XII.Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:«Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei passada de mêdo, e parece que a luz dos olhos se me toldára. Custou-me a lêr o nome da assignatura, que maior susto me incutiu. «A mãi de Vasco roubou-me a minha carta» foi logo a idéa que me assaltou. Refiz-me de coragem para lêr uma reprehensão... e que espanto, que alegria a minha ao passo que devorava aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no papel duas a duas. Eu estava louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao céo a inspiração que mandára á mãi do meu Vasco. A fuga, protegida por uma senhora de tanta virtude, parecia-me um passo digno de louvor. Congratulei-me até da minha idéa, e suppuz que o espirito de minha mãi, a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua bemaventurança.«Eu não podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixára a chorar, voltando, reparou na repentina{183}mudança, porque os meus olhos inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que voejava diante de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abençoavam com um sorriso.«Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria, pensava que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar, operaram estranha mudança em mim.«Francisco de Proença enganado por sua mãi, e mais ainda pelo seu orgulho, julgou que o milagre da mudança se devia a essas palavras aborrecidas que me dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mãi e convencer-me a mim do poder fascinante da sua lingua, fallou muito, penso que contou muitas anedoctas de estudantes de Coimbra, e com tal affectação o fazia que me causava tedio, posto que eu, apenas por cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e coração embebecida na minha fuga, e não tirava os olhos da assustada agulha do relogio.«Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi proferir a palavra «theatro.» Foi uma nuvem negra que escureceu toda a alegria da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfiguração; e Francisco de Proença, que estava conversando commigo, perguntou-me se me sentia incommodada, chamando a attenção de meu pai. Expliquei o descóramento por uma vertigem costumada, e pedi licença para entrar no meu quarto.«Ahi, d'onde pouco antes sahira douda de jubilo, entrei afflictissima. A ida ao theatro vinha baldar os nossos planos. Estava a anoitecer e eu não tinha por quem avisar Vasco. Os criados de casa tinham a confiança de meu pai, e as criadas a da minha madrasta. Entre estas, porém, havia uma que se mostrava minha amiga. Foi essa a que mandaram para ao pé de mim, logo que minha madrasta me deixou deitada n'um canapé recommendando-me, logo que o incommodo me passasse, me fosse vestindo para{184}irmos a S. Carlos. A minha angustia não me deixou reflectir. Eu disse á criada que estava muito attribulada, e só ella podia valer-me. Pedia-lhe que chegasse ella n'um instante a levar-me um escripto a D. Maria Maldonado, sem que ninguem de casa o soubesse. A criada respondeu-me que sim sem hesitação, e viu-me tirar d'entre os colchões uma escrivaninha. Escrevi algumas linhas apressadas, e ella sahiu, dando-me um beijo de Judas, quando eu, lavada em lagrimas de gratidão, lhe dava um abraço de infeliz soccorrida em extremos de afflicção.«Principiei a vestir-me, applicando o ouvido aos passos da criada, que eu esperava anciosamente. Passou-se uma hora, e ella sem chegar. Sahi do meu quarto, perguntei a outra criada por ella: disse-me que estava na cama com uma dôr de cabeça.«N'isto appareceu meu pai, e disse-me com ar mais grave que o seu costume:—Menina, vamos, que está sua madrasta já na sege.«Eu pretextei uma falta para entrar no meu quarto. O que eu queria era de fugida perguntar á criada se entregára o bilhete; meu pai, porém, acompanhou-me até ao meu quarto, viu-me pegar d'um lenço, e não me deixou sosinha um instante até me deixar na sege, onde depois entrou Francisco de Proença.«Meu pai disse que iria a pé, e só mais tarde, porque tinha de fazer uma inspecção ao quartel.«Que anciedade a minha até entrar no camarote! De lá procurei na platea Vasco. Se elle estivesse, ficava eu tranquilla: era signal de ter recebido o meu bilhete. Não estava, nem entrou jámais! Jesus! como me era custoso esconder as lagrimas e o alvorôço! Que horas de inferno aquellas! Logo que entrou em minha alma a suspeita de ter sido atraiçoada, tive a tentação de sahir do camarote, sob qualquer pretexto, e fugir.«Meu pai entrou ás onze horas e meia. Estava a{185}findar o espectaculo. Procurei ver-lhe a alma nos olhos. Pareceu-me socegado, e sem reserva.«Fomos para casa. Vi a pé todas as criadas, menos a portadora do bilhete. Reviveram as minhas suspeitas. Entendi que a infame não tinha animo de confrontar-se commigo, depois da traição.«Procurei entre os colchões a escrivaninha. Lá estava tudo como eu o deixára, e ao pé os massos das cartas de Vasco.«Não me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual d'ellas mais desgraçada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu quarto, para ir á cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor; mas a porta que determinava este corredor, e nunca se fechara, encontrei-a fechada! Então, sim, comprehendi que meu pai soubera tudo; e d'ahi em diante estudei a maneira de fugir de dia. A ancia facilitava-me o passo. Resolvi sahir disfarçada com um capote de criada, até encontrar um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta esperança desafogou o meu coração. Esperei o dia; e, logo que senti passos, pedi que me abrissem a porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia procurar a chave; e voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque ninguem dava noticia d'ella.«Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi esse que o tempo não conseguiu desvanecer em minha alma. É que desde esse dia tenho chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas... Senti até o desejo de matar a criada, que me atraiçoara. Desconhecia-me! Vi-me casualmente a um espelho, e os meus olhos tinham um fulgor sinistro, os meus labios pareciam crestados pelas palavras de maldição que passaram n'elles contra o meu tyranno.«Abri a janella do meu quarto, com a intenção de fugir por ella. Morreria, se o tentasse. Recuei diante da{186}idéa da morte sem justificação aos olhos de Vasco e de sua mãi, que me chamarasua filha querida. Lancei-me aos pés da Virgem, que fôra de minha mãi, e ergui-me sem esperança, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua misericordia.«Eram nove horas da manhã quando se abriu a porta, e entrou meu pai.«Não escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as não via.—Leocadia, disse elle, vem ahi o almoço. Depois de almoçar, veste-te que vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.«Meu pai!...» murmurei eu.—Que queres tu Leocadia?—disse elle com um ar de fria seriedade que me gelou as palavras, e sahiu.«Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoço. Minha madrasta entrou no meu quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que não almoçava. Disse que não podia, e ella retirou-se, passando-me a mão pela face, e dizendo com abominavel meiguice: juizinho, minha filha, juizinho.«Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com altivez o que queria dizer a sua recommendação, e ella, carregando o sobr'olho, replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre soberba.«A raiva não me deixou articular senão sons inintelligiveis. Minha madrasta sahira com impeto, resmungando palavras, que eu não entendi.«Vieram dizer-me que esperava a sege. Sahi do meu quarto com a tenção de procurar de relance a criada; mas, ao cabo do corredor, estava meu pai, lançando-me um olhar severo.«Entrei n'uma sege com minha madrasta. Meu pai entrou n'outra com Proença.«Atravessamos Lisboa sem trocarmos uma palavra.{187}«Apeamos no portão de uma quinta. Proença offereceu-me o braço, e perguntou-me que soffrimento era o meu que se denunciava no rubor dos olhos. Eu ia responder-lhe, com franqueza cruel, contando-lhe a minha vida em relação a elle, quando meu pai nos impoz silencio com a sua presença.«Passeamos uma hora entre os arvoredos da quinta. Ahi não lhe sei dizer que desesperada saudade me golpeava a pedaços o coração! No ruido da folhagem parecia-me ouvir o chorar gemente do meu Vasco. O fallar de Proença, e as risadas estupidas de minha madrasta, davam aos meus ouvidos o som infernal d'uma ironia de demonios á minha angustia.«Queria-me esconder sosinha por aquellas murtas; mas a comitiva amaldiçoada seguia-me constantemente, e as attenções delicadas de Proença provocavam-me sempre uma visagem de desdem.«Com elle só quizera eu estar para dizer-lhe que o aborrecia; porém, não nos deixavam juntos, porque meu pai receava isso mesmo.«Estive um instante sosinha á beira d'um tanque. Meu pai veio ahi encontrar-me a chorar. Sentou-se ao meu lado, e disse-me affavelmente, tomando-me a mão:—Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratidão na face do amigo que tudo te sacrificou, e até a sua liberdade vendeu a preço do teu bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo, esquecendo que era pai. Cuidei que tocára o teu coração, e abençoei o céo por me ter dado um anjo d'amor onde eu poderia ter encontrado uma filha rebelde. A tua docilidade encheu-me de orgulho e alegria, orgulho por ter tal filha, e alegria por vêr tão galardoados os meus sacrificios. Deixáste o meu espirito em paz com as suas tenções. Vi que se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha confiança puz na tua razão, que eu iria jurar que ninguem teve uma{188}filha mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me enganei com o teu silencio. A vibora, que eu creára no seio, e acabava de afagar, mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... Não me interrompas... é teu pai que falla e te impõe silencio, Leocadia. Premeditavas a tua fugida; trocavas teu pai, que conheces ha dezoito annos, pelo homem que viste hontem; trocavas a tua invejada reputação pela fama que segue á mulher que deixa no limiar da casa paterna abandonada os diplomas da sua virtude. Estás já deshonrada por intenção, filha; mas eu, desgraçado pai, serei ainda a tabua de salvação para ti. Fiz a accusação. Agora vou condemnar-te: estás perdoada; beija a mão do teu juiz, porque a justiça d'um pai tem em si o reflexo da misericordia de Deus.«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima. Levei machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de lagrimas. E eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me compaixão o olhar aguado de meu pai; porém... não saberei dizer que terrivel qualidade de sentimentos luctavam em minha alma!... Entre a cabeça e o coração havia uma barreira insuperavel. O coração regeitava o amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça curvava-se diante da magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes. Quando, porém, nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na manhã desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á minha propria reputação.«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai esperou a resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um ramo de flores.«Aqui tens, minha filha—disse elle—o ramo de paz entre nós. Ha-de haver dez annos que te dei um ramo{189}neste mesmo sitio. Foi quando vieste da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que está atraz de ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito no teu futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai, extremoso e pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha segunda visita a este logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos nós! Repara que eu tambem choro, Leocadia.«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O resentimento calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse instante... só o via a elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco fugira por não poder vencer as cãs d'um velho soldado chorando...»Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do coração desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em terreno afogueado.E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me hão-de receber como chimera, chorava tambem.{190}XIII.O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai a violentava a casar com Francisco de Proença.A isto respondeu o pai, mudando de tom:«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de que a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo, não é violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome ás cousas, a obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e cerrar severamente os ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se ha um Deus, que julgue as tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma filha, grandes contas eu daria, Leocadia, consentindo-te o alvedrio da escolha entre Vasco da Cunha e Francisco de Proença. Não quero o remorso de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito preso a minha dignidade, e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui eu que lh'o disse, e basta.