The Project Gutenberg eBook ofRobur, o Conquistador

The Project Gutenberg eBook ofRobur, o ConquistadorThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Robur, o ConquistadorAuthor: Jules VerneTranslator: Christovam AyresRelease date: May 11, 2020 [eBook #62101]Most recently updated: October 18, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the OnlineDistributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ROBUR, O CONQUISTADOR ***

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: Robur, o ConquistadorAuthor: Jules VerneTranslator: Christovam AyresRelease date: May 11, 2020 [eBook #62101]Most recently updated: October 18, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the OnlineDistributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net

Title: Robur, o Conquistador

Author: Jules VerneTranslator: Christovam Ayres

Author: Jules Verne

Translator: Christovam Ayres

Release date: May 11, 2020 [eBook #62101]Most recently updated: October 18, 2024

Language: Portuguese

Credits: Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the OnlineDistributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ROBUR, O CONQUISTADOR ***

JULIO VERNEVIAGENS MARAVILHOSASROBUR O CONQUISTADOR

JULIO VERNE

VIAGENS MARAVILHOSAS

ROBUR O CONQUISTADOR

OBRA PREMIADAPELAACADEMIA DAS SCIENCIAS DE FRANÇA

ROBUR, O CONQUISTADORPORJULIO VERNE

TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA309, Rua da Rosa, Lisboa1890

TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA309, Rua da Rosa, Lisboa1890

GRANDE EDIÇÃO POPULARDASVIAGENS MARAVILHOSAS AOS MUNDOS CONHECIDOS E DESCONHECIDOS

JULIO VERNE

ROBUR, O CONQUISTADOR

TRADUCÇÃO DECHRISTOVAM AYRESEscriptor e Jornalista

LISBOACOMPANHIA NACIONAL EDITORASuccessora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDESSÉDE: 40, Rua da Atalaya, 52, LisboaFILIAES:Porto, Praça de D. Pedro, 127, 1.º38, Rua da Quitanda, Rio de Janeiro1890

Edição de luxo, papel superior, illustrada com todas as gravuras da edição franceza

Preço em moeda forte dos volumes publicados:

Nenhum dos dois adversarios ficou ferido

Nenhum dos dois adversarios ficou ferido

Pum!... pum!

Os dois tiros de pistola partiram ao mesmo tempo. Uma vacca, que passava a uns cincoenta passos, recebeu uma das balas no espinhaço. E no emtanto ella nada tinha que ver com a questão.

Nenhum dos dois adversarios ficou ferido.

Quem eram esses cavalheiros? Não se sabe; e, comtudo, teria sido essa, de certo, a occasião de fazer chegar os seus nomes á posteridade. Tudo que se pode dizer é que o mais velho era inglez, o mais novo americano. Quanto a indicar o sitio em que o inoffensivo ruminante, que acabava de ser morto, pastava o seu ultimo punhado de herva, nada mais facil. Era sobre a margem direita do Niagara, a pequena distancia da ponte pensil que liga a margem americana á margem canadiana, tres milhas abaixo das quédas d’agua.

O inglez avançou então para o americano:

—Continúo a sustentar que era oRule Britannia!disse elle.

—Não era! replicou o outro. Era oYankee Doodle!

Ia recomeçar a disputa, quando uma das testemunhas, de certo no interesse do gado inoffensivo, interveiu dizendo:

—Admittamos que era oRule Doodlee oYankee Britannia, e vamos almoçar!

Este accôrdo entre os dois cantos nacionaes da America e da Gran-Bretanha, foi acceite com geral satisfação. Americanos e inglezes, seguindo a margem esquerda do Niagara, foram sentar-se á mesa do hotel de Goat-Islandia, um terreno neutro entre as duas cataratas. Como estão em presença dos ovos quentes e do presunto tradicionaes, do rost-beef frio; conserva de pickles incendiarios, e catadupas de chá, capazes de fazer inveja ás celebres cascatas, não os importunemos. E, além d’isso, é pouco provavel que se torne a falar n’elles n’esta narrativa.

Qual d’elles tinha razão? O inglez ou o americano? Sería difficil dizer. Em todo o caso, aquelle duello mostra quanto os espiritos estavam exaltados, não só no novo, mas tambem no antigo continente, a proposito de um phenomeno inexplicavel, que, havia um mez, a todos trazia os miolos a arder.

...Os sublime dedit cœlumque tueri

...Os sublime dedit cœlumque tueri

...Os sublime dedit cœlumque tueri

disse Ovidio para a maior honra da humanidade.

Com effeito, desde que o homem apparecêra sobre a terra, nunca se olhára tanto para o céo.

Ora, precisamente, durante a noite anterior, uma trombeta aerea soltára as suas notas metallicas através do espaço, por sobre essa porção do Canadá, situada entre o lago Ontario e o lago Erié. Uns haviam ouvido oYankee Doodle, outros oRule Britannia. D’ahi essa disputa de anglo-saxões que terminou por um almoço no Goat-Island. Talvez, afinal, não fôsse nem um nem outro d’esses cantospatrioticos. Mas o que para todos era fora de duvida, é que esse som extranho tinha de particular o parecer que descia do céo á terra.

Sería uma trombeta celeste, soprada por algum anjo ou archanjo? Não seriam antes alegres aeronautas, que tocavam o sonoro instrumento de que a Fama faz um uso tão ruidoso?

Mas não! Não se via nem balões nem aeronautas. Era um phenomeno extraordinario que se dava nas altas zonas do céo, phenomeno cuja natureza e origem se não podia conhecer.

Hoje era por sobre a America, quarenta e oito horas depois sobre a Europa; oito dias mais tarde, na Asia, por sobre o Celeste Imperio. Decididamente, se a trombeta que assignalava a sua passagem não era a do juizo final, que trombeta podia ser?

D’ahi, em todos os paizes, reinos ou republicas, uma certa inquietação que era mistér acalmar. Se ouvisseis na vossa casa algum ruido extranho e inexplicavel, não tratarieis logo de indagar a causa d’esse ruido; e, se a pesquiza não désse resultado, não abandonarieis a casa para ir para outra? Sim, decerto. Mas aqui, a casa era o globo terrestre.

Não havia meio de a deixar pela Lua, Marte, Venus, Jupiter, ou outro qualquer planeta do systema solar. Era portanto necessario descobrir o que se passava, não no vacuo infinito, mas nas zonas atmosphericas.

Com effeito, não ha ruido sem que haja ar; e se um ruido se produzia,—o da famosa trombeta,—é porque o phenomeno se dava no meio de uma camada de ar, cuja densidade vae sempre diminuindo e que não se extende a mais de duas em volta do nosso espheroide.

