XVI

Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expressão de bondade, tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar ancioso, e perguntou ao pae, sentado á cabeceira da sua cama:—Pae?... A carta?...—Está aqui, minha filha. Socéga. A agitação faz-te mal; não é verdade, sr. doutor?—É verdade. Ella quer muito socêgo de espirito. É o unico remedio que lhe receito.—É coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o velho.—Não. Não vale de nada. Ámanhã pode levantar-se. Mas has-de estar muito socegadinha hoje, ouviste?Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:—Leu essa carta, meu pae?—Filha da minha alma, não ouviste o que disse o senhor doutor? Não te preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socéga...—Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas que era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade não é aqui. Já vê que não agito o espirito a modos de me fazer mal.{138}—Mas não falles mais n'isso. Ámanhã fallaremos e...—O pae leu a carta toda?—Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e até quem a leu foi o João.—O João?! E que disse?!—O João está socegado. Está na cozinha. Mas peço-te por amôr de Deus que não falles mais nisso hoje.E, pegando-lhe numa das mãos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas nos olhos, dizia:—Faz-me a vontade, sim, filha?...Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja leitura não queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.{139}XVILevantou-se na aldeia uma celeuma contra o brazileiro, que, no dizer de toda a gente, era um seductor de donzellas.Dois dias volvidos sobre os ultimos acontecimentos, durante os quaes o brazileiro não abandonara á noite o seu posto de observação, toda a freguezia, conhecedora dos successos que elle causara, augmentados, naturalmente, pela phantasia popular, murmurava indignada contra esse homem que viera, com a presumpção do seu dinheiro, interromper a paz e o socego da aldeia e lançar a desgraça no seio d'uma tão boa e santa gente.A propria Maria Luiza, o espirito do mal até ahi, passou a ser a pobre avesinha da silveira arrebatada nas garras do gavião.Nos dois dias que se seguiram áquelle em que Helena recebeu a carta de Velloso, este, á mesma hora, fôra para o mesmo ponto da alameda dos eucalyptos, na esperança de que Helena, quando o irmão desistisse de o perseguir, apparecesse á porta.Porém, naquellas duas noites seguintes, a decepção do brazileiro foi indizivel, quando não viu apparecer João a vigial-o, nem tão pouco Helena dava signal de si.—Que se terá passado?... pensava, ao retirar-se.Os dias passava-os em sua casa e na do visinho,{140}que lhe communicava as impressões que a seu respeito occupavam o espirito popular.Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor: nem sua propria mãe, que ás vezes lhe queria manifestar os seus queixumes da vida lamentavel que elle levava, obtinha licença para lhe tocar nesse ponto.Elle começou a sentir remorsos da sua conducta.Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo devorador, elle não se atrevia mesmo já a apparecer na presença dos obreiros que se occupavam na construcção da sua nova habitação.—Ó senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manhã do terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamêda ficou sem filho nenhum em casa! Ficou com elle o moço, mais aquella rapariga que lá tem, filha do fallecido João da Junqueira, e dizem que vão casar para ficar na companhia do velho...Mas o Neves achou inutil continuar, a não ser que quizesse fallar para as paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos calcanhares, e, como um ébrio, sem dizer palavra, deixou o visinho embasbacado a olhar para elle, fallando comsigo:—Mas onde diabo irá elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a tempo! Onde irão elles já!E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de presumpção:—Ora ahi está para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre como eu, succedia-lhe isto? Olha lá se eu me incommodo com nada! Não tenho dinheiro; assim, as mulheres não esperam nada de mim, por isso não deito a perder ninguem! Nem me perco a mim!...{141}**     *O brazileiro, como um allucinado, penetrou no páteo do tio Alamêda.Parou, olhou em roda, e não viu ninguem. Chorou então ao vêr-se só n'aquelle recinto, onde cada objecto despertava na sua memoria uma saudade do dia em que pela primeira vez alli entrou, e arrancava ao seu coração uma gotta de sangue que lhe assomava aos olhos transformada n'uma lagrima.A porta da casa estava fechada; e elle, não podendo resistir á desolação do seu coração, sentou-se no tronco d'uma oliveira que estava estendido no pateo. Appoiou a fronte sobre as mãos e deu curso ás lagrimas que lhe affluiam aos olhos..............Meia hora depois, sentia que lhe tocavam n'um hombro.Olhou, e viu na sua frente, ao pé de si, o tio Alamêda, a olhal-o com um olhar velado por uma profunda angustia e cheio de ternura.Instinctivamente, estendeu para o velho os braços e cingiu-lhe os joelhos, proferindo estas palavras com desalento:—Perdão! Perdão para um infeliz!O velho, tentando erguel-o, disse, com as lagrimas rolando pelas faces enrugadas:—Levante-se! Que Deus lhe perdôe, assim como eu lhe perdôo.O brazileiro ergueu-se, e, com voz trémula o angustiada, perguntou:—Helena para onde foi?!