IIIDRAMAS DA POLITICA

IIIDRAMAS DA POLITICA

AffonsoV, de Portugal, regressando de Ceuta em 1464, desembarcou em Tavira, e dirigindo-se para o Alemtejo, passou a paschoa em Evora. D’ahi,com alguns senhores e fidalgos escolhidos secretamente, diz Ruy de Pina, foi em romaria a Santa Maria de Guadalupe, onde se avistou com sua irmã D. Joanna e com HenriqueIV, de Castella.

O assumpto d’esta entrevista não era novo. Tratava-se de mais uma alliança conjugal entre as duas casas reinantes de Portugal e Castella.

Já em Gibraltar se tinham avistado AffonsoVe HenriqueIV, para identico fim, no mez de janeiro, ao tempo da desastrosa escalada de Tanger, ficando concertado que, a infanta D. Isabel casasse com el-rei D. AffonsoV, e a princeza das Asturias com o principe D. João, de Portugal, seu primo.[6]

Na conferencia da paschoa, em Guadalupe, tiveram os dois monarchas, bem como a rainha D. Joanna,as mesmas praticas e accordos de Gibraltar sobre casamentos e lianças, diz Ruy de Pina.[7]Esta nova conferencia, tão proxima da outra, revela apenas o desejo que HenriqueIVtinha de encontrar em AffonsoV, seu cunhado, um alliado que o protegesse contra as revoltosas peripecias da politica de Castella, cada vez mais agitada.

HenriqueIVfizera a jornada de Guadalupe sem ouvir previamente o seu antigo valido marquez de Vilhena, que principiava a decahir rapidamente, offuscado por Beltrão de Lacueva, o novo astro da côrte. Vilhena não perdoara a affronta, e aproveitaraa ausencia do rei para conspirar contra elle de parceria com o arcebispo de Toledo.

O almirante D. Fradique e seu filho, os condes de Benavente, Placencia, Alba e Paredes, o bispo de Coria e outros prelados, varios senhores e cavalleiros adheriram á conspiração. O mestre de Calatrava, irmão do marquez de Vilhena, propuzera-se sublevar a Andaluzia contra o rei.

D. Henrique, surprehendido com este acontecimento, acobardou-se, e propoz aos conspiradores que voltassem á côrte, que elle os informaria de tudo o que se tinha passado com o rei de Portugal. Bem conheciam elles a fraqueza do monarcha castelhano! Porisso responderam á proposta de HenriqueIVimpondo condições, uma das quaes era a prisão do arcebispo de Sevilha, que João Pacheco inculcava como figadal inimigo do rei. Esta denuncia não passava de um ardil do marquez de Vilhena, porque elle proprio mandara prevenir o arcebispo de que HenriqueIVintentava prendel-o. E assim conseguiria indispor contra o rei um prelado poderoso. Tal era oplano de Vilhena: isolar o rei, indispondo-o com os seus mais dedicados amigos.

A fraqueza do rei alentava a ousadia dos conspiradores.

«Uma noite, conta Lafuente, achando-se (HenriqueIV) no seu palacio, ouviu cahir com estrondo as portas do regio alcaçar, e ruido e alvoroto de gentes que penetravam no palacio. Aturdido, o rei refugiou-se n’um pequeno retrete em companhia de D. Beltrão de Lacueva, conde de Ledesma.»

Não deixa de ser altamente comica esta camaradagem do rei e de Beltrão, transidos de medo, no recinto pouco convidativo de um retrete, que, ainda assim, não deixaria de convir-lhes na occasião. De mais a mais, ha o que quer que seja de latrinario na baixeza do rei, lançado nos braços do homem que a voz publica indigitava como pae da infanta D. Joanna. Porisso, o logar era tão conveniente como proprio. O acaso tem ás vezes razão.

Lafuente prosegue:

«Os que de tão tumultuosa maneira haviam invadido os aposentos reaes, eram os condes de Benavente e de Paredes, o filho do almirante e outros cavalleiros de conta,que, capitaneados por o de Vilhena, iam com animo de apoderar-se dos infantes, e de prender o rei e D. Beltrão de Lacueva. O de Vilhena entra só ao esconderijo do rei e, com a sua doble e arteira politica, finge-se indignado d’aquelle insulto, e, como quem zomba da debilidade do rei, excita-o a que não deixe de punir. «Parece-vos bem, marquez, disse-lhe o rei, isto que se fez ás minhas portas? Pódes estar certo de que já não tenho paciencia para mais.» Mas o resultado limitou-se a uma esteril e passageira indignação, e a sahir o de Vilhena com os seus impunemente do palacio, talvez por lhe não convir então levar as coisas mais longe.»

