IXO DEDO DE DEUS

IXO DEDO DE DEUS

O rei D. João, de Portugal, não perdia de vista os manejos da côrte de Castella, que, tendo fallecido o rei de Navarra, procurava reunir os differentes Estados ao norte da Peninsula, pedindo para o principe D. João a mão de D. Catharina, em quem recahira a successão do reino de Navarra.

Assim, D. JoãoIInão duvidava ir arrancar á clausura monastica aBeltraneja, para a aproveitar como ameaça que contivesse em respeito e desconfiança os reis catholicos. A isso se refere um breve do papa InnocencioVIII, do anno de 1487, a queClemencin e Lopes de Mendonça alludem, mas que não nos consta haja sido publicado na integra em portuguez. Porisso o damos á estampa:

«... Tendo chegado ha pouco ao nosso conhecimento, que alguns perversos, cobiçosos de alterar a paz mencionada, não receiam persuadir a Joanna, filha duvidosa do rei Henrique, e sua herdeira, que, largando o habito religioso que tomou, saia do mosteiro e volte para a vida secular, e, abjurando da profissão por ella tão solennemente feita, e com fingidas desculpas de medo, e de protestos, que aliás affirma ter feito contra a primeira asserção já dicta, se intitule rainha dos citados reinos, e assim queira ser pelos outros intitulada, e que para a induzirem a um tal fim não duvidam dar-lhe o nome e titulo de rainha; e sendo certo que das frequentes e continuadas suggestões de taes individuos, a citada Joanna algumas vezes com a importuna instancia se deixa vencer, e, ou seja para agradar aos mesmos que a persuadem, e parecer que acredita tudo quanto elles lhe dizem e pretendem gravar-lhe na mente, ou seja por outro motivo, larga o véo negroque tomara, e com o qual tão patente e publicamente se desposou com Jesus Christo, que é o mais excellente de todos os filhos dos homens, e ficou sendo consagrada ao Senhor, tanto dentro como fóra do mosteiro, no qual vivia, e se intitula e faz intitular rainha dos referidos reinos, como lhe persuadiam, com perigo das almas da mesma Joanna e dos que assim a aconselhavam, e com pernicioso exemplo e escandalo de muitos: nós, pois, que ardentemente desejamos, com o auxilio da divina clemencia, que entre os mencionados reis de Hespanha e de Portugal, invictos defensores da fé catholica n’aquelles Estados, a mencionada paz se consolide e vigore em todos os tempos futuros para incremento da fé catholica, por cuja exaltação um d’elles atacando o reino de Granada, e o outro, segundo o costume dos catholicos reis seus progenitores, passando com seus subditos para as regiões da Africa, trabalham com zelo inquebrantavel por combater com os infieis, e por dilatar a mesma fé; receando que, se acontecesse que as anteriores discordias entrassem a lavrar entre os mencionados reis, estes tivessem occasião dedesistir das luctas por elles respectivamente emprehendidas contra os mesmos infieis, e de se afastarem de tão salutifera obra, dando ensejo aos infieis não só de se apoderarem de novo d’aquelles logares que já lhes tinham sido arrancados pelos referidos reis, senão de invadirem hostilmente os logares circumvisinhos, habitados pelos fieis, saquearem-n’os e sujeitarem-n’os áquella enxovalhadissima raça, com grande mortandade e perda dos christãos: por motu proprio, e não a pedido dos referidos rei Fernando e rainha Isabel, ou d’alguem em nome d’elles, mas de nossa mera deliberação, confirmamos e approvamos por auctoridade apostolica a mencionada profissão tão solennemente feita pela referida Joanna, e todas e cada uma das materias a ella respectivas, que se encontram exaradas nos mencionados instrumentos, e quantas d’ellas se derivarem, se forem legitimamente feitas, e só nos termos em que o forem, e as corroboramos com a força do presente escripto, e supprimos todas e quaesquer faltas, se porventura algumas houve relativamente ás solennidades d’este acto; e com os dictos motu proprio e auctoridade ordenamosestrictamente á mesma Joanna, que não vá de encontro á dicta profissão por ella tão solennemente feita, voltando de facto para o seculo, nem saia do mosteiro das freiras de Santarem da dicta ordem, para o qual ultimamente se passou, nem mesmo por pouco tempo, a não ser por algumas das causas pelas quaes os institutos regulares da referida ordem o permittem ás freiras professas n’ella, voltando para elle logo que taes causas cessem; não podendo dentro ou fóra do seu mosteiro largar o veo e habito da mencionada ordem, nem intitular-se rainha, ou fazer ou permittir que assim pelos outros seja intitulada. E a todos e a cada um dos christãos de qualquer estado, grau, ordem ou condição que sejam, e em qualquer ordem ecclesiastica, até mesmo episcopal, archiepiscopal, e cardinalicia, ou mundana, até mesmo de rei ou de rainha que figurem, prohibimos com o mesmo motu proprio e auctoridade que sob qualquer pretexto manifesta ou occultamente, directa ou indirectamente, por si, por outro ou por outros, persuadam á mesma Joanna que saia do referido mosteiro e ordem, e que volte para o seculo,e se trate como secular, e que impugne a profissão por ella feita, e para este fim lhe prestem por qualquer modo auxilio, conselho ou favor, ou a intitulem rainha ou a façam assim intitular, quer verbalmente, quer por escripto de qualquer fórma, sob pena d’interdicto, de prohibição d’entrada em egreja, suspensão dos actos divinos e dos governos das suas egrejas, se forem bispos e superiores; e se inferiores d’ellas, e ecclesiasticos e seculares pertencentes ás ordens militares e a quaesquer ordens isentas e não isentas, sob pena de excommunhão, e tambem da privação das egrejas, mosteiros, priorados, preceptorias, dignidades, personados,[68]administrações ou officios, etc., devendo incorrer em sentenças, censuras e penas, das quaes não poderão ser absolvidos senão em artigo de morte, e dada antes a devida satisfacção, etc. (Addicionaram-se instrumentos publicos a 15 de novembro de 1480 contendo os votos feitos por D. Joanna, nos quaes tambemse descrevem os sagrados ritos então guardados). Dada em Roma, em S. Pedro, a 24 de junho, anno da Encarnação do Senhor 1487, e terceiro do nosso pontificado.»[69]

