CAPITULO VIII

Passámos a noite em excellentes redes: o somno foi reparador.A curiosidade, de que se achavão possuidos todos os refugiados, em saberem noticias da força que os vinha proteger, do que se passára desde Janeiro de 1865, era modificada pelo desejo de dar-nos o descanço depois de tanta atribulação e assim podémos desfructar repouso longo e tranquillo, que ainda durava, quando o sol já ia alto......O acampamento de João Pacheco occupava uma área de 20 braças quadradas. Um bello corrego dividia-o emduas partes, ambas sombreadas, mais do que convinha á saude, por magnificas arvores de construcção.Amontoavão-se, n'esse pequeno espaço, 18 a 20 casinhas que parecia tinhão-se encostado umas ás outras, apertando o circulo, para protegerem-se reciprocamente.Á medida que o receio dos paraguayos[51]diminuia, as palhoças ião se affastando, a procurarem mais espaço e liberdade.A meia legoa d'esse nucleo, formára-se outro ao redor do fazendeiro Francisco Dias, cujo nome servia para designar aquelle acampamento. A posição era muito pitoresca: a serra faz ahi um reconcavo, todo cercado por morros alcantilados, que fechão uma planura de pouca extensão, porém muito aprazivel.As fórmas singulares, que tomão as montanhas, a brisa constante que ahi reina, mantida por duas grandes abertas que correspondem, tornão esse lugar eminentemente ameno e saudavel.Todas as pessoas, em numero superior a 100, que compunhão aquelle acampamento, vierão comprimentar-nos no dia seguinte ao de nossa chegada, e no rancho de João Pacheco reunio-se a quasi totalidade do que o districto de Miranda continha em autoridades e fazendeiros.A desgraça extrema não se descreve: esses homens achavão-se todos de pés no chão, cobertos de farrapos, ostentando no rosto o soffrimento prolongado, o martyrio de muitos mezes.Obrigados ao trabalho para viverem, manejavão, com ardor digno de admiração, o machado e a fouce e luctavão com todas as dificuldades da inexperiencia n'esse serviço pesado, para proverem o sustento de suas familias.As mulheres, por seu lado, não se esquivavão da mais ardua tarefa. Causava dó vêr debeis moças socando, por esforço de braços, o milho para reduzil-o a farinha ou descascando no pilão o arroz.Todos com persistencia exemplar e espirito immenso de resignação, curvavão-se ás crueis exigencias da occasião e, cumprindo com a imperiosa lei do trabalho, vivião vida penosa e altamente precaria, depois do esbulho de todos os seus bens e dos dolorosos trances de fuga ante um inimigo feroz e implacavel.CAPITULO VIIINo dia 24 de Março, partimos em direcção ao rio Aquidauana, cuja margem direita deviamos explorar, como recommendavão-nos as instrucções.Alguns moradores dos Morros nos acompanhavão n'este reconhecimento, em que havia perigos a correr, por qualquer eventualidade possivel, quando não provavel.O Sr. João Pacheco, entre todos, primava pela dedicação e energia; costumado a andar de pé longas distancias, servia-nos de excellente guia, caminhando com toda a galhardia diante de nossas cavalgaduras, que com difficuldade seguião-lhe os ligeiros passos.O rio Aquidauana, em Marco de 1866, formava a linha divisoria material entre o Brasil e a republica doParaguaye o districto todo de Miranda, a mais linda porçãoda provincia de Mato Grosso, achava-se occupado debaixo do titulo de districto militar de Mbotety[52].A margem esquerda era guardada por um forte destacamento e cuidadosamente rondada em toda sua extensão, e, bem que, desde Maio de 1865, o presidente Lopez houvesse prohibido[53]a transposição do rio aos seus soldados, as correrias, no outro lado, tinhão-se dado varias vezes, com grande susto da população dos Morros.Iamos assim, apezar da falta de meios para isso, effectuar um verdadeiro reconhecimento militar.Dirigindo-nos pois para o acampamento de Francisco Dias, que distava do nosso meia legoa, como já o havemos dito, reunimos ahi mais alguns companheiros, com os quaes galgámos a encosta oriental da bacia em que está encerrado aquelle acampamento.A trilha, aberta pelos cascos de animaes, dá difficil transito, subindo as rampas abruptas d'aquellas fragosidades.De certa altura, dominámos os picos vizinhos: alargou-se-nos o horisonte; as grandes cópas dos madeiros ficárão ao nivel comnosco e nossos olhares se atiravão além e bem ao longe.No cume, a paizagem tomou amplidão immensa. Erão campos, a perder de vista, verdejantes aqui, azues mais adiante e roxeados nos extremos limites, cortados por grupos raros de bosques, ao passo que continua mataria mostra o curso das aguas do Aquidauana.Taes aspectos da natureza são profundamente melancolicos: o espirito como que se atira por essas immensidades, que recordão o indefinido do oceano, sem terem comtudo aquella magestade que encanta a alma, lançando-a n'uma prostração incomprehensivel.Para o habitante do litoral, as vastidões terrestres acordão milhares de recordações saudosas; suave tristeza se apodera de nós e transporta o espirito ás bellas praias do mar.Outro sentimento contristador dominava-nos então.Atraz de um morrete longinquo achava-se a villa de Miranda, presa do estrangeiro e fogos, em um ponto e outro pela campina, lembravão a occupação inimiga.Muitos dos nossos companheiros se embebecêrão então na contemplação sombria que dominára o mouro, quando, do alto da rocha dos Suspiros, elle lançára as derradeiras vistas sobre os formosos campos de Granada e talvez as palavras de Aixa fossem de novo bem cabidas, como exprobração merecida.Essa scena desappareceu no descambar da serra.Por todos os lados novamente cercárão-nos matas espessas, e o sol, a furto, desenhava, por entre a folhagem, seus circulos fugaces no caminho.Os ribeirões succedião uns aos outros, tombando de quéda em quéda e despenhando-se pelos declives abaixo.Como primeiros exploradores, fomos-lhes applicando nomes que nos parecião mais convenientes, ora procurando um distinctivo que os tornasse facilmente conhecidos; ora consagrando-os á lembrança de nymphas classicas ou americanas; assim passámos o ribeirão da Congonha[54], mais adiante o de Euterpe e, meia legoa além, o de Catharina Pazes, uma lindissima quiniquináo, que habitava nos Morros.Junto a este ultimo, tomámos ligeira refeição, comendo, debaixo de aprazivel sombra, a matalotagem preparada de vespera e bebendo a pura lympha d'aquelle bello riacho.Continuando a descer, achámo-nos em breve na planicie, abrindo-se ante nós os campos, que levão aCamapuan[55], illuminados então pelo brilho do sol em seu zenith.Tencionavamos visitar dous aldeamentos indios, collocados a 7 legoas do ponto de nossa partida: por isso tomavamos direcção E., da qual deviamos divergir para S., quando procurassemos as margens do Aquidauana.Assim pois caminhando, n'aquelle primeiro rumo, mais tres legoas, fomos pousar junto ao lindo corrego dasPalmeiras, na casa do cidadão Valerio de Arruda Botelho que recebeu-nos franca e amavelmente.Ahi tivemos um agradavel dia de falha, que nos proporcionou a jovialidade de nosso amphitryão.Foragido de Miranda, Botelho conservára-se, por muitosmezes, occulto com sua familia nas matas de sua propria fazenda do Embauval, perto do rio Miranda, apesar da passagem continua dos paraguayos por suas terras.Afinal transportára-se com crianças, e cargas para a margem direita do Aquidauana, depois de uma perigosa viagem de dias, entre as rondas inimigas.O lugar de sua nova habitação era encantador: magestosos boritys, banhando os pés nas aguas rapidas do corrego, se erguião fronteiros a ella, e na fralda de um morro abaulado coberto de vegetação, que se estende para N. E., formando com outras pontas isoladas, um systema perfeitamente distincto. A grande serra corre para S., elevada como sempre e dependurada desde ahi sobre o ribeirão das Pirapitangas, que deviamos atravessar quatro vezes.Deixando as Palmeiras