Qual d'uma vês c'o a xusa quatro enfia.
Mas ja um Foca enorme e gueludo,
De dente anavalhado, unha rompente,
Cujo coiro entezado e verde-negro
Se ria das mais fortes cutiladas,
Um vinheo Capitaõ tragando estava,
Quando o intrepido Andrade irozo acode.
9
Aqui ainda viu do mizeravel
Engolir os restantes calcanhares.
Da vingansa o furor lhe sobe aos olhos,
Avansa ao monstro, e sobre o craneo rijo
Da inimiga cabesa vensedora
Com um buxo roliso (arma cazeira)
Mil golpes fulminando, o quebra, e esmaga.
Tremeu convulso o monstro; e o bruto sprito
Aos ares se soltou envolto em sangue.
Acodem muitos Focas, o Eroi cercaõ.
Os aquozos Soldados trepidantes
De fila cem membrudos cains lhe asulaõ;
E, quais sobre a bigorna os malhos batem,
As dentadas sobre ele a miudo fervem.
Andrade volta a um tempo a todas partes
O braso vingador: destróe, derruba,
Atropela, maxuca, abola, mata.
Mas sendo ja sem conto os inimigos,
Depois de longo espaso de conflito,
Falto de forsas vai beijar a santa.
Aqui (quem crerá tal?) a todo o trance
Com mais de quatro mil inda combate.
Grandemente bufando aflito espuma,
Revolvese, braseja, e o xaõ mordendo
Pasmozos coices enraivado atira.
Forma mil carantonhas formidaveis,
Qual trovaõ rujidor medonho berra.
Das dentadas a orrivel tempestade
Ja quazi o sosobrava; eis dando um pinxo
Em pé se torna a pôr, e a brava xusma.
Em fanicos desfás c'o a masa dura.
Naõ te déraõ da fonte as alimarias,
Valente Palmeirim, tanto trabalho;
Bem que viste o broquel feito em pedasos
C'o as leoninas unhas; bem que o tigre,
Que a mal cortada perna inda arrojava,
Te fes afucinhar c'o a garra ardente.
N'outra banda com obra azafamado
O ferós Damiaõ como um corisco
10
Cae sobre o inimigo: aqui o atacaõ,
Aqui destro acomete, rompe, asola.
Cada pedra que solta he uma granada
Onde vai desfarsada a orrenda morte.
Destrosa seis Delfims mesmo a pé quedo:
Fas rosto a dés varoins dos tais pixozos,
E do primeiro encontro os desbarata.
Xovem nele os pelouros abrazados
Dos áqueos Soldados impelidos,
Como sobre os telhados em Janeiro
A saltante saraiva que Euro impele.
Ante os muros de Pérgamo mais bravo
O filho naõ pugnou da branca Thétis.
Nem eu te calarei, Caetano ilustre,
11
Asombro de valor, peito de Marte.
Tu ali sobre a terra o pé batendo,
Pancraciasta acérrimo, insofrivel
Mais de mil desqueixaste a murro sêco.
Mesmo o Duque Nemé famozo em murros
De deitar-te agua ás maõs capás naõ era.
Mas naõ soprava a pérfida Fortuna
Com ventos de servir á gente aquatil;
E sendo ja sensivel a derrota
Tocar a recolher manda Oceano.
6Vitorino, ou Rino: Aguadeiro de mal semeadas barbas, de gambias escanxadisimas, de gaguês inexplicavel, e de uma paxôrra inata na condusaõ de seus carretos.
7Ao grande largo. Tudo vai das ipotezes.
8O sitio extenso. Repito o cavaco que dei respetivamente ao largo da Feira.
9Andrade. Uma afetada doudice, ou uma continua bebedeira, um tezaõ arrogante, uma catadura tôrva, e uma eterna bandalhise, saõ os caratéres que fazem sempre formidavel este fasanhozo Sapateiro.
10Damiaõ. Ha tres especes de embriaguês; de leaõ, de galo, e de porco. A 1.ª pare os disturbios: a 2.ª as galhofas: a 3.ª o deleixamento. A deste Pedreiro he da 1.ª espese; e conseguintemente funestos os seus efeitos.
