O sol do bello a todos alumia!Sua auréola cinge cada fronteBem como o rei do dia, mal desponte,Dá luz egual a todo o sêr creado!Este baptismo santo envolve e lavaTodos na mesma onda inspiradora!Queima com a mesma chamma abrasadora!Orvalha em egual pranto derramado!Juntas as almas, que o sentir enlaça,Commungam, como irmãs, na mesma taça!
Vê-os, agora, artista.—Elles estendem-teOs seus braços e o affecto é que os impele!Esse braço, que vezes mil repeleO laço, que em vão, tenta escravisal-o…A corrupção hypocrita de tantos…Que sabe resistir a quem o opprime…É esse que, n'um impeto sublime,Se ergue a ti, se ergue ao irmão para estreital-o.É que a alma, que não verga á tyrannia,Curva-se, livre, ao bello que a alumia!
Sim! aquelles que do alto de umvão throno—Mal firme throno que estremece ao vento—Pedem, como tributo de um momento,Respeito, amor, affecto á mocidade,(Mas pedem como quem ordena a escravos)Não são esses aqui os respeitados!Não são esses que são aqui amados!Não escuta voz de imperio a liberdade!Mas quem de amor nos labios traz doçuraEsse é que leva a flor de uma alma pura!
Pura e nobre! Embora, despeitados,Lhe chamem louco e frio a esse peito…Não se acreditam vozes de despeito.Frio! quem diz que é frio o peito moço?Que o sentimento é extincto n'estas almas?Dil-o avelhiceque não tem no seioNem uma voz de amor, nem um anceio,A dar ao bello, que arrebata o nosso:—Dil-o quem a deseja corrompida…Porém na mocidade habita a vida!
A vida! sim! Bem como em cofre de ouroSe guarda o que ha melhor, o que ha mais puro,Deu-lhe o Senhor a guarda do futuro,Confiou-lhe em deposito essas gemas—O amor, a fé, o bello, a liberdade!O amor! o que nos dá sentir profundo!A fé! a que nos mostra melhor mundo!A liberdade! a que espedaça algemas!O bello! a nossa flammula brilhante!E sobre tudo, a voz que brada—avante!
(DoSeculo XIX,de Penafiel, n.^o 20, 1864).
Flor dos povos! oh tu que inda te embalas,E inda em botão, aos ventos do futuro!Que tens por vazos e jardins e salasToda a vasta extensão do tempo escuro!E frontes gloriosas a adornal-as,A fronte da historia, o grande auguro!Lirio que saes do seio á humanidadeComo filha melhor—Fraternidade!
Deixa que escreva aqui teu nome todo,E já d'aqui aspire teu perfume!E, arredando co'as mãos o frio lodoDo presente, me aqueça a esse teu lume!Deixa beijar-te em sonho, e d'este modoTrazer-te unida ao seio, que consummeEsta ancia ardente de destino novo,E este fogo roubado ao seio do povo!
Porque te vemos só quando sonhamos…E, irmã! só nos sorris em nosso somno…E, a dormir, doce amiga, te beijamos!Tu—só em nossas almas—tens teu thronoAinda! mas, sem ver-te, te adoramos,E, como um cão fiel segue o seu dono,Trazemos ante o olhar tua lembrança,E caminhamos cheios de confiança!
Fraternidade! esta palavra é suave,Como antegosto de melhor destino!Como a onda de um Ganges que nos lave!E como a pósse de um penhor divino!Como o vôo sereno de uma aveQue, sendo apenas ponto pequenino,Emtanto faz, transpondo ao longe um monte,Sonhar com melhor céo e outro horisonte!
O grande céo! o céo da humanidade!Onde os povos serão constellações,E, destillando a luz da liberdade,Serão astros e estrellas as nações!Onde hade o grande laço da egualdadeReunir a vontade e os corações!Cobrindo-os, a dormir, os mesmos céos,Terão todos tambem o mesmo Deus.
Não vejo outro Evangelho de ouro escriptoDentro no homem,—nem sei que outro areal,Outro cabo, outro monte de granito,Do grande navegar surja a final!Guiados pelo instincto do infinitoÉ para lá que os povos—náo real!—Hão a prôa virar lá quando um diaMarearem pela bussula harmonia!