Não podemos deixar de notar, com Clemencin, a habilidade com que este breve está redigido, porisso que, apontado contra D. JoãoII, evita dirigir-se-lhe directamente, antes elogia o rei de Portugal pelo seu infatigavel zelo em continuar a guerra na Africa contra os infieis.

Isabel a Catholica, mulher de espirito superior, conhecia perfeitamente a estatura moral do seu antagonista. Porisso foi inclinando os acontecimentos a uma solução pacifica, procurou approximar-se, quanto poude, de D. JoãoII, o qual não duvidou enviar-lhe um navio carregado com todos os aviamentos de que os reis de Castella precisavam para sustentar a guerra de Granada.

O principe portuguez D. Affonso havia chegado aos quatorze annos, e a infanta D. Isabel, filha dos reis catholicos, estavaainda solteira. D. JoãoIImandou perguntar se havia idéa de manter o antigo contracto de casamento. A resposta, vinda de Castella, fôra affirmativa. Portugal era para Castella um mau visinho, que importava ter em segurança. Convinha liquidar, de uma vez para sempre, a interminavel questão daBeltraneja.

Toda a gente sabe a pompa com que se realizou o casamento do principe portuguez D. Affonso com a infanta castelhana D. Isabel. Excusamos demorar-nos n’este ponto. Toda a gente sabe tambem quão breve fôra a felicidade conjugal dos jovens esposos, subitamente anniquilada pelo desastre que victimara em Santarem o principe D. Affonso, morrendo arrastado pelo cavallo que montava.

