XXXIIICUIDADO E DESEJO
Todo este soláo—e creio que propriamente este é tambem um verdadeiro soláo—todo elle é alegorico dos mysteriosos amores do ‘poeta das saudades.’
Bernardim-Ribeiro vaga triste e solitario pelas margens de um rio escuro e cuberto de arvoredo. Apparece-lhe o seuCuidadona figura de um velho incannecido que lhe mostra o seu fatalDesejotodo cuberto de dó; chorando e pensativo declara-lhe que em má hora o viu porque nunca mais o hade esquecer. Some-se a visão; e elle caminha rio abaixo, até dar ‘antre uns medonhos penedos’ (se será Cintra?) onde aPhantasialhe apresenta sua tristeLembrançana figura de uma bella mulher de ‘loiros cabellos e olhos verdes,’cuberta de um negro manto. É Beatriz que elle ama, que o adora e que não póde ser sua! Escura noite lhe esconde a visão bemaventurada; e de um ‘alto oiteiro’ lhe bradam (porque não dos Alpes, do Piemonte onde lh’a tinham levado?)—‘Bernardim-Ribeiro, olha onde estás.’
Da demasiada altura onde subiram, seus atrevidos pensamentos lhe fazem recordar quam baixo o tinha pôsto a sorte para se atrever a tanto.—O namorado trovador cerra os olhos para nunca mais os abrir. Que lhe resta a elle que ver o mundo?
Este romance seria feito ao ordenar-se o casamento da infanta com o duque de Saboia? Não vem inserto nasSAUDADES, como o antecedente, da Ama, e o subsequente de Avalor: por isso aqui pôs claro o seu nome de Bernardim-Ribeiro, que no mysterioso livro de cavallarias, ora se disfarça em anagrammas de suas proprias lettras, ora sob as de outros se desfigura, para confundir e inredar a todo o que não tivesse a chave do querido segredo. O nome porêm da infanta nem aqui, nem emparte nenhuma o expôs a ser deciphrado pela mais remota inducção. N’este romance não ha nomes femininos; os que se incontram em tudo quanto escreveu, assim podem ser Maria, Antonia, como Joanna, etc. Em nenhum ha lettras ou sons que se pareçam com os de Beatriz.
Nada digo do stylo, é o mesmo da peça precedente. As bellezas são infinitas; nenhum poeta portuguez escreveu tanto com o sangue de seu coração.
Ao longo de uma ribeiraQue vai pelo pé da serra,Aonde me a mi fez a guerraMuito tempo o grande amor,Me levou a minha dor:Ja era tarde do dia,E a agua d’ella corriaPor antre um alto arvoredo,Onde ás vezes ia quedoO rio, e ás vezes não.Entrada era do verão,Quando começam as avesCom seus cantares suavesFazer tudo gracioso.Ao ruido saudosoDas aguas cantavam ellas:Todalas minhas querellasSe me puseram deante;Alli morrer quizera anteQue ver por onde passei.Mas eu que digo—passei!Antes inda heide passar,Em quanto hi houver pezar,Que sempre o hi hade haver.As aguas, que de correrNão cessavam um momento,Me trouxera’ ao pensamentoQue assim eram minhas mágoas,D’onde sempre correm aguasPor estes olhos mesquinhos,Que têem abertos caminhosPelo meio do meu rosto.E ja não tenho outro gôstoNa grande desdita minha.O que eu cuidava que tinhaFoi-se-me assim não sei como,D’onde eu certa crença tómoQue, para me leixar, veio.Mas, tendo-me assi alheioDe mi o que alli cuidava,Da banda d’onde agua estavaVi um homem todo cam[121],Que lhe dava pelo chamA barba e o cabello.Ficando eu pasmado d’ello,Olhando elle para mi,Fallou-me e disse-me assi:—Tambem vai ésta agua ao Tejo.’N’isto olhei, vi meu DesejoEstar de trás triste e só,Todo cuberto de dó,Chorando sem dizer nada,A cara em sangue lavada,Na bôcca posta ũa mão,Como que a grande paixão,Sua falla lhe tolhia.E o velho que tudo via,Vendo-me tambem chorarComeçou a assi fallar:—‘Eu mesmo são[122]teu CuidadoQue n’outra terra criado,N’esta primeiro nasci.E ess’outro que está aquiÉ o teu Desejo triste;Que má hora o tu vistePois nunca te esquecerá!A terra e mar passaráTraspassando a mágoa a ti’Quando lhe eu aquisto ouvi,Soltei suspiros ao chôro;Alli clarante o fôroMeus olhos tristes pagaramDe um bem só que elles olharam,Que outro nunca mais tiveram.Nem o tive, nem m’o deram,Nem o esperei