XXXVIIO MARQUEZ DE MANTUA
Ei-lo que se apea de seu classico barbante em que tantos annos cavalgou, e despindo o papel-pardo em que o imbrulhavam os cegos e vendilhões de nossas feiras, vem o nobre ‘Marquez de Mantua’ tomar o seu logar entre os mais venerandos e antigos romances do cyclode Carlos-Magno. Sua nobre origem bem sabida é e bem manifesta: franceza ou provençal. Se foi a linguad’oeilou a linguad’oca primeira que fallou, não sei; quando atravessou os Pyreneus e veio para nós, certo que era ja familiar com ambas. Passou muito tempo em Hespanha por ser composição de Jeronymo Treviño[139]; hoje com razão se crê que o Treviñonão foi senão o editor que em 1598 o imprimiu: sem dúvida o romance é muito mais antigo que isso; so da licção portugueza me parece que posso responder que é dos fins do XIV, principios—quando muito—doXVseculo. E todavia a fórma em que elle apparece em portuguez não creio que fosse a primitiva que entre nós teve, e me inclino a que ella seja posterior á que teem os nossos vizinhos castelhanos em suas collecções[140]. Aqui é mais dramatico, lá mais épico: nas multiplicadas edições dos cegos chegou a obter o nome de tragedia. Todavia, não deixarei de observar que revestidos d’esta mesma fórma ha romances muito mais antigos do que os narrativos. As rúbricas deaqui falla o marquez, agora diz o imperadoretc., não são indisputavel próva de que a composição fôsse para se representar theatralmente.
Sem profundar nenhuma d’estas questões, contento-me de sacar do lixo da “feira-da-ladra”,ésta bella reliquia da nossa litteratura popular e romanesca, e de restituir ao seu eminente logar o nobre marquez de Mantua, embora me criminem e escarneçam os superciliosos academicos de todas as academias reaes e não reaes d’este mundo.
Na caça andava perdidoDe Mantua o velho marquez,E no peito presentidoO coração traz de envez;Mais, não sabe o succedido!Farto ja de caminharPor tam fragosa montanha,Cançado assim sem companha,Sem ter onde repousarN’essa terra tam extranha,Vendo o mato tam cerrado,Assentou de se apearE o seu cavallo deixarPorque estava de cançadoQue ja não podia andar:FALLA O MARQUEZ—Fortunosa caça é éstaQue a fortuna me ha mostrado,Poisque, por ser manifestaMinha pena e gran’ cuidado,Me mostrou ésta floresta.Nunca vi tam forte brenhaDesque me accordo de mi,Eu creio que MargasiFez ésta serra Dardenha,Estes campos de Methli.Quero tocar a bosinaPor ver se algum me ouvirá;Mas cuido que não será,Porque minha gran’ mofinaCommigo começou ja.Todavia quero verSe mora alguem n’esta serraQue me diga d’esta terraCuja é para saber;Que quem pergunta não erra.Agora vejo-me aquiN’esta tam grande espessura,Que nem eu me vejo a mi,Nem sei de minha ventura,Nem menos será cordura.DIZ VALDEVINOS—Oh Virgem minha senhora,Madre do rei da verdade,Por vossa gran’ piedadeSêde minha intercessoraEm tanta necessidade.Oh summa regina pia,Radiante luz phebea,Custodia animæ meæ,Pois está na terra friaA alma de pezar chea,Pois es amparo dos teus,Consola os desconsolados,Rainha dos altos ceos,E roga a meu senhor DeosQue perdoe meus peccados.FALLA O MARQUEZ—Não sei quem ouço gemerE chorar de quando em quando:Alguem deve de aqui estar...Segundo se esta queixando,Deve ter grande pezar.FALLA VALDEVINOS—Domine, memento mei,Lembrae-vos de minha alma,Pois que sois da glória rei,Nascido da flor da palma,Remedio de nossa lei.DIZ O MARQUEZ—Segundo d’elle se espera,Aquelle home anda perdido,Ou, por ventura feridoDe alguma besta fera.Quero ver este mysterio,Que a falla me dá ousadia,Porque dois em companhiaTerão grande refrigerioPara qualquer agonia.DIZ VALDEVINOS—Oh minha espôsa e senhora,Ja não tereis em podêrVosso espôso que assim chora,Pois a morte roubadoraVos roubou todo o prazer.Oh vida do meu viver,Resplandecente narciso,Gran’ pena levo em saberQue nunca vos heide verAté o dia do juizo.Oh esperança por quemTinha victoria vencida!Oh minha glória, meu bem,Porque não partis tambem,Poisque sois a minha vida?Senão for vossa vontadeDe haver de mim compaixão,Mandae-me meu coração,Minha fe e liberdade,Que está em vossa prizão.Madre minha muito amada,Qu’é de o filho que paristes,De quem ereis consolada?Como se ha tornado nadaQuanta glória possuistes?Ja me não vereis reinar,Ja me não dareis conselho,Nem eu o posso tomar;Que quebrado é o espelhoEm que vos sabeis olhar.Ja nunca me haveis de verFazer justas e torneios,Nem vestir nobres arreios,Nem cavalleiros vencer,Nem tomar bandos alheios.Ja não tomareis prazerQuando me virdes armado;Ja vos não virão dizerA fama de meu podêr,Nem louvar-me de esforçado.Oh valentes cavalleiros,Reinaldos de Montalvão,Oh esforçado Roldão,Oh marquez Dom Oliveiros,Dom Ricardo, Dom Dudão,Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,Oh gran’ duque de Milão,Que é de vossa companhia?Duque Maime de Baviera,Que é de vosso Valdevinos?Oh esforçado Guarinos,Quem comsigo vos tivera!Meu amigo Montesinhos,Ja nunca mais vos verei;Dom Alonso de Inglaterra,Ja nunca acompanhareiO conde Dirlos na guerra.Oh esforçado marquezDe Mantua, teu senhorio,Ja não me poreis arnez,Nem me vereis outra vezGozar vosso senhorio.Ja não quero o vosso estado,Ja não quero ser pessoa,Nem mandar, nem ter reinado;Ja não quero ter coroa,Nem quero ser venerado.Oh Carlos imperador,Senhor de mui alta sorte,Como sentireis gran’ dorSabendo da minha morte,E quem d’ella é causador:Bem sei, se sois informadoDo caso como passou,Que serei mui bem vingado,Ainda que me mattouVosso filho mui amado.Oh principe D. Carloto,Quem, sendo tam desegual,Te moveu a fazer malEm um logar tam remotoA teu amigo leal?Alto Deus omnipotente,Juiz direito sem par,Sôbre ésta morte innocenteJustiça queirais mostrar,Pois morro tam cruelmente.Oh Madre de Deus benigno,E fonte de piedade,Arca da Sancta Trindade,De donde o Verbo DivinoTrouxe sua humanidade,Oh Sancta Domina mea,Oh Virgem gratia plenaEm que a alma se recrea,Dae remedio á minha pena,Pois que morro em terra alhea.FALLA O MARQUEZ—Senhor, porque vos queixais?Quem vos tratou de tal sorte,E quem é o que tal morteVos deu, como publicais,Que assás é ésta má sorte?Não me negueis a verdade,Contae-me vosso pezar,Que vos prometto ajudarCom toda a força e vontade.DIZ VALDEVINOS—Muito me agasta, amigo,Certamente teu tardar,Dize se trazes comtigoQuem me haja de confessar?DIZ O MARQUEZ—Eu não sou quem vós cuidais:Nunca comi vosso pão,Mas vossos gritos e aisMe trouxeram aonde estaisMui movido a compaixão.Dizei-me vossa agonia,Que, se remedio tiver,Eu vos prometto fazerCom que tenhais alegria.DIZ VALDEVINOS—Meu senhor, muitas mercêsPor vossa boa vontade!Bem creio que me fareisMuito mais do que dizeis,Segundo vossa bondade.Mas minha dor é mortal,Meu remedio so é morte,Porque estou parado tal,Que nunca homem mortalFoi trattado de tal sorte.Tenho, senhor, vinte e duasFeridas todas mortais,As intranhas rotas, nuas,E passo penas tam cruas,Que não poderão ser mais.Ha-me morto á traiçãoO filho do imperador,Carloto, a gran’ sem razão,Mostrando-me todo o amor,Não o tendo no coração.Muitas vezes requeriaMinha espôsa com maldade,Mas ella não consentiaPelo bem que me queria,Por sua grande bondade.Carloto com gran’ pezar,Como mais traidor que forte,Ordenou de me matar,Cuidando com minha morteCom ella haver de casar.Mattou-me com gran’ falsia,Tranzendo cinco comsigo,Sem eu trazer mais commigoQue um pagem por companhia.A mim chamam Valdevinos,Sou filho de elrei de Dacia,E primo de elrei de Grecia,E do forte Montesinos,Que é herdeiro de Dalmacia.Dona Hermelinda formosaMinha madre natural,Sibylla minha espôsaDe graças especial,Mas com primores famosa.Ésta nova contareisÁ triste de minha madreQue em Mantua achareis,E ao honrado marquezMeu tio, irmão de meu padre.FALLA O MARQUEZ—Oh desestrado viver,Oh amargosa ventura,Oh ventura sem prazer,Prazer cheio de tristura,Tristura que não tem ser!Oh desventurada sorte,Oh sorte sem soffrimento,Desemparado tormento,Muito peior do que a morte,Morte de desabrimento!Oh meu sobrinho, meu bem,Minha esperança perdida,Oh gloria que me sustêm,Porque vos partis de quemSem vós não terá mais vida?Oh desventurado velho,Captivo sem liberdade!Quem me póde dar conselho,Pois perdido é o espelhoDe minha gran’ claridade!Oh minha luz verdadeira,Trevas do meu coração,Penas de minha paixão,Cuidado, que me marteira,Tristeza de tal traição!Porque não quereis fallarA este marquez coitado,Que tio sohieis chamar?Fallae-me, sobrinho amado,Não me façais rebentar.DIZ VALDEVINOS—Meu tormento tam molestoMe faz não vos conhecerNem na falla, nem no gesto;Nem intendo vosso dizerSe não for mais manifesto.Estou tão posto no fim,Que não sei se sou alguem,Nem menos conheço a mim;Pois quem não conhece a sim,Mal conhecerá ninguem.DIZ O MARQUEZ—Como não me conheceis,Meu sobrinho Valdevinos?Eu sou o triste marquezIrmão de elrei Dom Salinos,Que era o pae que vos fez.Eu sou o marquez sem sorte,Que devêra rebentarChorando a vossa morte,Por com vida não ficarN’este mundo sem de porte.Oh triste mundo coitado,Ninguem deve em ti fiar,Pois es tam desventurado,Que o que tens mais exaltado,Mor quéda lhe fazes dar!FALLA VALDEVINOS—Perdoa-me, senhor tio,A minha descortezia,Que a minha grande agoniaMe pôs em tanto desvio,Que ja vos não conhecia.Não me queirais mais chorar;Deveis de considerarQue para isso é o mundo,Que dobrais meu mal profundo.Para bem é mal passar:E bem sabeis que nascemosPara ir a ésta jornada,E que, quanto mais vivemos,Maior offensa fazemosA quem nos creou de nada.Assim que, necessidadeNão tendes de me chorar,Poisque Deus me quiz levarNo melhor de minha edadePara mais me aproveitar.Mas o que haveis de fazer,É por minha alma rogar,Porque o muito chorarÁ alma não dá prazer,Mas antes mui gran’ pezar.Quero-vos incommendarMinha espôsa e minha madre,Poisque não tem outro padreQue as haja de amparar,Senão vós, como é verdade.Mas o que me dá paixãoEm ésta triste partida,É morrer sem confissão;Mas se parto d’esta vida,Deus receberá a tenção.Vem o ermitão e o pagem.DIZ O ERMITÃO—A paz de Deus sempiternoSeja comvosco, irmão!Lembrae-vos de sua paixãoQue, por nos livrar do inferno,Padeceu quanto a varão.DIZ VALDEVINOS—Com coisa mais não folgáraDo que vê-lo aqui chegado,Padre de Deus enviado,Que se um pouco mais tardára,Não me achára n’este estado.FALLA O PAGEM—Oh que desestrada sorte,Meu senhor Danes Ogeiro!Olhae vosso escudo forte,Olhae, senhor, vosso herdeiro,Em que extremo o pôs a morte!Oh desditoso caminho,Caça de tanto pezar,Que cuidando de caçar,A morte a vosso sobrinhoVieste, senhor, buscar.DIZ O ERMITÃO—A gran’ pressa que traziaNão me deu, senhor, logarDe conhecer nem fallarA vossa gran’ senhoria.N’este êrro se ha culpa,Peço-lhe d’ella perdão,Ainda que a discriçãoSua me dará desculpa.FALLA O MARQUEZ—Rogae a Deus, padre honrado,Que me queira dar paciencia;Que o perdão é escusado,Porque vossa diligenciaVos não deixa ser culpado.DIZ O ERMITÃO—O filho de Deus enviadoVos mande consolação!E pois que aqui sou chegado,Quero ouvir de confissãoEste ferido e angustiado.Coisa é mui naturalA morte a toda a pessoa,A todo o mundo em geral,Poisque a nenhum perdoa.Não a tenhamos por mais.Porque o peccado de AdãoFoi tam fero e de tal sorte,Que não só foi perdição:Mas Deus, que é salvação,Quiz tambem receber morte.E por tanto, filho meu,Não se deve de espantarDa morte que Deus lhe deu;Pois em provimento seuLh’a deu para o salvarLembre-lhe sua paixão:Veja este mundo coitado,E não o ingode o malvado,Que não dá por galardãoSenão tristeza e cuidado.Em quanto, filho, tem vida,Chame a Madre de Deus,Aquella que foi nascidaSem peccado concebida,E coroada nos ceos.Ésta foi santificadaE visitada dos anjos,E em corpo e alma levadaÁ gloria, onde exaltadaLá está sobre os archanjos.Assim, que ao RedemptorE a ésta Virgem sem parSe hade, filho, incommendarDepois que aos sanctos forSua vontade chamar.As mãos levante aos ceus,Faça confissão geral,Confessando-se a DeusE á Virgem celestialE a todos os sanctos seus.DIZ O MARQUEZ—Oh bonancia abhorrecida,Oh desestrada fortuna,De prazeres gran’ tribuna!Porque não desemparaisA quem sois tam importuna?Tristeza, desconfiança,Porque não desesperaisA quem não tem confiança?Contae-me, pagem Burlor,O caso como passou,Quem foi aquelle traidorQue mattou vosso senhor,Ou por que causa o matouFALLA O PAGEM—Seria mui mal contadoSe a sua gran’ senhoriaNão contasse o que é passado.Eu sei certo que fariaO que não é esperadoContra quem me deu estado,E ha feito tantas mercêsQue nunca meu pae me fez:Que é meu senhor amado,E mais vós, senhor marquez.Estando pois em ParisO filho do imperador,Mandou chamar meu senhorNos passos da imperatriz:Fallaram muito a sabor;O que fallaram não sei,Se não que logo n’essa hora,E sem fazer mais demora,Com quatro detraz de siForam da cidade fóra,Armados secretamente,Segundo depois ouvi.Partimos todos d’ahi,E Dom Carloto presenteTambem armado outrosi.E tanto que aqui chegaram,N’este valle de pezarTodos juntos se apearamE fizeram-me ficarC’os cavallos que deixaram.E logo todos entraramEm este esquivo logar,Onde meu senhor mattaram,E depois de o mattar,Nos cavallos se tornaram.Como eu os vi tornar,Sentindo muito tal dor,Temendo de lhe fallar,Não ousei de perguntarOnde estava meu senhor.Vendo-os assim caminhar,Porque nenhum me fallava,Quiz a meu senhor buscar,Porque o coração me davaSobresaltos de pezar.Não o podia toparPorque a grande espessuraE a noite medrosa, escuraMe fazia não o achar:De que tinha gran’ tristura.Buscando-o com gran’ paixão,N’aquelle lugar remotoO achei d’esta feição.Disse-me como á traiçãoO mattára Dom Carloto.Perguntei porque razão:Triste, cheio de agonias,Disse-me com afflicção:—‘Vai-me buscar confissão,Ja se acabaram meus dias.’Como taes novas ouvi,Com grande tribulaçãoE pezar de vê-lo assi,Me parti logo d’aquiA buscar este ermitão.Isto é, senhor, o que seiD’este caso desastrado,Quanto me ha perguntado:Outra coisa não direiMais do que lhei contado.DIZ O MARQUEZ—Quando sua majestadeJustiça me não fizerCom toda a rogaridade.Á força de meu podêrCumprirei minha vontade.DIZ O ERMITÃO—Ja o senhor se ha confessado,E fez actos de christão;Morre com tal contricção,Que eu estou maravilhadoDe sua gran’ discrição.Muito não póde tardar,Segundo n’elle senti.Acabei de lhe fallarPorque lhe quero rezarOs psalmos d’elrei David.FALLA VALDEVINOS—Não tomeis, tio, pezar,Que me parto de vos verPara nunca mais tornar,Pois Deus me manda chamarE não posso mais fazer.Torno-vos a incommendarMinha espôsa e minha mãe,Que as queirais consolarE ambas as amparar,Poisque não têem mais a quem.ORAÇÃO DE VALDEVINOS—Em as tuas mãos, Senhor,Incommendo meu espirito;Poisque es Salvador meu,Meu Deus e meu Redemptor,Não me falte favor teu:Pois, Senhor, me redemiste,Como Deus, que es de verdade,Senhor de toda a piedade,Lembra-te d’esta alma tristeCheia de toda a maldade.Salve, Senhora benigna,Madre de misericordia,Pas de nossa gran’ discordia,Dos peccadores mezinha,Vida doce e concordia,Spes nostra, a ti invocamos,Salva-nos da escura treva.A ti, Senhora, chamamosDesterrados filhos de Eva,A ti virgem, suspiramos,A ti gemendo e chorandoEm aqueste lagrymosoValle sem nenhum repouso,Sempre, Virge’, a ti chamamos,Que es nosso prazer e gôso.Ora pois, nossa advogada,Amparo da christandade,Volve os olhos de piedadeA mim, Virgem consagrada,Poisque es nossa liberdade.Dá-me, Senhora, virtudeContra todos meus imigos;Poisque es nossa saúde,Eu te rogo que me ajudesNos temores e perigos:Roga tu por mim, Senhora,Oh Sancta Madre de Deus,A quem a minha alma adora,Pois es rainha dos ceusE dos anjos superiora.Aqui expira Valdevinos eDIZ O MARQUEZ—Oh triste velho coitado,Oh cans cheias de tristura!Oh doloroso cuidado,Oh cuidado sem ventura,Sem ventura desestrado!Quebrem-se minhas intranhas,Rompa-se meu coraçãoCom minha tribulação.Chorem todas as campinasMinha grande perdição,Scureça-se o sol com dó,Caiam estrellas do ceu,As trévas de FaraóVenham ja sôbre mim só.Pois minha luz se perdeuNa luz de mui claro dia,Claridade sem clareza,Minha doce companhia,Onde está vossa alegria,Que me deixa tal tristeza?Oh velhice desestrada,Sem gloria e sem prazer,Para que me deixais ser,Pois que sendo, não sou nada,Nem desejo de viver?Porque não vens, padecer,Porque não vindes, tormentos,Paraque são soffrimentosA quem os não quer ja ter,Nem busca contentamentos?Paraque quero razão,Paraque quero prudencia,Nem saber, nem discrição?Paraque é paciencia,Pois perdi consolação?DIZ O PAGEM—Oh meu senhor muito amado,Porque vos tornastes pó?Porque me deixastes sóEm este mundo coitadoCom tanta tristeza e dó?Leváreis-me em companhia,Pois sempre vos tive, vivo.Oh minha grande alegria,Porque me deixais captivo,Mettido em tanta agonia?Meu senhor, minha alegria,Dizei, porque nos deixaisCom tanta pena notoria?Lembrai-vos, tende memoriaDe quantos desemparais.Oh sem ventura Burlor!De quem serás amparado,De quem terás o favorQue tinhas de teu senhor,Poisque ja te ha faltado?FALLA O ERMITÃO—Não tomeis, filho, pezar,Pois claramente sabeisQue pelo muito chorarNão cobrais o que perdeis.Deveis, filho, de cuidarQue nossa vida é um ventoTam ligeiro de passar,Que passa em um momentoPor nós assim como o ar.Quem viu o senhor infante,Tam pouco ha, fazer guerra,E ser n’ella tam possante,E agora em um instanteSe tornado escura terra,Diria com gran’ razãoQue este mundo coitadoNão dá outro galardão,Senão tristeza e paixão,Com a vós outros foi dado.Olhae a elrei SalomãoO galardão que deu;A Amon e Absalão,E ao valente Sansão,E ao forte Macabeu.Em a Sacra EscrituraMuitos mais podia acharSe os quizesse contar;Mas vossa grande corduraSupprirá donde faltar.E poisque não tem ja curaO mal feito e o passado,Cesse a vossa tristura,E demos á sepulturaEste corpo ja finado.Levemo-lo onde convêmPara que seja interrado;E póde bem ser guardadoN’aquella ermida que vêemAté ser imbalsemado.Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, eDIZ O IMPERADOR—Certo, conde Ganalão,Muito gran’ perda perdemos.Péza-me no coração,Porque na côrte não temosReinaldos de Montalvão,Nem o conde Dom Roldão,Nem o marquez Oliveiros,Nem o duque de Milão,Nem o infante Gaifeiros,Nem o forte Meredião.DIZ GANALÃO—Muito alto imperador,Muito estou maravilhadoPorque mostrais tal favorA quem vos ha deshonradoCom tanta íra e rigor,Que, chamando-se Almansor;Com o seu rosto mudadoAquelle falso traidorCom mui grande deshonorQuiz deshonrar vosso estado:Porquê, senhor, não sentisQue este malvado ladrãoVos prendeu de sua mãoTomando-vos a ParisCom muito grande traição?Pondo-vos em MontalvãoApezar do vosso imperio,Onde com gran’ vituperioEstivestes em prizão,Sem ter nenhum refrigerio?FALLA O IMPERADOR—Verdade é isso, cunhado:Porêm deveis de saberQue em Reinaldos me prenderEu mesmo sou o culpado:Isto bem o podeis crer.Se então me quiz offenderNão é muita maravilha,Pois ja me quiz guarnecerMattando elrei Carmeser,Que me trouxe a sua filha.DIZ GANALÃO—Vossa real majestadeDirá tudo o que quizer,Mas eu espero a Beltrão...Que se conheça a maldadeDe quem se hade conhecer.Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: eDIZ BELTRÃO—Gran’ Cesar Octaviano,Magno, augusto, forte rei,Grande imperador romano,Amparo da nossa lei,Poderosa majestade,Senhor de toda a Magança,Da Gascunha e da França,Gran’ patrão da christandade,Esteio de segurança!Pois sois senhor dos senhores,Imperador dos christãos,Somos vossos servidores,Amigos leaes e sãos.DIZ O IMPERADOR—Eu me espanto, Dom Beltrão,De vos ver d’aquella sorte,E a vós, forte duque Amão:Não é ésta disposiçãoE trajo da nossa côrte.FALLA O DUQUE—Muito mais será espantadoDe nossa triste embaixada,E do caso desestradoO qual lhe será contado,Se seguro nos é dado.DIZ O IMPERADOR—Bem o podeis explicarSem ter medo nem temor.Para que é assegurar?Pois sabeis que o embaixadorTem licença de fallar.DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA—Quiz, senhor, nossa mofinaQue o infante Valdevinos,Primo do forte Guarinos,Filho da linda HermelindaE do grande rei Salinos,Fôsse morto á traiçãoNa floresta sem ventura.A tam grande desventuraHaverá quem não procureDe vingar tal perdição?FALLA O IMPERADOR—É certa tam gran’ maldade,Que o sobrinho do marquezÉ morto, como dizeis?DIZ O DUQUE—Pela maior falsidadeQue nunca ninguem tal fez.DIZ O IMPERADOR—Este caso é desestrado:Saibamos como passouE quem tam mau feito obrou:Que o que tal senhor mattou,Merece bem castigado.FALLA O DUQUE—Saiba vossa majestadeQue dez dias póde haverQue o marquez foi á cidadeDe Mantua com gran’ vontadeÁ caça que sohe fazer.Andando assim a caçar,Da companhia perdidoFoi por ventura toparCom seu sobrinho feridoQuasi a ponto de expirar.Bem póde considerarO gran’ pezar que teriaDe se ver sem companhia,E a morrer em tal logarA coisa que mais queria.Perguntando a razão,Sendo d’ella mui ignoto,Disse com grande paixãoQue o mattára á traiçãoVosso filho Dom Carloto.A causa que o moveuDar morte tam dolorosaA tam grande amigo seu,Não foi outra, senhor meu,Salvo tomar-lhe a espôsa.Mattou-o á falsa fe,Indo muito bem armado,Com quatro homens de pé.Quem matta tam sem porquêMerece bem castigado.O marquez Danes OgeiroLhe manda pedir, senhor,Justiça mui por inteiro:Que ainda que perca herdeiro,Elle perde successor.DIZ DOM BELTRÃO—Não deve deixar passarTam gran’ mal sem o prover,Porque deve de cuidarSe seu filho nos mattar,Quem nos deve defender?E mais lhe faço saberPorque esteja apparelhado,Se justiça não fizer,Que o marquez tem juradoDe por armas a fazer.O mui valente e temidoReinaldo de MontalvãoEntre todos escolhidoEstá bem apercebidoComo geral capitão.Dom Chrisão e AguilanteCom o forte Dom Guarinos,E o valente Montesinos,Primo do morto infante,Primo de elrei Dom Salinos,E o mui grande rei Jaião,De Dom Reinaldos cunhado,E o esforçado Dudão,E o gran’ duque de Milão,E Dom Richarte esforçado,O marquez Dom Oliveiros,E o famoso Durandarte,E o infante Dom Gaifeiros,E o mui forte Ricardo,E outros fortes cavalheiros,Todos têem boa vontadeDe ajudar ao marquezEm essa necessidade;Porque foi gran’ crueldadeA que vosso filho fez.Evitae, senhor, tal damno,Pois que sois juiz sem par;Não vos mostreis inhumano,Acordae-vos de TrajanoEm a justiça guardar.Assim que, alto, esclarecido,Poderoso sem egual,O que fez tam grande malBem merece ser punidoPor seu mandado imperial.E pois, senhor, hei propostoA causa porque viemos,E sabeis o que queremos,Mandae-nos dar a respostaCom que ao marquez tornemos.DIZ O IMPERADOR—Oh poderoso Senhor,Que grande é o vosso mysterio!Pois para meu vituperioMe deste tal successorQue deshonrasse este imperio.Se o que dizeis é verdade,Como creio que será,Nunca rei na christandadeFez tam grande crueldadeComo por mim se verá.Por minha coroa juroDe cumprir e de mandarTudo que digo e procuro.Ao marquez podeis dizerQue elle póde vir seguro,E todos quantos tiver,Venham de guerra ou de paz,Assim como elle quiser.E pois que justiça quer,Com ella muito me praz.ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ—Bem sei que com gran’ paixãoEstá vossa majestadePela falsa informaçãoQue de mim, contra razão;Deram com gran’ falsidade;Porque um filho de tal homeE tão grande geraçãoNão deve sujar seu nomeEm caso tal de traição.Por vida de minha madre,Que se tam gran’ deshonorNão castigar com rigor,Que me será cruel padre,Não direito julgador.DIZ O IMPERADOR—Não vos queirais desculparPois que tendes tanta culpa,Que se o mundo vos desculpa,Não vos heide eu desculpar.E portanto mando logoQue estejais posto a recado,Até ser determinado,Por conselho do meu povo,Se sois livre ou condemnado.Mando que sejais levadoÁ minha gran’ fortaleza,E que lá sejais guardadoDe cem homens do estado,Até saber a certeza.FALLA DOM CARLOTO—E como, senhor, não querVossa real majestadeSaber primeiro a verdade,Senão mandar-me prenderPor tam grande falsidade?DIZ O IMPERADOR—Não vos quero mais ouvir.Levem-no logo á prizãoOnde eu o mando ir;Porque tam grande traiçãoNão é para consentir.Vós outros podeis tornar,E contar-lhe o que é passadoA quem vos cá quiz mandar;Que o seguro que lhe hei dado,Eu o torno a affirmar.AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ—Eu muito me maravilhoDe vossa grande bondade:Que sem razão nem verdadeTrattais assim vosso filhoCom tam grande crueldade.Olhe vossa majestadeQue é herdeiro principal,E que toda a christandadeLh’o hade ter muito a mal.DIZ O IMPERADOR—A mim, senhora, convemSer contra toda a traição:E se vosso filho a tem,Castiga-lo-hei muito bem:E essa é minha tenção.E mais eu vos certificoQue com direito e rigorHeide castigar o iniquo,Ora seja pobre ou ricco,Ou servo ou gran’ senhor.FALLA A IMPERATRIZ—Como quer vossa grandezaInfamar o nosso estadoSem causa, com tal crueza?DIZ O IMPERADOR—Quem me cá mandou recadoNão foi senão com certeza.DIZ A IMPERATRIZ—Por tal recado, senhor,Quereis trattar de tal sorteVosso filho e successor,Que depois de vossa morteHade ser imperador?FALLA O IMPERADOREm eu o mandar prenderNão cuideis que o maltratto.Mas se elle o merecer,Eu espero de fazerA justiça do Troquato;Porque pae tam poderoso,Sendo de tantos caudilho,Senão for tam rigoroso,Nem elle será bom filho,Nem será rei justiçoso.Que agora, mal peccado!Nenhum rei nem julgadorFaz justiça do maior;Mas antes é desprezadoO pequeno com rigor.Todo o mundo é affeição;Julgam com rara remissaO nobre que, sem razãoAlguma, tem opiniãolhe tocar a justiça...Que conta posso eu darAo Senhor dos altos ceos,Se a meu filho não julgarComo outro qualquer dos meus?Assim que escusado éBuscar este intercessor;Porque Deos de NazaréNão me fez tam gran’ senhorPara minha alma perder.DIZ A IMPERATRIZAi triste de mim coitada!Para que quero viver,Poisque sempre heide serDo meu filho tam penadaComo uma triste mulher?Pois tão triste heide serPor meu filho muito amado,Nunca tomarei prazer,Senão tristeza e cuidado.DIZ O IMPERADOR—Não façais tantos extremos,Pois dizeis que tem desculpa,Que antes que sentença dêmos.Primeiro todos veremosSe tem culpa ou não tem culpa.Mostrae maior soffrimento,Que o caso é desestrado;E i-vos a vosso aposento,Que elle não será culpado.Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, eDIZ A MÃE—Oh coração lastimado,Mais triste que a noite escura!Oh dolorosa tristura,Cuidado desesperadoE fortunosa ventura!Oh vida da minha vida,Alma d’este corpo meu!Oh desditosa perdida,Oh sem ventura nascida,A mais que nunca nasceu!Oh filho meu muito amado,Minha doce companhia,Meu prazer, minha alegria,Minha tristeza e cuidado,Minha sab’rosa lembrança,Que serei eu sem vos ver?Filho da minha alegria,Oh meu descanço e prazer,Porque me deixais viverVida com tanta agonia?Adonde vos acharei,Consôlo de meu pezar?Onde vos irei buscar,Poisque perdido vos heiPara jamais vos cobrar?Filho d’esta alma mesquinha,Dos meus olhos claridade,Onde estais, minha mezinha.Filho de minha saudade,Meu prazer e vida minha?DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA—Que é de vós, meu coração,Que é da minha liberdade,Espelho da christandade,Quem vos mattou sem razãoCom tão grande crueldade?Quem vos apartou de mim,Meu querido e meu espôso?Oh meu prazer saudoso,Porque me deixais assimCom cuidado mui penoso?Oh minha triste saudade,Oh meu espôso e senhor,Minha alegria e vontade,Escudo da christandade,Das tristes consolador!Que farei pobre coitada,Mais que nenhuma nascida?Miseravel, angustiada,Para que quero ter vida,Pois minha alma é apartada?Oh fortuna variavel,Triste, cruel, mattadora,De prazeres roubadora,Inimiga perduravel,Matta-me se que’s agora.DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR—Se vossa gran’ majestadeNão der castigo direitoA quem tanto mal ha feito,Nem sustentar a verdade,Não será juiz perfeito.Não olhe vossa grandezaSua madre dolorosa,Nem sua tanta tristeza;Mas olhe tam gran’ princezaCom ésta sua espôsa.FALLA O IMPERADOR—Faz-me tanto intristecerEste tam gran’ vituperio,Que mais quizera perderJunctamente meu imperio,Que tal meu filho fazer.Mas se a verdade assim é,Como ja sou informado,Que tal castigo lhe dêQue seja bem castigado.DIZ SYBILA—Seja justiça guardadaA ésta orphã sem marido.Viuva desamparada,Tam triste e desconsoladaMais que quantas têem nascido.Olhae, senhor, tam gran’ malComo vosso filho, ha feito,E não queirais ter respeitoAo amor paternal,Poisque não é por direito.FALLA O IMPERADOR—Senhora, não duvideis,Que eu farei o que hei jurado,Se é verdade o que dizeis,Porque cumpre a meu estadoDe fazer o que quereis:Que mais quero ter commigoFama de regoridade,Que deixar de ter castigo,Quem commetteu tal maldade.Para que é ser caudilhoDe tanto povo e tam grado,E imperador chamado,Se não julgasse meu filhoComo qualquer estragado?Não cuidem duques nem reisQue, por meu herdeiro ser,Que por isso hade viver:Que aquelle que faz as leisÉ obrigado a as manter.Assim que, por bem querer,Amizade nem respeito,Como agora sohem fazer,Não heide negar direitoA quem direito tiver.E bem vos podeis tornar,Fazei certo o que dissestesE não tomeis tal pezar,Porque o bem que ja perdestesNão o cobrais com chorar.DIZ HERMELINDA—Senhor, nós outras nos pomosEm mãos da vossa grandeza:Olhae bem, senhor, quem somos,E de que linhagem fomos,Pois Deus nos deu tal nobreza.DIZ SYBILA—Olhae os serviços dinosQue tanto tempo vos fezMeu espôso Valdevinos,Tambem seu tio marquez,E como foram continos.Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, eDIZ REINALDOS DE MONTALVÃO—O summo rei dos senhores,Que morreu crucificadoEm podêr dos pharizeos,Accrescente vosso estadoE vos livre de traidores.FALLA O IMPERADOR—Mui valente e esforçadoReinaldos de Montalvão,Vós sejais tam bem chegadoComo a sombra no verão.Muito estou maravilhado,Invencivel e mui forte,De ver-vos assim armado,Sabendo que em minha côrteNunca fostes maltratado.FALLA REINALDOS—Senhor, não seja espantadoDe ver-me assim d’esta sorte,Porque com todo o cuidadoGanalão, vosso cunhado,Sempre me procura a morte.Bem sabeis que sem razão,Com vontade mui malignaFez mattar com gran’ traiçãoA Tiranes e Erocina,E ao feito Salião,E a mim ja quiz mattarMuitas vezes com maldade;E para mais me danar,Fez á sua majestadeMil vezes me desterrar.O grande mal que me querDe todo o mundo é sabido,E por isso quiz trazerArmas para offender,Antes que ser offendido.Mas deixando isto assimGuardado p’ra seu logar,Onde se hade vingar,Vos quero, senhor, contar.Notorio a todo o christãoÉ o pezar lastimosoDo marquez Danes Ogeiro,Que tem, com justa razão,Pela morte do herdeiro.N’esta nobre côrte estãoMuitos mui nobres senhoresQue sabem que Dom BeltrãoE o nobre duque AmãoForam seus embaixadores:Tambem este é sabedorDas respostas que lhe destes,E mais de como prendestesVosso filho successor.Do qual está mui contenteDe te-lo pôsto em prizão;E tem mui grande razão,Porque na carta presente,A qual fez de sua mão,Confessa toda a traição.E um pagem a levavaPara o conde Dom Roldão,Que na cidade de BoavaFaz a sua habitação.E como não ha falsiaQue se possa esconder,Tinha o marquez espia,Porque queria saberO que Dom Roldão faria.Esse pagem imbuçado,Sem suspeita e sem revez,Ia mui determinado:Onde logo foi tomadoE levado ao marquez.Lendo a carta Dom Guarinos,N’ella contava a tençãoPorque o mattára á traição.Isto é, senhor, a verdade,E o que vos manda dizer:Se o que digo é falsidade,(Que por isso a quiz trazer)A lettra é bom conhecer,Que é este o seu signal.Pois, quem fez tam grande malBem merece padecerMorte justa corporal.DIZ O IMPERADORSe tal a carta disser,Não se ha mister mais provar,Nem mais certeza fazer,Senão logo executarA pena que merecer.E portanto, sem deter,Lea-se publicamenteAnte ésta nobre gente;Porque todos possam verVossa verdade evidente.CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃOCaudilho de gran’ podêr,Capitão da christandade,Ésta vos quiz escrever,Para vos fazer saberMinha gran’ necessidade.Porque o verdadeiro amigoHade ser no coração,Assim como fiel irmão,E não nade temer p’rigoPor salvar quem tem razão.Porque sabereis, senhor,Que me sinto mui culpado,Como quem foi mattador;E temo ser condemnadoDe meu padre imperador.Eu confesso que pequei,Pois com vontade damnosaA Valdevinos mattei.Amor me fez com que errei,E o primor de sua esposa.O imperador, meu padre,Me mandou prêso guardar,E nunca quiz attentar,Os rogos de minha madre.A ninguem quer escutar,E o marquez tem juradoDe não vestir nem calçar,Nem entrar em povoado,Até me ver justiçar.Tenho por accusadores,Reinaldos de Montalvão,E seu padre o duque AmãoE muitos grandes senhores;O gran’ duque de MilãoCom o forte Montesinos,Que é primo de Valdevinos.Assim que todos me sãoAccusadores continuos.Pois tantos contra mim são,Eu vos rogo, como amigo,Que vós queirais ser commigo;Porque, tendo Dom Roldão,Não temo nenhum perigo.DIZ O IMPERADORAntes que algum mal cresça,Façamos o que devemos.Pois o signal conhecemos,E pois vemos que confessa,De mais próva não curemos,Nem vós façais mais detença.E, pois ja tendes licença,Podeis dizer ao marquezQue venha ouvir a sentença.Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,DIZ O IMPERADORSenhora, ja não dirãoQue fui eu mal informado,Nem que o prendo sem razão,Pois por sua confissãoVosso filho é condemnado.Vêdes a carta presente,Que foi feita da sua mãoPara o conde Dom Roldão:A qual muito largamenteDeclara toda a traição.DIZ A IMPERATRIZEu muito me maravilhoDo que, senhor, me ha contado;Mas, pois elle ha confessado,Melhor é morrer o filhoQue deshonrar o estado.Mas a dor do coraçãoSempre me hade ficar...Peço-lhe com affeiçãoQue lhe busque salvaçãoE que o queira escutar.DIZ O IMPERADORMelhor é que o successorPadeça morte sentida,Que ficar o pae traidor:Que será trocar honor,Pela deshonra nascida.Tambem eu padeço dor,Tambem eu sinto paixão,Tambem eu lhe tenho amor...Mas antes quero razão,Que amizade sem favor.DIZ A IMPERATRIZPoisque não póde escapar,Eu não consinto nem queroQue vós o hajais de julgar,Porque vos podem chamarMuito mais peior que Nero.DIZ O IMPERADORNão vivais em tal ingano,Que tambem foram caudilhosO gran’ Trocato, o Trajano;E quizeram, com gran’ damno,Ambos justiçar seus filhos.Pois que menos farei eu,Tendo tam grande estado?Quem é com razão culpadoEm maior caso que o seu?E portanto eu vos rogoQue não tomeis tal pezar,Porque com vos enojarDá-se gran’ tristeza ao povo.DIZ A IMPERATRIZEu cumprirei seu mandado,Porque vejo que é razão;Mas sempre meu coraçãoTerá tristeza e cuidadoE grande tribulação.Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, eDIZ O MARQUEZBem parece, alto senhor,Que vos fez Deus sem segundo,E de todos superior,Dos maiores o melhor,Rei e monarcha do mundo.Porque vós, senhor, sois tal,Que com razão e verdadeSustentais a christandadeEm justiça universal.A qual para salvaçãoVos é muito necessaria,Porque convem ao christãoQue use mais de razãoQue de affeição voluntaria:Como faz vossa grandezaCom seu filho successor.Assim que, digo, senhor,Que estima mais a nobrezaQue amizade nem favor.FALLA O IMPERADORNão curemos de fallarEm coisa tam conhecida;Porque n’esta breve vidaHavemos de procurarPela eterna e comprida.Para sentir gran’ pezarVós tendes razão infinda,E tambem de vos vingar,Pois foi justa vossa vinda.Bem vimos vossa embaixada,E a causa d’ella propostaFoi de nós mui bem olhada,E não menos foi mandadaMui convencivel resposta.E vimos vossa tenção,E soubemos vosso voto,E vemos tendes razãoPela grande informaçãoDo principe Dom Carloto.E vimos a confissãoDe Dom Carloto tambem,E soubemos a traição,Como na carta contêm,Que mandava a Dom Roldão.De tudo certificado,Eu condemno a Dom CarlotoEm tudo o que hei mandado.VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDOA imperatriz, senhor,Está tam amortecidaDe grande paixão e dorQue não tem pulso nem cor,Nem nenhum signal de vida.Nenhum remedio lhe vem;Está n’esse padecerSem lhe podêrmos valer:E, segundo d’ella cremos,Mui pouco hade viver.DIZ O IMPERADOREu muito me maravilhoDe sua gran’ discrição;Mais sinto sua paixão,Que a morte de meu filho...Não te quero mais dizer,Quero-a ir consolar,Pois tanto lhe faz mister.Não sei porque é enojarPor se justiça fazer!Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, eDIZ REINALDOSJagora, senhor marquez,Vos podeis chamar vingado,Porque assás é castigadoO que tanto mal vos fez,Poisque morreu degollado.Fazei por vos alegrar,Dae graças ao Redemptor,Pois assim vos quiz vingar,Sem nenhum de nós p’rigarE com mais vosso valor.
