NOTAS

No incendio e saque de Nioac, a 2 de Junho de 1867, perdemos um diccionario guaná com perto de dous mil vocabulos. Nos papeis que encontrámos esparsos pelo campo e podémos ajuntar, achavão-se algumas folhas com as palavras, ainda não em ordem alphabetica, d'este incompleto vocabulario.Algumas indicaçõesOs pronomes possessivos isolados são:InduguêMeuItiguêTeuIuti ou iú.SeuUtiguêNossoEntretanto são quasi sempre contrahidos nas palavras, como por exemplo:Possessivos da 1ª pessoaPossessivos da 2ª pessoaMinha cabeçaDuutí.Tua cabeçaTotihé.Minha testaInucú.Tua testaInicú.Meu narizGuiirí.Teu narizQuiirí.Minha bocaBahó.Tua bocaPehahó.Meu denteOnué.Teu denteIahoé.Meu queixoNónhí.Teu queixoNeôió.Meus olhosUngê.Teus olhosIuukê.Minha orelhaInguênó.Tua orelhaKeinó.[114]Meu corpoMunhó.Teu corpoMuió.Meu pescoçoAnúm.Teu pescoçoIanúm.Meu braçoDaké.Teu braçoTiakí.Meu peitoDjahá.Teu peitoTchiní.Minha mãoUonhúm.Tua mãoVeaú.Minha barrigaDjurá.Tua barrigaIurá.Minha côxaDjuró-cunó.Tua côxaChiró-cunó.Minha canellaGôtchó.Tua canellaGuetchá.Minha casaImbenó.Tua casaPinó.Meu péDjêvê.Teu péHiné.Meu dedo do péQuiri-djêvê.Teu dedo do péKiriúêvê.Meu filhoIndjétchá.Teu filhoTchi-tchá.Nossa casaVuóvogú.Os possessivos da terceira pessoa são quasi sempre formados com os pronomesiú.Os adjectivos numeraes vão só até tres:UmPoichâcho.[115]DousPiátcho.TresMopoá.Os indios continuão presentemente[116]com as palavras portuguezas, algum tanto adulteradas:QuatroUátro.CincoCinquê.SeisSiês.SeteSiéte.OitoOtcho.NoveNôie.DezIéce, etc.Os pronomes pessoaes são os seguintes:Ondí eu.Ití tu.Uutí nós.Nôê elles.Nutí de mim.Ni de ti.Com os verbos emprega-se a particulapiem lugar deondi. Esses pronomes vão sempre depois do verbo.A conjugação dos verbos é irregularissima e difficil senão impossivel. São sempre defectivos.presente do indicativo do verbo ter (hapé)Eu tenhoHapê ondí.Tu tensIapê.Elle temHapê.Nós temosHapé utí.Elles temHapé noé.Para a formação do imperfeito accrescentãonini.Inindjoa, nini ondiEu tinha.InnitchiécôTu tinhas, etc.Outro exemplo:Eu queroGâcha pi.Tu queresQueachá.Elle querGachá.Nós queremosGachá uti.Elles queremGachá nôê.imperfeitoEu queriaGachá nini ondi.Tu queriasQueachá nini.Nunca pude organisar a conjugação de outros tempos.[117]Phrases e exemplosSonho comtigo?Chaputchononetí (sc. penso na tua cara).Tenho saudades de tiInangoró gopi ni (sc. saudades eupi, de tini).Dá-me noticiasIticá chetí (sc. faze historia).Nada seiAcó índja.Não estás contente?Acó elloketí?O que tens? Estás incommodado?Cuti iapê? Calliána unatí?Estou doente dos olhosCarineti ukê (sc. doente olhos)Desde muitos dias?Tápuiá cátche?Desde ante hontemPoinú tiipó.CoitadaQuixauó.AdeosBiónne (Eu vou indo).AdeosPehehêvo (Pois vá).Estás com fome?Epê cati cimagatí?SimAspiração guttural não exprimivel.Senta-te e come. Toma arroz com carne. Queres farinha?Iavapoquê, niké. Viá nacacú cuanê uacá. Queachá ramucú?Não, senhor: quero aipim e aboboras.Acó, unãi: gachá tchupú iocó camé.Traz facas e farinha.Iamané piritáu, cuané ramucú.O seu jantar está muito bom. Sua mulher sabe cosinhar muito bem: na minha casa nunca comi assim.Unati niké. Cuáti êchotí itucôati nica ienô. Auó ningá onuongú cutiá ionogú.[118]Come mais então.Niké, igopó.Não, obrigado. Agora quero agua e vou-me emboraAcó mondóuané. Poiáne unné gachá. Behopótine.Quando has de vir?Namõ kenaacá.Outro diaPoinu cátche.Quem sabe se amanhã?Etchuáne coecú arôti.[119]É factoEnnómone.Poiseporémvão sempre depois da primeira palavra, exemplo: pois toma;nemucátoma,copópois; porém come;nikécomecopoéporém.Quando,namanó, vem sempre antes. Quando has de vir?Namanó kinoôké.NOTASAJá tivemos a occasião de dizel-o officialmente: a estada do Coxim foi um lento martyrio, no qual todos extremárão em resignação e calma. A esse respeito diziamos, depois de examinarmos as fontes de abastecimento que poderião fornecer viveres ao acampamento do Coxim e reconhecermos a impossibilidade em que se achavão de satisfazer tal compromisso:«N'este estado desesperado a força achou-se a braços com a mais completa mingoa. Reduzida a simples carne, por espaço de mais de mez, muitas vezes faltou-lhe aquella alimentação exclusiva, que deu em resultado o apparecimento de varias molestias. Os generos de primeira necessidade chegárão a preços exorbitantes, aproveitando-se a ganancia e o espirito de lucro abusivo, da desgraça, a que todos se vião reduzidos. Um conjuncto, comtudo, de factos tão tristes fez mais realçar as virtudes que imperão no soldado brasileiro, patenteando o seu caracter eminentemente soffredor e resignado, a subordinação e disciplina, que lhe são naturaes.