XXVO CAPTIVO

XXVO CAPTIVO

Vendido no mercado de Salé pelos corsarios que o tomaram, um pobre captivo christão vai ser escravo de avarento e ricco judeu, que lhe dá negra vida. É o primeiro capítulo de uma historia sabida e commum: e naturalmente se espera ja o segundo, que é namorar-se do interessante captivo a bella filha do mau perro judio, animá-lo, consolá-lo, querer fugir com elle de moirama.—Atéqui vamos pela estrada coimbran d’estas aventuras, que por seculos foram quasi quotidianas entre nós. Mas d’ahi por deante o caso sai um tanto da marcha ordinaria. O captivo não renega nem foge com a bella judia; e ella apaixonada, rendida, perdida... conhece porfim que não é amada: nos molles braços daamante, o ingrato christão suspirava, chorava por sua terra talvez, por outros amores, quem sabe? Mas

‘Chorava—que não por ella!’

‘Chorava—que não por ella!’

‘Chorava—que não por ella!’

‘Chorava—que não por ella!’

Não se espera a vingança da bella judia: da-lhe dinheiro para se resgatar, dinheiro do seu d’ella que sua mãe lhe deixára. Apertada pelo pae que suspeita a verdade, ella confessa tudo, mas defende o christão por innocente; e só de uma alta tôrre, contempla a última vela que lhe foge no horisonte com o ingrato amante.

O romance anda por Lisboa, Ribatejo e Extremadura fóra; não me chegou informação de que se internasse mais pelas provincias: não deve de ser mais antigo que o meado do seculoXVIIse a copla em que se allude a Ceuta e a Mazagão não é ‘rifacimento’ moderno, como tambem póde ser, e me inclino a crer que é, porque no resto, o sabor e o stylo é mais velho.

Não apparece nas collecções castelhanas; e se não foi originalmente escripto em portuguez,nacionalizou-se por tal modo, que se lhe não descobre vestigio bem auctorisado e certo de outra origem. Nem façam dúvida os artigoslo,laem vez deo,a; porque não só os escriptores antigos, mas o povo de hoje os substitue assim a miudo quando lh’o pede o mal soante do hyato. Tambem dizemmi’porminha,padreemadreporpaeemãe; e outros que parecem castelhanismos sem o serem.Me’ paediz ainda hoje, por euphonia, o alemtejano, como em tempos de Gil-Vicente, se dizia e cantavam’ amorpormeu amor.

Eu vinha do mar de Hamburgo[61]N’uma linda caravella;Captivaram-nos os moirosEntre la paz e la guerra.Para vender me levaram[62]A Salé, que é sua terra.Não houve moiro nem moiraQue por mim nem branca dera[63];Só houve um perro judioQue alli comprar-me quizera;Dava-me uma negra vida,Dava-me uma vida perra:De dia pisar esparto,De noite moer canella,E uma mordaça na bôccaPara lhe eu não comer d’ella.Mas foi a minha fortuna.Dar c’uma patroa bella,Que me dava do pão alvo,Do pão que comia ella.Dava-me do que eu queria,E mais do que eu não quizera,Que nos braços da judiaChorava—que não por ella.Dizia-me então:—‘Não chores,Christão, vai-te á tua terra.’—‘Como me heide eu ir, senhora,Se me falta la moeda?’—‘Se fôra por um cavallo,Eu uma egua te dera[64];Se fosse por um navio,Dera-te uma caravella[65].’—‘Não fôra por um cavallo,Não fôra, senhora bella,Que está longe Mazagão,Ceuta tem voz de Castella.Nem por navio não fôra,Que eu fugir não quizera,Que era roubar a teu paeDinheiro que por mim dera.’—‘Toma ésta bolsa, christão,Feita de seda amarella[66];Minha mãe quando morreuMe deixou senhora d’ella.Vai-te, paga o teu resgate;E ás damas de tua terraDirás o amor da judiaQuanto mais vale que o d’ellas.’Palavras não eram dittas,O patrão que era chegado.—‘Venhais embora, patrão,E vinde com Deus louvado,Que agora tenho recadoQue o meu resgate é chegado[67].’—‘Christão, Christão, que disseste!Olha que é muito cruzado.Quem te deu tanto dinheiroPara seres resgatado?’—‘Duas irmans m’o ganharam.Outra m’o tinha guardado[68];E um anjo do ceo m’o trouxe,Um anjo por Deus mandado.’—‘Dize-me, ó christão, dizeSe queres ser renegado,Que te heide fazer meu genro,Senhor de todo o meu estado.’-—‘Eu não quero ser judioE nem turco arrenegado,E não quero ser senhor,De todo esse teu estado[69],Porque trago no meu peitoA Jesus crucificado[70].’—‘Que tens tu, filha Rachel[71]?Dize-me cá, filha amada,Se é pelo christão malditto[72]Que ficaste desgraçada.’—‘Meu pae, deixe o christão, deixe,Que elle não me deve nada:Deve-me a flor de meu corpo,Mas de vontade foi dada.’Mandou fazer-lhe uma tôrreDe pedraria lavrada;Que não dissessem os moiros:—‘A judia é deshonrada.’Violla, minha violla,Fica-te aqui pendurada[73],Que lá vão os meus amoresPor essa agua salgada.

