorios, orçamentos, manuscriptos, a toda essa parte da familia, que só tinha lingua e interesse para elle. Havia atado os papeis e os folhetos para que se não extraviassem, e fez á mulher grandes recommendações. Parado no centro, circulou a vista pelas estantes, e dispersou a alma por todas ellas. Despedia-se assim dos seus santos e amigos, com verdadeiras saudades. D. Fernanda, que estava ao pé delle, não viveu alli mais que os dez minutos da despedida. Theophilo viveu muitos annos.
—Deixa estar, eu cuidarei delles, eu mesma os espanarei todos os dias.
Theophilo deu-lhe um beijo... Outra mulher recebel-o-hia meia triste, por ver que elle amava tanto os livros que parecia amal-os mais que a ella. Mas D. Fernanda sentiu-se venturosa.
Rubião, desde o dia da crise ministerial, não tornou á casa de D. Fernanda; nada soube, nem da presidencia, nem do embarque de Theophilo. Vivia entre o cão e um creado, sem grandes crises, nem longos repousos. O creado fazia o serviço irregularmente, comia gratificações, e recebia, a miudo, o titulo de marquez. Ao demais, divertia-se. Quando lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o creado corria a espial-o; assistia ao dialogo, porque o Rubião incumbia-se das palavras dellas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite, ia á palestra com os amigos da visinhança.
—Como vae o gira?
—O gira vae bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro ladrau muito, e elle gostou que se pellou, mas assim um gosto de figurão. Elle, quando está de pancada, parece que é como quem governa o mundo. Ainda hontem, almoçando, fallou para mim: «Marquez Raymundo... quero que tu ..» e embrulhou o resto, que não entendi nada. No fim deu-me dez tostões.
—Você guardou logo...
—Ora!
Quando Rubião voltava do delirio, toda aquella fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciencia, onde ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegal-os de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abysmo, trepando pelas paredes, arrancando a pelle, deixando as unhas, para chegar a cima, para não cahir outra vez e perder-se. Ia então á visita dos amigos, uns novos, outros velhos, como a gente do major e a do Camacho, por exemplo.
Este, desde algum tempo, era menos conversado. A mesma politica não lhe dava materia aos discursos de outr'ora. No escriptorio, quando via Rubião assomar á porta, fazia um gesto de impaciencia, que soffreava logo; o outro notava essa mudança, e perdia-se em conjecturas, se lhe sahira alguma offensa, por descuido—ou se começava a aborrecel-o. E para desfazer o tedio ou o resentimento, fallava macio, risonho, abrindo longas pausas respeitosas, á espera que elle dissesse qualquer cousa. Em vão appellava para o marquez de Paraná, cujo retrato continuava a pender da parede; repetia os nomes que lhe ouvira,—o grande marquez! o estadista consummado! Camacho ia apoiando de cabeça, e escrevendo sem parar, consultando os autos e os praxistas, Lobão, Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo-lhe desculpa. Tinha um libello que dar naquelle dia. Interrompia-se para ir á estante.
—Com licença...
Rubião arredava as pernas para deixal-o passar; elle tirava um volume das Ordenações do Reino, e folheava, folheava, pulando adiante, voltando atraz, atoa, sem buscar nada, unicamente para o fim de despedir o importuno; mas o importuno ia ficando, por isso mesmo, e entreolhavam-se disfarçados. Camacho tornava ao libello. Para ler, sentado, inclinava-se muito á esquerda, donde lhe vinha a luz, dando as costas ao Rubião.
—Aqui é escuro, aventurou Rubião um dia.
E não ouviu resposta, tão attento parecia o advogado na leitura dos autos. Realmente, póde ser importunação, pensou o nosso amigo. Espreitava-lhe o rosto duro e serio, o gesto com que pegava da penna para continuar o interminavel libello. Vinte minutos mais de silencio absoluto. No fim desse prazo, Rubião viu-o deixar a penna, retesar o busto, esticar os braços e passar as mãos pelos olhos. Disse-lhe com interesse:
—Cançado, não?
Camacho fez um gesto afirmativo, e preparou-se para continuar; então o nosso homem levantou-se e aproveitou o intervallo para dizer adeus.
—Voltarei, quando estiver menos atarefado.
Estendeu lhe a mão; Camacho segurou-lh'a ao de leve, e tornou ao papel. Rubião desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu illustre amigo. Que lhe teria feito?
Daquella vez, teve a fortuna de encontrar o major Sequeira.
—Ia agora mesmo á sua casa, disse-lhe; vae para lá?
—Vou; mas já não estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros, rua da Princeza...
—Seja onde for, vamos.
Rubião precisava de um pedaço de corda que o atasse á realidade, porque o espirito sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, fallou com tanto acerto e propriedade, que o major o achou em pleno juizo, e disse-lhe:
—Sabe que tenho uma grande noticia que lhe dar?
