XXXDOM DUARDOS

XXXDOM DUARDOS

O último conhecido dos nossos poetas populares antigos, o verdadeiro fundador do theatro d’Hespanha, Gil-Vicente, não era só poeta comico, segundo vulgarmente se crê ás cegas, porque poucos abrem os olhos para o ler com attenção, para estudar n’elle, como todos deviam, lingua, costumes, stylo, côr e tom nacional da epocha: nenhum outro escriptor portuguez os teve tam verdadeiros, tam characterizados e sinceros.

O romance heroico ou epico, isto é, o que celebrava grandes feitos e successos nacionaes, ou interessantes aventuras de guerras e de amores—que d’elle tomaram depois o appellido deromanescas, ou porque nãoromancescas? hoje mais inglezadamenteromanticas—esteque tambem rhymou muitas vezes devotas legendas de sanctos e de milagres, os passos da historia sagrada de ambos os Testamentos, e até os proprios mysterios do dogma; o romance epico em toda a sua primitiva simpleza foi tambem cultivado por Gil-Vicente.

Com elle e com Bernardim-Ribeiro creio que morreu, litterariamente fallando, nos fins do seculoXV, principios doXVI, para resuscitar depois, á primeira trombeta do seiscentismo, como todos os generos populares que por essa reacção resurgiram; mas rebicado e contrafeito, secante de metaphoras, pesado de conceitos, escripto emfim com a penna d’aza da ‘Phenix-renascida.’

Quanto elle fôra estimado e cultivado entre nós em tempos de Gil-Vicente, vê-se de muitos logares de seus dramas. E ahi se vê tambem que promiscuamente compunham os nossos trovadores ja no dialecto de Castella, ja no de Portugal, e ainda o mesmo romance ou soláo ora se cantava em uma, ora n’outra linguagem.

Para exemplo e próva, leia-se com attençãoo dialogo do feiticeiro com a ama de Cismena na scenaIIde Rubena[107]. Ahi véem citados como portuguezes e em portuguez, apar de outras cantigas castelhanas, muitos romances que alguns passam hoje por legitimos filhos de Castella e em suas collecções se incontram; de outros nem por ellas ha memorias. Tal é o que começa:

‘Eu me sam Dona Giralda’;

‘Eu me sam Dona Giralda’;

‘Eu me sam Dona Giralda’;

‘Eu me sam Dona Giralda’;

de que não achei outro vestigio nem nos romanceiros castelhanos, nem na nossa tradição oral. Tal é est’outro:

‘Em Paris está Donalda’;

‘Em Paris está Donalda’;

‘Em Paris está Donalda’;

‘Em Paris está Donalda’;

que vem nos citados romanceiros, pôsto que differentemente escripto.

Tambem no auto dosQuatro tempos cantam estes ‘até chegar ao presepio,’manda a rubrica[108],uma cantiga franceza que diz:

‘Ai de la nobleVilla de Paris!

‘Ai de la nobleVilla de Paris!

‘Ai de la nobleVilla de Paris!

‘Ai de la noble

Villa de Paris!

É claro que este é um romance; e romanceconhecido, e que não era castelhano nem portuguez, mas francez. E d’aqui se deprehende tambem uma coisa que muitas vezes tenho julgado intrever, e de que tenho quasi uma consciencia íntima, sem ousar dá-la por certa, porque não ha ainda todas as próvas documentaes que se precisam para uma asserção que hade parecer atrevida: e é—que os romances primitivos quasi que eram communs ás linguasromanas, e que nenhuma os vindicava exclusivamente; porque o trovador catalão ou provençal, portuguez, normando ou castelhano pertencia mais árepublica litterariae artistica de sua profissão, do que a nenhum reino ou nação, ou divisão politica do paiz. Cantava-se o romance para lá do Ebro? davam-se ás palavras desinencias mais curtas e contrahidas; dizia-se para cá d’elle? produziam-se mais arredondadas. Entre Portugal e Castella menos era preciso ainda, porque as linguas, ja tam similhantes, ainda o eram mais então, e no especial dialecto do romance dobradamente.

