XXXVIIO MARQUEZ DE MANTUA

XXXVIIO MARQUEZ DE MANTUA

Ei-lo que se apea de seu classico barbante em que tantos annos cavalgou, e despindo o papel-pardo em que o imbrulhavam os cegos e vendilhões de nossas feiras, vem o nobre ‘Marquez de Mantua’ tomar o seu logar entre os mais venerandos e antigos romances do cyclode Carlos-Magno. Sua nobre origem bem sabida é e bem manifesta: franceza ou provençal. Se foi a linguad’oeilou a linguad’oca primeira que fallou, não sei; quando atravessou os Pyreneus e veio para nós, certo que era ja familiar com ambas. Passou muito tempo em Hespanha por ser composição de Jeronymo Treviño[139]; hoje com razão se crê que o Treviñonão foi senão o editor que em 1598 o imprimiu: sem dúvida o romance é muito mais antigo que isso; so da licção portugueza me parece que posso responder que é dos fins do XIV, principios—quando muito—doXVseculo. E todavia a fórma em que elle apparece em portuguez não creio que fosse a primitiva que entre nós teve, e me inclino a que ella seja posterior á que teem os nossos vizinhos castelhanos em suas collecções[140]. Aqui é mais dramatico, lá mais épico: nas multiplicadas edições dos cegos chegou a obter o nome de tragedia. Todavia, não deixarei de observar que revestidos d’esta mesma fórma ha romances muito mais antigos do que os narrativos. As rúbricas deaqui falla o marquez, agora diz o imperadoretc., não são indisputavel próva de que a composição fôsse para se representar theatralmente.

Sem profundar nenhuma d’estas questões, contento-me de sacar do lixo da “feira-da-ladra”,ésta bella reliquia da nossa litteratura popular e romanesca, e de restituir ao seu eminente logar o nobre marquez de Mantua, embora me criminem e escarneçam os superciliosos academicos de todas as academias reaes e não reaes d’este mundo.