Como era natural, milhares de jornaes se apoderaram da questão, trataram-n’a, nas suas diversas formas, esclareceram-n’a ou obscureceram-n’a, referiram factos verdadeiros ou falsos, sobresaltaram ou tranquillisaram os seusleitores,—no interesse da venda da folha,—apaixonaram finalmente as massas. A politica cahiu por terra, e nem por isso os negocios andaram peior. Mas o que era então?

Consultaram-se os observatorios do mundo inteiro. Mas para que serviam os observatorios, se nada sabiam responder a esse respeito! Se os astronomos que desdobram em duas ou em tres as estrellas que estão a cem mil milhares de leguas, não eram capazes de reconhecer a origem de um phenomeno cosmico, no raio de alguns kilometros apenas, para que serviam os astronomos?

De modo que não se faz idéa da quantidade de telescopios, de oculos, de binoculos, de monoculos, de oculos de vêr ao longe, que estavam apontados para o céo, e de olhos que estavam applicados á ocular dos instrumentos, de todos os alcances e de todas as grossuras, durante essas bellas noites de verão. Talvez centenas de mil, pelo menos. Dez vezes, vinte vezes mais que de estrellas se contam a olho nú na atmosphera celeste. Não! Nunca um eclipse, observado simultaneamente em todos os pontos do globo, attrahíra tanto a attenção.

As observações responderam, mas de um modo insufficiente. Cada qual deu a sua opinião, mas diversa. D’ahi uma guerra intestina no mundo douto, durante as ultimas semanas de abril e as primeiras de maio.

O observatorio de Paris guardou uma grande reserva. Nenhuma das secções se pronunciou. Na repartição de astronomia mathematica não se tinham dignado observar; na das operações meridianas nada se tinha descoberto; na das observações physicas nada tinham notado; na da meteorologia nada haviam entrevisto; e, finalmente, na dos calculos nada haviam concluido. Pelo menos a confissão era franca.

A mesma franqueza houve da parte do observatorio de Montsouris, na estação magnetica do parque Saint-Mur. O mesmo respeito pela verdade na repartição das longitudes. Decididamente, francez quer dizer “franco„.

A provincia foi um pouco mais affirmativa. Talvez na noite de 6 a 7 de maio tivesse apparecido um clarão de origem electrica, cuja duração não tinha passado de vinte segundos. No Pico-do-sul aquelle clarão mostrára-se entre as nove e as dez da noite. O observatorio meteorologico do Puy-de-Dôme tinha-o apanhado entre a uma hora e as duas da manhã; no Monte Ventoux, na Provença, entre as duas e as tres horas; em Nice, entre as tres e as quatro; finalmente, em Semnoz-Alpes, entre Anney, o Bourget e Leman, no momento em que a aurora dourava o zenith.

Evidentemente não eram para desprezar estas observações em globo. Era fora de duvida que aquelle clarão fôra observado em diversos pontos,—successivamente—no intervallo de algumas horas. Portanto ou elle se produzia em alguns, em uns poucos de fócos, percorrendo a atmosphera terrestre, ou então, se era devido a um fóco unico, é porque esse fóco podía mover-se com uma velocidade que devia alcançar pelo menos duzentos kilometros por hora.

Mas quem é que vira ainda, durante o dia, uma cousa tão anormal na atmosphera?

Ninguem!

Pelo menos havia-se ouvido a trombeta alguma vez, através as camadas aereas?

Mas nem o minimo som se sentíra entre o erguer e o pôr do sol.

No Reino Unido causou isto uma grande perplexidade. Os observatorios não chegaram a um accôrdo. Greenwich não se entendia com Oxford, apesar de ambos estarem de accôrdo em que “não havia nada„.

—Illusão optica! dizia um.

—Illusão acustica! respondia outro.

E sobre isso disputavam. Em todo o caso, illusão.

No observatorio de Berlim, no de Vienna, a discussão ameaçava trazer complicações internacionaes. Mas a Russia, na pessoa do director do observatorio de Ponlkowa,provou-lhes que tinham ambos razão;—isso provinha do ponto de vista em que se collocavam para determinar a natureza do phenomeno, impossivel em theoria e possivel na prática.

Na Suissa, no observatorio de Sautis, no cantão de Appenzel, no Righi, no Cabris, nos postos de Saint-Gothard, de S. Bernardo, do Julier, do Simplon, de Zurich, da Somblick nos Alpes tyrolezes, deram prova de uma extrema reserva, a respeito de um facto que ninguem poude nunca contestar,—o que era muito razoavel.

Mas na Italia, nas estações meteorologicas do Vesuvio, no posto do Etna, installado na antigaCasa Inglese, em Monte Cavo, os observadores não hesitaram em admittir a materialidade do phenomeno, attendendo a que haviam podido vêl-o, um dia, sob o aspecto de uma pequena voluta de vapor, e uma noite sob o aspecto de uma estrella cadente. Mas o que era afinal de contas, ninguem o sabia absolutamente.

Com effeito aquelle mysterio começava a fatigar os homens de sciencia, emquanto que continuava a apaixonar, a assombrar mesmo, os humildes e os ignorantes, que teem constituido, constituem e continuarão a constituir a maioria, a immensa maioria, graças a uma sabia lei da natureza. Os astronomos e os meteorologistas teriam portanto renunciado a occupar-se d’elle se, na noite de 26 para 27, o observatorio de Kantokeino, no Finmark, da Noruega, e na noite de 28 para 29, o de Isfjord, em Spitzberg,—norueguezes por um lado e suecos por outro, não tivessem chegado a um accôrdo sobre o seguinte:—no meio de uma aurora boreal tinha apparecido uma especie de grande ave, ou monstro aereo. Se não fôra possivel determinar a sua estructura, pelo menos era fora de duvida que destacava de si corpusculos que detonavam como bombas.

Na Europa bem quizeram não pôr em duvida esta observação das estações de Finmark e do Spitzberg. Mas o que pareceu mais phenomenal em tudo isto, foi que os suecose os norueguezes pudessem chegar a um accôrdo sobre um ponto qualquer.

Riram-se da pretendida descoberta em todos os observatorios da America do sul, no Brazil ou no Perú como em la Plata, nos de Australia, em Sydney ou em Adelaide, como em Melbourne. E o riso americano é dos mais communicativos.

Um unico chefe de estação meteorologica se apresentou com uma opinião affirmativa n’este ponto, apesar de todos os sarcasmos a que a sua solução podia dar origem. Foi um chinez, o director do observatorio de Zi-Ka-Wey, erigido no meio de uma vasta planicie, a menos de dez leguas do mar, com um horisonte immenso, banhado de ar puro.