somente:De só ver fui tam contente,Que pera mais esperarNunca me deram logar.E n’aquisto, triste estandoCom os olhos tristes olhandoD’aquellas bandas d’alêm,Olhei e não vi ninguem.Dei então a caminharRio abaixo, até chegarA cêrca de Montemór.Com meus males de redor,Da banda do meio-dia,Alli minha Phantasia,D’antre uns medrosos penedos,Onde aves que fazem medosDe noite os dias vão ter,Me sahiu a receberCom ũa mulher pelo braço,Que, ao parecer de cansaçoNão podia ter-se em si,Dizendo:—‘Vês, triste, aquiA triste Lembrança tua.’Minha vista então na suaPus, d’ella todo me enchi:A prima coisa que viE a derradeira tambem,Que no mundo vão e vem!Seus olhos verdes rasgadosDe lagrymas carregados,Logo em vendo-os, pareciamQue de lagrymas enchiamContino as suas faces,Que eram, gran’ tempo, paces[123]Antre mi e meus cuidados.Loiros cabellos ondadosUm negro manto cubria:Na tristeza pareciaQue lhe convinha morrer.Os seus olhos de me ver,Como furtados, tirou,Depois em cheio me olhou.Seus alvos peitos rasgandoEm voz alta se aqueixando,Disse assi mui só sentida:—‘Pois que mor dor ha na vidaPara que houve ahi morrer?’Callou-se sem mais dizer.Eu de mi gemidos dando,Fui-me para ella chorandoPara a haver de consolar...N’isto pôs-se o sol ao mar,E feze-se noite escura,E disse mal á venturaE á vida, que não morri...E muito longe d’alli,Ouvi de um alto oiteiroChamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’E dizer:—‘olha onde estás!’Olhei de ante e de trazE vi tudo escuridão,Cerrei meus olhos então,E nunca mais os abri,Que depois que a perdiNunca vi tam grande bem.Porêm inda mal, porêm!
Ao longo de uma ribeiraQue vai pelo pé da serra,Aonde me a mi fez a guerraMuito tempo o grande amor,Me levou a minha dor:Ja era tarde do dia,E a agua d’ella corriaPor antre um alto arvoredo,Onde ás vezes ia quedoO rio, e ás vezes não.Entrada era do verão,Quando começam as avesCom seus cantares suavesFazer tudo gracioso.Ao ruido saudosoDas aguas cantavam ellas:Todalas minhas querellasSe me puseram deante;Alli morrer quizera anteQue ver por onde passei.Mas eu que digo—passei!Antes inda heide passar,Em quanto hi houver pezar,Que sempre o hi hade haver.As aguas, que de correrNão cessavam um momento,Me trouxera’ ao pensamentoQue assim eram minhas mágoas,D’onde sempre correm aguasPor estes olhos mesquinhos,Que têem abertos caminhosPelo meio do meu rosto.E ja não tenho outro gôstoNa grande desdita minha.O que eu cuidava que tinhaFoi-se-me assim não sei como,D’onde eu certa crença tómoQue, para me leixar, veio.Mas, tendo-me assi alheioDe mi o que alli cuidava,Da banda d’onde agua estavaVi um homem todo cam[121],Que lhe dava pelo chamA barba e o cabello.Ficando eu pasmado d’ello,Olhando elle para mi,Fallou-me e disse-me assi:—Tambem vai ésta agua ao Tejo.’N’isto olhei, vi meu DesejoEstar de trás triste e só,Todo cuberto de dó,Chorando sem dizer nada,A cara em sangue lavada,Na bôcca posta ũa mão,Como que a grande paixão,Sua falla lhe tolhia.E o velho que tudo via,Vendo-me tambem chorarComeçou a assi fallar:—‘Eu mesmo são[122]teu CuidadoQue n’outra terra criado,N’esta primeiro nasci.E ess’outro que está aquiÉ o teu Desejo triste;Que má hora o tu vistePois nunca te esquecerá!A terra e mar passaráTraspassando a mágoa a ti’Quando lhe eu aquisto ouvi,Soltei suspiros ao chôro;Alli clarante o fôroMeus olhos tristes pagaramDe um bem só que elles olharam,Que outro nunca mais tiveram.Nem o tive, nem m’o deram,Nem o esperei somente:De só ver fui tam contente,Que pera mais esperarNunca me deram logar.E n’aquisto, triste estandoCom os olhos tristes olhandoD’aquellas bandas d’alêm,Olhei e não vi ninguem.Dei então a caminharRio abaixo, até chegarA cêrca de Montemór.Com meus males de redor,Da banda do meio-dia,Alli minha Phantasia,D’antre uns medrosos penedos,Onde aves que fazem medosDe noite os dias vão ter,Me sahiu a receberCom ũa mulher pelo braço,Que, ao parecer de cansaçoNão podia