Garcia de Rezende recorda naMiscellaneaa rapida mutação das alegrias do noivado em prantos e tristezas inesperados:

Era de dezeseis annose casado de oito mezes,perfeito entre os mundanos,mui quisto dos castelhanos,descanço dos portuguezes.Uma triste terça-feira,correndo uma carreiraem um cavallo, cahiu.Nunca falou nem buliu,e morreu d’esta maneira.Por sua grã formosurafoi no mundo nomeadoangelica creatura.Nunca foi tal desventura,nem principe tão amado;em Castella e Portugalfoi tão sentido seu mal,tão chorado em toda a Hespanha,que foi tristeza tamanha,que se não viu outra tal.Vi a princeza tornarbem a revez do que veio.Coisa muito de espantartão grã pressa, tal mudardo tempo, tão grão rodeio!Entrou a mais triumphosa,mais real, mais grandiosaque nunca se viu entrada;sahiu mui desesperada,mui triste, muito chorosa.Entrou com mil alegrias,sahiu com grandes tristezas.Tanto oiro e pedrariasnão se viu em nossos dias,nem taes gastos, taes riquezas;as galantes invençõesse tornaram em paixões,os brocados em saial,o prazer grande, geralem nojos, lamentações.

Era de dezeseis annose casado de oito mezes,perfeito entre os mundanos,mui quisto dos castelhanos,descanço dos portuguezes.Uma triste terça-feira,correndo uma carreiraem um cavallo, cahiu.Nunca falou nem buliu,e morreu d’esta maneira.Por sua grã formosurafoi no mundo nomeadoangelica creatura.Nunca foi tal desventura,nem principe tão amado;em Castella e Portugalfoi tão sentido seu mal,tão chorado em toda a Hespanha,que foi tristeza tamanha,que se não viu outra tal.Vi a princeza tornarbem a revez do que veio.Coisa muito de espantartão grã pressa, tal mudardo tempo, tão grão rodeio!Entrou a mais triumphosa,mais real, mais grandiosaque nunca se viu entrada;sahiu mui desesperada,mui triste, muito chorosa.Entrou com mil alegrias,sahiu com grandes tristezas.Tanto oiro e pedrariasnão se viu em nossos dias,nem taes gastos, taes riquezas;as galantes invençõesse tornaram em paixões,os brocados em saial,o prazer grande, geralem nojos, lamentações.

Era de dezeseis annose casado de oito mezes,perfeito entre os mundanos,mui quisto dos castelhanos,descanço dos portuguezes.Uma triste terça-feira,correndo uma carreiraem um cavallo, cahiu.Nunca falou nem buliu,e morreu d’esta maneira.

Era de dezeseis annos

e casado de oito mezes,

perfeito entre os mundanos,

mui quisto dos castelhanos,

descanço dos portuguezes.

Uma triste terça-feira,

correndo uma carreira

em um cavallo, cahiu.

Nunca falou nem buliu,

e morreu d’esta maneira.

Por sua grã formosurafoi no mundo nomeadoangelica creatura.Nunca foi tal desventura,nem principe tão amado;em Castella e Portugalfoi tão sentido seu mal,tão chorado em toda a Hespanha,que foi tristeza tamanha,que se não viu outra tal.

Por sua grã formosura

foi no mundo nomeado

angelica creatura.

Nunca foi tal desventura,

nem principe tão amado;

em Castella e Portugal

foi tão sentido seu mal,

tão chorado em toda a Hespanha,

que foi tristeza tamanha,

que se não viu outra tal.

Vi a princeza tornarbem a revez do que veio.Coisa muito de espantartão grã pressa, tal mudardo tempo, tão grão rodeio!Entrou a mais triumphosa,mais real, mais grandiosaque nunca se viu entrada;sahiu mui desesperada,mui triste, muito chorosa.

Vi a princeza tornar

bem a revez do que veio.

Coisa muito de espantar

tão grã pressa, tal mudar

do tempo, tão grão rodeio!

Entrou a mais triumphosa,

mais real, mais grandiosa

que nunca se viu entrada;

sahiu mui desesperada,

mui triste, muito chorosa.

Entrou com mil alegrias,sahiu com grandes tristezas.Tanto oiro e pedrariasnão se viu em nossos dias,nem taes gastos, taes riquezas;as galantes invençõesse tornaram em paixões,os brocados em saial,o prazer grande, geralem nojos, lamentações.