Na caça andava perdidoDe Mantua o velho marquez,E no peito presentidoO coração traz de envez;Mais, não sabe o succedido!Farto ja de caminharPor tam fragosa montanha,Cançado assim sem companha,Sem ter onde repousarN’essa terra tam extranha,Vendo o mato tam cerrado,Assentou de se apearE o seu cavallo deixarPorque estava de cançadoQue ja não podia andar:FALLA O MARQUEZ—Fortunosa caça é éstaQue a fortuna me ha mostrado,Poisque, por ser manifestaMinha pena e gran’ cuidado,Me mostrou ésta floresta.Nunca vi tam forte brenhaDesque me accordo de mi,Eu creio que MargasiFez ésta serra Dardenha,Estes campos de Methli.Quero tocar a bosinaPor ver se algum me ouvirá;Mas cuido que não será,Porque minha gran’ mofinaCommigo começou ja.Todavia quero verSe mora alguem n’esta serraQue me diga d’esta terraCuja é para saber;Que quem pergunta não erra.Agora vejo-me aquiN’esta tam grande espessura,Que nem eu me vejo a mi,Nem sei de minha ventura,Nem menos será cordura.DIZ VALDEVINOS—Oh Virgem minha senhora,Madre do rei da verdade,Por vossa gran’ piedadeSêde minha intercessoraEm tanta necessidade.Oh summa regina pia,Radiante luz phebea,Custodia animæ meæ,Pois está na terra friaA alma de pezar chea,Pois es amparo dos teus,Consola os desconsolados,Rainha dos altos ceos,E roga a meu senhor DeosQue perdoe meus peccados.FALLA O MARQUEZ—Não sei quem ouço gemerE chorar de quando em quando:Alguem deve de aqui estar...Segundo se esta queixando,Deve ter grande pezar.FALLA VALDEVINOS—Domine, memento mei,Lembrae-vos de minha alma,Pois que sois da glória rei,Nascido da flor da palma,Remedio de nossa lei.DIZ O MARQUEZ—Segundo d’elle se espera,Aquelle home anda perdido,Ou, por ventura feridoDe alguma besta fera.Quero ver este mysterio,Que a falla me dá ousadia,Porque dois em companhiaTerão grande refrigerioPara qualquer agonia.DIZ VALDEVINOS—Oh minha espôsa e senhora,Ja não tereis em podêrVosso espôso que assim chora,Pois a morte roubadoraVos roubou todo o prazer.Oh vida do meu viver,Resplandecente narciso,Gran’ pena levo em saberQue nunca vos heide verAté o dia do juizo.Oh esperança por quemTinha victoria vencida!Oh minha glória, meu bem,Porque não partis tambem,Poisque sois a minha vida?Senão for vossa vontadeDe haver de mim compaixão,Mandae-me meu coração,Minha fe e liberdade,Que está em vossa prizão.Madre minha muito amada,Qu’é de o filho que paristes,De quem ereis consolada?Como se ha tornado nadaQuanta glória possuistes?Ja me não vereis reinar,Ja me não dareis conselho,Nem eu o posso tomar;Que quebrado é o espelhoEm que vos sabeis olhar.Ja nunca me haveis de verFazer justas e torneios,Nem vestir nobres arreios,Nem cavalleiros vencer,Nem tomar bandos alheios.Ja não tomareis prazerQuando me virdes armado;Ja vos não virão dizerA fama de meu podêr,Nem louvar-me de esforçado.Oh valentes cavalleiros,Reinaldos de Montalvão,Oh esforçado Roldão,Oh marquez Dom Oliveiros,Dom Ricardo, Dom Dudão,Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,Oh gran’ duque de Milão,Que é de vossa companhia?Duque Maime de Baviera,Que é de vosso Valdevinos?Oh esforçado Guarinos,Quem comsigo vos tivera!Meu amigo Montesinhos,Ja nunca mais vos verei;Dom Alonso de Inglaterra,Ja nunca acompanhareiO conde Dirlos na guerra.Oh esforçado marquezDe Mantua, teu senhorio,Ja não me poreis arnez,Nem me vereis outra vezGozar vosso senhorio.Ja não quero o vosso estado,Ja não quero ser pessoa,Nem mandar, nem ter reinado;Ja não quero ter coroa,Nem quero ser venerado.Oh Carlos imperador,Senhor de mui alta sorte,Como sentireis gran’ dorSabendo da minha morte,E quem d’ella é causador:Bem sei, se sois informadoDo caso como passou,Que serei mui bem vingado,Ainda que me mattouVosso filho mui amado.Oh principe D. Carloto,Quem, sendo tam desegual,Te moveu a fazer malEm um logar tam remotoA teu amigo leal?Alto Deus omnipotente,Juiz direito sem par,Sôbre ésta morte innocenteJustiça queirais mostrar,Pois morro tam cruelmente.Oh Madre de Deus benigno,E fonte de piedade,Arca da Sancta Trindade,De donde o Verbo DivinoTrouxe sua humanidade,Oh Sancta Domina mea,Oh Virgem gratia plenaEm que a alma se recrea,Dae remedio á minha pena,Pois que morro em terra alhea.FALLA O MARQUEZ—Senhor, porque vos queixais?Quem vos tratou de tal sorte,E quem é o que tal morteVos deu, como publicais,Que assás é ésta má sorte?Não me negueis a verdade,Contae-me vosso pezar,Que vos prometto ajudarCom toda a força e vontade.DIZ VALDEVINOS—Muito me agasta, amigo,Certamente teu tardar,Dize se trazes comtigoQuem me haja de confessar?DIZ O MARQUEZ—Eu não sou quem vós cuidais:Nunca comi vosso pão,Mas vossos gritos e aisMe trouxeram aonde estaisMui movido a compaixão.Dizei-me vossa agonia,Que, se remedio tiver,Eu vos prometto fazerCom que tenhais alegria.DIZ VALDEVINOS—Meu senhor, muitas mercêsPor vossa boa vontade!Bem creio que me fareisMuito mais do que dizeis,Segundo vossa bondade.Mas minha dor é mortal,Meu remedio so é morte,Porque estou parado tal,Que nunca homem mortalFoi trattado de tal sorte.Tenho, senhor, vinte e duasFeridas todas mortais,As intranhas rotas, nuas,E passo penas tam cruas,Que não poderão ser mais.Ha-me morto á traiçãoO filho do imperador,Carloto, a gran’ sem razão,Mostrando-me todo o amor,Não o tendo no coração.Muitas vezes requeriaMinha espôsa com maldade,Mas ella não consentiaPelo bem que me queria,Por sua grande bondade.Carloto com gran’ pezar,Como mais traidor que forte,Ordenou de me matar,Cuidando com minha morteCom ella haver de casar.Mattou-me com gran’ falsia,Tranzendo cinco comsigo,Sem eu trazer mais commigoQue um pagem por companhia.A mim chamam Valdevinos,Sou filho de elrei de Dacia,E primo de elrei de Grecia,E do forte Montesinos,Que é herdeiro de Dalmacia.Dona Hermelinda formosaMinha madre natural,Sibylla minha espôsaDe graças especial,Mas com primores famosa.Ésta nova contareisÁ triste de minha madreQue em Mantua achareis,E ao honrado marquezMeu tio, irmão de meu padre.FALLA O MARQUEZ—Oh desestrado viver,Oh amargosa ventura,Oh ventura sem prazer,Prazer cheio de tristura,Tristura que não tem ser!Oh desventurada sorte,Oh sorte sem soffrimento,Desemparado tormento,Muito peior do que a morte,Morte de desabrimento!Oh meu sobrinho, meu bem,Minha esperança perdida,Oh gloria que me sustêm,Porque vos partis de quemSem vós não terá mais vida?Oh desventurado velho,Captivo sem liberdade!Quem me póde dar conselho,Pois perdido é o espelhoDe minha gran’ claridade!Oh minha luz verdadeira,Trevas do meu coração,Penas de minha paixão,Cuidado, que me marteira,Tristeza de tal traição!Porque não quereis fallarA este marquez coitado,Que tio sohieis chamar?Fallae-me, sobrinho amado,Não me façais rebentar.DIZ VALDEVINOS—Meu tormento tam molestoMe faz não vos conhecerNem na falla, nem no gesto;Nem intendo vosso dizerSe não for mais manifesto.Estou tão posto no fim,Que não sei se sou alguem,Nem menos conheço a mim;Pois quem não conhece a sim,Mal conhecerá ninguem.DIZ O MARQUEZ—Como não me conheceis,Meu sobrinho Valdevinos?Eu sou o triste marquezIrmão de elrei Dom Salinos,Que era o pae que vos fez.Eu sou o marquez sem sorte,Que devêra rebentarChorando a vossa morte,Por com vida não ficarN’este mundo sem de porte.Oh triste mundo coitado,Ninguem deve em ti fiar,Pois es tam desventurado,Que o que tens mais exaltado,Mor quéda lhe fazes dar!FALLA VALDEVINOS—Perdoa-me, senhor tio,A minha descortezia,Que a minha grande agoniaMe pôs em tanto desvio,Que ja vos não conhecia.Não me queirais mais chorar;Deveis de considerarQue para isso é o mundo,Que dobrais meu mal profundo.Para bem é mal passar:E bem sabeis que nascemosPara ir a ésta jornada,E que, quanto mais vivemos,Maior offensa fazemosA quem nos creou de nada.Assim que, necessidadeNão tendes de me chorar,Poisque Deus me quiz levarNo melhor de minha edadePara mais me aproveitar.Mas o que haveis de fazer,É por minha alma rogar,Porque o muito chorarÁ alma não dá prazer,Mas antes mui gran’ pezar.Quero-vos incommendarMinha espôsa e minha madre,Poisque não tem outro padreQue as haja de amparar,Senão vós, como é verdade.Mas o que me dá paixãoEm ésta triste partida,É morrer sem confissão;Mas se parto d’esta vida,Deus receberá a tenção.Vem o ermitão e o pagem.DIZ O ERMITÃO—A paz de Deus sempiternoSeja comvosco, irmão!Lembrae-vos de sua paixãoQue, por nos livrar do inferno,Padeceu quanto a varão.DIZ VALDEVINOS—Com coisa mais não folgáraDo que vê-lo aqui chegado,Padre de Deus enviado,Que se um pouco mais tardára,Não me achára n’este estado.FALLA O PAGEM—Oh que desestrada sorte,Meu senhor Danes Ogeiro!Olhae vosso escudo forte,Olhae, senhor, vosso herdeiro,Em que extremo o pôs a morte!Oh desditoso caminho,Caça de tanto pezar,Que cuidando de caçar,A morte a vosso sobrinhoVieste, senhor, buscar.DIZ O ERMITÃO—A gran’ pressa que traziaNão me deu, senhor, logarDe conhecer nem fallarA vossa gran’ senhoria.N’este êrro se ha culpa,Peço-lhe d’ella perdão,Ainda que a discriçãoSua me dará desculpa.FALLA O MARQUEZ—Rogae a Deus, padre honrado,Que me queira dar paciencia;Que o perdão é escusado,Porque vossa diligenciaVos não deixa ser culpado.DIZ O ERMITÃO—O filho de Deus enviadoVos mande consolação!E pois que aqui sou chegado,Quero ouvir de confissãoEste ferido e angustiado.Coisa é mui naturalA morte a toda a pessoa,A todo o mundo em geral,Poisque a nenhum perdoa.Não a tenhamos por mais.Porque o peccado de AdãoFoi tam fero e de tal sorte,Que não só foi perdição:Mas Deus, que é salvação,Quiz tambem receber morte.E por tanto, filho meu,Não se deve de espantarDa morte que Deus lhe deu;Pois em provimento seuLh’a deu para o salvarLembre-lhe sua paixão:Veja este mundo coitado,E não o ingode o malvado,Que não dá por galardãoSenão tristeza e cuidado.Em quanto, filho, tem vida,Chame a Madre de Deus,Aquella que foi nascidaSem peccado concebida,E coroada nos ceos.Ésta foi santificadaE visitada dos anjos,E em corpo e alma levadaÁ gloria, onde exaltadaLá está sobre os archanjos.Assim, que ao RedemptorE a ésta Virgem sem parSe hade, filho, incommendarDepois que aos sanctos forSua vontade chamar.As mãos levante aos ceus,Faça confissão geral,Confessando-se a DeusE á Virgem celestialE a todos os sanctos seus.DIZ O MARQUEZ—Oh bonancia abhorrecida,Oh desestrada fortuna,De prazeres gran’ tribuna!Porque não desemparaisA quem sois tam importuna?Tristeza, desconfiança,Porque não desesperaisA quem não tem confiança?Contae-me, pagem Burlor,O caso como passou,Quem foi aquelle traidorQue mattou vosso senhor,Ou por que causa o matouFALLA O PAGEM—Seria mui mal contadoSe a sua gran’ senhoriaNão contasse o que é passado.Eu sei certo que fariaO que não é esperadoContra quem me deu estado,E ha feito tantas mercêsQue nunca meu pae me fez:Que é meu senhor amado,E mais vós, senhor marquez.Estando pois em ParisO filho do imperador,Mandou chamar meu senhorNos passos da imperatriz:Fallaram muito a sabor;O que fallaram não sei,Se não que logo n’essa hora,E sem fazer mais demora,Com quatro detraz de siForam da cidade fóra,Armados secretamente,Segundo depois ouvi.Partimos todos d’ahi,E Dom Carloto presenteTambem armado outrosi.E tanto que aqui chegaram,N’este valle de pezarTodos juntos se apearamE fizeram-me ficarC’os cavallos que deixaram.E logo todos entraramEm este esquivo logar,Onde meu senhor mattaram,E depois de o mattar,Nos cavallos se tornaram.Como eu os vi tornar,Sentindo muito tal dor,Temendo de lhe fallar,Não ousei de perguntarOnde estava meu senhor.Vendo-os assim caminhar,Porque nenhum me fallava,Quiz a meu senhor buscar,Porque o coração me davaSobresaltos de pezar.Não o podia toparPorque a grande espessuraE a noite medrosa, escuraMe fazia não o achar:De que tinha gran’ tristura.Buscando-o com gran’ paixão,N’aquelle lugar remotoO achei d’esta feição.Disse-me como á traiçãoO mattára Dom Carloto.Perguntei porque razão:Triste, cheio de agonias,Disse-me com afflicção:—‘Vai-me buscar confissão,Ja se acabaram meus dias.’Como taes novas ouvi,Com grande tribulaçãoE pezar de vê-lo assi,Me parti logo d’aquiA buscar este ermitão.Isto é, senhor, o que seiD’este caso desastrado,Quanto me ha perguntado:Outra coisa não direiMais do que lhei contado.DIZ O MARQUEZ—Quando sua majestadeJustiça me não fizerCom toda a rogaridade.Á força de meu podêrCumprirei minha vontade.DIZ O ERMITÃO—Ja o senhor se ha confessado,E fez actos de christão;Morre com tal contricção,Que eu estou maravilhadoDe sua gran’ discrição.Muito não póde tardar,Segundo n’elle senti.Acabei de lhe fallarPorque lhe quero rezarOs psalmos d’elrei David.FALLA VALDEVINOS—Não tomeis, tio, pezar,Que me parto de vos verPara nunca mais tornar,Pois Deus me manda chamarE não posso mais fazer.Torno-vos a incommendarMinha espôsa e minha mãe,Que as queirais consolarE ambas as amparar,Poisque não têem mais a quem.ORAÇÃO DE VALDEVINOS—Em as tuas mãos, Senhor,Incommendo meu espirito;Poisque es Salvador meu,Meu Deus e meu Redemptor,Não me falte favor teu:Pois, Senhor, me redemiste,Como Deus, que es de verdade,Senhor de toda a piedade,Lembra-te d’esta alma tristeCheia de toda a maldade.Salve, Senhora benigna,Madre de misericordia,Pas de nossa gran’ discordia,Dos peccadores mezinha,Vida doce e concordia,Spes nostra, a ti invocamos,Salva-nos da escura treva.A ti, Senhora, chamamosDesterrados filhos de Eva,A ti virgem, suspiramos,A ti gemendo e chorandoEm aqueste lagrymosoValle sem nenhum repouso,Sempre, Virge’, a ti chamamos,Que es nosso prazer e gôso.Ora pois, nossa advogada,Amparo da christandade,Volve os olhos de piedadeA mim, Virgem consagrada,Poisque es nossa liberdade.Dá-me, Senhora, virtudeContra todos meus imigos;Poisque es nossa saúde,Eu te rogo que me ajudesNos temores e perigos:Roga tu por mim, Senhora,Oh Sancta Madre de Deus,A quem a minha alma adora,Pois es rainha dos ceusE dos anjos superiora.Aqui expira Valdevinos eDIZ O MARQUEZ—Oh triste velho coitado,Oh cans cheias de tristura!Oh doloroso cuidado,Oh cuidado sem ventura,Sem ventura desestrado!Quebrem-se minhas intranhas,Rompa-se meu coraçãoCom minha tribulação.Chorem todas as campinasMinha grande perdição,Scureça-se o sol com dó,Caiam estrellas do ceu,As trévas de FaraóVenham ja sôbre mim só.Pois minha luz se perdeuNa luz de mui claro dia,Claridade sem clareza,Minha doce companhia,Onde está vossa alegria,Que me deixa tal tristeza?Oh velhice desestrada,Sem gloria e sem prazer,Para que me deixais ser,Pois que sendo, não sou nada,Nem desejo de viver?Porque não vens, padecer,Porque não vindes, tormentos,Paraque são soffrimentosA quem os não quer ja ter,Nem busca contentamentos?Paraque quero razão,Paraque quero prudencia,Nem saber, nem discrição?Paraque é paciencia,Pois perdi consolação?DIZ O PAGEM—Oh meu senhor muito amado,Porque vos tornastes pó?Porque me deixastes sóEm este mundo coitadoCom tanta tristeza e dó?Leváreis-me em companhia,Pois sempre vos tive, vivo.Oh minha grande alegria,Porque me deixais captivo,Mettido em tanta agonia?Meu senhor, minha alegria,Dizei, porque nos deixaisCom tanta pena notoria?Lembrai-vos, tende memoriaDe quantos desemparais.Oh sem ventura Burlor!De quem serás amparado,De quem terás o favorQue tinhas de teu senhor,Poisque ja te ha faltado?FALLA O ERMITÃO—Não tomeis, filho, pezar,Pois claramente sabeisQue pelo muito chorarNão cobrais o que perdeis.Deveis, filho, de cuidarQue nossa vida é um ventoTam ligeiro de passar,Que passa em um momentoPor nós assim como o ar.Quem viu o senhor infante,Tam pouco ha, fazer guerra,E ser n’ella tam possante,E agora em um instanteSe tornado escura terra,Diria com gran’ razãoQue este mundo coitadoNão dá outro galardão,Senão tristeza e paixão,Com a vós outros foi dado.Olhae a elrei SalomãoO galardão que deu;A Amon e Absalão,E ao valente Sansão,E ao forte Macabeu.Em a Sacra EscrituraMuitos mais podia acharSe os quizesse contar;Mas vossa grande corduraSupprirá donde faltar.E poisque não tem ja curaO mal feito e o passado,Cesse a vossa tristura,E demos á sepulturaEste corpo ja finado.Levemo-lo onde convêmPara que seja interrado;E póde bem ser guardadoN’aquella ermida que vêemAté ser imbalsemado.Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, eDIZ O IMPERADOR—Certo, conde Ganalão,Muito gran’ perda perdemos.Péza-me no coração,Porque na côrte não temosReinaldos de Montalvão,Nem o conde Dom Roldão,Nem o marquez Oliveiros,Nem o duque de Milão,Nem o infante Gaifeiros,Nem o forte Meredião.DIZ GANALÃO—Muito alto imperador,Muito estou maravilhadoPorque mostrais tal favorA quem vos ha deshonradoCom tanta íra e rigor,Que, chamando-se Almansor;Com o seu rosto mudadoAquelle falso traidorCom mui grande deshonorQuiz deshonrar vosso estado:Porquê, senhor, não sentisQue este malvado ladrãoVos prendeu de sua mãoTomando-vos a ParisCom muito grande traição?Pondo-vos em MontalvãoApezar do vosso imperio,Onde com gran’ vituperioEstivestes em prizão,Sem ter nenhum refrigerio?FALLA O IMPERADOR—Verdade é isso, cunhado:Porêm deveis de saberQue em Reinaldos me prenderEu mesmo sou o culpado:Isto bem o podeis crer.Se então me quiz offenderNão é muita maravilha,Pois ja me quiz guarnecerMattando elrei Carmeser,Que me trouxe a sua filha.DIZ GANALÃO—Vossa real majestadeDirá tudo o que quizer,Mas eu espero a Beltrão...Que se conheça a maldadeDe quem se hade conhecer.Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: eDIZ BELTRÃO—Gran’ Cesar Octaviano,Magno, augusto, forte rei,Grande imperador romano,Amparo da nossa lei,Poderosa majestade,Senhor de toda a Magança,Da Gascunha e da França,Gran’ patrão da christandade,Esteio de segurança!Pois sois senhor dos senhores,Imperador dos christãos,Somos vossos servidores,Amigos leaes e sãos.DIZ O IMPERADOR—Eu me espanto, Dom Beltrão,De vos ver d’aquella sorte,E a vós, forte duque Amão:Não é ésta disposiçãoE trajo da nossa côrte.FALLA O DUQUE—Muito mais será espantadoDe nossa triste embaixada,E do caso desestradoO qual lhe será contado,Se seguro nos é dado.DIZ O IMPERADOR—Bem o podeis explicarSem ter medo nem temor.Para que é assegurar?Pois sabeis que o embaixadorTem licença de fallar.DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA—Quiz, senhor, nossa mofinaQue o infante Valdevinos,Primo do forte Guarinos,Filho da linda HermelindaE do grande rei Salinos,Fôsse morto á traiçãoNa floresta sem ventura.A tam grande desventuraHaverá quem não procureDe vingar tal perdição?FALLA O IMPERADOR—É certa tam gran’ maldade,Que o sobrinho do marquezÉ morto, como dizeis?DIZ O DUQUE—Pela maior falsidadeQue nunca ninguem tal fez.DIZ O IMPERADOR—Este caso é desestrado:Saibamos como passouE quem tam mau feito obrou:Que o que tal senhor mattou,Merece bem castigado.FALLA O DUQUE—Saiba vossa majestadeQue dez dias póde haverQue o marquez foi á cidadeDe Mantua com gran’ vontadeÁ caça que sohe fazer.Andando assim a caçar,Da companhia perdidoFoi por ventura toparCom seu sobrinho feridoQuasi a ponto de expirar.Bem póde considerarO gran’ pezar que teriaDe se ver sem companhia,E a morrer em tal logarA coisa que mais queria.Perguntando a razão,Sendo d’ella mui ignoto,Disse com grande paixãoQue o mattára á traiçãoVosso filho Dom Carloto.A causa que o moveuDar morte tam dolorosaA tam grande amigo seu,Não foi outra, senhor meu,Salvo tomar-lhe a espôsa.Mattou-o á falsa fe,Indo muito bem armado,Com quatro homens de pé.Quem matta tam sem porquêMerece bem castigado.O marquez Danes OgeiroLhe manda pedir, senhor,Justiça mui por inteiro:Que ainda que perca herdeiro,Elle perde successor.DIZ DOM BELTRÃO—Não deve deixar passarTam gran’ mal sem o prover,Porque deve de cuidarSe seu filho nos mattar,Quem nos deve defender?E mais lhe faço saberPorque esteja apparelhado,Se justiça não fizer,Que o marquez tem juradoDe por armas a fazer.O mui valente e temidoReinaldo de MontalvãoEntre todos escolhidoEstá bem apercebidoComo geral capitão.Dom Chrisão e AguilanteCom o forte Dom Guarinos,E o valente Montesinos,Primo do morto infante,Primo de elrei Dom Salinos,E o mui grande rei Jaião,De Dom Reinaldos cunhado,E o esforçado Dudão,E o gran’ duque de Milão,E Dom Richarte esforçado,O marquez Dom Oliveiros,E o famoso Durandarte,E o infante Dom Gaifeiros,E o mui forte Ricardo,E outros fortes cavalheiros,Todos têem boa vontadeDe ajudar ao marquezEm essa necessidade;Porque foi gran’ crueldadeA que vosso filho fez.Evitae, senhor, tal damno,Pois que sois juiz sem par;Não vos mostreis inhumano,Acordae-vos de TrajanoEm a justiça guardar.Assim que, alto, esclarecido,Poderoso sem egual,O que fez tam grande malBem merece ser punidoPor seu mandado imperial.E pois, senhor, hei propostoA causa porque viemos,E sabeis o que queremos,Mandae-nos dar a respostaCom que ao marquez tornemos.DIZ O IMPERADOR—Oh poderoso Senhor,Que grande é o vosso mysterio!Pois para meu vituperioMe deste tal successorQue deshonrasse este imperio.Se o que dizeis é verdade,Como creio que será,Nunca rei na christandadeFez tam grande crueldadeComo por mim se verá.Por minha coroa juroDe cumprir e de mandarTudo que digo e procuro.Ao marquez podeis dizerQue elle póde vir seguro,E todos quantos tiver,Venham de guerra ou de paz,Assim como elle quiser.E pois que justiça quer,Com ella muito me praz.ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ—Bem sei que com gran’ paixãoEstá vossa majestadePela falsa informaçãoQue de mim, contra razão;Deram com gran’ falsidade;Porque um filho de tal homeE tão grande geraçãoNão deve sujar seu nomeEm caso tal de traição.Por vida de minha madre,Que se tam gran’ deshonorNão castigar com rigor,Que me será cruel padre,Não direito julgador.DIZ O IMPERADOR—Não vos queirais desculparPois que tendes tanta culpa,Que se o mundo vos desculpa,Não vos heide eu desculpar.E portanto mando logoQue estejais posto a recado,Até ser determinado,Por conselho do meu povo,Se sois livre ou condemnado.Mando que sejais levadoÁ minha gran’ fortaleza,E que lá sejais guardadoDe cem homens do estado,Até saber a certeza.FALLA DOM CARLOTO—E como, senhor, não querVossa real majestadeSaber primeiro a verdade,Senão mandar-me prenderPor tam grande falsidade?DIZ O IMPERADOR—Não vos quero mais ouvir.Levem-no logo á prizãoOnde eu o mando ir;Porque tam grande traiçãoNão é para consentir.Vós outros podeis tornar,E contar-lhe o que é passadoA quem vos cá quiz mandar;Que o seguro que lhe hei dado,Eu o torno a affirmar.AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ—Eu muito me maravilhoDe vossa grande bondade:Que sem razão nem verdadeTrattais assim vosso filhoCom tam grande crueldade.Olhe vossa majestadeQue é herdeiro principal,E que toda a christandadeLh’o hade ter muito a mal.DIZ O IMPERADOR—A mim, senhora, convemSer contra toda a traição:E se vosso filho a tem,Castiga-lo-hei muito bem:E essa é minha tenção.E mais eu vos certificoQue com direito e rigorHeide castigar o iniquo,Ora seja pobre ou ricco,Ou servo ou gran’ senhor.FALLA A IMPERATRIZ—Como quer vossa grandezaInfamar o nosso estadoSem causa, com tal crueza?DIZ O IMPERADOR—Quem me cá mandou recadoNão foi senão com certeza.DIZ A IMPERATRIZ—Por tal recado, senhor,Quereis trattar de tal sorteVosso filho e successor,Que depois de vossa morteHade ser imperador?FALLA O IMPERADOREm eu o mandar prenderNão cuideis que o maltratto.Mas se elle o merecer,Eu espero de fazerA justiça do Troquato;Porque pae tam poderoso,Sendo de tantos caudilho,Senão for tam rigoroso,Nem elle será bom filho,Nem será rei justiçoso.Que agora, mal peccado!Nenhum rei nem julgadorFaz justiça do maior;Mas antes é desprezadoO pequeno com rigor.Todo o mundo é affeição;Julgam com rara remissaO nobre que, sem razãoAlguma, tem opiniãolhe tocar a justiça...Que conta posso eu darAo Senhor dos altos ceos,Se a meu filho não julgarComo outro qualquer dos meus?Assim que escusado éBuscar este intercessor;Porque Deos de NazaréNão me fez tam gran’ senhorPara minha alma perder.DIZ A IMPERATRIZAi triste de mim coitada!Para que quero viver,Poisque sempre heide serDo meu filho tam penadaComo uma triste mulher?Pois tão triste heide serPor meu filho muito amado,Nunca tomarei prazer,Senão tristeza e cuidado.DIZ O IMPERADOR—Não façais tantos extremos,Pois dizeis que tem desculpa,Que antes que sentença dêmos.Primeiro todos veremosSe tem culpa ou não tem culpa.Mostrae maior soffrimento,Que o caso é desestrado;E i-vos a vosso aposento,Que elle não será culpado.Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, eDIZ A MÃE—Oh coração lastimado,Mais triste que a noite escura!Oh dolorosa tristura,Cuidado desesperadoE fortunosa ventura!Oh vida da minha vida,Alma d’este corpo meu!Oh desditosa perdida,Oh sem ventura nascida,A mais que nunca nasceu!Oh filho meu muito amado,Minha doce companhia,Meu prazer, minha alegria,Minha tristeza e cuidado,Minha sab’rosa lembrança,Que serei eu sem vos ver?Filho da minha alegria,Oh meu descanço e prazer,Porque me deixais viverVida com tanta agonia?Adonde vos acharei,Consôlo de meu pezar?Onde vos irei buscar,Poisque perdido vos heiPara jamais vos cobrar?Filho d’esta alma mesquinha,Dos meus olhos claridade,Onde estais, minha mezinha.Filho de minha saudade,Meu prazer e vida minha?DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA—Que é de vós, meu coração,Que é da minha liberdade,Espelho da christandade,Quem vos mattou sem razãoCom tão grande crueldade?Quem vos apartou de mim,Meu querido e meu espôso?Oh meu prazer saudoso,Porque me deixais assimCom cuidado mui penoso?Oh minha triste saudade,Oh meu espôso e senhor,Minha alegria e vontade,Escudo da christandade,Das tristes consolador!Que farei pobre coitada,Mais que nenhuma nascida?Miseravel, angustiada,Para que quero ter vida,Pois minha alma é apartada?Oh fortuna variavel,Triste, cruel, mattadora,De prazeres roubadora,Inimiga perduravel,Matta-me se que’s agora.DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR—Se vossa gran’ majestadeNão der castigo direitoA quem tanto mal ha feito,Nem sustentar a verdade,Não será juiz perfeito.Não olhe vossa grandezaSua madre dolorosa,Nem sua tanta tristeza;Mas olhe tam gran’ princezaCom ésta sua espôsa.FALLA O IMPERADOR—Faz-me tanto intristecerEste tam gran’ vituperio,Que mais quizera perderJunctamente meu imperio,Que tal meu filho fazer.Mas se a verdade assim é,Como ja sou informado,Que tal castigo lhe dêQue seja bem castigado.DIZ SYBILA—Seja justiça guardadaA ésta orphã sem marido.Viuva desamparada,Tam triste e desconsoladaMais que quantas têem nascido.Olhae, senhor, tam gran’ malComo vosso filho, ha feito,E não queirais ter respeitoAo amor paternal,Poisque não é por direito.FALLA O IMPERADOR—Senhora, não duvideis,Que eu farei o que hei jurado,Se é verdade o que dizeis,Porque cumpre a meu estadoDe fazer o que quereis:Que mais quero ter commigoFama de regoridade,Que deixar de ter castigo,Quem commetteu tal maldade.Para que é ser caudilhoDe tanto povo e tam grado,E imperador chamado,Se não julgasse meu filhoComo qualquer estragado?Não cuidem duques nem reisQue, por meu herdeiro ser,Que por isso hade viver:Que aquelle que faz as leisÉ obrigado a as manter.Assim que, por bem querer,Amizade nem respeito,Como agora sohem fazer,Não heide negar direitoA quem direito tiver.E bem vos podeis tornar,Fazei certo o que dissestesE não tomeis tal pezar,Porque o bem que ja perdestesNão o cobrais com chorar.DIZ HERMELINDA—Senhor, nós outras nos pomosEm mãos da vossa grandeza:Olhae bem, senhor, quem somos,E de que linhagem fomos,Pois Deus nos deu tal nobreza.DIZ SYBILA—Olhae os serviços dinosQue tanto tempo vos fezMeu espôso Valdevinos,Tambem seu tio marquez,E como foram continos.Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, eDIZ REINALDOS DE MONTALVÃO—O summo rei dos senhores,Que morreu crucificadoEm podêr dos pharizeos,Accrescente vosso estadoE vos livre de traidores.FALLA O IMPERADOR—Mui valente e esforçadoReinaldos de Montalvão,Vós sejais tam bem chegadoComo a sombra no verão.Muito estou maravilhado,Invencivel e mui forte,De ver-vos assim armado,Sabendo que em minha côrteNunca fostes maltratado.FALLA REINALDOS—Senhor, não seja espantadoDe ver-me assim d’esta sorte,Porque com todo o cuidadoGanalão, vosso cunhado,Sempre me procura a morte.Bem sabeis que sem razão,Com vontade mui malignaFez mattar com gran’ traiçãoA Tiranes e Erocina,E ao feito Salião,E a mim ja quiz mattarMuitas vezes com maldade;E para mais me danar,Fez á sua majestadeMil vezes me desterrar.O grande mal que me querDe todo o mundo é sabido,E por isso quiz trazerArmas para offender,Antes que ser offendido.Mas deixando isto assimGuardado p’ra seu logar,Onde se hade vingar,Vos quero, senhor, contar.Notorio a todo o christãoÉ o pezar lastimosoDo marquez Danes Ogeiro,Que tem, com justa razão,Pela morte do herdeiro.N’esta nobre côrte estãoMuitos mui nobres senhoresQue sabem que Dom BeltrãoE o nobre duque AmãoForam seus embaixadores:Tambem este é sabedorDas respostas que lhe destes,E mais de como prendestesVosso filho successor.Do qual está mui contenteDe te-lo pôsto em prizão;E tem mui grande razão,Porque na carta presente,A qual fez de sua mão,Confessa toda a traição.E um pagem a levavaPara o conde Dom Roldão,Que na cidade de BoavaFaz a sua habitação.E como não ha falsiaQue se possa esconder,Tinha o marquez espia,Porque queria saberO que Dom Roldão faria.Esse pagem imbuçado,Sem suspeita e sem revez,Ia mui determinado:Onde logo foi tomadoE levado ao marquez.Lendo a carta Dom Guarinos,N’ella contava a tençãoPorque o mattára á traição.Isto é, senhor, a verdade,E o que vos manda dizer:Se o que digo é falsidade,(Que por isso a quiz trazer)A lettra é bom conhecer,Que é este o seu signal.Pois, quem fez tam grande malBem merece padecerMorte justa corporal.DIZ O IMPERADORSe tal a carta disser,Não se ha mister mais provar,Nem mais certeza fazer,Senão logo executarA pena que merecer.E portanto, sem deter,Lea-se publicamenteAnte ésta nobre gente;Porque todos possam verVossa verdade evidente.CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃOCaudilho de gran’ podêr,Capitão da christandade,Ésta vos quiz escrever,Para vos fazer saberMinha gran’ necessidade.Porque o verdadeiro amigoHade ser no coração,Assim como fiel irmão,E não nade temer p’rigoPor salvar quem tem razão.Porque sabereis, senhor,Que me sinto mui culpado,Como quem foi mattador;E temo ser condemnadoDe meu padre imperador.Eu confesso que pequei,Pois com vontade damnosaA Valdevinos mattei.Amor me fez com que errei,E o primor de sua esposa.O imperador, meu padre,Me mandou prêso guardar,E nunca quiz attentar,Os rogos de minha madre.A ninguem quer escutar,E o marquez tem juradoDe não vestir nem calçar,Nem entrar em povoado,Até me ver justiçar.Tenho por accusadores,Reinaldos de Montalvão,E seu padre o duque AmãoE muitos grandes senhores;O gran’ duque de MilãoCom o forte Montesinos,Que é primo de Valdevinos.Assim que todos me sãoAccusadores continuos.Pois tantos contra mim são,Eu vos rogo, como amigo,Que vós queirais ser commigo;Porque, tendo Dom Roldão,Não temo nenhum perigo.DIZ O IMPERADORAntes que algum mal cresça,Façamos o que devemos.Pois o signal conhecemos,E pois vemos que confessa,De mais próva não curemos,Nem vós façais mais detença.E, pois ja tendes licença,Podeis dizer ao marquezQue venha ouvir a sentença.Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,DIZ O IMPERADORSenhora, ja não dirãoQue fui eu mal informado,Nem que o prendo sem razão,Pois por sua confissãoVosso filho é condemnado.Vêdes a carta presente,Que foi feita da sua mãoPara o conde Dom Roldão:A qual muito largamenteDeclara toda a traição.DIZ A IMPERATRIZEu muito me maravilhoDo que, senhor, me ha contado;Mas, pois elle ha confessado,Melhor é morrer o filhoQue deshonrar o estado.Mas a dor do coraçãoSempre me hade ficar...Peço-lhe com affeiçãoQue lhe busque salvaçãoE que o queira escutar.DIZ O IMPERADORMelhor é que o successorPadeça morte sentida,Que ficar o pae traidor:Que será trocar honor,Pela deshonra nascida.Tambem eu padeço dor,Tambem eu sinto paixão,Tambem eu lhe tenho amor...Mas antes quero razão,Que amizade sem favor.DIZ A IMPERATRIZPoisque não póde escapar,Eu não consinto nem queroQue vós o hajais de julgar,Porque vos podem chamarMuito mais peior que Nero.DIZ O IMPERADORNão vivais em tal ingano,Que tambem foram caudilhosO gran’ Trocato, o Trajano;E quizeram, com gran’ damno,Ambos justiçar seus filhos.Pois que menos farei eu,Tendo tam grande estado?Quem é com razão culpadoEm maior caso que o seu?E portanto eu vos rogoQue não tomeis tal pezar,Porque com vos enojarDá-se gran’ tristeza ao povo.DIZ A IMPERATRIZEu cumprirei seu mandado,Porque vejo que é razão;Mas sempre meu coraçãoTerá tristeza e cuidadoE grande tribulação.Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, eDIZ O MARQUEZBem parece, alto senhor,Que vos fez Deus sem segundo,E de todos superior,Dos maiores o melhor,Rei e monarcha do mundo.Porque vós, senhor, sois tal,Que com razão e verdadeSustentais a christandadeEm justiça universal.A qual para salvaçãoVos é muito necessaria,Porque convem ao christãoQue use mais de razãoQue de affeição voluntaria:Como faz vossa grandezaCom seu filho successor.Assim que, digo, senhor,Que estima mais a nobrezaQue amizade nem favor.FALLA O IMPERADORNão curemos de fallarEm coisa tam conhecida;Porque n’esta breve vidaHavemos de procurarPela eterna e comprida.Para sentir gran’ pezarVós tendes razão infinda,E tambem de vos vingar,Pois foi justa vossa vinda.Bem vimos vossa embaixada,E a causa d’ella propostaFoi de nós mui bem olhada,E não menos foi mandadaMui convencivel resposta.E vimos vossa tenção,E soubemos vosso voto,E vemos tendes razãoPela grande informaçãoDo principe Dom Carloto.E vimos a confissãoDe Dom Carloto tambem,E soubemos a traição,Como na carta contêm,Que mandava a Dom Roldão.De tudo certificado,Eu condemno a Dom CarlotoEm tudo o que hei mandado.VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDOA imperatriz, senhor,Está tam amortecidaDe grande paixão e dorQue não tem pulso nem cor,Nem nenhum signal de vida.Nenhum remedio lhe vem;Está n’esse padecerSem lhe podêrmos valer:E, segundo d’ella cremos,Mui pouco hade viver.DIZ O IMPERADOREu muito me maravilhoDe sua gran’ discrição;Mais sinto sua paixão,Que a morte de meu filho...Não te quero mais dizer,Quero-a ir consolar,Pois tanto lhe faz mister.Não sei porque é enojarPor se justiça fazer!Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, eDIZ REINALDOSJagora, senhor marquez,Vos podeis chamar vingado,Porque assás é castigadoO que tanto mal vos fez,Poisque morreu degollado.Fazei por vos alegrar,Dae graças ao Redemptor,Pois assim vos quiz vingar,Sem nenhum de nós p’rigarE com mais vosso valor.