Na caça andava perdidoDe Mantua o velho marquez,E no peito presentidoO coração traz de envez;Mais, não sabe o succedido!Farto ja de caminharPor tam fragosa montanha,Cançado assim sem companha,Sem ter onde repousarN’essa terra tam extranha,Vendo o mato tam cerrado,Assentou de se apearE o seu cavallo deixarPorque estava de cançadoQue ja não podia andar:FALLA O MARQUEZ—Fortunosa caça é éstaQue a fortuna me ha mostrado,Poisque, por ser manifestaMinha pena e gran’ cuidado,Me mostrou ésta floresta.Nunca vi tam forte brenhaDesque me accordo de mi,Eu creio que MargasiFez ésta serra Dardenha,Estes campos de Methli.Quero tocar a bosinaPor ver se algum me ouvirá;Mas cuido que não será,Porque minha gran’ mofinaCommigo começou ja.Todavia quero verSe mora alguem n’esta serraQue me diga d’esta terraCuja é para saber;Que quem pergunta não erra.Agora vejo-me aquiN’esta tam grande espessura,Que nem eu me vejo a mi,Nem sei de minha ventura,Nem menos será cordura.DIZ VALDEVINOS—Oh Virgem minha senhora,Madre do rei da verdade,Por vossa gran’ piedadeSêde minha intercessoraEm tanta necessidade.Oh summa regina pia,Radiante luz phebea,Custodia animæ meæ,Pois está na terra friaA alma de pezar chea,Pois es amparo dos teus,Consola os desconsolados,Rainha dos altos ceos,E roga a meu senhor DeosQue perdoe meus peccados.FALLA O MARQUEZ—Não sei quem ouço gemerE chorar de quando em quando:Alguem deve de aqui estar...Segundo se esta queixando,Deve ter grande pezar.FALLA VALDEVINOS—Domine, memento mei,Lembrae-vos de minha alma,Pois que sois da glória rei,Nascido da flor da palma,Remedio de nossa lei.DIZ O MARQUEZ—Segundo d’elle se espera,Aquelle home anda perdido,Ou, por ventura feridoDe alguma besta fera.Quero ver este mysterio,Que a falla me dá ousadia,Porque dois em companhiaTerão grande refrigerioPara qualquer agonia.DIZ VALDEVINOS—Oh minha espôsa e senhora,Ja não tereis em podêrVosso espôso que assim chora,Pois a morte roubadoraVos roubou todo o prazer.Oh vida do meu viver,Resplandecente narciso,Gran’ pena levo em saberQue nunca vos heide verAté o dia do juizo.Oh esperança por quemTinha victoria vencida!Oh minha glória, meu bem,Porque não partis tambem,Poisque sois a minha vida?Senão for vossa vontadeDe haver de mim compaixão,Mandae-me meu coração,Minha fe e liberdade,Que está em vossa prizão.Madre minha muito amada,Qu’é de o filho que paristes,De quem ereis consolada?Como se ha tornado nadaQuanta glória possuistes?Ja me não vereis reinar,Ja me não dareis conselho,Nem eu o posso tomar;Que quebrado é o espelhoEm que vos sabeis olhar.Ja nunca me haveis de verFazer justas e torneios,Nem vestir nobres arreios,Nem cavalleiros vencer,Nem tomar bandos alheios.Ja não tomareis prazerQuando me virdes armado;Ja vos não virão dizerA fama de meu podêr,Nem louvar-me de esforçado.Oh valentes cavalleiros,Reinaldos de Montalvão,Oh esforçado Roldão,Oh marquez Dom Oliveiros,Dom Ricardo, Dom Dudão,Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,Oh gran’ duque de Milão,Que é de vossa companhia?Duque Maime de Baviera,Que é de vosso Valdevinos?Oh esforçado Guarinos,Quem comsigo vos tivera!Meu amigo Montesinhos,Ja nunca mais vos verei;Dom Alonso de Inglaterra,Ja nunca acompanhareiO conde Dirlos na guerra.Oh esforçado marquezDe Mantua, teu senhorio,Ja não me poreis arnez,Nem me vereis outra vezGozar vosso senhorio.Ja não quero o vosso estado,Ja não quero ser pessoa,Nem mandar, nem ter reinado;Ja não quero ter coroa,Nem quero ser venerado.Oh Carlos imperador,Senhor de mui alta sorte,Como sentireis gran’ dorSabendo da minha morte,E quem d’ella é causador:Bem sei, se sois informadoDo caso como passou,Que serei mui bem vingado,Ainda que me mattouVosso filho mui amado.Oh principe D. Carloto,Quem, sendo tam desegual,Te moveu a fazer malEm um logar tam remotoA teu amigo leal?Alto Deus omnipotente,Juiz direito sem par,Sôbre ésta morte innocenteJustiça queirais mostrar,Pois morro tam cruelmente.Oh Madre de Deus benigno,E fonte de piedade,Arca da Sancta Trindade,De donde o Verbo DivinoTrouxe sua humanidade,Oh Sancta Domina mea,Oh Virgem gratia plenaEm que a alma se recrea,Dae remedio á minha pena,Pois que morro em terra alhea.FALLA O MARQUEZ—Senhor, porque vos queixais?Quem vos tratou de tal sorte,E quem é o que tal morteVos deu, como publicais,Que assás é ésta má sorte?Não me negueis a verdade,Contae-me vosso pezar,Que vos prometto ajudarCom toda a força e vontade.DIZ VALDEVINOS—Muito me agasta, amigo,Certamente teu tardar,Dize se trazes comtigoQuem me haja de confessar?DIZ O MARQUEZ—Eu não sou quem vós cuidais:Nunca comi vosso pão,Mas vossos gritos e aisMe trouxeram aonde estaisMui movido a compaixão.Dizei-me vossa agonia,Que, se remedio tiver,Eu vos prometto fazerCom que tenhais alegria.DIZ VALDEVINOS—Meu senhor, muitas mercêsPor vossa boa vontade!Bem creio que me fareisMuito mais do que dizeis,Segundo vossa bondade.Mas minha dor é mortal,Meu remedio so é morte,Porque estou parado tal,Que nunca homem mortalFoi trattado de tal sorte.Tenho, senhor, vinte e duasFeridas todas mortais,As intranhas rotas, nuas,E passo penas tam cruas,Que não poderão ser mais.Ha-me morto á traiçãoO filho do imperador,Carloto, a gran’ sem razão,Mostrando-me todo o amor,Não o tendo no coração.Muitas vezes requeriaMinha espôsa com maldade,Mas ella não consentiaPelo bem que me queria,Por sua grande bondade.Carloto com gran’ pezar,Como mais traidor que forte,Ordenou de me matar,Cuidando com minha morteCom ella haver de casar.Mattou-me com gran’ falsia,Tranzendo cinco comsigo,Sem eu trazer mais commigoQue um pagem por companhia.A mim chamam Valdevinos,Sou filho de elrei de Dacia,E primo de elrei de Grecia,E do forte Montesinos,Que é herdeiro de Dalmacia.Dona Hermelinda formosaMinha madre natural,Sibylla minha espôsaDe graças especial,Mas com primores famosa.Ésta nova contareisÁ triste de minha madreQue em Mantua achareis,E ao honrado marquezMeu tio, irmão de meu padre.FALLA O MARQUEZ—Oh desestrado viver,Oh amargosa ventura,Oh ventura sem prazer,Prazer cheio de tristura,Tristura que não tem ser!Oh desventurada sorte,Oh sorte sem soffrimento,Desemparado tormento,Muito peior do que a morte,Morte de desabrimento!Oh meu sobrinho, meu bem,Minha esperança perdida,Oh gloria que me sustêm,Porque vos partis de quemSem vós não terá mais vida?Oh desventurado velho,Captivo sem liberdade!Quem me póde dar conselho,Pois perdido é o espelhoDe minha gran’ claridade!Oh minha luz verdadeira,Trevas do meu coração,Penas de minha paixão,Cuidado, que me marteira,Tristeza de tal traição!Porque não quereis fallarA este marquez coitado,Que tio sohieis chamar?Fallae-me, sobrinho amado,Não me façais rebentar.DIZ VALDEVINOS—Meu tormento tam molestoMe faz não vos conhecerNem na falla, nem no gesto;Nem intendo vosso dizerSe não for mais manifesto.Estou tão posto no fim,Que não sei se sou alguem,Nem menos conheço a mim;Pois quem não conhece a sim,Mal conhecerá ninguem.DIZ O MARQUEZ—Como não me conheceis,Meu sobrinho Valdevinos?Eu sou o triste marquezIrmão de elrei Dom Salinos,Que era o pae que vos fez.Eu sou o marquez sem sorte,Que devêra rebentarChorando a vossa morte,Por com vida não ficarN’este mundo sem de porte.Oh triste mundo coitado,Ninguem deve em ti fiar,Pois es tam desventurado,Que o que tens mais exaltado,Mor quéda lhe fazes dar!FALLA VALDEVINOS—Perdoa-me, senhor tio,A minha descortezia,Que a minha grande agoniaMe pôs em tanto desvio,Que ja vos não conhecia.Não me queirais mais chorar;Deveis de considerarQue para isso é o mundo,Que dobrais meu mal profundo.Para bem é mal passar:E bem sabeis que nascemosPara ir a ésta jornada,E que, quanto mais vivemos,Maior offensa fazemosA quem nos creou de nada.Assim que, necessidadeNão tendes de me chorar,Poisque Deus me quiz levarNo melhor de minha edadePara mais me aproveitar.Mas o que haveis de fazer,É por minha alma rogar,Porque o muito chorarÁ alma não dá prazer,Mas antes mui gran’ pezar.Quero-vos incommendarMinha espôsa e minha madre,Poisque não tem outro padreQue as haja de amparar,Senão vós, como é verdade.Mas o que me dá paixãoEm ésta triste partida,É morrer sem confissão;Mas se parto d’esta vida,Deus receberá a tenção.Vem o ermitão e o pagem.DIZ O ERMITÃO—A paz de Deus sempiternoSeja comvosco, irmão!Lembrae-vos de sua paixãoQue, por nos livrar do inferno,Padeceu quanto a varão.DIZ VALDEVINOS—Com coisa mais não folgáraDo que vê-lo aqui chegado,Padre de Deus enviado,Que se um pouco mais tardára,Não me achára n’este estado.FALLA O PAGEM—Oh que desestrada sorte,Meu senhor Danes Ogeiro!Olhae vosso escudo forte,Olhae, senhor, vosso herdeiro,Em que extremo o pôs a morte!Oh desditoso caminho,Caça de tanto pezar,Que cuidando de caçar,A morte a vosso sobrinhoVieste, senhor, buscar.DIZ O ERMITÃO—A gran’ pressa que traziaNão me deu, senhor, logarDe conhecer nem fallarA vossa gran’ senhoria.N’este êrro se ha culpa,Peço-lhe d’ella perdão,Ainda que a discriçãoSua me dará desculpa.FALLA O MARQUEZ—Rogae a Deus, padre honrado,Que me queira dar paciencia;Que o perdão é escusado,Porque vossa diligenciaVos não deixa ser culpado.DIZ O ERMITÃO—O filho de Deus enviadoVos mande consolação!E pois que aqui sou chegado,Quero ouvir de confissãoEste ferido e angustiado.Coisa é mui naturalA morte a toda a pessoa,A todo o mundo em geral,Poisque a nenhum perdoa.Não a tenhamos por mais.Porque o peccado de AdãoFoi tam fero e de tal sorte,Que não só foi perdição:Mas Deus, que é salvação,Quiz tambem receber morte.E por tanto, filho meu,Não se deve de espantarDa morte que Deus lhe deu;Pois em provimento seuLh’a deu para o salvarLembre-lhe sua paixão:Veja este mundo coitado,E não o ingode o malvado,Que não dá por galardãoSenão tristeza e cuidado.Em quanto, filho, tem vida,Chame a Madre de Deus,Aquella que foi nascidaSem peccado concebida,E coroada nos ceos.Ésta foi santificadaE visitada dos anjos,E em corpo e alma levadaÁ gloria, onde exaltadaLá está sobre os archanjos.Assim, que ao RedemptorE a ésta Virgem sem parSe hade, filho, incommendarDepois que aos sanctos forSua vontade chamar.As mãos levante aos ceus,Faça confissão geral,Confessando-se a DeusE á Virgem celestialE a todos os sanctos seus.DIZ O MARQUEZ—Oh bonancia abhorrecida,Oh desestrada fortuna,De prazeres gran’ tribuna!Porque não desemparaisA quem sois tam importuna?Tristeza, desconfiança,Porque não desesperaisA quem não tem confiança?Contae-me, pagem Burlor,O caso como passou,Quem foi aquelle traidorQue mattou vosso senhor,Ou por que causa o matouFALLA O PAGEM—Seria mui mal contadoSe a sua gran’ senhoriaNão contasse o que é passado.Eu sei certo que fariaO que não é esperadoContra quem me deu estado,E ha feito tantas mercêsQue nunca meu pae me fez:Que é meu senhor amado,E mais vós, senhor marquez.Estando pois em ParisO filho do imperador,Mandou chamar meu senhorNos passos da imperatriz:Fallaram muito a sabor;O que fallaram não sei,Se não que logo n’essa hora,E sem fazer mais demora,Com quatro detraz de siForam da cidade fóra,Armados secretamente,Segundo depois ouvi.Partimos todos d’ahi,E Dom Carloto presenteTambem armado outrosi.E tanto que aqui chegaram,N’este valle de pezarTodos juntos se apearamE fizeram-me ficarC’os cavallos que deixaram.E logo todos entraramEm este esquivo logar,Onde meu senhor mattaram,E depois de o mattar,Nos cavallos se tornaram.Como eu os vi tornar,Sentindo muito tal dor,Temendo de lhe fallar,Não ousei de perguntarOnde estava meu senhor.Vendo-os assim caminhar,Porque nenhum me fallava,Quiz a meu senhor buscar,Porque o coração me davaSobresaltos de pezar.Não o podia toparPorque a grande espessuraE a noite medrosa, escuraMe fazia não o achar:De que tinha gran’ tristura.Buscando-o com gran’ paixão,N’aquelle lugar remotoO achei d’esta feição.Disse-me como á traiçãoO mattára Dom Carloto.Perguntei porque razão:Triste, cheio de agonias,Disse-me com afflicção:—‘Vai-me buscar confissão,Ja se acabaram meus dias.’Como taes novas ouvi,Com grande tribulaçãoE pezar de vê-lo assi,Me parti logo d’aquiA buscar este ermitão.Isto é, senhor, o que seiD’este caso desastrado,Quanto me ha perguntado:Outra coisa não direiMais do que lhei contado.DIZ O MARQUEZ—Quando sua majestadeJustiça me não fizerCom toda a rogaridade.Á força de meu podêrCumprirei minha vontade.DIZ O ERMITÃO—Ja o senhor se ha confessado,E fez actos de christão;Morre com tal contricção,Que eu estou maravilhadoDe sua gran’ discrição.Muito não póde tardar,Segundo n’elle senti.Acabei de lhe fallarPorque lhe quero rezarOs psalmos d’elrei David.FALLA VALDEVINOS—Não tomeis, tio, pezar,Que me parto de vos verPara nunca mais tornar,Pois Deus me manda chamarE não posso mais fazer.Torno-vos a incommendarMinha espôsa e minha mãe,Que as queirais consolarE ambas as amparar,Poisque não têem mais a quem.ORAÇÃO DE VALDEVINOS—Em as tuas mãos, Senhor,Incommendo meu espirito;Poisque es Salvador meu,Meu Deus e meu Redemptor,Não me falte favor teu:Pois, Senhor, me redemiste,Como Deus, que es de verdade,Senhor de toda a piedade,Lembra-te d’esta alma tristeCheia de toda a maldade.Salve, Senhora benigna,Madre de misericordia,Pas de nossa gran’ discordia,Dos peccadores mezinha,Vida doce e concordia,Spes nostra, a ti invocamos,Salva-nos da escura treva.A ti, Senhora, chamamosDesterrados filhos de Eva,A ti virgem, suspiramos,A ti gemendo e chorandoEm aqueste lagrymosoValle sem nenhum repouso,Sempre, Virge’, a ti chamamos,Que es nosso prazer e gôso.Ora pois, nossa advogada,Amparo da christandade,Volve os olhos de piedadeA mim, Virgem consagrada,Poisque es nossa liberdade.Dá-me, Senhora, virtudeContra todos meus imigos;Poisque es nossa saúde,Eu te rogo que me ajudesNos temores e perigos:Roga tu por mim, Senhora,Oh Sancta Madre de Deus,A quem a minha alma adora,Pois es rainha dos ceusE dos anjos superiora.Aqui expira Valdevinos eDIZ O MARQUEZ—Oh triste velho coitado,Oh cans cheias de tristura!Oh doloroso cuidado,Oh cuidado sem ventura,Sem ventura desestrado!Quebrem-se minhas intranhas,Rompa-se meu coraçãoCom minha tribulação.Chorem todas as campinasMinha grande perdição,Scureça-se o sol com dó,Caiam estrellas do ceu,As trévas de FaraóVenham ja sôbre mim só.Pois minha luz se perdeuNa luz de mui claro dia,Claridade sem clareza,Minha doce companhia,Onde está vossa alegria,Que me deixa tal tristeza?Oh velhice desestrada,Sem gloria e sem prazer,Para que me deixais ser,Pois que sendo, não sou nada,Nem desejo de viver?Porque não vens, padecer,Porque não vindes, tormentos,Paraque são soffrimentosA quem os não quer ja ter,Nem busca contentamentos?Paraque quero razão,Paraque quero prudencia,Nem saber, nem discrição?Paraque é paciencia,Pois perdi consolação?DIZ O PAGEM—Oh meu senhor muito amado,Porque vos tornastes pó?Porque me deixastes sóEm este mundo coitadoCom tanta tristeza e dó?Leváreis-me em companhia,Pois sempre vos tive, vivo.Oh minha grande alegria,Porque me deixais captivo,Mettido em tanta agonia?Meu senhor, minha alegria,Dizei, porque nos deixaisCom tanta pena notoria?Lembrai-vos, tende memoriaDe quantos desemparais.Oh sem ventura Burlor!De quem serás amparado,De quem terás o favorQue tinhas de teu senhor,Poisque ja te ha faltado?FALLA O ERMITÃO—Não tomeis, filho, pezar,Pois claramente sabeisQue pelo muito chorarNão cobrais o que perdeis.Deveis, filho, de cuidarQue nossa vida é um ventoTam ligeiro de passar,Que passa em um momentoPor nós assim como o ar.Quem viu o senhor infante,Tam pouco ha, fazer guerra,E ser n’ella tam possante,E agora em um instanteSe tornado escura terra,Diria com gran’ razãoQue este mundo coitadoNão dá outro galardão,Senão tristeza e paixão,Com a vós outros foi dado.Olhae a elrei SalomãoO galardão que deu;A Amon e Absalão,E ao valente Sansão,E ao forte Macabeu.Em a Sacra EscrituraMuitos mais podia acharSe os quizesse contar;Mas vossa grande corduraSupprirá donde faltar.E poisque não tem ja curaO mal feito e o passado,Cesse a vossa tristura,E demos á sepulturaEste corpo ja finado.Levemo-lo onde convêmPara que seja interrado;E póde bem ser guardadoN’aquella ermida que vêemAté ser imbalsemado.Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, eDIZ O IMPERADOR—Certo, conde Ganalão,Muito gran’ perda perdemos.Péza-me no coração,Porque na côrte não temosReinaldos de Montalvão,Nem o conde Dom Roldão,Nem o marquez Oliveiros,Nem o duque de Milão,Nem o infante Gaifeiros,Nem o forte Meredião.DIZ GANALÃO—Muito alto imperador,Muito estou maravilhadoPorque mostrais tal favorA quem vos ha deshonradoCom tanta íra e rigor,Que, chamando-se Almansor;Com o seu rosto mudadoAquelle falso traidorCom mui grande deshonorQuiz deshonrar vosso estado:Porquê, senhor, não sentisQue este malvado ladrãoVos prendeu de sua mãoTomando-vos a ParisCom muito grande traição?Pondo-vos em MontalvãoApezar do vosso imperio,Onde com gran’ vituperioEstivestes em prizão,Sem ter nenhum refrigerio?FALLA O IMPERADOR—Verdade é isso, cunhado:Porêm deveis de saberQue em Reinaldos me prenderEu mesmo sou o culpado:Isto bem o podeis crer.Se então me quiz offenderNão é muita maravilha,Pois ja me quiz guarnecerMattando elrei Carmeser,Que me trouxe a sua filha.DIZ GANALÃO—Vossa real majestadeDirá tudo o que quizer,Mas eu espero a Beltrão...Que se conheça a maldadeDe quem se hade conhecer.Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: eDIZ BELTRÃO—Gran’ Cesar Octaviano,Magno, augusto, forte rei,Grande imperador romano,Amparo da nossa lei,Poderosa majestade,Senhor de toda a Magança,Da Gascunha e da França,Gran’ patrão da christandade,Esteio de segurança!Pois sois senhor dos senhores,Imperador dos christãos,Somos vossos servidores,Amigos leaes e sãos.DIZ O IMPERADOR—Eu me espanto, Dom Beltrão,De vos ver d’aquella sorte,E a vós, forte duque Amão:Não é ésta disposiçãoE trajo da nossa côrte.FALLA O DUQUE—Muito mais será espantadoDe nossa triste embaixada,E do caso desestradoO qual lhe será contado,Se seguro nos é dado.DIZ O IMPERADOR—Bem o podeis explicarSem ter medo nem temor.Para que é assegurar?Pois sabeis que o embaixadorTem licença de fallar.DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA—Quiz, senhor, nossa mofinaQue o infante Valdevinos,Primo do forte Guarinos,Filho da linda HermelindaE do grande rei Salinos,Fôsse morto á traiçãoNa floresta sem ventura.A tam grande desventuraHaverá quem não procureDe vingar tal perdição?FALLA O IMPERADOR—É certa tam gran’ maldade,Que o sobrinho do marquezÉ morto, como dizeis?DIZ O DUQUE—Pela maior falsidadeQue nunca ninguem tal fez.DIZ O IMPERADOR—Este caso é desestrado:Saibamos como passouE quem tam mau feito obrou:Que o que tal senhor mattou,Merece bem castigado.FALLA O DUQUE—Saiba vossa majestadeQue dez dias póde haverQue o marquez foi á cidadeDe Mantua com gran’ vontadeÁ caça que sohe fazer.Andando assim a caçar,Da companhia perdidoFoi por ventura toparCom seu sobrinho feridoQuasi a ponto de expirar.Bem póde considerarO gran’ pezar que teriaDe se ver sem companhia,E a morrer em tal logarA coisa que mais queria.Perguntando a razão,Sendo d’ella mui ignoto,Disse com grande paixãoQue o mattára á traiçãoVosso filho Dom Carloto.A causa que o moveuDar morte tam dolorosaA tam grande amigo seu,Não foi outra, senhor meu,Salvo tomar-lhe a espôsa.Mattou-o á falsa fe,Indo muito bem armado,Com quatro homens de pé.Quem matta tam sem porquêMerece bem castigado.O marquez Danes OgeiroLhe manda pedir, senhor,Justiça mui por inteiro:Que ainda que perca herdeiro,Elle perde successor.DIZ DOM BELTRÃO—Não deve deixar passarTam gran’ mal sem o prover,Porque deve de cuidarSe seu filho nos mattar,Quem nos deve defender?E mais lhe faço saberPorque esteja apparelhado,Se justiça não fizer,Que o marquez tem juradoDe por armas a fazer.O mui valente e temidoReinaldo de MontalvãoEntre todos escolhidoEstá bem apercebidoComo geral capitão.Dom Chrisão e AguilanteCom o forte Dom Guarinos,E o valente Montesinos,Primo do morto infante,Primo de elrei Dom Salinos,E o mui grande rei Jaião,De Dom Reinaldos cunhado,E o esforçado Dudão,E o gran’ duque de Milão,E Dom Richarte esforçado,O marquez Dom Oliveiros,E o famoso Durandarte,E o infante Dom Gaifeiros,E o mui forte Ricardo,E outros fortes cavalheiros,Todos têem boa vontadeDe ajudar ao marquezEm essa necessidade;Porque foi gran’ crueldadeA que vosso filho fez.Evitae, senhor, tal damno,Pois que sois juiz sem par;Não vos mostreis inhumano,Acordae-vos de TrajanoEm a justiça guardar.Assim que, alto, esclarecido,Poderoso sem egual,O que fez tam grande malBem merece ser punidoPor seu mandado imperial.E pois, senhor, hei propostoA causa porque viemos,E sabeis o que queremos,Mandae-nos dar a respostaCom que ao marquez tornemos.DIZ O IMPERADOR—Oh poderoso Senhor,Que grande é o vosso mysterio!Pois para meu vituperioMe deste tal successorQue deshonrasse este imperio.Se o que dizeis é verdade,Como creio que será,Nunca rei na christandadeFez tam grande crueldadeComo por mim se verá.Por minha coroa juroDe cumprir e de mandarTudo que digo e procuro.Ao marquez podeis dizerQue elle póde vir seguro,E todos quantos tiver,Venham de guerra ou de paz,Assim como elle quiser.E pois que justiça quer,Com ella muito me praz.ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ—Bem sei que com gran’ paixãoEstá vossa majestadePela falsa informaçãoQue de mim, contra razão;Deram com gran’ falsidade;Porque um filho de tal homeE tão grande geraçãoNão deve sujar seu nomeEm caso tal de traição.Por vida de minha madre,Que se tam gran’ deshonorNão castigar com rigor,Que me será cruel padre,Não direito julgador.DIZ O IMPERADOR—Não vos queirais desculparPois que tendes tanta culpa,Que se o mundo vos desculpa,Não vos heide eu desculpar.E portanto mando logoQue estejais posto a recado,Até ser determinado,Por conselho do meu povo,Se sois livre ou condemnado.Mando que sejais levadoÁ minha gran’ fortaleza,E que lá sejais guardadoDe cem homens do estado,Até saber a certeza.FALLA DOM CARLOTO—E como, senhor, não querVossa real majestadeSaber primeiro a verdade,Senão mandar-me prenderPor tam grande falsidade?DIZ O IMPERADOR—Não vos quero mais ouvir.Levem-no logo á prizãoOnde eu o mando ir;Porque tam grande traiçãoNão é para consentir.Vós outros podeis tornar,E contar-lhe o que é passadoA quem vos cá quiz mandar;Que o seguro que lhe hei dado,Eu o torno a affirmar.AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ—Eu muito me maravilhoDe vossa grande bondade:Que sem razão nem verdadeTrattais assim vosso filhoCom tam grande crueldade.Olhe vossa majestadeQue é herdeiro principal,E que toda a christandadeLh’o hade ter muito a mal.DIZ O IMPERADOR—A mim, senhora, convemSer contra toda a traição:E se vosso filho a tem,Castiga-lo-hei muito bem:E essa é minha tenção.E mais eu vos certificoQue com direito e rigorHeide castigar o iniquo,Ora seja pobre ou ricco,Ou servo ou gran’ senhor.FALLA A IMPERATRIZ—Como quer vossa grandezaInfamar o nosso estadoSem causa, com tal crueza?DIZ O IMPERADOR—Quem me cá mandou recadoNão foi senão com certeza.DIZ A IMPERATRIZ—Por tal recado, senhor,Quereis trattar de tal sorteVosso filho e successor,Que depois de vossa morteHade ser imperador?FALLA O IMPERADOREm eu o mandar prenderNão cuideis que o maltratto.Mas se elle o merecer,Eu espero de fazerA justiça do Troquato;Porque pae tam poderoso,Sendo de tantos caudilho,Senão for tam rigoroso,Nem elle será bom filho,Nem será rei justiçoso.Que agora, mal peccado!Nenhum rei nem julgadorFaz justiça do maior;Mas antes é desprezadoO pequeno com rigor.Todo o mundo é affeição;Julgam com rara remissaO nobre que, sem razãoAlguma, tem opiniãolhe tocar a justiça...Que conta posso eu darAo Senhor dos altos ceos,Se a meu filho não julgarComo outro qualquer dos meus?Assim que escusado éBuscar este intercessor;Porque Deos de NazaréNão me fez tam gran’ senhorPara minha alma perder.DIZ A IMPERATRIZAi triste de mim coitada!Para que quero viver,Poisque sempre heide serDo meu filho tam penadaComo uma triste mulher?Pois tão triste heide serPor meu filho muito amado,Nunca tomarei prazer,Senão tristeza e cuidado.DIZ O IMPERADOR—Não façais tantos extremos,Pois dizeis que tem desculpa,Que antes que sentença dêmos.Primeiro todos veremosSe tem culpa ou não tem culpa.Mostrae maior soffrimento,Que o caso é desestrado;E i-vos a vosso aposento,Que elle não será culpado.Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, eDIZ A MÃE—Oh coração lastimado,Mais triste que a noite escura!Oh dolorosa tristura,Cuidado desesperadoE fortunosa ventura!Oh vida da minha vida,Alma d’este corpo meu!Oh desditosa perdida,Oh sem ventura nascida,A mais que nunca nasceu!Oh filho meu muito amado,Minha doce companhia,Meu prazer, minha alegria,Minha tristeza e cuidado,Minha sab’rosa lembrança,Que serei eu sem vos ver?Filho da minha alegria,Oh meu descanço e prazer,Porque me deixais viverVida com tanta agonia?Adonde vos acharei,Consôlo de meu pezar?Onde vos irei buscar,Poisque perdido vos heiPara jamais vos cobrar?Filho d’esta alma mesquinha,Dos meus olhos claridade,Onde estais, minha mezinha.Filho de minha saudade,Meu prazer e vida minha?DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA—Que é de vós, meu coração,Que é da minha liberdade,Espelho da christandade,Quem vos mattou sem razãoCom tão grande crueldade?Quem vos apartou de mim,Meu querido e meu espôso?Oh meu prazer saudoso,Porque me deixais assimCom cuidado mui penoso?Oh minha triste saudade,Oh meu espôso e senhor,Minha alegria e vontade,Escudo da christandade,Das tristes consolador!Que farei pobre coitada,Mais que nenhuma nascida?Miseravel, angustiada,Para que quero ter vida,Pois minha alma é apartada?Oh fortuna variavel,Triste, cruel, mattadora,De prazeres roubadora,Inimiga perduravel,Matta-me se que’s agora.DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR—Se vossa gran’ majestadeNão der castigo direitoA quem tanto mal ha feito,Nem sustentar a verdade,Não será juiz perfeito.Não olhe vossa grandezaSua madre dolorosa,Nem sua tanta tristeza;Mas olhe tam gran’ princezaCom ésta sua espôsa.FALLA O IMPERADOR—Faz-me tanto intristecerEste tam gran’ vituperio,Que mais quizera perderJunctamente meu imperio,Que tal meu filho fazer.Mas se a verdade assim é,Como ja sou informado,Que tal castigo lhe dêQue seja bem castigado.DIZ SYBILA—Seja justiça guardadaA ésta orphã sem marido.Viuva desamparada,Tam triste e desconsoladaMais que quantas têem nascido.Olhae, senhor, tam gran’ malComo vosso filho, ha feito,E não queirais ter respeitoAo amor paternal,Poisque não é por direito.FALLA O IMPERADOR—Senhora, não duvideis,Que eu farei o que hei jurado,Se é verdade o que dizeis,Porque cumpre a meu estadoDe fazer o que quereis:Que mais quero ter commigoFama de regoridade,Que deixar de ter castigo,Quem commetteu tal maldade.Para que é ser caudilhoDe tanto povo e tam grado,E imperador chamado,Se não julgasse meu filhoComo qualquer estragado?Não cuidem duques nem reisQue, por meu herdeiro ser,Que por isso hade viver:Que aquelle que faz as leisÉ obrigado a as manter.Assim que, por bem querer,Amizade nem respeito,Como agora sohem fazer,Não heide negar direitoA quem direito tiver.E bem vos podeis tornar,Fazei certo o que dissestesE não tomeis tal pezar,Porque o bem que ja perdestesNão o cobrais com chorar.DIZ HERMELINDA—Senhor, nós outras nos pomosEm mãos da vossa grandeza:Olhae bem, senhor, quem somos,E de que linhagem fomos,Pois Deus nos deu tal nobreza.DIZ SYBILA—Olhae os serviços dinosQue tanto tempo vos fezMeu espôso Valdevinos,Tambem seu tio marquez,E como foram continos.Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, eDIZ REINALDOS DE MONTALVÃO—O summo rei dos senhores,Que morreu crucificadoEm podêr dos pharizeos,Accrescente vosso estadoE vos livre de traidores.FALLA O IMPERADOR—Mui valente e esforçadoReinaldos de Montalvão,Vós sejais tam bem chegadoComo a sombra no verão.Muito estou maravilhado,Invencivel e mui forte,De ver-vos assim armado,Sabendo que em minha côrteNunca fostes maltratado.FALLA REINALDOS—Senhor, não seja espantadoDe ver-me assim d’esta sorte,Porque com todo o cuidadoGanalão, vosso cunhado,Sempre me procura a morte.Bem sabeis que sem razão,Com vontade mui malignaFez mattar com gran’ traiçãoA Tiranes e Erocina,E ao feito Salião,E a mim ja quiz mattarMuitas vezes com maldade;E para mais me danar,Fez á sua majestadeMil vezes me desterrar.O grande mal que me querDe todo o mundo é sabido,E por isso quiz trazerArmas para offender,Antes que ser offendido.Mas deixando isto assimGuardado p’ra seu logar,Onde se hade vingar,Vos quero, senhor, contar.Notorio a todo o christãoÉ o pezar lastimosoDo marquez Danes Ogeiro,Que tem, com justa razão,Pela morte do herdeiro.N’esta nobre côrte estãoMuitos mui nobres senhoresQue sabem que Dom BeltrãoE o nobre duque AmãoForam seus embaixadores:Tambem este é sabedorDas respostas que lhe destes,E mais de como prendestesVosso filho successor.Do qual está mui contenteDe te-lo pôsto em prizão;E tem mui grande razão,Porque na carta presente,A qual fez de sua mão,Confessa toda a traição.E um pagem a levavaPara o conde Dom Roldão,Que na cidade de BoavaFaz a sua habitação.E como não ha falsiaQue se possa esconder,Tinha o marquez espia,Porque queria saberO que Dom Roldão faria.Esse pagem imbuçado,Sem suspeita e sem revez,Ia mui determinado:Onde logo foi tomadoE levado ao marquez.Lendo a carta Dom Guarinos,N’ella contava a tençãoPorque o mattára á traição.Isto é, senhor, a verdade,E o que vos manda dizer:Se o que digo é falsidade,(Que por isso a quiz trazer)A lettra é bom conhecer,Que é este o seu signal.Pois, quem fez tam grande malBem merece padecerMorte justa corporal.DIZ O IMPERADORSe tal a carta disser,Não se ha mister mais provar,Nem mais certeza fazer,Senão logo executarA pena que merecer.E portanto, sem deter,Lea-se publicamenteAnte ésta nobre gente;Porque todos possam verVossa verdade evidente.CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃOCaudilho de gran’ podêr,Capitão da christandade,Ésta vos quiz escrever,Para vos fazer saberMinha gran’ necessidade.Porque o verdadeiro amigoHade ser no coração,Assim como fiel irmão,E não nade temer p’rigoPor salvar quem tem razão.Porque sabereis, senhor,Que me sinto mui culpado,Como quem foi mattador;E temo ser condemnadoDe meu padre imperador.Eu confesso que pequei,Pois com vontade damnosaA Valdevinos mattei.Amor me fez com que errei,E o primor de sua esposa.O imperador, meu padre,Me mandou prêso guardar,E nunca quiz attentar,Os rogos de minha madre.A ninguem quer escutar,E o marquez tem juradoDe não vestir nem calçar,Nem entrar em povoado,Até me ver justiçar.Tenho por accusadores,Reinaldos de Montalvão,E seu padre o duque AmãoE muitos grandes senhores;O gran’ duque de MilãoCom o forte Montesinos,Que é primo de Valdevinos.Assim que todos me sãoAccusadores continuos.Pois tantos contra mim são,Eu vos rogo, como amigo,Que vós queirais ser commigo;Porque, tendo Dom Roldão,Não temo nenhum perigo.DIZ O IMPERADORAntes que algum mal cresça,Façamos o que devemos.Pois o signal conhecemos,E pois vemos que confessa,De mais próva não curemos,Nem vós façais mais detença.E, pois ja tendes licença,Podeis dizer ao marquezQue venha ouvir a sentença.Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,DIZ O IMPERADORSenhora, ja não dirãoQue fui eu mal informado,Nem que o prendo sem razão,Pois por sua confissãoVosso filho é condemnado.Vêdes a carta presente,Que foi feita da sua mãoPara o conde Dom Roldão:A qual muito largamenteDeclara toda a traição.DIZ A IMPERATRIZEu muito me maravilhoDo que, senhor, me ha contado;Mas, pois elle ha confessado,Melhor é morrer o filhoQue deshonrar o estado.Mas a dor do coraçãoSempre me hade ficar...Peço-lhe com affeiçãoQue lhe busque salvaçãoE que o queira escutar.DIZ O IMPERADORMelhor é que o successorPadeça morte sentida,Que ficar o pae traidor:Que será trocar honor,Pela deshonra nascida.Tambem eu padeço dor,Tambem eu sinto paixão,Tambem eu lhe tenho amor...Mas antes quero razão,Que amizade sem favor.DIZ A IMPERATRIZPoisque não póde escapar,Eu não consinto nem queroQue vós o hajais de julgar,Porque vos podem chamarMuito mais peior que Nero.DIZ O IMPERADORNão vivais em tal ingano,Que tambem foram caudilhosO gran’ Trocato, o Trajano;E quizeram, com gran’ damno,Ambos justiçar seus filhos.Pois que menos farei eu,Tendo tam grande estado?Quem é com razão culpadoEm maior caso que o seu?E portanto eu vos rogoQue não tomeis tal pezar,Porque com vos enojarDá-se gran’ tristeza ao povo.DIZ A IMPERATRIZEu cumprirei seu mandado,Porque vejo que é razão;Mas sempre meu coraçãoTerá tristeza e cuidadoE grande tribulação.Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, eDIZ O MARQUEZBem parece, alto senhor,Que vos fez Deus sem segundo,E de todos superior,Dos maiores o melhor,Rei e monarcha do mundo.Porque vós, senhor, sois tal,Que com razão e verdadeSustentais a christandadeEm justiça universal.A qual para salvaçãoVos é muito necessaria,Porque convem ao christãoQue use mais de razãoQue de affeição voluntaria:Como faz vossa grandezaCom seu filho successor.Assim que, digo, senhor,Que estima mais a nobrezaQue amizade nem favor.FALLA O IMPERADORNão curemos de fallarEm coisa tam conhecida;Porque n’esta breve vidaHavemos de procurarPela eterna e comprida.Para sentir gran’ pezarVós tendes razão infinda,E tambem de vos vingar,Pois foi justa vossa vinda.Bem vimos vossa embaixada,E a causa d’ella propostaFoi de nós mui bem olhada,E não menos foi mandadaMui convencivel resposta.E vimos vossa tenção,E soubemos vosso voto,E vemos tendes razãoPela grande informaçãoDo principe Dom Carloto.E vimos a confissãoDe Dom Carloto tambem,E soubemos a traição,Como na carta contêm,Que mandava a Dom Roldão.De tudo certificado,Eu condemno a Dom CarlotoEm tudo o que hei mandado.VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDOA imperatriz, senhor,Está tam amortecidaDe grande paixão e dorQue não tem pulso nem cor,Nem nenhum signal de vida.Nenhum remedio lhe vem;Está n’esse padecerSem lhe podêrmos valer:E, segundo d’ella cremos,Mui pouco hade viver.DIZ O IMPERADOREu muito me maravilhoDe sua gran’ discrição;Mais sinto sua paixão,Que a morte de meu filho...Não te quero mais dizer,Quero-a ir consolar,Pois tanto lhe faz mister.Não sei porque é enojarPor se justiça fazer!Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, eDIZ REINALDOSJagora, senhor marquez,Vos podeis chamar vingado,Porque assás é castigadoO que tanto mal vos fez,Poisque morreu degollado.Fazei por vos alegrar,Dae graças ao Redemptor,Pois assim vos quiz vingar,Sem nenhum de nós p’rigarE com mais vosso valor.