{142}—Helena foi procurar a felicidade que o senhor lhe não podia dar. Morreu para mim e para o mundo.—Para um convento?!...—É verdade! E meu filho partiu na companhia d'ella com tenção de embarcar para o Brazil. Acompanhou-os o nosso bom e santo prior, que prometteu internal-a n'um recolhimento.—Oh! Isto e cruel!—Sim! É cruel, para um pae que, d'um instante para outro, se vê privado da companhia de seus dois queridos filhos. Um, para nunca mais voltar. Outro... quem sabe?! Talvez tambem para nunca mais me tornar a vêr, nem voltar a esta casa onde viveu vinte e cinco annos tão feliz e contente!Os dois choravam. O brazileiro não ousou interromper as lamentações do velho, que proseguia:—O senhor está vivo graças ás minhas lagrimas que puderam conter o braço armado de meu filho. Agora, que Deus o reservou, não queira continuar na sua senda de opprobios por onde tem caminhado. Ainda pode compensar uma parte d'esta serie de infelicidades que causou. Arrependa-se do passado, e faça por esquecel-o com um futuro glorioso. Eu, pela minha parte, perdôo-lhe; Helena, que tem um coração d'oiro, tambem lhe perdoará, e meu filho da mesma maneira. Falta só Deus. Para conquistar o seu perdão, faça o que eu já lhe disse: salve o passado com o futuro.—Mas Helena... como poderei obter o seu perdão, se...—Deus lhe transmittirá a sua prece. Não precisa de o ouvir, para lançar sobre a sua memoria o perdão que se concede ainda aos maiores criminosos.O brazileiro estendeu ao velho a mão, e, com firmeza e resolução, disse:{143}—Aperte esta mão: é a mão de um rehabilitado.E, conservando apertada na sua mão mimosa a mão rugosa do velho, continuou, com voz pausada:—Fui criminoso; mas fui um criminoso inconsciente. Farei como o senhor me diz e como me dicta a minha consciencia, procurando no futuro regenerar-me do passado. Se, até aqui, o meu dinheiro tem sido olhado como um instrumento criminoso para eu conseguir fins vergonhosos e deshonestos e como uma base tôsca sobre a qual eu edificava, sem olhar para o berço pobre onde nasci, o meu castello de opulencia, quero que para o futuro seja olhado como um maná celeste que, descendo ao seio da miseria, vá mitigar a angustia dos necessitados. Quero que elle seja a alavanca que me erga do lodaçal em que me sepultei. Já que eu, nascido na pobreza, tive a sorte de me elevar de modo a poder estender as azas na mesma camada atmospherica onde os ricos se libram sem lançar um olhar para baixo a contemplar, com olhos de piedade, as luctas cruciantes da miseria, eu quero, então, descer d'essa altura para penetrar nos tugurios pestilentos, nas espeluncas, para alimentar quem tem fome, aquecer quem tirita de frio, e seccar as lagrimas de quem chora.O velho abraçou-o commovido, e accrescentou:—E d'esse modo será amado dos homens e abençoado de Deus; e subirá mais alto, muito mais alto do que aquelles que, conservando-se lá em cima, não lançam um olhar de misericordia cá para baixo!{144}CONCLUSÃOTres annos depois erguia-se, no sopé d'um outeiro de suave declive, uma casa de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie que, semeada de casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua frente.O outeiro era revestido em toda a volta do seu sopé por pampanos verdes de vides que o engrinaldavam como uma immensa corôa de verdura que estremecia sob o sopro da viração; e no seu planalto estendia-se um pinheiral de pinheiros miudos e distanciados que cresciam por entre um tapete de urzes floridas, dando, visto de longe, a ideia de um jardim suspenso de Babylonia.Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manhã pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava, parecia uma d'aquellas vivendas phantasticas que nós, quando fomos pequenos, anteviamos atravez da nossa imaginação infantil, excitada pela narração d'um conto de fadas ou de princezas encantadas que nossa avó nos contava ao serão.Todos os dias, á tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera limpida, e o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saía d'aquella vivenda e ia passear pelas veredas do outeiro, contemplando, ditoso, as varzeas sorridentes por onde serpéa o poetico Vouga.{145}Ao passar por elle, os aldeãos descobriam-se respeitosos e cheios de acatamento, envolvendo-o n'um olhar dôce de sympathia e veneração, e ás vezes ficavam-se a contemplal-o com expressão de intimo jubilo até o verem desapparecer na curva de um atalho.Nunca um mendigo se lhes approximava que não voltasse com aspecto sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.—São uns santos! São uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se. Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, cá no mundo!Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a fome, a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a noite estendia o seu manto negro sobre a aldeia, uma mão esmoler e caritativa saía a ministrar o alento aos infelizes que, por vergonha ou impossibilidade, não ousavam sair do seu tugurio onde se debatiam com os horrores da miseria.Essa mão que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos infelizes e se subtraía modesta aos ósculos de gratidão, era de Maria Luiza, a esposa do dôno d'aquella casa, tão rico como caritativo, que distribuia santamente os rendimentos da sua riqueza.O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos antes, circulando em volta d'aquelles dois sêres, tanto emocionaram a alma popular, e o sr. Velloso é agora a caridade personificada, amado dos infelizes, respeitado por todos os que o conhecem.Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de cabeça calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi todos os dias passar alguns momentos com elles.{146}Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais que em todo o resto da vida.Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam esses dois seres—Paulo e Julia—que a Providencia lhe atirara pela porta dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes faltara.Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua Mãe: «ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso, conserve-os na sua companhia».E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e perguntou-lhe:—Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha companhia abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia para ella. Convém que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da minha vida. Vou perfilhar Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia que, se concordares com ella, dispensa isso. Queres casar com Julia?O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos, sem poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.—Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com Julia?—Se quero!...Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a paixão da sua alma, manifestou{147}quanto amôr occultara durante dois annos no seu peito.—Bem! disse o tio Alamêda cheio de contentamento. Pela tua resposta, vejo que gostas d'ella a valer, não é verdade? Não sabes quanto estou contente com isso. É preciso agora saber se é do gosto d'ella casar comtigo. Vae chamal-a.E Paulo, não cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues cheios de doçura e de submissão:—Que quer, pae?—Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com Paulo, fazias-me a vontade?Julia fitou os olhos no chão, ruborisada, dando naquelle silencio a resposta mais eloquente que lhe podia dictar o seu coração apaixonado.O velho, comprehendendo então nesse momento que o seu desejo era a unica felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e poisando paternalmente a mão na cabeça loira da creança, disse com extrema bondade, pondo-se em pé:—E tiveste a coragem de me não revelares esse segredo, hein? Vejo que o amas a valer, e não me tinhas dito nada, minha másinha?Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com candura.—Está bem; continuou o tio Alamêda. Quando o nosso João vier, o que não ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua chegada com o vosso casamento; e...O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria,{148}onde estava um homem, com uma porção de cartas numa das mãos e um sacco de couro a tiracóllo.—Ill.mosenhor José Nunes da Alamêda!E estendeu um braço com uma carta na mão.Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto, estremeceu. Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil, occultou o rosto no avental, soluçando.O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trémula:—Que é, Julia?! Alguma nova desgraça que nos sobreveio?!...Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces banhadas de lagrimas, estendendo a carta para o velho.—Seja o que Deus quizer! Lê, filha, lê. Estou resignado com a vontade de Deus!E, appoiando-se, curvado, sobre o bastão que segurava com ambas as mãos, meneava dolorosamente a cabeça.Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e desdobrou a carta.Paulo tinha-se approximado, egualmente pállido, e, sem proferir uma palavra, collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabeça á d'ella e olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as lettras que não entendia, porque não sabia lêr.Julia lêu para si a primeira linha, a participação do óbito de João, e, deixando cair os braços, olhou, banhada em pranto, para o velho.Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoção:—Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade.{149}E, estendendo as mãos para os jovens, que estavam na sua frente semelhando os conjuges em frente do padre, disse:—Levou-me os filhos, e deixou-me a vós. Sois os meus pupillos, e d'ora avante sereis meus filhos.Abraçou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada pelos soluços:—E que Deus abençoe o vosso amôr, como eu o abençôo!FIM

Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expressão de bondade, tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar ancioso, e perguntou ao pae, sentado á cabeceira da sua cama:

—Pae?... A carta?...

—Está aqui, minha filha. Socéga. A agitação faz-te mal; não é verdade, sr. doutor?

—É verdade. Ella quer muito socêgo de espirito. É o unico remedio que lhe receito.

—É coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o velho.

—Não. Não vale de nada. Ámanhã pode levantar-se. Mas has-de estar muito socegadinha hoje, ouviste?

Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:

—Leu essa carta, meu pae?

—Filha da minha alma, não ouviste o que disse o senhor doutor? Não te preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socéga...

—Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas que era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade não é aqui. Já vê que não agito o espirito a modos de me fazer mal.{138}

—Mas não falles mais n'isso. Ámanhã fallaremos e...

—O pae leu a carta toda?

—Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e até quem a leu foi o João.

—O João?! E que disse?!

—O João está socegado. Está na cozinha. Mas peço-te por amôr de Deus que não falles mais nisso hoje.

E, pegando-lhe numa das mãos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas nos olhos, dizia:

—Faz-me a vontade, sim, filha?...

Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja leitura não queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.{139}

Levantou-se na aldeia uma celeuma contra o brazileiro, que, no dizer de toda a gente, era um seductor de donzellas.

Dois dias volvidos sobre os ultimos acontecimentos, durante os quaes o brazileiro não abandonara á noite o seu posto de observação, toda a freguezia, conhecedora dos successos que elle causara, augmentados, naturalmente, pela phantasia popular, murmurava indignada contra esse homem que viera, com a presumpção do seu dinheiro, interromper a paz e o socego da aldeia e lançar a desgraça no seio d'uma tão boa e santa gente.

A propria Maria Luiza, o espirito do mal até ahi, passou a ser a pobre avesinha da silveira arrebatada nas garras do gavião.

Nos dois dias que se seguiram áquelle em que Helena recebeu a carta de Velloso, este, á mesma hora, fôra para o mesmo ponto da alameda dos eucalyptos, na esperança de que Helena, quando o irmão desistisse de o perseguir, apparecesse á porta.

Porém, naquellas duas noites seguintes, a decepção do brazileiro foi indizivel, quando não viu apparecer João a vigial-o, nem tão pouco Helena dava signal de si.

—Que se terá passado?... pensava, ao retirar-se.

Os dias passava-os em sua casa e na do visinho,{140}que lhe communicava as impressões que a seu respeito occupavam o espirito popular.

Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor: nem sua propria mãe, que ás vezes lhe queria manifestar os seus queixumes da vida lamentavel que elle levava, obtinha licença para lhe tocar nesse ponto.

Elle começou a sentir remorsos da sua conducta.

Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo devorador, elle não se atrevia mesmo já a apparecer na presença dos obreiros que se occupavam na construcção da sua nova habitação.

—Ó senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manhã do terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamêda ficou sem filho nenhum em casa! Ficou com elle o moço, mais aquella rapariga que lá tem, filha do fallecido João da Junqueira, e dizem que vão casar para ficar na companhia do velho...

Mas o Neves achou inutil continuar, a não ser que quizesse fallar para as paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos calcanhares, e, como um ébrio, sem dizer palavra, deixou o visinho embasbacado a olhar para elle, fallando comsigo:

—Mas onde diabo irá elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a tempo! Onde irão elles já!

E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de presumpção:

—Ora ahi está para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre como eu, succedia-lhe isto? Olha lá se eu me incommodo com nada! Não tenho dinheiro; assim, as mulheres não esperam nada de mim, por isso não deito a perder ninguem! Nem me perco a mim!...{141}

**     *

O brazileiro, como um allucinado, penetrou no páteo do tio Alamêda.

Parou, olhou em roda, e não viu ninguem. Chorou então ao vêr-se só n'aquelle recinto, onde cada objecto despertava na sua memoria uma saudade do dia em que pela primeira vez alli entrou, e arrancava ao seu coração uma gotta de sangue que lhe assomava aos olhos transformada n'uma lagrima.

A porta da casa estava fechada; e elle, não podendo resistir á desolação do seu coração, sentou-se no tronco d'uma oliveira que estava estendido no pateo. Appoiou a fronte sobre as mãos e deu curso ás lagrimas que lhe affluiam aos olhos..............

Meia hora depois, sentia que lhe tocavam n'um hombro.

Olhou, e viu na sua frente, ao pé de si, o tio Alamêda, a olhal-o com um olhar velado por uma profunda angustia e cheio de ternura.