Entrou com mil alegrias,

sahiu com grandes tristezas.

Tanto oiro e pedrarias

não se viu em nossos dias,

nem taes gastos, taes riquezas;

as galantes invenções

se tornaram em paixões,

os brocados em saial,

o prazer grande, geral

em nojos, lamentações.

Os partidarios daBeltranejaviram na desastrosa morte do principe D. Affonso o dedo de Deus, o castigo do céo. Dil-o claramente Duarte Nunes de Leão naChronica de D. Affonso V:

«... não tardou, que quando o principe D. João, d’ahi a pouco já feito rei, casou o principe com tantos gostos, e tantas esperanças, no meio dos contentamentos, e das maiores festas do mundo, viu seu unico filho, que elle tão ternamente amava, morto, e arrastado de um cavallo, á vista da mesma senhora D. Joanna, que do mosteiro o podia ver deitado em uma pobre cama de palha de um pescador, onde acabou... tomando Deus, segundo a todos pareceu, por aquella afflicta mulher a vingança.»

Em verdade, dadas as crenças supersticiosas da epocha, tudo fazia acreditar que a morte do principe D. Affonso fôra a justa punição dos repetidos sacrificios impostos a D. Joanna, principalmente por D. JoãoII.Em Santarem vira ella cahir aos pés do altar os seus formosos cabellos, e deante de si o vulto sereno e frio de D. João; agora, tambem em Santarem, era o rei que chorava deante do cadaver do filho, como se a Providencia houvesse querido vingar o passado na pessoa innocente do principe.

«Nem os reis de Castella, prosegue Duarte Nunes, ficaram depois sem seu quinhão de castigo; porque o seu filho varão, unico herdeiro de tantos reinos, na flor de sua edade, já casado, sem deixar successão, quasi no tempo em que com a senhora D. Joanna seus paes o prometteram casar, falleceu... E a princeza D. Isabel, filha maior dos dictos reis, cortados seus cabellos, e vestida de pannos de burel, triste e anojada, se viu em termos de tomar por vontade a vida, que á senhora D. Joanna fizeram tomar por força, se com pregações a não converteram; mas sua vida foi de pouco tempo.»

Tambem Ruy de Pina, em linguagem dulcificada por toques de maviosa tristeza, procura pôr em evidencia o castigo do céo, vendo resvalar ao tumulo os primogenitos de Portugal e Castella, etrocados os brocadosricos, e hollandas delgadasque trouxera a infanta D. Isabel,com pobre burel e grossa estopa em que foi logo vestida, depois da morte de D. Affonso;nem ficaram por cortar seus cabellos doirados com accidental proposito de religião.

A punição parecia haver sido ordenada em identicas circumstancias do delicto. Nem o episodio dos cabellos falta; em Santarem, as duas primas houveram de despojar-se das suas tranças, uma para tomar o véo de monja, a outra para tomar o véo de viuva.É o dedo de Deus!dizia-se então. E a phrase ficou como uma synthese dos factos, que em verdade parecem providencialmente dispostos.

Passaria no forte espirito de D. JoãoII, alguma vez, a idéa de que a morte de seu filho fôra realmente um castigo do céo?

Eis o que ninguem póde saber ao certo.

A verdade é que o rei sustentava, com grandeza, a casa daExcellente Senhora, no seculo. NasProvas da historia genealogica[70]vem a relação das pessoas de que se compunha a casa de D. Joanna, e poressa relação se vê que não tinha menos de oito damas, nove moças de camara, sendo duas moiras, quatro donas, oito capellães e cantores, seis moços de capella, sete moços da camara, quatro estribeiros, dois reposteiros, afóra veador, contador, thesoireiro, comprador, mantieiro, cozinheiro, lavadeira, alfaiate, physico e cirurgião.

A dotação de D. Joanna, consignada no orçamento geral do Estado (despesa ordinaria) em 1478, era de 1:400$000 réis.