HenriqueIVou não conhecia o despeito de João Pacheco, vendo-se supplantado pelo amante da rainha, ou, aconselhado por Beltrão, em quem agora cegamente confiava, queria ageitar ao marquez de Vilhena occasião de se comprometter e perder-se.

Mas Beltrão de Lacueva, se assim aconselhava o rei, devia lembrar-se de que entre HenriqueIVe João Pacheco havia antigos laços de suspeitosa amizade. Portanto,devia tambem metter em linha de conta esse factor importantissimo.

E, com effeito, um novo acontecimento veio demonstrar a sua importancia.

Estavam em Segovia o rei, a rainha, a princeza das Asturias, os infantes e Beltrão. Os conspiradores tinham-se combinado com um capitão da guarda real e sua mulher, dama da infanta D. Isabel, para que por uma porta secreta os introduzisse nos quartos da familia real, que seria presa, e do favorito, que seria assassinado.

O marquez de Vilhena entretinha o rei n’essa noite, conversando serenamente com elle, á espera que a conspiração rebentasse. Mas a conspiração descobriu-se, e HenriqueIVcontentou-se com ouvir sobre o caso o marquez de Vilhena, que se fingia profundamente indignado contra os condes de Placencia e Alba, co-réos na conspiração mallograda.

Entretanto, o rei, sem forças para romper abertamente com o seu antigo companheiro de prazeres, ia guindando ás supremas honras o amante da rainha. Fizera-o, finalmente, grão-mestre de S. Tiago. Beltrão de Lacueva attingia assim a altaposição social que D. Alvaro de Luna deixara devoluta.

João Pacheco revoltava-se cada vez mais, como valido decadente. Fizera com que os condes de Placencia e Alba pedissem uma entrevista ao rei entre S. Pedro de las Duenhas e Villacastin, sob pretexto de que queriam reconciliar-se com o marquez de Vilhena, e ouvir o rei sobre esse assumpto. HenriqueIVannuiu com a maior docilidade, fazendo-se acompanhar por Beltrão de Lacueva, pelo bispo de Calahorra, por outros fidalgos mais, pela sua guarda real e por um esquadrão de quinhentas lanças.

Ainda d’esta vez escapou ao laço o pobre rei, porque dois mensageiros, largando a todo o galope, correram a avisal-o do perigo a que se expunha.

Em vista d’este novo desastre, os conspiradores, desfraldando o pendão da revolta, foram acoitar-se em Burgos, e d’ahi formularam claramente as suas accusações contra o rei, enviando-lh’as por carta para Valhadolid. As principaes queixas dos conspiradores eram estas: haver nomeado grão-mestre de S. Tiago Beltrão de Lacueva, com prejuizo do infante D. Affonso, a quemo grão-mestrado pertencia, como filho do rei D. João;ter feito jurar herdeira do throno de Castella D. Joanna, devendo saber que não era sua filha legitima. Os conspiradores concluiam por pedir como desaggravo que o infante D. Affonso fosse jurado herdeiro do throno.

Pela primeira vez era a rainha formalmente accusada de adultera. Até ahi, as murmurações, comquanto geraes, não tinham chegado á ousadia de formular uma accusação categorica, dirigida ao proprio rei. Mas, desde esse momento, as conveniencias respeitosas foram calcadas, e D. Joanna, de Portugal, publicamente accusada de haver dado á luz uma filha de que seu marido não era o pae.

Se o rei D. Duarte fôra ainda vivo, morreria de pesar, elle, que, noLeal conselheiro, escrevia a respeito da honestidade das mulheres portuguezas: «... ao presente eu não sei, nem oiço mulher de cavalleiro, nem outro homem de boa conta em todos meus reinos, que haja fama contraria de sua honra em guarda de lealdade; e passaram de cem mulheres, que el-rei e a rainha, meus senhores padre e madre, cujasalmas Deus haja, e nós, casamos de nossas casas, e prouve a Nosso Senhor que alguma, que eu saiba, nunca falleceu em tal erro dês que foi casada...»

Pois era justamente contra uma dama portugueza, não simples esposa de cavalleiro, mas rainha de Castella pelo casamento, e filha de rei, de um rei que era ao mesmo passo o auctor doLeal conselheiro, era contra D. Joanna, de Portugal, que os revoltosos de Burgos publicamente fulminavam a accusação de adultera, barregã de um valido, como outra rainha de Castella, tambem portugueza, cujo amante, o pae de D. Leonor Telles, fôra assassinado, por ordem de Pedro, o Cruel, quando á sahida da cidade de Tóro dava o braço á rainha.

