Paginas criticas e commemorativas
DISCURSO LIDO NO PASSEIO PUBLICO, AO INAUGURAR-SE O BUSTO DE GONÇALVES DIAS
Sr. Prefeito do Districto Federal,
A commissão que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me, como presidente da Academia Brazileira, de o entregar a V Ex., como representante da cidade. O encargo é não sómente honroso, mas particularmente agradavel á Academia e a mim.
Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funeraes de George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir á beira da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. «Ah! eis o verdadeiro discurso!» disseram ellescomsigo. O mesmo seria aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor discurso da occasião. Ella repetiria á alma de todos aquella canção do exilio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-patria uma licção nova da lingua de Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os outros cantos que elle veiu espalhando pela vida e pelo mundo, e o som dos golpes de Itajuba, a piedade de Y-Juca-Pyrama, os suspiros de Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais jovens, e daqui em deante ouvirão outros e outros, emquanto a lingua que falamos fôr a lingua dos nossos destinos.
Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins publicos. Talvez este busto emende o costume; mas, suppondo que não, nem por isso perderão os que só vierem contemplar aquella fronte que meditou paginas tão magnificas. A solidão e o silencio são azas robustas para os surtos do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua, achará o que se encontra nas capellas solitarias, uma voz interior, e dirá pelo rosario da memoria as preces em verso que elle compoz e ensinou aos seus compatricios.
E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra. Nem V. Ex., nem os seus successores consentirão que se destrua este abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte. Se alguem propuzer arrazar um e mudar outro, para trazer utilidade ao terreno, por meio de uma avenida ou cousa equivalente, o Prefeito recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regimen só, universal, commum e perpetuo. Tambem póde declarar que a veneraçãodos seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os Prefeitos de todos os partidos, sem aggravo do seu proprio, porque o poeta que ora celebramos, fiel á vocação, não teve outro partido que o de cantar maravilhosamente.
Demais, se o caso fôr de utilidade, V. Ex. e os seus successores acharão aqui o mais util remedio ás agruras administrativas. Este busto consolará do trabalho acerbo e ingrato; elle dirá que ha tambem uma prefeitura do espirito, cujo exercicio não pede mais que o mudo bronze e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silencio. E repetirá a todos o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem contemplal-o. Tambem aqui vinha, ha muitos annos, desenfadar-se da vespera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor deIracema. Se já estivesse aqui este busto, elle se consolaria da vida com a memoria, e do tempo com a perennidade. Mas então só existiam as arvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, não povoára ainda as nossas praças com outras obras de artista illustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscripção de senhoras a que se deve esta obra, não afinára ainda pela lyra de Gonçalves Dias a sua lyra deliciosa.
Aqui fica entregue o monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde elle deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a patria inteira no mesmo ponto em que a historia, melhor que leis, poz a cabeça da nação, perto daquelle gigante de pedra que o grande poeta cantou em versos masculos.
Aqui está um livro que ha de ser relido com apreço, com interesse, não raro com admiração. O autor que occupa logar eminente na critica brasileira, tambem enveredou um dia pela novella, como Sainte-Beuve, que escreveuVolupté, antes de attingir o summo gráo na critica franceza. Tambem ha aqui um narrador e um observador, e ha mais aquillo que não acharemos emVolupté, um paizagista e um miniaturista. Já era tempo de dar ásScenas da vida amazonicaoutra e melhor edição. Eu, que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outr'ora. Os que as lerem, pela primeira vez, dirão se o meu falar desmente as suas proprias impressões.
Talvez achem commigo que o titulo é exacto, sem dizer tudo. São effectivamente scenas daquella vida e daquelle meio; sente-se que não podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas directamente. Mas não diz tudo o titulo. Tres, ao menos, das quatro novellas em que se divide o livro, são pequenos dramas completos. Taes oBôto, oCrime do Tapuioe aSorte de Vicentina. O proprioVoluntario da patriatem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quietação na palhoça até aquelle adeus que ella fica acenando na margem, não já ao filho, que a não póde ver, nem ella a elle, mas ao fumo do vapor que se perde ao longe no rio, como uma sombra.
Em todos elles, os costumes locaes e a natureza grande e rica, quando não é só aspera e dura, servemde quadro a sentimentos ingenuos, simples e alguma vez fortes. O Sr. José Verissimo possue o dom da sympathia e da piedade. As suas principaes figuras são as victimas de um meio rude, como Benedicta, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquelle José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o unico fim de salvar uma menina, ou de «fazê bem p'ra ella», como diz o texto. Não se irritem os amigos da lingua culta com a prosodia e a syntaxe de José Tapuio. Ha dessas phrases no livro, postas com arte e cabimento, a espaços, onde é preciso caracterisar melhor as pessoas. Ha locuções da terra. Ha a technologia dos usos e costumes. Ninguem esquece que está deante da vida amazonica, não toda, mas aquella que o Sr. José Verissimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do contraste entre o meio e o homem.