ter-se em si,Dizendo:—‘Vês, triste, aquiA triste Lembrança tua.’Minha vista então na suaPus, d’ella todo me enchi:A prima coisa que viE a derradeira tambem,Que no mundo vão e vem!Seus olhos verdes rasgadosDe lagrymas carregados,Logo em vendo-os, pareciamQue de lagrymas enchiamContino as suas faces,Que eram, gran’ tempo, paces[123]Antre mi e meus cuidados.Loiros cabellos ondadosUm negro manto cubria:Na tristeza pareciaQue lhe convinha morrer.Os seus olhos de me ver,Como furtados, tirou,Depois em cheio me olhou.Seus alvos peitos rasgandoEm voz alta se aqueixando,Disse assi mui só sentida:—‘Pois que mor dor ha na vidaPara que houve ahi morrer?’Callou-se sem mais dizer.Eu de mi gemidos dando,Fui-me para ella chorandoPara a haver de consolar...N’isto pôs-se o sol ao mar,E feze-se noite escura,E disse mal á venturaE á vida, que não morri...E muito longe d’alli,Ouvi de um alto oiteiroChamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’E dizer:—‘olha onde estás!’Olhei de ante e de trazE vi tudo escuridão,Cerrei meus olhos então,E nunca mais os abri,Que depois que a perdiNunca vi tam grande bem.Porêm inda mal, porêm!
Ao longo de uma ribeiraQue vai pelo pé da serra,Aonde me a mi fez a guerraMuito tempo o grande amor,Me levou a minha dor:Ja era tarde do dia,E a agua d’ella corriaPor antre um alto arvoredo,Onde ás vezes ia quedoO rio, e ás vezes não.
Ao longo de uma ribeira
Que vai pelo pé da serra,
Aonde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dor:
Ja era tarde do dia,
E a agua d’ella corria
Por antre um alto arvoredo,
Onde ás vezes ia quedo
O rio, e ás vezes não.
Entrada era do verão,Quando começam as avesCom seus cantares suavesFazer tudo gracioso.Ao ruido saudosoDas aguas cantavam ellas:Todalas minhas querellasSe me puseram deante;Alli morrer quizera anteQue ver por onde passei.Mas eu que digo—passei!Antes inda heide passar,Em quanto hi houver pezar,Que sempre o hi hade haver.
Entrada era do verão,
Quando começam as aves
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso.
Ao ruido saudoso
Das aguas cantavam ellas:
Todalas minhas querellas
Se me puseram deante;
Alli morrer quizera ante
Que ver por onde passei.
Mas eu que digo—passei!
Antes inda heide passar,
Em quanto hi houver pezar,
Que sempre o hi hade haver.
As aguas, que de correrNão cessavam um momento,Me trouxera’ ao pensamentoQue assim eram minhas mágoas,D’onde sempre correm aguasPor estes olhos mesquinhos,Que têem abertos caminhosPelo meio do meu rosto.E ja não tenho outro gôstoNa grande desdita minha.O que eu cuidava que tinhaFoi-se-me assim não sei como,D’onde eu certa crença tómoQue, para me leixar, veio.
As aguas, que de correr
Não cessavam um momento,
Me trouxera’ ao pensamento
Que assim eram minhas mágoas,
D’onde sempre correm aguas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têem abertos caminhos
Pelo meio do meu rosto.
E ja não tenho outro gôsto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
D’onde eu certa crença tómo
Que, para me leixar, veio.
Mas, tendo-me assi alheioDe mi o que alli cuidava,Da banda d’onde agua estavaVi um homem todo cam[121],Que lhe dava pelo chamA barba e o cabello.Ficando eu pasmado d’ello,Olhando elle para mi,Fallou-me e disse-me assi:—Tambem vai ésta agua ao Tejo.’
Mas, tendo-me assi alheio
De mi o que alli cuidava,
Da banda d’onde agua estava
Vi um homem todo cam[121],
Que lhe dava pelo cham
A barba e o cabello.
Ficando eu pasmado d’ello,
Olhando elle para mi,
Fallou-me e disse-me assi:
—Tambem vai ésta agua ao Tejo.’
N’isto olhei, vi meu DesejoEstar de trás triste e só,Todo cuberto de dó,Chorando sem dizer nada,A cara em sangue lavada,Na bôcca posta ũa mão,Como que a grande paixão,Sua falla lhe tolhia.
N’isto olhei, vi meu Desejo
Estar de trás triste e só,
Todo cuberto de dó,
Chorando sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na bôcca posta ũa mão,
Como que a grande paixão,
Sua falla lhe tolhia.