Hãode então, como irmãos, reconhecer-seOs amigos—ha tanto tempo ausentes!Hão então (caso novo e estranho!) ver-seFace a face as nações, sem que dementesAs entranhas se rasguem! e hade lêr-seUm protocolo, em letras de ouro, ingentes,Escripto, sem emenda e sem errata,Por mãos do amor—o grande diplomata!
Elle é quem concilia as differenças,Quem nos concilios hade erguer a voz,Tirando nova ideia e novas crençasDas esfriadas cinzas dos avós!E, sem trabalhos, e sem dôres immensas,E sem rios de sangue e pranto após,Rasgando o ventre á velha liberdadeSairá á luz a joven Egualdade!
É doce vêr assim, á luz da esperança,Pelo futuro dentro, as cousas bellas…Prevêr do céo humano essa mudança,Que em sóes converte as minimas estrellas!Do passado infeliz eis a vingança!E dosmortosas faces amarellas,Córando de ventura e de alegria,Hãode surgir, emfim, á luz do dia!
E nós tambem, tambem commungaremosNa grande communhão das novas gentes:Tambem os nossos braços ergueremos—Braços livres de jovens impacientes—E o cinto d'esteVelhoquebraremos,De aonde a espada e o sceptro estão pendentes,(Já tão gastos!) lançando-os á ribeira…Para o coroar de palmas e oliveira!
Hespanha—irmã! que boda alegre a nossa!Como hãode então teus seios palpitar!Que ribeira de lagrimas tão grossaTeu branco véo de noiva hade estancar!Como hade parecer pequena poçaPara osbanhos, então, o grande mar!E entornar-nos volupia nos desejosO mixto de odio antigo e novos beijos!
………………………………….
Mas tu 'stás presa!… e nós… 'stamos dementes!Separa-nos o abysmo! os teus algozes…Acruz de Ignacio… e as garras inclementesDosleõesorgulhosos e ferozes…E a estupidez dopovo dos valentes,D'estes pardaes de atroadoras vozes…Entre nós nos cavaram oceanos…Sejam-lhe ponte os corpos dos tyrannos!
Porque beijas teus ferros, pobre louca,E cuidas 'star beijando cousa santa?E, tendo em tuas mãos cousa tão pouca,Tão tenue como a capa de uma santa,Pensas avassalar a terra amouca,E te ergues com vaidade egloriatanta?Oh! tu, cuidando os orbes abraçar,Só ruinas abraças—Throno e Altar!
Lembre-te a voz do Cid! a atroadoraVoz que se ouvia ao longe nos combates!Porque tu estás feita psalmeadoraNo côro das egrejas—porque batesNo peito, em vez de erguer dominadoraA tua mão em meio de combates,E livre e bella, oh Hespanha, olhar os céosProcurando por lá teu novo Deus!
Como nos amaremos, doce amiga!Como então amaremos! que noivadoO nosso não será!… Não tem a espigaNo campo côr melhor, nem mais doiradoEsplendor, do que tu, bellainimiga.Hasde vêr a ventura… quando o estradoDo leito nupcial fôr Liberdade,E fôr docel o céo—Fraternidade.
Ainda uma outra vez, imagens fluctuantes,Vos ergueis ante mim, como outr'ora radiantesAnte mim, que vos fito em vago enleio incerto!Voaes… mas eu hesito em vos retêr agora…Assusta o meu olhar a luz da vossa aurora,E teme as illusões, meu coração desperto!
Que aérea multidão! que virginaes choreas!Meu velho coração, pois que inda te incendeiasNão é melhor ceder? sim, sim, rejuvenesce!D'entre as nevoas surgi, visões do tempo antigo!Sim, levae-me tambem no vosso bando amigo,Levae-me aonde ha luz e cantos, e alvorece!