HenriqueIV, de instinctos menos carniceiros, não cuidou de assassinar ninguem. Até, pelo contrario, se mostrou zangado com o bispo de Cuenca por lhe aconselhar que punisse severamente os revoltosos.

O pobre rei Henrique sanccionou a sua propria deshonra tão publicamente quanto a accusação o fôra, concedendo uma entrevista aos conspiradores entre as villas de Cigales e Cabezon, e accedendo a todas asimposições que na entrevista lhe foram feitas.

Obrigou-se o rei de Castella a entregar ao marquez de Vilhena o infante D. Affonso, seu irmão,para que fosse jurado herdeiro e successor dos reinos, com a condição de casar com a princeza D. Joanna; a fazer com que Beltrão de Lacueva resignasse o mestrado de S. Tiago em proveito do infante D. Affonso, e a nomear uma deputação de cinco membros que, reunida em Medina del Campo, regularia todas as differenças entre o rei e os dissidentes, que constituiam a liga revolucionaria.

Assim aconteceu. D. Affonso foi juradolegitimo successor do reino; Beltrão de Lacueva renunciou ao mestrado, mas o rei fel-o, em compensação, duque de Albuquerque, doou-lhe varias villas, e arbitrou-lhe uma renda sobre outras villas; finalmente, o rei nomeou os membros da deputação, que lhe competia nomear, para que funccionassem com os membros eleitos pela junta.

Desde este momento estava reconhecida por HenriqueIVa illegitimidade de D. Joanna, a infeliz princeza para quem a vida tãotempestuosa amanhecia, e a deshonra da rainha sua mãe.

Mas HenriqueIVnão era homem que tivesse duvidas em mudar de opinião. Em Madrid fizera jurar D. Joanna por herdeira; em Medina del Campo concordava em que fosse jurado o infante D. Affonso. Porisso não admira que, recolhendo de Medina, désse por nullo o convenio que acceitara, e escrevesse aos da liga para que lhe restituissem o infante, seu irmão.

O marquez de Vilhena e os seus responderam altivamente ás cartas do rei, fazendo um simulacro de deposição de HenriqueIVem Avila. O arcebispo de Toledo, e varios fidalgos, por suas proprias mãos, arrancaram solenemente as insignias reaes ao manequim, que representava o rei, e alçaram o pregão de:Castella por el-rei D. Affonso. Em seguida todos beijaram a mão ao infantesinho, que acabavam de acclamar.

Quando HenriqueIVsoube isto rompeu em lastimas, citou palavras de Job, accusou-se por haver alentado ingratos.

Mas, como lastimas não valem, resolveu despachar cartas para todo o reino a pedir soccorro. E uma grande parte do reinoenviou-lh’opara castigar a enormidade do desacato, diz Lafuente, já que o rei havia deixado chegar as coisas a um tal extremo. Entre os fidalgos, que vieram collocar-se ao lado de HenriqueIV, contavam-se Beltrão de Lacueva, duque de Albuquerque, e seu sogro, o marquez de Santilhana.

Os sublevados sahiram de Avila por Penhaflor para acampar á vista de Simancas; mas esta villa conservou-se firme ao rei, e os seus habitantes parodiaram o feito de Avila simulando a deposição do arcebispo de Toledo, ao qual cognominaramDom Oppas, que era o nome do traidor, arcebispo de Sevilha, no tempo do rei Rodrigo. E depois de arrastarem o manequim pelas ruas, queimaram-n’o n’uma fogueira, ao som d’esta trova:

Esta és Simancas,Dom Oppas traidor;Esta és Simancas,Que no Penhaflor.

Esta és Simancas,Dom Oppas traidor;Esta és Simancas,Que no Penhaflor.

Esta és Simancas,Dom Oppas traidor;Esta és Simancas,Que no Penhaflor.

Esta és Simancas,

Dom Oppas traidor;

Esta és Simancas,

Que no Penhaflor.

Em vista d’esta attitude energica, os revoltosos retiraram. O rei, apoiado na adhesão popular, poderia havel-os derrotado de vez. Mas, encantado pelas seducções domarquez de Vilhena, a quem concedera uma entrevista, licenciou o exercito sob condição de que a liga renunciaria á acclamação do infante D. Affonso, e obedeceria ao rei.

O que tinha feito, entretanto, por desaffrontar-se, a rainha de Castella, D. Joanna, cuja honra era publicamente conspurcada? O que fizera, por vingar sua irmã, o rei Affonso, de Portugal?