—Vamos a ella.
—Ha de ser quando chegarmos.
Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veiu abrir-lhes a cancella. Trazia um vestido novo e brincos.
—Olhe bem para ella, disse o major pegando na filha pelo queixo.
D. Tonica recuou envergonhada.
—Estou olhando, respondeu Rubião.
—Não se vê logo que é uma pessoa que vae casar?
—Ah! parabéns!
—É verdade, vae casar. Custou, mas acertou. Achou por ahi um noivo, que a adora, como todos elles; eu, quando fui noivo, adorei a minha defuncta, que foi urna cousa nunca vista... Vae casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa seria, meia edade; vem aqui passar as noites. De manhã, quando passa para a repartição, creio que bate na janella, ou ella já o espera; eu finjo que não percebo...
D. Tonica dizia com a cabeça que não, mas sorrindo de modo que parecia dizer que sim. Estava tão buliçosa! Nem se lembrava já que requestára o Rubião, que este fora uma das ultimas, e por fim a ultima das suas esperanças. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi á janella, voltou, cabeça alta, andando atoa, reconciliada com a vida.
—Boa pessoa, repetiu o major, boa creatura... Tonica, vae buscar o retrato... Anda, vae buscar o teu noivo...
D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma photographia; representava um homem de meia edade, cabello curto, raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoço fino e paletot abotoado.
—Que lhe parece?
—Muito bem.
D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar sentada, emquanto a imaginação saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que ella,—cousa que o retrato não dava,—e empregado em uma repartição do ministerio da guerra. Viuvo, com dons filhos, um que estava no batalhão dos menores, outro que era tuberculoso,—doze annos,—condemnado á morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher se, D. Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com um filho; havia de chamar-lhe Alvaro.
Rubião escutou calado um discurso do major. O casamento era dalli a mez e meio; o noivo tinha que perfazer os arranjos da casa, não era capitalista, vivia do ordenado e recorrera a emprestimos. A casa era a mesma e não exigia trastes novos nem ricos; mas, ha sempre algumas necessidades... Em summa, dalli a mez e meio, ou pelo menos, cinco semanas, estariam unidos pelos santos laços do matrimonio.
—E fico eu livre do trambolho, concluiu o major.
—Oh! protestou Rubião.
A filha ria-se; estava acostumada ás graças do pae, e tão disposta á alegria que nada a vexava; ainda mesmo que o pae se referisse aos seus quarenta annos passados não lhe daria grande golpe. Todas as noivas têm quinze annos.
—Verá como elle ha de procural-a depois, com saudades disse Rubião a D. Tonica.
—Qual! Talvez eu me case tambem!
Rubião levantou-se repentino, e deu alguns passos; o major não viu a expressão do rosto, não percebeu que o espirito do homem ia talvez descarrilhar, e que elle mesmo o presentia. Disse-lhe que se sentasse, e contou-lhe os seus tempos de casado e de campanha. Quando chegou á narração da batalha de Monte-Caseros, com as marchas e contra-marchas proprias do seu discurso, tinha deante de si Napoleão III. Calado a principio, Rubião proferiu algumas palavras de applauso, fallou de Solferino, de Magenta, prometteu ao Sequeira uma condecoração. Pae e filha entre-olharam-se; o major disse que vinha muita chuva. Com effeito, escurecera um pouco. Era melhor que Rubião fosse, antes de cahir agua; não trouxera guarda-chuva, o delle era velho e unico...
—Ahi vem o meu coche, redarguiu Rubião tranquillamente.
—Não vem, foi esperal-o no Campo. Não vês dahi o coche, Tonica?
D. Tonica fez um gesto vago e sem vontade. Não queria mentir, mas tinha medo, e desejava que Rubião sahisse. Da casa era impossivel ver o Campo da Acclamação. Já então o pae pegava no Rubião pelo braço e o encaminhava para a porta.
—Volte amanhã, depois, quando quizer.
—Mas porque não heide esperar aqui até que venha o coche? perguntou Rubião. A imperatriz não póde apanhar chuva...
—A imperatriz já foi.
Fez mal. Eugenia fez muito mal. General... Para que hade o senhor ficar sempre em major? General, vi o retrato do seu genro; quero dar-lhe o meu. Mande ás Tulherias. Onde está o coche?
—Está no Campo, esperando.
—Mande chamal-o.
D. Tonica, que estava á janella, disse para dentro:
—Lá vem Rodrigues.
E tornou a olhar para a rua, inclinando-se, sorrindo, emquanto na sala o pae continuava a guiar o Rubião para a porta, sem violencia, mas tenaz. Este parava, reprehendia:
—General, sou seu imperador!
—De certo, mas acompanhe-me Vossa Majestade...
