CANTO V.

Qual d'uma vês c'o a xusa quatro enfia.

Mas ja um Foca enorme e gueludo,

De dente anavalhado, unha rompente,

Cujo coiro entezado e verde-negro

Se ria das mais fortes cutiladas,

Um vinheo Capitaõ tragando estava,

Quando o intrepido Andrade irozo acode.

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Aqui ainda viu do mizeravel

Engolir os restantes calcanhares.

Da vingansa o furor lhe sobe aos olhos,

Avansa ao monstro, e sobre o craneo rijo

Da inimiga cabesa vensedora

Com um buxo roliso (arma cazeira)

Mil golpes fulminando, o quebra, e esmaga.

Tremeu convulso o monstro; e o bruto sprito

Aos ares se soltou envolto em sangue.

Acodem muitos Focas, o Eroi cercaõ.

Os aquozos Soldados trepidantes

De fila cem membrudos cains lhe asulaõ;

E, quais sobre a bigorna os malhos batem,

As dentadas sobre ele a miudo fervem.

Andrade volta a um tempo a todas partes

O braso vingador: destróe, derruba,

Atropela, maxuca, abola, mata.

Mas sendo ja sem conto os inimigos,

Depois de longo espaso de conflito,

Falto de forsas vai beijar a santa.

Aqui (quem crerá tal?) a todo o trance

Com mais de quatro mil inda combate.

Grandemente bufando aflito espuma,

Revolvese, braseja, e o xaõ mordendo

Pasmozos coices enraivado atira.

Forma mil carantonhas formidaveis,

Qual trovaõ rujidor medonho berra.

Das dentadas a orrivel tempestade

Ja quazi o sosobrava; eis dando um pinxo

Em pé se torna a pôr, e a brava xusma.

Em fanicos desfás c'o a masa dura.

Naõ te déraõ da fonte as alimarias,

Valente Palmeirim, tanto trabalho;

Bem que viste o broquel feito em pedasos

C'o as leoninas unhas; bem que o tigre,

Que a mal cortada perna inda arrojava,

Te fes afucinhar c'o a garra ardente.

N'outra banda com obra azafamado

O ferós Damiaõ como um corisco

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Cae sobre o inimigo: aqui o atacaõ,

Aqui destro acomete, rompe, asola.

Cada pedra que solta he uma granada

Onde vai desfarsada a orrenda morte.

Destrosa seis Delfims mesmo a pé quedo:

Fas rosto a dés varoins dos tais pixozos,

E do primeiro encontro os desbarata.

Xovem nele os pelouros abrazados

Dos áqueos Soldados impelidos,

Como sobre os telhados em Janeiro

A saltante saraiva que Euro impele.

Ante os muros de Pérgamo mais bravo

O filho naõ pugnou da branca Thétis.

Nem eu te calarei, Caetano ilustre,

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Asombro de valor, peito de Marte.

Tu ali sobre a terra o pé batendo,

Pancraciasta acérrimo, insofrivel

Mais de mil desqueixaste a murro sêco.

Mesmo o Duque Nemé famozo em murros

De deitar-te agua ás maõs capás naõ era.

Mas naõ soprava a pérfida Fortuna

Com ventos de servir á gente aquatil;

E sendo ja sensivel a derrota

Tocar a recolher manda Oceano.

6Vitorino, ou Rino: Aguadeiro de mal semeadas barbas, de gambias escanxadisimas, de gaguês inexplicavel, e de uma paxôrra inata na condusaõ de seus carretos.

7Ao grande largo. Tudo vai das ipotezes.

8O sitio extenso. Repito o cavaco que dei respetivamente ao largo da Feira.

9Andrade. Uma afetada doudice, ou uma continua bebedeira, um tezaõ arrogante, uma catadura tôrva, e uma eterna bandalhise, saõ os caratéres que fazem sempre formidavel este fasanhozo Sapateiro.