Reconheço entre vós as sombras fugidíasDe outro tempo melhor, de mais alegres dias:Meu coração evoca imagens adoradas…Susurra em torno a mim voz de saudoso encanto:É o primeiro amor, que passa como um cantoDe antigas tradições vagamente escutadas…
E as lagrimas, tambem, correm silenciosas!O lamento dorido, as magoas saudosas,Renovam-se; desperta a dor que dormitava…Sim, a dor, ante mim, mostra-me os dias idos,E nomeia-me os bens, sob meus pés fundidos,Quando em minha illusão julguei que os abraçava!
Almas a quem cantei, não me ouvireis agora!O circulo fiel dos amigos d'outr'oraDesfez-se como a voz d'este canto primeiro!Rodeia-me hoje a turba: o seu applauso é triste:Quem folgou de escutar-me, em tempo, se inda existeDisperso erra no mundo, ah! n'um mundo estrangeiro…
Como a saudade então, uma longa saudade,D'esse reino encantado, onde ha paz e verdade,Me falla ao coração n'uma queixa sumida!Meu canto sobe e desce, incerto e fluctuante,Sobe e desce indeciso e com tom murmurante,Bem como uma harpa eólea aos ventos suspendida.
E tremo sem saber porquê, e lentamenteSinto o pranto nascer, correndo docemente,Ungindo o coração que embala e adormece…O que tenho, o que sou, mal o vejo a distancia…É a nuvem no mar, é um sonho de infancia…Só, á luz da saudade, o passado apparece!
Officios; orgão e canto.MARGARIDAno meio da multidão. OESPIRITO RUIMpor detrás d'ella.
Como foste, como eu te conheci,E como estás mudada, Margarida!Que pensamento é que te traz aqui?Ainda adormecida,Tua alma ha pouco, lembras-te? buscava,Esta sombra do altar—mas não chorava,Não, não chorava as lagrimas que choras!Rezar era então brinco de criança,Para ti, innocente…Lias nas tuas HorasAs tuas orações—e docementeSorria a Deus tua infantil confiança…Margarida!Quantas ruinas em tão curta vida!Que pensamento occulto te tortura?E, no teu coração,Que peccado te roe essa alma impura?Não rezes: Deus não te ouve a oração!Rezas por tua mãe? por ti foi morta,Sim, morta lentamente, a infeliz!Olha o sangue espalhado á tua porta…De quem é elle, diz?E escuta! n'esse seio criminosoO que é que já se move?Sim, o que é que se agita, e te commoveCom um presentimento doloroso?
Ai de mim! ai de mim! quem podesse livrar-meD'esta turba cruel de negros pensamentos!Vejo-os de toda a parte e a todos os momentos,Erguer-se em volta a mim, correndo a torturar-me!
Dies irae, dies illaSolvet saeclum in favilla.
Cae sobre ti a colera do céo!Sôa a trombeta! as campas se quebrantam!A terra estremeceu,Os mortos se levantam.Tambem teu miseravel coração,Que dormia desfeito,Já renasce das cinzas, já o chamamPara os fogos eternos que se inflammam…Teu pobre coraçãoEstala-te tambem dentro do peito!
Oh! quem me dera ao menos d'aqui fóra!Esta musica faz-me uma afflicção!Este orgão parece alguem que chora…Parte-me o coração!
Judex ergo cum sedebit,Quidquid latet apparebit,Nil inultum remanebit.
Que oppressão! que quebranto!A abobada estremece!Estas pedras, pareceQue querem desabar!Soffocam-me de espantoEstes tectos escuros!Affrontam-me estes muros!Mais ar! mais ar!
Esconde-te infeliz! e onde irá occultarSeu peccado e vergonha essa alma deshonrada?Mais ar? pedes mais ar?Ai de ti desgraçada!
Quid sum miser, tunc dicturus,Quem patronum rogaturusCum vix justus sit securus?
Os justos no céo de horror e desgosto…De ti, de te vêr, desviam o rosto…Estende o inferno as mãos para aqui…Ai, de ti!
Quid sum miser, tunc dicturus.
Visinha, dê-me os seus saes.(Cae desmaiada)
Era uma vez um bom reiEm Thule—essa ilha distante,Ao morrer, deixou-lhe a amanteUm copo de ouro de lei.