Tinham chegado á porta; o major abriu a cancella, justamente quando o Rodrigues punha o pé na soleira. D. Tonica entrou para receber o noivo, mas a porta estava atravancada com o pae e Rubião. Rodrigues tirou o chapeo, mostrando o cabello, aspero e grisalho; tinha nas faces chupadas umas pintinhas de sarda, mas o riso era bom e humilde,—mais humilde ainda que bom,—e, não obstante a trivialidade do gesto e da pessoa, era agradavel. Os olhos não mostravam o espanto da photographia; este effeito provinha da emphasis que elle poz em todo o corpo, afim de que o retratosaisse bonito.
—Este senhor é o meu futuro genro, disse o major a Rubião. Não é verdade que viu no Campo um coche e um esquadrão de cavallaria? perguntou ao Rodrigues, piscando um olho.
—Parece que sim, senhor.
—Pois então? continuou Sequeira, voltandp-se para Rubião. Vá, vá, dobre a rua de S. Lourenço, e caminhe direito para o Campo. Adeus, até amanhã.
Rubião desceu tres degráos,—eram cinco—e parou deante do recem-chegado, fitou-o alguns instantes e declarou que estimava muito conhecel-o, que fosse bom esposo e bom genro. Como se chamava?
—João José Rodrigues.
—Rodrigues. Heide mandar-lhe uma fitinha aqui para a casaca. É o meu presente de nupcias. Lembre-me, Sequeira.
Sequeira pegou-lhe no braço para fazel-o descer os dons últimos degráos, e pol-o na rua.
—No Campo, dizes tu?
—No Campo.
—Adeus.
Da rua, ainda Rubião olhou para as janellas, com os dedos no chapéo, afim de comprimentar D. Tonica; mas D. Tonica estava na sala, onde Rodrigues acabava de entrar, fresco e delicioso, como a primeira rosa de verão.
Rubião não cuidou mais do coche nem do esquadrão de cavallaria. Foi dar comsigo abaixo, andou por varias ruas, até que subiu pela de S. José. Desde o paço imperial, vinha gesticulando e fallando a alguem que suppunha trazer pelo braço, e era a imperatriz. Eugenia ou Sophia? Ambas em uma só creatura,—ou antes a segunda com o nome da primeira. Homens que iam passando, paravam; do interior das lojas corria gente ás portas. Uns riam-se, outros ficavam indifferentes; alguns, depois de verem o que era, desviavam os olhos para poupal-os á afflicção que lhes dava o expectaculo do delirio. Uma turba de moleques acompanhava o Rubião, alguns tão proximos, que lhe ouviam as palavras. Creanças de toda a sorte vinham juntar-se ao grupo. Quando elles viram a curiosidade geral, entenderam dar voz á multidão, e começou a surriada:
—Ó gira! ó gira!
Esse vozear chamou a attenção de outras pessoas, muitas janellas dos sobrados começaram a abrir-se, appareceram curiosos de ambos os sexos e todas as edades, um photographo, um estofador, tres e quatro figuras juntas, cabeças por cima de outras, todas inclinadas, espiando, acompanhando o homem, que fallava á parede, com o seu gesto cheio de grandeza e de obsequio.
—Ó gira! ó gira! berravam os vadios.
Um delles, muito menor que todos, apegava-se ás calças de outro, taludo. Era já na rua da Ajuda. Rubião continuava a não ouvir nada; mas, de uma vez que ouviu, suppoz que eram acclamações, e fez uma cortezia de agradecimento. A surriada augmentava. No meio do rumor, distinguiu-se a voz de uma mulher á porta de uma colchoaria:
—Deolindo! vem para casa, Deolindo!
Deolindo, a creança, que se aggarrava ás calças da outra mais velha, não obedeceu; póde ser que nem ouvisse, tamanha era a grita, e tal a alegria do pecurrucho, clamando coma vozinha miuda:—Ó gira! ó gira!
—Deolindo!
Deolindo tratou de esconder-se entre os outros, para escapar ás vistas da mãe que o chamava; esta, porém, correu ao grupo, e arrancou-o de lá. Em verdade, era pequeno de mais para andar em tumultos de rua.
—Mamãe, deixa eu vêr...
—Qual vêr! anda!
Metteu-o em casa, e ficou á porta, a olhar para a rua. Rubião estacara o passo; ella pôde vel-o bem, com os seus gestos e fallares, o peito alto, e uma barretada que deu em volta.
—Os malucos teem graça, ás vezes, disse ella sorrindo a uma visinha.
Os rapazes continuavam a bradar e a rir, e Rubião foi andando, com o mesmo côro atraz de si. Deolindo, á porta da loja, vendo o grupo alongar-se, pedia chorosamente á mãe que o deixasse ir tambem, ou então que o levasse. Quando perdeu as esperanças, enfeixou todas as energias em um só gritosinho esganiçado:
—Ó gira!
