III.

«Minha querida amiga.«Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdêl-a no conceito do marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossaprostituição? Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vêr que sua mulher não é melhor que tu: porque tu és livre, e ella é casada. Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.Tua amiga d'alma.»D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria por ellas a reputação de honrada, se a tivesse.Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com indifferença. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que não podia supportar, esforçou-se por chamar a conversação a respeito de mulheres casadas, e avançou a proposição de que não havia uma na primeira roda, que não fosse adultera. O amante protestou colericamente contra o absoluto da proposição. Defendeu sua mulher com ares de Collatino, e exprobrou acremente a maledicencia da insolente.A indignação ferveu: trocaram-se epithetos ultrajantes. D. Thereza foi uma eloquente regateira, e o seu apaixonado repetiu as phrases mais peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza, chegado o momento dramatico, apresentou-lhe as suppostas cartas da esposa.O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado pelo demonio.D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa felicidade em sua vida!...—E depois?III.—Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando o somno de um filhinho, que tinha no berço. Perguntou-lhe o marido o que ella fazia a pé á uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho, não podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para repousarem.O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma carta aberta: «Conhece esta letra, senhora?»—É minha, penso eu—respondeu ella com promptidão.—«Já sabe naturalmente que carta é esta.»—Não sei... será escripta á Antoninha? ou á prima Angela? eu não escrevo a mais ninguem.—«A mais ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais ninguem?»—Juro que não, juro que não... deixa-me vêr essa carta, Luiz, deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela boa sorte da nossa filhinha.—«Veja.»Miquelina leu estas duas linhas da carta:Dous dias é uma ausencia insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas flôres...Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da desesperação! A surpreza transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina, exhausta de forças, econvencida da realidade daquella infame allusão, desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. Reconheceu que havia alli uma dôr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia dó n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justiça de Deus, devia triumphar.Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente.Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte carta:—«Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da Cruz. São quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher. Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da Cruz pôde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe perdão, se lhe já lançaste em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado. Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relações com Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.Um teu amigo.»Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal sabia ella que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! Eram tocantes as lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena, sem a comprehenderem.«Peço perdão a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdão d'uma affronta, d'uma calumnia, que a reduziua esta situação... Na presença de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»—Sim, sim,—bradou ella com enthusiasmo febril—eu perdôo-te de toda a minha alma, Luiz, de todo o meu coração, meu esposo querido!...Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e foi feliz, verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida.Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta que devia ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões d'um chicote. Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha; mas quando a dôr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lançou a mão. Ella reconheceu-o, e pediu que a deixasse. «Não, minha senhora,—replicou o seu conhecido—eu não posso consentir que v. exc.aseja assim desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...»—Deixe-me, deixe-me... por piedade, snr. Alvaro de Sousa!E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota coral.Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e perguntou a D. Thereza se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que não, que ninguem a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velhaamiga, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora moravan'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D. Thereza da Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas informações ratificadas por s. exc.aPerguntou-lhe o nome do aggressor, e ella respondeu que o não dizia.Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em que a pobre mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; mas Alvaro de Sousa capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher.E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu comprei com uma libra a satisfação de pagar a v. exc.aa menor parte d'um grande serviço que lhe devo... Eu não pude esquecer-me nunca de que v. exc.acom algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para que o servinho de Deus alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que me atacou... Tenha v. exc.auma noite feliz.»E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.Alvaro de Sousa estava vingado.—Tens mentido com a mais soberana presença de espirito!—atalhei eu.—Não minto, juro-te que não minto...Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de consegu Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de conseguil-a.[3]E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que qualquer destemido despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...—O rigor da chronologia—proseguiu o implacavel noticiador—exige que eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens deraiz confiscou-os a fazenda: os moveis estava designado o dia de leilão em que deviam ser vendidos.O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera que sua mulher ridiculisara as pretenções de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forçar sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que tinha fortes razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal conceito de nobreza de coração, e sensibilidade d'alma que qualquer marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na hora critica d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situação em que se achavam os negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra que a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos n'estas côres.Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram estipulados doze annos seria reformada pelo praso de duas horas......Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no coração, foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociação com as condições do titulo reformado, conforme a vontade do credor.E respondeu affirmativamente, com a sagrada condição d'um segredo inviolavel para seu marido.E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz, com esta carta:«Meu caro senhor.«Conforme á negociação que acabo de fazer comsua senhora, remetto doze mil cruzados. Da inclusa carta da exc.masnr.aD. Maria da Luz, verá v. s.aque este contracto é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em vantagem minha é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade que eu não sei se está hypothecada a v. s.aSupposto me devessem ter sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu não tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transacção que possamos ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos ambos considerar com mais ou menos jus á mesma propriedade. E, como eu tenha resolvido cedêl-a em beneficio de meu lacaio, v. s.anão terá duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia.De v. s.aattento veneradorAlvaro de Sousa.»—E depois?—interrompi com anciedade.—Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...—Não digo... palavra d'honra!—Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente com sua mulher.—Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?—Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado.—E das outras?—Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma vingança que não póde ser romantisada por ser muito simples.O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.Querem saber onde tudo isto aconteceu?Agora é que v. exc.asvão ficar surprehendidas...Foi em Pekim!Salvei a moral publica!Cante-se o hymno!A CAVEIRA.PROLOGO.Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances, é capaz de dizer que a lua não tem habitantes, e as alfandegas ratos.A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins, quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas virgens d'aquella região polar.Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria do augmento do salario pela facilidade dostransportes. Ha lavradores que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica.O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil! (Isto era escripto em 1853...)A mocidade é assim. A força creadora do talento ha-de supprir a debilidade do thesouro. Onde os capitalistas não chegaram, hirá o artigo de fundo, palpitante de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a aterrar com as forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos periodos arredondados artisticamente.E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas irradiações do foco civilisador. Um dia, os povos do Marão, agrupados nas cristas das serranias, verão lá em baixo passar o traço negro do carril; e cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor!Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustradospela leitura repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e influir seriamente no futuro da empreza lyrica.Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta lerá, na vinha, de barriga ao ar, oTymes, e Benjamin Constant. O proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco ha-de viver quem não vir tudo isto.Será então chegado o momento solemne de pedir á provincia do norte a historia do seu passado. Serão exploradas então as minas de poesia, entulhadas pelo obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de castellan. O leitor pedirá uma heroica lucta de dous infanções armados da fidalga espada, e verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito de apaixonado melindre.Mas não será em tudo assim a chronica obscura da provincia, onde vivi alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos para longos trabalhos de muito proveito esthetico, plastico, artistico, e não sei mesmo se cubico, anomalo, e hybrido.A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, póde ser confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, pelo menos, viviam, ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa authoridade, porque tenho direito a ser acreditado em romances, que tem a honra de assentarem n'uma sincera base.A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o publico illustrado. Alexandre Dumas, escrevendo um romance intituladoMartim de Freitas, obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma cornucopia de asneiras este litterato, fallando de Portugal.O publico tem direitos sagrados, e é realmente ultrajar-lh'os, querel-o capacitar de que Mafra é um porto de mar, e Leiria uma cidade archiepiscopal, e monsieur d'Evora cidadão portuguez.Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a viabilidade, e o fluido transmutativo são a tripeça em que está sentada a civilisação. Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra.A CAVEIRA.I.Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos. Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada de grande brazão d'armas, e não sei quantas ameias modeladas pelos pilares das açoteas mouriscas. O leitor, que, por louvavel curiosidade, quizer, de perto, capacitar-se da fidelidade architectonica d'esta casa, vá a Villa Real, e narua do Cabo da Villa, pergunte pela casa de D. João de Noronha. Não terá de que maravilhar-se, a não ser da sisuda gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta historias interessantissimas.Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha.Odomé quasi sempre, entre portuguezes, indicação de fidalguia remota; mas em D. João de Noronha erauma irrisão para o povo, e uma ignominia affrontosa aos fidalgos da terra. E a razão é esta:Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da casa.Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um freguez por causa d'umas tombas, matou-o desastradamente. A justiça apanhou-o, e condemnou-o a pena ultima.D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os extremos de D. Paula pelo condemnado, e attenda-se á época em que os grandiosos esforços d'uma fidalga são anciosamente empenhados na salvação d'um arrastado verme da plebe.D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho bastardo de seu irmão, e como tal o perfilha. Desde que esta adopção foi consignada no livro dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha está salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o réo a cinco annos de degredo para Castro-Marim.O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de figos do Algarve; e, honra lhe seja feita, á hora da morte, declarou que vivera sapateiro e christão, e como sapateiro pedia perdão aos homens, e como christão a Deus porque muito queria salvar-se.Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque não quiz partilhar das honras heraldicas de seu irmão, que, pelos modos, não eram muito lisongeiras para a memoria de sua mãi.Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna avultada, adquirida na bigorna.João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as vocações ardentes do sacerdocio.Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. João da Silva invejava o acaso d'um nascimento, e desesperava-se na impotencia de associar-se dous appellidos euphonicos, que o guindassem á região dos homens superiores em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha superior em raça ao onagro de Cacilhas.Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se encabeçasse na linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscripto no livro dos costados a folhas 1473.João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou uma certidão, hypothecou metade da sua fortuna ao fôro, e consegui-o. Não diremos ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que lhe recebeu os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado de hoje eram litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres móres do reino.A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria. Fechou os seus salões ao adepto insolente, que ousára assignar-se D. João de Noronha, e mandára insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos Noronhas, É tradição em Villa Real que os Pintos Coelhos, representados hoje por José Antonio Teixeira Coelho de Mello Pinto da Mesquita, mandaram borrifar de sangue as armas de D. João de Noronha. Nada fez recuar o proposito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os odios ao pobre homem não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. João, seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as differenças no azul do sangue fossem saldadas com o amarello do ouro.Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem creança, e respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a mais sisuda tolerancia. Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se com uma donzella (oitava maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquelle par conjugal, equiz ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões delirantes, as ternuras idealissimas. Não pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu não era homem de privar d'um capitulo precioso aPhysiologia do Casamentode Balzac.O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra linha no mappa-mundi das minhas observações; e o meu caro D. João morreu poucos dias depois de sua mulher, e é de crêr que, abraçados em frenetica paixão, renascessem, viçosos e frescos como Paulo e Virginia, em mundos novos, e novas constellações. Assim seja!Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei n'uma caveira, contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviezado de arabescos de marfim.Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor. Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre cobria aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não concebi que relação podesse existir entre aquella caveira e a paixão de Jesus Christo não ousava, porém, interrogar-lhe o profundo mysterio.Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na presença da caveira. Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu não pude recuar sem ser conhecido. Vi-lhe lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos meus leitores de coração petrificado chorariam, se vissem a sincera angustia d'aquelle rosto venerando.—Venha cá—me disse elle—que eu não tenho vergonha de chorar; Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no tumulo a chorar como se entra na vida.Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinhaaprendido estas palavras artificiosas, com que fingimos um quinhão de sentimento impostor. Então senti e chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia diz que choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf.—Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia—proseguiu o consternado ancião.—Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o segredo d'este craneo. Eu gosto de quem respeita a dôr alheia. Quero pagar-lhe essa fineza invocando do tumulo do meu coração o mysterio, que aqui está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr da minha historia, respeite o meu silencio... É que não poderei... Talvez possa... O coração... dizem que manda aos labios muito do seu fel, quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma grande desgraça... Será assim? Eu não sei... vel-o-hemos.Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia, onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho é um livro. Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, hoje, que, ámanhã, talvez a pedra rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu durmo alli o suspirado somno do infeliz...II.D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello á mesa da redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda commoção:«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito annos que eu estudava latim no conventode S. Francisco. Era minha tenção ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou ambições de subir na posição social. Quiz ser padre, e era-o, se nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a cruelissima amputação da vida da alma, em commercio com o mundo.Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem, perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdocio. Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga, aberta no coração com um ferro em brasa.Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem, finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. Então apaixonava-se um homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me prendiam á deshonra d'um abandono injustificavel.Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubára cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que devia matal-a! Tive então dó d'aquella flôr, que se desfolhava na madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma protecção que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado.Eu valia menos que Pedro de Mesquita.Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre;conquistara-se uma opinião de heroe; batera-se ardidamente como um leão nas ultimas batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos triumphos difficeis do amor.E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha a despresar-me, devia ser tudo isso.Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os odios, e as intrigas, que a sua formosura causára entre pretendentes, que não queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria e filho segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não tenho necessidade de mencionar-lhe.Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque Pedro de Mesquita não tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer.Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro devia ser-lhe. E era.Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á porfia um ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario.O momento ambicionado chegou.Era quinta feira santa.Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. Francisco.Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha. Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; não a deixaram as multidões espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era muito despreso para a altivez do seu caracter.Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas turbas. Dous homens apenas, comoduas estatuas, se fixavam sós, e immoveis, na nave da igreja.Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e rapidas palavras, e desembainharam os fains.Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o desejo de matar, ou morrer.Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era indubitavel, e perigosa.Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.III.Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um braço, afastou-lhe os botes, com admiravel presença de espirito.O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal, redobrava de escandalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espantonão era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento, quando dous homens se cortavam a ferro frio.As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não houve desgraçadamente authoridade militar que capturasse os duelistas.Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos da cirurgia não estancára, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes de cavallaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica, affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de «morra!» Os que assim gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatára, em quinta feira santa, a solemnidade da paixão de Christo. Como elles saciavam a sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em Roma, como em Constantinopla.Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava á janella quando viu entrar seu irmão nos braços de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o acontecimento.Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes, sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo d'este capote, levava um bacamarte.Quando chegou á entrada darua do Jogo da Bolla, viu um grupo de povo, que parecia vedar a sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de Mesquita, a quemfaltára a coragem para affrontar a força bruta da populaça.Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, tigre desenfreado da licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.—Assassino... não!...—respondeu o alferes.—Fui eu quem o feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos avós robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, não comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou é um acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no peito.Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos tormentos possiveis n'esta vida.Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira, alentado pela coragem da minha dôr, as escadas d'aquella casa, e levantára da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim... não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja daMisericordia, orava, talvez, á Virgem protectora das virgens...Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelára os poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos!O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz. Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante mula, e seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava emAlmodena, caminho de Lisboa. E, para que esta circumstancia me não esqueça, dir-lhe-hei que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de real mercê que o isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do assassino, que zombára da lei.Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.IV.É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica d'este quadro negro... Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroismo de virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e apaixonadas pelo sublime do martyrio.Por ventura, póde o senhor comprehender a situação d'um homem, que tem desmaiada nos braços aquella por quem fôra atraiçoado...? Não é bastante comprehenderisto: é necessario compenetrar-se mais da minha situação...Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival... Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha situação?... Não comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha não fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignação... Quem sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, não é assim?»Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me adivinhára. Córei, de certo, quando fui surprehendido no segredo dos meus juizos. Nada menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre velho! Era de certo um pungente assentimento á sua conjectura! A dôr é generosa, e cala as affrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquelle grande sacrificio, que comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a gravidade melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e D. João de Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lucifer para tirar de mim melhor partido.D. João proseguiu:«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos braços. A mãi, que prophetisára, em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha, apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle lethargo, com afflictivos gemidos.Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não chorou uma só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dous amantes, Martha estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquelle tremor... A corda d'um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração estremece assim.No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender serenamente a cabeça nos braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso da infeliz. Imaginamos que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo menos, mais desabafada d'aquella agonia que lhe suffocava não só os gemidos, mas até a respiração. Esperamos... mas quem não esperava era o medico, que, ao retirar-se, deixou dito que não era Christo para restituir a filha á viuva de Nahim.Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da materia... mas aquelle anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da destruição nos revelassem o rapido dilacerar d'aquella morte! Quem dirá que aquella mulher soffreu no corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar as algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e só a alma, meu amigo, consummou aquelle trance de incomportavel inferno, e passou ao mundo da penitencia ou da gloria...Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É só minha, e só eu a comprehendo... mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S. Francisco o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa eterna separação.Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar n'aquella sepultura durante tres annos.Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a pedra que cobria os ossos de Martha foi levantada.Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror, agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do Santissimo Sacramento.O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava machinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade revocou em volta de mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a ella... como nos dias da sua esplendida formosura illuminada pelo resplendor da sua innocencia, purpureada do pejo com que a candura se rende ao imperio dos instinctos... Era ella, quando, nos primeiros tempos da nossa infancia, me offerecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãi, e a seus irmãos... Era ella, quando me perguntava o segredo d'aquella attracção irresistivel, que a arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia sonhar umas delicias que sua mãi lhe não explicava nem realisava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o ecco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... a phantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha d'aquelles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me vinha cahir aos pés.E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do côro, a tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na abobadado templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade.Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a face lacerada pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É impossivel que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com ella...A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba d'aquella scena, que se me figurava um sacrilegio, uma profanação.Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou com os ossos.»Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrilego, que não tem ainda bastante barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de si proprio, quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no calix, que rouba.Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma não sei que pesar semelhante ao remorso.Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se arrependera. Quiz deixar intactas aquellas cinzas. Luctei comigo para vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude; mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um ser sem alma, uma recordação para as lagrimas, e uma gloria só minha n'este mundo... a gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de lagrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos na eternidade.Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos longos soffrimentos d'um homem, queatravessou uma longa existencia, sem conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das feições com que a vi partir d'este mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos que me vêem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira, animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das contorsões freneticas da desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde os labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante, me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas dolorosas contemplações, aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim, balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á sepultura!... Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes d'estas cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria d'outras cinzas, que, ha tres quartos de seculo, esperam o dia final... É lamentavel a situação d'este pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa chimeras, não é assim?Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o não disse, nem lh'o diria, se lhe não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo nos olhos.Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dôr. O que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio d'uma nova existencia. A immortalidade é uma idêa abstracta de tudo que é comprehensivel aos homens. O homem não explica a immortalidade, em quanto não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se me comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia bruta, e termina nos espiritos. As funcçõesdo espirito, sem fórmas corporeas, pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas funcções, que devem ser a sua futura existencia, pela mesma razão que o animal, inferior ao homem, não comprehende as funcções do pensamento aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto, vão subindo na escala da intelligencia. Todos se transfiguram de fórma em fórma até deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos espaços incognitos como vagam os espiritos. É lá em cima, nas proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna luz, que se lê o livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo orgão espiritual em que recebi a interminavel impressão de agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e sublime não é um attributo do espirito? Aquelle que muito ama, e muito devorado morre de paixões grandes e ideaes, não é um propheta da vida futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor, qual será a existencia do espirito?Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quiz elevar o seu espirito á altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido segredo. Quiz convencel-o, não digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa eternidade em que ahi se falla, despida de affectos, de poesia, de esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho exaltações de jubilo, aqui, n'este quarto, onde conto, ha perto de setenta annos, os minutos da minha existencia. Este goso é a minha convicção na immortalidade... É a minha esperança, confirmada pela meditação e pela sciencia, de que hei-de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do céo...Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga ás turbas de Villa Real os segredos de D. João deNoronha. Aqui escarnecem-se os que soffrem, logo que não soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos, onde a materia organisada dispõe do machinismo da bocca para lhe dar uma gargalhada em resposta.»D. João de Noronha despediu-me.Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas communicações. Aprendi com elle a sciencia do espiritualismo. Se depois me materialisei, é porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado mais que a superficie da materia. O espirito tem a força dos imponderaveis. A força da materia póde muito bem calcular-se pela força dos vapores...tantos cavallos.Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:—Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 annos de idade, com uma donzella sua contemporanea?!