11Caetano. He umquidamsexagenario, bebado da 2.ª espese, cujas dezencaixadas xocarrises nos fazem ver, que he um daqueles genios que sempre estaõ de caninha n'agua.
Tanto que a Mãi das trevas taciturna
Desdobrou sobre a terra o manto negro,
C'o a palma da vitoria ufano e alegre
Dar a seus Cabos um convite lauto
Determina o Eroi pantafasudo.
Quem contar as galhofas desta noite
Ouzado poderá com versos dignos?
Foi entaõ quando o lépido Caetano
12
Cambaleando em meio do congréso
Fes com rizo estalar os circumstantes,
Abrindo francamente de seus doutos
Jocozos anexims o aureo tezoiro.
Foi quando o Doutor Rito, sobre os ombros
13
Tendo ums calsoins de riso por capelo,
Ex cáthedra
asentado, sobre pontos
De guerra longas oras disertando,
Escarrou discrisoins, mijou conselhos.
Sobre os bicos dos pés alevantado
Aqui foi que o tacaõ, gárrulo Xaves
14
Lodozo ganso que a Castalia turba,
Batendo as sujas palmas na asembleia
As Muzas invocou, e esta perlenga,
No modo que lhe he proprio, d'improvizo
Recitou com torrente entuziasmado:
Nobilisimos Xefes respeitaveis,
A quem, naõ sem razaõ, Lieu potente
Fes de sua justisa defensores;
Vós outros tendes oje ao mundo dado
Um raro exemplo de virtude eroica.
Nimguem de pôr na cara uma navalha
He mais digno que vós. Oh se os meus labios
Podesem proferir, se a minha lingua
Podefe articular quanto alma sente!
Vós tendes os xibantes destrosado
Com o mesmo valor com que eu destróso
Carangos nos calfoins, e na camiza.
Sim, vós os filhos sois abensoados
Do invicto Basareu que onrais a Patria.
Naõ dezistais da empreza comesada:
Depois do que pasou, ja'gora o resto
Val tanto como escarro de tabaco.
E tu, graõ Jeneral, que o orbe asombras;
Tu, em cuja cabesa mioluda
Minerva, e o loiro Apolo influxos largaõ,
Es digno de rejer um grande Imperio.
O noso amado Rei entre o seu povo
Naõ póde igual ao teu axar um caco
Aonde os seus dezignios se acomodem,
Suas trasas se entend$õ. Os dezastres
Naõ axaõ no teu buxo o estreito aperto,
Que no de um bigorrilhas: o teu buxo
Sem inda rebentar, tres mil dezastres
Calado e sofredor alojar pode,
Porque he muito mais vasto que uma adega.
As tres velhas Irmans doirados dias
Ainda te conservem: muitos anos
Ainda, ainda sejas no teu mando
Franco dispensador destes obzequios.
Asim clamava o Vate, quando atende
Que estava
vox clamantis in deserto
,
Porque em sono os ouvintes sepultados
Resonando a barraca atormentavaõ.
Por tanto pauza fes; uma canéca
Presto escorropixou; e c'os Anginhos
Paresendolhe estar, fes sucia aos outros.
Mas nas tendas a jente estropeada
Ja cuidava em curarse, e refazerse,
Quando um grande alarido ao lonje se ouve.
Alegraõse os vencidos, novas forsas
Nos animos cobrando, porque pensaõ
Ser xegado o soccorro que esperavaõ.
Asim era: Nerêo galhardo, e ovante
Seguido de invenciveis combatentes
Trazia de refresco o Doiro, e Vouga,
Capitains, que a derrota fomentáraõ
Dos dois vinheos Erois de seus destritos.
Dadas as salvas d'uma, e d'outra parte,
Entaõ ele contou como em Aveiro
Antonio do Ministro, Cabo astuto,
15
Soldado veterano, omem temivel,
Forte se lhe opuzera em campo aberto:
Os manhozos ardis que escogitára,
Os xoques que tivera, e seus encontros,
Do noso Vouga, que prezente estava,
Os inclitos servisos referindo.