A visinha riu-se. A mãe riu-se tambem. Confessou que o filho era uma péstesinha, um endiabrado, que não socegava; não podia perdel-o de vista. Qualquer distracção, estava na rua. E isto desde pequenino; tinha ainda dons annos, quando escapou de morrer em baixo de um carro, alli mesmo; esteve por um fio. Se não fosse um homem que passava, um senhor bem vestido, que acudiu depressa, até com perigo de vida, estaria morto e bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calçada opposta, atravessou a ma, e interrompeu a conversação. Trazia o senho carregado, mal comprimentou a visinha, e entrou; a mulher foi ter com elle. Que era? O marido contou a surriada.
—Passou por aqui, disse ella.
—Não conheceste o homem?
—Não.
O marido cruzou os braços e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher perguntou-lhe quem era.
—É aquelle homem que nos salvou o Deolindo da morte.
A mulher teve um calefrio.
—Viste bem? perguntou.
—Perfeitamente. Se eu já o tinha encontrado outras vezes, mas então não estava assim. Coitado! E a molecada berrava atraz delle. Qual! não ha policia nesta terra.
O que lhe doia á mulher não era tanto o mal do homem, nem ainda a surriada; mas a parte que teve nesta o filho,—a mesma creança que o homem salvara da morte. Realmente, como podia o menino reconhecel-o, nem saber que lhe devia a vida? Doia-lhe o encontro, a coincidencia. Afinal, contentou-se de pôr todas as culpas em si. Se tivesse tido mais cuidado, o pequeno não haveria sahido, e não entraria na troça. Tremia de quando em quando, e estava inquieta. O marido pegou na cabeça do filho, e deu-lhe dous beijos.
—Você viu a scena toda? perguntou á mulher.
—Vi.
—Eu ainda quiz dar o braço ao homem, e trazel-o para aqui; mas, tive vergonha; os moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto, porque elle podia conhecer-me. Coitado! Nota que não parecia ouvir nada, e seguia satisfeito, creio que até ria... Que triste cousa que é perder o juizo!
A mulher pensava na travessura do filho; não a referiu ao marido, pediu á visinha que não alludisse a ella, e, de noite, só pregou olho tarde. Mettera-se-lhe em cabeça que, annos depois, o filho endoudecia, era castigado pela mesma troça, e que ella cuspia para o céu, indignada, blasphemando.
Duas horas depois da scena da rua da Ajuda chegou Rubião á casa de D Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, e os claros não se preenchiam; os tres ultimos juntaram os seus adeuses em um berro unico e formidavel. Rubião continuou sosinho, mal percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulação diminuia ou mudava de feitio. Não fallava para o lado da parede, á supposta imperatriz; mas era ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava, sem grandes gestos, sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido naquelle veo, atravez do qual todas as cousas eram outras, contrarias e melhores; cada lampião tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de resposteiro. Rubião seguia direito á sala do throno, para receber um embaixador qualquer, mas o paço era interminavel, cumpria atravessar muitas salas e galerias, verdade é que sobre tapetes,—e por entre alabardeiros, altos e robustos.
Das gentes que o viam e paravam na rua, ou se debruçavam das janellas, muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou enfastiados, as preoccupações do dia, os tedios, os resentimentos, este uma divida, outro uma doença, desprezos de amor, vilanias de amigo. Cada miseria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas o esquecimento durava um relampago. Passado o enfermo, a realidade empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas, porque os paços sumptuosos iam com Rubião. E mais de um tinha pena do pobre diabo; comparando as duas fortunas, mais de um agradecia ao ceu a parte que lhe coube,—amarga, mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcaçar phantasmagorico.
Rubião foi recolhido a uma casa de saude. Palha esquecera a obrigação que Sophia lhe impoz, e Sophia não se lembrou mais da promessa feita á rio-grandense. Cuidavam ambos de outra casa, um palacete em Botafogo, cuja reconstrucção estava prestes a acabar, e que elles queriam inaugurar, no inverno, quando as camaras trabalhassem, e toda a gente houvesse descido de Petropolis. Mas agora a promessa foi cumprida; Rubião deu entrada no estabelecimento, onde ficou occupando uma sala e um quarto especiaes, recommendado pelo Dr. Falcão e pelo Palha. Não resistiu a nada; acompanhou-os com satisfação, e entrou nos seus aposentos, como se os conhecesse desde muito. Quando elles se despediram, dizendo que já voltavam, Rubião convidou-os para uma revista militar, no sabbado.
—Pois sim, sabbado, assentiu Falcão.
—Sabbado é bom dia, continuou Rubião. Não faltes, duque de Palha.
—Não falto, disse o Palha andando.