«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te, faço quanto posso por te deixar em{191}posição de a receberes, e guardares, como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais difficultoso manter-se no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os não fizeres resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens da fortuna.«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus fóros de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu tenho querido é rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo venera para que as tuas virtudes deem assim nos olhos das pessoas que não são vulgo.«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á deshonra e ao crime... Maria Maldonado...«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel. Nesse olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor d'aquella mãi.«Maria Maldonado—proseguiu elle entendendo o olhar da filha—parece que renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas acções. Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser criança, tenha ido chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas travessuras dos irmãos.«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que lhe disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da madrasta, cuja aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se esforçasse por não denunciar a scena violenta que se dera entre elles. Leocadia fez quanto podem humanas forças. Mentiu ás averiguações de Proença com um sorriso, que tanto podia ser timidez, como ironia. Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha durante aquelle dia, e lançava um{192}olhar de revez a sua mulher, quando esta, ferida de reflexo no amor proprio de seu filho notava a frieza com que Leocadia lhe acolhia os ditos arguciosos.Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria Maldonado.Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho, teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que resmungára longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove horas, por causa d'uma expedição em que elle não fôra consultado.Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar a sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se poucos passos distante da casa de Leocadia.Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa. Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e ousou metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre atrapalhado.«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome de seu defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher do meu general está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da ironia, e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de bocca aberta, como quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não lhe occorria idéa alguma á attribulada senhora, quando o coronel, offerecendo-lhe o braço, disse:«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D.{193}Maria, porque em minha casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me permitte acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe dizer duas palavras.—Aceito o offerecimento...—disse D. Maria reanimada pela confiança que pôz no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do coronel.Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém, disse ao padre que cedesse o seu logar.O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do seu capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando philosophicamente aquella diabrura.Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou, ouviram-se passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar a mão a D. Maria. Vasco surgia no limiar do portão justamente no instante que sua mãi entrava pelo braço do coronel.O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto, que tanto podia serah!comooh!comoui!Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!D. Maria apertou-lhe o braço, murmurando:—Não zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a continuação da sua delicadeza...«É um direito de que eu a não privarei, minha senhora. Serei delicado com o filho como o fui com a mãi... Por isso mesmo, rogo a v. exc.ª que mande seu filho assistir ás duas palavras que devo dizer-lhe.—Vem, filho...—murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel estendia affectuosamente a mão a Vasco, bastante pundonoroso para regeital-a.{194}«Recusa?!—disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria militar.—Então, Vasco?!—acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com humildade diante do coronel.«Quer que subamos, snr.ª D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?—disse Gervasio com mal disfarçado azedume.—Não, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?«Se minha mãi ordena...—Ordeno, sim.Já na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou assim:«Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que minha filha, pelo facto de ser minha filha, não podia ser sua mulher. Não lh'o disse com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica a Leocadia é respeitavel, em quanto está dentro dos limites que a honra prescreve a cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra e da probidade.«O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me não desmerecer da opinião em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos tão verdes! Pareceu-me vêr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que lhe deu o nascimento.«Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face envergonhada diante de mim, e cortar essa mão que ainda agora hesitou apertar a minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco brio. Se o pundonor devesse aconselhar a algum de nós o despreso, o despresivel de certo não seria eu, porque o enganado, o atraiçoado não é v. exc.ª, snr. Vasco da Cunha.«Adiante: e não se estorça, escutando-me, snr.ª D. Maria: eu estou de certo contando a v. exc.ª uma novidade.—Duvido que meu filho...—interrompeu a pobre mãi.{195}«Duvida que seu filho?...—Promettesse a v. exc.ª renunciar ao amor de sua filha...«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu desviar as suas attenções de minha filha, de modo que ella não conspirasse contra a minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um olhar que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no coração do infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que nenhuma religião inventou ainda, devia de ser!Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial suor. Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe dava no peito. Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava então: o desejo de morrer logo alli.A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:—Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do coronel.«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre criança, que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia seguinte, o vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no seio onde se embalara Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como succumbe a honra ferida pelo remorso,{196}á reprehensão do tyranno que lhe vem diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel disse:—Pouco mais terá que me dizer, creio eu.«Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco é importante.—Se é uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou eu a propria que me censuro.«Então, snr.ª D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso viver em paz com a minha familia. Visto, porém, que v. exc.ª se reprehende pela parte inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco, posso retirar-me com a certeza de que fica suspensa a sua correspondencia com a minha filha.—A minha? interrompeu ella.«A de v. exc.ª, queria eu dizer.—E eu digo a v. exc.ª—replicou D. Maria sensivelmente agastada—que sou mulher, e não posso dar ás suas ironias uma resposta condigna.O coronel soltou um frouxo de riso, cuja intenção é difficil entender. Era um destes risossubjectivos, (concedam o epytheto) cuja imagem está dentro da pessoa que ri.D. Maria, enraivecida pela desconsideração, interrogava-o com um olhar soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraçando-a, inclinou profundamente a cabeça, recuou até á porta, e disse:«Muito boas noites, minha senhora.»Ora aqui está o que se passou, até que o coronel entrou no camarote.{197}XIV.Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e dança-se; festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de Sinfães, Francisco de Proença.Alto lá, senhor romancista! Não se escreve assim um romance. Vossê assim desacredita-se, e ámanhã não tem quem o leia. Quando a gente cuida que está no melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um carril a vapor, e vêl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite, de maneira que uma pessoa, que lhe faz o favor de o lêr, pedindo o livro emprestado, fica sem saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que fez a mãi, a madrasta, o noivo, o que fizeram todos, durante quinze dias! Isto é uma escandalosa empalmação!Senhoras e senhores meus, v. exc.asde certo conhecem muitas meninas na posição de Leocadia. Posição trivialissima, aliás. É uma pobre rapariga a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a{198}morte não vier espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre não póde teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao noivo rico, á sociedade torpe, casa e dança por comprazer no dia em que casa, e almoça com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no outro dia, e assim successivamente, até engordar. Isto é muito simples, e muito rotineiro, não é verdade?É. Então de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e osso como v. exc.as, fez o que v. exc.asfizeram, viram fazer, ou farão?Alto lá! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e lesse essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de remorso por me haver feito seu confidente. Perdôa-me, minha santa amiga! Eu tive-te um instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco em que patinham muitas georgianas de chinellos, que por ahi se vendem para o harem de sujos pachás, que ao passarem a linha, lavaram a cara dos ferretes de sangue com que sahiram do açougue humano.Se eu fizesse uma criminosa omissão de tuas lagrimas, o mesmo seria pisal-as, Leocadia.Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido, mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardão a estas mulheres de almoeda, que, na alma, não valem mais que as de Babylonia, e no corpo não valem tanto.Não, espirito que me vês da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e, se não rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um traço negro das que tu me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar, que ouço agora, vinha casar um murmurio melancolico á tua narração.{199}XV.Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna, causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de sentinella, no pateo, de dia e de noite.Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém, o exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que tinha, era impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a para dizer «não quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir receber a benção nupcial. Firme neste proposito, esperava, com coragem e juramento de morrer, a hora da lucta horrivel, a formal desobediencia, todas as torturas que podesse inflingir-lhe o pai irritado.Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma antiga criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da provincia, onde fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella Thereza, que eu vi na Foz.A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza{200}chorava com ella, aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O coronel, tambem amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade do coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e continuadas lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de violentas dores de cabeça, e febre.Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu leito. Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o sobresalto operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no coração todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os que o tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços febris de seu pai, pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora, promettendo sacrificar-se ao homem que lhe destinavam se seu pai recuperasse a saude. O coronel não ouvira o voto, mas adivinhou o silencio de sua filha.Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez que o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou sua filha, e disse aos assistentes que se retirassem.Pungentes palavras foram estas:«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se para sempre os unicos{201}olhos que te viam com amor. Ficas sem parentes. De tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no Brazil, que te não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto desta cama?