«Depois de dias, em que nada se distribuia, nenhuma queixa se erguia, nenhuma exigencia se ouvia: todos se penetravão das difficuldades que presidião a qualquer providencia que tomar, e calmos esperavão pelo que lhes reservava a sorte. Não nos compete a apreciação dos factos que derão em resultado esta ordem de cousas: consignamos simplesmente as phases por que passou a expedição, nas quaes sempre presenciámos o comportamento altamente recommendavel do pessoal que a compunha; galhardo nas marchas e prompto para todos os trabalhos, supportando, emfim, as maiores privações, a que póde ser sujeito o homem na guerra, sobretudo nas condições difficeis, que proporcionão distancias immensas e sertões inhospitos. Depois da mais penosa marcha por centenares de legoas, rodeada de perigos e incommodos, na qual de continuo lutava-se com circumstancias imprevistas, acompanhadas de innumeras afflicções, veio a estada prolongada do Coxim pôr á prova a abnegação e o sentimento intimo do dever, de que tantos exemplos brilhantes tem dado o brasileiro, que enverga os distinctivos da vida de privações e de soffrimentos». Relatorio geral da commissão de engenheiros nas forças em operações ao sul da provincia de Mato-Grosso, 1866 pag. 48 (Annexo ao relatorio do ministerio da guerra, 1867).Quadro exacto da triste situação que apresentava a expedição de Mato-Grosso, atirada a um canto da provincia, que vinha soccorrer, reduzida á inacção por obstaculos invenciveis de um lado, do outro pelos poucos meios, de que dispunha, para, sómente sobre si, emprehender a offensiva. De nenhum consolo lhe servia o titulo pomposo, com que, a pedido, a havião agraciado.Forçaslhe faltavão;operaçõesera uma ironia cruel para um espirito philosophico e o sul da provincia de Mato-Grosso é tão vasto, tão medonhamente erriçado de difficuldades, sobretudo n'aquella época, quanto o erão os sinistros paúes da Germania em que se abysmárão as bizarras legiões de Varo. Assim, pois, não nos illudiamos sobre o presente; e o futuro, como derivação natural, não nos abria horisontes de flôres.BNa viagem, que levámos, nunca podémos fazer senão estudos perfunctorios d'aquillo que acompanha o caminho: da vegetação só vimos a fita que segue o trilho, em mineraes, só o que se achava em seu percorrer. Por isto não nos julgamos habilitados para avançar uma proposição fixa e com força de regra; entretanto, certo cuidado na observação permitte termos por certo um facies especial, que distinga, mais ou menos, oscerradosde S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Mato-Grosso, que fomos atravessando. Na primeira d'estas provincias pareceu-nos predominarem ascassiaceaseterebinthaceas; na segunda, ao menos na nesga que atravessámos,myrtaceas, na terceira, especialmentemalpighiaceas(murecys) até a villa dos Aboboras, e, d'ahi por diante, de envolta com ellas, umamyrtacea, acagaiteira. Em Mato-Grosso, para os lados do Piquiry, a quantidade deguabirobasnos cerrados é prodigiosa, e, entre o Coxim e o rio Negro, na zona em que nos achavamos, figurão com especialidade osaraticúserollinias. Em todos oscerrados, todas aquellas familias se achão representadas, porém o que procuramos fazer notar, é o predominio de uma d'ellas ou pelo menos o de um genero.Debaixo do ponto de vista do desenvolvimento, em iguaes condições apparentes, os mais vistosos são os de Mato-Grosso; os menos, os de S. Paulo: ahi chega o aspecto d'elles a ser senão desolador, ao menos contristador. Talvez lhe achemos a causa na maior frequencia de queimadas de campos, que annualmente são feitas, na approximação das chuvas.Os terrenos arenosos apresentão os mesmos typos botanicos; entretanto, mais desenvolvidos do que nos argilosos. Os areaes entre Bahùs e Coxim e nas immediações de Sant'Anna do Paranahyba são prova do que avançamos; assim tambem certos pontos da provincia de Goyaz, quasi ao chegar á villa das Dôres do rio Verde (Aboboras).Nos verdadeiros cerrados até Mato-Grosso, observámos a pouca frequencia dasmelastomaceas, comtudo tão facil de distinguir. Ao entrar, porém, n'essa provincia, tornão-se ellas muito frequentes, apresentando bellos exemplares, pelo seu desenvolvimento geral.Em todos os cerrados sempre notámos a bem conhecidacanella de ema.As arvores doscerradossão quasi todas tortuosas; a casca sempre escamosa, fendida irregularmente, grossa, merecendo por isso muitas d'ellas o nome dejacarés, devida, ao que nos pareceu, á acção annual do fogo que provoca esse desenvolvimento doliber, obstaculo á carbonisação que permitte ao vegetal poder continuar o seu penoso crescimento. Ascassias, sobre todas, são notaveis por essa alteração da camada cortical.CA folhagem verde-escura damauritia, abre-se como um leque, sustentado por longos peciolos alveolados no topo de um estipite liso e pardacento claro, no qual se notão os traços parallelos formados pela quéda das voltas semi-amplexicaules das folhas. Ao lado d'aquella formosa monocotyledonea, amacaybeira(acrocomia sclerocarpa) parece acanhada e fica completamente offuscada; das palmeiras, cujas folhas são todas revestidas por foliolos, a unica que rivalisa em elegancia e altaneria é oauassúque os guaycurús chamãochatellôd.Do bority extrahe-se um succo saccharino, usado, depois da fermentação, como bebida e do qual se póde tirar excellente assucar, como o fez um official das forças. Os fructos dão em compridos cachos; são ovoides, com casca rija, amarello-avermelhada, escura e brilho metallico, todos cobertos por escamas rhomboidaes, que encobrem uma polpa pouco saborosa, ainda quando preparada com assucar. A amendoa acha-se n'uma loja monospermica. Em épocas de fome, de muito servírão aos soldados que procuravão não só os côcos, em concurrencia