Na caça andava perdidoDe Mantua o velho marquez,E no peito presentidoO coração traz de envez;Mais, não sabe o succedido!Farto ja de caminharPor tam fragosa montanha,Cançado assim sem companha,Sem ter onde repousarN’essa terra tam extranha,Vendo o mato tam cerrado,Assentou de se apearE o seu cavallo deixarPorque estava de cançadoQue ja não podia andar:FALLA O MARQUEZ—Fortunosa caça é éstaQue a fortuna me ha mostrado,Poisque, por ser manifestaMinha pena e gran’ cuidado,Me mostrou ésta floresta.Nunca vi tam forte brenhaDesque me accordo de mi,Eu creio que MargasiFez ésta serra Dardenha,Estes campos de Methli.Quero tocar a bosinaPor ver se algum me ouvirá;Mas cuido que não será,Porque minha gran’ mofinaCommigo começou ja.Todavia quero verSe mora alguem n’esta serraQue me diga d’esta terraCuja é para saber;Que quem pergunta não erra.Agora vejo-me aquiN’esta tam grande espessura,Que nem eu me vejo a mi,Nem sei de minha ventura,Nem menos será cordura.DIZ VALDEVINOS—Oh Virgem minha senhora,Madre do rei da verdade,Por vossa gran’ piedadeSêde minha intercessoraEm tanta necessidade.Oh summa regina pia,Radiante luz phebea,Custodia animæ meæ,Pois está na terra friaA alma de pezar chea,Pois es amparo dos teus,Consola os desconsolados,Rainha dos altos ceos,E roga a meu senhor DeosQue perdoe meus peccados.FALLA O MARQUEZ—Não sei quem ouço gemerE chorar de quando em quando:Alguem deve de aqui estar...Segundo se esta queixando,Deve ter grande pezar.FALLA VALDEVINOS—Domine, memento mei,Lembrae-vos de minha alma,Pois que sois da glória rei,Nascido da flor da palma,Remedio de nossa lei.DIZ O MARQUEZ—Segundo d’elle se espera,Aquelle home anda perdido,Ou, por ventura feridoDe alguma besta fera.Quero ver este mysterio,Que a falla me dá ousadia,Porque dois em companhiaTerão grande refrigerioPara qualquer agonia.DIZ VALDEVINOS—Oh minha espôsa e senhora,Ja não tereis em podêrVosso espôso que assim chora,Pois a morte roubadoraVos roubou todo o prazer.Oh vida do meu viver,Resplandecente narciso,Gran’ pena levo em saberQue nunca vos heide verAté o dia do juizo.Oh esperança por quemTinha victoria vencida!Oh minha glória, meu bem,Porque não partis tambem,Poisque sois a minha vida?Senão for vossa vontadeDe haver de mim compaixão,Mandae-me meu coração,Minha fe e liberdade,Que está em vossa prizão.Madre minha muito amada,Qu’é de o filho que paristes,De quem ereis consolada?Como se ha tornado nadaQuanta glória possuistes?Ja me não vereis reinar,Ja me não dareis conselho,Nem eu o posso tomar;Que quebrado é o espelhoEm que vos sabeis olhar.Ja nunca me haveis de verFazer justas e torneios,Nem vestir nobres arreios,Nem cavalleiros vencer,Nem tomar bandos alheios.Ja não tomareis prazerQuando me virdes armado;Ja vos não virão dizerA fama de meu podêr,Nem louvar-me de esforçado.Oh valentes cavalleiros,Reinaldos de Montalvão,Oh esforçado Roldão,Oh marquez Dom Oliveiros,Dom Ricardo, Dom Dudão,Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,Oh gran’ duque de Milão,Que é de vossa companhia?Duque Maime de Baviera,Que é de vosso Valdevinos?Oh esforçado Guarinos,Quem comsigo vos tivera!Meu amigo Montesinhos,Ja nunca mais vos verei;Dom Alonso de Inglaterra,Ja nunca acompanhareiO conde Dirlos na guerra.Oh esforçado marquezDe Mantua, teu senhorio,Ja não me poreis arnez,Nem me vereis outra vezGozar vosso senhorio.Ja não quero o vosso estado,Ja não quero ser pessoa,Nem mandar, nem ter reinado;Ja não quero ter coroa,Nem quero ser venerado.Oh Carlos imperador,Senhor de mui alta sorte,Como sentireis gran’ dorSabendo da minha morte,E quem d’ella é causador:Bem sei, se sois informadoDo caso como passou,Que serei mui bem vingado,Ainda que me mattouVosso filho mui amado.Oh principe D. Carloto,Quem, sendo tam desegual,Te moveu a fazer malEm um logar tam remotoA teu amigo leal?Alto Deus omnipotente,Juiz direito sem par,Sôbre ésta morte innocenteJustiça queirais mostrar,Pois morro tam cruelmente.Oh Madre de Deus benigno,E fonte de piedade,Arca da Sancta Trindade,De donde o Verbo DivinoTrouxe sua humanidade,Oh Sancta Domina mea,Oh Virgem gratia plenaEm que a alma se recrea,Dae remedio á minha pena,Pois que morro em terra alhea.FALLA O MARQUEZ—Senhor, porque vos queixais?Quem vos tratou de tal sorte,E quem é o que tal morteVos deu, como publicais,Que assás é ésta má sorte?Não me negueis a verdade,Contae-me vosso pezar,Que vos prometto ajudarCom toda a força e vontade.DIZ VALDEVINOS—Muito me agasta, amigo,Certamente teu tardar,Dize se trazes comtigoQuem me haja de confessar?DIZ O MARQUEZ—Eu não sou quem vós cuidais:Nunca comi vosso pão,Mas vossos gritos e aisMe trouxeram aonde estaisMui movido a compaixão.Dizei-me vossa agonia,Que, se remedio tiver,Eu vos prometto fazerCom que tenhais alegria.DIZ VALDEVINOS—Meu senhor, muitas mercêsPor vossa boa vontade!Bem creio que me fareisMuito mais do que dizeis,Segundo vossa bondade.Mas minha dor é mortal,Meu remedio so é morte,Porque estou parado tal,Que nunca homem mortalFoi trattado de tal sorte.Tenho, senhor, vinte e duasFeridas todas mortais,As intranhas rotas, nuas,E passo penas tam cruas,Que não poderão ser mais.Ha-me morto á traiçãoO filho do imperador,Carloto, a gran’ sem razão,Mostrando-me todo o amor,Não o tendo no coração.Muitas vezes requeriaMinha espôsa com maldade,Mas ella não consentiaPelo bem que me queria,Por sua grande bondade.Carloto com gran’ pezar,Como mais traidor que forte,Ordenou de me matar,Cuidando com minha morteCom ella haver de casar.Mattou-me com gran’ falsia,Tranzendo cinco comsigo,Sem eu trazer mais commigoQue um pagem por companhia.A mim chamam Valdevinos,Sou filho de elrei de Dacia,E primo de elrei de Grecia,E do forte Montesinos,Que é herdeiro de Dalmacia.Dona Hermelinda formosaMinha madre natural,Sibylla minha espôsaDe graças especial,Mas com primores famosa.Ésta nova contareisÁ triste de minha madreQue em Mantua achareis,E ao honrado marquezMeu tio, irmão de meu padre.FALLA O MARQUEZ—Oh desestrado viver,Oh amargosa ventura,Oh ventura sem prazer,Prazer cheio de tristura,Tristura que não tem ser!Oh desventurada sorte,Oh sorte sem soffrimento,Desemparado tormento,Muito peior do que a morte,Morte de desabrimento!Oh meu sobrinho, meu bem,Minha esperança perdida,Oh gloria que me sustêm,Porque vos partis de quemSem vós não terá mais vida?Oh desventurado velho,Captivo sem liberdade!Quem me póde dar conselho,Pois perdido é o espelhoDe minha gran’ claridade!Oh minha luz verdadeira,Trevas do meu coração,Penas de minha paixão,Cuidado, que me marteira,Tristeza de tal traição!Porque não quereis fallarA este marquez coitado,Que tio sohieis chamar?Fallae-me, sobrinho amado,Não me façais rebentar.DIZ VALDEVINOS—Meu tormento tam molestoMe faz não vos conhecerNem na falla, nem no gesto;Nem intendo vosso dizerSe não for mais manifesto.Estou tão posto no fim,Que não sei se sou alguem,Nem menos conheço a mim;Pois quem não conhece a sim,Mal conhecerá ninguem.DIZ O MARQUEZ—Como não me conheceis,Meu sobrinho Valdevinos?Eu sou o triste marquezIrmão de elrei Dom Salinos,Que era o pae que vos fez.Eu sou o marquez sem sorte,Que devêra rebentarChorando a vossa morte,Por com vida não ficarN’este mundo sem de porte.Oh triste mundo coitado,Ninguem deve em ti fiar,Pois es tam desventurado,Que o que tens mais exaltado,Mor quéda lhe fazes dar!FALLA VALDEVINOS—Perdoa-me, senhor tio,A minha descortezia,Que a minha grande agoniaMe pôs em tanto desvio,Que ja vos não conhecia.Não me queirais mais chorar;Deveis de considerarQue para isso é o mundo,Que dobrais meu mal profundo.Para bem é mal passar:E bem sabeis que nascemosPara ir a ésta jornada,E que, quanto mais vivemos,Maior offensa fazemosA quem nos creou de nada.Assim que, necessidadeNão tendes de me chorar,Poisque Deus me quiz levarNo melhor de minha edadePara mais me aproveitar.Mas o que haveis de fazer,É por minha alma rogar,Porque o muito chorarÁ alma não dá prazer,Mas antes mui gran’ pezar.Quero-vos incommendarMinha espôsa e minha madre,Poisque não tem outro padreQue as haja de amparar,Senão vós, como é verdade.Mas o que me dá paixãoEm ésta triste partida,É morrer sem confissão;Mas se parto d’esta vida,Deus receberá a tenção.Vem o ermitão e o pagem.DIZ O ERMITÃO—A paz de Deus sempiternoSeja comvosco, irmão!Lembrae-vos de sua paixãoQue, por nos livrar do inferno,Padeceu quanto a varão.DIZ VALDEVINOS—Com coisa mais não folgáraDo que vê-lo aqui chegado,Padre de Deus enviado,Que se um pouco mais tardára,Não me achára n’este estado.FALLA O PAGEM—Oh que desestrada sorte,Meu senhor Danes Ogeiro!Olhae vosso escudo forte,Olhae, senhor, vosso herdeiro,Em que extremo o pôs a morte!Oh desditoso caminho,Caça de tanto pezar,Que cuidando de caçar,A morte a vosso sobrinhoVieste, senhor, buscar.DIZ O ERMITÃO—A gran’ pressa que traziaNão me deu, senhor, logarDe conhecer nem fallarA vossa gran’ senhoria.N’este êrro se ha culpa,Peço-lhe d’ella perdão,Ainda que a discriçãoSua me dará desculpa.FALLA O MARQUEZ—Rogae a Deus, padre honrado,Que me queira dar paciencia;Que o perdão é escusado,Porque vossa diligenciaVos não deixa ser culpado.DIZ O ERMITÃO—O filho de Deus enviadoVos mande consolação!E pois que aqui sou chegado,Quero ouvir de confissãoEste ferido e angustiado.Coisa é mui naturalA morte a toda a pessoa,A todo o mundo em geral,Poisque a nenhum perdoa.Não a tenhamos por mais.Porque o peccado de AdãoFoi tam fero e de tal sorte,Que não só foi perdição:Mas Deus, que é salvação,Quiz tambem receber morte.E por tanto, filho meu,Não se deve de espantarDa morte que Deus lhe deu;Pois em provimento seuLh’a deu para o salvarLembre-lhe sua paixão:Veja este mundo coitado,E não o ingode o malvado,Que não dá por galardãoSenão tristeza e cuidado.Em quanto, filho, tem vida,Chame a Madre de Deus,Aquella que foi nascidaSem peccado concebida,E coroada nos ceos.Ésta foi santificadaE visitada dos anjos,E em corpo e alma levadaÁ gloria, onde exaltadaLá está sobre os archanjos.Assim, que ao RedemptorE a ésta Virgem sem parSe hade, filho, incommendarDepois que aos sanctos forSua vontade chamar.As mãos levante aos ceus,Faça confissão geral,Confessando-se a DeusE á Virgem celestialE a todos os sanctos seus.DIZ O MARQUEZ—Oh bonancia abhorrecida,Oh desestrada fortuna,De prazeres gran’ tribuna!Porque não desemparaisA quem sois tam importuna?Tristeza, desconfiança,Porque não desesperaisA quem não tem confiança?Contae-me, pagem Burlor,O caso como passou,Quem foi aquelle traidorQue mattou vosso senhor,Ou por que causa o matouFALLA O PAGEM—Seria mui mal contadoSe a sua gran’ senhoriaNão contasse o que é passado.Eu sei certo que fariaO que não é esperadoContra quem me deu estado,E ha feito tantas mercêsQue nunca meu pae me fez:Que é meu senhor amado,E mais vós, senhor marquez.Estando pois em ParisO filho do imperador,Mandou chamar meu senhorNos passos da imperatriz:Fallaram muito a sabor;O que fallaram não sei,Se não que logo n’essa hora,E sem fazer mais demora,Com quatro detraz de siForam da cidade fóra,Armados secretamente,Segundo depois ouvi.Partimos todos d’ahi,E Dom Carloto presenteTambem armado outrosi.E tanto que aqui chegaram,N’este valle de pezarTodos juntos se apearamE fizeram-me ficarC’os cavallos que deixaram.E logo todos entraramEm este esquivo logar,Onde meu senhor mattaram,E depois de o mattar,Nos cavallos se tornaram.Como eu os vi tornar,Sentindo muito tal dor,Temendo de lhe fallar,Não ousei de perguntarOnde estava meu senhor.Vendo-os assim caminhar,Porque nenhum me fallava,Quiz a meu senhor buscar,Porque o coração me davaSobresaltos de pezar.Não o podia toparPorque a grande espessuraE a noite medrosa, escuraMe fazia não o achar:De que tinha gran’ tristura.Buscando-o com gran’ paixão,N’aquelle lugar remotoO achei d’esta feição.Disse-me como á traiçãoO mattára Dom Carloto.Perguntei porque razão:Triste, cheio de agonias,Disse-me com afflicção:—‘Vai-me buscar confissão,Ja se acabaram meus dias.’Como taes novas ouvi,Com grande tribulaçãoE pezar de vê-lo assi,Me parti logo d’aquiA buscar este ermitão.Isto é, senhor, o que seiD’este caso desastrado,Quanto me ha perguntado:Outra coisa não direiMais do que lhei contado.DIZ O MARQUEZ—Quando sua majestadeJustiça me não fizerCom toda a rogaridade.Á força de meu podêrCumprirei minha vontade.DIZ O ERMITÃO—Ja o senhor se ha confessado,E fez actos de christão;Morre com tal contricção,Que eu estou maravilhadoDe sua gran’ discrição.Muito não póde tardar,Segundo n’elle senti.Acabei de lhe fallarPorque lhe quero rezarOs psalmos d’elrei David.FALLA VALDEVINOS—Não tomeis, tio, pezar,Que me parto de vos verPara nunca mais tornar,Pois Deus me manda chamarE não posso mais fazer.Torno-vos a incommendarMinha espôsa e minha mãe,Que as queirais consolarE ambas as amparar,Poisque não têem mais a quem.ORAÇÃO DE VALDEVINOS—Em as tuas mãos, Senhor,Incommendo meu espirito;Poisque es Salvador meu,Meu Deus e meu Redemptor,Não me falte favor teu:Pois, Senhor, me redemiste,Como Deus, que es de verdade,Senhor de toda a piedade,Lembra-te d’esta alma tristeCheia de toda a maldade.Salve, Senhora benigna,Madre de misericordia,Pas de nossa gran’ discordia,Dos peccadores mezinha,Vida doce e concordia,Spes nostra, a ti invocamos,Salva-nos da escura treva.A ti, Senhora, chamamosDesterrados filhos de Eva,A ti virgem, suspiramos,A ti gemendo e chorandoEm aqueste lagrymosoValle sem nenhum repouso,Sempre, Virge’, a ti chamamos,Que es nosso prazer e gôso.Ora pois, nossa advogada,Amparo da christandade,Volve os olhos de piedadeA mim, Virgem consagrada,Poisque es nossa liberdade.Dá-me, Senhora, virtudeContra todos meus imigos;Poisque es nossa saúde,Eu te rogo que me ajudesNos temores e perigos:Roga tu por mim, Senhora,Oh Sancta Madre de Deus,A quem a minha alma adora,Pois es rainha dos ceusE dos anjos superiora.Aqui expira Valdevinos eDIZ O MARQUEZ—Oh triste velho coitado,Oh cans cheias de tristura!Oh doloroso cuidado,Oh cuidado sem ventura,Sem ventura desestrado!Quebrem-se minhas intranhas,Rompa-se meu coraçãoCom minha tribulação.Chorem todas as campinasMinha grande perdição,Scureça-se o sol com dó,Caiam estrellas do ceu,As trévas de FaraóVenham ja sôbre mim só.Pois minha luz se perdeuNa luz de mui claro dia,Claridade sem clareza,Minha doce companhia,Onde está vossa alegria,Que me deixa tal tristeza?Oh velhice desestrada,Sem gloria e sem prazer,Para que me deixais ser,Pois que sendo, não sou nada,Nem desejo de viver?Porque não vens, padecer,Porque não vindes, tormentos,Paraque são soffrimentosA quem os não quer ja ter,Nem busca contentamentos?Paraque quero razão,Paraque quero prudencia,Nem saber, nem discrição?Paraque é paciencia,Pois perdi consolação?DIZ O PAGEM—Oh meu senhor muito amado,Porque vos tornastes pó?Porque me deixastes sóEm este mundo coitadoCom tanta tristeza e dó?Leváreis-me em companhia,Pois sempre vos tive, vivo.Oh minha grande alegria,Porque me deixais captivo,Mettido em tanta agonia?Meu senhor, minha alegria,Dizei, porque nos deixaisCom tanta pena notoria?Lembrai-vos, tende memoriaDe quantos desemparais.Oh sem ventura Burlor!De quem serás amparado,De quem terás o favorQue tinhas de teu senhor,Poisque ja te ha faltado?FALLA O ERMITÃO—Não tomeis, filho, pezar,Pois claramente sabeisQue pelo muito chorarNão cobrais o que perdeis.Deveis, filho, de cuidarQue nossa vida é um ventoTam ligeiro de passar,Que passa em um momentoPor nós assim como o ar.Quem viu o senhor infante,Tam pouco ha, fazer guerra,E ser n’ella tam possante,E agora em um instanteSe tornado escura terra,Diria com gran’ razãoQue este mundo coitadoNão dá outro galardão,Senão tristeza e paixão,Com a vós outros foi dado.Olhae a elrei SalomãoO galardão que deu;A Amon e Absalão,E ao valente Sansão,E ao forte Macabeu.Em a Sacra EscrituraMuitos mais podia acharSe os quizesse contar;Mas vossa grande corduraSupprirá donde faltar.E poisque não tem ja curaO mal feito e o passado,Cesse a vossa tristura,E demos á sepulturaEste corpo ja finado.Levemo-lo onde convêmPara que seja interrado;E póde bem ser guardadoN’aquella ermida que vêemAté ser imbalsemado.Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, eDIZ O IMPERADOR—Certo, conde Ganalão,Muito gran’ perda perdemos.Péza-me no coração,Porque na côrte não temosReinaldos de Montalvão,Nem o conde Dom Roldão,Nem o marquez Oliveiros,Nem o duque de Milão,Nem o infante Gaifeiros,Nem o forte Meredião.DIZ GANALÃO—Muito alto imperador,Muito estou maravilhadoPorque mostrais tal favorA quem vos ha deshonradoCom tanta íra e rigor,Que, chamando-se Almansor;Com o seu rosto mudadoAquelle falso traidorCom mui grande deshonorQuiz deshonrar vosso estado:Porquê, senhor, não sentisQue este malvado ladrãoVos prendeu de sua mãoTomando-vos a ParisCom muito grande traição?Pondo-vos em MontalvãoApezar do vosso imperio,Onde com gran’ vituperioEstivestes em prizão,Sem ter nenhum refrigerio?FALLA O IMPERADOR—Verdade é isso, cunhado:Porêm deveis de saberQue em Reinaldos me prenderEu mesmo sou o culpado:Isto bem o podeis crer.Se então me quiz offenderNão é muita maravilha,Pois ja me quiz guarnecerMattando elrei Carmeser,Que me trouxe a sua filha.DIZ GANALÃO—Vossa real majestadeDirá tudo o que quizer,Mas eu espero a Beltrão...Que se conheça a maldadeDe quem se hade conhecer.Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: eDIZ BELTRÃO—Gran’ Cesar Octaviano,Magno, augusto, forte rei,Grande imperador romano,Amparo da nossa lei,Poderosa majestade,Senhor de toda a Magança,Da Gascunha e da França,Gran’ patrão da christandade,Esteio de segurança!Pois sois senhor dos senhores,Imperador dos christãos,Somos vossos servidores,Amigos leaes e sãos.DIZ O IMPERADOR—Eu me espanto, Dom Beltrão,De vos ver d’aquella sorte,E a vós, forte duque Amão:Não é ésta disposiçãoE trajo da nossa côrte.FALLA O DUQUE—Muito mais será espantadoDe nossa triste embaixada,E do caso desestradoO qual lhe será contado,Se seguro nos é dado.DIZ O IMPERADOR—Bem o podeis explicarSem ter medo nem temor.Para que é assegurar?Pois sabeis que o embaixadorTem licença de fallar.DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA—Quiz, senhor, nossa mofinaQue o infante Valdevinos,Primo do forte Guarinos,Filho da linda HermelindaE do grande rei Salinos,Fôsse morto á traiçãoNa floresta sem ventura.A tam grande desventuraHaverá quem não procureDe vingar tal perdição?FALLA O IMPERADOR—É certa tam gran’ maldade,Que o sobrinho do marquezÉ morto, como dizeis?DIZ O DUQUE—Pela maior falsidadeQue nunca ninguem tal fez.DIZ O IMPERADOR—Este caso é desestrado:Saibamos como passouE quem tam mau feito obrou:Que o que tal senhor mattou,Merece bem castigado.FALLA O DUQUE—Saiba vossa majestadeQue dez dias póde haverQue o marquez foi á cidadeDe Mantua com gran’ vontadeÁ caça que sohe fazer.Andando assim a caçar,Da companhia perdidoFoi por ventura toparCom seu sobrinho feridoQuasi a ponto de expirar.Bem póde considerarO gran’ pezar que teriaDe se ver sem companhia,E a morrer em tal logarA coisa que mais queria.Perguntando a razão,Sendo d’ella mui ignoto,Disse com grande paixãoQue o mattára á traiçãoVosso filho Dom Carloto.A causa que o moveuDar morte tam dolorosaA tam grande amigo seu,Não foi outra, senhor meu,Salvo tomar-lhe a espôsa.Mattou-o á falsa fe,Indo muito bem armado,Com quatro homens de pé.Quem matta tam sem porquêMerece bem castigado.O marquez Danes OgeiroLhe manda pedir, senhor,Justiça mui por inteiro:Que ainda que perca herdeiro,Elle perde successor.DIZ DOM BELTRÃO—Não deve deixar passarTam gran’ mal sem o prover,Porque deve de cuidarSe seu filho nos mattar,Quem nos deve defender?E mais lhe faço saberPorque esteja apparelhado,Se justiça não fizer,Que o marquez tem juradoDe por armas a fazer.O mui valente e temidoReinaldo de MontalvãoEntre todos escolhidoEstá bem apercebidoComo geral capitão.Dom Chrisão e AguilanteCom o forte Dom Guarinos,E o valente Montesinos,Primo do morto infante,Primo de elrei Dom Salinos,E o mui grande rei Jaião,De Dom Reinaldos cunhado,E o esforçado Dudão,E o gran’ duque de Milão,E Dom Richarte esforçado,O marquez Dom Oliveiros,E o famoso Durandarte,E o infante Dom Gaifeiros,E o mui forte Ricardo,E outros fortes cavalheiros,Todos têem boa vontadeDe ajudar ao marquezEm essa necessidade;Porque foi gran’ crueldadeA que vosso filho fez.Evitae, senhor, tal damno,Pois que sois juiz sem par;Não vos mostreis inhumano,Acordae-vos de TrajanoEm a justiça guardar.Assim que, alto, esclarecido,Poderoso sem egual,O que fez tam grande malBem merece ser punidoPor seu mandado imperial.E pois, senhor, hei propostoA causa porque viemos,E sabeis o que queremos,Mandae-nos dar a respostaCom que ao marquez tornemos.DIZ O IMPERADOR—Oh poderoso Senhor,Que grande é o vosso mysterio!Pois para meu vituperioMe deste tal successorQue deshonrasse este imperio.Se o que dizeis é verdade,Como creio que será,Nunca rei na christandadeFez tam grande crueldadeComo por mim se verá.Por minha coroa juroDe cumprir e de mandarTudo que digo e procuro.Ao marquez podeis dizerQue elle póde vir seguro,E todos quantos tiver,Venham de guerra ou de paz,Assim como elle quiser.E pois que justiça quer,Com ella muito me praz.ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ—Bem sei que com gran’ paixãoEstá vossa majestadePela falsa informaçãoQue de mim, contra razão;Deram com gran’ falsidade;Porque um filho de tal homeE tão grande geraçãoNão deve sujar seu nomeEm caso tal de traição.Por vida de minha madre,Que se tam gran’ deshonorNão castigar com rigor,Que me será cruel padre,Não direito julgador.DIZ O IMPERADOR—Não vos queirais desculparPois que tendes tanta culpa,Que se o mundo vos desculpa,Não vos heide eu desculpar.E portanto mando logoQue estejais posto a recado,Até ser determinado,Por conselho do meu povo,Se sois livre ou condemnado.Mando que sejais levadoÁ minha gran’ fortaleza,E que lá sejais guardadoDe cem homens do estado,Até saber a certeza.FALLA DOM CARLOTO—E como, senhor, não querVossa real majestadeSaber primeiro a verdade,Senão mandar-me prenderPor tam grande falsidade?DIZ O IMPERADOR—Não vos quero mais ouvir.Levem-no logo á prizãoOnde eu o mando ir;Porque tam grande traiçãoNão é para consentir.Vós outros podeis tornar,E contar-lhe o que é passadoA quem vos cá quiz mandar;Que o seguro que lhe hei dado,Eu o torno a affirmar.AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ—Eu muito me maravilhoDe vossa grande bondade:Que sem razão nem verdadeTrattais assim vosso filhoCom tam grande crueldade.Olhe vossa majestadeQue é herdeiro principal,E que toda a christandadeLh’o hade ter muito a mal.DIZ O IMPERADOR—A mim, senhora, convemSer contra toda a traição:E se vosso filho a tem,Castiga-lo-hei muito bem:E essa é minha tenção.E mais eu vos certificoQue com direito e rigorHeide castigar o iniquo,Ora seja pobre ou ricco,Ou servo ou gran’ senhor.FALLA A IMPERATRIZ—Como quer vossa grandezaInfamar o nosso estadoSem causa, com tal crueza?DIZ O IMPERADOR—Quem me cá mandou recadoNão foi senão com certeza.DIZ A IMPERATRIZ—Por tal recado, senhor,Quereis trattar de tal sorteVosso filho e successor,Que depois de vossa morteHade ser imperador?FALLA O IMPERADOREm eu o mandar prenderNão cuideis que o maltratto.Mas se elle o merecer,Eu espero de fazerA justiça do Troquato;Porque pae tam poderoso,Sendo de tantos caudilho,Senão for tam rigoroso,Nem elle será bom filho,Nem será rei justiçoso.Que agora, mal peccado!Nenhum rei nem julgadorFaz justiça do maior;Mas antes é desprezadoO pequeno com rigor.Todo o mundo é affeição;Julgam com rara remissaO nobre que, sem razãoAlguma, tem opiniãolhe tocar a justiça...Que conta posso eu darAo Senhor dos altos ceos,Se a meu filho não julgarComo outro qualquer dos meus?Assim que escusado éBuscar este intercessor;Porque Deos de NazaréNão me fez tam gran’ senhorPara minha alma perder.DIZ A IMPERATRIZAi triste de mim coitada!Para que quero viver,Poisque sempre heide serDo meu filho tam penadaComo uma triste mulher?Pois tão triste heide serPor meu filho muito amado,Nunca tomarei prazer,Senão tristeza e cuidado.DIZ O IMPERADOR—Não façais tantos extremos,Pois dizeis que tem desculpa,Que antes que sentença dêmos.Primeiro todos veremosSe tem culpa ou não tem culpa.Mostrae maior soffrimento,Que o caso é desestrado;E i-vos a vosso aposento,Que elle não será culpado.Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, eDIZ A MÃE—Oh coração lastimado,Mais triste que a noite escura!Oh dolorosa tristura,Cuidado desesperadoE fortunosa ventura!Oh vida da minha vida,Alma d’este corpo meu!Oh desditosa perdida,Oh sem ventura nascida,A mais que nunca nasceu!Oh filho meu muito amado,Minha doce companhia,Meu prazer, minha alegria,Minha tristeza e cuidado,Minha sab’rosa lembrança,Que serei eu sem vos ver?Filho da minha alegria,Oh meu descanço e prazer,Porque me deixais viverVida com tanta agonia?Adonde vos acharei,Consôlo de meu pezar?Onde vos irei buscar,Poisque perdido vos heiPara jamais vos cobrar?Filho d’esta alma mesquinha,Dos meus olhos claridade,Onde estais, minha mezinha.Filho de minha saudade,Meu prazer e vida minha?DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA—Que é de vós, meu coração,Que é da minha liberdade,Espelho da christandade,Quem vos mattou sem razãoCom tão grande crueldade?Quem vos apartou de mim,Meu querido e meu espôso?Oh meu prazer saudoso,Porque me deixais assimCom cuidado mui penoso?Oh minha triste saudade,Oh meu espôso e senhor,Minha alegria e vontade,Escudo da christandade,Das tristes consolador!Que farei pobre coitada,Mais que nenhuma nascida?Miseravel, angustiada,Para que quero ter vida,Pois minha alma é apartada?Oh fortuna variavel,Triste, cruel, mattadora,De prazeres roubadora,Inimiga perduravel,Matta-me se que’s agora.DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR—Se vossa gran’ majestadeNão der castigo direitoA quem tanto mal ha feito,Nem sustentar a verdade,Não será juiz perfeito.Não olhe vossa grandezaSua madre dolorosa,Nem sua tanta tristeza;Mas olhe tam gran’ princezaCom ésta sua espôsa.FALLA O IMPERADOR—Faz-me tanto intristecerEste tam gran’ vituperio,Que mais quizera perderJunctamente meu imperio,Que tal meu filho fazer.Mas se a verdade assim é,Como ja sou informado,Que tal castigo lhe dêQue seja bem castigado.DIZ SYBILA—Seja justiça guardadaA ésta orphã sem marido.Viuva desamparada,Tam triste e desconsoladaMais que quantas têem nascido.Olhae, senhor, tam gran’ malComo vosso filho, ha feito,E não queirais ter respeitoAo amor paternal,Poisque não é por direito.FALLA O IMPERADOR—Senhora, não duvideis,Que eu farei o que hei jurado,Se é verdade o que dizeis,Porque cumpre a meu estadoDe fazer o que quereis:Que mais quero ter commigoFama de regoridade,Que deixar de ter castigo,Quem commetteu tal maldade.Para que é ser caudilhoDe tanto povo e tam grado,E imperador chamado,Se não julgasse meu filhoComo qualquer estragado?Não cuidem duques nem reisQue, por meu herdeiro ser,Que por isso hade viver:Que aquelle que faz as leisÉ obrigado a as manter.Assim que, por bem querer,Amizade nem respeito,Como agora sohem fazer,Não heide negar direitoA quem direito tiver.E bem vos podeis tornar,Fazei certo o que dissestesE não tomeis tal pezar,Porque o bem que ja perdestesNão o cobrais com chorar.DIZ HERMELINDA—Senhor, nós outras nos pomosEm mãos da vossa grandeza:Olhae bem, senhor, quem somos,E de que linhagem fomos,Pois Deus nos deu tal nobreza.DIZ SYBILA—Olhae os serviços dinosQue tanto tempo vos fezMeu espôso Valdevinos,Tambem seu tio marquez,E como foram continos.Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, eDIZ REINALDOS DE MONTALVÃO—O summo rei dos senhores,Que morreu crucificadoEm podêr dos pharizeos,Accrescente vosso estadoE vos livre de traidores.FALLA O IMPERADOR—Mui valente e esforçadoReinaldos de Montalvão,Vós sejais tam bem chegadoComo a sombra no verão.Muito estou maravilhado,Invencivel e mui forte,De ver-vos assim armado,Sabendo que em minha côrteNunca fostes maltratado.FALLA REINALDOS—Senhor, não seja espantadoDe ver-me assim d’esta sorte,Porque com todo o cuidadoGanalão, vosso cunhado,Sempre me procura a morte.Bem sabeis que sem razão,Com vontade mui malignaFez mattar com gran’ traiçãoA Tiranes e Erocina,E ao feito Salião,E a mim ja quiz mattarMuitas vezes com maldade;E para mais me danar,Fez á sua majestadeMil vezes me desterrar.O grande mal que me querDe todo o mundo é sabido,E por isso quiz trazerArmas para offender,Antes que ser offendido.Mas deixando isto assimGuardado p’ra seu logar,Onde se hade vingar,Vos quero, senhor, contar.Notorio a todo o christãoÉ o pezar lastimosoDo marquez Danes Ogeiro,Que tem, com justa razão,Pela morte do herdeiro.N’esta nobre côrte estãoMuitos mui nobres senhoresQue sabem que Dom BeltrãoE o nobre duque AmãoForam seus embaixadores:Tambem este é sabedorDas respostas que lhe destes,E mais de como prendestesVosso filho successor.Do qual está mui contenteDe te-lo pôsto em prizão;E tem mui grande razão,Porque na carta presente,A qual fez de sua mão,Confessa toda a traição.E um pagem a levavaPara o conde Dom Roldão,Que na cidade de BoavaFaz a sua habitação.E como não ha falsiaQue se possa esconder,Tinha o marquez espia,Porque queria saberO que Dom Roldão faria.Esse pagem imbuçado,Sem suspeita e sem revez,Ia mui determinado:Onde logo foi tomadoE levado ao marquez.Lendo a carta Dom Guarinos,N’ella contava a tençãoPorque o mattára á traição.Isto é, senhor, a verdade,E o que vos manda dizer:Se o que digo é falsidade,(Que por isso a quiz trazer)A lettra é bom conhecer,Que é este o seu signal.Pois, quem fez tam grande malBem merece padecerMorte justa corporal.DIZ O IMPERADORSe tal a carta disser,Não se ha mister mais provar,Nem mais certeza fazer,Senão logo executarA pena que merecer.E portanto, sem deter,Lea-se publicamenteAnte ésta nobre gente;Porque todos possam verVossa verdade evidente.CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃOCaudilho de gran’ podêr,Capitão da christandade,Ésta vos quiz escrever,Para vos fazer saberMinha gran’ necessidade.Porque o verdadeiro amigoHade ser no coração,Assim como fiel irmão,E não nade temer p’rigoPor salvar quem tem razão.Porque sabereis, senhor,Que me sinto mui culpado,Como quem foi mattador;E temo ser condemnadoDe meu padre imperador.Eu confesso que pequei,Pois com vontade damnosaA Valdevinos mattei.Amor me fez com que errei,E o primor de sua esposa.O imperador, meu padre,Me mandou prêso guardar,E nunca quiz attentar,Os rogos de minha madre.A ninguem quer escutar,E o marquez tem juradoDe não vestir nem calçar,Nem entrar em povoado,Até me ver justiçar.Tenho por accusadores,Reinaldos de Montalvão,E seu padre o duque AmãoE muitos grandes senhores;O gran’ duque de MilãoCom o forte Montesinos,Que é primo de Valdevinos.Assim que todos me sãoAccusadores continuos.Pois tantos contra mim são,Eu vos rogo, como amigo,Que vós queirais ser commigo;Porque, tendo Dom Roldão,Não temo nenhum perigo.DIZ O IMPERADORAntes que algum mal cresça,Façamos o que devemos.Pois o signal conhecemos,E pois vemos que confessa,De mais próva não curemos,Nem vós façais mais detença.E, pois ja tendes licença,Podeis dizer ao marquezQue venha ouvir a sentença.Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,DIZ O IMPERADORSenhora, ja não dirãoQue fui eu mal informado,Nem que o prendo sem razão,Pois por sua confissãoVosso filho é condemnado.Vêdes a carta presente,Que foi feita da sua mãoPara o conde Dom Roldão:A qual muito largamenteDeclara toda a traição.DIZ A IMPERATRIZEu muito me maravilhoDo que, senhor, me ha contado;Mas, pois elle ha confessado,Melhor é morrer o filhoQue deshonrar o estado.Mas a dor do coraçãoSempre me hade ficar...Peço-lhe com affeiçãoQue lhe busque salvaçãoE que o queira escutar.DIZ O IMPERADORMelhor é que o successorPadeça morte sentida,Que ficar o pae traidor:Que será trocar honor,Pela deshonra nascida.Tambem eu padeço dor,Tambem eu sinto paixão,Tambem eu lhe tenho amor...Mas antes quero razão,Que amizade sem favor.DIZ A IMPERATRIZPoisque não póde escapar,Eu não consinto nem queroQue vós o hajais de julgar,Porque vos podem chamarMuito mais peior que Nero.DIZ O IMPERADORNão vivais em tal ingano,Que tambem foram caudilhosO gran’ Trocato, o Trajano;E quizeram, com gran’ damno,Ambos justiçar seus filhos.Pois que menos farei eu,Tendo tam grande estado?Quem é com razão culpadoEm maior caso que o seu?E portanto eu vos rogoQue não tomeis tal pezar,Porque com vos enojarDá-se gran’ tristeza ao povo.DIZ A IMPERATRIZEu cumprirei seu mandado,Porque vejo que é razão;Mas sempre meu coraçãoTerá tristeza e cuidadoE grande tribulação.Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, eDIZ O MARQUEZBem parece, alto senhor,Que vos fez Deus sem segundo,E de todos superior,Dos maiores o melhor,Rei e monarcha do mundo.Porque vós, senhor, sois tal,Que com razão e verdadeSustentais a christandadeEm justiça universal.A qual para salvaçãoVos é muito necessaria,Porque convem ao christãoQue use mais de razãoQue de affeição voluntaria:Como faz vossa grandezaCom seu filho successor.Assim que, digo, senhor,Que estima mais a nobrezaQue amizade nem favor.FALLA O IMPERADORNão curemos de fallarEm coisa tam conhecida;Porque n’esta breve vidaHavemos de procurarPela eterna e comprida.Para sentir gran’ pezarVós tendes razão infinda,E tambem de vos vingar,Pois foi justa vossa vinda.Bem vimos vossa embaixada,E a causa d’ella propostaFoi de nós mui bem olhada,E não menos foi mandadaMui convencivel resposta.E vimos vossa tenção,E soubemos vosso voto,E vemos tendes razãoPela grande informaçãoDo principe Dom Carloto.E vimos a confissãoDe Dom Carloto tambem,E soubemos a traição,Como na carta contêm,Que mandava a Dom Roldão.De tudo certificado,Eu condemno a Dom CarlotoEm tudo o que hei mandado.VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDOA imperatriz, senhor,Está tam amortecidaDe grande paixão e dorQue não tem pulso nem cor,Nem nenhum signal de vida.Nenhum remedio lhe vem;Está n’esse padecerSem lhe podêrmos valer:E, segundo d’ella cremos,Mui pouco hade viver.DIZ O IMPERADOREu muito me maravilhoDe sua gran’ discrição;Mais sinto sua paixão,Que a morte de meu filho...Não te quero mais dizer,Quero-a ir consolar,Pois tanto lhe faz mister.Não sei porque é enojarPor se justiça fazer!Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, eDIZ REINALDOSJagora, senhor marquez,Vos podeis chamar vingado,Porque assás é castigadoO que tanto mal vos fez,Poisque morreu degollado.Fazei por vos alegrar,Dae graças ao Redemptor,Pois assim vos quiz vingar,Sem nenhum de nós p’rigarE com mais vosso valor.