Na caça andava perdidoDe Mantua o velho marquez,E no peito presentidoO coração traz de envez;Mais, não sabe o succedido!Farto ja de caminharPor tam fragosa montanha,Cançado assim sem companha,Sem ter onde repousarN’essa terra tam extranha,Vendo o mato tam cerrado,Assentou de se apearE o seu cavallo deixarPorque estava de cançadoQue ja não podia andar:FALLA O MARQUEZ—Fortunosa caça é éstaQue a fortuna me ha mostrado,Poisque, por ser manifestaMinha pena e gran’ cuidado,Me mostrou ésta floresta.Nunca vi tam forte brenhaDesque me accordo de mi,Eu creio que MargasiFez ésta serra Dardenha,Estes campos de Methli.Quero tocar a bosinaPor ver se algum me ouvirá;Mas cuido que não será,Porque minha gran’ mofinaCommigo começou ja.Todavia quero verSe mora alguem n’esta serraQue me diga d’esta terraCuja é para saber;Que quem pergunta não erra.Agora vejo-me aquiN’esta tam grande espessura,Que nem eu me vejo a mi,Nem sei de minha ventura,Nem menos será cordura.DIZ VALDEVINOS—Oh Virgem minha senhora,Madre do rei da verdade,Por vossa gran’ piedadeSêde minha intercessoraEm tanta necessidade.Oh summa regina pia,Radiante luz phebea,Custodia animæ meæ,Pois está na terra friaA alma de pezar chea,Pois es amparo dos teus,Consola os desconsolados,Rainha dos altos ceos,E roga a meu senhor DeosQue perdoe meus peccados.FALLA O MARQUEZ—Não sei quem ouço gemerE chorar de quando em quando:Alguem deve de aqui estar...Segundo se esta queixando,Deve ter grande pezar.FALLA VALDEVINOS—Domine, memento mei,Lembrae-vos de minha alma,Pois que sois da glória rei,Nascido da flor da palma,Remedio de nossa lei.DIZ O MARQUEZ—Segundo d’elle se espera,Aquelle home anda perdido,Ou, por ventura feridoDe alguma besta fera.Quero ver este mysterio,Que a falla me dá ousadia,Porque dois em companhiaTerão grande refrigerioPara qualquer agonia.DIZ VALDEVINOS—Oh minha espôsa e senhora,Ja não tereis em podêrVosso espôso que assim chora,Pois a morte roubadoraVos roubou todo o prazer.Oh vida do meu viver,Resplandecente narciso,Gran’ pena levo em saberQue nunca vos heide verAté o dia do juizo.Oh esperança por quemTinha victoria vencida!Oh minha glória, meu bem,Porque não partis tambem,Poisque sois a minha vida?Senão for vossa vontadeDe haver de mim compaixão,Mandae-me meu coração,Minha fe e liberdade,Que está em vossa prizão.Madre minha muito amada,Qu’é de o filho que paristes,De quem ereis consolada?Como se ha tornado nadaQuanta glória possuistes?Ja me não vereis reinar,Ja me não dareis conselho,Nem eu o posso tomar;Que quebrado é o espelhoEm que vos sabeis olhar.Ja nunca me haveis de verFazer justas e torneios,Nem vestir nobres arreios,Nem cavalleiros vencer,Nem tomar bandos alheios.Ja não tomareis prazerQuando me virdes armado;Ja vos não virão dizerA fama de meu podêr,Nem louvar-me de esforçado.Oh valentes cavalleiros,Reinaldos de Montalvão,Oh esforçado Roldão,Oh marquez Dom Oliveiros,Dom Ricardo, Dom Dudão,Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,Oh gran’ duque de Milão,Que é de vossa companhia?Duque Maime de Baviera,Que é de vosso Valdevinos?Oh esforçado Guarinos,Quem comsigo vos tivera!Meu amigo Montesinhos,Ja nunca mais vos verei;Dom Alonso de Inglaterra,Ja nunca acompanhareiO conde Dirlos na guerra.Oh esforçado marquezDe Mantua, teu senhorio,Ja não me poreis arnez,Nem me vereis outra vezGozar vosso senhorio.Ja não quero o vosso estado,Ja não quero ser pessoa,Nem mandar, nem ter reinado;Ja não quero ter coroa,Nem quero ser venerado.Oh Carlos imperador,Senhor de mui alta sorte,Como sentireis gran’ dorSabendo da minha morte,E quem d’ella é causador:Bem sei, se sois informadoDo caso como passou,Que serei mui bem vingado,Ainda que me mattouVosso filho mui amado.Oh principe D. Carloto,Quem, sendo tam desegual,Te moveu a fazer malEm um logar tam remotoA teu amigo leal?Alto Deus omnipotente,Juiz direito sem par,Sôbre ésta morte innocenteJustiça queirais mostrar,Pois morro tam cruelmente.Oh Madre de Deus benigno,E fonte de piedade,Arca da Sancta Trindade,De donde o Verbo DivinoTrouxe sua humanidade,Oh Sancta Domina mea,Oh Virgem gratia plenaEm que a alma se recrea,Dae remedio á minha pena,Pois que morro em terra alhea.FALLA O MARQUEZ—Senhor, porque vos queixais?Quem vos tratou de tal sorte,E quem é o que tal morteVos deu, como publicais,Que assás é ésta má sorte?Não me negueis a verdade,Contae-me vosso pezar,Que vos prometto ajudarCom toda a força e vontade.DIZ VALDEVINOS—Muito me agasta, amigo,Certamente teu tardar,Dize se trazes comtigoQuem me haja de confessar?DIZ O MARQUEZ—Eu não sou quem vós cuidais:Nunca comi vosso pão,Mas vossos gritos e aisMe trouxeram aonde estaisMui movido a compaixão.Dizei-me vossa agonia,Que, se remedio tiver,Eu vos prometto fazerCom que tenhais alegria.DIZ VALDEVINOS—Meu senhor, muitas mercêsPor vossa boa vontade!Bem creio que me fareisMuito mais do que dizeis,Segundo vossa bondade.Mas minha dor é mortal,Meu remedio so é morte,Porque estou parado tal,Que nunca homem mortalFoi trattado de tal sorte.Tenho, senhor, vinte e duasFeridas todas mortais,As intranhas rotas, nuas,E passo penas tam cruas,Que não poderão ser mais.Ha-me morto á traiçãoO filho do imperador,Carloto, a gran’ sem razão,Mostrando-me todo o amor,Não o tendo no coração.Muitas vezes requeriaMinha espôsa com maldade,Mas ella não consentiaPelo bem que me queria,Por sua grande bondade.Carloto com gran’ pezar,Como mais traidor que forte,Ordenou de me matar,Cuidando com minha morteCom ella haver de casar.Mattou-me com gran’ falsia,Tranzendo cinco comsigo,Sem eu trazer mais commigoQue um pagem por companhia.A mim chamam Valdevinos,Sou filho de elrei de Dacia,E primo de elrei de Grecia,E do forte Montesinos,Que é herdeiro de Dalmacia.Dona Hermelinda formosaMinha madre natural,Sibylla minha espôsaDe graças especial,Mas com primores famosa.Ésta nova contareisÁ triste de minha madreQue em Mantua achareis,E ao honrado marquezMeu tio, irmão de meu padre.FALLA O MARQUEZ—Oh desestrado viver,Oh amargosa ventura,Oh ventura sem prazer,Prazer cheio de tristura,Tristura que não tem ser!Oh desventurada sorte,Oh sorte sem soffrimento,Desemparado tormento,Muito peior do que a morte,Morte de desabrimento!Oh meu sobrinho, meu bem,Minha esperança perdida,Oh gloria que me sustêm,Porque vos partis de quemSem vós não terá mais vida?Oh desventurado velho,Captivo sem liberdade!Quem me póde dar conselho,Pois perdido é o espelhoDe minha gran’ claridade!Oh minha luz verdadeira,Trevas do meu coração,Penas de minha paixão,Cuidado, que me marteira,Tristeza de tal traição!Porque não quereis fallarA este marquez coitado,Que tio sohieis chamar?Fallae-me, sobrinho amado,Não me façais rebentar.DIZ VALDEVINOS—Meu tormento tam molestoMe faz não vos conhecerNem na falla, nem no gesto;Nem intendo vosso dizerSe não for mais manifesto.Estou tão posto no fim,Que não sei se sou alguem,Nem menos conheço a mim;Pois quem não conhece a sim,Mal conhecerá ninguem.DIZ O MARQUEZ—Como não me conheceis,Meu sobrinho Valdevinos?Eu sou o triste marquezIrmão de elrei Dom Salinos,Que era o pae que vos fez.Eu sou o marquez sem sorte,Que devêra rebentarChorando a vossa morte,Por com vida não ficarN’este mundo sem de porte.Oh triste mundo coitado,Ninguem deve em ti fiar,Pois es tam desventurado,Que o que tens mais exaltado,Mor quéda lhe fazes dar!FALLA VALDEVINOS—Perdoa-me, senhor tio,A minha descortezia,Que a minha grande agoniaMe pôs em tanto desvio,Que ja vos não conhecia.Não me queirais mais chorar;Deveis de considerarQue para isso é o mundo,Que dobrais meu mal profundo.Para bem é mal passar:E bem sabeis que nascemosPara ir a ésta jornada,E que, quanto mais vivemos,Maior offensa fazemosA quem nos creou de nada.Assim que, necessidadeNão tendes de me chorar,Poisque Deus me quiz levarNo melhor de minha edadePara mais me aproveitar.Mas o que haveis de fazer,É por minha alma rogar,Porque o muito chorarÁ alma não dá prazer,Mas antes mui gran’ pezar.Quero-vos incommendarMinha espôsa e minha madre,Poisque não tem outro padreQue as haja de amparar,Senão vós, como é verdade.Mas o que me dá paixãoEm ésta triste partida,É morrer sem confissão;Mas se parto d’esta vida,Deus receberá a tenção.Vem o ermitão e o pagem.DIZ O ERMITÃO—A paz de Deus sempiternoSeja comvosco, irmão!Lembrae-vos de sua paixãoQue, por nos livrar do inferno,Padeceu quanto a varão.DIZ VALDEVINOS—Com coisa mais não folgáraDo que vê-lo aqui chegado,Padre de Deus enviado,Que se um pouco mais tardára,Não me achára n’este estado.FALLA O PAGEM—Oh que desestrada sorte,Meu senhor Danes Ogeiro!Olhae vosso escudo forte,Olhae, senhor, vosso herdeiro,Em que extremo o pôs a morte!Oh desditoso caminho,Caça de tanto pezar,Que cuidando de caçar,A morte a vosso sobrinhoVieste, senhor, buscar.DIZ O ERMITÃO—A gran’ pressa que traziaNão me deu, senhor, logarDe conhecer nem fallarA vossa gran’ senhoria.N’este êrro se ha culpa,Peço-lhe d’ella perdão,Ainda que a discriçãoSua me dará desculpa.FALLA O MARQUEZ—Rogae a Deus, padre honrado,Que me queira dar paciencia;Que o perdão é escusado,Porque vossa diligenciaVos não deixa ser culpado.DIZ O ERMITÃO—O filho de Deus enviadoVos mande consolação!E pois que aqui sou chegado,Quero ouvir de confissãoEste ferido e angustiado.Coisa é mui naturalA morte a toda a pessoa,A todo o mundo em geral,Poisque a nenhum perdoa.Não a tenhamos por mais.Porque o peccado de AdãoFoi tam fero e de tal sorte,Que não só foi perdição:Mas Deus, que é salvação,Quiz tambem receber morte.E por tanto, filho meu,Não se deve de espantarDa morte que Deus lhe deu;Pois em provimento seuLh’a deu para o salvarLembre-lhe sua paixão:Veja este mundo coitado,E não o ingode o malvado,Que não dá por galardãoSenão tristeza e cuidado.Em quanto, filho, tem vida,Chame a Madre de Deus,Aquella que foi nascidaSem peccado concebida,E coroada nos ceos.Ésta foi santificadaE visitada dos anjos,E em corpo e alma levadaÁ gloria, onde exaltadaLá está sobre os archanjos.Assim, que ao RedemptorE a ésta Virgem sem parSe hade, filho, incommendarDepois que aos sanctos forSua vontade chamar.As mãos levante aos ceus,Faça confissão geral,Confessando-se a DeusE á Virgem celestialE a todos os sanctos seus.DIZ O MARQUEZ—Oh bonancia abhorrecida,Oh desestrada fortuna,De prazeres gran’ tribuna!Porque não desemparaisA quem sois tam importuna?Tristeza, desconfiança,Porque não desesperaisA quem não tem confiança?Contae-me, pagem Burlor,O caso como passou,Quem foi aquelle traidorQue mattou vosso senhor,Ou por que causa o matouFALLA O PAGEM—Seria mui mal contadoSe a sua gran’ senhoriaNão contasse o que é passado.Eu sei certo que fariaO que não é esperadoContra quem me deu estado,E ha feito tantas mercêsQue nunca meu pae me fez:Que é meu senhor amado,E mais vós, senhor marquez.Estando pois em ParisO filho do imperador,Mandou chamar meu senhorNos passos da imperatriz:Fallaram muito a sabor;O que fallaram não sei,Se não que logo n’essa hora,E sem fazer mais demora,Com quatro detraz de siForam da cidade fóra,Armados secretamente,Segundo depois ouvi.Partimos todos d’ahi,E Dom Carloto presenteTambem armado outrosi.E tanto que aqui chegaram,N’este valle de pezarTodos juntos se apearamE fizeram-me ficarC’os cavallos que deixaram.E logo todos entraramEm este esquivo logar,Onde meu senhor mattaram,E depois de o mattar,Nos cavallos se tornaram.Como eu os vi tornar,Sentindo muito tal dor,Temendo de lhe fallar,Não ousei de perguntarOnde estava meu senhor.Vendo-os assim caminhar,Porque nenhum me fallava,Quiz a meu senhor buscar,Porque o coração me davaSobresaltos de pezar.Não o podia toparPorque a grande espessuraE a noite medrosa, escuraMe fazia não o achar:De que tinha gran’ tristura.Buscando-o com gran’ paixão,N’aquelle lugar remotoO achei d’esta feição.Disse-me como á traiçãoO mattára Dom Carloto.Perguntei porque razão:Triste, cheio de agonias,Disse-me com afflicção:—‘Vai-me buscar confissão,Ja se acabaram meus dias.’Como taes novas ouvi,Com grande tribulaçãoE pezar de vê-lo assi,Me parti logo d’aquiA buscar este ermitão.Isto é, senhor, o que seiD’este caso desastrado,Quanto me ha perguntado:Outra coisa não direiMais do que lhei contado.DIZ O MARQUEZ—Quando sua majestadeJustiça me não fizerCom toda a rogaridade.Á força de meu podêrCumprirei minha vontade.DIZ O ERMITÃO—Ja o senhor se ha confessado,E fez actos de christão;Morre com tal contricção,Que eu estou maravilhadoDe sua gran’ discrição.Muito não póde tardar,Segundo n’elle senti.Acabei de lhe fallarPorque lhe quero rezarOs psalmos d’elrei David.FALLA VALDEVINOS—Não tomeis, tio, pezar,Que me parto de vos verPara nunca mais tornar,Pois Deus me manda chamarE não posso mais fazer.Torno-vos a incommendarMinha espôsa e minha mãe,Que as queirais consolarE ambas as amparar,Poisque não têem mais a quem.ORAÇÃO DE VALDEVINOS—Em as tuas mãos, Senhor,Incommendo meu espirito;Poisque es Salvador meu,Meu Deus e meu Redemptor,Não me falte favor teu:Pois, Senhor, me redemiste,Como Deus, que es de verdade,Senhor de toda a piedade,Lembra-te d’esta alma tristeCheia de toda a maldade.Salve, Senhora benigna,Madre de misericordia,Pas de nossa gran’ discordia,Dos peccadores mezinha,Vida doce e concordia,Spes nostra, a ti invocamos,Salva-nos da escura treva.A ti, Senhora, chamamosDesterrados filhos de Eva,A ti virgem, suspiramos,A ti gemendo e chorandoEm aqueste lagrymosoValle sem nenhum repouso,Sempre, Virge’, a ti chamamos,Que es nosso prazer e gôso.Ora pois, nossa advogada,Amparo da christandade,Volve os olhos de piedadeA mim, Virgem consagrada,Poisque es nossa liberdade.Dá-me, Senhora, virtudeContra todos meus imigos;Poisque es nossa saúde,Eu te rogo que me ajudesNos temores e perigos:Roga tu por mim, Senhora,Oh Sancta Madre de Deus,A quem a minha alma adora,Pois es rainha dos ceusE dos anjos superiora.Aqui expira Valdevinos eDIZ O MARQUEZ—Oh triste velho coitado,Oh cans cheias de tristura!Oh doloroso cuidado,Oh cuidado sem ventura,Sem ventura desestrado!Quebrem-se minhas intranhas,Rompa-se meu coraçãoCom minha tribulação.Chorem todas as campinasMinha grande perdição,Scureça-se o sol com dó,Caiam estrellas do ceu,As trévas de FaraóVenham ja sôbre mim só.Pois minha luz se perdeuNa luz de mui claro dia,Claridade sem clareza,Minha doce companhia,Onde está vossa alegria,Que me deixa tal tristeza?Oh velhice desestrada,Sem gloria e sem prazer,Para que me deixais ser,Pois que sendo, não sou nada,Nem desejo de viver?Porque não vens, padecer,Porque não vindes, tormentos,Paraque são soffrimentosA quem os não quer ja ter,Nem busca contentamentos?Paraque quero razão,Paraque quero prudencia,Nem saber, nem discrição?Paraque é paciencia,Pois perdi consolação?DIZ O PAGEM—Oh meu senhor muito amado,Porque vos tornastes pó?Porque me deixastes sóEm este mundo coitadoCom tanta tristeza e dó?Leváreis-me em companhia,Pois sempre vos tive, vivo.Oh minha grande alegria,Porque me deixais captivo,Mettido em tanta agonia?Meu senhor, minha alegria,Dizei, porque nos deixaisCom tanta pena notoria?Lembrai-vos, tende memoriaDe quantos desemparais.Oh sem ventura Burlor!De quem serás amparado,De quem terás o favorQue tinhas de teu senhor,Poisque ja te ha faltado?FALLA O ERMITÃO—Não tomeis, filho, pezar,Pois claramente sabeisQue pelo muito chorarNão cobrais o que perdeis.Deveis, filho, de cuidarQue nossa vida é um ventoTam ligeiro de passar,Que passa em um momentoPor nós assim como o ar.Quem viu o senhor infante,Tam pouco ha, fazer guerra,E ser n’ella tam possante,E agora em um instanteSe tornado escura terra,Diria com gran’ razãoQue este mundo coitadoNão dá outro galardão,Senão tristeza e paixão,Com a vós outros foi dado.Olhae a elrei SalomãoO galardão que deu;A Amon e Absalão,E ao valente Sansão,E ao forte Macabeu.Em a Sacra EscrituraMuitos mais podia acharSe os quizesse contar;Mas vossa grande corduraSupprirá donde faltar.E poisque não tem ja curaO mal feito e o passado,Cesse a vossa tristura,E demos á sepulturaEste corpo ja finado.Levemo-lo onde convêmPara que seja interrado;E póde bem ser guardadoN’aquella ermida que vêemAté ser imbalsemado.Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, eDIZ O IMPERADOR—Certo, conde Ganalão,Muito gran’ perda perdemos.Péza-me no coração,Porque na côrte não temosReinaldos de Montalvão,Nem o conde Dom Roldão,Nem o marquez Oliveiros,Nem o duque de Milão,Nem o infante Gaifeiros,Nem o forte Meredião.DIZ GANALÃO—Muito alto imperador,Muito estou maravilhadoPorque mostrais tal favorA quem vos ha deshonradoCom tanta íra e rigor,Que, chamando-se Almansor;Com o seu rosto mudadoAquelle falso traidorCom mui grande deshonorQuiz deshonrar vosso estado:Porquê, senhor, não sentisQue este malvado ladrãoVos prendeu de sua mãoTomando-vos a ParisCom muito grande traição?Pondo-vos em MontalvãoApezar do vosso imperio,Onde com gran’ vituperioEstivestes em prizão,Sem ter nenhum refrigerio?FALLA O IMPERADOR—Verdade é isso, cunhado:Porêm deveis de saberQue em Reinaldos me prenderEu mesmo sou o culpado:Isto bem o podeis crer.Se então me quiz offenderNão é muita maravilha,Pois ja me quiz guarnecerMattando elrei Carmeser,Que me trouxe a sua filha.DIZ GANALÃO—Vossa real majestadeDirá tudo o que quizer,Mas eu espero a Beltrão...Que se conheça a maldadeDe quem se hade conhecer.Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: eDIZ BELTRÃO—Gran’ Cesar Octaviano,Magno, augusto, forte rei,Grande imperador romano,Amparo da nossa lei,Poderosa majestade,Senhor de toda a Magança,Da Gascunha e da França,Gran’ patrão da christandade,Esteio de segurança!Pois sois senhor dos senhores,Imperador dos christãos,Somos vossos servidores,Amigos leaes e sãos.DIZ O IMPERADOR—Eu me espanto, Dom Beltrão,De vos ver d’aquella sorte,E a vós, forte duque Amão:Não é ésta disposiçãoE trajo da nossa côrte.FALLA O DUQUE—Muito mais será espantadoDe nossa triste embaixada,E do caso desestradoO qual lhe será contado,Se seguro nos é dado.DIZ O IMPERADOR—Bem o podeis explicarSem ter medo nem temor.Para que é assegurar?Pois sabeis que o embaixadorTem licença de fallar.DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA—Quiz, senhor, nossa mofinaQue o infante Valdevinos,Primo do forte Guarinos,Filho da linda HermelindaE do grande rei Salinos,Fôsse morto á traiçãoNa floresta sem ventura.A tam grande desventuraHaverá quem não procureDe vingar tal perdição?FALLA O IMPERADOR—É certa tam gran’ maldade,Que o sobrinho do marquezÉ morto, como dizeis?DIZ O DUQUE—Pela maior falsidadeQue nunca ninguem tal fez.DIZ O IMPERADOR—Este caso é desestrado:Saibamos como passouE quem tam mau feito obrou:Que o que tal senhor mattou,Merece bem castigado.FALLA O DUQUE—Saiba vossa majestadeQue dez dias póde haverQue o marquez foi á cidadeDe Mantua com gran’ vontadeÁ caça que sohe fazer.Andando assim a caçar,Da companhia perdidoFoi por ventura toparCom seu sobrinho feridoQuasi a ponto de expirar.Bem póde considerarO gran’ pezar que teriaDe se ver sem companhia,E a morrer em tal logarA coisa que mais queria.Perguntando a razão,Sendo d’ella mui ignoto,Disse com grande paixãoQue o mattára á traiçãoVosso filho Dom Carloto.A causa que o moveuDar morte tam dolorosaA tam grande amigo seu,Não foi outra, senhor meu,Salvo tomar-lhe a espôsa.Mattou-o á falsa fe,Indo muito bem armado,Com quatro homens de pé.Quem matta tam sem porquêMerece bem castigado.O marquez Danes OgeiroLhe manda pedir, senhor,Justiça mui por inteiro:Que ainda que perca herdeiro,Elle perde successor.DIZ DOM BELTRÃO—Não deve deixar passarTam gran’ mal sem o prover,Porque deve de cuidarSe seu filho nos mattar,Quem nos deve defender?E mais lhe faço saberPorque esteja apparelhado,Se justiça não fizer,Que o marquez tem juradoDe por armas a fazer.O mui valente e temidoReinaldo de MontalvãoEntre todos escolhidoEstá bem apercebidoComo geral capitão.Dom Chrisão e AguilanteCom o forte Dom Guarinos,E o valente Montesinos,Primo do morto infante,Primo de elrei Dom Salinos,E o mui grande rei Jaião,De Dom Reinaldos cunhado,E o esforçado Dudão,E o gran’ duque de Milão,E Dom Richarte esforçado,O marquez Dom Oliveiros,E o famoso Durandarte,E o infante Dom Gaifeiros,E o mui forte Ricardo,E outros fortes cavalheiros,Todos têem boa vontadeDe ajudar ao marquezEm essa necessidade;Porque foi gran’ crueldadeA que vosso filho fez.Evitae, senhor, tal damno,Pois que sois juiz sem par;Não vos mostreis inhumano,Acordae-vos de TrajanoEm a justiça guardar.Assim que, alto, esclarecido,Poderoso sem egual,O que fez tam grande malBem merece ser punidoPor seu mandado imperial.E pois, senhor, hei propostoA causa porque viemos,E sabeis o que queremos,Mandae-nos dar a respostaCom que ao marquez tornemos.DIZ O IMPERADOR—Oh poderoso Senhor,Que grande é o vosso mysterio!Pois para meu vituperioMe deste tal successorQue deshonrasse este imperio.Se o que dizeis é verdade,Como creio que será,Nunca rei na christandadeFez tam grande crueldadeComo por mim se verá.Por minha coroa juroDe cumprir e de mandarTudo que digo e procuro.Ao marquez podeis dizerQue elle póde vir seguro,E todos quantos tiver,Venham de guerra ou de paz,Assim como elle quiser.E pois que justiça quer,Com ella muito me praz.ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ—Bem sei que com gran’ paixãoEstá vossa majestadePela falsa informaçãoQue de mim, contra razão;Deram com gran’ falsidade;Porque um filho de tal homeE tão grande geraçãoNão deve sujar seu nomeEm caso tal de traição.Por vida de minha madre,Que se tam gran’ deshonorNão castigar com rigor,Que me será cruel padre,Não direito julgador.DIZ O IMPERADOR—Não vos queirais desculparPois que tendes tanta culpa,Que se o mundo vos desculpa,Não vos heide eu desculpar.E portanto mando logoQue estejais posto a recado,Até ser determinado,Por conselho do meu povo,Se sois livre ou condemnado.Mando que sejais levadoÁ minha gran’ fortaleza,E que lá sejais guardadoDe cem homens do estado,Até saber a certeza.FALLA DOM CARLOTO—E como, senhor, não querVossa real majestadeSaber primeiro a verdade,Senão mandar-me prenderPor tam grande falsidade?DIZ O IMPERADOR—Não vos quero mais ouvir.Levem-no logo á prizãoOnde eu o mando ir;Porque tam grande traiçãoNão é para consentir.Vós outros podeis tornar,E contar-lhe o que é passadoA quem vos cá quiz mandar;Que o seguro que lhe hei dado,Eu o torno a affirmar.AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ—Eu muito me maravilhoDe vossa grande bondade:Que sem razão nem verdadeTrattais assim vosso filhoCom tam grande crueldade.Olhe vossa majestadeQue é herdeiro principal,E que toda a christandadeLh’o hade ter muito a mal.DIZ O IMPERADOR—A mim, senhora, convemSer contra toda a traição:E se vosso filho a tem,Castiga-lo-hei muito bem:E essa é minha tenção.E mais eu vos certificoQue com direito e rigorHeide castigar o iniquo,Ora seja pobre ou ricco,Ou servo ou gran’ senhor.FALLA A IMPERATRIZ—Como quer vossa grandezaInfamar o nosso estadoSem causa, com tal crueza?DIZ O IMPERADOR—Quem me cá mandou recadoNão foi senão com certeza.DIZ A IMPERATRIZ—Por tal recado, senhor,Quereis trattar de tal sorteVosso filho e successor,Que depois de vossa morteHade ser imperador?FALLA O IMPERADOREm eu o mandar prenderNão cuideis que o maltratto.Mas se elle o merecer,Eu espero de fazerA justiça do Troquato;Porque pae tam poderoso,Sendo de tantos caudilho,Senão for tam rigoroso,Nem elle será bom filho,Nem será rei justiçoso.Que agora, mal peccado!Nenhum rei nem julgadorFaz justiça do maior;Mas antes é desprezadoO pequeno com rigor.Todo o mundo é affeição;Julgam com rara remissaO nobre que, sem razãoAlguma, tem opiniãolhe tocar a justiça...Que conta posso eu darAo Senhor dos altos ceos,Se a meu filho não julgarComo outro qualquer dos meus?Assim que escusado éBuscar este intercessor;Porque Deos de NazaréNão me fez tam gran’ senhorPara minha alma perder.DIZ A IMPERATRIZAi triste de mim coitada!Para que quero viver,Poisque sempre heide serDo meu filho tam penadaComo uma triste mulher?Pois tão triste heide serPor meu filho muito amado,Nunca tomarei prazer,Senão tristeza e cuidado.DIZ O IMPERADOR—Não façais tantos extremos,Pois dizeis que tem desculpa,Que antes que sentença dêmos.Primeiro todos veremosSe tem culpa ou não tem culpa.Mostrae maior soffrimento,Que o caso é desestrado;E i-vos a vosso aposento,Que elle não será culpado.Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, eDIZ A MÃE—Oh coração lastimado,Mais triste que a noite escura!Oh dolorosa tristura,Cuidado desesperadoE fortunosa ventura!Oh vida da minha vida,Alma d’este corpo meu!Oh desditosa perdida,Oh sem ventura nascida,A mais que nunca nasceu!Oh filho meu muito amado,Minha doce companhia,Meu prazer, minha alegria,Minha tristeza e cuidado,Minha sab’rosa lembrança,Que serei eu sem vos ver?Filho da minha alegria,Oh meu descanço e prazer,Porque me deixais viverVida com tanta agonia?Adonde vos acharei,Consôlo de meu pezar?Onde vos irei buscar,Poisque perdido vos heiPara jamais vos cobrar?Filho d’esta alma mesquinha,Dos meus olhos claridade,Onde estais, minha mezinha.Filho de minha saudade,Meu prazer e vida minha?DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA—Que é de vós, meu coração,Que é da minha liberdade,Espelho da christandade,Quem vos mattou sem razãoCom tão grande crueldade?Quem vos apartou de mim,Meu querido e meu espôso?Oh meu prazer saudoso,Porque me deixais assimCom cuidado mui penoso?Oh minha triste saudade,Oh meu espôso e senhor,Minha alegria e vontade,Escudo da christandade,Das tristes consolador!Que farei pobre coitada,Mais que nenhuma nascida?Miseravel, angustiada,Para que quero ter vida,Pois minha alma é apartada?Oh fortuna variavel,Triste, cruel, mattadora,De prazeres roubadora,Inimiga perduravel,Matta-me se que’s agora.DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR—Se vossa gran’ majestadeNão der castigo direitoA quem tanto mal ha feito,Nem sustentar a verdade,Não será juiz perfeito.Não olhe vossa grandezaSua madre dolorosa,Nem sua tanta tristeza;Mas olhe tam gran’ princezaCom ésta sua espôsa.FALLA O IMPERADOR—Faz-me tanto intristecerEste tam gran’ vituperio,Que mais quizera perderJunctamente meu imperio,Que tal meu filho fazer.Mas se a verdade assim é,Como ja sou informado,Que tal castigo lhe dêQue seja bem castigado.DIZ SYBILA—Seja justiça guardadaA ésta orphã sem marido.Viuva desamparada,Tam triste e desconsoladaMais que quantas têem nascido.Olhae, senhor, tam gran’ malComo vosso filho, ha feito,E não queirais ter respeitoAo amor paternal,Poisque não é por direito.FALLA O IMPERADOR—Senhora, não duvideis,Que eu farei o que hei jurado,Se é verdade o que dizeis,Porque cumpre a meu estadoDe fazer o que quereis:Que mais quero ter commigoFama de regoridade,Que deixar de ter castigo,Quem commetteu tal maldade.Para que é ser caudilhoDe tanto povo e tam grado,E imperador chamado,Se não julgasse meu filhoComo qualquer estragado?Não cuidem duques nem reisQue, por meu herdeiro ser,Que por isso hade viver:Que aquelle que faz as leisÉ obrigado a as manter.Assim que, por bem querer,Amizade nem respeito,Como agora sohem fazer,Não heide negar direitoA quem direito tiver.E bem vos podeis tornar,Fazei certo o que dissestesE não tomeis tal pezar,Porque o bem que ja perdestesNão o cobrais com chorar.DIZ HERMELINDA—Senhor, nós outras nos pomosEm mãos da vossa grandeza:Olhae bem, senhor, quem somos,E de que linhagem fomos,Pois Deus nos deu tal nobreza.DIZ SYBILA—Olhae os serviços dinosQue tanto tempo vos fezMeu espôso Valdevinos,Tambem seu tio marquez,E como foram continos.Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, eDIZ REINALDOS DE MONTALVÃO—O summo rei dos senhores,Que morreu crucificadoEm podêr dos pharizeos,Accrescente vosso estadoE vos livre de traidores.FALLA O IMPERADOR—Mui valente e esforçadoReinaldos de Montalvão,Vós sejais tam bem chegadoComo a sombra no verão.Muito estou maravilhado,Invencivel e mui forte,De ver-vos assim armado,Sabendo que em minha côrteNunca fostes maltratado.FALLA REINALDOS—Senhor, não seja espantadoDe ver-me assim d’esta sorte,Porque com todo o cuidadoGanalão, vosso cunhado,Sempre me procura a morte.Bem sabeis que sem razão,Com vontade mui malignaFez mattar com gran’ traiçãoA Tiranes e Erocina,E ao feito Salião,E a mim ja quiz mattarMuitas vezes com maldade;E para mais me danar,Fez á sua majestadeMil vezes me desterrar.O grande mal que me querDe todo o mundo é sabido,E por isso quiz trazerArmas para offender,Antes que ser offendido.Mas deixando isto assimGuardado p’ra seu logar,Onde se hade vingar,Vos quero, senhor, contar.Notorio a todo o christãoÉ o pezar lastimosoDo marquez Danes Ogeiro,Que tem, com justa razão,Pela morte do herdeiro.N’esta nobre côrte estãoMuitos mui nobres senhoresQue sabem que Dom BeltrãoE o nobre duque AmãoForam seus embaixadores:Tambem este é sabedorDas respostas que lhe destes,E mais de como prendestesVosso filho successor.Do qual está mui contenteDe te-lo pôsto em prizão;E tem mui grande razão,Porque na carta presente,A qual fez de sua mão,Confessa toda a traição.E um pagem a levavaPara o conde Dom Roldão,Que na cidade de BoavaFaz a sua habitação.E como não ha falsiaQue se possa esconder,Tinha o marquez espia,Porque queria saberO que Dom Roldão faria.Esse pagem imbuçado,Sem suspeita e sem revez,Ia mui determinado:Onde logo foi tomadoE levado ao marquez.Lendo a carta Dom Guarinos,N’ella contava a tençãoPorque o mattára á traição.Isto é, senhor, a verdade,E o que vos manda dizer:Se o que digo é falsidade,(Que por isso a quiz trazer)A lettra é bom conhecer,Que é este o seu signal.Pois, quem fez tam grande malBem merece padecerMorte justa corporal.DIZ O IMPERADORSe tal a carta disser,Não se ha mister mais provar,Nem mais certeza fazer,Senão logo executarA pena que merecer.E portanto, sem deter,Lea-se publicamenteAnte ésta nobre gente;Porque todos possam verVossa verdade evidente.CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃOCaudilho de gran’ podêr,Capitão da christandade,Ésta vos quiz escrever,Para vos fazer saberMinha gran’ necessidade.Porque o verdadeiro amigoHade ser no coração,Assim como fiel irmão,E não nade temer p’rigoPor salvar quem tem razão.Porque sabereis, senhor,Que me sinto mui culpado,Como quem foi mattador;E temo ser condemnadoDe meu padre imperador.Eu confesso que pequei,Pois com vontade damnosaA Valdevinos mattei.Amor me fez com que errei,E o primor de sua esposa.O imperador, meu padre,Me mandou prêso guardar,E nunca quiz attentar,Os rogos de minha madre.A ninguem quer escutar,E o marquez tem juradoDe não vestir nem calçar,Nem entrar em povoado,Até me ver justiçar.Tenho por accusadores,Reinaldos de Montalvão,E seu padre o duque AmãoE muitos grandes senhores;O gran’ duque de MilãoCom o forte Montesinos,Que é primo de Valdevinos.Assim que todos me sãoAccusadores continuos.Pois tantos contra mim são,Eu vos rogo, como amigo,Que vós queirais ser commigo;Porque, tendo Dom Roldão,Não temo nenhum perigo.DIZ O IMPERADORAntes que algum mal cresça,Façamos o que devemos.Pois o signal conhecemos,E pois vemos que confessa,De mais próva não curemos,Nem vós façais mais detença.E, pois ja tendes licença,Podeis dizer ao marquezQue venha ouvir a sentença.Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,DIZ O IMPERADORSenhora, ja não dirãoQue fui eu mal informado,Nem que o prendo sem razão,Pois por sua confissãoVosso filho é condemnado.Vêdes a carta presente,Que foi feita da sua mãoPara o conde Dom Roldão:A qual muito largamenteDeclara toda a traição.DIZ A IMPERATRIZEu muito me maravilhoDo que, senhor, me ha contado;Mas, pois elle ha confessado,Melhor é morrer o filhoQue deshonrar o estado.Mas a dor do coraçãoSempre me hade ficar...Peço-lhe com affeiçãoQue lhe busque salvaçãoE que o queira escutar.DIZ O IMPERADORMelhor é que o successorPadeça morte sentida,Que ficar o pae traidor:Que será trocar honor,Pela deshonra nascida.Tambem eu padeço dor,Tambem eu sinto paixão,Tambem eu lhe tenho amor...Mas antes quero razão,Que amizade sem favor.DIZ A IMPERATRIZPoisque não póde escapar,Eu não consinto nem queroQue vós o hajais de julgar,Porque vos podem chamarMuito mais peior que Nero.DIZ O IMPERADORNão vivais em tal ingano,Que tambem foram caudilhosO gran’ Trocato, o Trajano;E quizeram, com gran’ damno,Ambos justiçar seus filhos.Pois que menos farei eu,Tendo tam grande estado?Quem é com razão culpadoEm maior caso que o seu?E portanto eu vos rogoQue não tomeis tal pezar,Porque com vos enojarDá-se gran’ tristeza ao povo.DIZ A IMPERATRIZEu cumprirei seu mandado,Porque vejo que é razão;Mas sempre meu coraçãoTerá tristeza e cuidadoE grande tribulação.Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, eDIZ O MARQUEZBem parece, alto senhor,Que vos fez Deus sem segundo,E de todos superior,Dos maiores o melhor,Rei e monarcha do mundo.Porque vós, senhor, sois tal,Que com razão e verdadeSustentais a christandadeEm justiça universal.A qual para salvaçãoVos é muito necessaria,Porque convem ao christãoQue use mais de razãoQue de affeição voluntaria:Como faz vossa grandezaCom seu filho successor.Assim que, digo, senhor,Que estima mais a nobrezaQue amizade nem favor.FALLA O IMPERADORNão curemos de fallarEm coisa tam conhecida;Porque n’esta breve vidaHavemos de procurarPela eterna e comprida.Para sentir gran’ pezarVós tendes razão infinda,E tambem de vos vingar,Pois foi justa vossa vinda.Bem vimos vossa embaixada,E a causa d’ella propostaFoi de nós mui bem olhada,E não menos foi mandadaMui convencivel resposta.E vimos vossa tenção,E soubemos vosso voto,E vemos tendes razãoPela grande informaçãoDo principe Dom Carloto.E vimos a confissãoDe Dom Carloto tambem,E soubemos a traição,Como na carta contêm,Que mandava a Dom Roldão.De tudo certificado,Eu condemno a Dom CarlotoEm tudo o que hei mandado.VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDOA imperatriz, senhor,Está tam amortecidaDe grande paixão e dorQue não tem pulso nem cor,Nem nenhum signal de vida.Nenhum remedio lhe vem;Está n’esse padecerSem lhe podêrmos valer:E, segundo d’ella cremos,Mui pouco hade viver.DIZ O IMPERADOREu muito me maravilhoDe sua gran’ discrição;Mais sinto sua paixão,Que a morte de meu filho...Não te quero mais dizer,Quero-a ir consolar,Pois tanto lhe faz mister.Não sei porque é enojarPor se justiça fazer!Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, eDIZ REINALDOSJagora, senhor marquez,Vos podeis chamar vingado,Porque assás é castigadoO que tanto mal vos fez,Poisque morreu degollado.Fazei por vos alegrar,Dae graças ao Redemptor,Pois assim vos quiz vingar,Sem nenhum de nós p’rigarE com mais vosso valor.
Na caça andava perdido
De Mantua o velho marquez,
E no peito presentido
O coração traz de envez;
Mais, não sabe o succedido!
Farto ja de caminhar
Por tam fragosa montanha,
Cançado assim sem companha,
Sem ter onde repousar
N’essa terra tam extranha,
Vendo o mato tam cerrado,
Assentou de se apear
E o seu cavallo deixar
Porque estava de cançado
Que ja não podia andar:
FALLA O MARQUEZ
—Fortunosa caça é ésta
Que a fortuna me ha mostrado,
Poisque, por ser manifesta
Minha pena e gran’ cuidado,
Me mostrou ésta floresta.
Nunca vi tam forte brenha
Desque me accordo de mi,
Eu creio que Margasi
Fez ésta serra Dardenha,
Estes campos de Methli.
Quero tocar a bosina
Por ver se algum me ouvirá;
Mas cuido que não será,
Porque minha gran’ mofina
Commigo começou ja.
Todavia quero ver
Se mora alguem n’esta serra
Que me diga d’esta terra
Cuja é para saber;
Que quem pergunta não erra.
Agora vejo-me aqui
N’esta tam grande espessura,
Que nem eu me vejo a mi,
Nem sei de minha ventura,
Nem menos será cordura.
DIZ VALDEVINOS
—Oh Virgem minha senhora,
Madre do rei da verdade,
Por vossa gran’ piedade
Sêde minha intercessora
Em tanta necessidade.
Oh summa regina pia,
Radiante luz phebea,
Custodia animæ meæ,
Pois está na terra fria
A alma de pezar chea,
Pois es amparo dos teus,
Consola os desconsolados,
Rainha dos altos ceos,
E roga a meu senhor Deos
Que perdoe meus peccados.
FALLA O MARQUEZ
—Não sei quem ouço gemer
E chorar de quando em quando:
Alguem deve de aqui estar...
Segundo se esta queixando,
Deve ter grande pezar.