Onde habitava em Lisboa D. Joanna? Não pudemos averiguar. Sabe-se apenas que no reinado de D. JoãoIIresidia no Paço do Castello, e que ahi falleceu, se bem que o documento d’essa epocha, a que nos encostamos, e a que ainda teremos de alludir, diga:onde ora poisa a serenissima senhora, o que faz suppor que nem sempre residira alli quando estava fóra do convento. Mais adeante veremos que houve idéa de se construir um palacio para sua residencia.

Como se sabe, D. JoãoII, morto o principe D. Affonso, empregou os maiores esforços para deixar por herdeiro da coroa D. Jorge de Lencastre, seu filho natural.

Em segredo mandou a Castella pedir para elle a mão da filha mais nova dos reis catholicos, D. Catharina, encarregando d’esta missão Lourenço da Cunha. Com este casamento julgava D. JoãoIIgarantir melhor a posição futura do bastardo.

Quando Lourenço da Cunha chegou á côrte castelhana, estava D. Fernando doente, mas a rainha despachava os negocios. Foi, pois, ella que recebeu o embaixador portuguez, o qual apresentou o pedido de D. JoãoII. A rainha respondeu, que sua filha não, mas que el-rei seu senhor tinha uma filha bastarda, que lhe daria. Então Lourenço da Cunha replicou altivamente:

—Senhora, el-rei meu senhor não pretende tanto aparentar-se com el-rei D. Fernando como com vossa alteza; porisso, se vossa alteza tem outra filha bastarda, elle a tomará para seu filho.

Quando Lourenço da Cunha recolheu a Portugal, D. JoãoIIpremiou-lhe o procedimento, fazendo-lhe mercê de uma commenda de Beja, Serpa e Moura, tão vasta, que depois poude ser dividida em tres.

Todos estes factos não passavam de leve pelo espirito da rainha D. Isabel, semprereceosa de D. JoãoII. Apesar da ousada resposta do embaixador portuguez, e do acolhimento que lhe fez D. João, as relações entre os dois paizes não foram interrompidas; pelo contrario, pensou-se em seguir, por parte de Castella, o conselho do cardeal de Hespanha, de que convinha casar agora mais do que nunca o principe D. João com aExcellente Senhora. Em 1494, Fernando e Isabel não duvidavam assignar o celebre tratado, feito com D. JoãoII, sobre o que tocaria a cada uma das duas coroas do que estava por descobrir no mar oceano.[71]E um anno depois, quando D. JoãoIImorria, porventura envenenado por mestre João de Mazagão combinado com o duque de Beja,[72]a rainha Isabel de Castella resumia n’uma só phrase toda a biographia d’esse rei cujo caracter de ferro ella perfeitamente conhecera: «Morreuo homem!» exclamara D. Isabel ao saber do fallecimento de D. JoãoII.

Pois bem! Elle, o forte, ohomem, não esqueceu no seu testamento a fragil creaturaque dobrara, como um vime, ao sabor da sua vontade poderosa.

Uma disposição testamentaria diz:

«Item, ao dicto duque meu primo (D. Manuel) encommendo e rogo que honre e trate bem aExcellente Senhora, minha prima, e que sempre a tenha bem e honradamente como pertence á pessoa que é, e que foi, e do que lhe é posto para sua mantença lhe não seja tirado nada em seus dias, estando ella na maneira em que ora está.»

D. Manuel não era homem que se preoccupasse com castigos do céo quando queria fazer a sua vontade; estava enamorado da viuva do principe D. Affonso, da filha mais velha dos reis catholicos, e tratou de negociar o casamento sem se importar como dedo de Deus, que bem poderia descer pela segunda vez a impor-se sobre a cabeça da bella castelhana.

Sabe-se que a infanta resistira a principio, e que por fim annuira pondo por condição que fossem expulsos de Portugal os judeus e os moiros, desatino economico que D. Manuel não duvidou praticar.

Os reis de Castella tinham cinco filhos,a saber: D. João, casado com Margarida d’Austria, e as infantas D. Isabel, D. Joanna, D. Maria e D. Catharina.

