Chapter 7

As entranhas do Eroi rujindo estalaõ:

Com orrorozas vascas treme o corpo:

Os brasos se lhe estrixaõ; torce a boca;

Revirados os olhos se lhe vidraõ,

Os dedos fexa, estende as pernas, morre.

Ah barbaro traidor! Que gloria, ou fama

Defeito taõ atrós, de asaõ taõ crua

Pertendes alcansar? Sempre em meus versos,

Se versos os meus versos sempre forem,

Notado tems de ser de vil, de infame.

Morreu o Santareno. As longas azas

Batendo logo a xocalheira Fama

O boato espalhou por toda a parte.

Alvorósase o Povo, corre, inquire,

E cercaõlhe o cadaver. Escumava,

Ainda quente o corpo; e a Morte pálida

Ja lhe tinha das faces desbotado

O vivo vermelhaõ. Ceos! que terrores,

Que frios sustos, que orrorozos pasmos

Esta morte naõ cauza á gente toda!

Eis uma tumba a multidaõ rompendo

Lá o condús em si levando fitos

Os tristes olhos da pasmada jente,

A funsão se desfás, tudo se abala;

E o jeral sentimento nos semblantes

Dos calados Romeiros vem pintado.

Tal se tira lisaõ destes exemplos!

A caza a tumba xega: o povo a porta

Rodeia em turbilhoins: toda a familia

Frenética rebenta em pranto amargo.

Da caza que resoa sem maneira

Fere as aureas estrelas o alarido.

Ja mais aparesêra em nosos dias

De dezordems taõ funebre um teatro!

Mas na Espoza infeliz que alma ferida

Ja tinha desde muito, entaõ se acaba

De cravar o punhal sangui-sedento.

A fala se lhe toma, as cores perde,

Suspira, desfalese, em fim desmaia.

So a linda Sobrinha, linda mesmo

Como Deus a criou, largando as redeas

Da violenta paixaõ que sofreava,

Insana fere as boxexudas faces,

Fórma gritos d'espanto, e as maõs fexando

Uma n'outra, indizivel xoradeira

Fas nestes termos pouco mais ou menos.

Ai Tio da minh'alma! Bem dizía

Bem diziamos nós que naõ saíse!

Que negra romaria nos foi esta!

E que áde ser de mim?... Oh Ceos, eu morro.

Ai de mim! Ja (quem tanto me queria)

Naõ me ouve aqui xorar mesmo ao pe dele!

Ja naõ fala, morreu... Forte desgrasa,

Senhor, forte desgrasa! Quem diria

Que n'um pouco de vinho fose a morte?

Mas ah! que a mim do sonho inda me lembra

Que ele os tempos atrás de noite teve!

Oh mal-aventurado, triste dia!

Nunca tu... E asim continuava

Abrindo, e com furor fexando as portas.

Em tanto a si tornando a Espoza Eroica

O amortalhado corpo apenas pôde

Só ver, e abrasar, porque fexada

Quis dar á sua magua o dezafogo

Que a todos nos ensina a Natureza.

Naõ ouve caõ nem gato a quem deixase

De custar quatro lagrimas tal perda.

Todos, bom Santareno, te xoráraõ:

Nas mesmas sentidisimas adegas

Ainda oje se veem lagrimejando

Os bojudos toneis, as gordas cubas.

Mas que ternura em mim!... Ah! vinde, vinde

Minhas lagrimas ternas, que tributo

Melhor naõ pagareis á sua memoria.

Oh mal aja o primeiro, que das guerras

A praga fes cair no pobre mundo:

Nefanda praga dos mortais verdugo,

Donde veio a dezordem, donde os roubos,

Donde a desolasaõ, a mortandade.

Ditoza Pás, dos Ceos abitadora,

Serena filha da Ventura eterna,

Que os mizeros umanos tanto alegras;

Se fora mais privado o teu imperio,

Se a execranda Discordia naõ ouzára

Entrar com maõ armada os teus limites,

Lansar neles o orror, destronizarte;

Ainda o meu Eroi de glorias xeio

Alegrára vivendo os nosos dias.

Mas naõ susede asim: est'alma nobre

Foi do sosego seu dezaposada

No melhor de seus anos: os trabalhos

Mais as consumisoins, que de rezerva

Dispostos a atacalo andavaõ juntos,

Fizeraõ nele o tiro; e o bem-fazejo,

O braso liberal que no regaso

Da esfaimada Pobreza amplos tezoiros

Franquear costumava viu-se a ponto

De pegar da espada. Mas que forsa

Naõ era a de seu braso? Que grandeza

A de seu corasaõ robusto, e forte?

Ah! e que Átropos cega, e sem acordo

Condene ao mesmo golpe o poltraõ baixo,

E o magnanimo Eroi, que a Patria onra!

Amigos deste Amigo, se inda o zelo

Vos aquese as asoins, eia xoremos,

Naõ sejamos ingratos, indolentes:

O luto se conhesa, banhe as faces

Um saudozo pranto. Quem mais facil

Satisfês algum dia, que este Amigo

As nosas precizoins? Quando caía

Das nuvems gêlo aspérrimo que o sangue

Nas veias encalhava, quando a negra

Mortal Melancolia o peito inerme

Cruel nos abafava, elle benigno

Naõ nos dava o remedio, apenas via

Junto á porta asomar nosos garotos?

A quem mais beneficios, mais louvores

Poderemos dever, telhas abaixo?

Ai de mim, que naõ poso, ó grande Amigo,

Xorar a tua perda incomparavel

Com pranto de ti digno! Oh s'eu podera

Gastar agora umor de Carpideira,

Noite, e dia regára o teu sepulcro.

Tu es digno de lagrimas eternas.

Eroi sempre invensivel, que fizeste

Notar teus aleivozos inimigos,

Se venserte quizeraõ, c'o a infame,

C'o a dezonroza marca de cobardes;

Varaõ constante, que arrostaste os lanses,

Qual aguia majestoza arrosta os ventos.

Arrepele os cabelos sibilantes,

Que a fronte negra esquálida lhe arreiaõ;

Raivoza a lingua morda, dê bramidos

Maiores que trovoins a magra Inveja;

Tu cantado serás: teu nome egregio

Na letárgica veia entre cardumes

De populares deslembrados nomes

Naufragio naõ fará: em pás descansa,

Seja-te leve a terra que te cobre,

De teus osos a pás nimguem perturbe.

Deixese ao Tempo revolver a roda:

Tems sempre de ser celebre no mundo,

Sem que a fama de Heitor te fasa sombra,

Sem á dita de Achiles ter inveja.

FIM.

Pascitur in vivis livor: post fata quiescit,Cum sùus ex merito quemque tuetur honos.Ovid. Am. l. I. E. 15.


Back to IndexNext