Era um copo de oiro finoTodo lavrado a primor;Se fosse o calix divinoNão lhe tinha mais amor.
Seus tristes olhos leaesNão tinham outra alegria:E só por elle bebia,Nos seus banquetes reaes.
Chegada a hora da mortePoz-se o rei a meditarGrandezas da sua sorteSeus reinos á beira-mar.
Deixava um rico thesouro,Palacios, villas, cidades:De nada tinha saudades,A não ser do copo de ouro.
No castello da deveza,N'aquellas salas sem fim,Mandou armar uma mezaPara um ultimo festim.
Convidou sem mais tardarOs seus fieis cavalleiros,Para os brindes derradeirosNo castello á beira-mar.
Então, vasando-o de um trago,E com entranhada magoa,Poz nas ondas o olhar vagoE atirou com a taça á agua.
Viu-a boiar suspendida,'Té que as ondas a levaram:Os olhos se lhe toldaram,E não bebeu mais em vida!
1870-71.
O que é a Dôr? Um mar. E a alegria?Pérola occulta n'esse mar fremente.Quantas vezes a pérola encantada,Entre as rochas profundas sepultada,Se dissolve esquecida, lentamente,E nunca chega a vêr a luz do dia?
1881.
(No Album da filha de João de Deus)
O coração tem dois quartos:Moram ali, sem se vêr,N'um a Dôr, n'outro o Prazer.
Quando o Prazer no seu quartoAcorda cheio de ardor,No seu, adormece a Dôr…
Cuidado, Prazer! Cautella,Canta e ri mais devagar…Não vá a Dôr acordar…
Rebentam flores mil das minhas lagrimas,E só serpentes nascem dos meus cantos;É que os meus cantos são envenenados,E só puros, só doces os meus prantos.
* * * * *
Se queres conhecer o homem e o mundo,Não desvies de ti o olhar profundo;Mas foge de te ouvir e de te vêr,Se a ti mesmo te queres conhecer.
1887.
No figueiral figueiredo,Lá no figueiral entrei.Seis donzellas encontrára,Seis donzellas encontrei;Para ellas caminhára,Para ellas caminhei;Chorando a todas achára,A todas chorando achei;Logo ali lhes perguntára,Logo ali lhes perguntei,Quem foi que ousou maltratal-as,Tratal-as de tão má lei?
No figueiral figueiredo,Lá no figueiral entrei.Uma d'ellas respondera:—Cavalleiro, não o sei…Mal haja, mal haja a terraQue tem máo e fraco rei,Que se eu as armas vestira,Por minha fé, que não seiSe homem ousára levar-me,Levar-me de tão má lei…Com Deus ide cavalleiro,Ide com Deus, que não seiSe onde me fallaes agoraNunca mais vos fallarei.
No figueiral figueiredo,Lá no figueiral entrei.Eu então lhe replicára:—Por minha fé, não irei;Antes olhos d'essa caraBem caros os comprarei;A longas terras distantesSó por seguir-vos me irei;Por caminhos dasvairadosAtraz de vós andarei;Linguas moiras de araviasPor vós eu as fallarei;Moiros se me appareceremA todos os matarei.
No figueiral figueiredo,Lá no figueiral entrei.N'isto o moiro que as guardára,Perto d'ali encontrei:Se elle bem me ameaçára,Eu melhor o ameacei;Um tronco secco esgalhára,Um tronco secco esgalhei;Com elle a todos matára,A todos desbaratei;As donzellas libertára,Todas sim as libertei;Aquella que me falláraCom ella me casarei.No figueiral figueiredo,Lá no figueiral entrei.
Incorporamos aqui os Sonetos IV, X, XVI, XVII e XX, da collecção deCoimbra, de 1861, não incluidos no volume dosSonetos completos.
Terra do exilio! Aqui tambem as floresTêm perfume e matiz; tambem vicejamRosas no prado, e pelo prado adejamZéfiros brandos suspirando amores:
Tambem cá tem a terra seus primores;Pelos vales as fontes rumorejam;Tem as moitas seus sôpros, que bafejam,E o céo tem sua luz e seus ardores.