Ao tempo do casamento de D. Manuel com a princeza castelhana, o principe D. João estava gravemente doente, achava-se n’um estado desesperado; porisso, visto que D. Manuel tanto queria apressar essa união, a sua noiva foi acompanhada até á fronteira pela rainha Isabel, ficando D. Fernando a acompanhar o principe enfermo, quasi moribundo.

Justamente na occasião em que os actos religiosos se realizavam em Valencia d’Alcantara, chegou noticia do fallecimento do infante D. João, o que fez aguar as poucas festas que estavam preparadas: poucas por attenção ao desgosto que por motivo da doença do infante havia na côrte de Castella.

Ora, morrendo o herdeiro da coroa de Fernando e Isabel, os direitos de successão passavam ao segundo filho, a infanta D. Isabel. Esta idéa não podia deixar de preoccupar um espirito tão ambicioso como o do successor de JoãoII. Mas, por occasião da morte de seu marido, D. Margaridaficara gravida de sete mezes. Eis aqui uma contrariedade para quem não fosse tão feliz como D. Manuel. Para este homem venturoso, porem, todas as difficuldades desappareciam: D. Margarida dera á luz uma creança morta. Portanto, aqui temos D. Manuel e sua esposa com direito a intitularem-se, como de facto fizeram, principes de Castella, Leão e Aragão.

A fim de serem jurados como taes, era preciso irem a Castella. As côrtes nacionaes, com a concentração do poder real, realizada por D. JoãoII, tinham perdido muito da sua importancia, mas era este um dos casos em que havia mister reunil-as. D. Manuel convocou-as portanto para Lisboa, n’esse anno de 1498, e as côrtes auctorizaram effectivamente a ida dos soberanos a Castella.

Com effeito, a 29 de março d’esse anno, D. Manuel e sua esposa partiam com grande e luzido sequito de pessoas nobres, ficando encarregada da regencia do reino a rainha viuva D. Leonor.

Logo que chegaram á fronteira de Castella, os reis de Portugal foram recebidos pelo duque de Medina Sidonia, com apparatosocortejo de fidalgos, e assim acompanhados até Toledo, onde os reis catholicos esperavam, e onde D. Manuel e D. Isabel foram, na Sé d’aquella cidade, jurados por principes herdeiros dos reinos de Castella e Leão.

Passados alguns dias, tanto Fernando e Isabel, como D. Manuel e sua esposa, partiram para o Aragão, a fim d’estes ultimos serem jurados em Saragoça, mas sobrevieram inconvenientes com que não contavam, e que impediram a immediata realização da ceremonia que alli os levava.

«Feita a entrada, escreve Goes, quizera el-rei D. Fernando, que logo ao outro dia, que era domingo, jurassem os principes, mas os aragonezes lh’o não consentiram por então, sobre o que houve muitas altercações, excusando-se a el-rei, que não podiam fazer tal juramento sem serem presentes os deputados de Valença e Barcellona, sobre o que el-rei D. Fernando tornou a apertar com elles; por fim lhe responderam, que jurariam os principes se lhes elle de novo confirmasse alguns privilegios, que lhe tinha quebrado, do que os el-rei desenganou, sem lhes querer conceder o que pediam,nem elles menos jurar os principes, no que se passaram muitos desgostos e paixões,por espaço de tres mezes. D’estas differenças uma das principaes foi dizerem que no reino não podia succeder femea, senão varão, e que este havia de ser por eleição dos Estados do reino, quando Deus ordenasse não deixar el-rei filho varão herdeiro, e que para jurarem a princeza elles o não podiam fazer sem os de Valença e Barcellona, que por só este respeito dilatavam sua vinda, o que era signal manifesto de não quererem consentir no tal juramento...»

Este facto é interessante e importante considerado como symptoma de reacção do espirito nacional contra a vontade imperiosa da coroa, que, n’aquelle tempo, em toda a Peninsula hespanica se havia aureolado de extranho prestigio, graças a D. JoãoIIem Portugal, e a Fernando e Isabel em Castella.