FALLA VALDEVINOS
—Domine, memento mei,
Lembrae-vos de minha alma,
Pois que sois da glória rei,
Nascido da flor da palma,
Remedio de nossa lei.
DIZ O MARQUEZ
—Segundo d’elle se espera,
Aquelle home anda perdido,
Ou, por ventura ferido
De alguma besta fera.
Quero ver este mysterio,
Que a falla me dá ousadia,
Porque dois em companhia
Terão grande refrigerio
Para qualquer agonia.
DIZ VALDEVINOS
—Oh minha espôsa e senhora,
Ja não tereis em podêr
Vosso espôso que assim chora,
Pois a morte roubadora
Vos roubou todo o prazer.
Oh vida do meu viver,
Resplandecente narciso,
Gran’ pena levo em saber
Que nunca vos heide ver
Até o dia do juizo.
Oh esperança por quem
Tinha victoria vencida!
Oh minha glória, meu bem,
Porque não partis tambem,
Poisque sois a minha vida?
Senão for vossa vontade
De haver de mim compaixão,
Mandae-me meu coração,
Minha fe e liberdade,
Que está em vossa prizão.
Madre minha muito amada,
Qu’é de o filho que paristes,
De quem ereis consolada?
Como se ha tornado nada
Quanta glória possuistes?
Ja me não vereis reinar,
Ja me não dareis conselho,
Nem eu o posso tomar;
Que quebrado é o espelho
Em que vos sabeis olhar.
Ja nunca me haveis de ver
Fazer justas e torneios,
Nem vestir nobres arreios,
Nem cavalleiros vencer,
Nem tomar bandos alheios.
Ja não tomareis prazer
Quando me virdes armado;
Ja vos não virão dizer
A fama de meu podêr,
Nem louvar-me de esforçado.
Oh valentes cavalleiros,
Reinaldos de Montalvão,
Oh esforçado Roldão,
Oh marquez Dom Oliveiros,
Dom Ricardo, Dom Dudão,
Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,
Oh gran’ duque de Milão,
Que é de vossa companhia?
Duque Maime de Baviera,
Que é de vosso Valdevinos?
Oh esforçado Guarinos,
Quem comsigo vos tivera!
Meu amigo Montesinhos,
Ja nunca mais vos verei;
Dom Alonso de Inglaterra,
Ja nunca acompanharei
O conde Dirlos na guerra.
Oh esforçado marquez
De Mantua, teu senhorio,
Ja não me poreis arnez,
Nem me vereis outra vez
Gozar vosso senhorio.
Ja não quero o vosso estado,
Ja não quero ser pessoa,
Nem mandar, nem ter reinado;
Ja não quero ter coroa,
Nem quero ser venerado.
Oh Carlos imperador,
Senhor de mui alta sorte,
Como sentireis gran’ dor
Sabendo da minha morte,
E quem d’ella é causador:
Bem sei, se sois informado
Do caso como passou,
Que serei mui bem vingado,
Ainda que me mattou
Vosso filho mui amado.
Oh principe D. Carloto,
Quem, sendo tam desegual,
Te moveu a fazer mal
Em um logar tam remoto
A teu amigo leal?
Alto Deus omnipotente,
Juiz direito sem par,
Sôbre ésta morte innocente
Justiça queirais mostrar,
Pois morro tam cruelmente.
Oh Madre de Deus benigno,
E fonte de piedade,
Arca da Sancta Trindade,
De donde o Verbo Divino
Trouxe sua humanidade,
Oh Sancta Domina mea,
Oh Virgem gratia plena
Em que a alma se recrea,
Dae remedio á minha pena,
Pois que morro em terra alhea.
FALLA O MARQUEZ
—Senhor, porque vos queixais?
Quem vos tratou de tal sorte,
E quem é o que tal morte
Vos deu, como publicais,
Que assás é ésta má sorte?
Não me negueis a verdade,
Contae-me vosso pezar,
Que vos prometto ajudar
Com toda a força e vontade.
DIZ VALDEVINOS
—Muito me agasta, amigo,
Certamente teu tardar,
Dize se trazes comtigo
Quem me haja de confessar?
DIZ O MARQUEZ
—Eu não sou quem vós cuidais:
Nunca comi vosso pão,
Mas vossos gritos e ais
Me trouxeram aonde estais
Mui movido a compaixão.
Dizei-me vossa agonia,
Que, se remedio tiver,
Eu vos prometto fazer
Com que tenhais alegria.
DIZ VALDEVINOS
—Meu senhor, muitas mercês
Por vossa boa vontade!
Bem creio que me fareis
Muito mais do que dizeis,
Segundo vossa bondade.
Mas minha dor é mortal,
Meu remedio so é morte,
Porque estou parado tal,
Que nunca homem mortal
Foi trattado de tal sorte.
Tenho, senhor, vinte e duas
Feridas todas mortais,
As intranhas rotas, nuas,
E passo penas tam cruas,
Que não poderão ser mais.
Ha-me morto á traição
O filho do imperador,
Carloto, a gran’ sem razão,
Mostrando-me todo o amor,
Não o tendo no coração.
Muitas vezes requeria
Minha espôsa com maldade,
Mas ella não consentia
Pelo bem que me queria,
Por sua grande bondade.
Carloto com gran’ pezar,
Como mais traidor que forte,
Ordenou de me matar,
Cuidando com minha morte
Com ella haver de casar.
Mattou-me com gran’ falsia,
Tranzendo cinco comsigo,
Sem eu trazer mais commigo
Que um pagem por companhia.
A mim chamam Valdevinos,
Sou filho de elrei de Dacia,
E primo de elrei de Grecia,
E do forte Montesinos,
Que é herdeiro de Dalmacia.
Dona Hermelinda formosa
Minha madre natural,
Sibylla minha espôsa
De graças especial,
Mas com primores famosa.
Ésta nova contareis
Á triste de minha madre
Que em Mantua achareis,
E ao honrado marquez
Meu tio, irmão de meu padre.
FALLA O MARQUEZ
—Oh desestrado viver,
Oh amargosa ventura,
Oh ventura sem prazer,
Prazer cheio de tristura,
Tristura que não tem ser!
Oh desventurada sorte,
Oh sorte sem soffrimento,
Desemparado tormento,
Muito peior do que a morte,
Morte de desabrimento!
Oh meu sobrinho, meu bem,
Minha esperança perdida,
Oh gloria que me sustêm,
Porque vos partis de quem
Sem vós não terá mais vida?
Oh desventurado velho,
Captivo sem liberdade!
Quem me póde dar conselho,
Pois perdido é o espelho
De minha gran’ claridade!
Oh minha luz verdadeira,
Trevas do meu coração,
Penas de minha paixão,
Cuidado, que me marteira,
Tristeza de tal traição!
Porque não quereis fallar
A este marquez coitado,
Que tio sohieis chamar?
Fallae-me, sobrinho amado,
Não me façais rebentar.
DIZ VALDEVINOS
—Meu tormento tam molesto
Me faz não vos conhecer
Nem na falla, nem no gesto;
Nem intendo vosso dizer
Se não for mais manifesto.
Estou tão posto no fim,
Que não sei se sou alguem,
Nem menos conheço a mim;
Pois quem não conhece a sim,
Mal conhecerá ninguem.
DIZ O MARQUEZ
—Como não me conheceis,
Meu sobrinho Valdevinos?
Eu sou o triste marquez
Irmão de elrei Dom Salinos,
Que era o pae que vos fez.
Eu sou o marquez sem sorte,
Que devêra rebentar
Chorando a vossa morte,
Por com vida não ficar
N’este mundo sem de porte.
Oh triste mundo coitado,
Ninguem deve em ti fiar,
Pois es tam desventurado,
Que o que tens mais exaltado,
Mor quéda lhe fazes dar!
FALLA VALDEVINOS
—Perdoa-me, senhor tio,
A minha descortezia,
Que a minha grande agonia
Me pôs em tanto desvio,
Que ja vos não conhecia.
Não me queirais mais chorar;
Deveis de considerar
Que para isso é o mundo,
Que dobrais meu mal profundo.
Para bem é mal passar:
E bem sabeis que nascemos
Para ir a ésta jornada,
E que, quanto mais vivemos,
Maior offensa fazemos
A quem nos creou de nada.
Assim que, necessidade
Não tendes de me chorar,
Poisque Deus me quiz levar
No melhor de minha edade
Para mais me aproveitar.
Mas o que haveis de fazer,
É por minha alma rogar,
Porque o muito chorar
Á alma não dá prazer,
Mas antes mui gran’ pezar.
Quero-vos incommendar
Minha espôsa e minha madre,
Poisque não tem outro padre
Que as haja de amparar,
Senão vós, como é verdade.
Mas o que me dá paixão
Em ésta triste partida,
É morrer sem confissão;
Mas se parto d’esta vida,
Deus receberá a tenção.
Vem o ermitão e o pagem.
DIZ O ERMITÃO
—A paz de Deus sempiterno
Seja comvosco, irmão!
Lembrae-vos de sua paixão
Que, por nos livrar do inferno,
Padeceu quanto a varão.
DIZ VALDEVINOS
—Com coisa mais não folgára
Do que vê-lo aqui chegado,
Padre de Deus enviado,
Que se um pouco mais tardára,
Não me achára n’este estado.
FALLA O PAGEM
—Oh que desestrada sorte,
Meu senhor Danes Ogeiro!
Olhae vosso escudo forte,
Olhae, senhor, vosso herdeiro,
Em que extremo o pôs a morte!
Oh desditoso caminho,
Caça de tanto pezar,
Que cuidando de caçar,
A morte a vosso sobrinho
Vieste, senhor, buscar.
DIZ O ERMITÃO
—A gran’ pressa que trazia
Não me deu, senhor, logar
De conhecer nem fallar
A vossa gran’ senhoria.
N’este êrro se ha culpa,
Peço-lhe d’ella perdão,
Ainda que a discrição
Sua me dará desculpa.
FALLA O MARQUEZ
—Rogae a Deus, padre honrado,
Que me queira dar paciencia;
Que o perdão é escusado,
Porque vossa diligencia
Vos não deixa ser culpado.
DIZ O ERMITÃO
—O filho de Deus enviado
Vos mande consolação!
E pois que aqui sou chegado,
Quero ouvir de confissão
Este ferido e angustiado.
Coisa é mui natural
A morte a toda a pessoa,
A todo o mundo em geral,
Poisque a nenhum perdoa.
Não a tenhamos por mais.
Porque o peccado de Adão
Foi tam fero e de tal sorte,
Que não só foi perdição:
Mas Deus, que é salvação,
Quiz tambem receber morte.
E por tanto, filho meu,
Não se deve de espantar
Da morte que Deus lhe deu;
Pois em provimento seu
Lh’a deu para o salvar
Lembre-lhe sua paixão:
Veja este mundo coitado,
E não o ingode o malvado,
Que não dá por galardão
Senão tristeza e cuidado.
Em quanto, filho, tem vida,
Chame a Madre de Deus,
Aquella que foi nascida
Sem peccado concebida,
E coroada nos ceos.
Ésta foi santificada
E visitada dos anjos,
E em corpo e alma levada
Á gloria, onde exaltada
Lá está sobre os archanjos.
Assim, que ao Redemptor
E a ésta Virgem sem par
Se hade, filho, incommendar
Depois que aos sanctos for
Sua vontade chamar.
As mãos levante aos ceus,
Faça confissão geral,
Confessando-se a Deus
E á Virgem celestial
E a todos os sanctos seus.
DIZ O MARQUEZ
—Oh bonancia abhorrecida,
Oh desestrada fortuna,
De prazeres gran’ tribuna!
Porque não desemparais
A quem sois tam importuna?
Tristeza, desconfiança,
Porque não desesperais
A quem não tem confiança?
Contae-me, pagem Burlor,
O caso como passou,
Quem foi aquelle traidor
Que mattou vosso senhor,
Ou por que causa o matou
FALLA O PAGEM
—Seria mui mal contado
Se a sua gran’ senhoria
Não contasse o que é passado.
Eu sei certo que faria
O que não é esperado
Contra quem me deu estado,
E ha feito tantas mercês
Que nunca meu pae me fez:
Que é meu senhor amado,
E mais vós, senhor marquez.
Estando pois em Paris
O filho do imperador,
Mandou chamar meu senhor
Nos passos da imperatriz:
Fallaram muito a sabor;
O que fallaram não sei,
Se não que logo n’essa hora,
E sem fazer mais demora,
Com quatro detraz de si
Foram da cidade fóra,
Armados secretamente,
Segundo depois ouvi.
Partimos todos d’ahi,
E Dom Carloto presente
Tambem armado outrosi.
E tanto que aqui chegaram,
N’este valle de pezar
Todos juntos se apearam
E fizeram-me ficar
C’os cavallos que deixaram.
E logo todos entraram
Em este esquivo logar,
Onde meu senhor mattaram,
E depois de o mattar,
Nos cavallos se tornaram.
Como eu os vi tornar,
Sentindo muito tal dor,
Temendo de lhe fallar,
Não ousei de perguntar
Onde estava meu senhor.
Vendo-os assim caminhar,
Porque nenhum me fallava,
Quiz a meu senhor buscar,
Porque o coração me dava
Sobresaltos de pezar.
Não o podia topar
Porque a grande espessura
E a noite medrosa, escura
Me fazia não o achar:
De que tinha gran’ tristura.
Buscando-o com gran’ paixão,
N’aquelle lugar remoto
O achei d’esta feição.
Disse-me como á traição
O mattára Dom Carloto.
Perguntei porque razão:
Triste, cheio de agonias,
Disse-me com afflicção:
—‘Vai-me buscar confissão,
Ja se acabaram meus dias.’
Como taes novas ouvi,
Com grande tribulação
E pezar de vê-lo assi,
Me parti logo d’aqui
A buscar este ermitão.
Isto é, senhor, o que sei
D’este caso desastrado,
Quanto me ha perguntado:
Outra coisa não direi
Mais do que lhei contado.
DIZ O MARQUEZ
—Quando sua majestade
Justiça me não fizer
Com toda a rogaridade.
Á força de meu podêr
Cumprirei minha vontade.
DIZ O ERMITÃO
—Ja o senhor se ha confessado,
E fez actos de christão;
Morre com tal contricção,
Que eu estou maravilhado
De sua gran’ discrição.
Muito não póde tardar,
Segundo n’elle senti.
Acabei de lhe fallar
Porque lhe quero rezar
Os psalmos d’elrei David.
FALLA VALDEVINOS
—Não tomeis, tio, pezar,
Que me parto de vos ver
Para nunca mais tornar,
Pois Deus me manda chamar
E não posso mais fazer.
Torno-vos a incommendar
Minha espôsa e minha mãe,
Que as queirais consolar
E ambas as amparar,
Poisque não têem mais a quem.
ORAÇÃO DE VALDEVINOS
—Em as tuas mãos, Senhor,
Incommendo meu espirito;
Poisque es Salvador meu,
Meu Deus e meu Redemptor,
Não me falte favor teu:
Pois, Senhor, me redemiste,
Como Deus, que es de verdade,
Senhor de toda a piedade,
Lembra-te d’esta alma triste
Cheia de toda a maldade.
Salve, Senhora benigna,
Madre de misericordia,
Pas de nossa gran’ discordia,
Dos peccadores mezinha,
Vida doce e concordia,
Spes nostra, a ti invocamos,
Salva-nos da escura treva.
A ti, Senhora, chamamos
Desterrados filhos de Eva,
A ti virgem, suspiramos,
A ti gemendo e chorando
Em aqueste lagrymoso
Valle sem nenhum repouso,
Sempre, Virge’, a ti chamamos,
Que es nosso prazer e gôso.
Ora pois, nossa advogada,
Amparo da christandade,
Volve os olhos de piedade
A mim, Virgem consagrada,
Poisque es nossa liberdade.
Dá-me, Senhora, virtude
Contra todos meus imigos;
Poisque es nossa saúde,
Eu te rogo que me ajudes
Nos temores e perigos:
Roga tu por mim, Senhora,
Oh Sancta Madre de Deus,
A quem a minha alma adora,
Pois es rainha dos ceus
E dos anjos superiora.
Aqui expira Valdevinos e
DIZ O MARQUEZ
—Oh triste velho coitado,
Oh cans cheias de tristura!
Oh doloroso cuidado,
Oh cuidado sem ventura,
Sem ventura desestrado!
Quebrem-se minhas intranhas,
Rompa-se meu coração
Com minha tribulação.
Chorem todas as campinas
Minha grande perdição,
Scureça-se o sol com dó,
Caiam estrellas do ceu,
As trévas de Faraó
Venham ja sôbre mim só.
Pois minha luz se perdeu
Na luz de mui claro dia,
Claridade sem clareza,
Minha doce companhia,
Onde está vossa alegria,
Que me deixa tal tristeza?
Oh velhice desestrada,
Sem gloria e sem prazer,
Para que me deixais ser,
Pois que sendo, não sou nada,
Nem desejo de viver?
Porque não vens, padecer,
Porque não vindes, tormentos,
Paraque são soffrimentos
A quem os não quer ja ter,
Nem busca contentamentos?
Paraque quero razão,
Paraque quero prudencia,
Nem saber, nem discrição?
Paraque é paciencia,
Pois perdi consolação?
DIZ O PAGEM
—Oh meu senhor muito amado,
Porque vos tornastes pó?
Porque me deixastes só
Em este mundo coitado
Com tanta tristeza e dó?
Leváreis-me em companhia,
Pois sempre vos tive, vivo.
Oh minha grande alegria,
Porque me deixais captivo,
Mettido em tanta agonia?
Meu senhor, minha alegria,
Dizei, porque nos deixais
Com tanta pena notoria?
Lembrai-vos, tende memoria
De quantos desemparais.
Oh sem ventura Burlor!
De quem serás amparado,
De quem terás o favor
Que tinhas de teu senhor,
Poisque ja te ha faltado?
FALLA O ERMITÃO
—Não tomeis, filho, pezar,
Pois claramente sabeis
Que pelo muito chorar
Não cobrais o que perdeis.
Deveis, filho, de cuidar
Que nossa vida é um vento
Tam ligeiro de passar,
Que passa em um momento
Por nós assim como o ar.
Quem viu o senhor infante,
Tam pouco ha, fazer guerra,
E ser n’ella tam possante,
E agora em um instante
Se tornado escura terra,
Diria com gran’ razão
Que este mundo coitado
Não dá outro galardão,
Senão tristeza e paixão,
Com a vós outros foi dado.
Olhae a elrei Salomão
O galardão que deu;
A Amon e Absalão,
E ao valente Sansão,
E ao forte Macabeu.
Em a Sacra Escritura
Muitos mais podia achar
Se os quizesse contar;
Mas vossa grande cordura
Supprirá donde faltar.
E poisque não tem ja cura
O mal feito e o passado,
Cesse a vossa tristura,
E demos á sepultura
Este corpo ja finado.
Levemo-lo onde convêm
Para que seja interrado;
E póde bem ser guardado
N’aquella ermida que vêem
Até ser imbalsemado.
Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, e
DIZ O IMPERADOR
—Certo, conde Ganalão,
Muito gran’ perda perdemos.
Péza-me no coração,
Porque na côrte não temos
Reinaldos de Montalvão,
Nem o conde Dom Roldão,
Nem o marquez Oliveiros,
Nem o duque de Milão,
Nem o infante Gaifeiros,
Nem o forte Meredião.
DIZ GANALÃO
—Muito alto imperador,
Muito estou maravilhado
Porque mostrais tal favor
A quem vos ha deshonrado
Com tanta íra e rigor,
Que, chamando-se Almansor;
Com o seu rosto mudado
Aquelle falso traidor
Com mui grande deshonor
Quiz deshonrar vosso estado:
Porquê, senhor, não sentis
Que este malvado ladrão
Vos prendeu de sua mão
Tomando-vos a Paris
Com muito grande traição?
Pondo-vos em Montalvão
Apezar do vosso imperio,
Onde com gran’ vituperio
Estivestes em prizão,
Sem ter nenhum refrigerio?
FALLA O IMPERADOR
—Verdade é isso, cunhado:
Porêm deveis de saber
Que em Reinaldos me prender
Eu mesmo sou o culpado:
Isto bem o podeis crer.
Se então me quiz offender
Não é muita maravilha,
Pois ja me quiz guarnecer
Mattando elrei Carmeser,
Que me trouxe a sua filha.
DIZ GANALÃO
—Vossa real majestade
Dirá tudo o que quizer,
Mas eu espero a Beltrão...
Que se conheça a maldade
De quem se hade conhecer.
Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: e
DIZ BELTRÃO
—Gran’ Cesar Octaviano,
Magno, augusto, forte rei,
Grande imperador romano,
Amparo da nossa lei,
Poderosa majestade,
Senhor de toda a Magança,
Da Gascunha e da França,
Gran’ patrão da christandade,
Esteio de segurança!
Pois sois senhor dos senhores,
Imperador dos christãos,
Somos vossos servidores,
Amigos leaes e sãos.