no dia 26, em companhia de Valerio fomos á aldêa doOauassú[56]onde alguns indios quiniquináos havião procurado refugio, depois de expulsos de suas palhoças doEuagaxigo, além Aquidauana.Tomando sensivelmente a E. N. E., fomos do Oauassú ao aldeamento daBoa-Vista, formado pelos indios laianos, distante do outro tres e meia legoas. O caminho de communicação era uma apertada trilha atirada por sobre lindos campos, ora perfeitamente planos, ora dobrados mais ou menos profundamente.De quando em quando, fraldejavamos um d'aquelles picos destacados ou passavamos por abertas estreitas entre morretes, cujos córtes a prumo obrigavão a attenção.A aldêa da Boa-Vista estava situada n'um outeiro encostado a varios morros e constava de cincoenta a sessenta ranchos de palha.Os indios nos acolhêrão do modo o mais sympathico e cordial. Achámos um rancho feito de proposito, em attenção á nossa visita e ahi nos obsequiárão com grandes mostras de respeito.Os laianos da Boa-Vista moravão, antes da invasão, a uma e meia legoa da villa de Miranda, e d'entre elles se tiravão os melhores camaradas para o trabalho de roças, serviço de canôas ecostêode gado. Como quasi todos os indios, são excellentes cavalleiros e domadores destemidos.Em honra á nossa chegada, o capitão José Vieira organisou dançados, que durárão até alta noute, formados tão sómente pelo desejo de festejar-nos, posto que faltasse o incentivo obrigatorio para taes divertimentos a—aguardente.Diante de um pifaro e um tambor, collocárão-se tres rapazes e igual numero de raparigas, os quaes, de mãos dadas, avançavão e recuavão, imitando os gestos e movimentos titubantes dos embriagados.Conforme a perfeição ou inexactidão na imitação, colhião os dançadores applausos dos circumstantes ou apupadas, o que fazem batendo a mão aberta de encontro á boca.A toada é sobremaneira monotona; o dançado igualmente; quando não ha o elemento que transforme o fingido em triste realidade: então todos tem n'elle parte com ardor e furia indescriptiveis, até cahirem completamente exhaustos.Ao som d'aquella musica insipida, adormecemos.Depois de combinarmos, no dia seguinte, com Vieira, sobre o ponto de reunião em que elle devia se achar com vinte de seus indios[57]junto ao Aquidauana, despedimo-nos d'aquella gente simples, voltando á casa de Valerio, onde de novo falhámos um dia.CAPITULO IXAcabada a digressão, dirigimo-nos no dia 29 para a margem direita do rio Aquidauana.Atravessando o ribeirão dasPirapitangas, fomos seguindo, de novo, a serra na direcção S., até chegarmos junto á margem do rio, depois de 21⁄2legoas de marcha. Os aspectos do terreno continuão os mesmos.As margens são aprumadas, cobertas de vegetação vigorosa, na qual avultão os elegantes taquarussús, que fórmão grupos compactos, entremeados com elevadas macaúbeiras.O Aquidauana é o mais bello rio caudal, que se encontra em todo o districto de Miranda: as mais lindas paizagens se fórmão em seu correr; as mais animadas scenas se achão em suas vizinhanças.A abundancia de pesca e caça ahi se encontra por modo prodigioso.A natureza virgem, os viventes que lhe infundem o movimento, aquellas matarias tão verdejantes, aquellas aguas puras e crystallinas a reflectirem um céo de saphyra, a serra azulando ao longe, levão o extase a uma alma artistica e a atirão n'essa alegria pura e suave, repassada de tristeza, que Horacio tão bem exprimio pelo—flebile nescio quid.Lembrar-nos-hemos sempre de um ponto de vista, que attrahiria os olhares do ente menos admirador do bello.O rio, ahi, descendo em rapidacorredeira, morre de repente n'uma bacia, que se abre regularmente no reconcavo de barrancos, cortados a pique.Ahi as aguas dormem: circulos ligeiros mal encrespão a superficie,—ultimos impulsos da correnteza—e, em ondulações concentricas, vão desapparecer de encontro ás margens.Ora a brisa geme na folhagem delicada dos taquarussús e brinca sobre as aguas; ora é o vento, que, vergando os flexiveis colmos, anima aquella scena com harmonia mais grandiosa. Assim a vimos.No alto das margens alcantilosas, as arvores estremecião aos embates de forte sopro: as elevadas cannas se enroscavão, se confundião, se debatião frementes, ás vezes, ligando os flexuosos topos ás copas das macaúbas, outras abatendo-os até tocarem o chão.O sereno lago, perturbado pelas lufadas, reflectia, de quando em quando, o sombrio de nuvens que orlavão o azul celeste das abertas, por entre as quaes o sol estirava raios destacados de scintillante luz.Centenares de passaros esvoaçavão: uns tocados pelovento, com as azas meio encolhidas; outros cortando, com vôo mais firme, a ventania e suspendendo-se n'ella. Muitas marrequinhas brincavão n'agua, sobre a qual brancas garças deslisavão-se veloces, ao passo que lontras fazião reluzir ao sol o pello lustroso, mergulhando de continuo e nadando com ligeireza.Tudo isto gritava, tudo isto piava, unindo mil vozes diversas, produzindo mil sons differentes que, combinados no espaço, davão á natureza aquella animação e vida, só proprias das obras do Creador.Outra vez vimos essa bacia debaixo de novo aspecto. Tudo era calma; as aguas não se movião; as arvores não se mexião.O silencio da natureza como que se deixava ouvir; permitta-se-nos essa expressão arrojada.Um calor abrasador abatia e enervava a vida; luz deslumbrante penetrava tudo.A mataria, illuminada nos seus recantos mais sombrios, não tinha mysterios; as arêas apparecião no fundo de esverdeadas aguas, e só cardumes de peixes, symbolo do mutismo, nadavão em todos os sentidos.....O rio Aquidauana nasce de vertentes da grande serra de Maracajú[58]. Recebe, depois de algumas legoas de curso, os rios Cachoeirinha e Cachoeira, tomando desde então importante volume de aguas, engrossado pelos ribeirõesDous Irmãos, doTaquarussúeUacôgo[59], que entrão pelamargem esquerda e deJoão Dias, corregos doPaxexie daPaixão, que desaguão pela margem direita.Do ribeirão de João Dias, onde existe a ultima corredeira, o seu curso é livre de obstaculos, com profundidade quasi constante de 8 a 10 palmos, e largura média de 30 braças.Navegavel para grandes canôas n'uma extensão de quasi 40 legoas, fenece no rio Miranda pelo lado direito, confundindo as suas aguas claras e puras ás revoltas e barrentas d'aquelle rio.O seu nome é de origem uaycurú.Um capitão dos cadiuéos tem a mesma denominação, com o accrescimo de um T.—Taquidauana.Não nos podérão explicar o que significa.Nas matas d'esse rio habitão os animaes vulgares da fauna brasileira:onças(felis variarum specierum),antas(tapirus americanus),lobinhos,jaguatiricas, (felis pardalis, Neuwied),raposas,macacos, (simia v. sp.),tamanduás,tatús(Dasypus v. sp.), muitosqueixadas(dicotyles labiatus), etc.;lontras(lutra),ariranhas(lutra brasiliensis) ecapivárasatravessão, a todo instante, a correnteza; em seus campos proximos pullulãocervos(cervus paludosus, Desm.),veados(cervus rufus, c. campestris),emas(rhea americana),ceryemas(dicholophus cristatus.); nos cerrados,jabotís(testudo tabulata), muitascobrasvenenosas (crotalus horridus, bothrops Neuwiedi, b. surucucú, boipébas, urutús, etc.) e reptis de outras sortes.Em aves ha osjacús(penelope marail),jacu-cácas(penelope jacucáca, Spix.),jacutingas(penelope leucoptera, Neuwied),mutuns(crax v. sp.),jaós(crypturus noctivagus)earacuans[60],tucanos(rhamphastos v. sp.),araçaris(pteroglossus), muitaspombas,gralhas,periquitos(psittacula v. sp.),papagaios, (psittacus v. sp.),aráras, enfeitão a ramagem das arvores, ao passo que osinhumas[61](palamedea chavaria),jaburúsoutuyuyús[62],tabuyayás[63](ciconia m.),socós(ardea),curicácas(ibis melanopsis) e bandos de numerosospatos(anas) emarrequinhaspousão nas ribeiras ou se agrupão nos rochedos e insuas do rio. (Nota I)Em pescado o Aquidauana é fartissimo.Abundão osjaús, ossorubys,dourados, em certos