O contraste é grande. A floresta e a agua envolvem e acabrunham a alma. A magnificencia d'aquellas regiões chega a ser excessiva. Tudo é innumeravel e immensuravel. São milhões, milhares e centenas os seres que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a agua e a terra, ou bramam e cantam na matta, em meio de um concerto de rumores, coleras, delicias e mysterios. O Sr. José Verissimo dá-nos a sensação daquella realidade. A descripção do caminho que leva ao povoado do Ereré, atravez do «coberto», do «lavrado» e de um espaço sem nome, é das mais bellas e acabadas do livro. Assim tambem a do Parú, ou antes a historia do rio nas duas partes do anno, de verão e de inverno, um só lago intermino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desapparecem, com os aspectos varios do tempo e da margem.
Não são descripções trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas vão para alli continuar a acçãocomeçada. No Parú, como o tempo é de «salga», a agua é sulcada de canôas, a margem alastrada de barracas, o sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. Ahi assistimos á morte tragica do pelintra de Obidos, regatão de alguns dias, deixando uma triste moça defunta, amarella e magra. Adeante, por meio do «coberto» e do «lavrado», vemos correr Vicentina, com a filha de alguns mezes «escarranchada nos quadris», fugindo á casa do marido, depois ás onças, depois á solidão, que parece maior alli que em nenhuma parte; e ambas as scenas são das mais vivas do livro.
Ao pé do tragico, o mesquinho, o commum, o quotidiano da existencia e dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos quadros succedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade de Obidos, á hora da sésta, ou no fim d'ella, quando «a natureza estira os braços n'um bocejo preguiçoso de quem deixa a rêde». A rêde é o movel principal das casas; ella serve ao somno, ao descanço, á palestra, á indolencia. Se a casa é pobre, pouco mais ha que ella; mas, pouco ou muito, podemos fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de costumes ou possa avivar a côr da realidade. Vimos o regatão; veremos a benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado, do promotor, do presidente de provincia.
Nem falta aqui a observação fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia Zeferina, que a criou, recorre chorando para que faça soltar o filho, preso para voluntario (como diziam aqui no sul), ouve a mãe tapuia, tem sincera pena della, promette que sim, fala do presidente da provincia, que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palacio, a que ella foi:«uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de verde e amarello; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas foi tolice, porque em Manáos arranjava-se um vestido tão bem como no Pará; o della, por exemplo, foi muito gabado...» Já a tia Zeferina ouvira cousa analoga ao major Rabello, seu compadre, quando lhe foi contar a prisão do filho, e elle rompeu furioso contra os adversarios politicos. Todos os negocios pessoaes se vão coçando assim naquella agonia errante. NoBôto, é o proprio pae de Rosinha, que não excava muito as razões do abatimento mortal da filha, «por andar atarefado com as eleições».
Que elle tambem ha eleições no Amazonas; é o tempo da salga politica, a quadra das barracas e dos regatões. Não nos dá um capitulo desses o Sr. José Verissimo, naturalmente por lhe não ser necessario, mas a rivalidade da villa e do porto de Monte Alegre é um quadro vivo do que são raivas locaes, os motivos que as accendem, a guerra que fazem e os odios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará no porto, em baixo, ou na villa em cima. E porque não ha victoria sem foguetes, os foguetes vão contar ás nuvens o despacho presidencial. A sessão do jury, noCrime do Tapuio, é outro quadro finamente acabado. Tudo sem sombra de caricatura. O embarque dos voluntarios é outro, mas ahi a emoção discreta acompanha os movimentos mal ordenados dos homens. Nós os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tropegos e obedientes, marchando mal, mas emfim marchando seguros para a guerra que já lá vae.