—Olha, mandar-te-hei um dos meus coches, novo em folha; é preciso que tua mulher pouse o seu lindo corpo, onde ninguem ainda ousou sentar-se. Almofadas de damasco e velludo, arreios de prata e rodas de ouro; os cavallos descendem do proprio cavallo que meu tio montava em Marengo. Adeus, duque de Palha.
—Para mim, é claro, sahiu pensando o Dr. Falcão, aquelle homem foi amante da mulher deste sujeito.
Lá ficou o homem. Quincas Borba tentára entrar na carruagem que levou o amigo, e porfiou em acompanhal-a, correndo; foi necessaria toda a força do criado para aggarral-o, contel-o e trancal-o em casa. Era a mesma situação de Barbacena; mas a vida, meu rico senhor, compõe-se rigorosamente de quatro ou cinco situações, que as circumstancias variam e multiplicam aos olhos. Rubião pediu instantemente que lhe mandassem o cão. D. Fernanda, alcançado o consentimento do director, cuidou de satisfazer o desejo do doente. Quiz escrever a Sophia, mas foi ella propria ao Flamengo.
—Mando ver, é aqui perto, propôz Sophia.
—Vamos nós mesmas. Que tem? Já pensei em uma cousa. Valerá a pena conservar a casa prompta e alugada, quando a cura póde prolongar-se? Melhor é deixal-a, vender os trastes e apurar o que houver.
Foram a pé do Flamengo á rua do Principe; tres a quatro minutos. Raymundo estava na rua, mas viu gente á porta e veia abril-a. O interior da casa tinha a feição do abandono, sem a fixidez e regularidade das cousas, que parecem conservar um resto da vida interrompida; era o abandono do desmazelo. Mas, por outro lado, o transtorno dos moveis da sala exprimiam bem o delirio do morador, suas idéas tortas e confusas.
—Elle foi muito rico? perguntou D. Fernanda a Sophia.
—Tinha alguma cousa, respondeu esta, quando chegou de Minas; mas parece que estragou tudo. Olhe, levante o vestido que o chão parece que não se varre ha um seculo.
Não era só o chão; os trastes tinham a crosta da incuria. Nem por isso o creado explicava nada; olhava, escutava, e, baixinho, assobiava uma polka do dia. Sophia não lhe perguntou pelo asseio; estava morta por sahir «daquella immundicie», dizia a si mesma, e tinha vontade de fallar no cão, que era o principal motivo da visita; mas, não queria mostrar interesse por elle nem pelo resto. A trivialidade daquillo tudo não lhe dizia nada ao espirito nem ao coração; a lembrança do alienado não a ajudava a supportar o tempo. De si para si achava a companheira singularmente romantica ou affectada. «Que Bobagem!» ia pensando, sem desconcertar o sorriso approvador com que acudia a todas as observações de D. Fernanda.
—Abra aquella janella, disse esta ao creado; tudo cheira a mofo.
—Oh! insupportavel! acudiu Sophia, respirando com asco.
Mas, apezar da exclamação, D. Fernanda não se resolveu a sahir. Sem que nenhuma recordação pessoal lhe viesse daquella miseravel estancia, sentia-se presa de uma commoção particular e profunda, não a que dá a ruina das cousas. Aquelle expectaculo não lhe trazia um thema de reflexões geraes, não lhe ensinava a fragilidade dos tempos, nem a tristeza do mundo; dizia-lhe tão somente a molestia de um homem, de um homem que ella mal conhecia, a quem fallára algumas vezes. E ia ficando e olhando, sem pensar, sem deduzir, mettida em si mesma, dolente e muda. Sophia não ousava articular nada, com receio de ser desagradavel a tão conspicua dama. Tinham ambas os vestidos apanhados, para evitar a macula da poeira; mas Sophia accrescentou a essa precaução a agitação viva, continua e impaciente da ventarola, como pessoa que suffocasse naquella atmosphera. Chegou a tossir algumas vezes.
—E o cachorro? perguntou D. Fernanda ao creado.
—Está preso no quarto, lá dentro.
—Vá buscal-o.
Quincas Borba appareceu. Magro, abatido, parou á porta da sala, estranhando as duas senhoras, mas sem latir; mal erguia os olhos apagados. Chegou a dar meia volta ao corpo na direcção do interior da casa, quando D. Fernanda fez uns estalinhos com os dedos; elle parou, agitando a cauda.
—Como é mesmo que se chama? perguntou a D. Fernanda.
—Quincas Borba, respondeu o criado, rindo, com a voz arrastada. Tem nome de gente. Eh! Quincas Borba! vae lá! a senhora está chamando.
—Quincas Borba! vem cá! Quincas Borba! repetiu D. Fernanda.