—Meu pai!—exclamou Leocadia com vehemente afflicção—meu querido pai, não pense que morre...«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração que se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente. Estou cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a da outra... a da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a paciencia... Leocadia, queres que eu acabe em paz, que eu expire abençoando-te?—Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!—bradou ella, beijando-lhe as mãos afogueadas.«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz com elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te escolheu. Se elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem neste mundo?! Se soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em espirito agradecer-te o sacrificio. Serás então consolada, filha, pela memoria de teu pai, que pensava fazer-te venturosa, embora se enganasse. Responde-me, Leocadia... Casas com Francisco de Proença?Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle uma palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:—Sim...—disse ella.O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se no leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a cabeça esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão convulsa.Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.{202}O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:«Quem mata meu marido é a senhora!Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á sepultura... É uma filha amaldiçoada!»Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella diz!» e sahiu, apertando a cabeça com as mãos.A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de esperanças, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de dormir tranquillo vieram reparar-lhe as forças.O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua mãi.Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os preparatorios para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um confessor, que se achava já no quarto.«Aproxima-te desta cruz, Leocadia—disse elle com energia—snr. Francisco de Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor amasse esta creatura?—Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.{203}«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a ti sempre digna d'elles.Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre do lance, ajoelhou a par com ella.E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de Leocadia.«Estão accesas as luzes do altar.A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!Leocadia sahiu com sua madrasta.Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua madrasta.Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo. Leocadia achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a elles chorando, soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja intensidade ella não pôde explicar-me. O que me disse, para eu alcançar com os olhos d'alma a sombra da sua dôr, foi que, abraçando o pai na volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: «perdoo-te a morte, Leocadia.»O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.O festim de nupcias foi um funeral.A noticia do casamento foram as cartas de enterro.A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca mais despiu.{204}XVI.O pinhal doPastelleirorumorejava brandamente, assoprado pelo ar da noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de chimeras volateis, brincava na alamêda das fontes murmurosas, gemia com o piar tristonho das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos cruzeiros, que a projecção da luz assombrava no chão.Eu estava profundamente melancolico. E ao pé de mim viera sentar-se Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira a uma cancella fronteira da casa.Acabára eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.A narradora calara-se, e eu não ousára quebrar o seu religioso silencio.Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo gemido. Sentira vibrarem-lhe afflictivamente{205}as fibras do coração, como se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr recordava.E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens, descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o altar do tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do coronel, apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira, todas se me desenharam na imaginação, sempre fertil de creações funebres. Ao pé de mim estava a heroina desta tragedia, ainda formosa, ainda opulenta de encantos, flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde ella mandava continuamente o seu perfume.Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos n'um adeus para sempre?Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas d'ella!Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor seria injuriar a sua saudade!Para que te encontrei eu, santa!Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:«Que é? Não sei o que disse...—Nada dizia—repliquei eu—Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe, minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim... quando a perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de entre os felizes do mundo os que vieram com o condão da minha desventura.«Porque, meu amigo?!—Porque entre nós ha só de commum a confidencia d'algumas horas, a confidencia que não modera os impetos d'um desgraçado amor...«Oh! não diga, não diga isso outra vez...—atalhou{206}Leocadia pondo-me a mão nos labios—Tenha pena de mim... Chame-me sua irmã, senão arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha vida...Beijei-lhe a mão, e murmurei:—Até ámanhã.«Sim? até ámanhã? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro posso ser mudada... E eu queria, meu irmão, queria acabar hoje a minha historia. Não sei que presagio me diz que não teremos outra noite assim... Mais alguns minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?—Diga, diga, Leocadia; mas faça um juramento.«Juramento! qual?—Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante seu, lembre-se de seu irmão, escreva-lhe uma palavra, uma só «vivo» só isto... jura?«Prometto, meu amigo, e não faltarei... E se lhe disser «morro» é que Deus me chamou para ao pé de Vasco...—Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha imaginação contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...«Eu quasi que o vi morrer.—Viu?! É horrivel, meu Deus!«Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proença perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me á sua vontade. Minha madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade. Fomos para uma quinta entre Cintra e Collares.«Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevêra para Lisboa a quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mãi estavam a ares em uma das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora todos os dias, muitas vezes, e com immensa fé.«Uma tarde, Francisco de Proença fôra á caça, e eu fui com Thereza passear para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um sitio que respirava saudade,{207}entrei por alli dentro, e fui ter a um portão de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me áquella sombra, vendo cahir as folhas, e comparando-as á queda de tantas, de todas as minhas esperanças. Estava assim absorvida, bebendo as doçuras do meu fel, quando o portão se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o padre capellão de D. Maria Maldonado!«Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a olhar-me, e disse:—A menina não é a snr.ª D. Leocadia?«Sou, sim, senhor.—Então que faz por estes sitios?! disse elle admirado.«Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.—Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.«Como!?—exclamei eu—a snr.ª D. Maria Maldonado?!—Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco—disse-me elle—e o snr. Vasco vai dar contas a Deus brevemente.«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei n'uma tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para mim. Conheci que me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me d'alli, e não podia; ainda pedi a mão a Thereza, e já não pude dar passada. Desfalleci nos braços d'ella.«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me sentada n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria. Fiz um esforço por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava, meu Deus, como chorava a pobre senhora!«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o, minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para receber o seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a expirar... Morreria atormentado...» Ai... eu não sei o que{208}disse, entre gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E eu estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu nome, n'um grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle, livido como um espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de delirio... A janella cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr umas escadas, em quanto D. Maria sustinha o meu arrebatamento. «Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu, allucinada, louca de paixão, capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve; desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste para mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a salvação.»«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia que eu estava casada!—Falla, falla!—gritava elle—vens ser minha esposa? fugiste a teu pai? esse tyranno teve compaixão de nós?—Cala-te, meu filho!—exclamava D. Maria... Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou:—Não, não é sua esposa... é esposa d'outro que seu pai lhe destinou!—«Vasco soltou um terrivel grito, levou as mãos á face, e foi cahir nos braços de sua mãi... «Matai-me, meu Deus!» exclamou elle.«Agora—proseguiu Leocadia arfando convulsivamente—peço-lhe eu que vá, meu amigo, não posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu não podér fallar-lhe, ha-de lêr o resto da minha historia.»Leocadia entrou encostada ao meu braço em sua casa. Eu fiquei alli não sei que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manhã.{209}XVII.O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENÇA.É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o encantára, no romance.Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui dentro a fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser romantico em 1828.Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em Portugal.Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos, o cognome de «Attila de coelheira.»Em Coimbra, chamavam-lhe ochevalier sans peur et sans reproche.A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e bisneto de Ruy que{210}acompanhára D. Henrique a Cárquere, a cumprir um voto d'uma perna torcida.Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que lhe custou muito puxão d'orelha.Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor octogenario que o reprovou em mathematica.Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se ocommendador Francisco de Proença. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma igreja, perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram responder.Tinha destas cousas.Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para sustentar o seu orgulho.Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de subito. Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi vencido pelo desprezo.Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva herdeira de dous tios millionarios que tinha na America.Odinheiro commercialnão lisongeava o fidalgo; todavia, esta repugnancia pôde vencel-a o amor.Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio disfarçado as amabilidades de seu marido.Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai moribundo, e o crucifixo do juramento.Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a chamava sua.O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.{211}Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da quinta dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o padre, interroga-o:«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!O padre tartamudeou:—Eu sou capellão d'esta casa.«Que casa é essa?—De uma minha amiga—balbuciou Leocadia.«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa amiga?O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:—É a snr.ª D. Maria Maldonado.O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os olhos do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e é já em si um principio de penitencia.«Vamos, senhora!—disse Proença.Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o, deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu amor áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao encontro com sua mulher.Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que preparasse o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu uma entrevista a Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra teriam sobejas occasiões. Replicou a infeliz que não podia, que estava muito doente. Disse-se-lhe que em toda a parte havia uma sepultura.A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás intenções do marido.{212}Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde prender a attenção de seu marido dous segundos.Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se, pela primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.—Quem lhe morreu?!—perguntou ella.«A senhora!—Como?! está delirando!«Quem morreu foi minha mulher—» tornou elle com uma visagem ridiculamente tragica.—Pois se morri, eu vou morrer—disse ella com angelica mansidão—o Senhor receba a minha alma.«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.—Não quero entender a injuria—disse ella com firmeza—Antes a morte.«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora. Em Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de Francisco de Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora jámais dirá que eu sou seu marido: o punhal está sobre o seu seio esperando que essa palavra lhe passe os labios. Dou-lhe a vida, porque vejo o coronel moribundo que me supplica este heroismo...—E eu não aceito a graça—interrompeu Leocadia...«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada, para viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa criada que foi de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas, senhora, repare que eu vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito. No dia em que me desmentir, matei-a!Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:{213}—Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre quatro montanhas: Quer habital-o?—Sou sua escrava, senhor.«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?—O que quizer, mas não posso ouvil-o.«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João Tenorio.Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.{214}XVIII.Se bem me lembro, já disse que Leocadia é o nome que a mulher de Francisco de Proença adoptou, desde a scena do anterior capitulo.No decurso do romance, conservei esse nome, e já agora conserva-lo-hei até final. Podéra ter-lhe dado pseudonimo; mas tão leal quero ser á verdade, que, a não poder, por melindre e respeito, dizer o seu verdadeiro nome, escrupulisei na invenção de outro.Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera Francisco de Proença, que, em todo o tempo da viagem, não deu signal de ser ao menos relação de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro hiate. D'aqui, D. Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado de Sinfães appareceu-lhe na despedida. Terriveis e de eterna condemnação foram as suas palavras: «Vá, sombra da mulher morta! vá, e veja sempre diante de si o punhal, que lhe espera nos labios uma palavra só... o meu nome, o nome de seu marido viuvo!»A desgraçada quiz ajoelhar-se aos pés do seu verdugo.{215}Proença repelliu-a com um tregeito de escarneo e asco.Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitação mal reparada, sumida entre quatro montanhas.Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a reputava irmã bastarda, ou rapariga das affeições de seu amo solteiro. Leocadia perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta de negro: respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a esposa do fidalgo! Leocadia abraçou-se á criada, chorando, e disse: «É verdade... essa desgraçada morreu...»O caseiro reparou n'isto, e disse á mulher que havia o quer que era de historia nos modos da senhora que viera lá de por ahi abaixo.Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua ultima paragem antes da sepultura era alli.Foi um chorar d'ambas de cortar o coração aos caseiros, que as escutavam.Era rapido o deperecer de Leocadia. Não se erguia do leito, e pedia a Deus um paroxismo curto. O caseiro communicava para o Porto ao patrão o estado da senhora. Não recebia resposta.Um dia, porém, appareceu na aldêa um homem que procurava D. Leocadia, com ordem de Francisco de Proença. Este homem diz ser medico. Examina a enferma, e diz-lhe que, por ordem da pessoa que alli a domina, deve immediatamente entrar n'uma liteira com a sua criada; e acompanhal-o. Leocadia, quasi exanime, obedece, sem saber a quem, nem para que fim.A liteira, depois de sete dias de jornada, parou no alto de S. João da Foz, no sitio do Pastelleiro, onde eu, João Junior, encontrei Leocadia para ouvir de seus labios convulsos de gemidos essa historia triste, que eu tive a impiedade de conspurcar com algumas facecias de estragado gosto.{216}O que ella me não contou é o que me disse Thereza, alguns annos depois, quando sua ama já era defunta, e o acaso m'a deparou n'um recolhimento, em uma villa de Traz-os-Montes.Attendam agora, que ahi vai pendurar-se o romance no prégo philosophico com que o intitulei:DINHEIRO. Vai-se tractar de dinheiro, leitoras espirituosas; prestem-me a sua benevola attenção.Uma tarde passava eu no Pastelleiro; sahiu-me ao encontro a caseira da quinta, e deu-me a triste nova de ter sahido, na madrugada d'aquelle dia, a senhora para não tornar. Um homem novo, acrescentou a caseira, viera buscal-a, e descera com ella pelo braço a escada, fallando-lhe com muito bom modo. Agora vou fallar de mim um pouco.Eu fiquei esthetica e plasticamente parvo!Quem seria o homem?! O marido, de certo, não, porque o marido, até ao dia em que falláramos, estava viuvo, e não tratava de resuscitar a mulher. Seria a historia lamuriante uma logração á minha boa fé?! Seria ella uma visionaria, uma douda, ou, peor que tudo, uma destas mulheres desabusadas que mangam dos poetas da minha força?É impossivel! Leocadia deve ser necessariamente um anjo! É o marido que a arrasta pelos cabellos ao cepo do martyrio. Alguem lhe disse que eu vinha aqui, e o malvado não comprehendeu que eu era o sacerdote da mais santa das amisades.E, no afôgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella bouça que lá verdeja ao fundo, enchi meu coração de tenebrosas angustias, e pedi aos meus olhos o chorar do desafôgo.Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dôr era como o encravar do estilete que não sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem gotta de pranto; era uma{217}contricção de matar, uma abafação em que os pulmões, batendo contra o coração, pareciam espedaçar-se.E porque? É que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres vezes immaculado do poeta. Não esperava d'alli senão a religiosa affeição da victima paciente ao consolador que dera a sua vida inteira por um dia de ventura para ella. Mais nada; porém, este pouco é o ar, o tempo, a luz, a bemaventurança do desgraçado que encontrou na terra uma mulher como Leocadia, e uma paixão como a minha.Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no estio da existencia!Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos meus soluços.Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trévas inferiores, e tres dias e tres noites a minha lingua não encanou o bolo alimenticio.A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu quarto, vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.A brisa da tarde nunca mais se retouçou louçã pelas corollas das boninas tremulas.Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a natureza se vestiu.Diz tu, ó Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados da data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se partiu do Pastelleiro.É verdade que passados esses oito dias, obedeci ao despotismo da natureza vegetativa, e ás instancias impertinentes da minha consternada Poncia.O resultado foi sinistro: sobre uma paixão calamitosa uma indigestão pertinaz!Convalesci com jejuns dignos d'um S. Simão Stelita, e depois... amei perdidamente uma tal Catharina... Isto é outra historia, que ha-de vir depois. Os meus continuados{218}amores tem sido para mim um systema de medicina, por que diz o grande poeta:Que o veneno espalhado pelas vêasCuram-no ás vezes asperas triagas.Eu curo-me sempre assim. Em 1828 era eu mais homœopatha que o proprio Hahnemann.{219}XIX.Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.É o caso:Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmãos ricos no Brazil, ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na ultima das suas excursões ao centro do imperio, foram assassinados por salteadores, deixando um grande capital sem testamento.Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a opulenta herança. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o coronel, ou sua filha, tinham morrido sem successão.Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe repetiu os pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao passo que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam pressurosamente!A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria com que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?{220}Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença resolveu arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia o medico e a liteira.Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres mezes a primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas procurações, cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença fôra a Lisboa tractar de habilitar sua mulher.Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido para as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era casado, protestando apresentar sua mulher viva em presença de testemunhas que a conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que viesse a Lisboa a supposta defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na ilha da Madeira se alli, em tal mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a mulher de Francisco de Proença.O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital. Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de Coimbra reviveram com salgadas ampliações.Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella, visto que resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde estivera, e de que supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem, se o conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O apupado marido da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais impertinentes averiguadores do mysterio, aquella especie de catalepsia de sete mezes, e então dizia:«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração cobriu-se de lucto, o punhal vingativo{221}pedia o sangue da perfida, mas o meu espirito era nobre de mais para sanccionar o assassinio d'uma debil mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta moralmente para mim. Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me vingasse. Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa a separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido como um rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam em fim a condigna penitencia da perfidia.—Mas...—alguem lhe disse—tua mulher estava innocente?A esta pergunta indiscreta Francisco de Proença titubeava, e não sabia se lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.Lá se aveio como pôde com os importunos, até que um dia appareceu com sua mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando foi viva.A presença desta pobre senhora foi, só em si, uma accusação contra seu marido. A desgraçada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se era mulher de Francisco de Proença, respondeu:«Dizem que sou.»—E a senhora não diz o mesmo?«Eu sou viuva» tornou ella.—Então qual dos senhores é viuvo? É original a mania d'ambos—replicou o jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da herdeira millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.Não me souberam contar o resto.O que eu sei é que cinco mezes depois recebi uma carta datada em Londres.Resava assim:{222}«Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai:E MORRO. Chore-me.»Leocadia.Em 1834 Francisco de Proença veio a Portugal. Viajára seis annos, e vinha casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a filha d'um correeiro de Manchester.Está vivo, e velho como eu.Acabou-se a historia.FIM.{223}
Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:
«Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei passada de mêdo, e parece que a luz dos olhos se me toldára. Custou-me a lêr o nome da assignatura, que maior susto me incutiu. «A mãi de Vasco roubou-me a minha carta» foi logo a idéa que me assaltou. Refiz-me de coragem para lêr uma reprehensão... e que espanto, que alegria a minha ao passo que devorava aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no papel duas a duas. Eu estava louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao céo a inspiração que mandára á mãi do meu Vasco. A fuga, protegida por uma senhora de tanta virtude, parecia-me um passo digno de louvor. Congratulei-me até da minha idéa, e suppuz que o espirito de minha mãi, a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua bemaventurança.