Instinctivamente, estendeu para o velho os braços e cingiu-lhe os joelhos, proferindo estas palavras com desalento:

—Perdão! Perdão para um infeliz!

O velho, tentando erguel-o, disse, com as lagrimas rolando pelas faces enrugadas:

—Levante-se! Que Deus lhe perdôe, assim como eu lhe perdôo.

O brazileiro ergueu-se, e, com voz trémula o angustiada, perguntou:

—Helena para onde foi?!{142}

—Helena foi procurar a felicidade que o senhor lhe não podia dar. Morreu para mim e para o mundo.

—Para um convento?!...

—É verdade! E meu filho partiu na companhia d'ella com tenção de embarcar para o Brazil. Acompanhou-os o nosso bom e santo prior, que prometteu internal-a n'um recolhimento.

—Oh! Isto e cruel!

—Sim! É cruel, para um pae que, d'um instante para outro, se vê privado da companhia de seus dois queridos filhos. Um, para nunca mais voltar. Outro... quem sabe?! Talvez tambem para nunca mais me tornar a vêr, nem voltar a esta casa onde viveu vinte e cinco annos tão feliz e contente!

Os dois choravam. O brazileiro não ousou interromper as lamentações do velho, que proseguia:

—O senhor está vivo graças ás minhas lagrimas que puderam conter o braço armado de meu filho. Agora, que Deus o reservou, não queira continuar na sua senda de opprobios por onde tem caminhado. Ainda pode compensar uma parte d'esta serie de infelicidades que causou. Arrependa-se do passado, e faça por esquecel-o com um futuro glorioso. Eu, pela minha parte, perdôo-lhe; Helena, que tem um coração d'oiro, tambem lhe perdoará, e meu filho da mesma maneira. Falta só Deus. Para conquistar o seu perdão, faça o que eu já lhe disse: salve o passado com o futuro.

—Mas Helena... como poderei obter o seu perdão, se...

—Deus lhe transmittirá a sua prece. Não precisa de o ouvir, para lançar sobre a sua memoria o perdão que se concede ainda aos maiores criminosos.

O brazileiro estendeu ao velho a mão, e, com firmeza e resolução, disse:{143}

—Aperte esta mão: é a mão de um rehabilitado.

E, conservando apertada na sua mão mimosa a mão rugosa do velho, continuou, com voz pausada:

—Fui criminoso; mas fui um criminoso inconsciente. Farei como o senhor me diz e como me dicta a minha consciencia, procurando no futuro regenerar-me do passado. Se, até aqui, o meu dinheiro tem sido olhado como um instrumento criminoso para eu conseguir fins vergonhosos e deshonestos e como uma base tôsca sobre a qual eu edificava, sem olhar para o berço pobre onde nasci, o meu castello de opulencia, quero que para o futuro seja olhado como um maná celeste que, descendo ao seio da miseria, vá mitigar a angustia dos necessitados. Quero que elle seja a alavanca que me erga do lodaçal em que me sepultei. Já que eu, nascido na pobreza, tive a sorte de me elevar de modo a poder estender as azas na mesma camada atmospherica onde os ricos se libram sem lançar um olhar para baixo a contemplar, com olhos de piedade, as luctas cruciantes da miseria, eu quero, então, descer d'essa altura para penetrar nos tugurios pestilentos, nas espeluncas, para alimentar quem tem fome, aquecer quem tirita de frio, e seccar as lagrimas de quem chora.

O velho abraçou-o commovido, e accrescentou:

—E d'esse modo será amado dos homens e abençoado de Deus; e subirá mais alto, muito mais alto do que aquelles que, conservando-se lá em cima, não lançam um olhar de misericordia cá para baixo!{144}

Tres annos depois erguia-se, no sopé d'um outeiro de suave declive, uma casa de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie que, semeada de casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua frente.

O outeiro era revestido em toda a volta do seu sopé por pampanos verdes de vides que o engrinaldavam como uma immensa corôa de verdura que estremecia sob o sopro da viração; e no seu planalto estendia-se um pinheiral de pinheiros miudos e distanciados que cresciam por entre um tapete de urzes floridas, dando, visto de longe, a ideia de um jardim suspenso de Babylonia.

Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manhã pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava, parecia uma d'aquellas vivendas phantasticas que nós, quando fomos pequenos, anteviamos atravez da nossa imaginação infantil, excitada pela narração d'um conto de fadas ou de princezas encantadas que nossa avó nos contava ao serão.