Na caça andava perdidoDe Mantua o velho marquez,E no peito presentidoO coração traz de envez;Mais, não sabe o succedido!Farto ja de caminharPor tam fragosa montanha,Cançado assim sem companha,Sem ter onde repousarN’essa terra tam extranha,Vendo o mato tam cerrado,Assentou de se apearE o seu cavallo deixarPorque estava de cançadoQue ja não podia andar:FALLA O MARQUEZ—Fortunosa caça é éstaQue a fortuna me ha mostrado,Poisque, por ser manifestaMinha pena e gran’ cuidado,Me mostrou ésta floresta.Nunca vi tam forte brenhaDesque me accordo de mi,Eu creio que MargasiFez ésta serra Dardenha,Estes campos de Methli.Quero tocar a bosinaPor ver se algum me ouvirá;Mas cuido que não será,Porque minha gran’ mofinaCommigo começou ja.Todavia quero verSe mora alguem n’esta serraQue me diga d’esta terraCuja é para saber;Que quem pergunta não erra.Agora vejo-me aquiN’esta tam grande espessura,Que nem eu me vejo a mi,Nem sei de minha ventura,Nem menos será cordura.DIZ VALDEVINOS—Oh Virgem minha senhora,Madre do rei da verdade,Por vossa gran’ piedadeSêde minha intercessoraEm tanta necessidade.Oh summa regina pia,Radiante luz phebea,Custodia animæ meæ,Pois está na terra friaA alma de pezar chea,Pois es amparo dos teus,Consola os desconsolados,Rainha dos altos ceos,E roga a meu senhor DeosQue perdoe meus peccados.FALLA O MARQUEZ—Não sei quem ouço gemerE chorar de quando em quando:Alguem deve de aqui estar...Segundo se esta queixando,Deve ter grande pezar.FALLA VALDEVINOS—Domine, memento mei,Lembrae-vos de minha alma,Pois que sois da glória rei,Nascido da flor da palma,Remedio de nossa lei.DIZ O MARQUEZ—Segundo d’elle se espera,Aquelle home anda perdido,Ou, por ventura feridoDe alguma besta fera.Quero ver este mysterio,Que a falla me dá ousadia,Porque dois em companhiaTerão grande refrigerioPara qualquer agonia.DIZ VALDEVINOS—Oh minha espôsa e senhora,Ja não tereis em podêrVosso espôso que assim chora,Pois a morte roubadoraVos roubou todo o prazer.Oh vida do meu viver,Resplandecente narciso,Gran’ pena levo em saberQue nunca vos heide verAté o dia do juizo.Oh esperança por quemTinha victoria vencida!Oh minha glória, meu bem,Porque não partis tambem,Poisque sois a minha vida?Senão for vossa vontadeDe haver de mim compaixão,Mandae-me meu coração,Minha fe e liberdade,Que está em vossa prizão.Madre minha muito amada,Qu’é de o filho que paristes,De quem ereis consolada?Como se ha tornado nadaQuanta glória possuistes?Ja me não vereis reinar,Ja me não dareis conselho,Nem eu o posso tomar;Que quebrado é o espelhoEm que vos sabeis olhar.Ja nunca me haveis de verFazer justas e torneios,Nem vestir nobres arreios,Nem cavalleiros vencer,Nem tomar bandos alheios.Ja não tomareis prazerQuando me virdes armado;Ja vos não virão dizerA fama de meu podêr,Nem louvar-me de esforçado.Oh valentes cavalleiros,Reinaldos de Montalvão,Oh esforçado Roldão,Oh marquez Dom Oliveiros,Dom Ricardo, Dom Dudão,Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,Oh gran’ duque de Milão,Que é de vossa companhia?Duque Maime de Baviera,Que é de vosso Valdevinos?Oh esforçado Guarinos,Quem comsigo vos tivera!Meu amigo Montesinhos,Ja nunca mais vos verei;Dom Alonso de Inglaterra,Ja nunca acompanhareiO conde Dirlos na guerra.Oh esforçado marquezDe Mantua, teu senhorio,Ja não me poreis arnez,Nem me vereis outra vezGozar vosso senhorio.Ja não quero o vosso estado,Ja não quero ser pessoa,Nem mandar, nem ter reinado;Ja não quero ter coroa,Nem quero ser venerado.Oh Carlos imperador,Senhor de mui alta sorte,Como sentireis gran’ dorSabendo da minha morte,E quem d’ella é causador:Bem sei, se sois informadoDo caso como passou,Que serei mui bem vingado,Ainda que me mattouVosso filho mui amado.Oh principe D. Carloto,Quem, sendo tam desegual,Te moveu a fazer malEm um logar tam remotoA teu amigo leal?Alto Deus omnipotente,Juiz direito sem par,Sôbre ésta morte innocenteJustiça queirais mostrar,Pois morro tam cruelmente.Oh Madre de Deus benigno,E fonte de piedade,Arca da Sancta Trindade,De donde o Verbo DivinoTrouxe sua humanidade,Oh Sancta Domina mea,Oh Virgem gratia plenaEm que a alma se recrea,Dae remedio á minha pena,Pois que morro em terra alhea.FALLA O MARQUEZ—Senhor, porque vos queixais?Quem vos tratou de tal sorte,E quem é o que tal morteVos deu, como publicais,Que assás é ésta má sorte?Não me negueis a verdade,Contae-me vosso pezar,Que vos prometto ajudarCom toda a força e vontade.DIZ VALDEVINOS—Muito me agasta, amigo,Certamente teu tardar,Dize se trazes comtigoQuem me haja de confessar?DIZ O MARQUEZ—Eu não sou quem vós cuidais:Nunca comi vosso pão,Mas vossos gritos e aisMe trouxeram aonde estaisMui movido a compaixão.Dizei-me vossa agonia,Que, se remedio tiver,Eu vos prometto fazerCom que tenhais alegria.DIZ VALDEVINOS—Meu senhor, muitas mercêsPor vossa boa vontade!Bem creio que me fareisMuito mais do que dizeis,Segundo vossa bondade.Mas minha dor é mortal,Meu remedio so é morte,Porque estou parado tal,Que nunca homem mortalFoi trattado de tal sorte.Tenho, senhor, vinte e duasFeridas todas mortais,As intranhas rotas, nuas,E passo penas tam cruas,Que não poderão ser mais.Ha-me morto á traiçãoO filho do imperador,Carloto, a gran’ sem razão,Mostrando-me todo o amor,Não o tendo no coração.Muitas vezes requeriaMinha espôsa com maldade,Mas ella não consentiaPelo bem que me queria,Por sua grande bondade.Carloto com gran’ pezar,Como mais traidor que forte,Ordenou de me matar,Cuidando com minha morteCom ella haver de casar.Mattou-me com gran’ falsia,Tranzendo cinco comsigo,Sem eu trazer mais commigoQue um pagem por companhia.A mim chamam Valdevinos,Sou filho de elrei de Dacia,E primo de elrei de Grecia,E do forte Montesinos,Que é herdeiro de Dalmacia.Dona Hermelinda formosaMinha madre natural,Sibylla minha espôsaDe graças especial,Mas com primores famosa.Ésta nova contareisÁ triste de minha madreQue em Mantua achareis,E ao honrado marquezMeu tio, irmão de meu padre.FALLA O MARQUEZ—Oh desestrado viver,Oh amargosa ventura,Oh ventura sem prazer,Prazer cheio de tristura,Tristura que não tem ser!Oh desventurada sorte,Oh sorte sem soffrimento,Desemparado tormento,Muito peior do que a morte,Morte de desabrimento!Oh meu sobrinho, meu bem,Minha esperança perdida,Oh gloria que me sustêm,Porque vos partis de quemSem vós não terá mais vida?Oh desventurado velho,Captivo sem liberdade!Quem me póde dar conselho,Pois perdido é o espelhoDe minha gran’ claridade!Oh minha luz verdadeira,Trevas do meu coração,Penas de minha paixão,Cuidado, que me marteira,Tristeza de tal traição!Porque não quereis fallarA este marquez coitado,Que tio sohieis chamar?Fallae-me, sobrinho amado,Não me façais rebentar.DIZ VALDEVINOS—Meu tormento tam molestoMe faz não vos conhecerNem na falla, nem no gesto;Nem intendo vosso dizerSe não for mais manifesto.Estou tão posto no fim,Que não sei se sou alguem,Nem menos conheço a mim;Pois quem não conhece a sim,Mal conhecerá ninguem.DIZ O MARQUEZ—Como não me conheceis,Meu sobrinho Valdevinos?Eu sou o triste marquezIrmão de elrei Dom Salinos,Que era o pae que vos fez.Eu sou o marquez sem sorte,Que devêra rebentarChorando a vossa morte,Por com vida não ficarN’este mundo sem de porte.Oh triste mundo coitado,Ninguem deve em ti fiar,Pois es tam desventurado,Que o que tens mais exaltado,Mor quéda lhe fazes dar!FALLA VALDEVINOS—Perdoa-me, senhor tio,A minha descortezia,Que a minha grande agoniaMe pôs em tanto desvio,Que ja vos não conhecia.Não me queirais mais chorar;Deveis de considerarQue para isso é o mundo,Que dobrais meu mal profundo.Para bem é mal passar:E bem sabeis que nascemosPara ir a ésta jornada,E que, quanto mais vivemos,Maior offensa fazemosA quem nos creou de nada.Assim que, necessidadeNão tendes de me chorar,Poisque Deus me quiz levarNo melhor de minha edadePara mais me aproveitar.Mas o que haveis de fazer,É por minha alma rogar,Porque o muito chorarÁ alma não dá prazer,Mas antes mui gran’ pezar.Quero-vos incommendarMinha espôsa e minha madre,Poisque não tem outro padreQue as haja de amparar,Senão vós, como é verdade.Mas o que me dá paixãoEm ésta triste partida,É morrer sem confissão;Mas se parto d’esta vida,Deus receberá a tenção.Vem o ermitão e o pagem.DIZ O ERMITÃO—A paz de Deus sempiternoSeja comvosco, irmão!Lembrae-vos de sua paixãoQue, por nos livrar do inferno,Padeceu quanto a varão.DIZ VALDEVINOS—Com coisa mais não folgáraDo que vê-lo aqui chegado,Padre de Deus enviado,Que se um pouco mais tardára,Não me achára n’este estado.FALLA O PAGEM—Oh que desestrada sorte,Meu senhor Danes Ogeiro!Olhae vosso escudo forte,Olhae, senhor, vosso herdeiro,Em que extremo o pôs a morte!Oh desditoso caminho,Caça de tanto pezar,Que cuidando de caçar,A morte a vosso sobrinhoVieste, senhor, buscar.DIZ O ERMITÃO—A gran’ pressa que traziaNão me deu, senhor, logarDe conhecer nem fallarA vossa gran’ senhoria.N’este êrro se ha culpa,Peço-lhe d’ella perdão,Ainda que a discriçãoSua me dará desculpa.FALLA O MARQUEZ—Rogae a Deus, padre honrado,Que me queira dar paciencia;Que o perdão é escusado,Porque vossa diligenciaVos não deixa ser culpado.DIZ O ERMITÃO—O filho de Deus enviadoVos mande consolação!E pois que aqui sou chegado,Quero ouvir de confissãoEste ferido e angustiado.Coisa é mui naturalA morte a toda a pessoa,A todo o mundo em geral,Poisque a nenhum perdoa.Não a tenhamos por mais.Porque o peccado de AdãoFoi tam fero e de tal sorte,Que não só foi perdição:Mas Deus, que é salvação,Quiz tambem receber morte.E por tanto, filho meu,Não se deve de espantarDa morte que Deus lhe deu;Pois em provimento seuLh’a deu para o salvarLembre-lhe sua paixão:Veja este mundo coitado,E não o ingode o malvado,Que não dá por galardãoSenão tristeza e cuidado.Em quanto, filho, tem vida,Chame a Madre de Deus,Aquella que foi nascidaSem peccado concebida,E coroada nos ceos.Ésta foi santificadaE visitada dos anjos,E em corpo e alma levadaÁ gloria, onde exaltadaLá está sobre os archanjos.Assim, que ao RedemptorE a ésta Virgem sem parSe hade, filho, incommendarDepois que aos sanctos forSua vontade chamar.As mãos levante aos ceus,Faça confissão geral,Confessando-se a DeusE á Virgem celestialE a todos os sanctos seus.DIZ O MARQUEZ—Oh bonancia abhorrecida,Oh desestrada fortuna,De prazeres gran’ tribuna!Porque não desemparaisA quem sois tam importuna?Tristeza, desconfiança,Porque não desesperaisA quem não tem confiança?Contae-me, pagem Burlor,O caso como passou,Quem foi aquelle traidorQue mattou vosso senhor,Ou por que causa o matouFALLA O PAGEM—Seria mui mal contadoSe a sua gran’ senhoriaNão contasse o que é passado.Eu sei certo que fariaO que não é esperadoContra quem me deu estado,E ha feito tantas mercêsQue nunca meu pae me fez:Que é meu senhor amado,E mais vós, senhor marquez.Estando pois em ParisO filho do imperador,Mandou chamar meu senhorNos passos da imperatriz:Fallaram muito a sabor;O que fallaram não sei,Se não que logo n’essa hora,E sem fazer mais demora,Com quatro detraz de siForam da cidade fóra,Armados secretamente,Segundo depois ouvi.Partimos todos d’ahi,E Dom Carloto presenteTambem armado outrosi.E tanto que aqui chegaram,N’este valle de pezarTodos juntos se apearamE fizeram-me ficarC’os cavallos que deixaram.E logo todos entraramEm este esquivo logar,Onde meu senhor mattaram,E depois de o mattar,Nos cavallos se tornaram.Como eu os vi tornar,Sentindo muito tal dor,Temendo de lhe fallar,Não ousei de perguntarOnde estava meu senhor.Vendo-os assim caminhar,Porque nenhum me fallava,Quiz a meu senhor buscar,Porque o coração me davaSobresaltos de pezar.Não o podia toparPorque a grande espessuraE a noite medrosa, escuraMe fazia não o achar:De que tinha gran’ tristura.Buscando-o com gran’ paixão,N’aquelle lugar remotoO achei d’esta feição.Disse-me como á traiçãoO mattára Dom Carloto.Perguntei porque razão:Triste, cheio de agonias,Disse-me com afflicção:—‘Vai-me buscar confissão,Ja se acabaram meus dias.’Como taes novas ouvi,Com grande tribulaçãoE pezar de vê-lo assi,Me parti logo d’aquiA buscar este ermitão.Isto é, senhor, o que seiD’este caso desastrado,Quanto me ha perguntado:Outra coisa não direiMais do que lhei contado.DIZ O MARQUEZ—Quando sua majestadeJustiça me não fizerCom toda a rogaridade.Á força de meu podêrCumprirei minha vontade.DIZ O ERMITÃO—Ja o senhor se ha confessado,E fez actos de christão;Morre com tal contricção,Que eu estou maravilhadoDe sua gran’ discrição.Muito não póde tardar,Segundo n’elle senti.Acabei de lhe fallarPorque lhe quero rezarOs psalmos d’elrei David.FALLA VALDEVINOS—Não tomeis, tio, pezar,Que me parto de vos verPara nunca mais tornar,Pois Deus me manda chamarE não posso mais fazer.Torno-vos a incommendarMinha espôsa e minha mãe,Que as queirais consolarE ambas as amparar,Poisque não têem mais a quem.ORAÇÃO DE VALDEVINOS—Em as tuas mãos, Senhor,Incommendo meu espirito;Poisque es Salvador meu,Meu Deus e meu Redemptor,Não me falte favor teu:Pois, Senhor, me redemiste,Como Deus, que es de verdade,Senhor de toda a piedade,Lembra-te d’esta alma tristeCheia de toda a maldade.Salve, Senhora benigna,Madre de misericordia,Pas de nossa gran’ discordia,Dos peccadores mezinha,Vida doce e concordia,Spes nostra, a ti invocamos,Salva-nos da escura treva.A ti, Senhora, chamamosDesterrados filhos de Eva,A ti virgem, suspiramos,A ti gemendo e chorandoEm aqueste lagrymosoValle sem nenhum repouso,Sempre, Virge’, a ti chamamos,Que es nosso prazer e gôso.Ora pois, nossa advogada,Amparo da christandade,Volve os olhos de piedadeA mim, Virgem consagrada,Poisque es nossa liberdade.Dá-me, Senhora, virtudeContra todos meus imigos;Poisque es nossa saúde,Eu te rogo que me ajudesNos temores e perigos:Roga tu por mim, Senhora,Oh Sancta Madre de Deus,A quem a minha alma adora,Pois es rainha dos ceusE dos anjos superiora.Aqui expira Valdevinos eDIZ O MARQUEZ—Oh triste velho coitado,Oh cans cheias de tristura!Oh doloroso cuidado,Oh cuidado sem ventura,Sem ventura desestrado!Quebrem-se minhas intranhas,Rompa-se meu coraçãoCom minha tribulação.Chorem todas as campinasMinha grande perdição,Scureça-se o sol com dó,Caiam estrellas do ceu,As trévas de FaraóVenham ja sôbre mim só.Pois minha luz se perdeuNa luz de mui claro dia,Claridade sem clareza,Minha doce companhia,Onde está vossa alegria,Que me deixa tal tristeza?Oh velhice desestrada,Sem gloria e sem prazer,Para que me deixais ser,Pois que sendo, não sou nada,Nem desejo de viver?Porque não vens, padecer,Porque não vindes, tormentos,Paraque são soffrimentosA quem os não quer ja ter,Nem busca contentamentos?Paraque quero razão,Paraque quero prudencia,Nem saber, nem discrição?Paraque é paciencia,Pois perdi consolação?DIZ O PAGEM—Oh meu senhor muito amado,Porque vos tornastes pó?Porque me deixastes sóEm este mundo coitadoCom tanta tristeza e dó?Leváreis-me em companhia,Pois sempre vos tive, vivo.Oh minha grande alegria,Porque me deixais captivo,Mettido em tanta agonia?Meu senhor, minha alegria,Dizei, porque nos deixaisCom tanta pena notoria?Lembrai-vos, tende memoriaDe quantos desemparais.Oh sem ventura Burlor!De quem serás amparado,De quem terás o favorQue tinhas de teu senhor,Poisque ja te ha faltado?FALLA O ERMITÃO—Não tomeis, filho, pezar,Pois claramente sabeisQue pelo muito chorarNão cobrais o que perdeis.Deveis, filho, de cuidarQue nossa vida é um ventoTam ligeiro de passar,Que passa em um momentoPor nós assim como o ar.Quem viu o senhor infante,Tam pouco ha, fazer guerra,E ser n’ella tam possante,E agora em um instanteSe tornado escura terra,Diria com gran’ razãoQue este mundo coitadoNão dá outro galardão,Senão tristeza e paixão,Com a vós outros foi dado.Olhae a elrei SalomãoO galardão que deu;A Amon e Absalão,E ao valente Sansão,E ao forte Macabeu.Em a Sacra EscrituraMuitos mais podia acharSe os quizesse contar;Mas vossa grande corduraSupprirá donde faltar.E poisque não tem ja curaO mal feito e o passado,Cesse a vossa tristura,E demos á sepulturaEste corpo ja finado.Levemo-lo onde convêmPara que seja interrado;E póde bem ser guardadoN’aquella ermida que vêemAté ser imbalsemado.Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, eDIZ O IMPERADOR—Certo, conde Ganalão,Muito gran’ perda perdemos.Péza-me no coração,Porque na côrte não temosReinaldos de Montalvão,Nem o conde Dom Roldão,Nem o marquez Oliveiros,Nem o duque de Milão,Nem o infante Gaifeiros,Nem o forte Meredião.DIZ GANALÃO—Muito alto imperador,Muito estou maravilhadoPorque mostrais tal favorA quem vos ha deshonradoCom tanta íra e rigor,Que, chamando-se Almansor;Com o seu rosto mudadoAquelle falso traidorCom mui grande deshonorQuiz deshonrar vosso estado:Porquê, senhor, não sentisQue este malvado ladrãoVos prendeu de sua mãoTomando-vos a ParisCom muito grande traição?Pondo-vos em MontalvãoApezar do vosso imperio,Onde com gran’ vituperioEstivestes em prizão,Sem ter nenhum refrigerio?FALLA O IMPERADOR—Verdade é isso, cunhado:Porêm deveis de saberQue em Reinaldos me prenderEu mesmo sou o culpado:Isto bem o podeis crer.Se então me quiz offenderNão é muita maravilha,Pois ja me quiz guarnecerMattando elrei Carmeser,Que me trouxe a sua filha.DIZ GANALÃO—Vossa real majestadeDirá tudo o que quizer,Mas eu espero a Beltrão...Que se conheça a maldadeDe quem se hade conhecer.Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: eDIZ BELTRÃO—Gran’ Cesar Octaviano,Magno, augusto, forte rei,Grande imperador romano,Amparo da nossa lei,Poderosa majestade,Senhor de toda a Magança,Da Gascunha e da França,Gran’ patrão da christandade,Esteio de segurança!Pois sois senhor dos senhores,Imperador dos christãos,Somos vossos servidores,Amigos leaes e sãos.DIZ O IMPERADOR—Eu me espanto, Dom Beltrão,De vos ver d’aquella sorte,E a vós, forte duque Amão:Não é ésta disposiçãoE trajo da nossa côrte.FALLA O DUQUE—Muito mais será espantadoDe nossa triste embaixada,E do caso desestradoO qual lhe será contado,Se seguro nos é dado.DIZ O IMPERADOR—Bem o podeis explicarSem ter medo nem temor.Para que é assegurar?Pois sabeis que o embaixadorTem licença de fallar.DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA—Quiz, senhor, nossa mofinaQue o infante Valdevinos,Primo do forte Guarinos,Filho da linda HermelindaE do grande rei Salinos,Fôsse morto á traiçãoNa floresta sem ventura.A tam grande desventuraHaverá quem não procureDe vingar tal perdição?FALLA O IMPERADOR—É certa tam gran’ maldade,Que o sobrinho do marquezÉ morto, como dizeis?DIZ O DUQUE—Pela maior falsidadeQue nunca ninguem tal fez.DIZ O IMPERADOR—Este caso é desestrado:Saibamos como passouE quem tam mau feito obrou:Que o que tal senhor mattou,Merece bem castigado.FALLA O DUQUE—Saiba vossa majestadeQue dez dias póde haverQue o marquez foi á cidadeDe Mantua com gran’ vontadeÁ caça que sohe fazer.Andando assim a caçar,Da companhia perdidoFoi por ventura toparCom seu sobrinho feridoQuasi a ponto de expirar.Bem póde considerarO gran’ pezar que teriaDe se ver sem companhia,E a morrer em tal logarA coisa que mais queria.Perguntando a razão,Sendo d’ella mui ignoto,Disse com grande paixãoQue o mattára á traiçãoVosso filho Dom Carloto.A causa que o moveuDar morte tam dolorosaA tam grande amigo seu,Não foi outra, senhor meu,Salvo tomar-lhe a espôsa.Mattou-o á falsa fe,Indo muito bem armado,Com quatro homens de pé.Quem matta tam sem porquêMerece bem castigado.O marquez Danes OgeiroLhe manda pedir, senhor,Justiça mui por inteiro:Que ainda que perca herdeiro,Elle perde successor.DIZ DOM BELTRÃO—Não deve deixar passarTam gran’ mal sem o prover,Porque deve de cuidarSe seu filho nos mattar,Quem nos deve defender?E mais lhe faço saberPorque esteja apparelhado,Se justiça não fizer,Que o marquez tem juradoDe por armas a fazer.O mui valente e temidoReinaldo de MontalvãoEntre todos escolhidoEstá bem apercebidoComo geral capitão.Dom Chrisão e AguilanteCom o forte Dom Guarinos,E o valente Montesinos,Primo do morto infante,Primo de elrei Dom Salinos,E o mui grande rei Jaião,De Dom Reinaldos cunhado,E o esforçado Dudão,E o gran’ duque de Milão,E Dom Richarte esforçado,O marquez Dom Oliveiros,E o famoso Durandarte,E o infante Dom Gaifeiros,E o mui forte Ricardo,E outros fortes cavalheiros,Todos têem boa vontadeDe ajudar ao marquezEm essa necessidade;Porque foi gran’ crueldadeA que vosso filho fez.Evitae, senhor, tal damno,Pois que sois juiz sem par;Não vos mostreis inhumano,Acordae-vos de TrajanoEm a justiça guardar.Assim que, alto, esclarecido,Poderoso sem egual,O que fez tam grande malBem merece ser punidoPor seu mandado imperial.E pois, senhor, hei propostoA causa porque viemos,E sabeis o que queremos,Mandae-nos dar a respostaCom que ao marquez tornemos.DIZ O IMPERADOR—Oh poderoso Senhor,Que grande é o vosso mysterio!Pois para meu vituperioMe deste tal successorQue deshonrasse este imperio.Se o que dizeis é verdade,Como creio que será,Nunca rei na christandadeFez tam grande crueldadeComo por mim se verá.Por minha coroa juroDe cumprir e de mandarTudo que digo e procuro.Ao marquez podeis dizerQue elle póde vir seguro,E todos quantos tiver,Venham de guerra ou de paz,Assim como elle quiser.E pois que justiça quer,Com ella muito me praz.ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ—Bem sei que com gran’ paixãoEstá vossa majestadePela falsa informaçãoQue de mim, contra razão;Deram com gran’ falsidade;Porque um filho de tal homeE tão grande geraçãoNão deve sujar seu nomeEm caso tal de traição.Por vida de minha madre,Que se tam gran’ deshonorNão castigar com rigor,Que me será cruel padre,Não direito julgador.DIZ O IMPERADOR—Não vos queirais desculparPois que tendes tanta culpa,Que se o mundo vos desculpa,Não vos heide eu desculpar.E portanto mando logoQue estejais posto a recado,Até ser determinado,Por conselho do meu povo,Se sois livre ou condemnado.Mando que sejais levadoÁ minha gran’ fortaleza,E que lá sejais guardadoDe cem homens do estado,Até saber a certeza.FALLA DOM CARLOTO—E como, senhor, não querVossa real majestadeSaber primeiro a verdade,Senão mandar-me prenderPor tam grande falsidade?DIZ O IMPERADOR—Não vos quero mais ouvir.Levem-no logo á prizãoOnde eu o mando ir;Porque tam grande traiçãoNão é para consentir.Vós outros podeis tornar,E contar-lhe o que é passadoA quem vos cá quiz mandar;Que o seguro que lhe hei dado,Eu o torno a affirmar.AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ—Eu muito me maravilhoDe vossa grande bondade:Que sem razão nem verdadeTrattais assim vosso filhoCom tam grande crueldade.Olhe vossa majestadeQue é herdeiro principal,E que toda a christandadeLh’o hade ter muito a mal.DIZ O IMPERADOR—A mim, senhora, convemSer contra toda a traição:E se vosso filho a tem,Castiga-lo-hei muito bem:E essa é minha tenção.E mais eu vos certificoQue com direito e rigorHeide castigar o iniquo,Ora seja pobre ou ricco,Ou servo ou gran’ senhor.FALLA A IMPERATRIZ—Como quer vossa grandezaInfamar o nosso estadoSem causa, com tal crueza?DIZ O IMPERADOR—Quem me cá mandou recadoNão foi senão com certeza.DIZ A IMPERATRIZ—Por tal recado, senhor,Quereis trattar de tal sorteVosso filho e successor,Que depois de vossa morteHade ser imperador?FALLA O IMPERADOREm eu o mandar prenderNão cuideis que o maltratto.Mas se elle o merecer,Eu espero de fazerA justiça do Troquato;Porque pae tam poderoso,Sendo de tantos caudilho,Senão for tam rigoroso,Nem elle será bom filho,Nem será rei justiçoso.Que agora, mal peccado!Nenhum rei nem julgadorFaz justiça do maior;Mas antes é desprezadoO pequeno com rigor.Todo o mundo é affeição;Julgam com rara remissaO nobre que, sem razãoAlguma, tem opiniãolhe tocar a justiça...Que conta posso eu darAo Senhor dos altos ceos,Se a meu filho não julgarComo outro qualquer dos meus?Assim que escusado éBuscar este intercessor;Porque Deos de NazaréNão me fez tam gran’ senhorPara minha alma perder.DIZ A IMPERATRIZAi triste de mim coitada!Para que quero viver,Poisque sempre heide serDo meu filho tam penadaComo uma triste mulher?Pois tão triste heide serPor meu filho muito amado,Nunca tomarei prazer,Senão tristeza e cuidado.DIZ O IMPERADOR—Não façais tantos extremos,Pois dizeis que tem desculpa,Que antes que sentença dêmos.Primeiro todos veremosSe tem culpa ou não tem culpa.Mostrae maior soffrimento,Que o caso é desestrado;E i-vos a vosso aposento,Que elle não será culpado.Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, eDIZ A MÃE—Oh coração lastimado,Mais triste que a noite escura!Oh dolorosa tristura,Cuidado desesperadoE fortunosa ventura!Oh vida da minha vida,Alma d’este corpo meu!Oh desditosa perdida,Oh sem ventura nascida,A mais que nunca nasceu!Oh filho meu muito amado,Minha doce companhia,Meu prazer, minha alegria,Minha tristeza e cuidado,Minha sab’rosa lembrança,Que serei eu sem vos ver?Filho da minha alegria,Oh meu descanço e prazer,Porque me deixais viverVida com tanta agonia?Adonde vos acharei,Consôlo de meu pezar?Onde vos irei buscar,Poisque perdido vos heiPara jamais vos cobrar?Filho d’esta alma mesquinha,Dos meus olhos claridade,Onde estais, minha mezinha.Filho de minha saudade,Meu prazer e vida minha?DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA—Que é de vós, meu coração,Que é da minha liberdade,Espelho da christandade,Quem vos mattou sem razãoCom tão grande crueldade?Quem vos apartou de mim,Meu querido e meu espôso?Oh meu prazer saudoso,Porque me deixais assimCom cuidado mui penoso?Oh minha triste saudade,Oh meu espôso e senhor,Minha alegria e vontade,Escudo da christandade,Das tristes consolador!Que farei pobre coitada,Mais que nenhuma nascida?Miseravel, angustiada,Para que quero ter vida,Pois minha alma é apartada?Oh fortuna variavel,Triste, cruel, mattadora,De prazeres roubadora,Inimiga perduravel,Matta-me se que’s agora.DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR—Se vossa gran’ majestadeNão der castigo direitoA quem tanto mal ha feito,Nem sustentar a verdade,Não será juiz perfeito.Não olhe vossa grandezaSua madre dolorosa,Nem sua tanta tristeza;Mas olhe tam gran’ princezaCom ésta sua espôsa.FALLA O IMPERADOR—Faz-me tanto intristecerEste tam gran’ vituperio,Que mais quizera perderJunctamente meu imperio,Que tal meu filho fazer.Mas se a verdade assim é,Como ja sou informado,Que tal castigo lhe dêQue seja bem castigado.DIZ SYBILA—Seja justiça guardadaA ésta orphã sem marido.Viuva desamparada,Tam triste e desconsoladaMais que quantas têem nascido.Olhae, senhor, tam gran’ malComo vosso filho, ha feito,E não queirais ter respeitoAo amor paternal,Poisque não é por direito.FALLA O IMPERADOR—Senhora, não duvideis,Que eu farei o que hei jurado,Se é verdade o que dizeis,Porque cumpre a meu estadoDe fazer o que quereis:Que mais quero ter commigoFama de regoridade,Que deixar de ter castigo,Quem commetteu tal maldade.Para que é ser caudilhoDe tanto povo e tam grado,E imperador chamado,Se não julgasse meu filhoComo qualquer estragado?Não cuidem duques nem reisQue, por meu herdeiro ser,Que por isso hade viver:Que aquelle que faz as leisÉ obrigado a as manter.Assim que, por bem querer,Amizade nem respeito,Como agora sohem fazer,Não heide negar direitoA quem direito tiver.E bem vos podeis tornar,Fazei certo o que dissestesE não tomeis tal pezar,Porque o bem que ja perdestesNão o cobrais com chorar.DIZ HERMELINDA—Senhor, nós outras nos pomosEm mãos da vossa grandeza:Olhae bem, senhor, quem somos,E de que linhagem fomos,Pois Deus nos deu tal nobreza.DIZ SYBILA—Olhae os serviços dinosQue tanto tempo vos fezMeu espôso Valdevinos,Tambem seu tio marquez,E como foram continos.Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, eDIZ REINALDOS DE MONTALVÃO—O summo rei dos senhores,Que morreu crucificadoEm podêr dos pharizeos,Accrescente vosso estadoE vos livre de traidores.FALLA O IMPERADOR—Mui valente e esforçadoReinaldos de Montalvão,Vós sejais tam bem chegadoComo a sombra no verão.Muito estou maravilhado,Invencivel e mui forte,De ver-vos assim armado,Sabendo que em minha côrteNunca fostes maltratado.FALLA REINALDOS—Senhor, não seja espantadoDe ver-me assim d’esta sorte,Porque com todo o cuidadoGanalão, vosso cunhado,Sempre me procura a morte.Bem sabeis que sem razão,Com vontade mui malignaFez mattar com gran’ traiçãoA Tiranes e Erocina,E ao feito Salião,E a mim ja quiz mattarMuitas vezes com maldade;E para mais me danar,Fez á sua majestadeMil vezes me desterrar.O grande mal que me querDe todo o mundo é sabido,E por isso quiz trazerArmas para offender,Antes que ser offendido.Mas deixando isto assimGuardado p’ra seu logar,Onde se hade vingar,Vos quero, senhor, contar.Notorio a todo o christãoÉ o pezar lastimosoDo marquez Danes Ogeiro,Que tem, com justa razão,Pela morte do herdeiro.N’esta nobre côrte estãoMuitos mui nobres senhoresQue sabem que Dom BeltrãoE o nobre duque AmãoForam seus embaixadores:Tambem este é sabedorDas respostas que lhe destes,E mais de como prendestesVosso filho successor.Do qual está mui contenteDe te-lo pôsto em prizão;E tem mui grande razão,Porque na carta presente,A qual fez de sua mão,Confessa toda a traição.E um pagem a levavaPara o conde Dom Roldão,Que na cidade de BoavaFaz a sua habitação.E como não ha falsiaQue se possa esconder,Tinha o marquez espia,Porque queria saberO que Dom Roldão faria.Esse pagem imbuçado,Sem suspeita e sem revez,Ia mui determinado:Onde logo foi tomadoE levado ao marquez.Lendo a carta Dom Guarinos,N’ella contava a tençãoPorque o mattára á traição.Isto é, senhor, a verdade,E o que vos manda dizer:Se o que digo é falsidade,(Que por isso a quiz trazer)A lettra é bom conhecer,Que é este o seu signal.Pois, quem fez tam grande malBem merece padecerMorte justa corporal.DIZ O IMPERADORSe tal a carta disser,Não se ha mister mais provar,Nem mais certeza fazer,Senão logo executarA pena que merecer.E portanto, sem deter,Lea-se publicamenteAnte ésta nobre gente;Porque todos possam verVossa verdade evidente.CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃOCaudilho de gran’ podêr,Capitão da christandade,Ésta vos quiz escrever,Para vos fazer saberMinha gran’ necessidade.Porque o verdadeiro amigoHade ser no coração,Assim como fiel irmão,E não nade temer p’rigoPor salvar quem tem razão.Porque sabereis, senhor,Que me sinto mui culpado,Como quem foi mattador;E temo ser condemnadoDe meu padre imperador.Eu confesso que pequei,Pois com vontade damnosaA Valdevinos mattei.Amor me fez com que errei,E o primor de sua esposa.O imperador, meu padre,Me mandou prêso guardar,E nunca quiz attentar,Os rogos de minha madre.A ninguem quer escutar,E o marquez tem juradoDe não vestir nem calçar,Nem entrar em povoado,Até me ver justiçar.Tenho por accusadores,Reinaldos de Montalvão,E seu padre o duque AmãoE muitos grandes senhores;O gran’ duque de MilãoCom o forte Montesinos,Que é primo de Valdevinos.Assim que todos me sãoAccusadores continuos.Pois tantos contra mim são,Eu vos rogo, como amigo,Que vós queirais ser commigo;Porque, tendo Dom Roldão,Não temo nenhum perigo.DIZ O IMPERADORAntes que algum mal cresça,Façamos o que devemos.Pois o signal conhecemos,E pois vemos que confessa,De mais próva não curemos,Nem vós façais mais detença.E, pois ja tendes licença,Podeis dizer ao marquezQue venha ouvir a sentença.Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,DIZ O IMPERADORSenhora, ja não dirãoQue fui eu mal informado,Nem que o prendo sem razão,Pois por sua confissãoVosso filho é condemnado.Vêdes a carta presente,Que foi feita da sua mãoPara o conde Dom Roldão:A qual muito largamenteDeclara toda a traição.DIZ A IMPERATRIZEu muito me maravilhoDo que, senhor, me ha contado;Mas, pois elle ha confessado,Melhor é morrer o filhoQue deshonrar o estado.Mas a dor do coraçãoSempre me hade ficar...Peço-lhe com affeiçãoQue lhe busque salvaçãoE que o queira escutar.DIZ O IMPERADORMelhor é que o successorPadeça morte sentida,Que ficar o pae traidor:Que será trocar honor,Pela deshonra nascida.Tambem eu padeço dor,Tambem eu sinto paixão,Tambem eu lhe tenho amor...Mas antes quero razão,Que amizade sem favor.DIZ A IMPERATRIZPoisque não póde escapar,Eu não consinto nem queroQue vós o hajais de julgar,Porque vos podem chamarMuito mais peior que Nero.DIZ O IMPERADORNão vivais em tal ingano,Que tambem foram caudilhosO gran’ Trocato, o Trajano;E quizeram, com gran’ damno,Ambos justiçar seus filhos.Pois que menos farei eu,Tendo tam grande estado?Quem é com razão culpadoEm maior caso que o seu?E portanto eu vos rogoQue não tomeis tal pezar,Porque com vos enojarDá-se gran’ tristeza ao povo.DIZ A IMPERATRIZEu cumprirei seu mandado,Porque vejo que é razão;Mas sempre meu coraçãoTerá tristeza e cuidadoE grande tribulação.Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, eDIZ O MARQUEZBem parece, alto senhor,Que vos fez Deus sem segundo,E de todos superior,Dos maiores o melhor,Rei e monarcha do mundo.Porque vós, senhor, sois tal,Que com razão e verdadeSustentais a christandadeEm justiça universal.A qual para salvaçãoVos é muito necessaria,Porque convem ao christãoQue use mais de razãoQue de affeição voluntaria:Como faz vossa grandezaCom seu filho successor.Assim que, digo, senhor,Que estima mais a nobrezaQue amizade nem favor.FALLA O IMPERADORNão curemos de fallarEm coisa tam conhecida;Porque n’esta breve vidaHavemos de procurarPela eterna e comprida.Para sentir gran’ pezarVós tendes razão infinda,E tambem de vos vingar,Pois foi justa vossa vinda.Bem vimos vossa embaixada,E a causa d’ella propostaFoi de nós mui bem olhada,E não menos foi mandadaMui convencivel resposta.E vimos vossa tenção,E soubemos vosso voto,E vemos tendes razãoPela grande informaçãoDo principe Dom Carloto.E vimos a confissãoDe Dom Carloto tambem,E soubemos a traição,Como na carta contêm,Que mandava a Dom Roldão.De tudo certificado,Eu condemno a Dom CarlotoEm tudo o que hei mandado.VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDOA imperatriz, senhor,Está tam amortecidaDe grande paixão e dorQue não tem pulso nem cor,Nem nenhum signal de vida.Nenhum remedio lhe vem;Está n’esse padecerSem lhe podêrmos valer:E, segundo d’ella cremos,Mui pouco hade viver.DIZ O IMPERADOREu muito me maravilhoDe sua gran’ discrição;Mais sinto sua paixão,Que a morte de meu filho...Não te quero mais dizer,Quero-a ir consolar,Pois tanto lhe faz mister.Não sei porque é enojarPor se justiça fazer!Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, eDIZ REINALDOSJagora, senhor marquez,Vos podeis chamar vingado,Porque assás é castigadoO que tanto mal vos fez,Poisque morreu degollado.Fazei por vos alegrar,Dae graças ao Redemptor,Pois assim vos quiz vingar,Sem nenhum de nós p’rigarE com mais vosso valor.