«Eu não podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixára a chorar, voltando, reparou na repentina{183}mudança, porque os meus olhos inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que voejava diante de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abençoavam com um sorriso.
«Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria, pensava que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar, operaram estranha mudança em mim.
«Francisco de Proença enganado por sua mãi, e mais ainda pelo seu orgulho, julgou que o milagre da mudança se devia a essas palavras aborrecidas que me dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mãi e convencer-me a mim do poder fascinante da sua lingua, fallou muito, penso que contou muitas anedoctas de estudantes de Coimbra, e com tal affectação o fazia que me causava tedio, posto que eu, apenas por cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e coração embebecida na minha fuga, e não tirava os olhos da assustada agulha do relogio.
«Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi proferir a palavra «theatro.» Foi uma nuvem negra que escureceu toda a alegria da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfiguração; e Francisco de Proença, que estava conversando commigo, perguntou-me se me sentia incommodada, chamando a attenção de meu pai. Expliquei o descóramento por uma vertigem costumada, e pedi licença para entrar no meu quarto.
«Ahi, d'onde pouco antes sahira douda de jubilo, entrei afflictissima. A ida ao theatro vinha baldar os nossos planos. Estava a anoitecer e eu não tinha por quem avisar Vasco. Os criados de casa tinham a confiança de meu pai, e as criadas a da minha madrasta. Entre estas, porém, havia uma que se mostrava minha amiga. Foi essa a que mandaram para ao pé de mim, logo que minha madrasta me deixou deitada n'um canapé recommendando-me, logo que o incommodo me passasse, me fosse vestindo para{184}irmos a S. Carlos. A minha angustia não me deixou reflectir. Eu disse á criada que estava muito attribulada, e só ella podia valer-me. Pedia-lhe que chegasse ella n'um instante a levar-me um escripto a D. Maria Maldonado, sem que ninguem de casa o soubesse. A criada respondeu-me que sim sem hesitação, e viu-me tirar d'entre os colchões uma escrivaninha. Escrevi algumas linhas apressadas, e ella sahiu, dando-me um beijo de Judas, quando eu, lavada em lagrimas de gratidão, lhe dava um abraço de infeliz soccorrida em extremos de afflicção.
«Principiei a vestir-me, applicando o ouvido aos passos da criada, que eu esperava anciosamente. Passou-se uma hora, e ella sem chegar. Sahi do meu quarto, perguntei a outra criada por ella: disse-me que estava na cama com uma dôr de cabeça.
«N'isto appareceu meu pai, e disse-me com ar mais grave que o seu costume:
—Menina, vamos, que está sua madrasta já na sege.
«Eu pretextei uma falta para entrar no meu quarto. O que eu queria era de fugida perguntar á criada se entregára o bilhete; meu pai, porém, acompanhou-me até ao meu quarto, viu-me pegar d'um lenço, e não me deixou sosinha um instante até me deixar na sege, onde depois entrou Francisco de Proença.
«Meu pai disse que iria a pé, e só mais tarde, porque tinha de fazer uma inspecção ao quartel.
«Que anciedade a minha até entrar no camarote! De lá procurei na platea Vasco. Se elle estivesse, ficava eu tranquilla: era signal de ter recebido o meu bilhete. Não estava, nem entrou jámais! Jesus! como me era custoso esconder as lagrimas e o alvorôço! Que horas de inferno aquellas! Logo que entrou em minha alma a suspeita de ter sido atraiçoada, tive a tentação de sahir do camarote, sob qualquer pretexto, e fugir.
«Meu pai entrou ás onze horas e meia. Estava a{185}findar o espectaculo. Procurei ver-lhe a alma nos olhos. Pareceu-me socegado, e sem reserva.
«Fomos para casa. Vi a pé todas as criadas, menos a portadora do bilhete. Reviveram as minhas suspeitas. Entendi que a infame não tinha animo de confrontar-se commigo, depois da traição.
«Procurei entre os colchões a escrivaninha. Lá estava tudo como eu o deixára, e ao pé os massos das cartas de Vasco.
«Não me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual d'ellas mais desgraçada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu quarto, para ir á cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor; mas a porta que determinava este corredor, e nunca se fechara, encontrei-a fechada! Então, sim, comprehendi que meu pai soubera tudo; e d'ahi em diante estudei a maneira de fugir de dia. A ancia facilitava-me o passo. Resolvi sahir disfarçada com um capote de criada, até encontrar um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta esperança desafogou o meu coração. Esperei o dia; e, logo que senti passos, pedi que me abrissem a porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia procurar a chave; e voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque ninguem dava noticia d'ella.
«Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi esse que o tempo não conseguiu desvanecer em minha alma. É que desde esse dia tenho chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas... Senti até o desejo de matar a criada, que me atraiçoara. Desconhecia-me! Vi-me casualmente a um espelho, e os meus olhos tinham um fulgor sinistro, os meus labios pareciam crestados pelas palavras de maldição que passaram n'elles contra o meu tyranno.
«Abri a janella do meu quarto, com a intenção de fugir por ella. Morreria, se o tentasse. Recuei diante da{186}idéa da morte sem justificação aos olhos de Vasco e de sua mãi, que me chamarasua filha querida. Lancei-me aos pés da Virgem, que fôra de minha mãi, e ergui-me sem esperança, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua misericordia.
«Eram nove horas da manhã quando se abriu a porta, e entrou meu pai.
«Não escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as não via.
—Leocadia, disse elle, vem ahi o almoço. Depois de almoçar, veste-te que vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.
«Meu pai!...» murmurei eu.
—Que queres tu Leocadia?—disse elle com um ar de fria seriedade que me gelou as palavras, e sahiu.
«Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoço. Minha madrasta entrou no meu quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que não almoçava. Disse que não podia, e ella retirou-se, passando-me a mão pela face, e dizendo com abominavel meiguice: juizinho, minha filha, juizinho.
«Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com altivez o que queria dizer a sua recommendação, e ella, carregando o sobr'olho, replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre soberba.
«A raiva não me deixou articular senão sons inintelligiveis. Minha madrasta sahira com impeto, resmungando palavras, que eu não entendi.
«Vieram dizer-me que esperava a sege. Sahi do meu quarto com a tenção de procurar de relance a criada; mas, ao cabo do corredor, estava meu pai, lançando-me um olhar severo.
«Entrei n'uma sege com minha madrasta. Meu pai entrou n'outra com Proença.
«Atravessamos Lisboa sem trocarmos uma palavra.{187}
«Apeamos no portão de uma quinta. Proença offereceu-me o braço, e perguntou-me que soffrimento era o meu que se denunciava no rubor dos olhos. Eu ia responder-lhe, com franqueza cruel, contando-lhe a minha vida em relação a elle, quando meu pai nos impoz silencio com a sua presença.
«Passeamos uma hora entre os arvoredos da quinta. Ahi não lhe sei dizer que desesperada saudade me golpeava a pedaços o coração! No ruido da folhagem parecia-me ouvir o chorar gemente do meu Vasco. O fallar de Proença, e as risadas estupidas de minha madrasta, davam aos meus ouvidos o som infernal d'uma ironia de demonios á minha angustia.
«Queria-me esconder sosinha por aquellas murtas; mas a comitiva amaldiçoada seguia-me constantemente, e as attenções delicadas de Proença provocavam-me sempre uma visagem de desdem.
«Com elle só quizera eu estar para dizer-lhe que o aborrecia; porém, não nos deixavam juntos, porque meu pai receava isso mesmo.
«Estive um instante sosinha á beira d'um tanque. Meu pai veio ahi encontrar-me a chorar. Sentou-se ao meu lado, e disse-me affavelmente, tomando-me a mão:
—Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratidão na face do amigo que tudo te sacrificou, e até a sua liberdade vendeu a preço do teu bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo, esquecendo que era pai. Cuidei que tocára o teu coração, e abençoei o céo por me ter dado um anjo d'amor onde eu poderia ter encontrado uma filha rebelde. A tua docilidade encheu-me de orgulho e alegria, orgulho por ter tal filha, e alegria por vêr tão galardoados os meus sacrificios. Deixáste o meu espirito em paz com as suas tenções. Vi que se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha confiança puz na tua razão, que eu iria jurar que ninguem teve uma{188}filha mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me enganei com o teu silencio. A vibora, que eu creára no seio, e acabava de afagar, mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... Não me interrompas... é teu pai que falla e te impõe silencio, Leocadia. Premeditavas a tua fugida; trocavas teu pai, que conheces ha dezoito annos, pelo homem que viste hontem; trocavas a tua invejada reputação pela fama que segue á mulher que deixa no limiar da casa paterna abandonada os diplomas da sua virtude. Estás já deshonrada por intenção, filha; mas eu, desgraçado pai, serei ainda a tabua de salvação para ti. Fiz a accusação. Agora vou condemnar-te: estás perdoada; beija a mão do teu juiz, porque a justiça d'um pai tem em si o reflexo da misericordia de Deus.
