INDICE.

Eduardo,e depoisJulia.Eduardo.—A gargalhada de Alvaro quer dizer muito... (Ouve-se a aria da Norma).O maldito veria alguma cousa? Se viu, lá vai a terra todo o meu edificio de virtude... Dizem que ella é facil, eu vejo-me illaqueado n'uma rede tal, que se me descobrem não sei por onde hei-de evadir-me... Que pena se me não deixam ser honrado!... Tenho, só n'um mez, colhido tantas palmas de virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um palmito...Julia(agitada).—Eduardo...Eduardo.—Julia...Julia.—Pelo amor de Deus, desvanece-me d'uma suspeita que me despedaça...Eduardo.—Que é?!Julia.—Tu amas Leocadia.Eduardo.—É falso...Julia.—Mas ella adora-te com delirio...Eduardo.—Que culpa tenho eu?Julia(tomando-lhe a mão com frenesi...)—Não me sacrifiques a ella... a nenhuma... porque nenhuma te amará tanto...Jorge(ao fundo).—Isto é espantoso!...Eduardo.—Não vês que represento um papel hypocrita, tão contra o meu caracter, para te não perder?Jorge(o mesmo).—É incrivel!...Julia.—Conheço tudo... meu anjo... Vou á sala... póde notar-se a minha falta...SCENA VII.Eduardo,e depoisLeocadia,e depois oviscondena porta do fundo sem ser visto. (Ouve-se ainda a musica da Norma).Eduardo.—Tornemos á posição do benemerito Tartufo. Oh meu querido Moliere, onde quer que estás recebe os meus agradecimentos pelo excellente molde que me cá deixaste!Leocadia(impetuosamente).—Eduardo... só duas palavras... Olha que Alvaro viu-te sahir de minha casa...Eduardo.—Viu?! estão explicadas as gargalhadas...Leocadia.—Receio maus resultados... Elle é capaz de tirar qualquer vingança... Oh meu Deus!... estou sobre um vulcão...Eduardo.—E eu dentro d'uma tina... Deixa correr os successos... Vai, que podem descobrir-nos...Visconde(á parte).—Como se explica isto?Leocadia.—Que has-de tu dizer se elle nos denuncia?Eduardo.—Provo que não sou mais immoral que elle... As pretenções são as mesmas...Visconde.—Isto é bonito!... (Retira-se).Leocadia.—Que situação a minha!...Eduardo.—Retira-te, que podem surprehender-nos... (Leocadia sahe).SCENA VIII.Eduardo,e depois aviscondessa,eAlvaroao fundo.Eduardo.—Atropellam-se os acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir que eu tenho sido um homem verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu era cynico,antes que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres não andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim! Ó benevola opinião publica, quanto te devo!... Ahi vem outra que me não faz muita honra!...Viscondessa.—Aproveitei um instante para estar só comtigo antes que elles venham...Eduardo.—Como és carinhosa!Viscondessa.—Desconfiei que Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes que tenho ciumes de todas as mulheres!...Alvaro(á parte).—Que ouço!...Eduardo.—Continuo a representar bem? A platea applaude?...Viscondessa.—O visconde disse-me n'este momento que tinha muito que contar-me... perguntei-lhe a que respeito... e elle de fugida pronunciou o teu nome e de Leocadia...Alvaro(aparte).—E Leocadia!...Eduardo.—E Leocadia!... Como se entende isso?...Viscondessa.—Não sei... Mudemos de tom que elles ahi vem...SCENA IX.Os mesmos, eJulia,Alvaro,JorgeeLeocadia.Viscondessa(com emphase).—Pois não queremos uma virtude assim melancolica... É necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr. Eduardo... A verdadeira felicidade está na consciencia. O seu passado não tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braços como ao filho prodigo... (Alvaro solta uma risada).Que riso é esse, snr. Alvaro?Alvaro.—É um riso nervoso!...Eduardo(á parte).—Mau!...Leocadia.—Não tem razões para tanta melancolia!...É estimado geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiança de todas as pessoas... (O visconde solta uma risada).Que risada é essa, snr. visconde?Visconde.—É uma risada como a d'aquelle senhor (apontando Alvaro). É uma risada nervosa!Eduardo(á parte).—Peor!...Julia.—Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfigurações moraes custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr. Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o não ter sido desde muito... (Jorge solta uma risada).Tambem o senhor se ri?Jorge.—É uma risada como a d'aquelle senhor... (apontando Alvaro) é uma risada nervosa...Eduardo(á parte).—Está tudo por terra!... (Alto). Vejo que os meus amigos estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes proveitosos... Não acho bonito que me escarneçam... Fazem-me lembrar a fabula do leão e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas culpas!... (Riem todos tres).Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu não lhes mereço isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e não se cospe assim na honra...Jorge(á parte).—Vou-lhe arrancar a mascara!...Visconde(á parte).—Hypocrita!Alvaro(á parte).—O impostor não passará d'hoje...Viscondessa.—Que falsa posição é esta?Leocadia.—Não entendo isto!Julia.—Nem eu!Eduardo.—Nem eu!...Viscondessa.—Que modos são esses!... em que pensam os senhores?...Alvaro.—Eu pensava nos recursos do talento depravado!...Senhores!... é necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor (indicando Eduardo) é um impostor!Eduardo.—Eu! Calumnia! infamia... quero as provas...Alvaro.—A snr.aD. Leocadia que as dê...Visconde.—Justamente: a snr.aD. Leocadia que as dê!...Jorge.—Minha mulher!...Leocadia.—Eu!Eduardo.—Ella!...Alvaroevisconde.—Sim! ella!...Jorge.—Pois bem... cáia a mascara... Esse senhor é um infame seductor!Eduardo.—Eu!Viscondessa.—Elle!Jorge,visconde,eAlvaro.—Sim, sim, elle!Eduardo.—Provas, senhores calumniadores!Jorge.—Provas? a snr.aD. Julia que as dê!Alvaro.