mezespacús,pirapitangas,corimbatásepacu-pebas,papa-terras(geophagus, Heckel),raias, etc., etc.Ojaúé o maior peixe dos rios de Mato-Grosso: extremamentevoraz, não duvida atacar o homem[64]. A resistencia que tal monstro faz, quando agarrado ao anzol, é prodigiosa e não são raros os exemplos de grandes canôas viradas na sua pesca.Osoruby(platystoma), chamado mais commummente na provincia—pintado—, é peixe de pelle, com malhas pardacentas em fundo escuro. A cabeça é chata, com appendiculos como a dos bagres e occupa um terço do comprimento total: a carne é saborosa, bem que um tanto forte.O mais abundante e ao mesmo tempo um dos mais delicados peixes de Mato-Grosso é opacú, (prochilodus, Agassiz) tambem chamadocaranha, do qual Pison diz: «melioris saporis et nutrimenti habetur, quàm sargus Europeus»: tem côr pardacenta, azulada n'agua, escamas pequenas com reflexos dourados; geralmente 2 a 3 palmos de comprimento. É achatado.Em certas occasiões, dá tal abundancia de gordura, que alimenta proveitoso commercio de azeite. A quantidade é prodigiosa.Nas enchentes do Paraguay, ospacússeguem o movimento das aguas em grandes cardumes, que ficão, na retirada d'ellas, presos em poças dos campos e lagôas, onde morrem á mingoa d'agua e por causa da elevada temperatura.O ar fica então inficionado muitas legoas em derredor.Contárão-nos que, em certos pontos perto do rio Paraguay,fica o chão forrado, em extensões importantes, com camadas de 2 a 3 palmos d'esses restos.A gordura do pacú é preconisada para varias molestias: dizem ser de grande efficacia na pica malacia, pelo enjôo que causa ao enfermo.Um dos peixes, com razão, mais apreciados dos rios da provincia, é apirapitanga(species characini), chamado em Goyazjurupensen(?) e pelos indios guanásararáitiissi(peixe de rabo vermelho). As suas dimensões nunca são extraordinarias; attinge no maximo a tres palmos de comprido; mais commummente regula de um 1 a 2 palmos. A carne, com listras vermelhas, é consistente, saborosa, bem que, como a dos outros peixes de rios, seja crivada de perigosas espinhas bifurcadas.As pirapitangas sobem os ribeirões e corregos até onde encontrão agua sufficiente. Muitas vezes, ficão retidas em poças mais fundas até a época das enchentes. No corrego dos Laianas apanhámos algumas de bom tamanho, apezar da agua ter apenas1⁄2palmo de profundidade.No Aquidauana é muito rara a presença dos monstruosossucurys, assim como a das perigosissimaspiranhas(myletes macropomus).São habitantes predilectos do grande Paraguay.Da voracidade da piranha se ha fallado sufficientemente: nada resiste aos dentes aguçados de myriades d'aquelles peixes[65], que no ardor da fome, devorão-se uns aos outros, com rapidez prodigiosa.Ossucurys[66](boa murina), verdadeiros representantes antediluvianos, chegão a dimensões que os tornão entes deslocados na natureza proporcional de nosso globo. Vimos uma d'essas serpentes, com 30 palmos de comprido e 15 de circumferencia na barriga; era comtudo muito nova, pois que o nosso amigo, o tenente de guarda nacional, João Faustino do Prado nos asseverou attingirem muito além de 6 braças, contando-nos a este respeito um episodio curioso nas historias de sucurys.N'uma viagem a Cuyabá, passando elle pelos pantanaes do Piquiry, observára de longe um touro, o qual disparava em todos os sentidos, parecendo retido por um extenso cipó, que conheceu era um enorme sucury. De mais perto notou aquella curiosa contenda. A serpente, depois de estirar-se o mais possivel, retrahia-se de vagar, trazendo, de rastros ao chão, o seu adversario exhausto.Com o approximar de gente, o touro deu um arranco desesperado e partio á disparada, bramando loucamente. O sucury deu de si até ficar da grossura de tres dedos: depois começou a encolher-se, arrastando a presa que, extenuada por tantos esforços, de novo se deixára cahir.A victoria era certa; o final conhecido.Um novo elemento perturbou a peripecia natural. O facão do homem, de um golpe, cortou o sucury e deu a liberdade ao touro. Este, erguendo-se de um só pulo, sacudioa cabeça e, arrojando-se pela campina, com o tronco da serpente pendurada ao pescoço, em breve desappareceu d'aquelle theatro, onde devêra achar a morte.Ás vezes, os sucurys atacão as onças e antas com exito[67]. Entretanto n'uma margem do Paraguay, o capitão Francisco Domingos da Costa Pereira vio uma onça arrebentar um sucury, por quem fôra enlaçada.Com uma facasinha o homem defende-se perfeitamente d'essas serpentes: basta uma ligeira picada, levantando as escamas para obrigal-as a desapertar os seus fataes enleios.Já em occasião opportuna fallámos sobre os ferrões que os sucurys tem ao redor do anus, e o que pensamos a tal respeito[68].As rochas, sobre que rolão as aguas do Aquidauana, são de grés; em muitas partes, o seu leito é completamente silicoso, em outras, argiloso; lamacento, raras vezes. N'estes ultimos pontos reunem-se oscorimbatás[69](schizodon, Agassiz),piáus,traíras(erythrinus),bagres, etc. Osseixos rolados abundão nas margens e entre elles osilexe ossilicatosde ferro.As enchentes do rio nunca sobem a grandes alturas; raramente trasbordão, não só pela elevação dos barrancos, senão pela facilidade com que se escoão as aguas no rio Miranda, o qual corre por campos baixos e faceis de serem inundados.CAPITULO XDo primeiro pouso junto ao Aquidauana, seguimos a O. fraldejando sempre a serra, que se eleva, cada vez mais, com pincaros escalvados e talhados até a base.Os sitios são agrestes e sombrios; as plantas sexatiles se agrupão de lado a lado da trilha que sobe e desce, conforme as dobras extremas da serrania.De vez em quando, descobrem-se as corredeiras do rio, cujo ruido se ouve de longe; de vez em quando descortinão-se pedaços de campo distante, com lindas arvores, a modo de vergeis.N'um ponto, a vereda parece ir esbarrar n'um córte a pique de montanha: a paizagem é ahi muito curiosa e eminentemente pitoresca.Penetra-se então n'uma fenda monstruosa que dá passagem ao viajante, entaliscando-o n'um corredor humido, cujas gotejantes paredes achão-se tapetadas por achamalotadasbegonias,argyrostigmas,capillus-veneris,adiantos, etc.Depois, sahe-se em campo: ahi acaba a serra[70].As campinas, queimadas pouco tempo antes, reverdecião depois das ultimas chuvas, e se estendião vicejantes, a perder de vista, como tapiz vistoso salpicado de flôresinhas mimosas[71].Caminhámos 21⁄2legoas até o corrego do Paxexi, onde fizemos pouso, aproveitando ranchos abandonados e em ruinas.A noite cahio serena: a trovoada do dia dissipára-se ao sopro de forte ventania e tão sómente fugaces relampagos rasgavão um massiço de nuvens, amontoadas em um ponto do horisonte. Roncos longinquos, intervallados, mal se ouvião, rompendo o silencio crepuscular, tão solemne n'aquellas paragens.A lua subio então, espargindo sua meiga luz sobre a natureza e infundindo aquella doce tristura, que acompanha essas noites de calma e tranquillidade.O dia da Paixão de Christo, em que estavamos, mais nos engolfava n'essa meditação melancolica, que, semméta, sem direcção certa, se atira no espaço, e durante a qual os olhos da materia se fixão, sem vista, n'um ponto, ao tempo que os olhos da alma vagueão pelos mundos além creados, pelo indefinido e indeterminado.De repente, atraz de um morro erguêrão-se nuvens rubras, densas na base, flocadas acima e adelgaçadas. «São os paraguayos, disse-nos o velho indio Palhá, que estão vaquejando no Taquarussú, a 5 legoas d'aqui; queimão á noite os campos, para chamar o gadoesparramado(espalhado)...»Sahindo de Paxexí com a madrugada, fomos em direcção ao porto de D. Maria Domingas, o qual deviamos examinar como ponto de passagem para as forças. Estavamos então a uma legoa de distancia d'elle.Já se havião reunido a nós os indios da Boa-Vista, que vinhão constituir a nossa guarda de protecção. Montados em bois, marchavão uns