Apponto isto aqui somente como ementa,para mais devagar se reflectir e estudar no que indico. Ha grande verdade na indicação; mas até onde ella chega, não sei dizer porora, nem saberei talvez nunca, porque me não sobra tempo nem paciencia para dar professadamente a estas coisas. Vou escrevendo o que me occorre como curioso. A sciencia fará o seu officio com o tempo. Eu não pretendo a litterato nem a crítico, e n’estas coisas menos que em nenhuma. Occupo as minhas horas vagas com estes divertimentos innocentes; não faço mais nada.

Tornando ao nosso Gil-Vicente, na segunda scena—acto, jornada, ou parteII—daRubena, canta a Cismena em portuguez outro princípio de romance mui notavel pelo metro pouco usado na nossa lingua:

‘Grandes bandos andam na côrte,Traga-me Deus meu bonamore.’

‘Grandes bandos andam na côrte,Traga-me Deus meu bonamore.’

‘Grandes bandos andam na côrte,Traga-me Deus meu bonamore.’

‘Grandes bandos andam na côrte,

Traga-me Deus meu bonamore.’

Muitas outras próvas achará alli o leitor curioso de que este genero era o mais popular então entre nós. Como tal o cultivou Gil-Vicente; e assim o mostra o romance dosPadresno Limbono auto da ‘Historia de Deus’, o daBarca dos Anjosno auto do ‘Purgatorio’, o daInfantano auto das ‘Côrtes de Jupiter’, e muitos outros dispersos por suas obras dramaticas, alêm dos dois bem conhecidos que expressamente compôs, um á morte d’elrei Dom Manuel, outro á acclamação de Dom João III.

Este primeiro que aqui ponho é o de Dom Duardos que vem ao fim da tragicomedia (aliás drama cavalheiresco) do mesmo titulo. Em castelhano foi escripta a tragicomedia, e em castelhano alli vem o romance; na collecção, que por vezes tenho citado, do cavalheiro de Oliveira, apparece em portuguez com declaração de se incontrar assim n’um antigo manuscripto do seculoXVIque visivelmente era contemporaneo do poeta. Eu dou-o em ambas as linguas. E pôsto que os nossos vizinhos o codificassem em seus romanceiros como proprio, fica assim evidente o ser elle de fábrica portugueza e do nosso Gil-Vicente, quer primitivamente o composesse elle na nossa lingua, quer na d’elles.

Eisaqui o que, no fim da tragicomedia, diz Artada, antes de cantar o romance:

‘Por memoria de tal tranceY tam terrible partidaVenturosa,Cantemos nuevo romanceA la nueva despedidaPeligrosa.’

‘Por memoria de tal tranceY tam terrible partidaVenturosa,Cantemos nuevo romanceA la nueva despedidaPeligrosa.’

‘Por memoria de tal tranceY tam terrible partidaVenturosa,Cantemos nuevo romanceA la nueva despedidaPeligrosa.’

‘Por memoria de tal trance

Y tam terrible partida

Venturosa,

Cantemos nuevo romance

A la nueva despedida

Peligrosa.’

Acabado de cantar e findo o auto, diz o patrão, virando-se para elrei—não o rei da comedia, mas o rei portuguez Dom João III em cuja côrte e presença ella se representava:

‘Lo mismo iremos cantandoPor esa mar adelante,Á las sirenas rogandoY Vuestra Alteza mandando:Que en la mar siempre se cante.’

‘Lo mismo iremos cantandoPor esa mar adelante,Á las sirenas rogandoY Vuestra Alteza mandando:Que en la mar siempre se cante.’

‘Lo mismo iremos cantandoPor esa mar adelante,Á las sirenas rogandoY Vuestra Alteza mandando:Que en la mar siempre se cante.’

‘Lo mismo iremos cantando

Por esa mar adelante,

Á las sirenas rogando

Y Vuestra Alteza mandando:

Que en la mar siempre se cante.’

Era pois novo o romance, por seu o dava Gil-Vicente, que não precisava nem usava de brilhar com o alheio, e a elrei seu amo e seu protector, como tal o endereçava. Não posso deixar de o crer e acceitar como seu.

A licção portugueza de Oliveira differe algum tanto da castelhana de Gil-Vicente; e éstanão pouco da que vem noROMANCEIRO GERALde Duran e noTESOROde Ochoa.