Na caça andava perdido

De Mantua o velho marquez,

E no peito presentido

O coração traz de envez;

Mais, não sabe o succedido!

Farto ja de caminhar

Por tam fragosa montanha,

Cançado assim sem companha,

Sem ter onde repousar

N’essa terra tam extranha,

Vendo o mato tam cerrado,

Assentou de se apear

E o seu cavallo deixar

Porque estava de cançado

Que ja não podia andar:

FALLA O MARQUEZ

—Fortunosa caça é ésta

Que a fortuna me ha mostrado,

Poisque, por ser manifesta

Minha pena e gran’ cuidado,

Me mostrou ésta floresta.

Nunca vi tam forte brenha

Desque me accordo de mi,

Eu creio que Margasi

Fez ésta serra Dardenha,

Estes campos de Methli.

Quero tocar a bosina

Por ver se algum me ouvirá;

Mas cuido que não será,

Porque minha gran’ mofina

Commigo começou ja.

Todavia quero ver

Se mora alguem n’esta serra

Que me diga d’esta terra

Cuja é para saber;

Que quem pergunta não erra.

Agora vejo-me aqui

N’esta tam grande espessura,

Que nem eu me vejo a mi,

Nem sei de minha ventura,

Nem menos será cordura.

DIZ VALDEVINOS

—Oh Virgem minha senhora,

Madre do rei da verdade,

Por vossa gran’ piedade

Sêde minha intercessora

Em tanta necessidade.

Oh summa regina pia,

Radiante luz phebea,

Custodia animæ meæ,

Pois está na terra fria

A alma de pezar chea,

Pois es amparo dos teus,

Consola os desconsolados,

Rainha dos altos ceos,

E roga a meu senhor Deos

Que perdoe meus peccados.

FALLA O MARQUEZ

—Não sei quem ouço gemer

E chorar de quando em quando:

Alguem deve de aqui estar...

Segundo se esta queixando,

Deve ter grande pezar.