atraz dos outros, com a lentidão grave d'aquelles ruminantes, a qual não sería alterada, ainda quando apparecessem os inimigos.Já começavamos então a avistar grandes manadas de gado: aspontaspastavão em compactos grupos, que se apartavão com a nossa chegada, fugindo as vaccas e bezerros, ao passo que os touros paravão, para olhar-nos com desconfiança e sobranceria. Ás vezes, de um ponto afastado, corria ao nosso encontro um d'elles; estacava junto ao caminho e ahi nos esperava com ar de desafio e resolução. Bastava, comtudo, um simples grito, um aceno para desvial-o, senão para afugental-o bem longe[72].O caminho vai sempre seguindo o rio, o qual ora sahe em campo limpo, ora d'elle se separa por uma mata espessa e sombria.Passavamos, de quando em quando, por tapéras[73]; erão ranchos vastos cobertos deherva de S. Caetano[74], rodeados de urzes e espinhos; erão moendas, engenhos, queimados em parte, cortados pelos machados do invasor; em toda a parte, signaes de desolação e destruição inutil e barbara. Só a natureza, no brilhantismo de seus verdores, consolava ao derredor as vistas, cançadas de tamanhas provas de vandalismo; ella que, embora desfigurada pela mão do homem, procura de continuo reparar os estragos que tenha soffrido.O porto deD. Maria Domingas, chamado pelos indios,alinána, é uma larga aberta na mata. Dava passagem aos carros que, das fazendas da margem direita do rio, se dirigião para a villa de Miranda.Esse lugar fôra testemunha de uma das poucas scenas de resistencia no longo periodo da occupação paraguaya e apresentava gloriosas mostras d'aquelle feito de armas: varias arvores varadas por balas e cinco ossadas humanas.Em Maio de186, dezeseis indios terenas, occupadosem fazer ahi rapaduras, tinhão sido atacados por duzentos paraguayos, os quaes, recebidos de dentro da mata por um fogo vivo e certeiro, em poucos minutos forão obrigados á retirada, abandonando não só mortos como feridos, que morrêrão ás mãos de seus encarniçados inimigos.Cada vez que uma caravana india passa por junto d'esses restos, levanta-se um clamor immenso: uns quebrão os ossos, outros insultão as caveiras, cuspindo n'ellas e calcando-as aos pés; outros riem-se estrepitosamente e dirigem motejos aos manes paraguayos.Prohibimos demonstrações d'essa barbara expansão ao nosso sequito, que, a custo, conservou-se calado, ao passar duas vezes por diante dos alvejantes craneos, na entrada e sahida da mata: entretanto alguns indios, descendo de seus bois, apanhárão uns ossos que levárão escondidos.O porto de D. Maria Domingas offerecia as melhores condições para uma passagem de forças, estando a outra margem occupada pelo inimigo. Pouco frequentado, afastado da estrada por onde os paraguayos presumião dever descer a nossa gente, com váo seguro e commodo, com uma boa mataria para protecção na transposição, era além d'isso o ponto onde convergião todos os caminhos do districto e cuja posse cortava as communicações entre os postos do Taquarussú e Souza, então existentes mais proximos do rio e que deviamos primeiro atacar.Ahi decidimos que se effectuaria a passagem e trabalhámos sempre n'esse sentido, apezar dos estorvos que se levantárão contra essa escolha razoavel e conveniente. Como, entretanto, não se realisárão as nossas previsões e falhárão os nossos planos pela demora das forças brasileirase retirada dos paraguayos em Agosto, deixaremos de parte essas questões que tinhão interesse immenso no momento e que o terião no futuro, se houvessem surtido effeito as providencias, que n'aquelle sentido tomámos.As terras, que atravessámos, pertencião a D. Maria Domingas de Faria, senhora estimada pelas suas excellentes qualidades e virtudes. As suas posses importantes estèndião-se em toda a margem direita e esquerda do Aquidauana e n'ellas estavão estabelecidos os seus parentes mais chegados e filhos, entre os quaes temos o prazer de contar um amigo, o sympathico fazendeiro—João Mamede Cordeiro de Faria.Tangidos violentamente de suas propriedades pela invasão, havião todos esses pacificos habitantes fugido de suas fazendas, indo, depois de mil trabalhos e peripecias, se refugiar a 50 legoas d'ahi, junto ao rio Taquary, a 7 legoas do lugar onde acampou a força no Coxim.Sahindo do porto de D. Maria Domingas, fomos pousar no laranjal de Francisco Dias, que estava então acoutado nos Morros, e, no dia seguinte, chegámos ao porto do Pires, a uma legoa do entrincheiramento paraguayo.Ahi esperava-nos a maior contrariedade. Haviamos combinado com vinte e tantos moradores dos Morros, para que nos fossem esperar n'aquelle ponto, bem armados e com munição sufficiente para defesa, no caso de sermos perturbados na ultima legoa, que restava fazer.Apressáramos a viagem, com o fim de não nos tornar esperados; deixáramos de parte muita curiosidade que examinar; haviamos desprezado o entretenimento de pescas e caçadas em completa perda.Verificando os nossos recursos, o municiamento e armas, achámo-nos com 18 pessoas mal armadas e municiadas só a um ou dous cartuxos.Os indios revelavão receio latente: a cada instante ouvião toques de caixa e cornetas, os quaes, entretanto, apezar de nossa boa audição, nunca podémos perceber.A cada instante nos avisavão que os paraguayos estavão em vigilancia continua e que erão muito valentes. Accrescia ainda que, n'aquelle dia, haviamos desconfiado da passagem de gente para a margem direita, por causa de pontas de gado que parecião vir tangidas dos lados do porto do Souza e que, por diversas vezes, havião passado diante de nós, n'uma corrida tremenda.Assim pois, perigos nos cercavão sem a protecção conveniente para os casos de aperto: continuar, fôra temeridade improficua; proseguir, passo inconsiderado.Resolvemos por isso fazer-nos na volta dos Morros, cortando campo em direcção a um dos picos da serra em que ficava a nossa pousada.Assim, voltámos as costas ao sul, havendo préviamente lançado fogo á campina que, abrasada pelo sol, incontinente despedio ao céo rolos de negrejante fumaça.Minutos depois apparecia, na margem de lá, outra fumaça, em signal de aceitação de desafio, como usavão os paraguayos.Desappareceu, porém, debaixo do formidavel aguaceiro que, por mais de meia hora, despejárão as nuvens, protegendo a nossa retirada e impedindo qualquer tentativa de perseguição.N'esse mesmo dia (2 de Abril) chegámos ao nosso acampamento,onde encontrámos os commodos que tanto consolo nos havião dado depois dos dias penosos de nossa primeira viagem; ficando em nós, d'aquella digressão ás bellas margens do Aquidauana, a immarcessivel recordação de dias alegres e felizes.CAPITULO XIDepois de alguns dias de obrigatorio descanso, remettemos ao commando das forças, acampadas então no rio Negro, os desenhos e relatorios de nossa viagem ao Aquidauana, cuidando desde então nos meios de passagem d'aquelle rio, a qual, segundo as communicações que recebiamos, devia se effectuar em meiados de Junho.Esperámos comtudo desde Abril até principios de Julho. As mil difficuldades que embaraçárão a marcha das forças, a peste, a fome que acommettêrão os nossos infelizes soldados, o fallecimento de officiaes e afinal do commandante o bravo general Galvão, erão as causas d'essa demora desesperadora que, retendo a expedição em mortiferos paúes, ia, mezes depois, produzir a medonha enfermidade,—a paralysia reflexa—, adquirida n'aquelle periodo fatal.Não assistimos ás scenas desoladoras do rio Negro; não presenciámos os duros trances em que se vio a columna:haviamos, de antecedencia, pago pesado tributo, com quinhão consideravel de soffrimentos.Á nossa penna, além d'isso, faltão a precisa energia, as côres vivas para descrever tão extremas necessidades, a força e enthusiasmo para traçar a abnegação, o heroismo e resignação que, n'aquelles momentos tormentosos, patenteou o nobre soldado brasileiro.

