XXXVO CEGO

XXXVO CEGO

Ha duas balladas escriptas em dialecto escocez por elrei James V de Escocia, que ambas se parecem muito com ésta. Uma especialmente, ‘The Gaberlunzie man,’ até no metro e nas fórmas exteriores dá bastantes ares da nossa xácara. Começa assim:

The pauky auld carle come ovir the leeWi’ mony good-eens and days to mee,Saying: Goodwife, for zour courtesie,Will ze lodge a silly poor man?[126]

The pauky auld carle come ovir the leeWi’ mony good-eens and days to mee,Saying: Goodwife, for zour courtesie,Will ze lodge a silly poor man?[126]

The pauky auld carle come ovir the leeWi’ mony good-eens and days to mee,Saying: Goodwife, for zour courtesie,Will ze lodge a silly poor man?[126]

The pauky auld carle come ovir the lee

Wi’ mony good-eens and days to mee,

Saying: Goodwife, for zour courtesie,

Will ze lodge a silly poor man?[126]

O rei James, que morreu de trinta e tres annos, em 13 de Dezembro de 1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos de mendigo, de adello, ou quetaes, para andar correndo baixas aventuras pelas aldeas ou pelos bairros escusos das cidades. Cantor de seus proprios feitos, celebrava-os depois em gallantes trovas, a que não falta a graça nem o chiste do genero. A que se intitulaThe Jolly Beggar, e que por licenciosa e fresca de mais, a não admittiu o bispo Percy na sua collecção, talvez tenha ainda mais merito de arte.

OGaberlunzie manda real ballada é porêm todo inteiro oCegoda nossa xácara, menos em certos incidentes que são mais poeticos e mais interessantes na composição portugueza.

Disfarçado em trajos de cego mendigo, um senhor de alta jerarchia fallou de amores a uma donzella de muito inferior nascimento que vivia com sua velha mãe. Por accôrdo, mais ou menos expresso entre os dois amantes, se appresenta este por noite á porta da velha com sua caramunha. A mãe dorme; e Anninhas, que responde ao cego, parece fazê-lo ou com ironia ou em pique de ciumes, e por nenhum modo lhe quer abrir ‘porta ou postigo.’

Põe-se o cego a cantar lamentosamente a soa desgraça; e com a chorada cantilena se abranda ou finge abrandar-se o coração da rapariga. Desperta a mãe para que o venha ouvir; e quando ésta condoida lhe manda dar esmola, o cego recusa, não quer senão que o ponham no caminho que perdeu. É a propria velha, coitada, a que diz á filha que lh’o va insinar. E assim fogem os dois, com a maior tranquilidade com que ainda fugiram amantes.

Note porêm a maestria do nosso poeta popular. A fugitiva sustenta sempre aquella tam perdoavel hypocrisia feminina, último protesto do pudor moribundo. Fiando homericamente na sua roca, vai fingindo guiar o cego, vai parecendo acreditar que não sabe aonde nem a que vai. Senão quando, apparece um tropel de cavalleiros: é a comitiva do nosso rei incuberto, principe ou conde pelo menos. Adeus gaivão de cego, e andrajos de mendigo! A cavallo e trotar largo! Ja o cego vê, ja a donzella sabe onde vai. E com este seu fino e malicioso ditto, conclue a trova:

Um cego me leva, e vejo o caminho!

Um cego me leva, e vejo o caminho!

Um cego me leva, e vejo o caminho!

Um cego me leva, e vejo o caminho!

Tal é o argumento da cantiga portugueza muito mais romanesco do que o das escocezas, pôsto que seja o mesmo o fundo da anecdota.

Não duvido suppor que talvez de Glasgow ou de Aberdeen trouxessem os nossos mareantes ésta historia, e de Vianna ou do Porto se internasse pelo Minho onde ella é mais vulgar. Não lh’o pagariamos so em vinho e frutta aos nossos amigos do norte, porque em mercadorias d’aquelle mesmo genero para lá temos exportado bastante.

A forma métrica é a do romance de Sancta Iria. O texto foi restituido com difficuldade, porque ésta fórma se presta ainda mais á corrupção do que a outra, desafiando o prolifico talento dos nossos trovadores de aldea a bordar seus pretenciosos floripondios sôbre a singela telagarsa do original.

Vão por ementa, appontadas algumas variantes menos absurdas.

—‘Abre a porta, Anna, abre de mansinho[127],Que venho ferido, morto do caminho.’—‘Se vindes ferido, pobre coitadinho!Ireis muito embora por outro caminho.’—‘Ai! abre-me a porta, abre de mansinho,Que tam cego venho, não vejo o caminho.’—Porta nem postigo não abro ao ceguinho,Va-se na má hora pelo mau caminho.’—‘Ai do pobre cego que anda sosinhoCantando e pedindo por esse caminho!’Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho[128]Como canta o cego que perdeu o caminho.’—‘Se elle canta e pede, da-lhe pão e vinho;E o pobre cego que va o seu caminho.’—‘O teu pão não quero, não quero o teu vinho,Quero só que Anninhas[129]me insine o caminho.’—‘Toma a roca, Anna, carrega-a de linho,Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.’—‘Espiou-se a roca, acabou-se o linho,Fique embora o cego, que este é o seu caminho.’—‘Anda mais, Anninhas, mais um bocadinho,Sou um pobre cego, não vejo o caminho.’—Ai! arreda, arreda para este altinho,Que ahi véem cavalleiros por esse caminho.’—‘Se vêem cavalleiros, vêem de vagarinho,Que ha muito me tardam por este caminho.’A cavallaria passou de mansinho...Cego, lo meu cego ja via o caminho[130].Montou-me a cavallo com muito carinho...Um cego me leva... e vejo o caminho!