Em tão varias scenas e lances, o estylo do Sr. José Verissimo (salvo nosEsbocetos, cuja estructura é differente)é já o estylo correntio e vernaculo dos seus escriptos posteriores. Já então vemos o homem feito de mão assentada, dominando a materia. Ha, a mais uma nota de poesia, a graça e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos nem sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sitio em que Rosinha nasceu: «A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto alvar das creanças que trazem os cabellos cahidos na testa.» No tempo da pesca emigram, não só os homens, mas tambem os cães e os urubús. Os cães são magros e famintos: «Cães magros, com as costellas salientes, como se houvessem engolido arcos de barris...» Os urubús pousam nas arvores, alguma vez baixam ao solo, andando «com o seu passo rythmado de anjos de procissão». A umas arvores que ha na grande charneca do «coberto», bastava mostral-as por uma imagem curta e viva, «em posições retorcidas de entrevados». Mas não se contenta o nosso autor de as dizer assim: em terra tal, tudo ha de vibrar ao calor do sol: «Dir-se-hia que o sol, que abraza aquellas paragens, obriga-as a taes contorções violentas e paralysa-as depois...»
Ha muitas dessas imagens originaes e expressivas; melhor é lel-as ou relel-as intercaladas na narração e na descripção. Chateaubriand, escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a proposito deVolupté, que acabava de sahir do prélo, pergunta-lhe admirado como é que elle, René, não achára tantas outras. «Comment n'ai-je pas trouvéces deux vieillards et ces deux enfants entre lesquels une révolution a passé...» etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é de Chateaubriand, e alguma cousa se ha de perdoar ao genio. Mas, em verdade, mais de um de nós outros poderiamos dizer com sinceridade e modestia como éque nos não acudiram taes e taes imagens do nosso autor, pois que ellas trazem a feição de cousas antes saidas do tinteiro que compostas no papel.
Tambem é dado perguntar porque é que o Sr. José Verissimo deixou logo um terreno que soube arrotear com fructo. Elle dirá, em uma nota, falando dosEsbocetos, que o fructo era da primeira mocidade. Vá que sim; mas asScenastrazem outra experiencia, e a boa terra não é esquecida, se se lhe encommenda alguma cousa com amor.
Até lá, fiquem-nos estasScenas da vida amazonica. Mais tarde, algum critico da escola do autor compulsará as suas paginas para restituir costumes extinctos. Muito estará mudado. Onde José Tapuio lutou com a sicurijú até matal-a, outro homem estudará alguma nova força da natureza até reduzil-a ao domestico. Coberto e lavrado darão melhor caminho ás pessoas. Já agora, como disse nhâ Miloca á mãe tapuia, os vestidos fazem-se tão bons em Manáos como em Belém. A politica irá pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhará todas as artes, suas hospedas. Tal critico, se tiver o mesmo dom de analyse do Sr. José Verissimo, achará que um testemunho esclarecido é mais cabal que outro, e regalará os seus leitores dando-lhe este depoimento feito com emoção, com exacção e com estylo.
A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da morte em si.Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto, porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas, é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o.
Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e social.
Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria para ella qualidades de primeira ordem, não contando ohumour, tão diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a historia, não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas as cousas que sabia.
Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um grandetalento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo, observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles, sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas, através de regiões remotas...
Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria. Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal e Byron, passeando no solitariofoyerdo theatro Scala. Quando Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo. Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse o talento, o amor dascousas finas e bellas, e, emfim, a grande sympathia que um inspirava ao outro.
Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen, e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra. Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza; bastaria dizer—indifferente.
Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio José não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não cogitou jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière caminhou doMedico Volantee dosZelos de BarbouilléáEscola das Mulherese aoTartufo; Antonio José não passou dasGuerras do Alecrim e Mangerona, e, dado que tentasse fazel-o, é certo que não poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado, nem largas vistas; faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente, levantando sobre os alicerces lançados por esse operariodo seculo XVI as paredes de um theatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguem, não se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a condição das obras vivas.
Interpretada desse modo, é exacta e verdadeira a resposta que Magalhães põe na boca do judeu; mas só desse modo. OAmphytriãoprova que o nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Molière, a tal ponto que forçosamente o tinha deante de si, ou na banca de trabalho ou na memoria; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido que interessará, quando menos, a titulo de curiosidade litteraria. Ao mesmo tempo, direi o que me parece do escriptor e da sua obra.