Quincas Buba acudiu ao chamado, não pulando, nem alegre. D. Fernanda inclinou-se, fallou-lhe, perguntou-lhe pelo amigo, se estava longe, se queria ir vel-o. Assim mesmo inclinada, interrogava o creado sobre o trato do cão.
—Agora come, sim, senhora; logo que meu amo sahiu, não queria comer nem beber;—eu até pensei que estivesse damnado.
—Come bem?
—Come pouco.
—Procura pelo senhor?
—Parece que procura, respondeu Raymundo tapando o riso com a mão; mas eu tranquei elle no quarto, para não fugir. Já não chora; a principio chorava muito, que até me accordava... Era preciso eu bater com um cacete na porta e gritar, para elle socegar...
D. Fernanda coçava a cabeça do animal, cujos olhos, de mortos que eram, tornaram-se languidos. Era o primeiro affago depois de longos dias de solidão e desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acaricial-o, e levantou o corpo, elle ficou a olhar para ella, e ella para elle, tão fixos e tão profundos, que pareciam penetrar no intimo um do outro. A sympathia universal, que era a alma desta senhora, esquecia toda a consideração humana deante daquella miseria obscura e prosaica, e estendia ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o fascinava, que o atava aos pés della. Assim, a pena que lhe dava o delirio do senhor, dava-lhe agora o proprio cão, como se ambos representassem a mesma especie. E sentindo que a sua presença levava ao animal uma sensação boa, não queria prival-o do beneficio.
—A senhora está-se enchendo de pulgas, observou Sophia.
D. Fernanda não a ouviu. Continuou a mirar os olhos meigos e tristes do animal, até que este deixou cahir a cabeça e entrou a farejar a sala. Sentira o cheiro do senhor. A porta da rua estava aberta; elle teria fugido por ella, se Raymundo não acudisse a prendel-o. D. Fernanda deu algum dinheiro ao creado para que o fosse lavar e conduzir á casa de saude, recommendande-lhe o maior cuidado, que o levasse ao collo, ou preso por um cordão. Nesta parte acudiu tambem Sophia, ordenando que a procurasse antes, em casa.
Sahiram. Sophia, antes de por o pé na rua, olhou para um e outro lado, espreitando se vinha alguem; felizmente, a rua estava deserta. Ao ver se livre da possilga, Sophia readquiriu o uso das boas palavras, a arte maviosa e delicada de captar os outros, e enfiou amorosamente o braço no de D. Fernanda. Fallou-lhe de Rubião e da grande desgraça da loucura; fallou tambem do palacete de Botafogo. Porque não ia com ella ver as obras? Era só lanchar um pouco, e partiriam immediatamente.
Sobreveiu um successo que distrahiu D. Fernanda do Rubião; foi o nascimento de uma filha de Maria Benedicta. Ella correu á Tijuca, encheu de beijos a mãe e a creança, deu a mão a beijar a Carlos Maria.
—Sempre exuberante! exclamou o joven pae, obedecendo.
—Sempre seccarrão! retorquiu ella.
Apesar da resistencia do primo, D. Fernanda acompanhou a convalescença de Maria Benedicta, tão cordial, tão boa, tão alegre, que era um encanto conserval-a em casa. A felicidade d'aqui fel-a esquecer a desgraça d'acolá; mas, convalescida a recente mãe, D. Fernanda acudiu ao enfermo.
«Conto restituil-o á razão no fim de seis ou oito mezes. Vae muito bem.»
D. Fernanda mandou a Sophia esta resposta do director da casa de saude, e convidou-a a irem ver o enfermo, se achasse que não lhes ficava mal. «Que mal póde haver? respondeu Sophia em um bilhete. Mas eu é que não teria animo de vel-o; foi tão nosso amigo, que não sei se poderia supportar a vista e a conversação do pobre homem. Mostrei a carta a Christiano, que me declarou ter liquidado os bens do Sr. Rubião: apurou tres contos e duzentos.»
—Seis mezes, oito mezes passam depressa, reflexionou D. Fernanda.
E elles vieram vindo, com os successos ás costas,—a queda do ministerio, a subida de outro em março, a volta do marido, a discussão da lei dos ingenuos, a morte do noivo de D. Tonica, tres dias antes de casar. D. Tonica espremeu as ultimas lagrymas,—umas de amizade, outras de desesperança,—e ficou com os olhos tão vermelhos, que pareciam doentes.
Theophilo, que merecera do novo gabinete a mesma confiança do antigo, teve parte copiosa nos debates da sessão parlamentar. Camacho declarou pela sua folha que a lei dos ingenuos absolvia a esterilidade e os crimes da situação. Em Outubro, Sophia inaugurou os seus salões de Botafogo, com um baile, que foi o mais celebre do tempo. Estava deslumbrante. Ostentava, sem orgulho, todos os seus braços e espaduas. Ricas joias; o collar era ainda um dos primeiros presentes do Rubião, tão certo é que, neste genero de atavios, as modas conservam-se mais. Toda a gente admirava a gentileza daquella trintona fresca e robusta; alguns homens faltavam (com pena!) das suas virtudes conjugaes, da profunda adoração que ella tinha ao marido.