com as aráras,como em razão do miôlo que chupavão com grande gosto. Os boritys são sempre indicio de agua, nascendo só em lugares humidos.No caminho para Uberaba apparecem, pela primeira vez, no pouso dos Boritys (a 84 legoas do littoral), nas proximidades do rio Grande, divisa entre as provincias de S. Paulo e Minas. D'esse ponto em diante, acompanhão a trilha, que seguírão as forças, atravessando Minas, Goyaz e Mato-Grosso. Até o rio Negro, a abundancia de boritys é extrema; d'ahi por diante, vão-se tornando menos frequentes e, para os lados de Nioac e sul do districto de Miranda, vêem-se raramente.DComprehendendo, de ante-mão, as difficuldades com que lutarião os nossos collegas na promptificação de canôas, sem as ferramentas precisas nem trabalhadores habilitados, fizemos lembrada a conveniencia em transportar aquella barca para junto áquelle rio. As nossas previsões realizárão-se completamente e os obstaculos que embaraçárão os engenheiros, no desempenho da commissão a este respeito, justificárão a importancia que haviamos dado áquella conducção.EOaucury, do genero attalea, affeiçôa, como os boritys, os lugares humidos, apparecendo só n'aquelles que são commummente encharcados. O seu aspecto é baixo; o estipite fino, ás vezes engrossando extraordinariamente junto ao coroamento das folhas, asquaes tem longos foliolos delgados. Os fructos (cujos côcos tem 3 bagas monospermias) com uma bonita côr amarello-alaranjada, e revestidos por uma casca filamentosa (que não tem máo sabor, sobretudo assada), dão em cachos, que ás vezes pendem junto ao chão, servindo de pasto aos porcos do mato, que os procurão com avidez.Por isso, quando atravessavamos os aucurisaes do rio Negro, onde a abundancia d'esses côcos era extrema, grandes varas dequeixadas(dicotyles labiatus) fugião diante de nós, sendo facil a um dos soldados derribar alguns d'elles.FQualquer depressão de terreno, qualquer encontro de declives transforma-se n'essa zona em profundas sanjas, que quasi sempre vírão em escoantes para os rios. Eis acorixaou ocorixo.A retenção da agua, por muitos mezes, desenvolve então uma vegetação palustre no meio de moutas de capim, reunindo-se n'ellas frequentemente as terriveispiranhas(myletes macropomus), que tornão essas passagens perigosas, pelos lados do Piquiry.GA qualidade de mel que dá o jaty é boa, perfumada e clara; entretanto a quantidade é commummente muito diminuta.A colmêa é no tronco das arvores, quasi sempre junto ao chão. Pelo contrario, sempre na parte superior, nadichotomiaou bifurcação de ramos, faz o seu cortiço a abelhamandoryoumondori:mondé, colher,ira, mel, o qual é superior ao do jaty, rivalisando com o docachetaem sabor e limpidez. A abelhamandoryé especie grande, preta, rajada de amarello.Seguem-se em qualidade: oachupé(grande e preta), osanharão, oborá(grande e amarella), ouruçú, olambe-olhos, etc.D'essas abelhas, fomos, no seguimento da viagem, encontrando individuos. Além d'isso frequentes arvores, cortadas nos lados do caminho, mostravão-nos a copiosa colheita que fazem os indios, os quaes, justamente n'aquella época, recolhião o mel para fermental-o, o que dá lugar ás festas religiosas, em que estavão empenhados, quando chegámos á aldêa da Piranhinha.HLevavamos então um chapéo que compráramos na aldêa: era de palha decarandá(copernicia cerifera), e muito bem trançado. Esta palmeira, bastante frequente no norte da provincia, é mais rara no districto. Pela primeira vez a tinhamos visto quasi ao chegarmos ao Tabôco, occupando um vasto barreiro com lindos specimens, cujo aspecto era-nos totalmente novo. Mais alto que acarnaúba, com quem tem muitos pontos de relação (se não fôr ella propria), com estipite, porém, mais fino e ligeiramente flexuoso, tem as folhas supportadas por longos peciolos erectos, que fórmão um coroamento em leques, como o dobority, mas cujos foliolos são rigidos e terminados por pontas espinhosas.A reunião de muitas d'essas palmeiras, cujo tronco é aproveitado para construcção de casas e curraes, cuja palha é muito utilisada para chapéos e cujos fructos, pequenos e em cachos compridos, dão algum azeite, chama-se umcarandal.Ahi fórmão ellas moutas compostas de palmeiras rasteiras, no meio das quaes surge alguma mais desenvolvida, levando agarrados cipós e parasitas, que vivem nos sulcos das folhas cahidas.Algumas nopaleas, sobretudo aopuntia, com o aspecto tão original, e uma ou outra dicotyledonea, cuja folhagem agrada tantopela disparidade, constituem, ao redor dos elegantescarandás, grupos, como que arranjados pela mão artistica de algum horticultor intelligente.Ocarandá, que vimos pela primeira vez perto da Piranhinha, apparece, com abundancia, entre Nioac e a colonia de Miranda. Talvez, no districto de Miranda, possão ser, por meio de linhas longitudinaes, assignaladas tres zonas de palmeiras predominantes: a dosboritys, do Coxim á villa de Miranda; doscarandás, da villa á colonia de Miranda, e dasmacaúbas; da colonia ao Apa.INas proximidades do Aquidauana e na localidade de refugio no cimo da serra de Maracajú, distante d'aquelle rio cinco legoas, vimos emaves, além das mencionadas: na familia dosaccipitres, muitosurubús(percnopterus