—Pode ser, disse elle, que o objecto de que se trata seja unicamente um apparelho aviatorio, uma machina volante!

Pura zombaria!

Mas se as controversias tinham sido vivissimas no Antigo Continente, imagine-se o que seria n’essa porção do continente novo, de que os Estados Unidos occupam o mais vasto territorio.

Um Yankee, como se sabe, não hesita no caminho a seguir; opta por um e geralmente pelo que vae directamente ao fim. De modo que os observatorios da Federação americana não hesitaram em se pronunciarem. Se não atiraram com os oculos á cara uns dos outros, é que teriam de os substituir na occasião em que mais necessidade tinham de se servirem d’elles.

N’esta questão tão controversa, as observações de Washington, no districto de Columbia, e no de Cambridge, no Estado de Duna, foram de encontro ás de Ann-Arbor, no Michigan. O objecto da disputa não versou sobre a natureza do corpo observado, mas sobre o instante preciso da observação, porque todos pretendiam tel-o visto na mesma noite, á mesma hora, no mesmo minuto, no mesmo segundo, embora a trajectoria do mysterioso mobil não occupassesenão uma mediocre altura acima do horisonte. Ora do Connecticut ao Michigan, do Duna ao Colombia, a distancia é assaz grande para que essa dupla observação, feita ao mesmo tempo, pudesse ser considerada impossivel.

Dudley, na Albania, no Estado de Nova York, e West Point, da Academia militar, desmentiram os seus collegas por meio de uma nota que dava a ascenção recta e a declinação do tal corpo.

Mas reconheceu-se mais tarde que aquelles observadores se tinham enganado com o corpo, observando um bolide que não fizera mais do que atravessar a camada média da atmosphera. Portanto aquelle bolide não podia entrar em questão. Além d’isso como é que aquelle bolide podia tocar trombeta?

Quanto a esta trombeta, em vão buscaram lançar a sua ruidosa fanfarra á conta de illusões acusticas. Nem os ouvidos, nem os olhos enganavam. Tinham visto, tinham ouvido perfeitamente. Na noite de 12 para 13 de maio,—noite sombria,—os observatorios de Yale-College, na Eschola scientifica de Scheffield, tinham podido transcrever alguns compassos de uma phrase musical, em ré maior, a quatro tempos, que dava, nota por nota, rythmo por rythmo, o estribilho doChant du Départ.

—Bem! responderam os chocarreiros, é uma orchestra franceza que toca no meio das camadas aereas.

Mas gracejar não era responder. É o que fez notar o observatorio de Boston, fundado pelaAtlantic Yron Works Society, cujas opiniões sobre questões de astronomia e de meteorologia começavam a constituir lei no mundo scientifico.

Interveio então o observatorio de Cincinnati, creado em 1870 sobre o monte Lookout, graças á generosidade do sr. Kilgoor, e tão conhecido pelas suas medidas micrometricas das estrellas duplas. O seu director declarou, na mais completa boa fé, que havia o quer que fôsse; que um objecto qualquer se mostrava, em tempos assaz proximos,em diversos pontos da atmosphera, mas que sobre a natureza d’aquelle objecto, as suas dimensões, a sua velocidade, a sua trajectoria, era impossivel dizer nada.

Foi então que um jornal, cuja publicidade é numerosa, oNew York Herald, recebeu de um assignante a seguinte communicação annonyma:

“Está ainda na lembrança de todos a rivalidade que trouxe em conflicto, ha alguns annos, os dois herdeiros da Begum de Ragginahra: esse doutor francez Sarrasin, na cidade de Franceville, e o engenheiro allemão Herr Schultze, na cidade de Stahlstadt, situadas ambas na parte sul do Orégon, nos Estados Unidos.“Tambem se não devem ter esquecido que, no intuito de destruir Franceville, Herr Schultze lançou um formidavel apparelho que devia cahir sobre a cidade franceza e anniquilal-a de um só golpe.“Ainda menos se terão esquecido de que esse apparelho, cuja velocidade inicial, ao sahir da bôcca do canhão monstro, fôra mal calculada, foi levado com rapidez superior a dezeseis vezes a dos projectis ordinarios,—isto é, cento e cincoenta leguas por hora,—que não tornou a cahir sobre a terra e que, passado a estado de bolide, circula e deve circular eternamente em volta do nosso globo.“E porque não será esse o corpo em questão, cuja existencia se não pode negar„?

“Está ainda na lembrança de todos a rivalidade que trouxe em conflicto, ha alguns annos, os dois herdeiros da Begum de Ragginahra: esse doutor francez Sarrasin, na cidade de Franceville, e o engenheiro allemão Herr Schultze, na cidade de Stahlstadt, situadas ambas na parte sul do Orégon, nos Estados Unidos.

“Tambem se não devem ter esquecido que, no intuito de destruir Franceville, Herr Schultze lançou um formidavel apparelho que devia cahir sobre a cidade franceza e anniquilal-a de um só golpe.

“Ainda menos se terão esquecido de que esse apparelho, cuja velocidade inicial, ao sahir da bôcca do canhão monstro, fôra mal calculada, foi levado com rapidez superior a dezeseis vezes a dos projectis ordinarios,—isto é, cento e cincoenta leguas por hora,—que não tornou a cahir sobre a terra e que, passado a estado de bolide, circula e deve circular eternamente em volta do nosso globo.

“E porque não será esse o corpo em questão, cuja existencia se não pode negar„?

Muito engenhoso era este assignante doNew York Herald. E a trombeta?... Não levava trombeta o projectil de Herr Schultze!

Portanto todas essas explicações não explicavam nada, todos esses observadores observavam mal.

Restava comtudo a hypothese proposta pelo director de Zi-Ka-Wey. Mas a opinião de um chinez!...

Não se imagine que o publico do Antigo e Novo Mundo acabou por se cançar. Não! as discussões continuaramcada vez mais, sem chegarem a um accôrdo. E comtudo, houve um praso de espera. Passaram-se alguns dias, sem que o objecto, bolide ou qualquer outro, fôsse visto, sem que nenhum som de trombeta se ouvisse no ar. Teria o corpo cahido n’algum ponto do globo, onde fôsse difficil encontrar-lhe os vestigios,—no mar por exemplo? Jazeria nas profundezas do Atlantico, do Pacifico, do Oceano Indico? O que dizer a este respeito?

Mas, entre 2 e 9 de junho, uma serie de factos novos se deram, cuja explicação, só pela existencia de um phenomeno cosmico, seria impossivel.