Eu vinha do mar de Hamburgo[61]N’uma linda caravella;Captivaram-nos os moirosEntre la paz e la guerra.Para vender me levaram[62]A Salé, que é sua terra.Não houve moiro nem moiraQue por mim nem branca dera[63];Só houve um perro judioQue alli comprar-me quizera;Dava-me uma negra vida,Dava-me uma vida perra:De dia pisar esparto,De noite moer canella,E uma mordaça na bôccaPara lhe eu não comer d’ella.Mas foi a minha fortuna.Dar c’uma patroa bella,Que me dava do pão alvo,Do pão que comia ella.Dava-me do que eu queria,E mais do que eu não quizera,Que nos braços da judiaChorava—que não por ella.Dizia-me então:—‘Não chores,Christão, vai-te á tua terra.’—‘Como me heide eu ir, senhora,Se me falta la moeda?’—‘Se fôra por um cavallo,Eu uma egua te dera[64];Se fosse por um navio,Dera-te uma caravella[65].’—‘Não fôra por um cavallo,Não fôra, senhora bella,Que está longe Mazagão,Ceuta tem voz de Castella.Nem por navio não fôra,Que eu fugir não quizera,Que era roubar a teu paeDinheiro que por mim dera.’—‘Toma ésta bolsa, christão,Feita de seda amarella[66];Minha mãe quando morreuMe deixou senhora d’ella.Vai-te, paga o teu resgate;E ás damas de tua terraDirás o amor da judiaQuanto mais vale que o d’ellas.’Palavras não eram dittas,O patrão que era chegado.—‘Venhais embora, patrão,E vinde com Deus louvado,Que agora tenho recadoQue o meu resgate é chegado[67].’—‘Christão, Christão, que disseste!Olha que é muito cruzado.Quem te deu tanto dinheiroPara seres resgatado?’—‘Duas irmans m’o ganharam.Outra m’o tinha guardado[68];E um anjo do ceo m’o trouxe,Um anjo por Deus mandado.’—‘Dize-me, ó christão, dizeSe queres ser renegado,Que te heide fazer meu genro,Senhor de todo o meu estado.’-—‘Eu não quero ser judioE nem turco arrenegado,E não quero ser senhor,De todo esse teu estado[69],Porque trago no meu peitoA Jesus crucificado[70].’—‘Que tens tu, filha Rachel[71]?Dize-me cá, filha amada,Se é pelo christão malditto[72]Que ficaste desgraçada.’—‘Meu pae, deixe o christão, deixe,Que elle não me deve nada:Deve-me a flor de meu corpo,Mas de vontade foi dada.’Mandou fazer-lhe uma tôrreDe pedraria lavrada;Que não dissessem os moiros:—‘A judia é deshonrada.’Violla, minha violla,Fica-te aqui pendurada[73],Que lá vão os meus amoresPor essa agua salgada.

Eu vinha do mar de Hamburgo[61]N’uma linda caravella;Captivaram-nos os moirosEntre la paz e la guerra.Para vender me levaram[62]A Salé, que é sua terra.Não houve moiro nem moiraQue por mim nem branca dera[63];Só houve um perro judioQue alli comprar-me quizera;Dava-me uma negra vida,Dava-me uma vida perra:De dia pisar esparto,De noite moer canella,E uma mordaça na bôccaPara lhe eu não comer d’ella.Mas foi a minha fortuna.Dar c’uma patroa bella,Que me dava do pão alvo,Do pão que comia ella.Dava-me do que eu queria,E mais do que eu não quizera,Que nos braços da judiaChorava—que não por ella.

Eu vinha do mar de Hamburgo[61]

N’uma linda caravella;

Captivaram-nos os moiros

Entre la paz e la guerra.

Para vender me levaram[62]

A Salé, que é sua terra.

Não houve moiro nem moira

Que por mim nem branca dera[63];

Só houve um perro judio

Que alli comprar-me quizera;

Dava-me uma negra vida,

Dava-me uma vida perra:

De dia pisar esparto,

De noite moer canella,

E uma mordaça na bôcca

Para lhe eu não comer d’ella.