jota), alguns dos quaes completamente brancos (urubutingas)gaviõese innumeroscaracarás(polyborus chimango) que esvoaçavão, com estridentes pios, por cima das queimadas, para agarrarem as cobras e reptis, acoçados do fogo. Na familia dostrepadores, avistámos: aarara azul(ara ararauna) com as costas e cauda azul, peito amarello-alaranjado, avermelha(ara aracanga), arôxa(ara hyacinthinus), á qual convinha mais o epitheto de ararauna (arara preta), côr que, de longe, parece ter;tucanos de papo branco(rhamphastos toco) especie grande e rara, debico preto(rhamphastos ariel),de papo amarello(ramphastos discolorus), que são derribados, mal lhes toque um bago de chumbo o bico: nas arvores, o desconfiadoalma de gato(coccyzus cayanus) se esgueirava ligeiro por entre os galhos e o lindojacamacira(galbula viridis) n'elles pousava gravemente, emquanto ospica-páos(picus melachloris, robustus, etc.) em zig-zag se atrepavão, agarrados aos troncos. Entre ospassarosfiguravão ossabiás(turdus flavipes,una, e rufiventer,larangeira), obemtevi(tyrannus sulphuratus), oserra-serra(carduelis nitens), ocanario da terra(carduelis brasilienses), oavinhado(pitylus nasutus),oscaraúnasouvirabostas(icterus violaceus) os mais animados e barulhentos cantores do sertão, osencontros(xanthornus tristis) e muitos outros notaveis pela plumagem e canto que não conheciamos e viamos pela primeira vez.Nos campos ha poucasperdizesecodornizes: na planura de cima da serra não as vimos: em compensação, a volateria é sobremaneira importante em outras qualidades, como já mostrámos.Entre osreptis, além dosophidiosjá apontados, avulta olagarto: osbactraciossão os conhecidos geralmente.Entre osinsectostodas as subdivisões são mais ou menos bem representadas: entre osnevropterosapparece com abundancia otérmes(cupim), noshymenopteros, muitas especies demaribondos, deformigaseabelhas: poucoslepidopteros: nosdipterosmuitosmosquitos,muriçocas,mucuinsoupolvoras,moscas, etc., em alguns pontos do rio, em outros são rarissimos.Entre asarachnides, não pode ser esquecido oacaride-arachnide,carrapato(ixodes) um dos grandes incommodos de quem viaja pelas matas. No Aquidauana eramos flagellados pelorodeleiroouestrella(especie grande),ruivo(especie menor) epiolho de gallinha(especie mui pequena).N'um dos affluentes do Aquidauana encontrámos curiosos molluscos, com a conformação domechilhão(mytilus) e com o interior da costa calcarea brilhante, a modo de madreperola. «O Pacheco e o Valerio, diz uma de minhas notas de viagem, affianção que, em certo ponto do rio Paraguay, ha muitos d'esses restos, sendo até uma bahia denominada dasConchas». Achámos tambem d'essas conchas no ribeirão do Euagaxigo, a 31⁄2legoas da villa de Miranda.APPENDICEAPPENDICEMemoria descriptiva do reconhecimento do caminho entre os rios Taquary e Aquidauana, feito pelos engenheiros capitão bacharel Antonio Florencio Pereira do Lago e 2º tenente bacharel Alfredo d'Escragnolle Taunay, ajudantes da commissão de engenheiros junto ás forças em operações no sul da província de Mato-Grosso.IExploração entre os rios Taquary e NegroNo dia 13 de Fevereiro passámos, defronte do acampamento goyano, o rio Taquary e margeando-o á esquerda, fomos, pela necessidade de descanço em consequencia do grande nado a que tinhão sido obrigados os animaes, pousar junto ao ribeirão da Fortaleza, com 20 minutos em tempo de distancia percorrida. A sua margem esquerda é escarpada e necessita ser rampada para a descida de carros; a direita é baixa e arenosa como o alveo d'este tributario do Taquary, que, depois de grandes chuvas, nega passagem a váo. Conta de largura 50 palmos, de profundidade 3, 11⁄2por segundo de velocidade e a elle segue-seuma mata onde existem varias rampas que podem ser facilmente vencidas. Deixando pelo lado esquerdo o Taquary e seguindo parallelamente ao seu confluente, o Coxim, que, pouco depois, desapparece, começámos a acompanhar o Taquary-mirim, o qual ora afasta-se, ora approxima-se muito perto do caminho, transpondo-se com 32 minutos de marcha um pequeno corrego, cujas ribanças necessitão ser modificadas, e d'ahi a 43 milhas, outro nas mesmas condições. Com mais 41 minutos passámos um ribeirinho cujos barrancos devem ser cortados para facilitar a passagem, e pouco depois chegámos á cachoeira do Taquary-mirim (pouso dos Boritys), junto á qual existem vestigios de um acampamento dos paraguayos e onde pernoitámos.A distancia percorrida foi sempre em terreno secco, de base argilo-arenosa, entre cerrados em que predominãoanonaceas(araticús do campo) e varias especies debyrsonima: o caminho é uma simples trilha, muito visivel porém e sempre seguido.Tempo gasto4 horas e 32 minutos.