As entranhas do Eroi rujindo estalaõ:
Com orrorozas vascas treme o corpo:
Os brasos se lhe estrixaõ; torce a boca;
Revirados os olhos se lhe vidraõ,
Os dedos fexa, estende as pernas, morre.
Ah barbaro traidor! Que gloria, ou fama
Defeito taõ atrós, de asaõ taõ crua
Pertendes alcansar? Sempre em meus versos,
Se versos os meus versos sempre forem,
Notado tems de ser de vil, de infame.
Morreu o Santareno. As longas azas
Batendo logo a xocalheira Fama
O boato espalhou por toda a parte.
Alvorósase o Povo, corre, inquire,
E cercaõlhe o cadaver. Escumava,
Ainda quente o corpo; e a Morte pálida
Ja lhe tinha das faces desbotado
O vivo vermelhaõ. Ceos! que terrores,
Que frios sustos, que orrorozos pasmos
Esta morte naõ cauza á gente toda!
Eis uma tumba a multidaõ rompendo
Lá o condús em si levando fitos
Os tristes olhos da pasmada jente,
A funsão se desfás, tudo se abala;
E o jeral sentimento nos semblantes
Dos calados Romeiros vem pintado.
Tal se tira lisaõ destes exemplos!
A caza a tumba xega: o povo a porta
Rodeia em turbilhoins: toda a familia
Frenética rebenta em pranto amargo.
Da caza que resoa sem maneira
Fere as aureas estrelas o alarido.
Ja mais aparesêra em nosos dias
De dezordems taõ funebre um teatro!
Mas na Espoza infeliz que alma ferida
Ja tinha desde muito, entaõ se acaba
De cravar o punhal sangui-sedento.
A fala se lhe toma, as cores perde,
Suspira, desfalese, em fim desmaia.
So a linda Sobrinha, linda mesmo
Como Deus a criou, largando as redeas
Da violenta paixaõ que sofreava,
Insana fere as boxexudas faces,
Fórma gritos d'espanto, e as maõs fexando
Uma n'outra, indizivel xoradeira
Fas nestes termos pouco mais ou menos.
Ai Tio da minh'alma! Bem dizía
Bem diziamos nós que naõ saíse!
Que negra romaria nos foi esta!
E que áde ser de mim?... Oh Ceos, eu morro.
Ai de mim! Ja (quem tanto me queria)
Naõ me ouve aqui xorar mesmo ao pe dele!
Ja naõ fala, morreu... Forte desgrasa,
Senhor, forte desgrasa! Quem diria
Que n'um pouco de vinho fose a morte?
Mas ah! que a mim do sonho inda me lembra
Que ele os tempos atrás de noite teve!
Oh mal-aventurado, triste dia!
Nunca tu... E asim continuava
Abrindo, e com furor fexando as portas.
Em tanto a si tornando a Espoza Eroica
O amortalhado corpo apenas pôde
Só ver, e abrasar, porque fexada
Quis dar á sua magua o dezafogo
Que a todos nos ensina a Natureza.
Naõ ouve caõ nem gato a quem deixase
De custar quatro lagrimas tal perda.
Todos, bom Santareno, te xoráraõ:
Nas mesmas sentidisimas adegas
Ainda oje se veem lagrimejando
Os bojudos toneis, as gordas cubas.
Mas que ternura em mim!... Ah! vinde, vinde
Minhas lagrimas ternas, que tributo
Melhor naõ pagareis á sua memoria.
Oh mal aja o primeiro, que das guerras
A praga fes cair no pobre mundo:
Nefanda praga dos mortais verdugo,
Donde veio a dezordem, donde os roubos,
Donde a desolasaõ, a mortandade.
Ditoza Pás, dos Ceos abitadora,
Serena filha da Ventura eterna,
Que os mizeros umanos tanto alegras;
Se fora mais privado o teu imperio,
Se a execranda Discordia naõ ouzára
Entrar com maõ armada os teus limites,
Lansar neles o orror, destronizarte;
Ainda o meu Eroi de glorias xeio
Alegrára vivendo os nosos dias.
Mas naõ susede asim: est'alma nobre
Foi do sosego seu dezaposada
No melhor de seus anos: os trabalhos
Mais as consumisoins, que de rezerva
Dispostos a atacalo andavaõ juntos,
Fizeraõ nele o tiro; e o bem-fazejo,
O braso liberal que no regaso
Da esfaimada Pobreza amplos tezoiros
Franquear costumava viu-se a ponto
De pegar da espada. Mas que forsa
Naõ era a de seu braso? Que grandeza
A de seu corasaõ robusto, e forte?
Ah! e que Átropos cega, e sem acordo
Condene ao mesmo golpe o poltraõ baixo,
E o magnanimo Eroi, que a Patria onra!
Amigos deste Amigo, se inda o zelo
Vos aquese as asoins, eia xoremos,
Naõ sejamos ingratos, indolentes:
O luto se conhesa, banhe as faces
Um saudozo pranto. Quem mais facil
Satisfês algum dia, que este Amigo
As nosas precizoins? Quando caía
Das nuvems gêlo aspérrimo que o sangue
Nas veias encalhava, quando a negra
Mortal Melancolia o peito inerme
Cruel nos abafava, elle benigno
Naõ nos dava o remedio, apenas via
Junto á porta asomar nosos garotos?
A quem mais beneficios, mais louvores
Poderemos dever, telhas abaixo?
Ai de mim, que naõ poso, ó grande Amigo,
Xorar a tua perda incomparavel
Com pranto de ti digno! Oh s'eu podera
Gastar agora umor de Carpideira,
Noite, e dia regára o teu sepulcro.
Tu es digno de lagrimas eternas.
Eroi sempre invensivel, que fizeste
Notar teus aleivozos inimigos,
Se venserte quizeraõ, c'o a infame,
C'o a dezonroza marca de cobardes;
Varaõ constante, que arrostaste os lanses,
Qual aguia majestoza arrosta os ventos.
Arrepele os cabelos sibilantes,
Que a fronte negra esquálida lhe arreiaõ;
Raivoza a lingua morda, dê bramidos
Maiores que trovoins a magra Inveja;
Tu cantado serás: teu nome egregio
Na letárgica veia entre cardumes
De populares deslembrados nomes
Naufragio naõ fará: em pás descansa,
Seja-te leve a terra que te cobre,
De teus osos a pás nimguem perturbe.
Deixese ao Tempo revolver a roda:
Tems sempre de ser celebre no mundo,
Sem que a fama de Heitor te fasa sombra,
Sem á dita de Achiles ter inveja.
FIM.
Pascitur in vivis livor: post fata quiescit,Cum sùus ex merito quemque tuetur honos.Ovid. Am. l. I. E. 15.