E o velho que tudo via,Vendo-me tambem chorarComeçou a assi fallar:—‘Eu mesmo são[122]teu CuidadoQue n’outra terra criado,N’esta primeiro nasci.E ess’outro que está aquiÉ o teu Desejo triste;Que má hora o tu vistePois nunca te esquecerá!A terra e mar passaráTraspassando a mágoa a ti’
E o velho que tudo via,
Vendo-me tambem chorar
Começou a assi fallar:
—‘Eu mesmo são[122]teu Cuidado
Que n’outra terra criado,
N’esta primeiro nasci.
E ess’outro que está aqui
É o teu Desejo triste;
Que má hora o tu viste
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Traspassando a mágoa a ti’
Quando lhe eu aquisto ouvi,Soltei suspiros ao chôro;Alli clarante o fôroMeus olhos tristes pagaramDe um bem só que elles olharam,Que outro nunca mais tiveram.Nem o tive, nem m’o deram,Nem o esperei somente:De só ver fui tam contente,Que pera mais esperarNunca me deram logar.
Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao chôro;
Alli clarante o fôro
Meus olhos tristes pagaram
De um bem só que elles olharam,
Que outro nunca mais tiveram.
Nem o tive, nem m’o deram,
Nem o esperei somente:
De só ver fui tam contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram logar.
E n’aquisto, triste estandoCom os olhos tristes olhandoD’aquellas bandas d’alêm,Olhei e não vi ninguem.Dei então a caminharRio abaixo, até chegarA cêrca de Montemór.
E n’aquisto, triste estando
Com os olhos tristes olhando
D’aquellas bandas d’alêm,
Olhei e não vi ninguem.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
A cêrca de Montemór.
Com meus males de redor,Da banda do meio-dia,Alli minha Phantasia,D’antre uns medrosos penedos,Onde aves que fazem medosDe noite os dias vão ter,Me sahiu a receberCom ũa mulher pelo braço,Que, ao parecer de cansaçoNão podia ter-se em si,Dizendo:—‘Vês, triste, aquiA triste Lembrança tua.’Minha vista então na suaPus, d’ella todo me enchi:A prima coisa que viE a derradeira tambem,Que no mundo vão e vem!
Com meus males de redor,
Da banda do meio-dia,
Alli minha Phantasia,
D’antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me sahiu a receber
Com ũa mulher pelo braço,
Que, ao parecer de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo:—‘Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.’
Minha vista então na sua
Pus, d’ella todo me enchi:
A prima coisa que vi
E a derradeira tambem,
Que no mundo vão e vem!
Seus olhos verdes rasgadosDe lagrymas carregados,Logo em vendo-os, pareciamQue de lagrymas enchiamContino as suas faces,Que eram, gran’ tempo, paces[123]Antre mi e meus cuidados.
Seus olhos verdes rasgados
De lagrymas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lagrymas enchiam
Contino as suas faces,
Que eram, gran’ tempo, paces[123]
Antre mi e meus cuidados.
Loiros cabellos ondadosUm negro manto cubria:Na tristeza pareciaQue lhe convinha morrer.Os seus olhos de me ver,Como furtados, tirou,Depois em cheio me olhou.Seus alvos peitos rasgandoEm voz alta se aqueixando,Disse assi mui só sentida:—‘Pois que mor dor ha na vidaPara que houve ahi morrer?’Callou-se sem mais dizer.Eu de mi gemidos dando,Fui-me para ella chorandoPara a haver de consolar...
Loiros cabellos ondados
Um negro manto cubria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando
Em voz alta se aqueixando,
Disse assi mui só sentida:
—‘Pois que mor dor ha na vida
Para que houve ahi morrer?’
Callou-se sem mais dizer.
Eu de mi gemidos dando,
Fui-me para ella chorando
Para a haver de consolar...
N’isto pôs-se o sol ao mar,E feze-se noite escura,E disse mal á venturaE á vida, que não morri...E muito longe d’alli,Ouvi de um alto oiteiroChamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’E dizer:—‘olha onde estás!’Olhei de ante e de trazE vi tudo escuridão,Cerrei meus olhos então,E nunca mais os abri,Que depois que a perdiNunca vi tam grande bem.Porêm inda mal, porêm!
N’isto pôs-se o sol ao mar,
E feze-se noite escura,
E disse mal á ventura
E á vida, que não morri...
E muito longe d’alli,
Ouvi de um alto oiteiro
Chamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’
E dizer:—‘olha onde estás!’
Olhei de ante e de traz
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que a perdi
Nunca vi tam grande bem.
Porêm inda mal, porêm!