Succedeu então que a rainha D. Isabel, mulher de D. Manuel, deu á luz em Saragoça um filho varão, que recebeu o nome de Miguel, e que desde logo foi considerado o herdeiro presumptivo dos reinos dePortugal, Castella, Leão, Sicilia e Aragão, facto este que veiu pôr termo ás reluctancias até ahi apresentadas pelos de Aragão. Mas o nascimento d’este principe custou a vida a sua mãe, que foi sepultada no mosteiro de S. Jeronymo, em Saragoça. D. Manuel ainda se demorou alguns dias no Aragão, até que, viuvo, regressou a Portugal no mez de setembro d’esse anno (1498).

O infante D. Miguel foi acclamado e jurado em Castella e no Aragão, e, para que tambem o fosse em Portugal, convocou D. Manuel os tres Estados para o mez de março de 1499. Reunidas as côrtes, não quizeram ellas jurar sem que o rei lhes promettesse, em nome do principe seu filho, que nunca o regimento da justiça e fazenda do reino, e senhorios de Portugal, em qualquer tempo, e por qualquer caso, seria dado nem concedido senão a portuguezes, e o mesmo a respeito das capitanias dos logares de Africa, e alcaiderias-móres das villas e castellos, o que el-rei concedeu.

Quantas vezes, pois, estivera o reino de Portugal para fundir-se com o de Castella em consequencia de allianças politicas e pessoaes, as mais das vezes tendo por origemum casamento! Chega a ser assombroso que todas essas combinações se mallograssem alfim, e que Portugal mantivesse a sua independencia, apenas estrangulada n’um periodo de sessenta annos, relativamente pequeno se attendermos á longa historia d’essas combinações, e ainda mesmo á fundação da nossa nacionalidade.

Garcia de Rezende diz:

Vimos Portugal, Castellaquatro vezes adjuntadospor casamentos liadosprincipe natural d’ellaque herdava todos reynados,todos vimos fallecer,em breve tempo morrere nenhum durou tres annos,portuguezes, castelhanosjá os Deus quer juntos ver.

Vimos Portugal, Castellaquatro vezes adjuntadospor casamentos liadosprincipe natural d’ellaque herdava todos reynados,todos vimos fallecer,em breve tempo morrere nenhum durou tres annos,portuguezes, castelhanosjá os Deus quer juntos ver.

Vimos Portugal, Castellaquatro vezes adjuntadospor casamentos liadosprincipe natural d’ellaque herdava todos reynados,todos vimos fallecer,em breve tempo morrere nenhum durou tres annos,portuguezes, castelhanosjá os Deus quer juntos ver.

Vimos Portugal, Castella

quatro vezes adjuntados

por casamentos liados

principe natural d’ella

que herdava todos reynados,

todos vimos fallecer,

em breve tempo morrer

e nenhum durou tres annos,

portuguezes, castelhanos

já os Deus quer juntos ver.

Refere-se Rezende a AffonsoV, a seu neto D. Affonso, a D. Manuel e ao principe D. Miguel, que falleceu em Granada com vinte e dois mezes de edade, mallogrando-se assim, ainda d’esta vez, o projecto de unificação das coroas de Portugal e Castella.

Ao passo que Fernando e Isabel procuravamseparar da causa daBeltranejaa familia real portugueza, a Providencia parecia querer desconcertar as combinações e os calculos da politica: o nascimento do infante D. Miguel custava a vida de sua mãe, e o proprio infante morria tambem d’ahi a pouco tempo.

Sempre debaixo do mesmo ponto de vista, pactuou-se o casamento de D. Maria, terceira filha dos reis catholicos, com o viuvo D. Manoel.

D’esta vez a Providencia permittiu que D. Maria vivesse, e désse á luz um verdadeiro enxame de filhos. É que a Providencia parecia reservar para D. Joanna, a pobreBeltraneja, uma compensação muito maior, uma desforra completa e cabal.