DIZ O IMPERADOR
—Eu me espanto, Dom Beltrão,
De vos ver d’aquella sorte,
E a vós, forte duque Amão:
Não é ésta disposição
E trajo da nossa côrte.
FALLA O DUQUE
—Muito mais será espantado
De nossa triste embaixada,
E do caso desestrado
O qual lhe será contado,
Se seguro nos é dado.
DIZ O IMPERADOR
—Bem o podeis explicar
Sem ter medo nem temor.
Para que é assegurar?
Pois sabeis que o embaixador
Tem licença de fallar.
DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA
—Quiz, senhor, nossa mofina
Que o infante Valdevinos,
Primo do forte Guarinos,
Filho da linda Hermelinda
E do grande rei Salinos,
Fôsse morto á traição
Na floresta sem ventura.
A tam grande desventura
Haverá quem não procure
De vingar tal perdição?
FALLA O IMPERADOR
—É certa tam gran’ maldade,
Que o sobrinho do marquez
É morto, como dizeis?
DIZ O DUQUE
—Pela maior falsidade
Que nunca ninguem tal fez.
DIZ O IMPERADOR
—Este caso é desestrado:
Saibamos como passou
E quem tam mau feito obrou:
Que o que tal senhor mattou,
Merece bem castigado.
FALLA O DUQUE
—Saiba vossa majestade
Que dez dias póde haver
Que o marquez foi á cidade
De Mantua com gran’ vontade
Á caça que sohe fazer.
Andando assim a caçar,
Da companhia perdido
Foi por ventura topar
Com seu sobrinho ferido
Quasi a ponto de expirar.
Bem póde considerar
O gran’ pezar que teria
De se ver sem companhia,
E a morrer em tal logar
A coisa que mais queria.
Perguntando a razão,
Sendo d’ella mui ignoto,
Disse com grande paixão
Que o mattára á traição
Vosso filho Dom Carloto.
A causa que o moveu
Dar morte tam dolorosa
A tam grande amigo seu,
Não foi outra, senhor meu,
Salvo tomar-lhe a espôsa.
Mattou-o á falsa fe,
Indo muito bem armado,
Com quatro homens de pé.
Quem matta tam sem porquê
Merece bem castigado.
O marquez Danes Ogeiro
Lhe manda pedir, senhor,
Justiça mui por inteiro:
Que ainda que perca herdeiro,
Elle perde successor.
DIZ DOM BELTRÃO
—Não deve deixar passar
Tam gran’ mal sem o prover,
Porque deve de cuidar
Se seu filho nos mattar,
Quem nos deve defender?
E mais lhe faço saber
Porque esteja apparelhado,
Se justiça não fizer,
Que o marquez tem jurado
De por armas a fazer.
O mui valente e temido
Reinaldo de Montalvão
Entre todos escolhido
Está bem apercebido
Como geral capitão.
Dom Chrisão e Aguilante
Com o forte Dom Guarinos,
E o valente Montesinos,
Primo do morto infante,
Primo de elrei Dom Salinos,
E o mui grande rei Jaião,
De Dom Reinaldos cunhado,
E o esforçado Dudão,
E o gran’ duque de Milão,
E Dom Richarte esforçado,
O marquez Dom Oliveiros,
E o famoso Durandarte,
E o infante Dom Gaifeiros,
E o mui forte Ricardo,
E outros fortes cavalheiros,
Todos têem boa vontade
De ajudar ao marquez
Em essa necessidade;
Porque foi gran’ crueldade
A que vosso filho fez.
Evitae, senhor, tal damno,
Pois que sois juiz sem par;
Não vos mostreis inhumano,
Acordae-vos de Trajano
Em a justiça guardar.
Assim que, alto, esclarecido,
Poderoso sem egual,
O que fez tam grande mal
Bem merece ser punido
Por seu mandado imperial.
E pois, senhor, hei proposto
A causa porque viemos,
E sabeis o que queremos,
Mandae-nos dar a resposta
Com que ao marquez tornemos.
DIZ O IMPERADOR
—Oh poderoso Senhor,
Que grande é o vosso mysterio!
Pois para meu vituperio
Me deste tal successor
Que deshonrasse este imperio.
Se o que dizeis é verdade,
Como creio que será,
Nunca rei na christandade
Fez tam grande crueldade
Como por mim se verá.
Por minha coroa juro
De cumprir e de mandar
Tudo que digo e procuro.
Ao marquez podeis dizer
Que elle póde vir seguro,
E todos quantos tiver,
Venham de guerra ou de paz,
Assim como elle quiser.
E pois que justiça quer,
Com ella muito me praz.
ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ
—Bem sei que com gran’ paixão
Está vossa majestade
Pela falsa informação
Que de mim, contra razão;
Deram com gran’ falsidade;
Porque um filho de tal home
E tão grande geração
Não deve sujar seu nome
Em caso tal de traição.
Por vida de minha madre,
Que se tam gran’ deshonor
Não castigar com rigor,
Que me será cruel padre,
Não direito julgador.
DIZ O IMPERADOR
—Não vos queirais desculpar
Pois que tendes tanta culpa,
Que se o mundo vos desculpa,
Não vos heide eu desculpar.
E portanto mando logo
Que estejais posto a recado,
Até ser determinado,
Por conselho do meu povo,
Se sois livre ou condemnado.
Mando que sejais levado
Á minha gran’ fortaleza,
E que lá sejais guardado
De cem homens do estado,
Até saber a certeza.
FALLA DOM CARLOTO
—E como, senhor, não quer
Vossa real majestade
Saber primeiro a verdade,
Senão mandar-me prender
Por tam grande falsidade?
DIZ O IMPERADOR
—Não vos quero mais ouvir.
Levem-no logo á prizão
Onde eu o mando ir;
Porque tam grande traição
Não é para consentir.
Vós outros podeis tornar,
E contar-lhe o que é passado
A quem vos cá quiz mandar;
Que o seguro que lhe hei dado,
Eu o torno a affirmar.
AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ
—Eu muito me maravilho
De vossa grande bondade:
Que sem razão nem verdade
Trattais assim vosso filho
Com tam grande crueldade.
Olhe vossa majestade
Que é herdeiro principal,
E que toda a christandade
Lh’o hade ter muito a mal.
DIZ O IMPERADOR
—A mim, senhora, convem
Ser contra toda a traição:
E se vosso filho a tem,
Castiga-lo-hei muito bem:
E essa é minha tenção.
E mais eu vos certifico
Que com direito e rigor
Heide castigar o iniquo,
Ora seja pobre ou ricco,
Ou servo ou gran’ senhor.
FALLA A IMPERATRIZ
—Como quer vossa grandeza
Infamar o nosso estado
Sem causa, com tal crueza?
DIZ O IMPERADOR
—Quem me cá mandou recado
Não foi senão com certeza.
DIZ A IMPERATRIZ
—Por tal recado, senhor,
Quereis trattar de tal sorte
Vosso filho e successor,
Que depois de vossa morte
Hade ser imperador?
FALLA O IMPERADOR
Em eu o mandar prender
Não cuideis que o maltratto.
Mas se elle o merecer,
Eu espero de fazer
A justiça do Troquato;
Porque pae tam poderoso,
Sendo de tantos caudilho,
Senão for tam rigoroso,
Nem elle será bom filho,
Nem será rei justiçoso.
Que agora, mal peccado!
Nenhum rei nem julgador
Faz justiça do maior;
Mas antes é desprezado
O pequeno com rigor.
Todo o mundo é affeição;
Julgam com rara remissa
O nobre que, sem razão
Alguma, tem opinião
lhe tocar a justiça...
Que conta posso eu dar
Ao Senhor dos altos ceos,
Se a meu filho não julgar
Como outro qualquer dos meus?
Assim que escusado é
Buscar este intercessor;
Porque Deos de Nazaré
Não me fez tam gran’ senhor
Para minha alma perder.
DIZ A IMPERATRIZ
Ai triste de mim coitada!
Para que quero viver,
Poisque sempre heide ser
Do meu filho tam penada
Como uma triste mulher?
Pois tão triste heide ser
Por meu filho muito amado,
Nunca tomarei prazer,
Senão tristeza e cuidado.
DIZ O IMPERADOR
—Não façais tantos extremos,
Pois dizeis que tem desculpa,
Que antes que sentença dêmos.
Primeiro todos veremos
Se tem culpa ou não tem culpa.
Mostrae maior soffrimento,
Que o caso é desestrado;
E i-vos a vosso aposento,
Que elle não será culpado.
Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, e
DIZ A MÃE
—Oh coração lastimado,
Mais triste que a noite escura!
Oh dolorosa tristura,
Cuidado desesperado
E fortunosa ventura!
Oh vida da minha vida,
Alma d’este corpo meu!
Oh desditosa perdida,
Oh sem ventura nascida,
A mais que nunca nasceu!
Oh filho meu muito amado,
Minha doce companhia,
Meu prazer, minha alegria,
Minha tristeza e cuidado,
Minha sab’rosa lembrança,
Que serei eu sem vos ver?
Filho da minha alegria,
Oh meu descanço e prazer,
Porque me deixais viver
Vida com tanta agonia?
Adonde vos acharei,
Consôlo de meu pezar?
Onde vos irei buscar,
Poisque perdido vos hei
Para jamais vos cobrar?
Filho d’esta alma mesquinha,
Dos meus olhos claridade,
Onde estais, minha mezinha.
Filho de minha saudade,
Meu prazer e vida minha?
DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA
—Que é de vós, meu coração,
Que é da minha liberdade,
Espelho da christandade,
Quem vos mattou sem razão
Com tão grande crueldade?
Quem vos apartou de mim,
Meu querido e meu espôso?
Oh meu prazer saudoso,
Porque me deixais assim
Com cuidado mui penoso?
Oh minha triste saudade,
Oh meu espôso e senhor,
Minha alegria e vontade,
Escudo da christandade,
Das tristes consolador!
Que farei pobre coitada,
Mais que nenhuma nascida?
Miseravel, angustiada,
Para que quero ter vida,
Pois minha alma é apartada?
Oh fortuna variavel,
Triste, cruel, mattadora,
De prazeres roubadora,
Inimiga perduravel,
Matta-me se que’s agora.
DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR
—Se vossa gran’ majestade
Não der castigo direito
A quem tanto mal ha feito,
Nem sustentar a verdade,
Não será juiz perfeito.
Não olhe vossa grandeza
Sua madre dolorosa,
Nem sua tanta tristeza;
Mas olhe tam gran’ princeza
Com ésta sua espôsa.
FALLA O IMPERADOR
—Faz-me tanto intristecer
Este tam gran’ vituperio,
Que mais quizera perder
Junctamente meu imperio,
Que tal meu filho fazer.
Mas se a verdade assim é,
Como ja sou informado,
Que tal castigo lhe dê
Que seja bem castigado.
DIZ SYBILA
—Seja justiça guardada
A ésta orphã sem marido.
Viuva desamparada,
Tam triste e desconsolada
Mais que quantas têem nascido.
Olhae, senhor, tam gran’ mal
Como vosso filho, ha feito,
E não queirais ter respeito
Ao amor paternal,
Poisque não é por direito.
FALLA O IMPERADOR
—Senhora, não duvideis,
Que eu farei o que hei jurado,
Se é verdade o que dizeis,
Porque cumpre a meu estado
De fazer o que quereis:
Que mais quero ter commigo
Fama de regoridade,
Que deixar de ter castigo,
Quem commetteu tal maldade.
Para que é ser caudilho
De tanto povo e tam grado,
E imperador chamado,
Se não julgasse meu filho
Como qualquer estragado?
Não cuidem duques nem reis
Que, por meu herdeiro ser,
Que por isso hade viver:
Que aquelle que faz as leis
É obrigado a as manter.
Assim que, por bem querer,
Amizade nem respeito,
Como agora sohem fazer,
Não heide negar direito
A quem direito tiver.
E bem vos podeis tornar,
Fazei certo o que dissestes
E não tomeis tal pezar,
Porque o bem que ja perdestes
Não o cobrais com chorar.
DIZ HERMELINDA
—Senhor, nós outras nos pomos
Em mãos da vossa grandeza:
Olhae bem, senhor, quem somos,
E de que linhagem fomos,
Pois Deus nos deu tal nobreza.
DIZ SYBILA
—Olhae os serviços dinos
Que tanto tempo vos fez
Meu espôso Valdevinos,
Tambem seu tio marquez,
E como foram continos.
Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, e
DIZ REINALDOS DE MONTALVÃO
—O summo rei dos senhores,
Que morreu crucificado
Em podêr dos pharizeos,
Accrescente vosso estado
E vos livre de traidores.
FALLA O IMPERADOR
—Mui valente e esforçado
Reinaldos de Montalvão,
Vós sejais tam bem chegado
Como a sombra no verão.
Muito estou maravilhado,
Invencivel e mui forte,
De ver-vos assim armado,
Sabendo que em minha côrte
Nunca fostes maltratado.
FALLA REINALDOS
—Senhor, não seja espantado
De ver-me assim d’esta sorte,
Porque com todo o cuidado
Ganalão, vosso cunhado,
Sempre me procura a morte.
Bem sabeis que sem razão,
Com vontade mui maligna
Fez mattar com gran’ traição
A Tiranes e Erocina,
E ao feito Salião,
E a mim ja quiz mattar
Muitas vezes com maldade;
E para mais me danar,
Fez á sua majestade
Mil vezes me desterrar.
O grande mal que me quer
De todo o mundo é sabido,
E por isso quiz trazer
Armas para offender,
Antes que ser offendido.
Mas deixando isto assim
Guardado p’ra seu logar,
Onde se hade vingar,
Vos quero, senhor, contar.
Notorio a todo o christão
É o pezar lastimoso
Do marquez Danes Ogeiro,
Que tem, com justa razão,
Pela morte do herdeiro.
N’esta nobre côrte estão
Muitos mui nobres senhores
Que sabem que Dom Beltrão
E o nobre duque Amão
Foram seus embaixadores:
Tambem este é sabedor
Das respostas que lhe destes,
E mais de como prendestes
Vosso filho successor.
Do qual está mui contente
De te-lo pôsto em prizão;
E tem mui grande razão,
Porque na carta presente,
A qual fez de sua mão,
Confessa toda a traição.
E um pagem a levava
Para o conde Dom Roldão,
Que na cidade de Boava
Faz a sua habitação.
E como não ha falsia
Que se possa esconder,
Tinha o marquez espia,
Porque queria saber
O que Dom Roldão faria.
Esse pagem imbuçado,
Sem suspeita e sem revez,
Ia mui determinado:
Onde logo foi tomado
E levado ao marquez.
Lendo a carta Dom Guarinos,
N’ella contava a tenção
Porque o mattára á traição.
Isto é, senhor, a verdade,
E o que vos manda dizer:
Se o que digo é falsidade,
(Que por isso a quiz trazer)
A lettra é bom conhecer,
Que é este o seu signal.
Pois, quem fez tam grande mal
Bem merece padecer
Morte justa corporal.
DIZ O IMPERADOR
Se tal a carta disser,
Não se ha mister mais provar,
Nem mais certeza fazer,
Senão logo executar
A pena que merecer.
E portanto, sem deter,
Lea-se publicamente
Ante ésta nobre gente;
Porque todos possam ver
Vossa verdade evidente.
CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃO
Caudilho de gran’ podêr,
Capitão da christandade,
Ésta vos quiz escrever,
Para vos fazer saber
Minha gran’ necessidade.
Porque o verdadeiro amigo
Hade ser no coração,
Assim como fiel irmão,
E não nade temer p’rigo
Por salvar quem tem razão.
Porque sabereis, senhor,
Que me sinto mui culpado,
Como quem foi mattador;
E temo ser condemnado
De meu padre imperador.
Eu confesso que pequei,
Pois com vontade damnosa
A Valdevinos mattei.
Amor me fez com que errei,
E o primor de sua esposa.
O imperador, meu padre,
Me mandou prêso guardar,
E nunca quiz attentar,
Os rogos de minha madre.
A ninguem quer escutar,
E o marquez tem jurado
De não vestir nem calçar,
Nem entrar em povoado,
Até me ver justiçar.
Tenho por accusadores,
Reinaldos de Montalvão,
E seu padre o duque Amão
E muitos grandes senhores;
O gran’ duque de Milão
Com o forte Montesinos,
Que é primo de Valdevinos.
Assim que todos me são
Accusadores continuos.
Pois tantos contra mim são,
Eu vos rogo, como amigo,
Que vós queirais ser commigo;
Porque, tendo Dom Roldão,
Não temo nenhum perigo.
DIZ O IMPERADOR
Antes que algum mal cresça,
Façamos o que devemos.
Pois o signal conhecemos,
E pois vemos que confessa,
De mais próva não curemos,
Nem vós façais mais detença.
E, pois ja tendes licença,
Podeis dizer ao marquez
Que venha ouvir a sentença.
Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,
DIZ O IMPERADOR
Senhora, ja não dirão
Que fui eu mal informado,
Nem que o prendo sem razão,
Pois por sua confissão
Vosso filho é condemnado.
Vêdes a carta presente,
Que foi feita da sua mão
Para o conde Dom Roldão:
A qual muito largamente
Declara toda a traição.
DIZ A IMPERATRIZ
Eu muito me maravilho
Do que, senhor, me ha contado;
Mas, pois elle ha confessado,
Melhor é morrer o filho
Que deshonrar o estado.
Mas a dor do coração
Sempre me hade ficar...
Peço-lhe com affeição
Que lhe busque salvação
E que o queira escutar.
DIZ O IMPERADOR
Melhor é que o successor
Padeça morte sentida,
Que ficar o pae traidor:
Que será trocar honor,
Pela deshonra nascida.
Tambem eu padeço dor,
Tambem eu sinto paixão,
Tambem eu lhe tenho amor...
Mas antes quero razão,
Que amizade sem favor.
DIZ A IMPERATRIZ
Poisque não póde escapar,
Eu não consinto nem quero
Que vós o hajais de julgar,
Porque vos podem chamar
Muito mais peior que Nero.
DIZ O IMPERADOR
Não vivais em tal ingano,
Que tambem foram caudilhos
O gran’ Trocato, o Trajano;
E quizeram, com gran’ damno,
Ambos justiçar seus filhos.
Pois que menos farei eu,
Tendo tam grande estado?
Quem é com razão culpado
Em maior caso que o seu?
E portanto eu vos rogo
Que não tomeis tal pezar,
Porque com vos enojar
Dá-se gran’ tristeza ao povo.
DIZ A IMPERATRIZ
Eu cumprirei seu mandado,
Porque vejo que é razão;
Mas sempre meu coração
Terá tristeza e cuidado
E grande tribulação.
Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, e
DIZ O MARQUEZ
Bem parece, alto senhor,
Que vos fez Deus sem segundo,
E de todos superior,
Dos maiores o melhor,
Rei e monarcha do mundo.
Porque vós, senhor, sois tal,
Que com razão e verdade
Sustentais a christandade
Em justiça universal.
A qual para salvação
Vos é muito necessaria,
Porque convem ao christão
Que use mais de razão
Que de affeição voluntaria:
Como faz vossa grandeza
Com seu filho successor.
Assim que, digo, senhor,
Que estima mais a nobreza
Que amizade nem favor.
FALLA O IMPERADOR
Não curemos de fallar
Em coisa tam conhecida;
Porque n’esta breve vida
Havemos de procurar
Pela eterna e comprida.
Para sentir gran’ pezar
Vós tendes razão infinda,
E tambem de vos vingar,
Pois foi justa vossa vinda.
Bem vimos vossa embaixada,
E a causa d’ella proposta
Foi de nós mui bem olhada,
E não menos foi mandada
Mui convencivel resposta.
E vimos vossa tenção,
E soubemos vosso voto,
E vemos tendes razão
Pela grande informação
Do principe Dom Carloto.
E vimos a confissão
De Dom Carloto tambem,
E soubemos a traição,
Como na carta contêm,
Que mandava a Dom Roldão.
De tudo certificado,
Eu condemno a Dom Carloto
Em tudo o que hei mandado.
VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDO
A imperatriz, senhor,
Está tam amortecida
De grande paixão e dor
Que não tem pulso nem cor,
Nem nenhum signal de vida.
Nenhum remedio lhe vem;
Está n’esse padecer
Sem lhe podêrmos valer:
E, segundo d’ella cremos,
Mui pouco hade viver.
DIZ O IMPERADOR
Eu muito me maravilho
De sua gran’ discrição;
Mais sinto sua paixão,
Que a morte de meu filho...
Não te quero mais dizer,
Quero-a ir consolar,
Pois tanto lhe faz mister.
Não sei porque é enojar
Por se justiça fazer!
Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, e
DIZ REINALDOS
Jagora, senhor marquez,
Vos podeis chamar vingado,
Porque assás é castigado
O que tanto mal vos fez,
Poisque morreu degollado.
Fazei por vos alegrar,
Dae graças ao Redemptor,
Pois assim vos quiz vingar,
Sem nenhum de nós p’rigar
E com mais vosso valor.