Passámos a noite em excellentes redes: o somno foi reparador.A curiosidade, de que se achavão possuidos todos os refugiados, em saberem noticias da força que os vinha proteger, do que se passára desde Janeiro de 1865, era modificada pelo desejo de dar-nos o descanço depois de tanta atribulação e assim podémos desfructar repouso longo e tranquillo, que ainda durava, quando o sol já ia alto......O acampamento de João Pacheco occupava uma área de 20 braças quadradas. Um bello corrego dividia-o emduas partes, ambas sombreadas, mais do que convinha á saude, por magnificas arvores de construcção.Amontoavão-se, n'esse pequeno espaço, 18 a 20 casinhas que parecia tinhão-se encostado umas ás outras, apertando o circulo, para protegerem-se reciprocamente.Á medida que o receio dos paraguayos[51]diminuia, as palhoças ião se affastando, a procurarem mais espaço e liberdade.A meia legoa d'esse nucleo, formára-se outro ao redor do fazendeiro Francisco Dias, cujo nome servia para designar aquelle acampamento. A posição era muito pitoresca: a serra faz ahi um reconcavo, todo cercado por morros alcantilados, que fechão uma planura de pouca extensão, porém muito aprazivel.As fórmas singulares, que tomão as montanhas, a brisa constante que ahi reina, mantida por duas grandes abertas que correspondem, tornão esse lugar eminentemente ameno e saudavel.Todas as pessoas, em numero superior a 100, que compunhão aquelle acampamento, vierão comprimentar-nos no dia seguinte ao de nossa chegada, e no rancho de João Pacheco reunio-se a quasi totalidade do que o districto de Miranda continha em autoridades e fazendeiros.A desgraça extrema não se descreve: esses homens achavão-se todos de pés no chão, cobertos de farrapos, ostentando no rosto o soffrimento prolongado, o martyrio de muitos mezes.Obrigados ao trabalho para viverem, manejavão, com ardor digno de admiração, o machado e a fouce e luctavão com todas as dificuldades da inexperiencia n'esse serviço pesado, para proverem o sustento de suas familias.As mulheres, por seu lado, não se esquivavão da mais ardua tarefa. Causava dó vêr debeis moças socando, por esforço de braços, o milho para reduzil-o a farinha ou descascando no pilão o arroz.Todos com persistencia exemplar e espirito immenso de resignação, curvavão-se ás crueis exigencias da occasião e, cumprindo com a imperiosa lei do trabalho, vivião vida penosa e altamente precaria, depois do esbulho de todos os seus bens e dos dolorosos trances de fuga ante um inimigo feroz e implacavel.CAPITULO VIIINo dia 24 de Março, partimos em direcção ao rio Aquidauana, cuja margem direita deviamos explorar, como recommendavão-nos as instrucções.Alguns moradores dos Morros nos acompanhavão n'este reconhecimento, em que havia perigos a correr, por qualquer eventualidade possivel, quando não provavel.O Sr. João Pacheco, entre todos, primava pela dedicação e energia; costumado a andar de pé longas distancias, servia-nos de excellente guia, caminhando com toda a galhardia diante de nossas cavalgaduras, que com difficuldade seguião-lhe os ligeiros passos.O rio Aquidauana, em Marco de 1866, formava a linha divisoria material entre o Brasil e a republica doParaguaye o districto todo de Miranda, a mais linda porçãoda provincia de Mato Grosso, achava-se occupado debaixo do titulo de districto militar de Mbotety[52].A margem esquerda era guardada por um forte destacamento e cuidadosamente rondada em toda sua extensão, e, bem que, desde Maio de 1865, o presidente Lopez houvesse prohibido[53]a transposição do rio aos seus soldados, as correrias, no outro lado, tinhão-se dado varias vezes, com grande susto da população dos Morros.Iamos assim, apezar da falta de meios para isso, effectuar um verdadeiro reconhecimento militar.Dirigindo-nos pois para o acampamento de Francisco Dias, que distava do nosso meia legoa, como já o havemos dito, reunimos ahi mais alguns companheiros, com os quaes galgámos a encosta oriental da bacia em que está encerrado aquelle acampamento.A trilha, aberta pelos cascos de animaes, dá difficil transito, subindo as rampas abruptas d'aquellas fragosidades.De certa altura, dominámos os picos vizinhos: alargou-se-nos o horisonte; as grandes cópas dos madeiros ficárão ao nivel comnosco e nossos olhares se atiravão além e bem ao longe.No cume, a paizagem tomou amplidão immensa. Erão campos, a perder de vista, verdejantes aqui, azues mais adiante e roxeados nos extremos limites, cortados por grupos raros de bosques, ao passo que continua mataria mostra o curso das aguas do Aquidauana.Taes aspectos da natureza são profundamente melancolicos: o espirito como que se atira por essas immensidades, que recordão o indefinido do oceano, sem terem comtudo aquella magestade que encanta a alma, lançando-a n'uma prostração incomprehensivel.Para o habitante do litoral, as vastidões terrestres acordão milhares de recordações saudosas; suave tristeza se apodera de nós e transporta o espirito ás bellas praias do mar.Outro sentimento contristador dominava-nos então.Atraz de um morrete longinquo achava-se a villa de Miranda, presa do estrangeiro e fogos, em um ponto e outro pela campina, lembravão a occupação inimiga.Muitos dos nossos companheiros se embebecêrão então na contemplação sombria que dominára o mouro, quando, do alto da rocha dos Suspiros, elle lançára as derradeiras vistas sobre os formosos campos de Granada e talvez as palavras de Aixa fossem de novo bem cabidas, como exprobração merecida.Essa scena desappareceu no descambar da serra.Por todos os lados novamente cercárão-nos matas espessas, e o sol, a furto, desenhava, por entre a folhagem, seus circulos fugaces no caminho.Os ribeirões succedião uns aos outros, tombando de quéda em quéda e despenhando-se pelos declives abaixo.Como primeiros exploradores, fomos-lhes applicando nomes que nos parecião mais convenientes, ora procurando um distinctivo que os tornasse facilmente conhecidos; ora consagrando-os á lembrança de nymphas classicas ou americanas; assim passámos o ribeirão da Congonha[54], mais adiante o de Euterpe e, meia legoa além, o de Catharina Pazes, uma lindissima quiniquináo, que habitava nos Morros.Junto a este ultimo, tomámos ligeira refeição, comendo, debaixo de aprazivel sombra, a matalotagem preparada de vespera e bebendo a pura lympha d'aquelle bello riacho.Continuando a descer, achámo-nos em breve na planicie, abrindo-se ante nós os campos, que levão aCamapuan[55], illuminados então pelo brilho do sol em seu zenith.Tencionavamos visitar dous aldeamentos indios, collocados a 7 legoas do ponto de nossa partida: por isso tomavamos direcção E., da qual deviamos divergir para S., quando procurassemos as margens do Aquidauana.Assim pois caminhando, n'aquelle primeiro rumo, mais tres legoas, fomos pousar junto ao lindo corrego dasPalmeiras, na casa do cidadão Valerio de Arruda Botelho que recebeu-nos franca e amavelmente.Ahi tivemos um agradavel dia de falha, que nos proporcionou a jovialidade de nosso amphitryão.Foragido de Miranda, Botelho conservára-se, por muitosmezes, occulto com sua familia nas matas de sua propria fazenda do Embauval, perto do rio Miranda, apesar da passagem continua dos paraguayos por suas terras.Afinal transportára-se com crianças, e cargas para a margem direita do Aquidauana, depois de uma perigosa viagem de dias, entre as rondas inimigas.O lugar de sua nova habitação era encantador: magestosos boritys, banhando os pés nas aguas rapidas do corrego, se erguião fronteiros a ella, e na fralda de um morro abaulado coberto de vegetação, que se estende para N. E., formando com outras pontas isoladas, um systema perfeitamente distincto. A grande serra corre para S., elevada como sempre e dependurada desde ahi sobre o ribeirão das Pirapitangas, que deviamos atravessar quatro vezes.Deixando as Palmeiras no dia 26, em companhia