Juntam-se aqui todas tres, para que as confrontem os curiosos, e se illustre assim a questão que, tórno a dizer, suscito, não resolvo.

Era pelo mez de Abril,De Maio antes um dia,Quando lyrios e rosasMostram mais sua alegria;Era a noite mais serenaQue fazer no ceo podia,Quando a formosa infanta,Flérida ja se partia;E na horta de seu padreEntre as árvores dizia:—‘Com Deus vos ficade, flores,Que ereis a minha alegria!Vou-me a terras extrangeirasPois lá ventura me guia;E se meu pae me buscare,Pae que tanto me queriaDigam-lhe, que amor me leva,Que eu por vontade não ia;Mas tanto atimou commigoQue me venceu co’a porfia.Triste, não sei onde vou,E ninguem não m’o dizía!...’Alli falla Dom Duardos:—‘Não choreis, minha alegria,Que nos reinos de InglaterraMais claras aguas havia,E mais formosos jardins,E flores de mais valia.Tereis trezentas donzellasDe alta genealogia;De prata são os palaciosPara vossa senhoria;De esmeraldas e jacynthosE oiro fino de Turquia,Com lettreiros esmaltados,Que a minha vida se lia,Contando das vivas doresQue me déstes n’esse diaQuando com PrimaliãoFortemente combatia:Mattastes-me vós, senhora,Que eu a elle o não temia...’Suas lagrymas inchugavaFlérida que isto ouvia.Ja se foram ás galerasQue Dom Duardos havia.Cinquenta eram por conta,Todas vão em companhia.Ao som do doce remarA princeza adormeciaNos braços de Dom Duardos,Que tam bem a merecia.Saibam quantos são nascidosSentença que não varia:Contra a morte e contra amorQue ninguem não tem valia.

Era pelo mez de Abril,De Maio antes um dia,Quando lyrios e rosasMostram mais sua alegria;Era a noite mais serenaQue fazer no ceo podia,Quando a formosa infanta,Flérida ja se partia;E na horta de seu padreEntre as árvores dizia:—‘Com Deus vos ficade, flores,Que ereis a minha alegria!Vou-me a terras extrangeirasPois lá ventura me guia;E se meu pae me buscare,Pae que tanto me queriaDigam-lhe, que amor me leva,Que eu por vontade não ia;Mas tanto atimou commigoQue me venceu co’a porfia.Triste, não sei onde vou,E ninguem não m’o dizía!...’Alli falla Dom Duardos:—‘Não choreis, minha alegria,Que nos reinos de InglaterraMais claras aguas havia,E mais formosos jardins,E flores de mais valia.Tereis trezentas donzellasDe alta genealogia;De prata são os palaciosPara vossa senhoria;De esmeraldas e jacynthosE oiro fino de Turquia,Com lettreiros esmaltados,Que a minha vida se lia,Contando das vivas doresQue me déstes n’esse diaQuando com PrimaliãoFortemente combatia:Mattastes-me vós, senhora,Que eu a elle o não temia...’Suas lagrymas inchugavaFlérida que isto ouvia.Ja se foram ás galerasQue Dom Duardos havia.Cinquenta eram por conta,Todas vão em companhia.Ao som do doce remarA princeza adormeciaNos braços de Dom Duardos,Que tam bem a merecia.Saibam quantos são nascidosSentença que não varia:Contra a morte e contra amorQue ninguem não tem valia.