Depois pasa a contar quanto no Porto
Lhe dera que fazer uma Matrona
16
Do que a Velha de Diu mais guerreira,
Mais fera que as do antigo Thermodonte,
Que deraõ tanto lustre á Capadocia.
E não menos do Doiro ás nuvems alsa
A parte que na asaõ tivera onroza.
Em fim conclúe, dando a ver os modos
Como d'ambos os dois desbaratados
Os olhos entregára ao sono eterno.
Oceano um pouco entaõ mais branda a pena
Da perdida peleja, aos vensedores
Amostrando um Real comprazimento,
Comesou a tratar quanto era justo
Porse por obra na manhan seguinte.
Asentase em tentar novo combate
Jeral, e decizivo. As transas loiras
No vermelho orizonte ao vento dadas
Mal que a Aurora amostrou madrugadora;
Mal que os frajeis fugazes pasarinhos
Com a lus matutina comesaraõ
Nos verdes salgueirais a espenujarse,
Um xirlando, outro em módulos gorjeios
Enxendo de alegria a selva amena,
Tudo se perturbou. Ergue do abismo
A terrifica fronte angui-comada
Outra ves a maldita a negra Guerra.
Salpicadas de sangue as azas bate,
E os longos arraiais tres vezes cérca.
As buzinas, e os pifanos se tocaõ,
Arrusaõ-se os tambores, treme a terra,
E os marinhos pendoins dezenrolados
Vaõ no imperio dos ventos tremulando.
Aprestaõ-se os Soldados vensedores,
E se vaõ encontrar c'os inimigos,
Ums ainda arrotando a ovos xócos
Vaõ enxendo as boxexas, e asoprando;
Outros se queixaõ que a xixelo velho
Muito a boca lhes sabe: em cuja arenga
Entretidos em fim o imigo arróstaõ.
Está'li Santareno altivo, e guapo
Sopezando na dextra a espada injente;
Qual atacada mina que promete
Ruinas vomitar de imensa mole.
De seus olhos pasmado está pendendo
Seu exercito em pezo, aonde espreita,
Como os ventos em grimpa, da batalha
O escondido suseso. A bateria
Entaõ comesa com fragor medonho
Da parte dos Neptunios combatentes.
Foi uma das descargas mais funestas.
Muitos dos mais valentes bebedores
Do saborozo xá das tortas parras
O derradeiro A Deus aos copos deraõ.
Encarnisa-se a jente, ferve a guerra,
Reina a Desolasaõ, a Morte, as Furias.
Apoucando no campo os inimigos
Avia longo tempo que bradava
Para um nobre duelo decizivo
Pelo Padre Oceano, um Serralheiro.
17
Monstro injente, desforme, aspéto orrivel,
A quem bravo, e colérico nas forsas
A um toiro igualára a Natureza.
Eis que ao lonje do Padre entre as falanjes
O brilhante pavês de tartaruga
Orlado c'uma pel' de crocodilo
Os olhos anelantes lhe deslumbra.
Na grande maõ sopeza firme, ufano
Uma lansa fatal de largo ferro;
E brandindo-a valente, rexinando
Despedida a fes ir rompendo os ares.
O golpe resaltou do rijo escudo,
E a ástea espedasada em terra cae.
O Padre embravecido o imigo busca;
O imigo c'um montante se defende
Briozo pelejando: mas o Padre
Por tempo entaõ poupar, de romania
Cerrou com ele, e o esmagou nos brasos.
Do mesmo vensedor ultimos golpes
Contra sua vontade onradamente
Sofreraõ dezasete Sapateiros,
E algums trinta Alfaiates neste dia.
Unidos os d'Embarque denodados
Aqui Górgones eraõ: nada em campo,
Ante seus forsozisimos revézes,
Que folgo respirase, em pé ficava.
Nada menos fazia o Alemtejano,