No dia seguinte ao baile, D, Fernanda accordou tarde. Foi ao gabinete do marido, que já devorara cinco ou seis jornaes, escrevera dez cartas e rectificava a posição de alguns livros nas estantes.
—Recebi esta carta, ha pouco, disse elle.
D. Fernanda leu-a; era do director da casa de saude; noticiava que Rubião, desde tres dias, desapparecera, não tendo podido ser encontrado por mais esforços que houvessem empregado a policia e elle. «Tanto mais me espanta esta fuga, concluia a carta, quanto que as melhoras eram grandes, e podia contar que, em dous mezes, o poria inteiramente bom.»
D. Fernanda ficou consternada; alcançou do marido que escrevesse ao chefe de policia e ao ministro da justiça, pedindo-lhes que ordenassem as mais severas pesquizas. Theophilo não tinha o menor interesse no achado nem na cura de Rubião; mas quiz servir á mulher cuja bondade conhecia, e, porventura, gostava de cartear-se com os homens da alta administração.
Como achar, porém, o nosso Rubião nem o cachorro, se ambos haviam partido para Barbacena? Oito dias antes, Rubião escrevera ao Palha que lhe fosse fallar; este acudia á casa de saude, viu que elle raciocinava claramente, sem a menor sombra de delirio.
—Tive uma crise mental, disse-lhe Rubião; agora estou bom, perfeitamente bom. Peço-lhe que me ponha fóra daqui. Creio que o director não se opporá. Entretanto, como quero deixar algumas lembranças á gente que me tem servido, e servido tambem ao Quincas Borba, veja se me póde adiantar cem mil réis.
Palha abriu a carteira sem hesitação, e deu-lhe o dinheiro.
—Vou tratar de o fazer sair, disse elle; mas, provavelmente são precisos alguns dias (estava em vesperas do baile); não se afflija por isso; daqui a uma semana está na rua.
Antes de sair, falou ao director, que lhe deu boas noticias do enfermo. Uma semana é pouco, disse elle; para pôl-o bom, bom, preciso ainda uns dous mezes. Palha confessou que o achára são; em todo caso, mandava quem sabia, e se fossem necessarios seis ou sete mezes mais, não precipitasse a alta.
Rubião, logo que chegou a Barbacena e começou a subir a rua que ora se chama de Tiradentes, exclamou parando:
—Ao vencedor, as batatas!
Tinha-as esquecido de todo, a formula e a allegoria. De repente, como se as syllabas houvessem ficado no ar, intactas, aguardando alguem que as podesse entender, uniu-as, recompoz a formula, e proferiu-a com a mesma emphasis daquelle dia em que a tomou por lei da vida e da verdade. Não se lembrava inteiramente da allegoria; mas, a palavra deu-lhe o sentido vago da luta e da victoria.
Subiu, acompanhado do cão, e foi parar defronte da egreja. Ninguem lhe abriu a porta; não viu sombra de sacristão. Quincas Borba, que não comia desde muitas horas, collava-se-lhe ás pernas, cabisbaixo, esperando. Rubião voltou-se, e do alto da rua estendeu os olhos abaixo e ao longe. Era ella, era Barbacena; a velha cidade natal ia-se-lhe desentranhando das profundas camadas da memoria. Era ella; aqui estava a egreja, alli a cadeia, acolá a pharmacia, donde vinham os medicamentos para o outro Quincas Borba. Sabia que era ella, quando chegou; mas, á medida que os olhos se derramavam, as reminiscencias vinham vindo, escassas, mais numerosas, em bando. Não via ninguem; uma janella, a esquerda, parecia ter alguem que espiava. Tudo o mais deserto.
—Talvez não saibam que cheguei, pensou Rubião.
Subito, relampejou; as nuvens amontoavam-se ás pressas. Relampejou mais forte, e estalou um trovão. Começou a choviscar grosso, mais grosso, até que desabou a tempestade. Rubião, que aos primeiros pingos, deixara a egreja, foi andando rua abaixo, seguido sempre do cão, faminto e fiel, ambos tontos, debaixo do aguaceiro, sem destino, sem esperança de pouso ou de comida... A chuva batia-lhes sem misericordia. Não podiam correr, porque Rubião temia escorregar e cahir, e o cão não queria perdel-o. A meia rua, acudiu á memoria do Rubião a pharmacia, voltou para traz, subindo contra o vento, que lhe dava de cara; mas ao fim de vinte passos, varreu-se-lhe a ideia da cabeça; adeus, pharmacia! adeus, pouso! Já se não lembrava do motivo que o fizera mudar de rumo, e desceu outra vez, e o cão atraz, sem entender nem fugir, um e outro alagados, confusos, ao som da trovoada rija e continua.