Oiçamos um escriptor hespanhol, Clemencin, no mais completo estudo que se tem escripto em Hespanha ácerca dos reis catholicos. O testemunho é, portanto, de todo o ponto insuspeito; porisso o reproduzimos na integra:

«Foi opinião de alguns, segundo Zurita, que antes da rainha D. Isabel fallecer, seu marido lhe prometteu, sob juramento, não casar outra vez. Sem embargo, a poucotrecho da sua morte, entabolou o rei viuvo esta negociação (tratar do seu casamento com a Excellente Senhora), enviando para ella a Portugal D. Rodrigo Manrique. O objecto de tão extranha solicitude, que desde logo afearam os parciaes do rei D. Philippe, oFormoso, e que, como adverte o mesmo Zurita que não póde suspeitar-se de desaffecto ao rei catholico, se divulgou mais do que este quizera, era patente e manifesto: tomar a parte dos direitos de D. Joanna, fazel-os valer contra os filhos que tinha tido de sua primeira mulher, despojal-os da herança de Castella, e vingar-se assim de Philippe e dos grandes castelhanos, que no maior numero preferiam o partido do genro ao do sogro.

«São incalculaveis os disturbios, guerras civis e damnos que teriam resultado d’este projectado casamento, se se houvesse realizado; mas por fortuna de Hespanha,D. Joanna não deu ouvidos á proposta do rei D. Fernando, fosse aversão ao estado de matrimonio ou á pessoa do pretendente, a quem não podia deixar de olhar como um dos principaes auctores de suas desgraças. Interveiu provavelmente na resoluçãode D. Joanna o influxo da rainha de Portugal, D. Maria, a quem não podia agradar este casamento, não só em respeito á memoria de sua defuncta mãe, D. Isabel, nem em attenção a sua irmã que tinha succedido nos reinos de Castella, mas tambem em consideração aos seus proprios direitos e aos de seus filhos.

«Mui curto espaço de tempo deveu medear entre o projecto de casamento do rei catholico, e a morte de D. Isabel, occorrida a 26 de novembro de 1504. Para janeiro seguinte convocou côrtes o rei D. Fernando, na cidade de Touro, cuja proximidade de Portugal, e a maior facilidade de negociar e ajustar d’ahi o novo enlace, foram, segundo as apparencias, a causa da escolha do sitio. O certo é que, tendo-se encerrado as côrtes em meado de fevereiro, o rei, por seguir mais de perto as negociações com Portugal, como diz Zurita, continuou em Touro até ao fim de abril, em que se retirou para o interior de Castella; e isto denuncía que já então estava desvanecido e mallogrado o negocio.»

Em verdade, a escarnecidaBeltraneja, a chasqueadaMonja, não poderia imaginarmais completa desforra, do que a de ver humilhado a seus pés o rei catholico, o viuvo de Isabel, pedindo-lhe que consentisse em desposal-a!

A grandeza da reparação só é comparavel á grandeza do desdem com que essa solicitação foi recebida, tanto mais que o espirito de D. Joanna não conseguiu nunca transigir com a alienação dos seus direitos, reaes ou suppostos, com a abdicação de todas as mundanidades ostentosas, de todas as honras e titulos com que julgava poder condecorar-se.

Ella considerava-serainha, ainda quando rejeitava a mão de um rei; ella continuava a assignar-se rainha, ainda quando se recusava a subscrever um contracto de casamento com o viuvo de Isabel a Catholica.

A sua nobre altivez levou-a por certo a recusar essa união, a preferir conservar-se solteira,rainha sem reino, e moça de trinta e tres annos apenas.

Vira desdenhosa afastar-se o vulto de mais esse noivo, como já tinha visto esfumarem-se no horizonte longinquo das suas recordações os vultos de tantos outros noivos,o infante D. Affonso, de Castella, o duque de Guiena, D. Fradique, de Napoles, D. Henrique, de Aragão, D. AffonsoV, de Portugal, o principe D. João, de Castella, o rei de Navarra, Francisco Phebo!..

Uma cohorte de noivos... platonicos, que nem sequer com o halito chegaram a macular a sua grinalda virginal de flores de laranjeira...

E a morte, respeitando-a a ella, a todos foi ceifando.


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