Em oito dias, os hamburguezes, na ponta da Torre de S. Miguel; os turcos, no mais alto minarete da Santa Sophia; os ruennezes, no extremo do Munster; os americanos, sobre a cabeça da sua estatua da liberdade, á entrada do Hudson, e no fuste do monumento de Washington, em Boston; os chinezes, no vertice do templo dos Quinhentos Genios, em Cantão; os indios, no 16.º pavimento da pyramide do templo de Tanjur; os San-Prietrini, na cruz de S. Pedro de Roma; os inglezes, na cruz de S. Paulo de Londres; os egypcios no angulo agudo da grande pyramide de Gizeh; os parisienses, nos pára-raios da torre de ferro da exposição de 1889, da altura de tresentos metros, puderam ver uma bandeira a fluctuar em cada um d’estes pontos difficilmente accessiveis.

E essa bandeira era um panno preto, semeado de estrellas, com um sol de ouro no centro.

—E o primeiro que disser o contrario ...

—Serio!... Pois dil-o-hão, se vier a proposito dizer!

—E mesmo apesar das suas ameaças!...

—Tome conta nas suas palavras, Bat Fyn!

—E nas suas, Uncle Prudent!

—Sustento que o helice não deve ficar na parte detraz!

—Tambem nós sustentamos! tambem nós! responderam cincoenta vozes, confundidas n’um som unisono.

—Não!... Deve ficar na parte de deante.

—Na parte de deante! responderam cincoenta outras vozes, com um vigor não menos notavel.

—Nunca chegaremos a um accôrdo!

—Nunca! Nunca!

—Então para que serve disputar?

—Não é disputar!... é discutir!

Ninguem tal diria, ao ouvir as replicas, as objurgatorias, as vociferações, que enchiam a sala das sessões, havia um bom quarto de hora.

É verdade que aquella sala era a maior do Weldon-Institute, o club mais celebre, entre todos, estabelecido em Walnut Street, em Philadelphia, Estado de Pensylvania, nos Estados Unidos da America.

Ora na vespera, na cidade, a proposito da eleição de um acendedor de gaz, houvera manifestações publicas, meetingsruidosos, troca de pancadaria de parte a parte. D’ahi uma effervescencia que não estava ainda serenada, e d’onde provinha talvez aquella sobreexcitação manifestada pelos membros do Weldon-Institute. Comtudo não passava de uma reunião de “balonistas„ discutindo a questão ainda palpitante,—mesmo n’aquella épocha,—da direcção dos balões.

Passava-se isto n’uma cidade dos Estados Unidos, cujo desenvolvimento fôra ainda mais rapido que o de Nova York, de Chicago, de Cincinnati, de S. Francisco,—uma cidade maior que Berlim, Manchester, Edimburgo, Liverpool, S. Petersburgo, uma cidade, finalmente, que conta hoje cêrca de um milhão e duzentas mil almas, e passa por ser a quarta cidade maior do mundo, depois de Londres, Paris, e Nova York.

Philadelphia é quasi uma cidade de marmore, com casas em grande estylo, e estabelecimentos publicos sem rivaes. O mais importante de todos os collegios de Nova York é o collegio Girard, e está em Philadelphia. A maior ponte de ferro, é a ponte lançada sobre o rio Schuylkill, e está na Philadelphia. O mais bello templo da Franco-Maçonaria, é o templo Maçonico, que está em Philadelphia. Finalmente, o maior club dos adeptos da navegação aerea está em Philadelphia. E vamos visital-o n’esta noite de 12 de julho, que lhe acharemos algum interesse.

N’essa grande sala agitavam-se, moviam-se, gesticulavam, falavam, discutiam, disputavam—e todos de chapéo na cabeça,—uns cem balonistas, sob a auctoridade de um presidente, ajudado por um secretario e por um thesoureiro.

Não eram engenheiros de profissão; eram simples amadores de tudo que diz respeito á aerostatica, mas amadores façanhudos, e particularmente inimigos dos que desejam oppôr aos aerostatos os apparelhos “mais pesados que o ar„, machinas volantes, navios aereos e o mais.

Nada era para admirar que essa boa gente nunca chegassea encontrar a direcção dos balões, quando o presidente nem sequer lograva dirigil-os a elles proprios.

Aquelle presidente, bem conhecido em Philadelphia, era famigerado. Chamava-se Uncle Prudent. Prudent, pelo seu nome de familia. Quanto ao qualificativo Uncle, não era para admirar na America, onde se pode ser tio sem ter sobrinho nem sobrinha. Tio, entre elles, como n’outras partes se chama pae, a determinadas pessoas que nunca exerceram a missão da paternidade.

Tio Prudent era uma personagem importante, e a despeito do seu nome, era citado pela sua ousadia. Riquissimo, o que não faz mal a ninguem, mesmo nos Estados Unidos. E como não havia de ser rico, se possuia uma grande parte das acções do Niagara Falls? Fôra n’aquella occasião fundada uma sociedade de engenheiros, em Buffalo, para explorar as cataratas. Excellente negocio. Os sete mil e quinhentos metros cubicos que o Niagara verte por segundo, produzem sete milhões de cavallos a vapor. Aquella fôrça enorme, distribuida por todas as officinas estabelecidas n’um raio de quinhentos kilometros, dava annualmente uma economia de quinhentos milhões de francos, cuja uma parte entraria nas caixas da sociedade e em particular nas algibeiras de Uncle Prudent.

Além d’isso era solteiro, vivia modestamente, tendo por unico pessoal domestico o seu creado Frycollin, que aliás não merecia estar ao serviço de um homem tão audacioso. Ha d’estas anomalias.

Está claro que Uncle Prudent tinha amigos, visto ser rico; mas tinha tambem inimigos, por ser presidente do club, e entre esses inimigos contava todos os que invejavam essa situação. Entre os mais encarniçados, deve-se citar o secretario do Weldon-Institute.

Era Phil Evans riquissimo tambem, porque dirigia aWalton Watch Company, importante armazem de relogios, que fabrica por dia quinhentos movimentos mechanicos, e lança no mercado productos comparaveis aos melhores daSuissa. Phil Evans poderia passar por um dos homens mais felizes do mundo e mesmo dos Estados Unidos, se não fôra a situação de Uncle Prudent. Como elle, tinha quarenta annos; tinha como elle uma saude a toda a prova; como elle uma audacia indiscutivel; como elle, pouco desejo de trocar as vantagens certas do celibato pelas duvidas do casamento. Eram dois homens talhados para se comprehenderem, mas que não se comprehendiam; e ambos de uma extrema violencia de caracter; um a quente, o Uncle Prudent; outro a frio, Phil Evans.