E, antes de mais nada, occorre ponderar que Antonio José gosa de uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739 illuminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos; a tragedia do Sr. Magalhães vulgarisou-o entre as nossas platéas de ha 40 annos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque a tarefa exige constancia e esforço, embora de certo modo os pague. Póde-se dizer, sem erro, que elle pertence á familia dos poetas comicos, qualquer que seja o grau de parentesco,—com a circumstancia que era um desperdiçado,—trocava a boa moeda do comico pelo cobre vulgar do burlesco. Mas, poeta comico era-o, e de boa veia;—mais de certo que Nicolau Luiz, que lhe succedeu na estima das platéas de Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções literarias abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia de si mesmo que—«havendo-se enganado comsigo em infinitas cousas, nunca se preoccupou de que tinha graça.» Accresceque o fim tragico do judeu communica ás suas paginas alegres e juvenis um reflexo de sympathica melancolia, que ainda mais nos convida a percorrel-as e estudal-as. A piedade não é de certo razão determinativa em pontos de critica, e tal poetastro haverá que, succumbindo a uma grande injustiça social, somente inspire compaixão sem desafiar a analyse. Não é o caso de Antonio José; este mereceria por si só que o estudassemos, ainda despido das occorrencias tragicas que lhe circumdam o nome.
Nenhuma das comedias do judeu se póde dizer excellente e perfeita; ha porém graus entre ellas, e a todas sobreleva a dasGuerras do Alecrim e Mangerona. Nesta, como nas demais, nota-se de certo muita espontaneidade, viveza de dialogo, graça de estylo, variedade de situações, e certo conhecimento de scena; mas a alma de todas ellas não é grande; vive-se alli de enredo e de apparato. Se ao poeta foi estranha a invenção dos caracteres e a pintura dos vicios, não menos o foi a transcripção dos costumes locaes. Salvo oAlecrim e Mangerona, todas as suas peças são inteiramente alheias á sociedade e ao tempo; aEsopaidatem por base um assumpto antigo; aVida de D. Quixotepõe em scena o personagem de Cervantes; as outras peças são todas mythologicas. Podiam estas, não obstante o rotulo, conter a pintura dos costumes e da sociedade cujo producto eram; mas, comquanto em taes composições influa muito o moderno, não se descobre nellas nenhuma intenção daquella natureza.
Ao contrario, a intenção quasi exclusiva do poeta era a galhofa, e tal galhofa que transcendia muita vez as raias da conveniencia publica. Nenhuma de suas peças,—operas é o nome classico,—nenhumaé isenta de expressões baixas e até obscenas, com que elle, segundo lhe arguia um prelado, «chafurdou na immundicie.» Tinha razão o prelado, mas não basta ter razão; cumpre saber tel-a. Ora, a baixeza e a obscenidade das locuções não eram novidade na scena portugueza, nem na de outros paizes; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos á nossa lingua, basta lembrar que oCioso, de Ferreira, do culto autor daCastro, foi dado por Figueiredo com a declaração de ter sido «expurgado segundo o melindre dos ouvidos do nosso seculo.» Gil Vicente, sem embargo de se representarem suas peças na côrte de D. João III e D. Manuel, adubava-as ás vezes de especies que nos parecem hoje bem pouco exquisitas. As operas do judeu eram dadas num theatro popular; não as ouvia a côrte de D. João V, mas o povo e os burguezes de Lisboa, cujas orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde lhes attribuiu Figueiredo. A differença entre Antonio José e os outros era afinal uma questão de quantidade; mas, se o tempo lh'o permittia e, com o tempo, a censura, que muito é que o poeta reincidisse? Não é isto escusal-o, mas explical-o. Deixemos os trocados e equivocos, que são um chiste de mau gosto, mácula de estylo, que o poeta exagerou até á puerilidade, cedendo a si mesmo e ao riso das platéas. Outro defeito que se lhe argúe, é o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se notam em muitas falas de certos personagens, os deuses, principes e heróes. Um de seus biographos, comparando o estylo de taes personagens com o dos criados e pessoas infimas, que são simples e naturaes, suppõe que houve no poeta intenção satyrica, opinião que me parece carecer de fundamento, entre outras razões porque não ha sempre aquella differença deestylo, e não é raro falarem os principaes personagens do mesmo modo natural e recto, que os de condição inferior. Guindam-se muita vez, mas era achaque do tempo e exageração na maneira de empregar o estylo nobre, porque havia então um estylo nobre; e, se o judeu teve alguma vez intenção satyrica, arrebicando ou empolando a expressão, tal intenção foi sómente literaria e nenhuma outra. Que diremos dos anachronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os dobrões de Alcmena, a alcunha dealfacinhadada a Amphytrião, Juno chrismada em Felizarda, um criado antigo «de corpo á ingleza,» outro com «relogio de pendurucalhos,» deviam promover a gargalhada franca do povo. Esse fugir do meio e da acção para a realidade presente vae algumas vezes além, como naEsopaida, em que o heróe, falando de sua vida, diz que anda em livros pelo mundo—«e agora me dizem que se está representando no Bairro-Alto.» Já naVida de D. Quixotehavia o poeta posto a mesma cousa na boca de Sancho, quando o cavalleiro, vendo um barco amarrado, pergunta ao escudeiro:—«Sabes onde estamos?—Sei bem.—Aonde?—No Bairro-Alto.» O judeu podia responder que tal séstro foi o de Regnard e o de Boursault, por exemplo, que poz o seu Esopo a tomar café e metteu com elle esposas de tabelliães; podia citar muitos outros exemplos anteriores e contemporaneos, e a critica se incumbiria de apontar os que vieram depois delle; mas não vale a pena.