Em toda a natureza ha amor e cantos,Em toda a natureza Deus se encerra…E comtudo esta é a causa de meus prantos!
Eu sou bem como a flor que não descerraEm clima alheio. Que importam teus encantos?Não és, terra do exilio, a minha terra.
Renasço, amigos, vivo! Ha pouco aindaDisse ao viver: «Afunda-te no nada!»E já, bem vêdes, surjo á luz dourada,—No labio o rir, no peito esp'rança infinda!
Ah, flor da vida! flor viçosa e linda!Envolto na mortalha regeladaDosópensar—perdão!—foste olvidada…Flor do sentir e crêr e amar… bem vinda!
A vida! como a sinto, ardente, immensa!Não unica! tomando a immensidade!Livre! perante Deus surgindo forte!
Que amor! que luz! que pira vasta, intensa!Plenitude! harmonia! realidade!Mas melhor que tudo isto é sempre a morte!
Fica-te em paz! não pode a mão do homemPartir o seio á arvéloa queixosa,Quando o canto soltar, e a voz chorosaErguer lá contra as magoas que a consommem.
Respeito o teu sacrario: embora tomemPor orgulho o respeito; eu colho a rosaMas não a flor modesta e melindrosa,Que se occulta entre as mais… e que as mais somem.
Mais que amor tenho crença: essa existenciaPede-me um culto por quem dera a vida,Por que dou esta dôr, que aqui se encerra.
Mulher! mulher! de que valera a essencia,A essencia pura, a uma alma que é descrida?Fica-te em paz: fique eu com minha guerra!
Corre aos braços da mãe o filho amado;—Por olvidar, volvendo a sua historia—Corre á mente do inf'liz doce memoria;Corre á luz de um olhar o olhar buscado;
Vem o alivio animar peito magoado;Corre o forte a buscar na morte a gloria;Desfeita do viver sombra illusoria,Foge o espirito livre ao seu anciado.
Tudo busca quem o ama: a luz douradaBusca do seu viver, como no escuroQuem avista uma luz lhe vae ao encontro.
Só tu, ventura! uma vez sonhada;Só tu, sombra deamor! que em vão procuro,Só tu, foges de mim, só não te encontro!
Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquelleQue tanta vez peccou, porém, contritoTanta vez tem erguido a ti o gritoDa aguia que o tufão no alto compelle.
E a aguia soffre tambem, como ave imbele,E mais que ella (que põe mais alto o fito)Mas da aguia que luctou, o brado afflicto,Senhor! o teu ouvido não repelle.
Eu não caio, meu Deus, sem ter luctado;Fraco sou, por que sou de barro e limo,Porém, na tuaLeimedito e scismo.
E eu sou teu filho! A um filho desgraçadoQue hade um pae recusar? Oh, dá-me arrimo,Estende-me tua mão por sobre o abysmo.
Et terra erat inanis et vacua.
Tinham os astros já mil annos,—tinhamTalvez cem mil—ou tinham um minuto—(Pois quem sabe contar horas ou seculosNo relogio—que tem o firmamentoPor quadrante,—e algarismos, sóes e estrellas?)
'Stavam ha muito ali.O velho Cahos,O oleiro do infinito, que entre as duasMãos—o tempo e o espaço—os amassára,Cansou por fim tambem de fazer mundos,Não tendo já mais barro, nem mais raiosCom que o barro pintar.
Ora, limpandoAs mãos, que estavam sujas do trabalho,E esfregando uma palma contra a outra,Soprou depois os restos, sem vêr onde,Por esse abysmo além.
Oh pó de mundos!Migalha dos banquetes do Principio!Triste parto das sombras, atiradoSobre o berço de luz do firmamento!Morcêgo horrivel, meio tonto e cego,Cahido no salão de lustres de astros!
O pó soprado, informe bola escura,Como filho engeitado, que se escondePela sombra dos muros, foi rolandoPelos cantos do espaço, involto em trevas…Que o não vissem os sóes.