—De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João não podem considerar-se physicas nem moraes. «Absurdo!—replica a espirituosa dama.» Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna, e queria deixal-a a uma creada, que o servira desveladamente toda a sua vida. D. João encarava philosophicamente as formulas sacramentaes do casamento. Achava-o utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se para recompensar uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe enxugou nas faces mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do sacrificio. Poucos dias supportou a viuvez.—E a caveira?—perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.—A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma mortalha.UMA PRAGAROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.UMA PRAGAROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.Este romance não devera chamar-se «romance.» Desde que esta palavra é o atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções do escriptor phantastico, não ha historia verdadeira que possa, como tal, recommendar-se com aquelle titulo.Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e affeiçoados ás leis do estilo romantico, são verdades que não deram brado, nem se gravaram na memoria da geração que as viu e as não comprehendeu.Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No drama da familia ha lances que são do dominio do publico, e o publico não póde, ainda que o tente, explical-os. Nas attribuições individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento, que esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina,reputando-lh'as effeitos necessarios das causas, consequencias do crime voluntario.A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua redempção do genero humano. O homem é, desde o seu principio, a victima da culpa com o labio collocado no calix da agonia.A vida sobre a terra é uma interminavel expiação. Eu pago pelos crimes de meu pai, meus filhos expiarão meus crimes, e o ultimo ser vivo da animalidade intelligente será o holocausto do primeiro homem criminoso.É forçoso recorrer ao inconcebivel, ao sobre-natural, ao mysticismo da providencia occulta para comprehender o que vulgarmente se diz «fatalidade.»Na historia, que vai ser lida, é tão sensivel esta necessidade, tão aterrado se sente o espirito diante d'um facto consummado, que eu não tive escrupulo religioso ou philosophico em subordinar um encadeamento de infortunios d'uma familia ápraga rogada nas escadas da forca.I.Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre materno passou á roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados d'uma pobre mulher d'aldêa.Aos dez annos não conhecia pai; e sua mãi, mulher do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo donobre, que se dignára descer até ella para honral-a com deshonra.Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais preguiçoso.O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittissecomprehender a dôr immensa d'um grande desastre. Lá dentro n'aquelle coração infantil fallava uma prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no horisonte negro do seu futuro, o pobre moço não tinha uma hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o d'aquelle lethargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a tarefa molhada de lagrimas.Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era.Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo «BernardoEngeitado.» Nunca ninguem se lembrou de reputal-o filhod'alguem: nem Lucena se lembrou, alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados á roda, poderia ser seu lacaio.Bernardo era creado de taboa.II.Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas horas livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo palacio de seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava sem saber porque.Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a dos amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no por compaixão.Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com um não sei que de estranha delicadesa.Destacava-se da sua classe com um ar orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas muitas obrigações, e ninguem sabia quando as cumpria. Estas qualidades, rarissimas vezes encontradas n'um lacaio, tornavam-no assumpto de estudo para os amos que principiavam a interessar-se na analyse d'aquelle obscuro engeitado.Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lêr, e gastava a maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as lições que o mordomo da casa lhe dava nas horas de desenfado.Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, é certo que o amo, por um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma escóla, e para isso alliviou-o dos encargos de moço de taboa, e levou-o á jerarchia de escudeiro do menino mais velho.III.Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprêndera só comsigo a grammatica portugueza, visto que seus amos lhe não tinham permittido esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir ao servo sciencia que os amos não tinham! O muito illustre Francisco de Lucena não daria o menor dos seus galgos pela vasta sciencia do Lobato. E, talvez, tivesse razão.Em casa de fidalgos d'esta bitóla, quando um creado adquire a confiança dos amos, ha sempre para isso uma de duas razões. Ou o creado, devasso como elles, encobre astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as, já que não póde reprehender-lh'as.Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram livres e desmoralisados a não poder ser mais. Quizeram captar a benevolencia do servo, não para aconselhal-os, que não desciam elles a isso, mas para acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o braço do plebeu é muitas vezes a salvação das costas do fidalgo.Não o conseguiram nunca; mas tambem não tiveram de arrepender-se da confiança d'esse convite. Bernardo exercia uma influencia admiravel sobre os nobres libertinos. Era a superioridade da intelligencia. Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto das suas idêas, e da linguagem escolhida com que o engeitado se sahia! O facto de ser engeitado era em Bernardo, talvez, um motivo de superstição n'aquella casa. Se elle fosse reconhecido filho d'algumborra-botas, como em linguagem nobliarchica se chama um plebeu, de certo lhe não dariam a importancia de o considerarem pela intelligencia. Mas o mysterio, a possibilidade de ser vergontea infeliz d'um tronco illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma aureola entre nuvens, que poderia talvez, mais tarde, dissipar-se, e deixar na plenitude da sua luz aquelle fructo do amor criminoso d'alguma raça nobilissima, mais ou menos aparentada com os Lucenas!Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto, impossivel, é o que vai lêr-se.

«Minha querida amiga.

Tua amiga d'alma.»

Um teu amigo.»

«Meu caro senhor.

De v. s.aattento venerador

Alvaro de Sousa.»


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