Era pelo mez de Abril,De Maio antes um dia,Quando lyrios e rosasMostram mais sua alegria;Era a noite mais serenaQue fazer no ceo podia,Quando a formosa infanta,Flérida ja se partia;E na horta de seu padreEntre as árvores dizia:—‘Com Deus vos ficade, flores,Que ereis a minha alegria!Vou-me a terras extrangeirasPois lá ventura me guia;E se meu pae me buscare,Pae que tanto me queriaDigam-lhe, que amor me leva,Que eu por vontade não ia;Mas tanto atimou commigoQue me venceu co’a porfia.Triste, não sei onde vou,E ninguem não m’o dizía!...’Alli falla Dom Duardos:—‘Não choreis, minha alegria,Que nos reinos de InglaterraMais claras aguas havia,E mais formosos jardins,E flores de mais valia.Tereis trezentas donzellasDe alta genealogia;De prata são os palaciosPara vossa senhoria;De esmeraldas e jacynthosE oiro fino de Turquia,Com lettreiros esmaltados,Que a minha vida se lia,Contando das vivas doresQue me déstes n’esse diaQuando com PrimaliãoFortemente combatia:Mattastes-me vós, senhora,Que eu a elle o não temia...’Suas lagrymas inchugavaFlérida que isto ouvia.Ja se foram ás galerasQue Dom Duardos havia.Cinquenta eram por conta,Todas vão em companhia.Ao som do doce remarA princeza adormeciaNos braços de Dom Duardos,Que tam bem a merecia.

Era pelo mez de Abril,

De Maio antes um dia,

Quando lyrios e rosas

Mostram mais sua alegria;

Era a noite mais serena

Que fazer no ceo podia,

Quando a formosa infanta,

Flérida ja se partia;

E na horta de seu padre

Entre as árvores dizia:

—‘Com Deus vos ficade, flores,

Que ereis a minha alegria!

Vou-me a terras extrangeiras

Pois lá ventura me guia;

E se meu pae me buscare,

Pae que tanto me queria

Digam-lhe, que amor me leva,

Que eu por vontade não ia;

Mas tanto atimou commigo

Que me venceu co’a porfia.

Triste, não sei onde vou,

E ninguem não m’o dizía!...’

Alli falla Dom Duardos:

—‘Não choreis, minha alegria,

Que nos reinos de Inglaterra

Mais claras aguas havia,

E mais formosos jardins,

E flores de mais valia.

Tereis trezentas donzellas

De alta genealogia;

De prata são os palacios

Para vossa senhoria;

De esmeraldas e jacynthos

E oiro fino de Turquia,

Com lettreiros esmaltados,

Que a minha vida se lia,

Contando das vivas dores

Que me déstes n’esse dia

Quando com Primalião

Fortemente combatia:

Mattastes-me vós, senhora,

Que eu a elle o não temia...’

Suas lagrymas inchugava

Flérida que isto ouvia.

Ja se foram ás galeras

Que Dom Duardos havia.

Cinquenta eram por conta,

Todas vão em companhia.

Ao som do doce remar

A princeza adormecia

Nos braços de Dom Duardos,

Que tam bem a merecia.

Saibam quantos são nascidosSentença que não varia:Contra a morte e contra amorQue ninguem não tem valia.

Saibam quantos são nascidos

Sentença que não varia:

Contra a morte e contra amor

Que ninguem não tem valia.

En el mes era de Abril,De Mayo antes un dia,Cuando lirios y rosasMuestran mas su alegria,En la noche mas serenaQuel el cielo hacer podia,Cuando la hermosa infantaFlérida ya se partia:En la huerta de su padreA los árboles decia:—‘Quedaos adios, mis flores,Mi gloria que ser solia;Voyme á tierras estrangerasPues ventura alla me guia.Si mi padre me buscareQue grande bien me queriaDigan que amor me llebaQue no fué la culpa mia:Tal tema tomó conmigoQue me venció su porfia.Triste nó se adó vó,Ni nadie me lo decia.’Alli habla Don Duardos:—‘No lloreis mi alegria,Que en los reinos de InglaterraMas claras aguas habia,Y mas hermosos jardinesY vuesos, señora mia.Terneis trecientas doncellasDe alta genealogia;De plata son los palaciosPara vuesa señoria,De esmeraldas y jacintos,De oro fino de TurquiaCon lettreros esmaltadosQue cuentan la vida mia,Cuentan los vivos doloresQue me distes aquel diaCuando com PrimaleonFuertemente combatia:Señora vos me matastes,Que yo a el no lo temia.Sus lagrimas consolabaFlérida qu’esto oia;Fueron-se a las galerasQue Don Duardos tenia.Cincuenta eran por cuenta,Todas van en compañia.Al son de sus dulces remosLa princesa se adormiaEn brazos de Don DuardosQue bien le pertenecia.Sepan cuantos son nacidosAquesta sentencia mia:Que contra la muerte y amorNadie no tiene valia.