E como é que Phil Evans não fôra nomeado presidente do club? Os votos tinham-se dividido por egual entre Uncle Prudent e elle. Vinte vezes se procedeu ao escrutinio, e vinte vezes não se podéra estabelecer a maioria nem por um nem por outro. Situação embaraçosa, que poderia durar mais que a vida dos dois candidatos.

Um dos membros do club propoz então um meio de se dividirem os votos. Foi Jem Cip, o thesoureiro de Weldon-Institute. Jem Cip era um vegetariano convicto, ou por outra, um d’esses leguministas, dos que proscrevem todo o alimento animal e liquidos fermentados, meio brahmanes, meio mussulmanos; um rival dos Niewman, dos Pitman, dos Ward, dos Davie, que teem illustrado a seita d’esses maniacos inoffensivos.

N’esta occorrencia, Jem Cip foi sustentado por um outro membro do club, William T. Forbes, director de uma grande officina, onde se fabríca a glucose, tratando os trapos por meio do acido sulfurico, o que permitte fazer assucar com pannos velhos. Era um homem bem posto, esse Wiliam T. Forbes, pae de duas encantadoras raparigas: miss Dorothéa, chamada Doll, e miss Martha, chamada Mat, que davam o tom na melhor sociedade de Philadelphia.

Resultou pois, da proposta de Jem Cip, apoiado por Wiliam T. Forbes e alguns outros, que se resolveu nomear o presidente do club por meio do “ponto médio„.

Com effeito este modo de se fazer a eleição podia ser applicadoem todos os casos em que se tratava de eleger o mais digno; e grande numero de americanos de bom senso pensavam já em o empregar para a nomeação do presidente da Republica dos Estados Unidos.

Sobre dois quadrados de uma completa brancura, fôra traçada uma linha preta. O comprimento de cada uma d’estas linhas era mathematicamente o mesmo, porque fôra determinado com tanta exactidão como se se tratasse da base do primeiro triangulo n’um trabalho de triangulação. Feito isto, os dois quadros eram expostos no mesmo dia no meio da sala das sessões; os dois concorrentes muniam-se cada um de uma agulha muito fina e caminhavam simultaneamente para o quadro que lhes estava destinado. Aquelle dos dois rivaes que pregasse a agulha mais ao meio da linha, seria proclamado presidente do Weldon-Institute.

É claro que a operação devia ser feita de repente, sem hesitações, sem tacteamentos, unicamente pela firmeza da vista. Ter o compasso no olho, segundo a phrase popular.

Uncle Prudent espetou a sua agulha, ao mesmo tempo que Phil Evans a sua. Depois tomou-se a medida, afim de decidir qual dos concorrentes se approximára mais do ponto médio.

Oh! prodigio! Tal fôra a precisão das operações que as medidas não deram differença sensivel. Se não era precisamente o meio mathematico da linha, era tão pouco sensivel o afastamento entre as duas agulhas, que parecia ser o mesmo nas duas.

D’ahi grande embaraço na assembléa.

Felizmente um dos membros, Truk Milnor, insistiu por que as medidas fôssem de novo tomadas por meio de uma regua graduada pelos processos da machina micrometrica do sr. Perreaux, que permitte dividir o millimetro em quinhentas partes. Esta regua, que dá quinze centesimos de millimetro traçados com uma lasca de diamante, serve paraverificar as medidas, e tendo-se lido as divisões por meio do micrometro, obtiveram-se os resultados seguintes:

Uncle Prudent approximára-se do ponto médio menos de seis quinze centesimos de millimetro, Phil Evans menos de nove quinze centesimos.

E ahi está porque Phil Evans não ficou senão secretario do Weldon-Institute, emquanto que Uncle Prudent foi proclamado presidente do club.

Uma differença de tres quinze centesimos de millimetro foi o sufficiente para que Phil Evans votasse a Uncle Prudent um d’esses odios que, por serem latentes, não são menos ferozes.

N’aquella épocha, depois das experiencias tentadas no ultimo quartel do seculo XIX, a questão dos balões dirigiveis não deixára de fazer alguns progressos. As barquinhas munidas de helices propulsivos, suspensas em 1852 aos aerostatos de forma alongada de Henry Giffard, em 1872, aos de Depuy de Lome, em 1883, aos de Tissandier Irmãos, em 1884, aos dos capitães Krebs e Renard, haviam dado certos resultados que era necessario ter em consideração.

Mas se estas machinas, immersas n’um meio mais pesado do que ellas, manobrando sob o impulso de um helice, obliquando com a linha de vento, servindo-se mesmo de uma brisa contraria para voltar ao seu ponto de partida, eram d’esse modo realmente “dirigidas„, não tinham podido conseguir este resultado senão graças a umas circumstancias extremamente favoraveis. Em vastos recintos fechados e cobertos, perfeitamente! N’uma atmosphera serena, muito bem! Com um vento brando de cinco a seis metros por segundo, ainda vá! Mas a verdade é que nada de positivo se obtivera. Contra um vento de moinho, de oito metros por segundo, aquellas machinas ficariam pouco mais ou menos estacionarias; contra uma brisa fresca,—dez metros por segundo,—caminhariam para traz; vinte e cinco a trinta metros por segundo, seriam arrebatadas como uma penna; no meio de um furacão, quarenta e cinco metros por segundo,correriam talvez o risco de serem espedaçadas; finalmente com um d’esses cyclones que chegam a mais de cem metros por segundo, não ficaria um pedaço!

Era portanto sabido que, mesmo depois das experiencias tão faladas dos capitães Krebs e Renard, se os aerostatos dirigiveis tinham ganho uma certa velocidade, era justamente o necessario para se manterem contra uma simples brisa. D’ahi a impossibilidade de usar praticamente, até então, d’esse modo de locomoção aerea.

Seja como fôr, ao lado d’este problema da direcção dos aerostatos, isto é, dos meios empregados para lhes dar uma velocidade propria, a questão dos motores tinha feito progressos incomparavelmente mais rapidos. Ás machinas a vapor de Henry Giffara, ao emprego da fôrça muscular de Depuy de Lome, tinham-se substituido a pouco e pouco os motores electricos.

Ás baterias de bichromato de potassa, formando elementos montados em tensão, os srs. Tissandier Irmãos deram uma velocidade de quatro metros por segundo. As machinas dynamo-electricas dos capitães Krebs e Renard, desenvolvendo uma fôrça de doze cavallos, imprimiram uma velocidade de seis metros e cincoenta, termo médio.