de Valerio fomos á aldêa doOauassú[56]onde alguns indios quiniquináos havião procurado refugio, depois de expulsos de suas palhoças doEuagaxigo, além Aquidauana.Tomando sensivelmente a E. N. E., fomos do Oauassú ao aldeamento daBoa-Vista, formado pelos indios laianos, distante do outro tres e meia legoas. O caminho de communicação era uma apertada trilha atirada por sobre lindos campos, ora perfeitamente planos, ora dobrados mais ou menos profundamente.De quando em quando, fraldejavamos um d'aquelles picos destacados ou passavamos por abertas estreitas entre morretes, cujos córtes a prumo obrigavão a attenção.A aldêa da Boa-Vista estava situada n'um outeiro encostado a varios morros e constava de cincoenta a sessenta ranchos de palha.Os indios nos acolhêrão do modo o mais sympathico e cordial. Achámos um rancho feito de proposito, em attenção á nossa visita e ahi nos obsequiárão com grandes mostras de respeito.Os laianos da Boa-Vista moravão, antes da invasão, a uma e meia legoa da villa de Miranda, e d'entre elles se tiravão os melhores camaradas para o trabalho de roças, serviço de canôas ecostêode gado. Como quasi todos os indios, são excellentes cavalleiros e domadores destemidos.Em honra á nossa chegada, o capitão José Vieira organisou dançados, que durárão até alta noute, formados tão sómente pelo desejo de festejar-nos, posto que faltasse o incentivo obrigatorio para taes divertimentos a—aguardente.Diante de um pifaro e um tambor, collocárão-se tres rapazes e igual numero de raparigas, os quaes, de mãos dadas, avançavão e recuavão, imitando os gestos e movimentos titubantes dos embriagados.Conforme a perfeição ou inexactidão na imitação, colhião os dançadores applausos dos circumstantes ou apupadas, o que fazem batendo a mão aberta de encontro á boca.A toada é sobremaneira monotona; o dançado igualmente; quando não ha o elemento que transforme o fingido em triste realidade: então todos tem n'elle parte com ardor e furia indescriptiveis, até cahirem completamente exhaustos.Ao som d'aquella musica insipida, adormecemos.Depois de combinarmos, no dia seguinte, com Vieira, sobre o ponto de reunião em que elle devia se achar com vinte de seus indios[57]junto ao Aquidauana, despedimo-nos d'aquella gente simples, voltando á casa de Valerio, onde de novo falhámos um dia.CAPITULO IXAcabada a digressão, dirigimo-nos no dia 29 para a margem direita do rio Aquidauana.Atravessando o ribeirão dasPirapitangas, fomos seguindo, de novo, a serra na direcção S., até chegarmos junto á margem do rio, depois de 21⁄2legoas de marcha. Os aspectos do terreno continuão os mesmos.As margens são aprumadas, cobertas de vegetação vigorosa, na qual avultão os elegantes taquarussús, que fórmão grupos compactos, entremeados com elevadas macaúbeiras.O Aquidauana é o mais bello rio caudal, que se encontra em todo o districto de Miranda: as mais lindas paizagens se fórmão em seu correr; as mais animadas scenas se achão em suas vizinhanças.A abundancia de pesca e caça ahi se encontra por modo prodigioso.A natureza virgem, os viventes que lhe infundem o movimento, aquellas matarias tão verdejantes, aquellas aguas puras e crystallinas a reflectirem um céo de saphyra, a serra azulando ao longe, levão o extase a uma alma artistica e a atirão n'essa alegria pura e suave, repassada de tristeza, que Horacio tão bem exprimio pelo—flebile nescio quid.Lembrar-nos-hemos sempre de um ponto de vista, que attrahiria os olhares do ente menos admirador do bello.O rio, ahi, descendo em rapidacorredeira, morre de repente n'uma bacia, que se abre regularmente no reconcavo de barrancos, cortados a pique.Ahi as aguas dormem: circulos ligeiros mal encrespão a superficie,—ultimos impulsos da correnteza—e, em ondulações concentricas, vão desapparecer de encontro ás margens.Ora a brisa geme na folhagem delicada dos taquarussús e brinca sobre as aguas; ora é o vento, que, vergando os flexiveis colmos, anima aquella scena com harmonia mais grandiosa. Assim a vimos.No alto das margens alcantilosas, as arvores estremecião aos embates de forte sopro: as elevadas cannas se enroscavão, se confundião, se debatião frementes, ás vezes, ligando os flexuosos topos ás copas das macaúbas, outras abatendo-os até tocarem o chão.O sereno lago, perturbado pelas lufadas, reflectia, de quando em quando, o sombrio de nuvens que orlavão o azul celeste das abertas, por entre as quaes o sol estirava raios destacados de scintillante luz.Centenares de passaros esvoaçavão: uns tocados pelovento, com as azas meio encolhidas; outros cortando, com vôo mais firme, a ventania e suspendendo-se n'ella. Muitas marrequinhas brincavão n'agua, sobre a qual brancas garças deslisavão-se veloces, ao passo que lontras fazião reluzir ao sol o pello lustroso, mergulhando de continuo e nadando com ligeireza.Tudo isto gritava, tudo isto piava, unindo mil vozes diversas, produzindo mil sons differentes que, combinados no espaço, davão á natureza aquella animação e vida, só proprias das obras do Creador.Outra vez vimos essa bacia debaixo de novo aspecto. Tudo era calma; as aguas não se movião; as arvores não se mexião.O silencio da natureza como que se deixava ouvir; permitta-se-nos essa expressão arrojada.Um calor abrasador abatia e enervava a vida; luz deslumbrante penetrava tudo.A mataria, illuminada nos seus recantos mais sombrios, não tinha mysterios; as arêas apparecião no fundo de esverdeadas aguas, e só cardumes de peixes, symbolo do mutismo, nadavão em todos os sentidos.....O rio Aquidauana nasce de vertentes da grande serra de Maracajú[58]. Recebe, depois de algumas legoas de curso, os rios Cachoeirinha e Cachoeira, tomando desde então importante volume de aguas, engrossado pelos ribeirõesDous Irmãos, doTaquarussúeUacôgo[59], que entrão pelamargem esquerda e deJoão Dias, corregos doPaxexie daPaixão, que desaguão pela margem direita.Do ribeirão de João Dias, onde existe a ultima corredeira, o seu curso é livre de obstaculos, com profundidade quasi constante de 8 a 10 palmos, e largura média de 30 braças.Navegavel para grandes canôas n'uma extensão de quasi 40 legoas, fenece no rio Miranda pelo lado direito, confundindo as suas aguas claras e puras ás revoltas e barrentas d'aquelle rio.O seu nome é de origem uaycurú.Um capitão dos cadiuéos tem a mesma denominação, com o accrescimo de um T.—Taquidauana.Não nos podérão explicar o que significa.Nas matas d'esse rio habitão os animaes vulgares da fauna brasileira:onças(felis variarum specierum),antas(tapirus americanus),lobinhos,jaguatiricas, (felis pardalis, Neuwied),raposas,macacos, (simia v. sp.),tamanduás,tatús(Dasypus v. sp.), muitosqueixadas(dicotyles labiatus), etc.;lontras(lutra),ariranhas(lutra brasiliensis) ecapivárasatravessão, a todo instante, a correnteza; em seus campos proximos pullulãocervos(cervus paludosus, Desm.),veados(cervus rufus, c. campestris),emas(rhea americana),ceryemas(dicholophus cristatus.); nos cerrados,jabotís(testudo tabulata), muitascobrasvenenosas (crotalus horridus, bothrops Neuwiedi, b. surucucú, boipébas, urutús, etc.) e reptis de outras sortes.Em aves ha osjacús(penelope marail),jacu-cácas(penelope jacucáca, Spix.),jacutingas(penelope leucoptera, Neuwied),mutuns(crax v. sp.),jaós(crypturus noctivagus)earacuans[60],tucanos(rhamphastos v. sp.),araçaris(pteroglossus), muitaspombas,gralhas,periquitos(psittacula v. sp.),papagaios, (psittacus v. sp.),aráras, enfeitão a ramagem das arvores, ao passo que osinhumas[61](palamedea chavaria),jaburúsoutuyuyús[62],tabuyayás[63](ciconia m.),socós(ardea),curicácas(ibis melanopsis) e bandos de numerosospatos(anas) emarrequinhaspousão nas ribeiras ou se agrupão nos rochedos e insuas do rio. (Nota I)Em pescado o Aquidauana é fartissimo.Abundão osjaús, ossorubys,dourados, em certos mezespacús,pirapitangas,corimbatásepacu-pebas,papa-terras(geophagus, Heckel),raias, etc., etc.Ojaúé