FALLA VALDEVINOS

—Domine, memento mei,

Lembrae-vos de minha alma,

Pois que sois da glória rei,

Nascido da flor da palma,

Remedio de nossa lei.

DIZ O MARQUEZ

—Segundo d’elle se espera,

Aquelle home anda perdido,

Ou, por ventura ferido

De alguma besta fera.

Quero ver este mysterio,

Que a falla me dá ousadia,

Porque dois em companhia

Terão grande refrigerio

Para qualquer agonia.

DIZ VALDEVINOS

—Oh minha espôsa e senhora,

Ja não tereis em podêr

Vosso espôso que assim chora,

Pois a morte roubadora

Vos roubou todo o prazer.

Oh vida do meu viver,

Resplandecente narciso,

Gran’ pena levo em saber

Que nunca vos heide ver

Até o dia do juizo.

Oh esperança por quem

Tinha victoria vencida!

Oh minha glória, meu bem,

Porque não partis tambem,

Poisque sois a minha vida?

Senão for vossa vontade

De haver de mim compaixão,

Mandae-me meu coração,

Minha fe e liberdade,

Que está em vossa prizão.

Madre minha muito amada,

Qu’é de o filho que paristes,

De quem ereis consolada?

Como se ha tornado nada

Quanta glória possuistes?

Ja me não vereis reinar,

Ja me não dareis conselho,

Nem eu o posso tomar;

Que quebrado é o espelho

Em que vos sabeis olhar.

Ja nunca me haveis de ver

Fazer justas e torneios,

Nem vestir nobres arreios,

Nem cavalleiros vencer,

Nem tomar bandos alheios.

Ja não tomareis prazer

Quando me virdes armado;

Ja vos não virão dizer

A fama de meu podêr,

Nem louvar-me de esforçado.

Oh valentes cavalleiros,

Reinaldos de Montalvão,

Oh esforçado Roldão,

Oh marquez Dom Oliveiros,

Dom Ricardo, Dom Dudão,

Dom Gaifeiros, Dom Beltrão,

Oh gran’ duque de Milão,

Que é de vossa companhia?

Duque Maime de Baviera,

Que é de vosso Valdevinos?

Oh esforçado Guarinos,

Quem comsigo vos tivera!

Meu amigo Montesinhos,

Ja nunca mais vos verei;

Dom Alonso de Inglaterra,

Ja nunca acompanharei

O conde Dirlos na guerra.

Oh esforçado marquez

De Mantua, teu senhorio,

Ja não me poreis arnez,

Nem me vereis outra vez

Gozar vosso senhorio.

Ja não quero o vosso estado,

Ja não quero ser pessoa,

Nem mandar, nem ter reinado;

Ja não quero ter coroa,

Nem quero ser venerado.

Oh Carlos imperador,

Senhor de mui alta sorte,

Como sentireis gran’ dor

Sabendo da minha morte,

E quem d’ella é causador:

Bem sei, se sois informado

Do caso como passou,

Que serei mui bem vingado,

Ainda que me mattou

Vosso filho mui amado.

Oh principe D. Carloto,

Quem, sendo tam desegual,

Te moveu a fazer mal

Em um logar tam remoto

A teu amigo leal?

Alto Deus omnipotente,

Juiz direito sem par,

Sôbre ésta morte innocente

Justiça queirais mostrar,

Pois morro tam cruelmente.

Oh Madre de Deus benigno,

E fonte de piedade,

Arca da Sancta Trindade,

De donde o Verbo Divino

Trouxe sua humanidade,

Oh Sancta Domina mea,

Oh Virgem gratia plena

Em que a alma se recrea,

Dae remedio á minha pena,

Pois que morro em terra alhea.

FALLA O MARQUEZ

—Senhor, porque vos queixais?

Quem vos tratou de tal sorte,

E quem é o que tal morte

Vos deu, como publicais,

Que assás é ésta má sorte?

Não me negueis a verdade,

Contae-me vosso pezar,

Que vos prometto ajudar

Com toda a força e vontade.

DIZ VALDEVINOS

—Muito me agasta, amigo,

Certamente teu tardar,

Dize se trazes comtigo

Quem me haja de confessar?

DIZ O MARQUEZ

—Eu não sou quem vós cuidais:

Nunca comi vosso pão,

Mas vossos gritos e ais

Me trouxeram aonde estais

Mui movido a compaixão.

Dizei-me vossa agonia,

Que, se remedio tiver,

Eu vos prometto fazer

Com que tenhais alegria.

DIZ VALDEVINOS

—Meu senhor, muitas mercês

Por vossa boa vontade!

Bem creio que me fareis

Muito mais do que dizeis,

Segundo vossa bondade.

Mas minha dor é mortal,

Meu remedio so é morte,

Porque estou parado tal,

Que nunca homem mortal

Foi trattado de tal sorte.

Tenho, senhor, vinte e duas

Feridas todas mortais,

As intranhas rotas, nuas,

E passo penas tam cruas,

Que não poderão ser mais.

Ha-me morto á traição

O filho do imperador,

Carloto, a gran’ sem razão,

Mostrando-me todo o amor,

Não o tendo no coração.

Muitas vezes requeria

Minha espôsa com maldade,

Mas ella não consentia

Pelo bem que me queria,

Por sua grande bondade.

Carloto com gran’ pezar,

Como mais traidor que forte,

Ordenou de me matar,

Cuidando com minha morte

Com ella haver de casar.

Mattou-me com gran’ falsia,

Tranzendo cinco comsigo,

Sem eu trazer mais commigo

Que um pagem por companhia.

A mim chamam Valdevinos,

Sou filho de elrei de Dacia,

E primo de elrei de Grecia,

E do forte Montesinos,

Que é herdeiro de Dalmacia.

Dona Hermelinda formosa

Minha madre natural,

Sibylla minha espôsa

De graças especial,

Mas com primores famosa.

Ésta nova contareis

Á triste de minha madre

Que em Mantua achareis,

E ao honrado marquez

Meu tio, irmão de meu padre.

FALLA O MARQUEZ

—Oh desestrado viver,

Oh amargosa ventura,

Oh ventura sem prazer,

Prazer cheio de tristura,

Tristura que não tem ser!

Oh desventurada sorte,

Oh sorte sem soffrimento,

Desemparado tormento,

Muito peior do que a morte,

Morte de desabrimento!

Oh meu sobrinho, meu bem,

Minha esperança perdida,

Oh gloria que me sustêm,

Porque vos partis de quem

Sem vós não terá mais vida?

Oh desventurado velho,

Captivo sem liberdade!

Quem me póde dar conselho,

Pois perdido é o espelho

De minha gran’ claridade!

Oh minha luz verdadeira,

Trevas do meu coração,

Penas de minha paixão,

Cuidado, que me marteira,

Tristeza de tal traição!

Porque não quereis fallar

A este marquez coitado,

Que tio sohieis chamar?

Fallae-me, sobrinho amado,

Não me façais rebentar.

DIZ VALDEVINOS

—Meu tormento tam molesto

Me faz não vos conhecer

Nem na falla, nem no gesto;

Nem intendo vosso dizer

Se não for mais manifesto.

Estou tão posto no fim,

Que não sei se sou alguem,

Nem menos conheço a mim;

Pois quem não conhece a sim,

Mal conhecerá ninguem.

DIZ O MARQUEZ

—Como não me conheceis,

Meu sobrinho Valdevinos?

Eu sou o triste marquez

Irmão de elrei Dom Salinos,

Que era o pae que vos fez.

Eu sou o marquez sem sorte,

Que devêra rebentar

Chorando a vossa morte,

Por com vida não ficar

N’este mundo sem de porte.

Oh triste mundo coitado,

Ninguem deve em ti fiar,

Pois es tam desventurado,

Que o que tens mais exaltado,

Mor quéda lhe fazes dar!

FALLA VALDEVINOS

—Perdoa-me, senhor tio,

A minha descortezia,

Que a minha grande agonia

Me pôs em tanto desvio,

Que ja vos não conhecia.

Não me queirais mais chorar;

Deveis de considerar

Que para isso é o mundo,

Que dobrais meu mal profundo.

Para bem é mal passar:

E bem sabeis que nascemos

Para ir a ésta jornada,

E que, quanto mais vivemos,

Maior offensa fazemos

A quem nos creou de nada.

Assim que, necessidade

Não tendes de me chorar,

Poisque Deus me quiz levar

No melhor de minha edade

Para mais me aproveitar.

Mas o que haveis de fazer,

É por minha alma rogar,

Porque o muito chorar

Á alma não dá prazer,

Mas antes mui gran’ pezar.

Quero-vos incommendar

Minha espôsa e minha madre,

Poisque não tem outro padre

Que as haja de amparar,

Senão vós, como é verdade.

Mas o que me dá paixão

Em ésta triste partida,

É morrer sem confissão;

Mas se parto d’esta vida,

Deus receberá a tenção.

Vem o ermitão e o pagem.

DIZ O ERMITÃO

—A paz de Deus sempiterno

Seja comvosco, irmão!

Lembrae-vos de sua paixão

Que, por nos livrar do inferno,

Padeceu quanto a varão.

DIZ VALDEVINOS

—Com coisa mais não folgára

Do que vê-lo aqui chegado,

Padre de Deus enviado,

Que se um pouco mais tardára,

Não me achára n’este estado.

FALLA O PAGEM

—Oh que desestrada sorte,

Meu senhor Danes Ogeiro!

Olhae vosso escudo forte,

Olhae, senhor, vosso herdeiro,

Em que extremo o pôs a morte!

Oh desditoso caminho,

Caça de tanto pezar,

Que cuidando de caçar,

A morte a vosso sobrinho

Vieste, senhor, buscar.

DIZ O ERMITÃO

—A gran’ pressa que trazia

Não me deu, senhor, logar

De conhecer nem fallar

A vossa gran’ senhoria.

N’este êrro se ha culpa,

Peço-lhe d’ella perdão,

Ainda que a discrição

Sua me dará desculpa.

FALLA O MARQUEZ

—Rogae a Deus, padre honrado,

Que me queira dar paciencia;

Que o perdão é escusado,

Porque vossa diligencia

Vos não deixa ser culpado.

DIZ O ERMITÃO

—O filho de Deus enviado

Vos mande consolação!

E pois que aqui sou chegado,

Quero ouvir de confissão

Este ferido e angustiado.

Coisa é mui natural

A morte a toda a pessoa,

A todo o mundo em geral,

Poisque a nenhum perdoa.

Não a tenhamos por mais.

Porque o peccado de Adão

Foi tam fero e de tal sorte,

Que não só foi perdição:

Mas Deus, que é salvação,

Quiz tambem receber morte.

E por tanto, filho meu,

Não se deve de espantar

Da morte que Deus lhe deu;

Pois em provimento seu

Lh’a deu para o salvar

Lembre-lhe sua paixão:

Veja este mundo coitado,

E não o ingode o malvado,

Que não dá por galardão

Senão tristeza e cuidado.

Em quanto, filho, tem vida,

Chame a Madre de Deus,

Aquella que foi nascida

Sem peccado concebida,

E coroada nos ceos.

Ésta foi santificada

E visitada dos anjos,

E em corpo e alma levada

Á gloria, onde exaltada

Lá está sobre os archanjos.

Assim, que ao Redemptor

E a ésta Virgem sem par

Se hade, filho, incommendar

Depois que aos sanctos for

Sua vontade chamar.

As mãos levante aos ceus,

Faça confissão geral,

Confessando-se a Deus

E á Virgem celestial

E a todos os sanctos seus.

DIZ O MARQUEZ

—Oh bonancia abhorrecida,

Oh desestrada fortuna,

De prazeres gran’ tribuna!

Porque não desemparais

A quem sois tam importuna?

Tristeza, desconfiança,

Porque não desesperais

A quem não tem confiança?

Contae-me, pagem Burlor,

O caso como passou,

Quem foi aquelle traidor

Que mattou vosso senhor,

Ou por que causa o matou

FALLA O PAGEM

—Seria mui mal contado

Se a sua gran’ senhoria

Não contasse o que é passado.

Eu sei certo que faria

O que não é esperado

Contra quem me deu estado,

E ha feito tantas mercês

Que nunca meu pae me fez:

Que é meu senhor amado,

E mais vós, senhor marquez.

Estando pois em Paris

O filho do imperador,

Mandou chamar meu senhor

Nos passos da imperatriz:

Fallaram muito a sabor;

O que fallaram não sei,

Se não que logo n’essa hora,

E sem fazer mais demora,

Com quatro detraz de si

Foram da cidade fóra,

Armados secretamente,

Segundo depois ouvi.

Partimos todos d’ahi,

E Dom Carloto presente

Tambem armado outrosi.

E tanto que aqui chegaram,

N’este valle de pezar

Todos juntos se apearam

E fizeram-me ficar

C’os cavallos que deixaram.

E logo todos entraram

Em este esquivo logar,

Onde meu senhor mattaram,

E depois de o mattar,

Nos cavallos se tornaram.

Como eu os vi tornar,

Sentindo muito tal dor,

Temendo de lhe fallar,

Não ousei de perguntar

Onde estava meu senhor.

Vendo-os assim caminhar,

Porque nenhum me fallava,

Quiz a meu senhor buscar,

Porque o coração me dava

Sobresaltos de pezar.

Não o podia topar

Porque a grande espessura

E a noite medrosa, escura

Me fazia não o achar:

De que tinha gran’ tristura.

Buscando-o com gran’ paixão,

N’aquelle lugar remoto

O achei d’esta feição.

Disse-me como á traição

O mattára Dom Carloto.

Perguntei porque razão:

Triste, cheio de agonias,

Disse-me com afflicção:

—‘Vai-me buscar confissão,

Ja se acabaram meus dias.’

Como taes novas ouvi,

Com grande tribulação

E pezar de vê-lo assi,

Me parti logo d’aqui

A buscar este ermitão.

Isto é, senhor, o que sei

D’este caso desastrado,

Quanto me ha perguntado:

Outra coisa não direi

Mais do que lhei contado.

DIZ O MARQUEZ

—Quando sua majestade

Justiça me não fizer

Com toda a rogaridade.

Á força de meu podêr

Cumprirei minha vontade.

DIZ O ERMITÃO

—Ja o senhor se ha confessado,

E fez actos de christão;

Morre com tal contricção,

Que eu estou maravilhado

De sua gran’ discrição.

Muito não póde tardar,

Segundo n’elle senti.

Acabei de lhe fallar

Porque lhe quero rezar

Os psalmos d’elrei David.

FALLA VALDEVINOS

—Não tomeis, tio, pezar,

Que me parto de vos ver

Para nunca mais tornar,

Pois Deus me manda chamar

E não posso mais fazer.

Torno-vos a incommendar

Minha espôsa e minha mãe,

Que as queirais consolar

E ambas as amparar,

Poisque não têem mais a quem.

ORAÇÃO DE VALDEVINOS

—Em as tuas mãos, Senhor,

Incommendo meu espirito;

Poisque es Salvador meu,

Meu Deus e meu Redemptor,

Não me falte favor teu:

Pois, Senhor, me redemiste,

Como Deus, que es de verdade,

Senhor de toda a piedade,

Lembra-te d’esta alma triste

Cheia de toda a maldade.

Salve, Senhora benigna,

Madre de misericordia,

Pas de nossa gran’ discordia,

Dos peccadores mezinha,

Vida doce e concordia,

Spes nostra, a ti invocamos,

Salva-nos da escura treva.

A ti, Senhora, chamamos

Desterrados filhos de Eva,

A ti virgem, suspiramos,

A ti gemendo e chorando

Em aqueste lagrymoso

Valle sem nenhum repouso,

Sempre, Virge’, a ti chamamos,

Que es nosso prazer e gôso.

Ora pois, nossa advogada,

Amparo da christandade,

Volve os olhos de piedade

A mim, Virgem consagrada,

Poisque es nossa liberdade.

Dá-me, Senhora, virtude

Contra todos meus imigos;

Poisque es nossa saúde,

Eu te rogo que me ajudes

Nos temores e perigos:

Roga tu por mim, Senhora,

Oh Sancta Madre de Deus,

A quem a minha alma adora,

Pois es rainha dos ceus

E dos anjos superiora.

Aqui expira Valdevinos e

DIZ O MARQUEZ

—Oh triste velho coitado,

Oh cans cheias de tristura!

Oh doloroso cuidado,

Oh cuidado sem ventura,

Sem ventura desestrado!

Quebrem-se minhas intranhas,

Rompa-se meu coração

Com minha tribulação.

Chorem todas as campinas

Minha grande perdição,

Scureça-se o sol com dó,

Caiam estrellas do ceu,

As trévas de Faraó

Venham ja sôbre mim só.

Pois minha luz se perdeu

Na luz de mui claro dia,

Claridade sem clareza,

Minha doce companhia,

Onde está vossa alegria,

Que me deixa tal tristeza?

Oh velhice desestrada,

Sem gloria e sem prazer,

Para que me deixais ser,

Pois que sendo, não sou nada,

Nem desejo de viver?

Porque não vens, padecer,

Porque não vindes, tormentos,

Paraque são soffrimentos

A quem os não quer ja ter,

Nem busca contentamentos?

Paraque quero razão,

Paraque quero prudencia,

Nem saber, nem discrição?

Paraque é paciencia,

Pois perdi consolação?

DIZ O PAGEM

—Oh meu senhor muito amado,

Porque vos tornastes pó?

Porque me deixastes só

Em este mundo coitado

Com tanta tristeza e dó?

Leváreis-me em companhia,

Pois sempre vos tive, vivo.

Oh minha grande alegria,

Porque me deixais captivo,

Mettido em tanta agonia?

Meu senhor, minha alegria,

Dizei, porque nos deixais

Com tanta pena notoria?

Lembrai-vos, tende memoria

De quantos desemparais.

Oh sem ventura Burlor!

De quem serás amparado,

De quem terás o favor

Que tinhas de teu senhor,

Poisque ja te ha faltado?

FALLA O ERMITÃO

—Não tomeis, filho, pezar,

Pois claramente sabeis

Que pelo muito chorar

Não cobrais o que perdeis.

Deveis, filho, de cuidar

Que nossa vida é um vento

Tam ligeiro de passar,

Que passa em um momento

Por nós assim como o ar.

Quem viu o senhor infante,

Tam pouco ha, fazer guerra,

E ser n’ella tam possante,

E agora em um instante

Se tornado escura terra,

Diria com gran’ razão

Que este mundo coitado

Não dá outro galardão,

Senão tristeza e paixão,

Com a vós outros foi dado.

Olhae a elrei Salomão

O galardão que deu;

A Amon e Absalão,

E ao valente Sansão,

E ao forte Macabeu.

Em a Sacra Escritura

Muitos mais podia achar

Se os quizesse contar;

Mas vossa grande cordura

Supprirá donde faltar.

E poisque não tem ja cura

O mal feito e o passado,

Cesse a vossa tristura,

E demos á sepultura

Este corpo ja finado.

Levemo-lo onde convêm

Para que seja interrado;

E póde bem ser guardado

N’aquella ermida que vêem

Até ser imbalsemado.

Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, e

DIZ O IMPERADOR

—Certo, conde Ganalão,

Muito gran’ perda perdemos.

Péza-me no coração,

Porque na côrte não temos

Reinaldos de Montalvão,

Nem o conde Dom Roldão,

Nem o marquez Oliveiros,

Nem o duque de Milão,

Nem o infante Gaifeiros,

Nem o forte Meredião.

DIZ GANALÃO

—Muito alto imperador,

Muito estou maravilhado

Porque mostrais tal favor

A quem vos ha deshonrado

Com tanta íra e rigor,

Que, chamando-se Almansor;

Com o seu rosto mudado

Aquelle falso traidor

Com mui grande deshonor

Quiz deshonrar vosso estado:

Porquê, senhor, não sentis

Que este malvado ladrão

Vos prendeu de sua mão

Tomando-vos a Paris

Com muito grande traição?

Pondo-vos em Montalvão

Apezar do vosso imperio,

Onde com gran’ vituperio

Estivestes em prizão,

Sem ter nenhum refrigerio?

FALLA O IMPERADOR

—Verdade é isso, cunhado:

Porêm deveis de saber

Que em Reinaldos me prender

Eu mesmo sou o culpado:

Isto bem o podeis crer.

Se então me quiz offender

Não é muita maravilha,

Pois ja me quiz guarnecer

Mattando elrei Carmeser,

Que me trouxe a sua filha.

DIZ GANALÃO

—Vossa real majestade

Dirá tudo o que quizer,

Mas eu espero a Beltrão...

Que se conheça a maldade

De quem se hade conhecer.

Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: e

DIZ BELTRÃO

—Gran’ Cesar Octaviano,

Magno, augusto, forte rei,

Grande imperador romano,

Amparo da nossa lei,

Poderosa majestade,

Senhor de toda a Magança,

Da Gascunha e da França,

Gran’ patrão da christandade,

Esteio de segurança!

Pois sois senhor dos senhores,

Imperador dos christãos,

Somos vossos servidores,

Amigos leaes e sãos.