Venhamos aoAmphytrião. Um erudito escriptor, o Sr. Theophilo Braga, suppõe que a intenção do poeta, nessa comedia, foi pintar em Jupiter a pessoa de D. João V, supposição que detidamente examinei e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o criticofaz de uma coincidencia um proposito, e fundamenta a sua suspeita na possivel analogia das aventuras do deus pagão e do rei christão. A analogia podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras não faz chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler oAmphytrião, basta comparar a situação do poeta e o tempo para varrer do espirito semelhante hypothese. Certo, não faltava audacia ao poeta; ahi está, como exemplo, a definição da justiça, feita por Sancho, naVida de D. Quixote; mas entre a generalidade desse trecho e a satyra pessoal doAmphytriãovae um abysmo. Occorre-me que doAmphytriãode Molière tambem se disse ser allusão a Luiz XIV, com a differença que em França não se attribuiu a Molière a intenção de ferir, mas de ser agradavel ao rei, que lhe havia encommendado aquella apotheose de suas proprias aventuras, opinião esta que foi de todo condemnada. Não, não ha motivo para attribuir a Antonio José a intenção que lhe suppõe o Sr. Theophilo Braga; e, se tal intenção existisse, o desenlace da comedia, quando Jupiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão crú que não alcançariamos comprehendel-o naquelle seculo.
Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam Plauto, Molière e Camões,—um assumpto prestadio ás combinações scenicas, e, demais, singularmente proprio para as chufas do Bairro-Alto. Desnecessario é dizer os tramites dessa travessura de Jupiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vae á casa della, acompanhado de Mercurio, que copia as feições de Sosias, criado de Amphytrião. O nosso poeta seguiu no principal a fabula que encontrou nos antecessores, fazendo-lhetodavia as alterações suscitadas pelo gosto proprio e das platéas. Assim, o Sosias de Plauto, de Molière e de Camões é na peça de Antonio José um Saramago. Não lhe mudou elle o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao systema de dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nosEncantos de Medéa, chama-se Sacatrapos; ha nas outras operas um Carangueijo, um Esfusiote, um Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou Dandin ao principal personagem de uma de suas comedias sinão para o caracterisar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa. Comtudo, a observação em relação a Antonio José tem o valor de um rasgo significativo.
Cotejando oAmphytriãode Antonio José com os de seus antecessores, vê-se o que elle imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu. Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo poeta comico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de Molière, o desenlace doAmphytriãode Plauto. Na comedia deste, logo depois de explicar Jupiter os equivocos da situação e de annunciar ao marido de Alcmena que o filho desta é seu, mostra-se Amphytrião inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões supprimiu tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos os poetas Amphytrião ouve silencioso as declarações do pae dos deuses, sem que Alcmena assista a ellas. Antonio José não só não seguiu nessa parte os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de Plauto. A alegria do seu Amphytrião e da sua Alcmena é tão franca, tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a offender asleis da verosimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste ponto Antonio José foi antes inadvertido do que obrigado do gosto publico. Outro caso. Nas comedias anteriores não ha nenhum logar em que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Amphytriões, e isto não só era necessario para prolongar e justificar os equivocos, mas até o exigia a verosimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous exemplares exactos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento á sua illusão, para cair no maravilhoso e no inextricavel. E é justamente o que acontece na comedia do judeu.
Vamos agora ao que o judeu imitou directamente de Molière. Ha na comedia daquelle um caracter, o de Cornucopia, mulher de Saramago, que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na de Molière existe. «Molière (é observação de La Harpe), fazendo de Cleanthis mulher de Sosias, inventou uma situação parallela á de Amphytrião e Alcmena, dando-lhe porém differente aspecto; Cleanthis pertence ao numero das esposas que, por serem honestas, cuidam ter o direito de ser insupportaveis». Ora bem, a situação e o caracter de Cleanthis transportou-os o judeu para o seuAmphytrião, e não se póde dizer encontro fortuito, senão deliberado proposito. Basta cotejal-os com espirito advertido; a differença é de tom, de estylo; substancialmente, a invenção é a mesma; as proprias idéas reproduzem-se ás vezes na obra do judeu. Assim, logo na scena em que Mercurio transformado em Saramago (Sosias) encontra a mulher deste, achamos o traço commum aos dois poetas.