10Damiaõ. Ha tres especes de embriaguês; de leaõ, de galo, e de porco. A 1.ª pare os disturbios: a 2.ª as galhofas: a 3.ª o deleixamento. A deste Pedreiro he da 1.ª espese; e conseguintemente funestos os seus efeitos.

11Caetano. He umquidamsexagenario, bebado da 2.ª espese, cujas dezencaixadas xocarrises nos fazem ver, que he um daqueles genios que sempre estaõ de caninha n'agua.

Tanto que a Mãi das trevas taciturna

Desdobrou sobre a terra o manto negro,

C'o a palma da vitoria ufano e alegre

Dar a seus Cabos um convite lauto

Determina o Eroi pantafasudo.

Quem contar as galhofas desta noite

Ouzado poderá com versos dignos?

Foi entaõ quando o lépido Caetano

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Cambaleando em meio do congréso

Fes com rizo estalar os circumstantes,

Abrindo francamente de seus doutos

Jocozos anexims o aureo tezoiro.

Foi quando o Doutor Rito, sobre os ombros

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Tendo ums calsoins de riso por capelo,

Ex cáthedra

asentado, sobre pontos

De guerra longas oras disertando,

Escarrou discrisoins, mijou conselhos.

Sobre os bicos dos pés alevantado

Aqui foi que o tacaõ, gárrulo Xaves

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Lodozo ganso que a Castalia turba,

Batendo as sujas palmas na asembleia

As Muzas invocou, e esta perlenga,

No modo que lhe he proprio, d'improvizo

Recitou com torrente entuziasmado:

Nobilisimos Xefes respeitaveis,

A quem, naõ sem razaõ, Lieu potente

Fes de sua justisa defensores;

Vós outros tendes oje ao mundo dado

Um raro exemplo de virtude eroica.

Nimguem de pôr na cara uma navalha

He mais digno que vós. Oh se os meus labios

Podesem proferir, se a minha lingua

Podefe articular quanto alma sente!

Vós tendes os xibantes destrosado

Com o mesmo valor com que eu destróso

Carangos nos calfoins, e na camiza.

Sim, vós os filhos sois abensoados

Do invicto Basareu que onrais a Patria.

Naõ dezistais da empreza comesada:

Depois do que pasou, ja'gora o resto

Val tanto como escarro de tabaco.

E tu, graõ Jeneral, que o orbe asombras;

Tu, em cuja cabesa mioluda

Minerva, e o loiro Apolo influxos largaõ,

Es digno de rejer um grande Imperio.

O noso amado Rei entre o seu povo

Naõ póde igual ao teu axar um caco

Aonde os seus dezignios se acomodem,

Suas trasas se entend$õ. Os dezastres

Naõ axaõ no teu buxo o estreito aperto,

Que no de um bigorrilhas: o teu buxo

Sem inda rebentar, tres mil dezastres

Calado e sofredor alojar pode,

Porque he muito mais vasto que uma adega.

As tres velhas Irmans doirados dias

Ainda te conservem: muitos anos

Ainda, ainda sejas no teu mando

Franco dispensador destes obzequios.

Asim clamava o Vate, quando atende

Que estava

vox clamantis in deserto

,

Porque em sono os ouvintes sepultados

Resonando a barraca atormentavaõ.

Por tanto pauza fes; uma canéca

Presto escorropixou; e c'os Anginhos

Paresendolhe estar, fes sucia aos outros.

Mas nas tendas a jente estropeada

Ja cuidava em curarse, e refazerse,

Quando um grande alarido ao lonje se ouve.

Alegraõse os vencidos, novas forsas

Nos animos cobrando, porque pensaõ

Ser xegado o soccorro que esperavaõ.

Asim era: Nerêo galhardo, e ovante

Seguido de invenciveis combatentes

Trazia de refresco o Doiro, e Vouga,

Capitains, que a derrota fomentáraõ

Dos dois vinheos Erois de seus destritos.

Dadas as salvas d'uma, e d'outra parte,

Entaõ ele contou como em Aveiro

Antonio do Ministro, Cabo astuto,

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Soldado veterano, omem temivel,

Forte se lhe opuzera em campo aberto:

Os manhozos ardis que escogitára,

Os xoques que tivera, e seus encontros,

Do noso Vouga, que prezente estava,

Os inclitos servisos referindo.