—‘Abre a porta, Anna, abre de mansinho[127],Que venho ferido, morto do caminho.’—‘Se vindes ferido, pobre coitadinho!Ireis muito embora por outro caminho.’—‘Ai! abre-me a porta, abre de mansinho,Que tam cego venho, não vejo o caminho.’—Porta nem postigo não abro ao ceguinho,Va-se na má hora pelo mau caminho.’—‘Ai do pobre cego que anda sosinhoCantando e pedindo por esse caminho!’Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho[128]Como canta o cego que perdeu o caminho.’—‘Se elle canta e pede, da-lhe pão e vinho;E o pobre cego que va o seu caminho.’—‘O teu pão não quero, não quero o teu vinho,Quero só que Anninhas[129]me insine o caminho.’—‘Toma a roca, Anna, carrega-a de linho,Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.’—‘Espiou-se a roca, acabou-se o linho,Fique embora o cego, que este é o seu caminho.’—‘Anda mais, Anninhas, mais um bocadinho,Sou um pobre cego, não vejo o caminho.’—Ai! arreda, arreda para este altinho,Que ahi véem cavalleiros por esse caminho.’—‘Se vêem cavalleiros, vêem de vagarinho,Que ha muito me tardam por este caminho.’A cavallaria passou de mansinho...Cego, lo meu cego ja via o caminho[130].Montou-me a cavallo com muito carinho...Um cego me leva... e vejo o caminho!

—‘Abre a porta, Anna, abre de mansinho[127],Que venho ferido, morto do caminho.’—‘Se vindes ferido, pobre coitadinho!Ireis muito embora por outro caminho.’—‘Ai! abre-me a porta, abre de mansinho,Que tam cego venho, não vejo o caminho.’—Porta nem postigo não abro ao ceguinho,Va-se na má hora pelo mau caminho.’—‘Ai do pobre cego que anda sosinhoCantando e pedindo por esse caminho!’

—‘Abre a porta, Anna, abre de mansinho[127],

Que venho ferido, morto do caminho.’

—‘Se vindes ferido, pobre coitadinho!

Ireis muito embora por outro caminho.’

—‘Ai! abre-me a porta, abre de mansinho,

Que tam cego venho, não vejo o caminho.’

—Porta nem postigo não abro ao ceguinho,

Va-se na má hora pelo mau caminho.’

—‘Ai do pobre cego que anda sosinho

Cantando e pedindo por esse caminho!’

Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho[128]Como canta o cego que perdeu o caminho.’—‘Se elle canta e pede, da-lhe pão e vinho;E o pobre cego que va o seu caminho.’—‘O teu pão não quero, não quero o teu vinho,Quero só que Anninhas[129]me insine o caminho.’—‘Toma a roca, Anna, carrega-a de linho,Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.’

Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho[128]

Como canta o cego que perdeu o caminho.’

—‘Se elle canta e pede, da-lhe pão e vinho;

E o pobre cego que va o seu caminho.’

—‘O teu pão não quero, não quero o teu vinho,

Quero só que Anninhas[129]me insine o caminho.’

—‘Toma a roca, Anna, carrega-a de linho,

Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.’

—‘Espiou-se a roca, acabou-se o linho,Fique embora o cego, que este é o seu caminho.’—‘Anda mais, Anninhas, mais um bocadinho,Sou um pobre cego, não vejo o caminho.’—Ai! arreda, arreda para este altinho,Que ahi véem cavalleiros por esse caminho.’—‘Se vêem cavalleiros, vêem de vagarinho,Que ha muito me tardam por este caminho.’A cavallaria passou de mansinho...Cego, lo meu cego ja via o caminho[130].Montou-me a cavallo com muito carinho...Um cego me leva... e vejo o caminho!

—‘Espiou-se a roca, acabou-se o linho,

Fique embora o cego, que este é o seu caminho.’

—‘Anda mais, Anninhas, mais um bocadinho,

Sou um pobre cego, não vejo o caminho.’

—Ai! arreda, arreda para este altinho,

Que ahi véem cavalleiros por esse caminho.’

—‘Se vêem cavalleiros, vêem de vagarinho,

Que ha muito me tardam por este caminho.’

A cavallaria passou de mansinho...

Cego, lo meu cego ja via o caminho[130].

Montou-me a cavallo com muito carinho...

Um cego me leva... e vejo o caminho!


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