E então, n’esse caminho á busca do melhor motor, os engenheiros e especialistas da electricidade tinham procurado approximar-se cada vez mais d’esse desideratum que se pode chamar “um cavallo de vapor n’uma caixa de relogio„. De modo que a pouco e pouco os effeitos da pilha, de que os capitães Krebs e Renard tinham guardado silencio, eram ultrapassados e, depois d’elles, os aerostatos tinham podido servir-se de motores, cuja ligeireza ia crescendo ao par da sua fôrça.

Havia portanto já com que animar os adeptos que acreditavam na utilisação dos balões dirigiveis. E, no entanto, quantos espiritos lucidos se negavam a admittir esta utilisação! Com effeito, se o aerostato encontra um ponto de apoio no ar, pertence a esse meio em que está todo immerso.Em taes condições como é que a sua massa, que dá tanto flanco ás correntes da atmosphera, poderia fazer frente a ventos médios, por mais poderoso que fôsse o seu propulsor?

Era a eterna questão, mas esperavam resolvel-a empregando apparelhos de grandes dimensões.

Ora acontecia que, n’esta lucta de inventores á busca de um motor poderoso e leve, os americanos se tinham approximado cada vez mais dodesideratum. Um apparelho dynamo-electrico, baseado no emprego de uma pilha nova, cuja composição era ainda um mysterio, tinha sido comprado ao seu inventor, um chimico de Boston até então desconhecido. Calculos feitos com o maior cuidado, diagrammas levantados com a maior exactidão, demonstravam que com aquelle apparelho, actuando n’um helice de dimensão conveniente, se poderia obter deslocamentos de dezoito a vinte metros por segundo.

Na realidade, sería magnifico!

—E não é caro! tinha accrescentado Uncle Prudent, entregando ao inventor, em troca do seu recibo em forma, o ultimo maço dos cem mil dollars em papel, com que lhe pagavam o seu invento.

Immediatamente, o Weldon-Institute puzera mãos á obra. Quando se trata de uma experiencia que pode ter alguma utilidade prática, o dinheiro sae de boa vontade das algibeiras americanas. Os fundos affluem sem que mesmo seja necessario constituir uma sociedade por acções. Tresentos mil dollars,—o que faz a somma de quinhentos mil francos,—vieram ao primeiro appello amontoar-se nos cofres do club. Os trabalhos começaram sob a direcção do mais celebre aeronauta dos Estados Unidos, Harry W. Tinder, immortalisado pelas suas tres ascensões, entre mil: uma durante a qual subira a doze mil metros, mais alto que Guy-Lussac, Coxwell, Sivel, Crocé-Spinelli, Tissandier, Glaisher; a outra, durante a qual atravessára toda a America, de Nova York a S. Francisco, indomuitas centenas de leguas além dos itinerarios de Nodar, dos Godard, e de tantos outros, não falando n’esse John Wise que tinha feito mil cento e cincoenta milhas de S. Luiz ao condado de Jefferson; a terceira, finalmente, que terminára por uma quéda horrorosa de mil e quinhentos pés, á custa de uma simples escoriação no pulso direito, emquanto que Pilatre de Rozier, menos feliz, por ter cahido apenas de setecentos pés, ficára morto de um só golpe.

No momento em que esta historia começa, podia-se dizer que o Weldon-Institute entrava abertamente no assumpto. Nos estaleiros de Turner, na Philadelphia, extendia-se um enorme aerostato, cuja solidez ia ser experimentada, comprimido o ar sob uma forte pressão. Este era o que, entre todos, merecia o nome de balão monstro.

Com effeito, quanto media oGigantede Nadar? Seis metros cubicos. Quanto o balão Giffard, da Exposição de 1878? Vinte e cinco mil metros cubicos, com dezoito metros de raio. Comparem estes tres aerostatos com a machina aerea do Weldon-Institute, cujo volume era de quarenta mil metros cubicos, e comprehenderão que Uncle Prudent e seus collegas tinham algum direito para se encherem de orgulho.

Não sendo esse balão destinado a explorar as altas camadas da atmosphera, não se chamavaExcelsior, qualificativo muito querido dos americanos. Não! chamava-se simplesmente oGo a head,—o que quer dizer:—“Ávante„—e não lhe restava mais do que justificar o seu nome, obedecendo a todas as manobras do seu capitão.

N’aquella épocha, a machina dynamo-electrica estava quasi completamente concluida, segundo o systema cujo privilegio fôra adquirido pelo Weldon-Institute. Podia-se contar que antes das seis semanas, oGo a headlargaria vôo através do espaço.

Como vimos, todas as difficuldades da machina não estavam ainda removidas. Muitas sessões tinham sido consagradasa discutir, não a forma do helice, nem as suas dimensões, mas a questão de saber se seria collocado atraz do apparelho, como haviam feito os Irmãos Tissandier, ou adeante, como haviam feito os capitães Krebs e Renard. Inutil é accrescentar que, n’aquella discussão, os partidarios dos dois systemas tinham chegado a vias de facto. O grupo dos “adeantistas„ egualava em numero o grupo dos “atrazistas„. Uncle Prudent, cujo voto teria de preponderar no caso do empate, Uncle Prudent, educado na eschola do professor Buridan, não tinha chegado ainda a pronunciar-se.

D’ahi a impossibilidade de se entenderem, a impossibilidade de pôrem o helice no seu logar. Isso podia durar muito tempo, se o governo não entreviesse. Mas nos Estados Unidos, como se sabe, o governo não gosta de se entremetter nas questões particulares, nem no que lhe não diz respeito, e n’isso tem toda a razão.

Estavam as cousas n’esse ponto, e aquella sessão de 13 de junho ameaçava não acabar ou antes acabar no meio do mais espantoso tumulto; tanto as injurias respondiam a injurias, os sôccos ás injurias, as bengaladas aos sôccos, os tiros de revolver ás bengaladas, quando ás oito e trinta e sete se produziu uma diversão.

O porteiro do Weldon-Institute, frio e tranquillo como um policia no meio das tempestades de um meeting, approximára-se da mesa da presidencia, e entregára-lhe uma carta. Esperava pelas ordens que a Uncle Prudent lhe conviesse dar.

Uncle Prudent fez resoar a trombeta de vapor, que lhe servia de campainha presidencial, porque nem o sino de Kremlin lhe bastaria. Mas o tumulto não diminuiu por isso. Então o presidente descobriu-se, e um meio silencio se obteve, graças áquella medida extrema.

—Uma communicação! disse Uncle Prudent, depois de tomar uma enorme pitada, da caixa de rapé que nunca o largava.

—Fale! fale! responderam noventa e nove vozes, por um acaso uniformes n’este ponto.