* * * * *
E foi descendo,Extranho, negro, horrivel, monstruoso.E, quanto era maior a treva, aindaMais o medo crescia que o olhassem…E mais o horror de si o endoudecia…E mais girava, immenso já de inchadoDe terror e delirio!
Os grandes astrosComo um viveiro immenso de fulgoresAtiravam, de sol em sol, as notasDo eterno concerto…
* * * * *
E foi rolando,Vertiginoso e bebado de horrores!
O feio, ebrio da mesma fealdade!O mal, possesso do seu mal! As trevasCheias de medo de se vêr tão negras!
E o firmamento arfava n'um delirioDe harmonia e ventura! O espaço ardenteSuava luz—girando no infinito—Pelos póros do céo… que são estrellas.
* * * * *
Oh! como a ave da noite eterna, ao vêr-seDentro do dia eterno… endoidecia!Como rolava tonta a um lado e ao outroBatendo as duas azas—Sombra e Espanto,—Por todo esse infinito já não viaUm só buraco que a escondesse!
* * * * *
O Abysmo—Escravo, mas heroe—chorava mudo…E engulia os soluços.Despojado,Que lhe havia elle dar?
Os outros riam.
* * * * *
Oh! a belleza é cruel! A altura é fria!E impiedosa e feroz! A ave aéreaNão tem dó do insecto! A virgem brancaPisa o negro reptil! o louro infanteCrucifica o morcêgo! Os astros de ouroViram a Terra assim… e não choraram!
* * * * *
Um riso louco, então, feito de raiosInfinitos de luz, encheu o espaço!O giro das espheras cambaleavaE estorcia-se, doido, em grandes frouxosDe hilaridade e brilho! E o écco eternoQue em vez de voz, repete os esplendores,Confuso co'as mil ondas tumultuosasParecia tempestade de harmonia.
Todo o céo se inclinava, incendiadoN'uma aurora boreal prodigiosa,Vendo o truão horrivel do infinito!
* * * * *
Foi então que o Abysmo, o triste escravoDos senhores da luz—partido, oppressoCo'a immensa dôr d'aquelle rir,—não pôdeSuster-se mais.
Ouviu-se desde baixoVir subindo um suspiro—e quantos éccosDa antiga confusão ha 'hi no espaço:E todas as tristezas que ficaramDos combates de outr'ora: e os soffrimentosDe quantas luctas houve, antes do tempo:E essas mil dôres, e essas mil torturas,Que custou cada sol: todo esse infernoDe negrumes, que o céo lançou, despindo-os,Quando quiz ser só luz… de ais e gemidosQuando quiz ser só canto… a parte infameQue na injusta partilha coube ao Abysmo…Tudo isto, no suspiro do captivo,—Triste, mas grave; queixa, mas não súpplica…Antes accusação,—na voz debaixoTudo isto ali subiu!
* * * * *
Os grandes astrosEnfiaram de pasmo e emudeceram!E, se em seios de luz ha 'hi remorsos,Sentiram-no n'essa hora…
* * * * *
Então abriram-seAs portas do silencio—e, como um sôproQue agitasse as espheras, voz sem timbre(Se ha ouvir…) se ouviu: «Quem faz chorar o Abysmo?»
* * * * *
Oh! o grande bem e a grande formosura,Que tendo a estrella e o céo, inclina a facePara a grande abjecção! A Aurora immensa,Que quer saber quem escurece a Treva!A ventura sem fim, que se conturbaPorque a desgraça soffre!
O Abysmo horrivelSentiu que seus mil males vacillavam,Sobre a base da eterna injúria, e se íamCo' esse sôpro de amor.—E estranho, e pávido,Duvidou se soffria e teve, em sonho,Como visões do céo d'onde o lançaram…E quasi perdoou…
'Stava adorando!
* * * * *
Oh, gotta de piedade, que adoçasteAquelle oceano de injustiça! Oh, lagrimaTeda feita de bem!… Bebeu-te o Abysmo!
* * * * *
E a Terra informe viu.
Como o silencioDe algum poço—que o fundo das montanhasGuarda velado pela treva—podeOuvir, cheio de horror, o écco primeiroDe uma pedra descendo: como o centroDa mina pode vêr o alvião primeiroQue a abre de par em par,—assim a TerraViu a coisa sem nome que desciaPelo infinito abaixo.