Vagaram sem destino. O estomago de Rubião interrogava, exclamava, intimava; por fortuna, o delirio vinha enganar a necessidade com os seus banquetes das Tulherias. Quincas Borba é que não tinha egual recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubião, de quando em quando, sentava-se no lagedo, e o cão trepava-lhe ás pernas, para dormir a fome; achava as calças molhadas, e descia; mas tornava logo a subir, tão frio era o ar da noite, já noite alta, já noite morta. Rubião passava-lhe as mãos por cima, resmungando algumas palavras magras.
Se, apezar de tudo, Quincas Borba conseguia adormecer, accordava logo, porque Rubião levantava-se e punha-se outra vez a descer e subir ladeiras. Soprava um triste vento, que parecia faca, e dava arrepios aos dois vagabundos. Rubião andava de vagar; o proprio cançaço não lhe permittia as grandes pernadas do principio, quando a chuva cabia em bategas. As paradas eram agora mais frequentes. O cão, morto de fome e de fadiga, não entendia aquella odysséa, ignorava o motivo, esquecera o logar, não ouvia nada, senão as vozes surdas do senhor. Não podia ver as estrellas, que já então rutilavam, livres de nuvens. Rubião descobriu-as; chegara á porta da egreja, como quando entrou na cidade; acabava de sentar-se e deu com ellas. Estavam tão bonitas, reconheceu que eram os lustres do grande salão e ordenou que os apagassem. Não pôde ver a execução da ordem; adormeceu alli mesmo, com o cão ao pé de si. Quando accordaram de manhã, estavam tão juntinhos que pareciam pegados.
—Ao vencedor, as batatas! exclamou Rubião quando deu com os olhos na rua, sem noite, sem agua, beijada do sol.
Foi a comadre do Rubião, que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os passar defronte da porta. Rubião conheceu-a, aceitou o abrigo e o almoço.
—Mas que é isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa está toda molhada. Vou dar-lhe umas calças de meu sobrinho.
Rubião tinha febre. Comeu pouco e sem vontade. A comadre pediu-lhe contas da vida que passára na Côrte, ao que elle respondeu que levaria muito tempo, e só a posteridade a acabaria. Os sobrinhos de seu sobrinho, concluiu elle magnificamente, é que hão de ver-me em toda a minha gloria. Começou, porém, um resumo. No fim de dez minutos, a comadre não entendia nada, tão desconcertados eram os factos e os conceitos; mais cinco minutos, entrou a sentir medo. Quando os minutos chegaram a vinte, pediu licença e foi a uma visinha dizer que Rubião parecia ter virado o juizo. Voltou com ella e um irmão, que se demorou pouco tempo e saiu a espalhar a nova. Vieram vindo outras pessoas, ás duas e ás quatro, e, antes de uma hora, muita gente espiava da rua.
—Ao vencedor, as batatas! bradava Rubião aos curiosos. Aqui estou imperador! Aa vencedor, as batatas!
Esta palavra obscura e incompleta era repetida na rua, examinada, sem que lhe dessem com o sentido. Alguns antigos desaffectos do Rubião iam entrando, sem ceremonia, para gosal-o melhor; e diziam á comadre que não lhe convinha ficar com um doudo em casa, era perigoso; devia mandal-o para a cadeia, até que a autoridade o remettesse para outra parte. Pessoa mais compassiva lembrou a conveniencia de chamar o doutor.
—Doutor para que? acudiu um dos primeiros. Este homem está maluco.
—Talvez seja delirio de febre; já viu como está quente?
Angelica, animada por tantas pessoas, tomou-lhe o pulso, e achou-o febril. Mandou vir o medico,—o mesmo que tratara o finado Quincas Borba. Rubião conheceu-o tambem; respondeu-lhe que não era nada. Capturára o rei da Prussia, não sabendo ainda se o mandaria fuzilar ou não; era certo, porém, que exigiria uma indemnisação pecuniaria enorme,—cinco billiões de francos.
—Ao vencedor, as batatas! concluiu rindo.
Poucos dias depois morreu... Não morreu subdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, poz a coroa na cabeça,—uma coroa que não era, ao menos, um chapeo velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a illusão. Não, senhor; elle pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só elle via a insignia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo cahiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.
—Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...
A cara ficou séria, porque a morte é séria; dous minutos de agonia, um tregeito horrivel, e estava assignada a abdicação.
Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu tambem, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, tres dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capitulo especial, é provável que me perguntes se elle, se o seu defuncto homonymo é que dá o titulo ao livro, e porque antes um que outro,—questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lagrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sophia não quiz fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lagrimas dos homens.