DIZ O IMPERADOR

—Eu me espanto, Dom Beltrão,

De vos ver d’aquella sorte,

E a vós, forte duque Amão:

Não é ésta disposição

E trajo da nossa côrte.

FALLA O DUQUE

—Muito mais será espantado

De nossa triste embaixada,

E do caso desestrado

O qual lhe será contado,

Se seguro nos é dado.

DIZ O IMPERADOR

—Bem o podeis explicar

Sem ter medo nem temor.

Para que é assegurar?

Pois sabeis que o embaixador

Tem licença de fallar.

DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA

—Quiz, senhor, nossa mofina

Que o infante Valdevinos,

Primo do forte Guarinos,

Filho da linda Hermelinda

E do grande rei Salinos,

Fôsse morto á traição

Na floresta sem ventura.

A tam grande desventura

Haverá quem não procure

De vingar tal perdição?

FALLA O IMPERADOR

—É certa tam gran’ maldade,

Que o sobrinho do marquez

É morto, como dizeis?

DIZ O DUQUE

—Pela maior falsidade

Que nunca ninguem tal fez.

DIZ O IMPERADOR

—Este caso é desestrado:

Saibamos como passou

E quem tam mau feito obrou:

Que o que tal senhor mattou,

Merece bem castigado.

FALLA O DUQUE

—Saiba vossa majestade

Que dez dias póde haver

Que o marquez foi á cidade

De Mantua com gran’ vontade

Á caça que sohe fazer.

Andando assim a caçar,

Da companhia perdido

Foi por ventura topar

Com seu sobrinho ferido

Quasi a ponto de expirar.

Bem póde considerar

O gran’ pezar que teria

De se ver sem companhia,

E a morrer em tal logar

A coisa que mais queria.

Perguntando a razão,

Sendo d’ella mui ignoto,

Disse com grande paixão

Que o mattára á traição

Vosso filho Dom Carloto.

A causa que o moveu

Dar morte tam dolorosa

A tam grande amigo seu,

Não foi outra, senhor meu,

Salvo tomar-lhe a espôsa.

Mattou-o á falsa fe,

Indo muito bem armado,

Com quatro homens de pé.

Quem matta tam sem porquê

Merece bem castigado.

O marquez Danes Ogeiro

Lhe manda pedir, senhor,

Justiça mui por inteiro:

Que ainda que perca herdeiro,

Elle perde successor.

DIZ DOM BELTRÃO

—Não deve deixar passar

Tam gran’ mal sem o prover,

Porque deve de cuidar

Se seu filho nos mattar,

Quem nos deve defender?

E mais lhe faço saber

Porque esteja apparelhado,

Se justiça não fizer,

Que o marquez tem jurado

De por armas a fazer.

O mui valente e temido

Reinaldo de Montalvão

Entre todos escolhido

Está bem apercebido

Como geral capitão.

Dom Chrisão e Aguilante

Com o forte Dom Guarinos,

E o valente Montesinos,

Primo do morto infante,

Primo de elrei Dom Salinos,

E o mui grande rei Jaião,

De Dom Reinaldos cunhado,

E o esforçado Dudão,

E o gran’ duque de Milão,

E Dom Richarte esforçado,

O marquez Dom Oliveiros,

E o famoso Durandarte,

E o infante Dom Gaifeiros,

E o mui forte Ricardo,

E outros fortes cavalheiros,

Todos têem boa vontade

De ajudar ao marquez

Em essa necessidade;

Porque foi gran’ crueldade

A que vosso filho fez.

Evitae, senhor, tal damno,

Pois que sois juiz sem par;

Não vos mostreis inhumano,

Acordae-vos de Trajano

Em a justiça guardar.

Assim que, alto, esclarecido,

Poderoso sem egual,

O que fez tam grande mal

Bem merece ser punido

Por seu mandado imperial.

E pois, senhor, hei proposto

A causa porque viemos,

E sabeis o que queremos,

Mandae-nos dar a resposta

Com que ao marquez tornemos.

DIZ O IMPERADOR

—Oh poderoso Senhor,

Que grande é o vosso mysterio!

Pois para meu vituperio

Me deste tal successor

Que deshonrasse este imperio.

Se o que dizeis é verdade,

Como creio que será,

Nunca rei na christandade

Fez tam grande crueldade

Como por mim se verá.

Por minha coroa juro

De cumprir e de mandar

Tudo que digo e procuro.

Ao marquez podeis dizer

Que elle póde vir seguro,

E todos quantos tiver,

Venham de guerra ou de paz,

Assim como elle quiser.

E pois que justiça quer,

Com ella muito me praz.

ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ

—Bem sei que com gran’ paixão

Está vossa majestade

Pela falsa informação

Que de mim, contra razão;

Deram com gran’ falsidade;

Porque um filho de tal home

E tão grande geração

Não deve sujar seu nome

Em caso tal de traição.

Por vida de minha madre,

Que se tam gran’ deshonor

Não castigar com rigor,

Que me será cruel padre,

Não direito julgador.

DIZ O IMPERADOR

—Não vos queirais desculpar

Pois que tendes tanta culpa,

Que se o mundo vos desculpa,

Não vos heide eu desculpar.

E portanto mando logo

Que estejais posto a recado,

Até ser determinado,

Por conselho do meu povo,

Se sois livre ou condemnado.

Mando que sejais levado

Á minha gran’ fortaleza,

E que lá sejais guardado

De cem homens do estado,

Até saber a certeza.

FALLA DOM CARLOTO

—E como, senhor, não quer

Vossa real majestade

Saber primeiro a verdade,

Senão mandar-me prender

Por tam grande falsidade?

DIZ O IMPERADOR

—Não vos quero mais ouvir.

Levem-no logo á prizão

Onde eu o mando ir;

Porque tam grande traição

Não é para consentir.

Vós outros podeis tornar,

E contar-lhe o que é passado

A quem vos cá quiz mandar;

Que o seguro que lhe hei dado,

Eu o torno a affirmar.

AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ

—Eu muito me maravilho

De vossa grande bondade:

Que sem razão nem verdade

Trattais assim vosso filho

Com tam grande crueldade.

Olhe vossa majestade

Que é herdeiro principal,

E que toda a christandade

Lh’o hade ter muito a mal.

DIZ O IMPERADOR

—A mim, senhora, convem

Ser contra toda a traição:

E se vosso filho a tem,

Castiga-lo-hei muito bem:

E essa é minha tenção.

E mais eu vos certifico

Que com direito e rigor

Heide castigar o iniquo,

Ora seja pobre ou ricco,

Ou servo ou gran’ senhor.

FALLA A IMPERATRIZ

—Como quer vossa grandeza

Infamar o nosso estado

Sem causa, com tal crueza?

DIZ O IMPERADOR

—Quem me cá mandou recado

Não foi senão com certeza.

DIZ A IMPERATRIZ

—Por tal recado, senhor,

Quereis trattar de tal sorte

Vosso filho e successor,

Que depois de vossa morte

Hade ser imperador?

FALLA O IMPERADOR

Em eu o mandar prender

Não cuideis que o maltratto.

Mas se elle o merecer,

Eu espero de fazer

A justiça do Troquato;

Porque pae tam poderoso,

Sendo de tantos caudilho,

Senão for tam rigoroso,

Nem elle será bom filho,

Nem será rei justiçoso.

Que agora, mal peccado!

Nenhum rei nem julgador

Faz justiça do maior;

Mas antes é desprezado

O pequeno com rigor.

Todo o mundo é affeição;

Julgam com rara remissa

O nobre que, sem razão

Alguma, tem opinião

lhe tocar a justiça...

Que conta posso eu dar

Ao Senhor dos altos ceos,

Se a meu filho não julgar

Como outro qualquer dos meus?

Assim que escusado é

Buscar este intercessor;

Porque Deos de Nazaré

Não me fez tam gran’ senhor

Para minha alma perder.

DIZ A IMPERATRIZ

Ai triste de mim coitada!

Para que quero viver,

Poisque sempre heide ser

Do meu filho tam penada

Como uma triste mulher?

Pois tão triste heide ser

Por meu filho muito amado,

Nunca tomarei prazer,

Senão tristeza e cuidado.

DIZ O IMPERADOR

—Não façais tantos extremos,

Pois dizeis que tem desculpa,

Que antes que sentença dêmos.

Primeiro todos veremos

Se tem culpa ou não tem culpa.

Mostrae maior soffrimento,

Que o caso é desestrado;

E i-vos a vosso aposento,

Que elle não será culpado.

Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, e

DIZ A MÃE

—Oh coração lastimado,

Mais triste que a noite escura!

Oh dolorosa tristura,

Cuidado desesperado

E fortunosa ventura!

Oh vida da minha vida,

Alma d’este corpo meu!

Oh desditosa perdida,

Oh sem ventura nascida,

A mais que nunca nasceu!

Oh filho meu muito amado,

Minha doce companhia,

Meu prazer, minha alegria,

Minha tristeza e cuidado,

Minha sab’rosa lembrança,

Que serei eu sem vos ver?

Filho da minha alegria,

Oh meu descanço e prazer,

Porque me deixais viver

Vida com tanta agonia?

Adonde vos acharei,

Consôlo de meu pezar?

Onde vos irei buscar,

Poisque perdido vos hei

Para jamais vos cobrar?

Filho d’esta alma mesquinha,

Dos meus olhos claridade,

Onde estais, minha mezinha.

Filho de minha saudade,

Meu prazer e vida minha?

DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA

—Que é de vós, meu coração,

Que é da minha liberdade,

Espelho da christandade,

Quem vos mattou sem razão

Com tão grande crueldade?

Quem vos apartou de mim,

Meu querido e meu espôso?

Oh meu prazer saudoso,

Porque me deixais assim

Com cuidado mui penoso?

Oh minha triste saudade,

Oh meu espôso e senhor,

Minha alegria e vontade,

Escudo da christandade,

Das tristes consolador!

Que farei pobre coitada,

Mais que nenhuma nascida?

Miseravel, angustiada,

Para que quero ter vida,

Pois minha alma é apartada?

Oh fortuna variavel,

Triste, cruel, mattadora,

De prazeres roubadora,

Inimiga perduravel,

Matta-me se que’s agora.

DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR

—Se vossa gran’ majestade

Não der castigo direito

A quem tanto mal ha feito,

Nem sustentar a verdade,

Não será juiz perfeito.

Não olhe vossa grandeza

Sua madre dolorosa,

Nem sua tanta tristeza;

Mas olhe tam gran’ princeza

Com ésta sua espôsa.

FALLA O IMPERADOR

—Faz-me tanto intristecer

Este tam gran’ vituperio,

Que mais quizera perder

Junctamente meu imperio,

Que tal meu filho fazer.

Mas se a verdade assim é,

Como ja sou informado,

Que tal castigo lhe dê

Que seja bem castigado.

DIZ SYBILA

—Seja justiça guardada

A ésta orphã sem marido.

Viuva desamparada,

Tam triste e desconsolada

Mais que quantas têem nascido.

Olhae, senhor, tam gran’ mal

Como vosso filho, ha feito,

E não queirais ter respeito

Ao amor paternal,

Poisque não é por direito.

FALLA O IMPERADOR

—Senhora, não duvideis,

Que eu farei o que hei jurado,

Se é verdade o que dizeis,

Porque cumpre a meu estado

De fazer o que quereis:

Que mais quero ter commigo

Fama de regoridade,

Que deixar de ter castigo,

Quem commetteu tal maldade.

Para que é ser caudilho

De tanto povo e tam grado,

E imperador chamado,

Se não julgasse meu filho

Como qualquer estragado?

Não cuidem duques nem reis

Que, por meu herdeiro ser,

Que por isso hade viver:

Que aquelle que faz as leis

É obrigado a as manter.

Assim que, por bem querer,

Amizade nem respeito,

Como agora sohem fazer,

Não heide negar direito

A quem direito tiver.

E bem vos podeis tornar,

Fazei certo o que dissestes

E não tomeis tal pezar,

Porque o bem que ja perdestes

Não o cobrais com chorar.

DIZ HERMELINDA

—Senhor, nós outras nos pomos

Em mãos da vossa grandeza:

Olhae bem, senhor, quem somos,

E de que linhagem fomos,

Pois Deus nos deu tal nobreza.

DIZ SYBILA

—Olhae os serviços dinos

Que tanto tempo vos fez

Meu espôso Valdevinos,

Tambem seu tio marquez,

E como foram continos.

Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, e

DIZ REINALDOS DE MONTALVÃO

—O summo rei dos senhores,

Que morreu crucificado

Em podêr dos pharizeos,

Accrescente vosso estado

E vos livre de traidores.

FALLA O IMPERADOR

—Mui valente e esforçado

Reinaldos de Montalvão,

Vós sejais tam bem chegado

Como a sombra no verão.

Muito estou maravilhado,

Invencivel e mui forte,

De ver-vos assim armado,

Sabendo que em minha côrte

Nunca fostes maltratado.

FALLA REINALDOS

—Senhor, não seja espantado

De ver-me assim d’esta sorte,

Porque com todo o cuidado

Ganalão, vosso cunhado,

Sempre me procura a morte.

Bem sabeis que sem razão,

Com vontade mui maligna

Fez mattar com gran’ traição

A Tiranes e Erocina,

E ao feito Salião,

E a mim ja quiz mattar

Muitas vezes com maldade;

E para mais me danar,

Fez á sua majestade

Mil vezes me desterrar.

O grande mal que me quer

De todo o mundo é sabido,

E por isso quiz trazer

Armas para offender,

Antes que ser offendido.

Mas deixando isto assim

Guardado p’ra seu logar,

Onde se hade vingar,

Vos quero, senhor, contar.

Notorio a todo o christão

É o pezar lastimoso

Do marquez Danes Ogeiro,

Que tem, com justa razão,

Pela morte do herdeiro.

N’esta nobre côrte estão

Muitos mui nobres senhores

Que sabem que Dom Beltrão

E o nobre duque Amão

Foram seus embaixadores:

Tambem este é sabedor

Das respostas que lhe destes,

E mais de como prendestes

Vosso filho successor.

Do qual está mui contente

De te-lo pôsto em prizão;

E tem mui grande razão,

Porque na carta presente,

A qual fez de sua mão,

Confessa toda a traição.

E um pagem a levava

Para o conde Dom Roldão,

Que na cidade de Boava

Faz a sua habitação.

E como não ha falsia

Que se possa esconder,

Tinha o marquez espia,

Porque queria saber

O que Dom Roldão faria.

Esse pagem imbuçado,

Sem suspeita e sem revez,

Ia mui determinado:

Onde logo foi tomado

E levado ao marquez.

Lendo a carta Dom Guarinos,

N’ella contava a tenção

Porque o mattára á traição.

Isto é, senhor, a verdade,

E o que vos manda dizer:

Se o que digo é falsidade,

(Que por isso a quiz trazer)

A lettra é bom conhecer,

Que é este o seu signal.

Pois, quem fez tam grande mal

Bem merece padecer

Morte justa corporal.

DIZ O IMPERADOR

Se tal a carta disser,

Não se ha mister mais provar,

Nem mais certeza fazer,

Senão logo executar

A pena que merecer.

E portanto, sem deter,

Lea-se publicamente

Ante ésta nobre gente;

Porque todos possam ver

Vossa verdade evidente.

CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃO

Caudilho de gran’ podêr,

Capitão da christandade,

Ésta vos quiz escrever,

Para vos fazer saber

Minha gran’ necessidade.

Porque o verdadeiro amigo

Hade ser no coração,

Assim como fiel irmão,

E não nade temer p’rigo

Por salvar quem tem razão.

Porque sabereis, senhor,

Que me sinto mui culpado,

Como quem foi mattador;

E temo ser condemnado

De meu padre imperador.

Eu confesso que pequei,

Pois com vontade damnosa

A Valdevinos mattei.

Amor me fez com que errei,

E o primor de sua esposa.

O imperador, meu padre,

Me mandou prêso guardar,

E nunca quiz attentar,

Os rogos de minha madre.

A ninguem quer escutar,

E o marquez tem jurado

De não vestir nem calçar,

Nem entrar em povoado,

Até me ver justiçar.

Tenho por accusadores,

Reinaldos de Montalvão,

E seu padre o duque Amão

E muitos grandes senhores;

O gran’ duque de Milão

Com o forte Montesinos,

Que é primo de Valdevinos.

Assim que todos me são

Accusadores continuos.

Pois tantos contra mim são,

Eu vos rogo, como amigo,

Que vós queirais ser commigo;

Porque, tendo Dom Roldão,

Não temo nenhum perigo.

DIZ O IMPERADOR

Antes que algum mal cresça,

Façamos o que devemos.

Pois o signal conhecemos,

E pois vemos que confessa,

De mais próva não curemos,

Nem vós façais mais detença.

E, pois ja tendes licença,

Podeis dizer ao marquez

Que venha ouvir a sentença.

Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó,

DIZ O IMPERADOR

Senhora, ja não dirão

Que fui eu mal informado,

Nem que o prendo sem razão,

Pois por sua confissão

Vosso filho é condemnado.

Vêdes a carta presente,

Que foi feita da sua mão

Para o conde Dom Roldão:

A qual muito largamente

Declara toda a traição.

DIZ A IMPERATRIZ

Eu muito me maravilho

Do que, senhor, me ha contado;

Mas, pois elle ha confessado,

Melhor é morrer o filho

Que deshonrar o estado.

Mas a dor do coração

Sempre me hade ficar...

Peço-lhe com affeição

Que lhe busque salvação

E que o queira escutar.

DIZ O IMPERADOR

Melhor é que o successor

Padeça morte sentida,

Que ficar o pae traidor:

Que será trocar honor,

Pela deshonra nascida.

Tambem eu padeço dor,

Tambem eu sinto paixão,

Tambem eu lhe tenho amor...

Mas antes quero razão,

Que amizade sem favor.

DIZ A IMPERATRIZ

Poisque não póde escapar,

Eu não consinto nem quero

Que vós o hajais de julgar,

Porque vos podem chamar

Muito mais peior que Nero.

DIZ O IMPERADOR

Não vivais em tal ingano,

Que tambem foram caudilhos

O gran’ Trocato, o Trajano;

E quizeram, com gran’ damno,

Ambos justiçar seus filhos.

Pois que menos farei eu,

Tendo tam grande estado?

Quem é com razão culpado

Em maior caso que o seu?

E portanto eu vos rogo

Que não tomeis tal pezar,

Porque com vos enojar

Dá-se gran’ tristeza ao povo.

DIZ A IMPERATRIZ

Eu cumprirei seu mandado,

Porque vejo que é razão;

Mas sempre meu coração

Terá tristeza e cuidado

E grande tribulação.

Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, e

DIZ O MARQUEZ

Bem parece, alto senhor,

Que vos fez Deus sem segundo,

E de todos superior,

Dos maiores o melhor,

Rei e monarcha do mundo.

Porque vós, senhor, sois tal,

Que com razão e verdade

Sustentais a christandade

Em justiça universal.

A qual para salvação

Vos é muito necessaria,

Porque convem ao christão

Que use mais de razão

Que de affeição voluntaria:

Como faz vossa grandeza

Com seu filho successor.

Assim que, digo, senhor,

Que estima mais a nobreza

Que amizade nem favor.

FALLA O IMPERADOR

Não curemos de fallar

Em coisa tam conhecida;

Porque n’esta breve vida

Havemos de procurar

Pela eterna e comprida.

Para sentir gran’ pezar

Vós tendes razão infinda,

E tambem de vos vingar,

Pois foi justa vossa vinda.

Bem vimos vossa embaixada,

E a causa d’ella proposta

Foi de nós mui bem olhada,

E não menos foi mandada

Mui convencivel resposta.

E vimos vossa tenção,

E soubemos vosso voto,

E vemos tendes razão

Pela grande informação

Do principe Dom Carloto.

E vimos a confissão

De Dom Carloto tambem,

E soubemos a traição,

Como na carta contêm,

Que mandava a Dom Roldão.

De tudo certificado,

Eu condemno a Dom Carloto

Em tudo o que hei mandado.

VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDO

A imperatriz, senhor,

Está tam amortecida

De grande paixão e dor

Que não tem pulso nem cor,

Nem nenhum signal de vida.

Nenhum remedio lhe vem;

Está n’esse padecer

Sem lhe podêrmos valer:

E, segundo d’ella cremos,

Mui pouco hade viver.

DIZ O IMPERADOR

Eu muito me maravilho

De sua gran’ discrição;

Mais sinto sua paixão,

Que a morte de meu filho...

Não te quero mais dizer,

Quero-a ir consolar,

Pois tanto lhe faz mister.

Não sei porque é enojar

Por se justiça fazer!

Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, e

DIZ REINALDOS

Jagora, senhor marquez,

Vos podeis chamar vingado,

Porque assás é castigado

O que tanto mal vos fez,

Poisque morreu degollado.

Fazei por vos alegrar,

Dae graças ao Redemptor,

Pois assim vos quiz vingar,

Sem nenhum de nós p’rigar

E com mais vosso valor.


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