[120]Distancia percorrida8,265 braças, ou 23⁄4legoas proximamente.Deixando o pouso dos Boritys que offerecerá um acampamento regular para as forças em marcha, com 36 milhasde marcha fomos ter ao corrego da Porteira, a 77 minutos do qual passámos outro, chegando ao ribeirão da Mata depois de caminharmos mais 95 minutos. A 50 braças antes d'esta corrente, existe um terreno baixo que ha de tornar-se alagadiço com a continuação de chuvas, podendo ser praticada, n'este caso, uma extensa estiva pelo muito mato, que cobre as margens do ribeirão.O leito d'este é arenoso; a largura média de 50 palmos, 2 de profundidade, chegando a negar váo no tempo de grandes enchentes. Ahi podérão acampar as forças depois de ter sido facilitada a passagem, rampando-se a margem esquerda.Tempo gasto4 horas e 0 minutos.Distancia percorrida7,285 braças, ou 28⁄2legoas proximamente.A 16 minutos do ribeirão da Mata, existe uma casa abandonada, proxima a um capão, denominado Tapera, assim como o corrego, que, pouco adiante, dirige-se para E. entre margens pouco firmes, permittindo porém a proximidade do mato fazer-se de prompto uma estiva para a passagem de cargueiros e carros. D'ahi a 8 minutos passámos um pequeno pantano de 30 braças, que póde dar boa passagem, se as chuvas não augmentarem e o tempo tornar-se secco; devendo ser este espaço estivado no caso contrario. Continuando, atravessámos o ribeirão Claro, cujas margens altas e nemorosas precisão ser melhoradas, com leito pedregoso, largura de 35 palmos e profundidade de 11⁄2. Depois de chuvas continuadas impede o transito. Depois de 110 minutos chegámos ao ribeirão Verde que tem margensabruptas, cobertas de mato, leito de grandes lages, váo pessimo para a passagem de animaes carregados. Tem de largura 65 palmos, 31⁄2de profundidade, augmentada porém, durante as aguas, a ponto de vedar o transito.A força póde acampar em sua margem direita depois de rampados os barrancos que encanão este ribeirão.Tempo gasto3 horas e 0 minutos.Distancia percorrida5,463 braças, ou 11⁄3legoas proximamente.Sahindo do ribeirão Verde, passámos com 63 minutos de marcha um bosque e d'ahi a 30 minutos a mata ou capoeira do Major com abrupta descida que vai ter a um pantano, em que gastámos 5 minutos, seguindo-se nova mata e outro almargeal cortado tambem por mato. O terreno começa a subir: torna-se pedregoso e entra-se no Portão de Roma: pessima e difficultosa passagem embaraçada com grandes lages e rochas que se achão na trilha que serve para a viação. As carretas dos paraguayos passárão por este desfiladeiro: entretanto será necessario um trabalho preliminar ou um desvio para conseguir-se facil transito. Continuando a caminhar, margeámos um lugar pantanoso logo abaixo do serrote e com mais 44 minutos fomos pousar no Lageadinho, onde um pequeno lagrimal dá agua em toda esta estação.Tempo gasto3 horas e 49 minutos.Distancia percorrida6,951 braças, ou 21⁄4legoas proximamente.Deixando o Lageadinho, passámos um lagrimal depois de 65 minutos de marcha e com mais 65 o corrego do Castelhano, entrando d'ahi a 15 minutos n'uma mata, atravessada por um filete d'agua, seguindo-se outras, cortadas, de distancia em distancia, por campos dobrados até o corrego da Volta, onde poderá formar-se o acampamento das forças.Tempo gasto5 horas e 19 minutos.Distancia percorrida9,683 braças, ou 33⁄2legoas proximamente.Do corrego da Volta, com 41 minutos de marcha passámos n'um matagal, e com mais 32 minutos o ribeirão do Perdigão, cujas margens hão de necessitar de concertos para a facil transposição.D'este ribeirão, com 44 minutos, entrámos na mata dos Jaós, de 3 minutos de extensão, onde os paraguayos deixárão uma canôa, que poderá servir para a passagem do rio Negro, caso seja concertada e transportada para aquelle ponto. Com 65 minutos chegámos ao corrego da Cachoeirinha, e, d'ahi ao corrego Fundo, gastámos mais de 40 minutos. Poderá acampar a força, depois de feita uma estiva nas margens pouco firmes d'este corrego.Tempo gasto3 horas e 46 minutos.Distancia percorrida6,860 braças, ou 21⁄4legoas proximamente.Com 119 minutos de marcha fomos do corrego Fundo a um pequeno olho d'agua, d'ahi a 77 minutos a um lagrimal e com mais 81 minutos ao rio Negrinho, passandoantes por um terreno baixo e alagado. O rio dá váo commodo no tempo secco: n'esta estação, porém, a profundidade é de 7 palmos, sendo a sua largura de 63. Uma arvore cahida, de uma margem á outra, servio-nos para a passagem das cargas, e com pouco trabalho ter-se-ha uma boa pinguela. O váo acha-se a 30 braças mais ou menos acima do lugar em que está a arvore, subindo pela margem esquerda. O acampamento na margem direita, depois de passar a mata, é melhor, ainda que mais distante da agua.Tempo gasto4 horas e 37 minutos.Distancia percorrida8,408 braças, ou 23⁄4legoas proximamente.Deixando a margem esquerda do rio Negrinho, depois de passarmos pela sua mata (onde existem depressões, chamadascorixas, que ficão cheias d'agua e dão nado durante as enchentes), fomos ter, com legoa e meia de viagem ao Potreiro, pequeno rancho na fazenda dos cidadãos Antonio Alves Ribeiro, e Tiberio, onde não encontrámos além do gado, que não póde ser reunido por falta de cavalhada, recurso de qualidade alguma para a força, nem pessoal para trabalhar na construcção de canôas para a passagem do rio Negro. D'este ponto até o rio, o caminho apaga-se quasi completamente; é apenas uma trilha mal aberta por alguns fugitivos de Miranda, a qual atravessa grandes pantanaes, duas corixas cheias, charcos e mata muito cerrada. Se os meios para passar o rio estiverem promptos, deverá a força ir acampar na margem do rio; no caso