—Minha mulher!Julia.—Eu!Eduardo.—Ella!Jorgeevisconde.—Sim, sim, ella!Alvaro.—N'esse caso... rasgue-se o véo do mysterio... Todos somos victimas da hypocrisia d'esse homem!Visconde.—Menos eu!Viscondessa.—Nem eu!Eduardo.—Provas, senhores!Alvaro.—Provas? a snr.aviscondessa que as dê.Visconde.—Minha mulher!Viscondessa.—Eu!Eduardo.—Ella!AlvaroeJorge.—Sim, sim!Eduardo.—Todas tres!...Alvaro(para Julia).—Responde!Jorge(para Leocadia).—Que dizes a isto?O visconde(para a viscondessa).—Pois não te defendes?Todas tres.—É falso!...Eduardo(mudando de tom).—Eu vou defendêl-as, minhas senhoras!Alvaro.—A snr.aD. Leocadia não tem defeza nenhuma, porque...Eduardo.—Silencio!Jorge.—A snr.aD. Julia não tem defeza nenhuma, porque...Eduardo.—Esperem!...Visconde.—Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é preciso que me provem que...Eduardo.—Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram retirar-se... (Ellas sahem).SCENA X.Eduardo,Jorge,Alvaro,e ovisconde.Eduardo.—Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu me regenerei? Respondam, sim ou não?Alvaro.—Qualregenerou-se! É um impostor!...Eduardo.—Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me: a opinião publica a meu respeito é essa?Visconde.—Não é... porque o senhor enganou-nos.Eduardo.—Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a opinião publica á qual me mandaram obedecer?Visconde.—Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o senhor!Eduardo.—E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que hoje?Jorge.—Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio... Quero uma satisfação immediata.Alvaro.—E eu tambem.Eduardo.—E o snr. visconde?Visconde.—Veremos, depois...Eduardo(sorrindo).—Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam, arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda asneira... Que lucram os senhores com isto?Alvaro.—Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha honra um duello...Jorge.—Não prescindo.Eduardo.—Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros que hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (Indicando Alvaro e Jorge).AlvaroeJorge.—Nós?!...Eduardo.—Os senhores...Alvaro.—Porque?!Eduardo.—Porque teem trabalhado reciprocamente na sua deshonra.Jorge.—Isso é uma nova infamia!Eduardo.—Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados!AlvaroeJorge.—Na praia dos Inglezes!...Eduardo.—Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem... Querem explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança... Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (Comprime os labios com os dedos...) Os senhores, sesão honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem...Visconde.—Mas eu é que não entro n'esse contracto...Eduardo.—Nem lh'o propuz... mas, v. exc.acontando com o silencio d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a respeito de... Veja lá o que resolve...Visconde.—Mas v. s.anão ha-de entrar mais em minha casa...Eduardo.—D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de Pariz, e tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio approva... Muito bem... (Ao fundo). Minhas senhoras! queiram entrar!... (As damas entram). Vv. exc.asforam julgadas innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os seus nomes...Viscondessa.—Assim o suppuz!Julia.—Assim devia acontecer!Leocadia.—Mas eu não perdôo a quem me infamou!ViscondessaeJulia.—Nem nós!Eduardo.—Hão-de perdoar, que são muito boas senhoras, e o perdão das injurias é o sentimento mais nobre do coração humano... Eu retiro-me com os meus creditos, e vv. exc.asficam com os seus... Muito boas noites... (Sahe).Os outros, como é natural, ficam a olhar uns para os outros com aquellas caras proprias de taes conflictos. O author vem fóra dizer que não ha na comedia allusões nenhumas. A platéa retira satisfeita, e continúa a guardar-se dos cynicos.No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia é immoral, e attentatoria contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o jornal, e mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, vem no conhecimento de que os mordentes são os legitimosOrgonsd'este seculo; mas, um pouco menos felizes que os d'uma grande comedia, que o leitor, se se não recorda, ou não leu nunca, póde encontrar com o titulo deTartuffe. Se, todavia, detesta a letra redonda, estude a vida pratica, e chegará á mais difficil das formaturas, aoultimatumda sabedoria: «o conhecimento dos homens.» É tão facil, ao primeiro intuito, estremar o cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que repellis, e não me relacioneis com o segundo, que abraçaes: que eu, profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o dinheiro, e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a virtude não seja sempre uma irrisão n'este planeta. Disse.FIM.INDICE.Morrer por capricho (romance)5Uma paixão bem empregada (romance)25De abysmo em abysmo (romance)35Aventuras d'um boticario d'aldêa (romance)41Cousas que só eu sei (romance)55Dinheiro! dinheiro! (romance)109A caveira (romance)131Uma praga rogada nas escadas da forca (romance)155Pathologia do casamento (drama em 3 actos)183Notas:[1]Systema pathologico do snr. Borges de Castro, facultativo distincto, na cidade do Porto, em 1853.[2]Escripto em 1853.[3].......

Eduardo,e depoisJulia.

Eduardo,e depoisLeocadia,e depois oviscondena porta do fundo sem ser visto. (Ouve-se ainda a musica da Norma).

Eduardo,e depois aviscondessa,eAlvaroao fundo.

Os mesmos, eJulia,Alvaro,JorgeeLeocadia.

Eduardo,Jorge,Alvaro,e ovisconde.


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