* * * * *
Olhou transida.Era uma Mão—que parecia treva,Tanto brilhava! E vinha-se alongandoCom cinco dedos—cinco continentesDe luz—fixa, sem côr, indefinivel,Leviathan de brilho, pelo etherDescia—e as ondas de harmonia erguiam-seComo em tormenta de espleddor—horrivel…Tanto era bello!
Ao longe, ao longe, ao longe,'Té aonde a visão abre os espaços,A orla do infinito radiava.
* * * * *
E cada sol, e cada estrella, vendoAquella Mão descer, dizia—CertoQue me vem afagar!—E estremecia.
E a Mão passou em face das estrellas…Mas não as viu.—Passou o grande côroDos sóes… e não os viu.—A via-lactea…E não a viu.—E foi seguindo ávante.
* * * * *
Lá onde o escuro é tanto que suffocaO tempo, no nevoeiro esquecimento,Onde em vaga fronteira se confundemO sêr e o não sêr—lá para o extremo,É onde a Mão já ía…
* * * * *
E os grandes astros,De sol em sol, de um horisonte ao outro,Inquietos, através do ether immenso,Lançavam vozes de ouro, perguntando«Onde vae o Senhor?»
* * * * *
E a Mão descia.
Já não havia mais. Tinha chegadoPor defronte da Terra. E n'essa horaDois infinitos—um de horror, e o outroInfinito esplendor, se contemplaram.
* * * * *
E os astros de ouro pelo céo disseram: «Eis que Deus vae brincar tambem co'a Terra!» E a Mão estava.
E a Terra negra olhava-a,Como um selvagem um espelho; o sustoCo'o prazer inefavel combatiam-seLá dentro… e a massa informe estremecia.
Convulsa se agitava. FascinadaParecia recuar… e approximava-se!E, n'um ultimo esfôrço, dando um saltoEnorme, por fugir—cahiu no centroD'aquella Mão.
* * * * *
E os astros murmuravamAos sóes: «Certo que Deus a precipita!»
* * * * *
Mas a Mão não se abriu para lançal-a.Os grandes dedos sobre a massa horrivelSe fecharam. Pareciam, sobre o corpoTenebroso, que tinham apertado,Cinco chagas de luz.
E consultaram.
* * * * *
Os cinco dedos entre si disseram: «Que havemos nós fazer a isto?» E todos Immoveis ali estavam.
E entre os dedosD'onde—bem como um sapo entre os dois seiosDe uma virgem—a Terra olhava o espaço,Pareceram-lhe ao longe os grandes astrosComo pontinhos negros.
Um segundoRoubado á eternidade é quanto basta,Quer se seja morrão, quer seja estrella.
* * * * *
Então a grande Mão abriu-se e disseÁ Terra:Vae!—E como aguia sublimeDesde os Alpes se atira, a Terra ergueu-se,Levando um vôo immenso entre as estrellas!
* * * * *
Viam-se-lhe luzir no dorso negroCinco traços de luz! Leito de brilhoAonde os cinco dedos se poisaram!E lepra de esplendor!
* * * * *
Rolou no espaço.
E os astros entre si se consultaram: «Dar-lhe-hemos nós logar?»
E o Sol altivoFallou e disse:—Eu vejo-lhe no dorsoUma mancha de luz—aNatureza!
E a Lyra disse:—Eu vejo-lhe outra fórmaResplendente—éIdéa!
E Vesper disse:—Eu vejo-lhe um signal de affago—éAlma!
E Venus disse:—Eu vejo reluzir-lheUma cicatriz de luz—éAmor!
E disse,Então, o Sete-estrello:—Eu adoro-lheComo o sitio de um beijo do Eterno…—ÉImmortalidade!
* * * * *
E o côro immensoAbriu-se e deu logar á Terra escura,De cuja face cinco grandes f'ridasGottejavam a luz—aNatureza,Que tem de Deus a força; aIdéa, filhaDa immensidade d'elle; aAlma, eternaComo seu sêr; oAmor, que é olhar d'elle;E aImmortalidadeluminosa,Que é o berço onde n'elle repousámos.