Depois pasa a contar quanto no Porto

Lhe dera que fazer uma Matrona

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Do que a Velha de Diu mais guerreira,

Mais fera que as do antigo Thermodonte,

Que deraõ tanto lustre á Capadocia.

E não menos do Doiro ás nuvems alsa

A parte que na asaõ tivera onroza.

Em fim conclúe, dando a ver os modos

Como d'ambos os dois desbaratados

Os olhos entregára ao sono eterno.

Oceano um pouco entaõ mais branda a pena

Da perdida peleja, aos vensedores

Amostrando um Real comprazimento,

Comesou a tratar quanto era justo

Porse por obra na manhan seguinte.

Asentase em tentar novo combate

Jeral, e decizivo. As transas loiras

No vermelho orizonte ao vento dadas

Mal que a Aurora amostrou madrugadora;

Mal que os frajeis fugazes pasarinhos

Com a lus matutina comesaraõ

Nos verdes salgueirais a espenujarse,

Um xirlando, outro em módulos gorjeios

Enxendo de alegria a selva amena,

Tudo se perturbou. Ergue do abismo

A terrifica fronte angui-comada

Outra ves a maldita a negra Guerra.

Salpicadas de sangue as azas bate,

E os longos arraiais tres vezes cérca.

As buzinas, e os pifanos se tocaõ,

Arrusaõ-se os tambores, treme a terra,

E os marinhos pendoins dezenrolados

Vaõ no imperio dos ventos tremulando.

Aprestaõ-se os Soldados vensedores,

E se vaõ encontrar c'os inimigos,

Ums ainda arrotando a ovos xócos

Vaõ enxendo as boxexas, e asoprando;

Outros se queixaõ que a xixelo velho

Muito a boca lhes sabe: em cuja arenga

Entretidos em fim o imigo arróstaõ.

Está'li Santareno altivo, e guapo

Sopezando na dextra a espada injente;

Qual atacada mina que promete

Ruinas vomitar de imensa mole.

De seus olhos pasmado está pendendo

Seu exercito em pezo, aonde espreita,

Como os ventos em grimpa, da batalha

O escondido suseso. A bateria

Entaõ comesa com fragor medonho

Da parte dos Neptunios combatentes.

Foi uma das descargas mais funestas.

Muitos dos mais valentes bebedores

Do saborozo xá das tortas parras

O derradeiro A Deus aos copos deraõ.

Encarnisa-se a jente, ferve a guerra,

Reina a Desolasaõ, a Morte, as Furias.

Apoucando no campo os inimigos

Avia longo tempo que bradava

Para um nobre duelo decizivo

Pelo Padre Oceano, um Serralheiro.

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Monstro injente, desforme, aspéto orrivel,

A quem bravo, e colérico nas forsas

A um toiro igualára a Natureza.

Eis que ao lonje do Padre entre as falanjes

O brilhante pavês de tartaruga

Orlado c'uma pel' de crocodilo

Os olhos anelantes lhe deslumbra.

Na grande maõ sopeza firme, ufano

Uma lansa fatal de largo ferro;

E brandindo-a valente, rexinando

Despedida a fes ir rompendo os ares.

O golpe resaltou do rijo escudo,

E a ástea espedasada em terra cae.

O Padre embravecido o imigo busca;

O imigo c'um montante se defende

Briozo pelejando: mas o Padre

Por tempo entaõ poupar, de romania

Cerrou com ele, e o esmagou nos brasos.

Do mesmo vensedor ultimos golpes

Contra sua vontade onradamente

Sofreraõ dezasete Sapateiros,

E algums trinta Alfaiates neste dia.

Unidos os d'Embarque denodados

Aqui Górgones eraõ: nada em campo,

Ante seus forsozisimos revézes,

Que folgo respirase, em pé ficava.

Nada menos fazia o Alemtejano,


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