Mas foi a minha fortuna.

Dar c’uma patroa bella,

Que me dava do pão alvo,

Do pão que comia ella.

Dava-me do que eu queria,

E mais do que eu não quizera,

Que nos braços da judia

Chorava—que não por ella.

Dizia-me então:—‘Não chores,Christão, vai-te á tua terra.’—‘Como me heide eu ir, senhora,Se me falta la moeda?’—‘Se fôra por um cavallo,Eu uma egua te dera[64];Se fosse por um navio,Dera-te uma caravella[65].’—‘Não fôra por um cavallo,Não fôra, senhora bella,Que está longe Mazagão,Ceuta tem voz de Castella.Nem por navio não fôra,Que eu fugir não quizera,Que era roubar a teu paeDinheiro que por mim dera.’—‘Toma ésta bolsa, christão,Feita de seda amarella[66];Minha mãe quando morreuMe deixou senhora d’ella.Vai-te, paga o teu resgate;E ás damas de tua terraDirás o amor da judiaQuanto mais vale que o d’ellas.’

Dizia-me então:—‘Não chores,

Christão, vai-te á tua terra.’

—‘Como me heide eu ir, senhora,

Se me falta la moeda?’

—‘Se fôra por um cavallo,

Eu uma egua te dera[64];

Se fosse por um navio,

Dera-te uma caravella[65].’

—‘Não fôra por um cavallo,

Não fôra, senhora bella,

Que está longe Mazagão,

Ceuta tem voz de Castella.

Nem por navio não fôra,

Que eu fugir não quizera,

Que era roubar a teu pae

Dinheiro que por mim dera.’

—‘Toma ésta bolsa, christão,

Feita de seda amarella[66];

Minha mãe quando morreu

Me deixou senhora d’ella.

Vai-te, paga o teu resgate;

E ás damas de tua terra

Dirás o amor da judia

Quanto mais vale que o d’ellas.’

Palavras não eram dittas,O patrão que era chegado.—‘Venhais embora, patrão,E vinde com Deus louvado,Que agora tenho recadoQue o meu resgate é chegado[67].’—‘Christão, Christão, que disseste!Olha que é muito cruzado.Quem te deu tanto dinheiroPara seres resgatado?’—‘Duas irmans m’o ganharam.Outra m’o tinha guardado[68];E um anjo do ceo m’o trouxe,Um anjo por Deus mandado.’—‘Dize-me, ó christão, dizeSe queres ser renegado,Que te heide fazer meu genro,Senhor de todo o meu estado.’-—‘Eu não quero ser judioE nem turco arrenegado,E não quero ser senhor,De todo esse teu estado[69],Porque trago no meu peitoA Jesus crucificado[70].’

Palavras não eram dittas,

O patrão que era chegado.

—‘Venhais embora, patrão,

E vinde com Deus louvado,

Que agora tenho recado

Que o meu resgate é chegado[67].’

—‘Christão, Christão, que disseste!

Olha que é muito cruzado.

Quem te deu tanto dinheiro

Para seres resgatado?’

—‘Duas irmans m’o ganharam.

Outra m’o tinha guardado[68];

E um anjo do ceo m’o trouxe,

Um anjo por Deus mandado.’

—‘Dize-me, ó christão, dize

Se queres ser renegado,

Que te heide fazer meu genro,

Senhor de todo o meu estado.’

-—‘Eu não quero ser judio

E nem turco arrenegado,

E não quero ser senhor,

De todo esse teu estado[69],

Porque trago no meu peito

A Jesus crucificado[70].’

—‘Que tens tu, filha Rachel[71]?Dize-me cá, filha amada,Se é pelo christão malditto[72]Que ficaste desgraçada.’—‘Meu pae, deixe o christão, deixe,Que elle não me deve nada:Deve-me a flor de meu corpo,Mas de vontade foi dada.’

—‘Que tens tu, filha Rachel[71]?

Dize-me cá, filha amada,

Se é pelo christão malditto[72]

Que ficaste desgraçada.’

—‘Meu pae, deixe o christão, deixe,

Que elle não me deve nada:

Deve-me a flor de meu corpo,

Mas de vontade foi dada.’

Mandou fazer-lhe uma tôrreDe pedraria lavrada;Que não dissessem os moiros:—‘A judia é deshonrada.’Violla, minha violla,Fica-te aqui pendurada[73],Que lá vão os meus amoresPor essa agua salgada.

Mandou fazer-lhe uma tôrre

De pedraria lavrada;

Que não dissessem os moiros:

—‘A judia é deshonrada.’

Violla, minha violla,

Fica-te aqui pendurada[73],

Que lá vão os meus amores

Por essa agua salgada.


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