* * * * *
…………………………………. …………………………………. …………………………………. E, agora, oh Terra! que és, entre mil rodas, Uma roda do carro—vae rolando E desprende, ao rodar por sobre o tempo, Tuas cinco faíscas prodigiosas, Pela estrada do Sêr—a Eternidade!
Bussaco, Outubro de 1863.
Quando Cristo sentì che la sua oraGiunta era alfine, a quei che lo cercavanoGrave, calmo, sereno appresentossi.Venia la turba in arme! Ma di tantiNon un sol si attentó muovere il passoE por la mano in su il figliuol dell'uomo.Tutti con bassi gli occhi, a Gesú innanziInerme, nascondean l'armi. Ma quegli,Che il doveva tradir, fattosi presso,Lo strinse fra le braccia mormorandoDio ti salvi Maestro! E, siccome eraPattuito, baciollo in sulla faccia.Cosí gli altri avanzandosi, lo presero.Ma Gesú, gli occhi al ciel, senza vederliLi perdonava e li seguia sereno.Era scabro il cammino. In cima a un monteSaliano; e da' due fianchi e giuso al basso,Su la terra era notte. E, quando al fineAggiunser la più eccelsa erta del colle,Di repente fu visto illuminarsiUno de' lati d'una blanda e dolceLuce; ma immensa. E quanta terra in quellaDal monte all' oceàn capia, su cui,Dall'alto riflettendosi, la vivaFace splendea, si rischiarava tuttaDa valle a monte, e risalia la biancaLuce a mezzo l'azzurro arco del cielo.E puro somigliava albor lunareO da quel lato rinascente aurora.Ed era questo il lume che su GiudaNon risplendea,
Dall' altra parte intantoEra tenebra fonda e parea comeDi quei triste il delitto ella ascondesseTutt' all' ingiro, in procellosa notteBiancicante di neve all' orizzonte.Cosí, divisa in due parti la terra,Involta questa rimanea nell' ombra.
………………………………….
Fu da quest' ombra che la chiesa nacque.
Domenico Milelli,Rottami, p. 39. 1890.
Dedicatoria
Explicação préviaEscorso biographico de Anthero de QuentalAutobiographia de AntheroBibliographia
I—Palavras aladasII—Laço de amorIII—Força—AmorIV—Paz em DeusV—N'uma noite de primaveraVI—PsalmoVII—Á beira-marVIII—AspiraçãoIX—A Pyramide no desertoX—Desalento—ConfortoXI—A senda do CalvarioXII—A João de DeusXIII—Per amica silentia lunaeXIV—Na primeira pagina do Inferno de DanteXV—Dante—Divina ComediaXVI—Momentos de Tedio (Sonetos)I. Sinite parvulosII. A um CrucifixoIII. DecomposiçãoIV. NihilV. Quinze annosVI. SarcasmosXVII—Amor de filhaXVIII—GargalhadasXIX—Á ItaliaXX—A Gennaro PerrelliXXI—Guitarrilha de SatanXXII—SerenataXXIII—O Possesso (Sonetos)XXIV—Epigramma transcendentalXXV—Na Sepultura de ZaraVersão do Dr. StorckXXVI—Glosa camonianaXXVII—As FadasXXVIII—O sol do BelloXXIX—IberiaXXX—Versões e imitaçõesExcerptos de uma traducção doFausto:I. DedicatoriaII. Na CathedralIII. A canção do Rei de ThuleA Dôr, imitação de PetöfiA casa do Coração (do allemão)Estancias (do allemão)Romance de Goesto Ansures (ao moderno)XXXI—Sonetos desprezadosXXXII—Fiat lux! (Poemeto)XXXIII—Ombra, versão italiana de Domenico Milelli
Acabado de imprimirEM 10 DE JUNHO DE 1892commemorando o 312.^o annoDA MORTE DE CAMÕES
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End of Project Gutenberg's Raios de extincta luz, by Antero de Quental