contrario, demorar-se-ha junto ao Potreiro.Tempo gasto4 horas e 48 minutos.Distancia percorrida8,742 braças, ou 3 legoas proximamente.A passagem para a infantaria é sempre commoda e facil até o Potreiro; para os carros, porém, e bagagem será necessario rampar as margens das correntes que atravessão o caminho e fazer estivados em differentes pontos. Nas matas, e nos cerrados, ha páos e taquaras que embaráção o transito; pelo que deverá ir, sempre dianteiro á força, um certo numero de homens armados de machados e fouces, para removerem estes obstaculos. Do Potreiro, porém, ao rio Negro, até para homens a pé, o caminho é de difficil viabilidade, e necessita ser aberto e melhorado para o transito.Com excepção do Portão de Roma, proximidades do Lageadinho e margem dos corregos e ribeirões, os declives do caminho são sempre bons: o leito é uma estreita trilha, argilo-silicoso, quasi sempre secco até pouco adiante do Potreiro.Achamo-nos hoje na margem do rio Negro, sem termos encontrado guia para o caminho que segue a fralda da serra de Maracajú até a aldêa da Piranhinha, o qual os soldados desconhecem, e vamos encetar viagem á tôa e sem indicações certas.Margem esquerda do rio Negro, 25 de Fevereiro de 1866.POUSOS PARA A FORÇAAo pouso dos Boritys23⁄4legoasAo ribeirão da Mata21⁄2»Ao ribeirão Verde13⁄4»Ao Lageadinho21⁄4»Ao corrego da Volta31⁄2»Ao corrego Fundo21⁄4»Ao rio Negrinho23⁄4»Ao rio Negro3»Somma203⁄4»Do rio Taquary ao rio Negro203⁄4»A planta topographica indicará outros pousos, caso não convenhão estes, e dá os accidentes de terreno e direcções magneticas.IIExploração entre o rio Negro e os MorrosNo dia 25 de Fevereiro, passando o rio Negro n'uma pelota, transportámo-nos para a sua margem esquerda, baixa, paludosa e coberta da mesma vegetação que já tinhamos achado do outro lado. Por espaço de um quarto de legoa lutámos n'ella com os obstaculos provenientes das enchentes do rio, sendo obrigados a novas passagens, empelota, de corixas cheias e pyrisaes (lugares inundados) e á marcha em terreno sempre humido e atoladiço. Abre-se depois o campo com cerrados ao longe, e achámo-nos na base da serra de Maracajú, que era o nosso unico meio de direcção na procura da trilha, que dizião ter sido aberta pelos fugitivos de Miranda, na invasão d'este districto no anno passado. Com effeito avistavamos uma longa e continuada serrania que tinhamos de deixar á esquerda, fraldejando a sua aba e fugindo ás aguas que cobrião a estrada seguida no tempo secco até o rio Aquidauana.A questão era examinar a qualidade de terreno, em que tinhamos de marchar e saber das vantagens da abertura de um caminho para a força nos seus primeiros movimentos para o Baixo-Paraguay.Seguindo pois o rumo S., desde as primeiras horas de marcha, reconhecemos as difficuldades que tinhamos de vencer na procura d'aquella supposta trilha e dos vestigios da passagem, bem que recente, de um homem a cavallo, apagadas de todo ou pelas chuvas ou pelas pégádas do gado que vaguêa pelos campos, indo a final esbarrar em uma mata tão cerrada que roubou-nos boa porção do dia, não nos permittindo caminhar mais de legoa e meia. No pouso verificámos que a carne secca, que haviamos preparado no Potreiro para a nossa viagem, calculada em oito dias, pelas passagens nas corixas e pela muita chuva dos dias anteriores, achava-se de todo deteriorada. A impossibilidade de termos recursos d'aquelle lugar, pois que a ultima porção de gado recolhido, fôra levado da fazenda do Retiro para o Coxim e a esperança de podermos matar alguma das rezes que encontravamos, não nos permittírão duvida sobreo que deviamos resolver. Dous dias depois caminhando sempre, ora em terreno pantanoso e atoladiço, até a fralda da serra, ora em cerrados de difficultosa passagem, achavamo-nos com todos os recursos de boca completamente esgotados e com a certeza desesperadora da quasi impossibilidade em matarmos á bala rezes, completamente selvagens e ariscas.Os nossos males crescêrão com a fuga de todos os animaes, o que nos reteve nas mais crueis necessidades, junto ao corrego da Afflicção, durante dous dias nos quaes sustentámo-nos de fructos silvestres, que os soldados podérão colher. Conseguindo no terceiro dia alguns dos animaes, proseguimos viagem deixando quatro d'elles perdidos e canastras escondidas na mata proxima, alimentando-nos desde então por oito dias de miôlo de palmeiras e de alguns fructos do mato, soffrendo sempre chuvas torrenciaes e contrariedades. Em todo este tempo fizemos apenas 11 legoas, apezar de andarmos dias inteiros, ora rodeando charcos perigosos, ora abrindo picadas em cerrados de intrincadissima taquára. Em parte alguma viamos uma trilha seguida: quando nos suppunhamos perdidos, deparavamos algum rancho abandonado, uma arvore cortada, um signal que indicava acharmo-nos no rumo seguido pelos fugitivos, os quaes, sem duvida, tiverão interesse em occultar os seus vestigios, acoçados dos paraguayos, que demandavão o mesmo caminho, como o vimos pelos signaes de acampamento de forças. Tomando afinal o rumo O. fomos trilhar a parte, transitavel hoje, do caminho do pantanal, onde podémos dar fim aos nossos soffrimentos, conseguindo carnear uma