D. Joanna avistou-se com seu irmão na provincia da Beira Baixa. Diz o padre Flores que a infanta D. Isabel acompanhou a rainha, e que aBeltranejaficara, entretanto, a bom recado, no alcaçar de Segovia. O logar marcado para a entrevista foi a cidade da Guarda. Ahi expoz a rainha de Castella a triste situação em que se encontrava, e as difficuldades politicas em que seu marido se havia lançado. Como era natural, o primeiro movimento de AffonsoVfoi de commiseração pela irmã, mas, posto o negocio em côrtes, que na Guarda se reuniram, e a que D. Joanna assistiu em nome do rei, seu irmão, a volubilidade de HenriqueIVnão pesou menos na balança dos tres estados do que a deshonra da rainha de Castella:«foi el-rei aconselhado, diz Pina, que em tal discordia e empresa nem lianças se não entremettesse, da qual coisa com a mais honestidade que poude se excusou.»

E os factos occorridos em Castella vieram justificar este prudente conselho dado a AffonsoV.

O rei Henrique, desprezando os fortes elementos de resistencia que o paiz lhe offerecia, licenciou os seus soldados, que se retiraram indignados. Fiado nas promessas do marquez de Vilhena, que, aliás, não cuidou de cumpril-as, mandou buscar aBeltranejaa Segovia, fel-a entrar em Samora debaixo de pallio, e reuniu-se depois com a rainha e com a infanta D. Isabel, que regressavam de Portugal, em Simancas.

Toda Castella se resentia d’estes acontecimentos, a anarchia ia de foz em fóra, os malfeitores assolavam as povoações que, para resistir-lhes, e proteger-se a si proprias, faziamhermandad.[8]Porêm, no meiod’estadegringoladegeral, custa a crer que ainda houvesse quem defendesse o rei! Pois havia. Valhadolid, aproveitando uma sahida do almirante D. Fradique com o infante D. Affonso, e a sua gente, sobre Arévalo, tomou de novo voz por D. Henrique, que logo se foi lá metter, sendo recebido com festas.

HenriqueIVnão se fortalecia com estas demonstrações de agrado. A sua fraqueza de espirito era tamanha, que acceitava todas quantas propostas os adversarios lhe fizessem.

Vejamos. Pedro Giron, mestre de Calatrava e irmão do marquez de Vilhena, porventura já cansado de andar agitando a Andaluzia contra o rei, propoz a HenriqueIV, por intermedio do arcebispo de Sevilha, fazer pazes com elle, obrigando-se a servil-o com tres mil lanças, a emprestar-lhe sessenta mil dobras e a restituir-lhe o infante D. Affonso, sob a humilhante condição de que lhe seria concedida em casamento a infanta D. Isabel.

Prompto! HenriqueIVacceitou logo a proposta. Deu de mão a Beltrão de Lacueva, e chamou para a côrte o mestre deCacalatrava, tratando ao mesmo tempo de obter de Roma a dispensa para que elle pudesse casar, visto ser grão-mestre de uma ordem religiosa.

Mas HenriqueIVesquecia-se de que sua irmã Isabel, comquanto menina de dezeseis annos, não era tão malleavel como elle. Mais nova ainda, depois da entrevista de Guadalupe, oppuzera resistencia a casar-se com AffonsoV, allegando que era precisa licença das côrtes. Agora, mais desenvolvida a sua energia de castelhana, não deixaria de oppor uma seria resistencia, tanto mais que tinha a seu lado uma dama dedicadissima, D. Beatriz de Bobadilha, a qual, tirando um punhal, dissera uma noite á infanta: «Primeiro o cravarei eu no coração do mestre de Calatrava.»

Pedro Giron, chamado pelo rei, apressou-se a jornadear de Almagro para Madrid, com grande sequito de cavalleiros. Mas ao segundo dia de Jornada adoeceu gravemente em Villarrubia, e a breve trecho morreucom pouca edificação christã. Morreu raivando e praguejando, por não chegar a ver realizado o seu ideal.

Os chronistas castelhanos põem a virtudeda infanta D. Isabel acima de toda a suspeita n’esta morte. Cremos que fosse assim, mas é possivel que, mesmo sem conhecimento da infanta, alguem envenenasse o grão-mestre de Calatrava.

A infanta D. Isabel poude, emfim, respirar, mas o estado anarchico do paiz continuou o mesmo. Fizeram-se conferencias em Madrid, cidade que foi posta em poder do arcebispo de Sevilha, entre o rei e os revoltosos. Não deram resultado, como tantas outras conferencias. N’estas aguas turvas só o marquez de Vilhena logrou pescar, porque um bello dia nomeou-se a si proprio grão-mestre de S. Tiago, sem se importar com o rei, nem com o principe Affonso, nem com a côrte, nem com o papa, mas importando-se apenas com a sua muito alta e poderosa pessoa.


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