En el mes era de Abril,De Mayo antes un dia,Cuando lirios y rosasMuestran mas su alegria,En la noche mas serenaQuel el cielo hacer podia,Cuando la hermosa infantaFlérida ya se partia:En la huerta de su padreA los árboles decia:—‘Quedaos adios, mis flores,Mi gloria que ser solia;Voyme á tierras estrangerasPues ventura alla me guia.Si mi padre me buscareQue grande bien me queriaDigan que amor me llebaQue no fué la culpa mia:Tal tema tomó conmigoQue me venció su porfia.Triste nó se adó vó,Ni nadie me lo decia.’Alli habla Don Duardos:—‘No lloreis mi alegria,Que en los reinos de InglaterraMas claras aguas habia,Y mas hermosos jardinesY vuesos, señora mia.Terneis trecientas doncellasDe alta genealogia;De plata son los palaciosPara vuesa señoria,De esmeraldas y jacintos,De oro fino de TurquiaCon lettreros esmaltadosQue cuentan la vida mia,Cuentan los vivos doloresQue me distes aquel diaCuando com PrimaleonFuertemente combatia:Señora vos me matastes,Que yo a el no lo temia.Sus lagrimas consolabaFlérida qu’esto oia;Fueron-se a las galerasQue Don Duardos tenia.Cincuenta eran por cuenta,Todas van en compañia.Al son de sus dulces remosLa princesa se adormiaEn brazos de Don DuardosQue bien le pertenecia.Sepan cuantos son nacidosAquesta sentencia mia:Que contra la muerte y amorNadie no tiene valia.

En el mes era de Abril,De Mayo antes un dia,Cuando lirios y rosasMuestran mas su alegria,En la noche mas serenaQuel el cielo hacer podia,Cuando la hermosa infantaFlérida ya se partia:En la huerta de su padreA los árboles decia:—‘Quedaos adios, mis flores,Mi gloria que ser solia;Voyme á tierras estrangerasPues ventura alla me guia.Si mi padre me buscareQue grande bien me queriaDigan que amor me llebaQue no fué la culpa mia:Tal tema tomó conmigoQue me venció su porfia.Triste nó se adó vó,Ni nadie me lo decia.’Alli habla Don Duardos:—‘No lloreis mi alegria,Que en los reinos de InglaterraMas claras aguas habia,Y mas hermosos jardinesY vuesos, señora mia.Terneis trecientas doncellasDe alta genealogia;De plata son los palaciosPara vuesa señoria,De esmeraldas y jacintos,De oro fino de TurquiaCon lettreros esmaltadosQue cuentan la vida mia,Cuentan los vivos doloresQue me distes aquel diaCuando com PrimaleonFuertemente combatia:Señora vos me matastes,Que yo a el no lo temia.Sus lagrimas consolabaFlérida qu’esto oia;Fueron-se a las galerasQue Don Duardos tenia.Cincuenta eran por cuenta,Todas van en compañia.Al son de sus dulces remosLa princesa se adormiaEn brazos de Don DuardosQue bien le pertenecia.Sepan cuantos son nacidosAquesta sentencia mia:Que contra la muerte y amorNadie no tiene valia.

En el mes era de Abril,

De Mayo antes un dia,

Cuando lirios y rosas

Muestran mas su alegria,

En la noche mas serena

Quel el cielo hacer podia,

Cuando la hermosa infanta

Flérida ya se partia:

En la huerta de su padre

A los árboles decia:

—‘Quedaos adios, mis flores,

Mi gloria que ser solia;

Voyme á tierras estrangeras

Pues ventura alla me guia.

Si mi padre me buscare

Que grande bien me queria

Digan que amor me lleba

Que no fué la culpa mia:

Tal tema tomó conmigo

Que me venció su porfia.

Triste nó se adó vó,

Ni nadie me lo decia.’

Alli habla Don Duardos:

—‘No lloreis mi alegria,

Que en los reinos de Inglaterra

Mas claras aguas habia,

Y mas hermosos jardines

Y vuesos, señora mia.