rez.No dia 10 passámos o rioTabôcoque achámos de nado e, visitando no dia seguinte o aldeamento dos indios na Piranhinha, chegámos no dia 11 ao arranchamento do cidadão João Pacheco de Almeida, onde tivemos recebimento hospitaleiro e sympathico e onde nos achamos agasalhados.CAMINHO QUE A FORÇA DEVE SEGUIRNão existe trilha alguma junto á fralda da serra de Maracajú. O pantanal que vai até a base d'esta serrania é em terreno fôfo e de perigoso transito, sobretudo para grande numero de cargueiros e carros: nos cerrados, o sapé alto, capins e taquaras maltratão os infantes e canção sobremodo os animaes. Só nos principios de Maio poderão, segundo informações de pessoas praticas, achar-se estes lugares seccos; época em que o caminho, chamado do pantanal, conhecido por muitos e trilhado, dá excellente passagem por occasião da retirada das aguas. A vantagem de ser a trilha do pantanal sempre firme, não póde deixar duvida sobre o caminho a seguir, escolhido que seja um guia, conhecedor d'estes lugares que dê indicações dos lugares em que se encontrão boas aguadas. Ocapatazda fazenda doTabôco, o cidadão Antonio Maria Tonhá, é muito proprio para este serviço.CONTINGENTE PARA A FORÇAGuarda nacional.—Os guardas nacionaes, que existemdebaixo das ordens do tenente coronel Albuquerque, não podem perfazer o numero de 100: melhores informações sobre seu armamento, fardamento e municiamento, teremos depois de recebermos resposta ao nosso officio de 17 do corrente ou conversarmos com o tenente coronel commandante; o que tudo havemos de communicar com a brevidade possivel.Indios.—No aldeamento dos indios terenas, da Piranhinha, encontrámos a melhor disposição na gente do capitão José Pedro: apresentárão-se-nos 60 moços bons atiradores e proprios para servirem de excellente tropa em sorprezas e emboscadas.No aldeamento de Francisco Dias ha 40 homens robustos, em estado de pegarem em armas: achão-se armados, e só lhes falta cartuxame.Da gente quiniquináo, acampada em diversos pontos, póde-se contar com 30 homens.São ao todo 130 indios que estão no caso de servir de contingente á força. Falta-nos comtudo visitar, a oito ou dez legoas d'aqui, dous aldeamentos, um quiniquináo e outro laiana, que devem augmentar o numero de homens e dar alguns alqueires de arroz e milho. Áquem de Miranda ha tambem outros pontos em que existem indios foragidos.A indole dos indios é guerreira: votão odio encarniçado aos paraguayos e estão com estes em continua guerra de emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os lados tem trazido A indole dos indios é guerreira: votão odio encarniçado aos paraguayos e estão com estes em continua guerra de emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os lados tem trazido temor e receio reciprocos; entretanto a inconstancia de genio e a impossibilidade em confiar na disposição de espirito e firmeza para arrostarem no campo e defrente o inimigo, os torna apenas proprios para atiradores em matas e guerrilheiros.RECURSOS COM QUE DEVE CONTAR A FORÇAGado.—Desde o rio Negro até a Piranhinha vimos immensa quantidade de rezes, vagando pelos campos em grandes manadas. Entretanto a necessidade, para o fornecimento, de bons cavallos para rodear-se o gado, obrigará á espera da terminação da peste que grassa entre os animaes até fins de Abril, e que tem destruido toda a cavalhada desde o Coxim até estes lugares.Um contractador, de posse comtudo de bons animaes, poderá com facilidade, em todos os pousos da força, reunir a quantidade precisa de rezes nas fazendas de Joaquim Alves, Fialho, capitão Pires (prisioneiro dos paraguayos), José Alves de Arruda e outros.Os cidadãos que pelas informações colhidas, poderão se encarregar do fornecimento são: Joaquim Alves e Canuto Virgolino de Faria (no Coxim); mas deverão de antemão comprar cavallos para se acharem em circumstancias de cumprir com os seus compromissos.Calcula-se em 13,000 cabeças o gado que existe nas fazendas apontadas acima, e só póde haver difficuldade na obtenção de rezes com a falta de cavallos, para o que devem ser tomadas providencias acertadas.Cereaes.—As plantações dos refugiados de Miranda, além das limitadas proporções em que forão effectuadas paraproverem unicamente á subsistencia particular, não derão colheita satisfactoria. O milho veio muito falhado; o arroz abaixo da expectação: são comtudo os dous generos que mais avultão. Ha grande difficuldade em reduzir-se o milho existente á farinha, ou á cangica, pela falta de um monjólo; promettem alguns alqueires á custa de braços.Não ha nenhum feijão recolhido: apenas algumas quartas plantadas, que comtudo pouco podem dar pela falta de chuva e má época em que forão lançadas em terra.Sal.