«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima. Levei machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de lagrimas. E eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me compaixão o olhar aguado de meu pai; porém... não saberei dizer que terrivel qualidade de sentimentos luctavam em minha alma!... Entre a cabeça e o coração havia uma barreira insuperavel. O coração regeitava o amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça curvava-se diante da magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes. Quando, porém, nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na manhã desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á minha propria reputação.
«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai esperou a resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um ramo de flores.
«Aqui tens, minha filha—disse elle—o ramo de paz entre nós. Ha-de haver dez annos que te dei um ramo{189}neste mesmo sitio. Foi quando vieste da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que está atraz de ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito no teu futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai, extremoso e pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha segunda visita a este logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos nós! Repara que eu tambem choro, Leocadia.
«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O resentimento calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse instante... só o via a elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco fugira por não poder vencer as cãs d'um velho soldado chorando...»
Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do coração desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em terreno afogueado.
E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me hão-de receber como chimera, chorava tambem.{190}
O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai a violentava a casar com Francisco de Proença.
A isto respondeu o pai, mudando de tom:
«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de que a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo, não é violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome ás cousas, a obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e cerrar severamente os ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se ha um Deus, que julgue as tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma filha, grandes contas eu daria, Leocadia, consentindo-te o alvedrio da escolha entre Vasco da Cunha e Francisco de Proença. Não quero o remorso de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito preso a minha dignidade, e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui eu que lh'o disse, e basta.
«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te, faço quanto posso por te deixar em{191}posição de a receberes, e guardares, como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais difficultoso manter-se no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os não fizeres resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens da fortuna.
«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus fóros de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu tenho querido é rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo venera para que as tuas virtudes deem assim nos olhos das pessoas que não são vulgo.
«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á deshonra e ao crime... Maria Maldonado...
«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel. Nesse olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor d'aquella mãi.
«Maria Maldonado—proseguiu elle entendendo o olhar da filha—parece que renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas acções. Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser criança, tenha ido chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas travessuras dos irmãos.
«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que lhe disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da madrasta, cuja aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se esforçasse por não denunciar a scena violenta que se dera entre elles. Leocadia fez quanto podem humanas forças. Mentiu ás averiguações de Proença com um sorriso, que tanto podia ser timidez, como ironia. Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha durante aquelle dia, e lançava um{192}olhar de revez a sua mulher, quando esta, ferida de reflexo no amor proprio de seu filho notava a frieza com que Leocadia lhe acolhia os ditos arguciosos.
Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria Maldonado.
Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho, teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.
Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que resmungára longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove horas, por causa d'uma expedição em que elle não fôra consultado.
Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar a sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se poucos passos distante da casa de Leocadia.
Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa. Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e ousou metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre atrapalhado.
«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome de seu defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher do meu general está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.
D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da ironia, e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de bocca aberta, como quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não lhe occorria idéa alguma á attribulada senhora, quando o coronel, offerecendo-lhe o braço, disse:
«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D.{193}Maria, porque em minha casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me permitte acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe dizer duas palavras.
—Aceito o offerecimento...—disse D. Maria reanimada pela confiança que pôz no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do coronel.
Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém, disse ao padre que cedesse o seu logar.
O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do seu capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando philosophicamente aquella diabrura.
Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou, ouviram-se passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar a mão a D. Maria. Vasco surgia no limiar do portão justamente no instante que sua mãi entrava pelo braço do coronel.
O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto, que tanto podia serah!comooh!comoui!
Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:
«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!
D. Maria apertou-lhe o braço, murmurando:
—Não zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a continuação da sua delicadeza...
«É um direito de que eu a não privarei, minha senhora. Serei delicado com o filho como o fui com a mãi... Por isso mesmo, rogo a v. exc.ª que mande seu filho assistir ás duas palavras que devo dizer-lhe.
—Vem, filho...—murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel estendia affectuosamente a mão a Vasco, bastante pundonoroso para regeital-a.{194}
«Recusa?!—disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria militar.
—Então, Vasco?!—acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com humildade diante do coronel.
«Quer que subamos, snr.ª D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?—disse Gervasio com mal disfarçado azedume.
—Não, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?
«Se minha mãi ordena...
—Ordeno, sim.
Já na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou assim:
«Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que minha filha, pelo facto de ser minha filha, não podia ser sua mulher. Não lh'o disse com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica a Leocadia é respeitavel, em quanto está dentro dos limites que a honra prescreve a cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra e da probidade.
«O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me não desmerecer da opinião em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos tão verdes! Pareceu-me vêr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que lhe deu o nascimento.
«Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face envergonhada diante de mim, e cortar essa mão que ainda agora hesitou apertar a minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco brio. Se o pundonor devesse aconselhar a algum de nós o despreso, o despresivel de certo não seria eu, porque o enganado, o atraiçoado não é v. exc.ª, snr. Vasco da Cunha.
«Adiante: e não se estorça, escutando-me, snr.ª D. Maria: eu estou de certo contando a v. exc.ª uma novidade.
—Duvido que meu filho...—interrompeu a pobre mãi.{195}
«Duvida que seu filho?...
—Promettesse a v. exc.ª renunciar ao amor de sua filha...
«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu desviar as suas attenções de minha filha, de modo que ella não conspirasse contra a minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?
Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um olhar que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no coração do infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que nenhuma religião inventou ainda, devia de ser!
Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial suor. Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe dava no peito. Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava então: o desejo de morrer logo alli.
A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!
Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:
—Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.
Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do coronel.
«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.
Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre criança, que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia seguinte, o vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no seio onde se embalara Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como succumbe a honra ferida pelo remorso,{196}á reprehensão do tyranno que lhe vem diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!
Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel disse:
—Pouco mais terá que me dizer, creio eu.
«Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco é importante.
—Se é uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou eu a propria que me censuro.
«Então, snr.ª D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso viver em paz com a minha familia. Visto, porém, que v. exc.ª se reprehende pela parte inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco, posso retirar-me com a certeza de que fica suspensa a sua correspondencia com a minha filha.
—A minha? interrompeu ella.
«A de v. exc.ª, queria eu dizer.
—E eu digo a v. exc.ª—replicou D. Maria sensivelmente agastada—que sou mulher, e não posso dar ás suas ironias uma resposta condigna.
O coronel soltou um frouxo de riso, cuja intenção é difficil entender. Era um destes risossubjectivos, (concedam o epytheto) cuja imagem está dentro da pessoa que ri.
D. Maria, enraivecida pela desconsideração, interrogava-o com um olhar soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraçando-a, inclinou profundamente a cabeça, recuou até á porta, e disse:
«Muito boas noites, minha senhora.»
Ora aqui está o que se passou, até que o coronel entrou no camarote.{197}
Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e dança-se; festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de Sinfães, Francisco de Proença.
Alto lá, senhor romancista! Não se escreve assim um romance. Vossê assim desacredita-se, e ámanhã não tem quem o leia. Quando a gente cuida que está no melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um carril a vapor, e vêl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite, de maneira que uma pessoa, que lhe faz o favor de o lêr, pedindo o livro emprestado, fica sem saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que fez a mãi, a madrasta, o noivo, o que fizeram todos, durante quinze dias! Isto é uma escandalosa empalmação!
Senhoras e senhores meus, v. exc.asde certo conhecem muitas meninas na posição de Leocadia. Posição trivialissima, aliás. É uma pobre rapariga a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a{198}morte não vier espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre não póde teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao noivo rico, á sociedade torpe, casa e dança por comprazer no dia em que casa, e almoça com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no outro dia, e assim successivamente, até engordar. Isto é muito simples, e muito rotineiro, não é verdade?
É. Então de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e osso como v. exc.as, fez o que v. exc.asfizeram, viram fazer, ou farão?
Alto lá! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e lesse essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de remorso por me haver feito seu confidente. Perdôa-me, minha santa amiga! Eu tive-te um instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco em que patinham muitas georgianas de chinellos, que por ahi se vendem para o harem de sujos pachás, que ao passarem a linha, lavaram a cara dos ferretes de sangue com que sahiram do açougue humano.
Se eu fizesse uma criminosa omissão de tuas lagrimas, o mesmo seria pisal-as, Leocadia.
Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido, mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardão a estas mulheres de almoeda, que, na alma, não valem mais que as de Babylonia, e no corpo não valem tanto.
Não, espirito que me vês da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e, se não rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um traço negro das que tu me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar, que ouço agora, vinha casar um murmurio melancolico á tua narração.{199}
Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna, causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de sentinella, no pateo, de dia e de noite.
Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém, o exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que tinha, era impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a para dizer «não quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir receber a benção nupcial. Firme neste proposito, esperava, com coragem e juramento de morrer, a hora da lucta horrivel, a formal desobediencia, todas as torturas que podesse inflingir-lhe o pai irritado.
Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma antiga criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da provincia, onde fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella Thereza, que eu vi na Foz.
A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza{200}chorava com ella, aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O coronel, tambem amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade do coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.
Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.
Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e continuadas lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de violentas dores de cabeça, e febre.
Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu leito. Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o sobresalto operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.
O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no coração todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.
O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os que o tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços febris de seu pai, pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora, promettendo sacrificar-se ao homem que lhe destinavam se seu pai recuperasse a saude. O coronel não ouvira o voto, mas adivinhou o silencio de sua filha.
Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez que o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou sua filha, e disse aos assistentes que se retirassem.
Pungentes palavras foram estas:
«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se para sempre os unicos{201}olhos que te viam com amor. Ficas sem parentes. De tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no Brazil, que te não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto desta cama?
—Meu pai!—exclamou Leocadia com vehemente afflicção—meu querido pai, não pense que morre...
«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração que se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente. Estou cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a da outra... a da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a paciencia... Leocadia, queres que eu acabe em paz, que eu expire abençoando-te?
—Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!—bradou ella, beijando-lhe as mãos afogueadas.
«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz com elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te escolheu. Se elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem neste mundo?! Se soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em espirito agradecer-te o sacrificio. Serás então consolada, filha, pela memoria de teu pai, que pensava fazer-te venturosa, embora se enganasse. Responde-me, Leocadia... Casas com Francisco de Proença?
Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle uma palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:
—Sim...—disse ella.
O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se no leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a cabeça esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão convulsa.
Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.{202}
O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:
«Quem mata meu marido é a senhora!
Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!
Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á sepultura... É uma filha amaldiçoada!»
Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella diz!» e sahiu, apertando a cabeça com as mãos.
A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de esperanças, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de dormir tranquillo vieram reparar-lhe as forças.
O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua mãi.
Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os preparatorios para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um confessor, que se achava já no quarto.
«Aproxima-te desta cruz, Leocadia—disse elle com energia—snr. Francisco de Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor amasse esta creatura?
—Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.{203}
«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a ti sempre digna d'elles.
Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre do lance, ajoelhou a par com ella.
E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de Leocadia.
«Estão accesas as luzes do altar.
A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»
O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!
Leocadia sahiu com sua madrasta.
Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua madrasta.
Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo. Leocadia achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a elles chorando, soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja intensidade ella não pôde explicar-me. O que me disse, para eu alcançar com os olhos d'alma a sombra da sua dôr, foi que, abraçando o pai na volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: «perdoo-te a morte, Leocadia.»
O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.
O festim de nupcias foi um funeral.
A noticia do casamento foram as cartas de enterro.
A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca mais despiu.{204}
O pinhal doPastelleirorumorejava brandamente, assoprado pelo ar da noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de chimeras volateis, brincava na alamêda das fontes murmurosas, gemia com o piar tristonho das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos cruzeiros, que a projecção da luz assombrava no chão.
Eu estava profundamente melancolico. E ao pé de mim viera sentar-se Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira a uma cancella fronteira da casa.
Acabára eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.
A narradora calara-se, e eu não ousára quebrar o seu religioso silencio.
Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo gemido. Sentira vibrarem-lhe afflictivamente{205}as fibras do coração, como se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr recordava.
E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens, descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o altar do tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do coronel, apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira, todas se me desenharam na imaginação, sempre fertil de creações funebres. Ao pé de mim estava a heroina desta tragedia, ainda formosa, ainda opulenta de encantos, flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde ella mandava continuamente o seu perfume.
Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos n'um adeus para sempre?
Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas d'ella!
Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor seria injuriar a sua saudade!
Para que te encontrei eu, santa!
Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:
«Que é? Não sei o que disse...
—Nada dizia—repliquei eu—Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe, minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim... quando a perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de entre os felizes do mundo os que vieram com o condão da minha desventura.
«Porque, meu amigo?!
—Porque entre nós ha só de commum a confidencia d'algumas horas, a confidencia que não modera os impetos d'um desgraçado amor...
«Oh! não diga, não diga isso outra vez...—atalhou{206}Leocadia pondo-me a mão nos labios—Tenha pena de mim... Chame-me sua irmã, senão arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha vida...
Beijei-lhe a mão, e murmurei:
—Até ámanhã.
«Sim? até ámanhã? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro posso ser mudada... E eu queria, meu irmão, queria acabar hoje a minha historia. Não sei que presagio me diz que não teremos outra noite assim... Mais alguns minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?
—Diga, diga, Leocadia; mas faça um juramento.
«Juramento! qual?
—Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante seu, lembre-se de seu irmão, escreva-lhe uma palavra, uma só «vivo» só isto... jura?
«Prometto, meu amigo, e não faltarei... E se lhe disser «morro» é que Deus me chamou para ao pé de Vasco...
—Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha imaginação contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...
«Eu quasi que o vi morrer.
—Viu?! É horrivel, meu Deus!
«Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proença perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me á sua vontade. Minha madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade. Fomos para uma quinta entre Cintra e Collares.
«Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevêra para Lisboa a quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mãi estavam a ares em uma das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora todos os dias, muitas vezes, e com immensa fé.
«Uma tarde, Francisco de Proença fôra á caça, e eu fui com Thereza passear para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um sitio que respirava saudade,{207}entrei por alli dentro, e fui ter a um portão de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me áquella sombra, vendo cahir as folhas, e comparando-as á queda de tantas, de todas as minhas esperanças. Estava assim absorvida, bebendo as doçuras do meu fel, quando o portão se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o padre capellão de D. Maria Maldonado!
«Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a olhar-me, e disse:
—A menina não é a snr.ª D. Leocadia?
«Sou, sim, senhor.
—Então que faz por estes sitios?! disse elle admirado.
«Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.
—Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.
«Como!?—exclamei eu—a snr.ª D. Maria Maldonado?!
—Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco—disse-me elle—e o snr. Vasco vai dar contas a Deus brevemente.
«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei n'uma tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para mim. Conheci que me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me d'alli, e não podia; ainda pedi a mão a Thereza, e já não pude dar passada. Desfalleci nos braços d'ella.
«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me sentada n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria. Fiz um esforço por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava, meu Deus, como chorava a pobre senhora!
«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o, minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para receber o seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a expirar... Morreria atormentado...» Ai... eu não sei o que{208}disse, entre gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E eu estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu nome, n'um grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle, livido como um espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de delirio... A janella cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr umas escadas, em quanto D. Maria sustinha o meu arrebatamento. «Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu, allucinada, louca de paixão, capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!
«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve; desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste para mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a salvação.»
«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia que eu estava casada!
—Falla, falla!—gritava elle—vens ser minha esposa? fugiste a teu pai? esse tyranno teve compaixão de nós?—Cala-te, meu filho!—exclamava D. Maria... Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»
«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou:
—Não, não é sua esposa... é esposa d'outro que seu pai lhe destinou!—«Vasco soltou um terrivel grito, levou as mãos á face, e foi cahir nos braços de sua mãi... «Matai-me, meu Deus!» exclamou elle.
«Agora—proseguiu Leocadia arfando convulsivamente—peço-lhe eu que vá, meu amigo, não posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu não podér fallar-lhe, ha-de lêr o resto da minha historia.»
Leocadia entrou encostada ao meu braço em sua casa. Eu fiquei alli não sei que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manhã.{209}
É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.
Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o encantára, no romance.
Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui dentro a fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.
Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser romantico em 1828.
Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em Portugal.
Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos, o cognome de «Attila de coelheira.»
Em Coimbra, chamavam-lhe ochevalier sans peur et sans reproche.
A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e bisneto de Ruy que{210}acompanhára D. Henrique a Cárquere, a cumprir um voto d'uma perna torcida.
Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que lhe custou muito puxão d'orelha.
Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor octogenario que o reprovou em mathematica.
Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se ocommendador Francisco de Proença. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma igreja, perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram responder.
Tinha destas cousas.
Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para sustentar o seu orgulho.
Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de subito. Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi vencido pelo desprezo.
Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva herdeira de dous tios millionarios que tinha na America.
Odinheiro commercialnão lisongeava o fidalgo; todavia, esta repugnancia pôde vencel-a o amor.
Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio disfarçado as amabilidades de seu marido.
Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai moribundo, e o crucifixo do juramento.
Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a chamava sua.
O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.{211}
Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da quinta dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.
Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o padre, interroga-o:
«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!
O padre tartamudeou:
—Eu sou capellão d'esta casa.
«Que casa é essa?
—De uma minha amiga—balbuciou Leocadia.
«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa amiga?
O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:
—É a snr.ª D. Maria Maldonado.
O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os olhos do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e é já em si um principio de penitencia.
«Vamos, senhora!—disse Proença.
Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o, deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu amor áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao encontro com sua mulher.
Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que preparasse o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu uma entrevista a Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra teriam sobejas occasiões. Replicou a infeliz que não podia, que estava muito doente. Disse-se-lhe que em toda a parte havia uma sepultura.
A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás intenções do marido.{212}
Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde prender a attenção de seu marido dous segundos.
Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se, pela primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.
—Quem lhe morreu?!—perguntou ella.
«A senhora!
—Como?! está delirando!
«Quem morreu foi minha mulher—» tornou elle com uma visagem ridiculamente tragica.
—Pois se morri, eu vou morrer—disse ella com angelica mansidão—o Senhor receba a minha alma.
«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.
—Não quero entender a injuria—disse ella com firmeza—Antes a morte.
«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora. Em Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de Francisco de Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora jámais dirá que eu sou seu marido: o punhal está sobre o seu seio esperando que essa palavra lhe passe os labios. Dou-lhe a vida, porque vejo o coronel moribundo que me supplica este heroismo...
—E eu não aceito a graça—interrompeu Leocadia...
«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada, para viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa criada que foi de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas, senhora, repare que eu vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito. No dia em que me desmentir, matei-a!
Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:{213}
—Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.
«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre quatro montanhas: Quer habital-o?
—Sou sua escrava, senhor.
«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?
—O que quizer, mas não posso ouvil-o.
«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»
E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João Tenorio.
Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.{214}
Se bem me lembro, já disse que Leocadia é o nome que a mulher de Francisco de Proença adoptou, desde a scena do anterior capitulo.
No decurso do romance, conservei esse nome, e já agora conserva-lo-hei até final. Podéra ter-lhe dado pseudonimo; mas tão leal quero ser á verdade, que, a não poder, por melindre e respeito, dizer o seu verdadeiro nome, escrupulisei na invenção de outro.
Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera Francisco de Proença, que, em todo o tempo da viagem, não deu signal de ser ao menos relação de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro hiate. D'aqui, D. Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado de Sinfães appareceu-lhe na despedida. Terriveis e de eterna condemnação foram as suas palavras: «Vá, sombra da mulher morta! vá, e veja sempre diante de si o punhal, que lhe espera nos labios uma palavra só... o meu nome, o nome de seu marido viuvo!»
A desgraçada quiz ajoelhar-se aos pés do seu verdugo.{215}Proença repelliu-a com um tregeito de escarneo e asco.
Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitação mal reparada, sumida entre quatro montanhas.
Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a reputava irmã bastarda, ou rapariga das affeições de seu amo solteiro. Leocadia perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta de negro: respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a esposa do fidalgo! Leocadia abraçou-se á criada, chorando, e disse: «É verdade... essa desgraçada morreu...»
O caseiro reparou n'isto, e disse á mulher que havia o quer que era de historia nos modos da senhora que viera lá de por ahi abaixo.
Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua ultima paragem antes da sepultura era alli.
Foi um chorar d'ambas de cortar o coração aos caseiros, que as escutavam.
Era rapido o deperecer de Leocadia. Não se erguia do leito, e pedia a Deus um paroxismo curto. O caseiro communicava para o Porto ao patrão o estado da senhora. Não recebia resposta.
Um dia, porém, appareceu na aldêa um homem que procurava D. Leocadia, com ordem de Francisco de Proença. Este homem diz ser medico. Examina a enferma, e diz-lhe que, por ordem da pessoa que alli a domina, deve immediatamente entrar n'uma liteira com a sua criada; e acompanhal-o. Leocadia, quasi exanime, obedece, sem saber a quem, nem para que fim.
A liteira, depois de sete dias de jornada, parou no alto de S. João da Foz, no sitio do Pastelleiro, onde eu, João Junior, encontrei Leocadia para ouvir de seus labios convulsos de gemidos essa historia triste, que eu tive a impiedade de conspurcar com algumas facecias de estragado gosto.{216}
O que ella me não contou é o que me disse Thereza, alguns annos depois, quando sua ama já era defunta, e o acaso m'a deparou n'um recolhimento, em uma villa de Traz-os-Montes.
Attendam agora, que ahi vai pendurar-se o romance no prégo philosophico com que o intitulei:DINHEIRO. Vai-se tractar de dinheiro, leitoras espirituosas; prestem-me a sua benevola attenção.
Uma tarde passava eu no Pastelleiro; sahiu-me ao encontro a caseira da quinta, e deu-me a triste nova de ter sahido, na madrugada d'aquelle dia, a senhora para não tornar. Um homem novo, acrescentou a caseira, viera buscal-a, e descera com ella pelo braço a escada, fallando-lhe com muito bom modo. Agora vou fallar de mim um pouco.
Eu fiquei esthetica e plasticamente parvo!
Quem seria o homem?! O marido, de certo, não, porque o marido, até ao dia em que falláramos, estava viuvo, e não tratava de resuscitar a mulher. Seria a historia lamuriante uma logração á minha boa fé?! Seria ella uma visionaria, uma douda, ou, peor que tudo, uma destas mulheres desabusadas que mangam dos poetas da minha força?
É impossivel! Leocadia deve ser necessariamente um anjo! É o marido que a arrasta pelos cabellos ao cepo do martyrio. Alguem lhe disse que eu vinha aqui, e o malvado não comprehendeu que eu era o sacerdote da mais santa das amisades.
E, no afôgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella bouça que lá verdeja ao fundo, enchi meu coração de tenebrosas angustias, e pedi aos meus olhos o chorar do desafôgo.
Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dôr era como o encravar do estilete que não sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem gotta de pranto; era uma{217}contricção de matar, uma abafação em que os pulmões, batendo contra o coração, pareciam espedaçar-se.
E porque? É que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres vezes immaculado do poeta. Não esperava d'alli senão a religiosa affeição da victima paciente ao consolador que dera a sua vida inteira por um dia de ventura para ella. Mais nada; porém, este pouco é o ar, o tempo, a luz, a bemaventurança do desgraçado que encontrou na terra uma mulher como Leocadia, e uma paixão como a minha.
Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no estio da existencia!
Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos meus soluços.
Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trévas inferiores, e tres dias e tres noites a minha lingua não encanou o bolo alimenticio.
A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu quarto, vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.
A brisa da tarde nunca mais se retouçou louçã pelas corollas das boninas tremulas.
Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a natureza se vestiu.
Diz tu, ó Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados da data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se partiu do Pastelleiro.
É verdade que passados esses oito dias, obedeci ao despotismo da natureza vegetativa, e ás instancias impertinentes da minha consternada Poncia.
O resultado foi sinistro: sobre uma paixão calamitosa uma indigestão pertinaz!
Convalesci com jejuns dignos d'um S. Simão Stelita, e depois... amei perdidamente uma tal Catharina... Isto é outra historia, que ha-de vir depois. Os meus continuados{218}amores tem sido para mim um systema de medicina, por que diz o grande poeta:
Que o veneno espalhado pelas vêasCuram-no ás vezes asperas triagas.
Eu curo-me sempre assim. Em 1828 era eu mais homœopatha que o proprio Hahnemann.{219}
Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.
É o caso:
Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmãos ricos no Brazil, ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na ultima das suas excursões ao centro do imperio, foram assassinados por salteadores, deixando um grande capital sem testamento.
Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a opulenta herança. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o coronel, ou sua filha, tinham morrido sem successão.
Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe repetiu os pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.
Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao passo que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam pressurosamente!
A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria com que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?{220}
Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença resolveu arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia o medico e a liteira.
Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres mezes a primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas procurações, cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença fôra a Lisboa tractar de habilitar sua mulher.
Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido para as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era casado, protestando apresentar sua mulher viva em presença de testemunhas que a conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que viesse a Lisboa a supposta defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na ilha da Madeira se alli, em tal mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a mulher de Francisco de Proença.
O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital. Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de Coimbra reviveram com salgadas ampliações.
Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella, visto que resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde estivera, e de que supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.
O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem, se o conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O apupado marido da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais impertinentes averiguadores do mysterio, aquella especie de catalepsia de sete mezes, e então dizia:
«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração cobriu-se de lucto, o punhal vingativo{221}pedia o sangue da perfida, mas o meu espirito era nobre de mais para sanccionar o assassinio d'uma debil mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta moralmente para mim. Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me vingasse. Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa a separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido como um rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam em fim a condigna penitencia da perfidia.
—Mas...—alguem lhe disse—tua mulher estava innocente?
A esta pergunta indiscreta Francisco de Proença titubeava, e não sabia se lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.
Lá se aveio como pôde com os importunos, até que um dia appareceu com sua mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando foi viva.
A presença desta pobre senhora foi, só em si, uma accusação contra seu marido. A desgraçada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se era mulher de Francisco de Proença, respondeu:
«Dizem que sou.»
—E a senhora não diz o mesmo?
«Eu sou viuva» tornou ella.
—Então qual dos senhores é viuvo? É original a mania d'ambos—replicou o jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da herdeira millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.
Não me souberam contar o resto.
O que eu sei é que cinco mezes depois recebi uma carta datada em Londres.
Resava assim:{222}
«Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai:E MORRO. Chore-me.»
Leocadia.
Em 1834 Francisco de Proença veio a Portugal. Viajára seis annos, e vinha casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a filha d'um correeiro de Manchester.
Está vivo, e velho como eu.
Acabou-se a historia.
FIM.{223}