Na comedia de Molière:
CLEANTHISRegarde, traitre, Amphytrion;Vois comme pour Alcmène il étale de flamme;Et rougis là-dessus du peu de passionQue tu témoignes pour ta femme.MERCURIOHé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.Il est certain âge où tout passe;Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.Il nous ferait beau voir, attachés face à face,A pousser les beaux sentiments!CLEANTHISMérites-tu, pendard, cet insigne bonheurDe te voir pour épouse une femme d'honneur?MERCURIOMon Dieu! tu n'es que trop honnête;Ce grand honneur ne me vaut rien.Ne sois point si femme de bien,Et me romps un peu moins la tête.
CLEANTHIS
Regarde, traitre, Amphytrion;Vois comme pour Alcmène il étale de flamme;Et rougis là-dessus du peu de passionQue tu témoignes pour ta femme.
MERCURIO
Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.Il est certain âge où tout passe;Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.Il nous ferait beau voir, attachés face à face,A pousser les beaux sentiments!
CLEANTHIS
Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheurDe te voir pour épouse une femme d'honneur?
MERCURIO
Mon Dieu! tu n'es que trop honnête;Ce grand honneur ne me vaut rien.Ne sois point si femme de bien,Et me romps un peu moins la tête.
Agora Antonio José:
CORNUCOPIATambem nosso amo trazia bastante fome, e comtudo está dizendo á nossa ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedraMERCURIOCom que é o mesmo nossos amos do que nós? Elles casadinhos de um anno, e nós ha um seculo? Elles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?[1]Elles dous jasmins e nós dous lagartos? E finalmente elles com amor, e nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?
CORNUCOPIA
Tambem nosso amo trazia bastante fome, e comtudo está dizendo á nossa ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra
MERCURIO
Com que é o mesmo nossos amos do que nós? Elles casadinhos de um anno, e nós ha um seculo? Elles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?[1]Elles dous jasmins e nós dous lagartos? E finalmente elles com amor, e nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?
[1]Criados.
[1]Criados.
CORNUCOPIAOra o certo é que peior é fazer festa a villões ruins; por estas, que se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fôra; talvez que se eu fôra alguma dessas bonecrinhas enfeitadas que me quizeras mais; porém a culpa tenho eu em não aceitar o que me davam nas tuas costas.MERCURIOPois ainda estás em tempo...Trata-se, como se vê, de um caracter e de uma situação integralmente transcriptos, embora de outro geito, cedendo o poeta aos seus habitos literarios, á sua indole e ao seu meio. Nem é sómente na introducção do caracter de Cornucopia, e na situação dos dous personagens, que Antonio José revela ter deante de si ou na memoria a peça de Molière, ha ainda outro vestigio; ha uma idéa na scena em que Jupiter se despede de Alcmena,—idéa que o judeu expressa deste modo:ALCMENAEste amor nasce da obrigação.JUPITERPois quizera que esta fineza nascera mais do teu amor que da tua obrigação.ALCMENAA obrigação de amar ao esposo supera toda a obrigação.JUPITERPois mais devera que me quizeras como a amante que como a esposo.ALCMENANão sei fazer esta differença, pois não posso amar-te como a esposa, sem que te ame como a amante.
CORNUCOPIA
Ora o certo é que peior é fazer festa a villões ruins; por estas, que se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fôra; talvez que se eu fôra alguma dessas bonecrinhas enfeitadas que me quizeras mais; porém a culpa tenho eu em não aceitar o que me davam nas tuas costas.
MERCURIO
Pois ainda estás em tempo...
Trata-se, como se vê, de um caracter e de uma situação integralmente transcriptos, embora de outro geito, cedendo o poeta aos seus habitos literarios, á sua indole e ao seu meio. Nem é sómente na introducção do caracter de Cornucopia, e na situação dos dous personagens, que Antonio José revela ter deante de si ou na memoria a peça de Molière, ha ainda outro vestigio; ha uma idéa na scena em que Jupiter se despede de Alcmena,—idéa que o judeu expressa deste modo:
ALCMENA
Este amor nasce da obrigação.
JUPITER
Pois quizera que esta fineza nascera mais do teu amor que da tua obrigação.
ALCMENA
A obrigação de amar ao esposo supera toda a obrigação.