Todos os dias, á tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera limpida, e o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saía d'aquella vivenda e ia passear pelas veredas do outeiro, contemplando, ditoso, as varzeas sorridentes por onde serpéa o poetico Vouga.{145}

Ao passar por elle, os aldeãos descobriam-se respeitosos e cheios de acatamento, envolvendo-o n'um olhar dôce de sympathia e veneração, e ás vezes ficavam-se a contemplal-o com expressão de intimo jubilo até o verem desapparecer na curva de um atalho.

Nunca um mendigo se lhes approximava que não voltasse com aspecto sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.

—São uns santos! São uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se. Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, cá no mundo!

Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a fome, a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a noite estendia o seu manto negro sobre a aldeia, uma mão esmoler e caritativa saía a ministrar o alento aos infelizes que, por vergonha ou impossibilidade, não ousavam sair do seu tugurio onde se debatiam com os horrores da miseria.

Essa mão que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos infelizes e se subtraía modesta aos ósculos de gratidão, era de Maria Luiza, a esposa do dôno d'aquella casa, tão rico como caritativo, que distribuia santamente os rendimentos da sua riqueza.

O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos antes, circulando em volta d'aquelles dois sêres, tanto emocionaram a alma popular, e o sr. Velloso é agora a caridade personificada, amado dos infelizes, respeitado por todos os que o conhecem.

Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de cabeça calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi todos os dias passar alguns momentos com elles.{146}

Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais que em todo o resto da vida.

Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam esses dois seres—Paulo e Julia—que a Providencia lhe atirara pela porta dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes faltara.

Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua Mãe: «ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso, conserve-os na sua companhia».

E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.

Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e perguntou-lhe:

—Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha companhia abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia para ella. Convém que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da minha vida. Vou perfilhar Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia que, se concordares com ella, dispensa isso. Queres casar com Julia?

O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos, sem poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.

—Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com Julia?

—Se quero!...

Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a paixão da sua alma, manifestou{147}quanto amôr occultara durante dois annos no seu peito.

—Bem! disse o tio Alamêda cheio de contentamento. Pela tua resposta, vejo que gostas d'ella a valer, não é verdade? Não sabes quanto estou contente com isso. É preciso agora saber se é do gosto d'ella casar comtigo. Vae chamal-a.

E Paulo, não cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.

Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues cheios de doçura e de submissão:

—Que quer, pae?

—Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com Paulo, fazias-me a vontade?

Julia fitou os olhos no chão, ruborisada, dando naquelle silencio a resposta mais eloquente que lhe podia dictar o seu coração apaixonado.

O velho, comprehendendo então nesse momento que o seu desejo era a unica felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e poisando paternalmente a mão na cabeça loira da creança, disse com extrema bondade, pondo-se em pé:

—E tiveste a coragem de me não revelares esse segredo, hein? Vejo que o amas a valer, e não me tinhas dito nada, minha másinha?

Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com candura.

—Está bem; continuou o tio Alamêda. Quando o nosso João vier, o que não ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua chegada com o vosso casamento; e...

O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria,{148}onde estava um homem, com uma porção de cartas numa das mãos e um sacco de couro a tiracóllo.

—Ill.mosenhor José Nunes da Alamêda!

E estendeu um braço com uma carta na mão.

Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto, estremeceu. Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil, occultou o rosto no avental, soluçando.

O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trémula:

—Que é, Julia?! Alguma nova desgraça que nos sobreveio?!...

Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces banhadas de lagrimas, estendendo a carta para o velho.

—Seja o que Deus quizer! Lê, filha, lê. Estou resignado com a vontade de Deus!

E, appoiando-se, curvado, sobre o bastão que segurava com ambas as mãos, meneava dolorosamente a cabeça.

Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e desdobrou a carta.

Paulo tinha-se approximado, egualmente pállido, e, sem proferir uma palavra, collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabeça á d'ella e olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as lettras que não entendia, porque não sabia lêr.

Julia lêu para si a primeira linha, a participação do óbito de João, e, deixando cair os braços, olhou, banhada em pranto, para o velho.

Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoção:

—Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade.{149}

E, estendendo as mãos para os jovens, que estavam na sua frente semelhando os conjuges em frente do padre, disse:

—Levou-me os filhos, e deixou-me a vós. Sois os meus pupillos, e d'ora avante sereis meus filhos.

Abraçou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada pelos soluços:

—E que Deus abençoe o vosso amôr, como eu o abençôo!


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