o maior peixe dos rios de Mato-Grosso: extremamentevoraz, não duvida atacar o homem[64]. A resistencia que tal monstro faz, quando agarrado ao anzol, é prodigiosa e não são raros os exemplos de grandes canôas viradas na sua pesca.Osoruby(platystoma), chamado mais commummente na provincia—pintado—, é peixe de pelle, com malhas pardacentas em fundo escuro. A cabeça é chata, com appendiculos como a dos bagres e occupa um terço do comprimento total: a carne é saborosa, bem que um tanto forte.O mais abundante e ao mesmo tempo um dos mais delicados peixes de Mato-Grosso é opacú, (prochilodus, Agassiz) tambem chamadocaranha, do qual Pison diz: «melioris saporis et nutrimenti habetur, quàm sargus Europeus»: tem côr pardacenta, azulada n'agua, escamas pequenas com reflexos dourados; geralmente 2 a 3 palmos de comprimento. É achatado.Em certas occasiões, dá tal abundancia de gordura, que alimenta proveitoso commercio de azeite. A quantidade é prodigiosa.Nas enchentes do Paraguay, ospacússeguem o movimento das aguas em grandes cardumes, que ficão, na retirada d'ellas, presos em poças dos campos e lagôas, onde morrem á mingoa d'agua e por causa da elevada temperatura.O ar fica então inficionado muitas legoas em derredor.Contárão-nos que, em certos pontos perto do rio Paraguay,fica o chão forrado, em extensões importantes, com camadas de 2 a 3 palmos d'esses restos.A gordura do pacú é preconisada para varias molestias: dizem ser de grande efficacia na pica malacia, pelo enjôo que causa ao enfermo.Um dos peixes, com razão, mais apreciados dos rios da provincia, é apirapitanga(species characini), chamado em Goyazjurupensen(?) e pelos indios guanásararáitiissi(peixe de rabo vermelho). As suas dimensões nunca são extraordinarias; attinge no maximo a tres palmos de comprido; mais commummente regula de um 1 a 2 palmos. A carne, com listras vermelhas, é consistente, saborosa, bem que, como a dos outros peixes de rios, seja crivada de perigosas espinhas bifurcadas.As pirapitangas sobem os ribeirões e corregos até onde encontrão agua sufficiente. Muitas vezes, ficão retidas em poças mais fundas até a época das enchentes. No corrego dos Laianas apanhámos algumas de bom tamanho, apezar da agua ter apenas1⁄2palmo de profundidade.No Aquidauana é muito rara a presença dos monstruosossucurys, assim como a das perigosissimaspiranhas(myletes macropomus).São habitantes predilectos do grande Paraguay.Da voracidade da piranha se ha fallado sufficientemente: nada resiste aos dentes aguçados de myriades d'aquelles peixes[65], que no ardor da fome, devorão-se uns aos outros, com rapidez prodigiosa.Ossucurys[66](boa murina), verdadeiros representantes antediluvianos, chegão a dimensões que os tornão entes deslocados na natureza proporcional de nosso globo. Vimos uma d'essas serpentes, com 30 palmos de comprido e 15 de circumferencia na barriga; era comtudo muito nova, pois que o nosso amigo, o tenente de guarda nacional, João Faustino do Prado nos asseverou attingirem muito além de 6 braças, contando-nos a este respeito um episodio curioso nas historias de sucurys.N'uma viagem a Cuyabá, passando elle pelos pantanaes do Piquiry, observára de longe um touro, o qual disparava em todos os sentidos, parecendo retido por um extenso cipó, que conheceu era um enorme sucury. De mais perto notou aquella curiosa contenda. A serpente, depois de estirar-se o mais possivel, retrahia-se de vagar, trazendo, de rastros ao chão, o seu adversario exhausto.Com o approximar de gente, o touro deu um arranco desesperado e partio á disparada, bramando loucamente. O sucury deu de si até ficar da grossura de tres dedos: depois começou a encolher-se, arrastando a presa que, extenuada por tantos esforços, de novo se deixára cahir.A victoria era certa; o final conhecido.Um novo elemento perturbou a peripecia natural. O facão do homem, de um golpe, cortou o sucury e deu a liberdade ao touro. Este, erguendo-se de um só pulo, sacudioa cabeça e, arrojando-se pela campina, com o tronco da serpente pendurada ao pescoço, em breve desappareceu d'aquelle theatro, onde devêra achar a morte.Ás vezes, os sucurys atacão as onças e antas com exito[67]. Entretanto n'uma margem do Paraguay, o capitão Francisco Domingos da Costa Pereira vio uma onça arrebentar um sucury, por quem fôra enlaçada.Com uma facasinha o homem defende-se perfeitamente d'essas serpentes: basta uma ligeira picada, levantando as escamas para obrigal-as a desapertar os seus fataes enleios.Já em occasião opportuna fallámos sobre os ferrões que os sucurys tem ao redor do anus, e o que pensamos a tal respeito[68].As rochas, sobre que rolão as aguas do Aquidauana, são de grés; em muitas partes, o seu leito é completamente silicoso, em outras, argiloso; lamacento, raras vezes. N'estes ultimos pontos reunem-se oscorimbatás[69](schizodon, Agassiz),piáus,traíras(erythrinus),bagres, etc. Osseixos rolados abundão nas margens e entre elles osilexe ossilicatosde ferro.As enchentes do rio nunca sobem a grandes alturas; raramente trasbordão, não só pela elevação dos barrancos, senão pela facilidade com que se escoão as aguas no rio Miranda, o qual corre por campos baixos e faceis de serem inundados.CAPITULO XDo primeiro pouso junto ao Aquidauana, seguimos a O. fraldejando sempre a serra, que se eleva, cada vez mais, com pincaros escalvados e talhados até a base.Os sitios são agrestes e sombrios; as plantas sexatiles se agrupão de lado a lado da trilha que sobe e desce, conforme as dobras extremas da serrania.De vez em quando, descobrem-se as corredeiras do rio, cujo ruido se ouve de longe; de vez em quando descortinão-se pedaços de campo distante, com lindas arvores, a modo de vergeis.N'um ponto, a vereda parece ir esbarrar n'um córte a pique de montanha: a paizagem é ahi muito curiosa e eminentemente pitoresca.Penetra-se então n'uma fenda monstruosa que dá passagem ao viajante, entaliscando-o n'um corredor humido, cujas gotejantes paredes achão-se tapetadas por achamalotadasbegonias,argyrostigmas,capillus-veneris,adiantos, etc.Depois, sahe-se em campo: ahi acaba a serra[70].As campinas, queimadas pouco tempo antes, reverdecião depois das ultimas chuvas, e se estendião vicejantes, a perder de vista, como tapiz vistoso salpicado de flôresinhas mimosas[71].Caminhámos 21⁄2legoas até o corrego do Paxexi, onde fizemos pouso, aproveitando ranchos abandonados e em ruinas.A noite cahio serena: a trovoada do dia dissipára-se ao sopro de forte ventania e tão sómente fugaces relampagos rasgavão um massiço de nuvens, amontoadas em um ponto do horisonte. Roncos longinquos, intervallados, mal se ouvião, rompendo o silencio crepuscular, tão solemne n'aquellas paragens.A lua subio então, espargindo sua meiga luz sobre a natureza e infundindo aquella doce tristura, que acompanha essas noites de calma e tranquillidade.O dia da Paixão de Christo, em que estavamos, mais nos engolfava n'essa meditação melancolica, que, semméta, sem direcção certa, se atira no espaço, e durante a qual os olhos da materia se fixão, sem vista, n'um ponto, ao tempo que os olhos da alma vagueão pelos mundos além creados, pelo indefinido e indeterminado.De repente, atraz de um morro erguêrão-se nuvens rubras, densas na base, flocadas acima e adelgaçadas. «São os paraguayos, disse-nos o velho indio Palhá, que estão vaquejando no Taquarussú, a 5 legoas d'aqui; queimão á noite os campos, para chamar o gadoesparramado(espalhado)...»Sahindo de Paxexí com a madrugada, fomos em direcção ao porto de D. Maria Domingas, o qual deviamos examinar como ponto de passagem para as forças. Estavamos então a uma legoa de distancia d'elle.Já se havião reunido a nós os indios da Boa-Vista, que vinhão constituir a nossa guarda de protecção. Montados em bois, marchavão uns atraz dos outros, com a lentidão grave