JUPITER
Pois mais devera que me quizeras como a amante que como a esposo.
ALCMENA
Não sei fazer esta differença, pois não posso amar-te como a esposa, sem que te ame como a amante.
Na comedia de Molière:
JUPITEREn moi, belle et charmante Alcmène,Vous voyez un mari, vous voyez un amant;Mais l'amant seul me touche, à parler franchement;Et je sens près de vous que le mari me gêne.Cet amant, de vos vœux jaloux au dernier point,Souhaite qu'à lui seul votre amour s'abandonne.ALCMENAJe ne sépare point ce qu'unissent les dieux;Et l'époux et l'amant me sont fort précieux.
JUPITER
En moi, belle et charmante Alcmène,Vous voyez un mari, vous voyez un amant;Mais l'amant seul me touche, à parler franchement;Et je sens près de vous que le mari me gêne.Cet amant, de vos vœux jaloux au dernier point,Souhaite qu'à lui seul votre amour s'abandonne.
ALCMENA
Je ne sépare point ce qu'unissent les dieux;Et l'époux et l'amant me sont fort précieux.
Se, neste ponto, já se não trata de uma situação, de um caracter novo, mas de uma idéa entrelaçada no dialogo, importa repetir que, ainda imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel á sua physionomia literaria; póde ir buscar a especiaria alheia, mas ha de ser para temperal-a com o molho da sua fabrica. Dessa inclinação ao baixo-comico achamos outro exemplo naEsopaida, cujo assumpto fôra tratado, antes delle, por Boursault. O caracter tradicional de Esopo era pouco apropriado á comedia: é um moralista, um autor de apologos, mas Boursault trouxe-o assim mesmo para a scena, unico modo de lhe conservar a côr original. O Esopo de Antonio José parece antes um exemplar apurado daquelles lacaios argutos e atrevidos da comedia classica; salvo dous ou treslogares, é outro genero de Sacatrapos ou Chichisbéo; figura alli com agudezas e trocadilhos. Ha destes extremamente bufões, como o da bacia das almas, e disso e de pouco mais se compõe a philosophia de Esopo. Não obstante essa côr geral, notam-se alli toques de bom comico, embora leves e a espaços. Ha tambem, e principalmente, a veia satyrica, na scena que quasi todos os seus biographos transcrevem,—a das theses dos philosophos, scena extremamente chistosa, e que o proprio Diniz, com toda a sua veia doHyssopee doFalso Heroismo, não sei se chegaria a fazer mais acabada. Compare-se essa scena com a da invasão do Parnaso pelos maus poetas, naVida de D. Quixote, e ver-se-ha que havia no talento de Antonio José uma forte dóse de satyra,—o que, de certa maneira, lhe diminuia a força comica. Nessas duas peças é, aliás, sensivel a habilidade theatral do poeta, que não tinha propriamente uma acção em nenhuma dellas, e, não obstante, logrou condensar a vida dos episodios, manter a unidade do interesse e angariar o applauso publico. Accresce que o seu D. Quixote não tem o defeito capital do seu Esopo; o poeta soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime, que caracterisa o typo de Cervantes: é o que se vê logo, na exposição, quando D. Quixote responde ao barbeiro acerca da armada que se prepara para combater o turco:—«Para que se cançam com tantas machinas? diz elle. Eu lhes déra um bom arbitrio com que, em menos de uma hora, vençam quantas armadas e armadilhas o turco tiver.» É ocioso dizer que o arbitrio seria a cavallaria andante.
De todas as comedias, porém, a que goza as honras da primazia, é a dasGuerras do Alecrim e Mangerona, e com razão; é a mais acabada e a mais comica. Temo gosto do tempo, e até um resaibo da maneira de Calderon, que de si mesmo escrevia:
Es comedia de Don PedroCalderon, d'onde hade haber,Por fuerza, amante escondidoY rebozada mujer.
Ha alli com effeito mulheres rebuçadas e amantes escondidos, e tanta vida como nas peças de Calderon.
Não trato aqui do facto que poderia ter dado logar á obra do judeu, nem das duvidas de Costa e Silva sobre se os doisranchosdoalecrime damangeronaexistiam antes da comedia, ou se esta os fez nascer; é investigação que não vale a pena de um minuto, e aliás o texto do poeta é claro. Em tudo se avantaja oAlecrimemangerona, até na linguagem, que é ahi muito menos obscena que nas outras, differença que se póde attribuir ao progresso do talento, porquanto já noLabyrintho de Cretase dá o mesmo phenomeno. Não direi, como Garrett, que essa peça teria hoje todo o valor de uma comedia historica; mas assim mesmo, quem lhe vê as figuras, a seculo e meio de distancia, parece contemplar uma gravura em que ellas conservam as feições e o vestuario do tempo,—os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver livre das sobrinhas, e que, ao annunciarem-lhe a chegada do pretendente provinciano, manda deitar «mais um ovo nos espinafres,» D. Tiburcio, as duas damas, o Semicupio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga farça.