Terneis trecientas doncellas

De alta genealogia;

De plata son los palacios

Para vuesa señoria,

De esmeraldas y jacintos,

De oro fino de Turquia

Con lettreros esmaltados

Que cuentan la vida mia,

Cuentan los vivos dolores

Que me distes aquel dia

Cuando com Primaleon

Fuertemente combatia:

Señora vos me matastes,

Que yo a el no lo temia.

Sus lagrimas consolaba

Flérida qu’esto oia;

Fueron-se a las galeras

Que Don Duardos tenia.

Cincuenta eran por cuenta,

Todas van en compañia.

Al son de sus dulces remos

La princesa se adormia

En brazos de Don Duardos

Que bien le pertenecia.

Sepan cuantos son nacidos

Aquesta sentencia mia:

Que contra la muerte y amor

Nadie no tiene valia.

En el mes era de Abril,De Mayo antes un dia,Cuando los lirios y rosasMuestran mas sua alegria,En la noche mas serena,Qu’el cielo hacer podria,Cuando la hermosa infantaFlérida ya se partia;En la huerta de su padreA los árboles decia:—‘Jamas en cuanto viviereOs veré tan solo un dia,Ni cantar los ruiseñoresEn los ramos melodia.Quédate á Dios, agua clara,Quédate á Dios, agua fria,Y quedad con Dios, mis flores,Mi gloria que ser solia.Voime á las tierras estrañas,Pues ventura allá me guia.Si mi padre me buscáre,Que grande bien me queria,Digan que el amor me lleva,Que no fué la culpa mia.Tal tema tomó conmigo,Que me forzó su porfia.Triste nó sé donde voy:Ni nadie me lo decia.’Alli habló Don Duardos:—‘No lloreis mas, mi alegria,Que en los reinos de InglaterraMas claras aguas habia,Y mas hermosos jardines,Y vuestros, señora mia.Terneis trescientas doncellasDe alta genealogía;De plata son los palaciosPara vuestra señoria;D’esmeraldas y jacintosToda la tapeçaría;Las camaras ladrilladasD’oro fino de Turquia,Com letreros esmaltadosQue cuentan la vida mia,Contando vivos doloresQue me diéstedes un diaCuando com PremaleonFuertemente combatia.Señora, vós me matastes,Que yo a el no lo temia.’Sus lagrimas consolabaFlérida qu’esto oia,Y fueron-se á las galeras,Que Don Duardos habia:Cincuenta eran por todas,Todas van en compañia.Al son de sus dulces remosLa infanta se adormeciaEn brazos de Don Duardos,Que bien le pertenecia.Sepan cuantos son nacidosAquesta sentencia mia:Que contra muerte y amorNadie no tiene valía.

En el mes era de Abril,De Mayo antes un dia,Cuando los lirios y rosasMuestran mas sua alegria,En la noche mas serena,Qu’el cielo hacer podria,Cuando la hermosa infantaFlérida ya se partia;En la huerta de su padreA los árboles decia:—‘Jamas en cuanto viviereOs veré tan solo un dia,Ni cantar los ruiseñoresEn los ramos melodia.Quédate á Dios, agua clara,Quédate á Dios, agua fria,Y quedad con Dios, mis flores,Mi gloria que ser solia.Voime á las tierras estrañas,Pues ventura allá me guia.Si mi padre me buscáre,Que grande bien me queria,Digan que el amor me lleva,Que no fué la culpa mia.Tal tema tomó conmigo,Que me forzó su porfia.Triste nó sé donde voy:Ni nadie me lo decia.’Alli habló Don Duardos:—‘No lloreis mas, mi alegria,Que en los reinos de InglaterraMas claras aguas habia,Y mas hermosos jardines,Y vuestros, señora mia.Terneis trescientas doncellasDe alta genealogía;De plata son los palaciosPara vuestra señoria;D’esmeraldas y jacintosToda la tapeçaría;Las camaras ladrilladasD’oro fino de Turquia,Com letreros esmaltadosQue cuentan la vida mia,Contando vivos doloresQue me diéstedes un diaCuando com PremaleonFuertemente combatia.Señora, vós me matastes,Que yo a el no lo temia.’Sus lagrimas consolabaFlérida qu’esto oia,Y fueron-se á las galeras,Que Don Duardos habia:Cincuenta eran por todas,Todas van en compañia.Al son de sus dulces remosLa infanta se adormeciaEn brazos de Don Duardos,Que bien le pertenecia.Sepan cuantos son nacidosAquesta sentencia mia:Que contra muerte y amorNadie no tiene valía.