—Meus caros collegas, um extrangeiro pede para ser recebido na sala das nossas sessões.

—Nunca! responderam todas as vozes.

—Deseja provar-nos, ao que parece, respondeu Uncle Prudent, que acreditar na direcção dos balões é acreditar na mais absurda das utopias.

Um grunhido acolheu esta declaração.

—Que entre! Que entre!

—Como se chama esse singular personagem? perguntou Phil Evans.

—Robur, respondeu Uncle Prudent.

—Robur!... Robur!... Robur!... rugiu a assembléa em pêso.

E se o accôrdo se fizera tão rapidamente sobre aquelle nome singular, é porque o Weldon-Institute esperava poder descarregar sobre aquelle que o usava o seu exaspero a trasbordar.

A tempestade tinha-se apasiguado um instante, pelo menos na apparencia. Porque, como é que uma tempestade podia acalmar n’um povo que as envia ás duas ou tres por mez, para a Europa, sob forma de borrascas?

—Cidadãos dos Estados Unidos da America, eu chamo-me Robur, e sou digno d’este nome. Tenho quarenta annos,embora não pareça ter mais de trinta; tenho uma constituição de ferro, uma saude a toda a prova, uma notavel fôrça muscular, um estomago que pareceria excellente, mesmo no mundo dos abestruzes. Isto quanto ao physico.

Todos o escutavam. Sim! Os turbulentos ficaram de repente estupefactos com o inesperado d’aquelle discurso,pro facie sua. Sería um louco ou um mystificador? Seja como fôr, o facto é que impunha e se impunha. Nem o mais leve sopro se sentia agora n’aquella assembléa, onde havia pouco se desencadeava a tempestade. A calma após o marulhar das ondas.

Além de que Robur parecia bem ser o homem que elle dizia. Estatura mediana, geometricamente quadrado de tronco,—de modo que formava, por assim dizer, um trapesio regular, cujo maior dos lados parallelos era formado pela linha das espaduas. Sobre esta linha, e presa por um pescoço robusto, uma enorme cabeça espheroidal. A darmos razão ás theorias da analogia, com que animal se parecia elle? Com um touro; mas um touro de physionomia intelligente.—Olhos que á menor contrariedade se tornavam incandescentes, e, por cima, uma permanente contracção do musculo sobreciliar, signal de extrema energia. Cabellos curtos, um tanto crespos, com reflexos metallicos, como sería um topete em palha de ferro. Amplo peito, que se erguia e se abaixava com movimentos de folle. Braços mãos, pernas, pés, tudo digno do tronco. Nem sombra de bigode, nem suissa: uma larga barba de marinheiro, á americana, o que deixava ver os encontros da queixada, cujos musculos masseters deviam ter uma fôrça formidavel. Calculou-se,—e o que se não tem calculado?—que a pressão de uma mandibula de crocodilo vulgar pode attingir quatrocentas atmospheras, quando a do cão de caça, de grande estatura, não desenvolve mais de cem. Chegou-se mesmo a estabelecer a seguinte fórmula: se um kilo de cão produz oito kilos de fôrça masseterica, um kilo de crocodilo deve produzir doze. Pois bem:—um kilo do sobreditoRobur devia produzir pelo menos dez. Estava portanto entre o cão e o crocodilo.

De que paiz vinha então aquelle notavel typo? É o que sería difficil dizer. Entretanto elle exprimia-se correntemente em inglez, sem aquella accentuação um tanto arrastada que distingue os Yankees da Nova Inglaterra.

Continuou nos seguintes termos:

—Agora quanto ao moral, respeitaveis cidadãos. Tendes deante de vós um engenheiro cujo moral não é inferior ao seu physico. Não tenho medo de ninguem. Tenho uma fôrça de vontade que jámais cedeu a nenhuma outra. Deante de um fim a que eu me propuzesse, em vão a America toda, em vão o mundo inteiro se colligariam para impedir que eu o realisasse. Quando tenho uma idéa, entendo que a devem partilhar, e não supporto contrariedades. Insisto n’estes pormenores, respeitaveis cidadãos, porque é necessario que me conheçaes a fundo. Entendem talvez que eu falo demasiadamente em mim. Não importa! E agora reflecti antes de me interromperem, porque vim no proposito de vos dizer cousas que não terão talvez o dom de vos ser agradaveis.

Um ruido de resaca começou a espalhar-se pelas primeiras bancadas da assembléa,—signal de que o mar não tardaria a tornar-se tempestuoso.

—Fale, digno extrangeiro,—limitou-se a dizer Uncle Prudent, que se continha com esforço.

E Robur falou como d’antes, sem se preoccupar com o auditorio.

—Sim! Bem sei! Depois de um seculo de experiencias sem resultado, de tentativas inuteis, ha ainda espiritos mal equilibrados que se obstinam em acreditar na direcção dos balões. Imaginam que um motor qualquer, electrico ou outro, pode ser applicado ás suas pretenciosas geringonsas, que offerecem tamanho flanco ás correntes atmosphericas. Imaginam que podem ser senhores de um aerostato, como se é senhor de um navio na superficie dasaguas. Pois pelo facto de alguns inventores, por um tempo calmo, conseguirem, quer obliquar com o vento, quer subir com uma brisa ligeira, significa isso que se torna prática a direcção de apparelhos aereos mais leves que o ar? Deixem-se d’isso! Sois aqui uns cem que acreditando na realisação dos vossos sonhos, lançaes, não á agua, mas ao ar, milhares de dollars. Pois bem! isso é luctar com o impossivel!

Cousa singular! deante d’esta affirmação, os membros do Weldon-Institute não tugiram nem mugiram. Ter-se-hiam tornado tão surdos, quanto pacientes? Guardariam reserva, a vêr até onde se atrevia a ir esse audacioso contradictor?

Robur continuou:

—Um balão!... quando para obter um aligeiramento de um kilogramma, é necessario um metro cubico de gaz! Um balão, que tem a pretensão de resistir ao vento com o auxilio do seu mechanismo, quando o impulso de um forte vento na véla de um navio não é inferior á fôrça de quatrocentos cavallos; quando se viu, ao oéste da ponte de Tay, que o furacão exercêra uma pressão de quarenta kilos por metro quadrado! Um balão! quando jámais a natureza construiu sobre esse systema nenhum ser que vôe, que esteja munido de azas como as aves, ou de membranas como certos peixes e certos mammiferos!...

—Mammiferos?... exclamou um dos membros do club.

—Sim! o morcego, que vôa, se me não engano! Porventura o meu interruptor ignora que esse volatil é um mammifero, e já se viu alguma vez fazer uma omelette com os ovos do morcego?