Superior ás outras composições, como estylo e originalidade, não menos o é como viveza, graça e movimento: e, se a farça domina, não é tanto que não appareça a comedia. Basta apontar, por exemplo, ascena da consulta medica, por occasião do desastre de D. Tiburcio, que é uma das melhores do theatro do judeu, e não ficaria vexada si a puzessemos ao lado das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, ha tambem aphorismos latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos considerar oAlecrim e Mangeronacomo uma das melhores comedias do seculo XVIII.
Ler oAlecrim e Mangerona, oAmphytrião, aEsopaidae oD. Quixote, é avaliar todo o poeta, com suas qualidades boas e más, com o geito do seu espirito e influencia do seu tempo. Nicolau Luiz, Figueiredo, Diniz e Garção, no mesmo seculo, tiveram talvez mais intenção comica do que Antonio José, mas os meios deste eram maiores, possuiam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abundancia. Dir-se-ha que, se a Inquisição o deixára viver, Antonio José produziria alguma obra de esphera superior? Repito: não creio que elle subisse muito acima doAlecrim e Mangerona; iria talvez ao ponto de fazer alguma cousa parecida com oAvaro, mas não faria todo oAvaro.
Agora, a seculo e meio de distancia, podemos affirmar que Antonio José foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do seu engenho, é fóra de duvida que o auto da fé em que elle pereceu, devorou com a mesma flamma assaz de paginas alegres e vivazes. A prova de que o theatro poderia ainda esperar muito de Antonio José, está na comparação das obras delle com a vida delle. Era um christão novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um annos padeceu um primeiro processo, e sabe-se que terriveis eram os processos inquisitoriaes; basta dizer que o delinquente revelou todos os seus complicesem judaismo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que se póde explicar pela tenra edade do poeta, mas tambem pelo terror que o tribunal infundia, não menos que pela exhortação mansa com que os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denuncia de todos os complices,—sem prejuizo, aliás, do carcere e da polé. Pois bem, não obstante os vestigios e as lembranças desse primeiro acto da Inquisição, não obstante o espectaculo do que padeciam os seus, as operas de Antonio José trazem o sabor de uma mocidade imperturbavelmente feliz, a facecia grossa e petulante, tal como lh'a pedia o paladar das platéas, nenhum vislumbre do episodio tragico, salvo uns versos doAmphytriãoque se creem, (e, quanto a mim, sem outro fundamento além da conjectura) como applicaveis a elle mesmo. Mas ainda suppondo que a conjectura tenha razão, admittindo mais que a allegoria da justiça naVida de D. Quixoteseja o resumo das queixas pessoaes do poeta (supposição tão fragil como aquella), a verdade é que os successos da vida delle não influiram, não diminuiram a força nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe da hypocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no caminho, não conheceu o infimo dos padecimentos de Antonio José, foi o creador de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de talento, não escolheria nunca o assumpto doMisanthropo.
Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria elle o grande mestre. Não lhe fossem propôr graves problemas, nem maximas profundas, nem os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das comedias de outra esphera, nem sobretudo as melancolias de Molière e Shakespeare. Onosso judeu era a farça, a genuina farça, sem outras pretenções, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e do seu tempo. Certo, eu posso hoje, á fina força, arrancar alguma idéa inicial das operas do judeu; por exemplo, ao ver nosEncantos de Medéaa dedicação da feiticeira de Colchos, que tráe os deveres filiaes e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe entregar o vellocino e ao ver que, apezar de tudo isto, o principe foge com Creusa, posso, digo eu, attribuir ao poeta a intenção de que o reconhecimento não é o caminho do amor e que um coração póde ser legitimamente ingrato. Seria logico, seria bem deduzido da acção, mas não passaria de obra da critica, inteiramente alheia á intenção do poeta, que achou no assumpto uma farça de tramoias e nada mais. Esta é a ultima conclusão que rigorosamente se póde tirar do poeta. Elle não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as transcripções que fez noAmphytrião; tinha originalidade, embora a influencia das operas italianas. Convenhamos que era um engenho sem disciplina, nem gosto, mas caracterisco e pessoal.