En el mes era de Abril,De Mayo antes un dia,Cuando los lirios y rosasMuestran mas sua alegria,En la noche mas serena,Qu’el cielo hacer podria,Cuando la hermosa infantaFlérida ya se partia;En la huerta de su padreA los árboles decia:—‘Jamas en cuanto viviereOs veré tan solo un dia,Ni cantar los ruiseñoresEn los ramos melodia.Quédate á Dios, agua clara,Quédate á Dios, agua fria,Y quedad con Dios, mis flores,Mi gloria que ser solia.Voime á las tierras estrañas,Pues ventura allá me guia.Si mi padre me buscáre,Que grande bien me queria,Digan que el amor me lleva,Que no fué la culpa mia.Tal tema tomó conmigo,Que me forzó su porfia.Triste nó sé donde voy:Ni nadie me lo decia.’Alli habló Don Duardos:—‘No lloreis mas, mi alegria,Que en los reinos de InglaterraMas claras aguas habia,Y mas hermosos jardines,Y vuestros, señora mia.Terneis trescientas doncellasDe alta genealogía;De plata son los palaciosPara vuestra señoria;D’esmeraldas y jacintosToda la tapeçaría;Las camaras ladrilladasD’oro fino de Turquia,Com letreros esmaltadosQue cuentan la vida mia,Contando vivos doloresQue me diéstedes un diaCuando com PremaleonFuertemente combatia.Señora, vós me matastes,Que yo a el no lo temia.’Sus lagrimas consolabaFlérida qu’esto oia,Y fueron-se á las galeras,Que Don Duardos habia:Cincuenta eran por todas,Todas van en compañia.Al son de sus dulces remosLa infanta se adormeciaEn brazos de Don Duardos,Que bien le pertenecia.Sepan cuantos son nacidosAquesta sentencia mia:Que contra muerte y amorNadie no tiene valía.

En el mes era de Abril,

De Mayo antes un dia,

Cuando los lirios y rosas

Muestran mas sua alegria,

En la noche mas serena,

Qu’el cielo hacer podria,

Cuando la hermosa infanta

Flérida ya se partia;

En la huerta de su padre

A los árboles decia:

—‘Jamas en cuanto viviere

Os veré tan solo un dia,

Ni cantar los ruiseñores

En los ramos melodia.

Quédate á Dios, agua clara,

Quédate á Dios, agua fria,

Y quedad con Dios, mis flores,

Mi gloria que ser solia.

Voime á las tierras estrañas,

Pues ventura allá me guia.

Si mi padre me buscáre,

Que grande bien me queria,

Digan que el amor me lleva,

Que no fué la culpa mia.

Tal tema tomó conmigo,

Que me forzó su porfia.

Triste nó sé donde voy:

Ni nadie me lo decia.’

Alli habló Don Duardos:

—‘No lloreis mas, mi alegria,

Que en los reinos de Inglaterra

Mas claras aguas habia,

Y mas hermosos jardines,

Y vuestros, señora mia.

Terneis trescientas doncellas

De alta genealogía;

De plata son los palacios

Para vuestra señoria;

D’esmeraldas y jacintos

Toda la tapeçaría;

Las camaras ladrilladas

D’oro fino de Turquia,

Com letreros esmaltados

Que cuentan la vida mia,

Contando vivos dolores

Que me diéstedes un dia

Cuando com Premaleon

Fuertemente combatia.

Señora, vós me matastes,

Que yo a el no lo temia.’

Sus lagrimas consolaba

Flérida qu’esto oia,

Y fueron-se á las galeras,

Que Don Duardos habia:

Cincuenta eran por todas,

Todas van en compañia.

Al son de sus dulces remos

La infanta se adormecia

En brazos de Don Duardos,

Que bien le pertenecia.

Sepan cuantos son nacidos

Aquesta sentencia mia:

Que contra muerte y amor

Nadie no tiene valía.


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