Com isto o interruptor recolheu as suas futuras interrupções, e Robur continuou com a mesma desenvoltura:

—Mas quer isto dizer que o homem deva renunciar á conquista do ar, a transformar os costumes civis e politicos do velho mundo, servindo-se d’esse admiravel meio de locomoção? Não! E do mesmo modo que elle se tornou senhordos mares, com o navio, por meio do leme e da véla, da roda e do helice, do mesmo modo se tornará senhor do espaço atmospherico por meio de apparelhos mais pesados do que o ar, porque é necessario ser-se mais pesado do que elle, para se ser mais do que elle forte.

D’esta vez a assembléa explodiu. Que descarga de gritos partindo de todas as bôccas, dirigidas contra Robur, como outros tantos canos de espingarda ou guellas de canhão! Pois não precisava de resposta aquella verdadeira declaração de guerra, lançada no campo dos balonistas? Não era a lucta que ia começar entre o “Mais ligeiro„ e o “Mais pesado que o ar„?

Robur nem pestanejou. Com os braços cruzados sobre o peito, esperava corajosamente que o silencio se restabelecesse.

Uncle Prudent, com um gesto, ordenou que o fogo cessasse.

—Sim, continuou Robur. O futuro é das machinas volantes. O ar é um ponto de apoio solido. Imprima-se a uma columna d’este fluido um movimento ascensional de quarenta e cinco metros por segundo, e um homem poderá manter-se na sua parte superior, se as solas dos seus sapatos medirem uma superficie de um oitavo de metro quadrado apenas. E se a velocidade da columna fôr elevada a noventa metros, poderá caminhar a pés nús. Ora fazendo fugir, sob as hastes de um helice, uma massa de ar com aquella rapidez, obtem-se o mesmo resultado.

O que Robur estava dizendo era o que antes d’elle tinham dito todos os partidarios da aviação, cujos trabalhos deviam, lentamente, mas com um effeito seguro, conduzir á solução do problema. Cabe aos srs. de Ponton d’Amécourt, de La Landelle, Nadar, de Luzy, de Louvrié, Liais, Béléguic, Moreau, irmãos Richard, Babinet, Jobert, du Temple, Salives, Penaud, de Villeneuve, Gauchot e Tatin, Michel Loup, Edison, Planavergne e tantos outros finalmente, a honra de haverem propagado idéas tão simples! Abandonadase tornadas a adoptar muitas vezes, não podiam deixar de triumphar um dia. Aos inimigos da aviação, que pretendiam que a ave não se sustem senão pelo facto de aquecer o ar com que se entufa, a resposta não tardou. Pois não haviam provado que uma aguia, que pesasse cinco kilos, teria de se encher de cincoenta metros cubicos d’esse fluido quente, só para se suster no espaço?

Foi o que Robur demonstrou, com uma logica innegavel, no meio da vozearia que se levantava de todos os lados. E como conclusão, eis as phrases que elle lançou á cara dos balonistas:

—Com os vossos aerostatos, nada podereis, a nada chegareis, não vos atrevereis a cousa alguma. O mais intrepido dos vossos aeronautas, John Wise, apesar de ter já feito uma travessia aerea de mil e duzentas milhas acima do continente americano, teve de renunciar ao seu projecto de atravessar o Atlantico. E depois, não vos atrevestes a avançar um passo, um só, n’esse caminho.

—Meu caro senhor, disse então o presidente, que se esforçava por estar tranquillo, não se esqueça do que disse o nosso immortal Franklin, quando appareceu o primeiromontgolfière, no momento em que o balão ia nascer. “Não passa de uma creança, mas ha de crescer„. E cresceu ...

—Não, presidente, não! Não cresceu ... Engordou apenas ... o que não é a mesma cousa.

Era um ataque directo aos projectos do Weldon-Institute, que havia decretado, sustentado, pago a construcção, de um aerostato monstro. De modo que em breve se cruzaram na sala propostas do seguinte teor, bem pouco tranquillisadoras:

—Abaixo o intruso!

—Expulsem-n’o da tribuna!...

—Para lhe provar que é mais pesado que o ar!

E muitas outras.

Mas não passavam de palavras; não chegavam a vias de facto. Robur impassivel, poude ainda exclamar;

—O progresso não pertence aos aerostatos, cidadãos balonistas, mas aos apparelhos volantes. O passaro vôa, e não é um balão, é um machinismo!...

—Sim! vôa, exclamou o fogoso Bat T. Fyn, mas vôa contra todas as regras da mechanica!

—Sério! respondeu Robur, encolhendo os hombros.

E continuou:

—Depois que se estudou o vôo dos pequenos e grandes voadores, esta idéa simplicissima prevaleceu:—é que basta imitar a natureza, porque ella nunca se engana. Entre o albatrós que a voar dá com as azas dez vezes por minuto, entre o pelicano que dá setenta ...

—Setenta e uma! disse uma voz zombeteira.

—E a abelha que dá cento e noventa e duas, por segundo ...

—Cento e noventa e tres! exclamaram, continuando a zombar.

—E a môsca vulgar que dá tresentas e trinta ...

—Tresentas e trinta e meia!

—E o mosquito que dá milhões ...

—Não ... milhares de milhões!

Mas Robur não interrompeu a sua demonstração.

—Entre estes diversos vôos ...

—Oh! vae uma grande differença! replicou uma voz.

— ... entre estas divergencias ha a possibilidade de encontrar uma solução prática. No dia em que o sr. Lucy poude consignar que um escaravelho, esse insecto que não pesa mais de duas grammas, podia com um pêso de quatrocentas grammas, isto é, duzentas vezes o seu pêso, o problema da aviação estava resolvido. Além d’isso, estava demonstrado que a superficie da aza decresce relativamente, á medida que vão augmentando a dimensão e pêso do animal. D’ahi chegou-se a imaginar e a construir mais de sessenta apparelhos ...

—Que nunca puderam voar! exclamou o secretario Phil Evans.

—Que voaram e continuaram a voar, respondeu Robur, sem se desconcertar. E quer lhes chamem streophoros, helicopteros, orthoptheros; quer, á imitação do que fizeram com respeito á palavranavis, tirando d’ella a palavra nave ou navio, queiram deduzir o seu nome deavis, o caso é que se chega ao apparelho cuja invenção deve tornar o homem senhor do espaço.

—Oh! o helice! observou Phil Evans. Mas a ave não tem helice ... que nos conste!

—Tem! respondeu Robur. Como o demonstrou o sr. Penaud, de facto a ave torna-se helice, e o seu vôo é helicoptero. De modo que o motor do futuro é o helice ...


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