d'aquelles ruminantes, a qual não sería alterada, ainda quando apparecessem os inimigos.Já começavamos então a avistar grandes manadas de gado: aspontaspastavão em compactos grupos, que se apartavão com a nossa chegada, fugindo as vaccas e bezerros, ao passo que os touros paravão, para olhar-nos com desconfiança e sobranceria. Ás vezes, de um ponto afastado, corria ao nosso encontro um d'elles; estacava junto ao caminho e ahi nos esperava com ar de desafio e resolução. Bastava, comtudo, um simples grito, um aceno para desvial-o, senão para afugental-o bem longe[72].O caminho vai sempre seguindo o rio, o qual ora sahe em campo limpo, ora d'elle se separa por uma mata espessa e sombria.Passavamos, de quando em quando, por tapéras[73]; erão ranchos vastos cobertos deherva de S. Caetano[74], rodeados de urzes e espinhos; erão moendas, engenhos, queimados em parte, cortados pelos machados do invasor; em toda a parte, signaes de desolação e destruição inutil e barbara. Só a natureza, no brilhantismo de seus verdores, consolava ao derredor as vistas, cançadas de tamanhas provas de vandalismo; ella que, embora desfigurada pela mão do homem, procura de continuo reparar os estragos que tenha soffrido.O porto deD. Maria Domingas, chamado pelos indios,alinána, é uma larga aberta na mata. Dava passagem aos carros que, das fazendas da margem direita do rio, se dirigião para a villa de Miranda.Esse lugar fôra testemunha de uma das poucas scenas de resistencia no longo periodo da occupação paraguaya e apresentava gloriosas mostras d'aquelle feito de armas: varias arvores varadas por balas e cinco ossadas humanas.Em Maio de186, dezeseis indios terenas, occupadosem fazer ahi rapaduras, tinhão sido atacados por duzentos paraguayos, os quaes, recebidos de dentro da mata por um fogo vivo e certeiro, em poucos minutos forão obrigados á retirada, abandonando não só mortos como feridos, que morrêrão ás mãos de seus encarniçados inimigos.Cada vez que uma caravana india passa por junto d'esses restos, levanta-se um clamor immenso: uns quebrão os ossos, outros insultão as caveiras, cuspindo n'ellas e calcando-as aos pés; outros riem-se estrepitosamente e dirigem motejos aos manes paraguayos.Prohibimos demonstrações d'essa barbara expansão ao nosso sequito, que, a custo, conservou-se calado, ao passar duas vezes por diante dos alvejantes craneos, na entrada e sahida da mata: entretanto alguns indios, descendo de seus bois, apanhárão uns ossos que levárão escondidos.O porto de D. Maria Domingas offerecia as melhores condições para uma passagem de forças, estando a outra margem occupada pelo inimigo. Pouco frequentado, afastado da estrada por onde os paraguayos presumião dever descer a nossa gente, com váo seguro e commodo, com uma boa mataria para protecção na transposição, era além d'isso o ponto onde convergião todos os caminhos do districto e cuja posse cortava as communicações entre os postos do Taquarussú e Souza, então existentes mais proximos do rio e que deviamos primeiro atacar.Ahi decidimos que se effectuaria a passagem e trabalhámos sempre n'esse sentido, apezar dos estorvos que se levantárão contra essa escolha razoavel e conveniente. Como, entretanto, não se realisárão as nossas previsões e falhárão os nossos planos pela demora das forças brasileirase retirada dos paraguayos em Agosto, deixaremos de parte essas questões que tinhão interesse immenso no momento e que o terião no futuro, se houvessem surtido effeito as providencias, que n'aquelle sentido tomámos.As terras, que atravessámos, pertencião a D. Maria Domingas de Faria, senhora estimada pelas suas excellentes qualidades e virtudes. As suas posses importantes estèndião-se em toda a margem direita e esquerda do Aquidauana e n'ellas estavão estabelecidos os seus parentes mais chegados e filhos, entre os quaes temos o prazer de contar um amigo, o sympathico fazendeiro—João Mamede Cordeiro de Faria.Tangidos violentamente de suas propriedades pela invasão, havião todos esses pacificos habitantes fugido de suas fazendas, indo, depois de mil trabalhos e peripecias, se refugiar a 50 legoas d'ahi, junto ao rio Taquary, a 7 legoas do lugar onde acampou a força no Coxim.Sahindo do porto de D. Maria Domingas, fomos pousar no laranjal de Francisco Dias, que estava então acoutado nos Morros, e, no dia seguinte, chegámos ao porto do Pires, a uma legoa do entrincheiramento paraguayo.Ahi esperava-nos a maior contrariedade. Haviamos combinado com vinte e tantos moradores dos Morros, para que nos fossem esperar n'aquelle ponto, bem armados e com munição sufficiente para defesa, no caso de sermos perturbados na ultima legoa, que restava fazer.Apressáramos a viagem, com o fim de não nos tornar esperados; deixáramos de parte muita curiosidade que examinar; haviamos desprezado o entretenimento de pescas e caçadas em completa perda.Verificando os nossos recursos, o municiamento e armas, achámo-nos com 18 pessoas mal armadas e municiadas só a um ou dous cartuxos.Os indios revelavão receio latente: a cada instante ouvião toques de caixa e cornetas, os quaes, entretanto, apezar de nossa boa audição, nunca podémos perceber.A cada instante nos avisavão que os paraguayos estavão em vigilancia continua e que erão muito valentes. Accrescia ainda que, n'aquelle dia, haviamos desconfiado da passagem de gente para a margem direita, por causa de pontas de gado que parecião vir tangidas dos lados do porto do Souza e que, por diversas vezes, havião passado diante de nós, n'uma corrida tremenda.Assim pois, perigos nos cercavão sem a protecção conveniente para os casos de aperto: continuar, fôra temeridade improficua; proseguir, passo inconsiderado.Resolvemos por isso fazer-nos na volta dos Morros, cortando campo em direcção a um dos picos da serra em que ficava a nossa pousada.Assim, voltámos as costas ao sul, havendo préviamente lançado fogo á campina que, abrasada pelo sol, incontinente despedio ao céo rolos de negrejante fumaça.Minutos depois apparecia, na margem de lá, outra fumaça, em signal de aceitação de desafio, como usavão os paraguayos.Desappareceu, porém, debaixo do formidavel aguaceiro que, por mais de meia hora, despejárão as nuvens, protegendo a nossa retirada e impedindo qualquer tentativa de perseguição.N'esse mesmo dia (2 de Abril) chegámos ao nosso acampamento,onde encontrámos os commodos que tanto consolo nos havião dado depois dos dias penosos de nossa primeira viagem; ficando em nós, d'aquella digressão ás bellas margens do Aquidauana, a immarcessivel recordação de dias alegres e felizes.CAPITULO XIDepois de alguns dias de obrigatorio descanso, remettemos ao commando das forças, acampadas então no rio Negro, os desenhos e relatorios de nossa viagem ao Aquidauana, cuidando desde então nos meios de passagem d'aquelle rio, a qual, segundo as communicações que recebiamos, devia se effectuar em meiados de Junho.Esperámos comtudo desde Abril até principios de Julho. As mil difficuldades que embaraçárão a marcha das forças, a peste, a fome que acommettêrão os nossos infelizes soldados, o fallecimento de officiaes e afinal do commandante o bravo general Galvão, erão as causas d'essa demora desesperadora que, retendo a expedição em mortiferos paúes, ia, mezes depois, produzir a medonha enfermidade,—a paralysia reflexa—, adquirida n'aquelle periodo fatal.Não assistimos ás scenas desoladoras do rio Negro; não presenciámos os duros trances em que se vio a columna:haviamos, de antecedencia, pago pesado tributo, com quinhão consideravel de soffrimentos.Á nossa penna, além d'isso, faltão a precisa energia, as côres vivas para descrever tão extremas necessidades, a força e enthusiasmo para traçar a abnegação, o heroismo e resignação que, n'aquelles momentos tormentosos, patenteou o nobre soldado brasileiro.


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