—Ha grande carencia de sal: apenas existem 2 ou 3 alqueires que estão sendo vendidos.Os dados que seguem forão todos colhidos com a maior minuciosidade, e são o resumo de quantidades parciaes, como se vê do mappa annexo:Milho50alqueiresCangica57»Farinha10»Arroz com casca110»Arroz socado155»Somma382»FORÇA INIMIGAInterrogando diversas pessoas e indios, que têm, desde Janeiro até fins de Fevereiro, visitado os lugares ainda occupados por forças, colhemos as seguintes informações:Na fazenda do Souza50 a 150homensNo Espenidio200»Na Forquilha100»Em Nioac360»Ao todo810»No porto do Souza existe um entrincheiramento a menos de meia legoa do rio, e entre estes dous pontos uma guarda rendida diariamente, que serve para vigiar o Aquidauana. N'este entrincheiramento houve ultimamente augmento de força, pois que ouvem-se agora rufos de tambores e toques de corneta, o que não acontecia até fins de Janeiro: ha uma peça de artilharia para defendel-o e uma palissada de grossos madeiros de aroeira. Iremos com as precauções precisas visitar estes pontos, communicando logo o que tivermos observado.A Forquilha e o Espenidio achão-se no caminho de Nioac á villa de Miranda. Este ultimo ponto está presentemente abandonado, todas as casas forão queimadas e não ha mais guarnição. É informação de André José dos Santos, que nos ultimos dias de Janeiro, com 6 companheiros foi reconhecer o inimigo, voltando no dia 4 de Fevereiro.A Nioac chegou, a 3 de Fevereiro, Agostinho Joaquim Coelho, assistindo, de uma mata proxima, ao exercicio de um batalhão de infantaria pesada, formado em 6 pelotões de 30 filas pouco mais ou menos. A gente que se acha na fazenda do Souza é aguerrida e regular, o resto dizem constar de soldados ainda bisonhos. A cavalhada, de que elles dispõem, é boa, como vimos por alguns cavallos roubados pelos indios.Usa a infantaria de espingardas á Minié de 1,000 passos, e a cavallaria de lanças que manejão com muita destreza, de clavinas e espadas. Nas cartuxeiras trazem os soldados 80 cartuxos: os indios afianção que são máos atiradores, fazendo comtudo justiça completa á coragem e valor nunca desmentidos do inimigo.Os paraguayos desde Maio do anno passado não fizerão mais correrias na margem direita do Aquidauana; provêem-se de gado, abundantissimo no outro lado, e considerão o rio divisa do territorio brasileiro.Existe uma estrada, chamada do Canastrão, pela qual, de Dourados, onde ha força, e da fronteira podem vir soccorros para coadjuvarem os contingentes espalhados no districto de Miranda.Esperão-se aqui cartas de um fazendeiro de Nioac, preso dos paraguayos, que foi visitado pelo indio laiana Joaquim da Silva em Fevereiro, o qual dá noticia de mais destacamentos na Ariranha e no Esbarrancado, a 8 legoas além de Nioac.Suppõe-se que os destacamentos no Souza e Espenidio têem ordem para concentrar-se, com o apparecimento de nossas forças, em Nioac, afim de, attrahindo-as até este ponto, poder ser cortada a nossa retaguarda pelo caminho do Canastrão, que vem do Paraguay a Miranda.RESUMOO movimento da força brasileira póde effectuar-se nos primeiros dias de Maio, tomando o caminho do rio Negro, edepois o do pantanal, que deve de estar completamente secco, reunida que seja boa cavalhada para o fornecimento de gado durante a marcha. Com poucos generos póde contar dos Morros e dos indios. Nas operações, além do Aquidauna, deve esperar encontrar mais de 1,000 inimigos, entrincheirados o mais das vezes, e dispostos á resistencia.RIOS QUE PASSÁMOSO rio Negro, no lugar de nossa passagem, tem 18 braças: entretanto como a força deverá vir pelo caminho do pantanal, indicado no nosso trabalho pelo traço colorido que vai ligarse ao caminho do roteiro do primeiro reconhecimento, além do Potreiro, é necessario visitar o rio mais baixo e conhecer a sua largura.O rio Tabôco tem 30 braças de largura.Meios de passagem.—Para o rio Negro devem-se promptificar barcas, pois que as margens baixas e atoladiças não facilitão a construcção de uma ponte. O rio[121]tem lugares de bom váo, como o afiança o pratico Tonhá, que conhece-os perfeitamente. O rio Tabôco é vadeavel.Para o Aquidauana precisão ser trazidas ao porto do Jatobá, ou ao de D. Maria Domingas, as canôas do tenente coronel Albuquerque da sua fazenda do rio Negro e a prancha do cidadão Cardoso Guaporé, o qual já foi examinaro estado em que ella se acha, por estar escondida, ha mais de anno, n'uma volta do rio.DISTANCIA QUE PERCORREMOSDo rio Negro á entrada do Pantanal13legoasD'ahi á Piuva.11⁄4»Da Piuva aos Dous Corregos.11⁄2»Dos Dous Corregos ao Tabôco.31⁄2»Do Tabôco á ponta do morro d'onde o caminho segue para o Aquidauana.13⁄4»D'aquella pontaá Piranhinha.11⁄4»»»a João Pacheco.31⁄4»De João Pacheco a Francisco Dias.1⁄2»Somma26»A volta pelo caminho do Pantanal não póde exceder de 4 legoas.Morros, 20 de Março de 1866.IIIExploração á margem direita do rio AquidauanaA necessidade de visitarmos dous aldeamentos de indios e reconhecermos a margem direita do rio Aquidauana e seus diversos portos que derão passagem aos paraguayos, na invasão do anno passado, fez-nos emprehender nova viagem, effectuando a nossa partida para aquelles pontos, no dia 24 do mez proximo passado. Seguindo ás vezes a base da serra que viemos fraldejando, desde o rio Negro, outras cortando-a em diversas e profundas depressões, visitámos a 71⁄4legoas de nosso ponto de partida o acampamento dos laianas, onde apenas encontrámos 20 homens em estado de pegar em armas, e viveres em quantidade insufficiente, até para sustento proprio.No aldeamento do Oauassú, a 3 legoas do outro, ha igual carencia de mantimentos e só 9 indios para augmentarem o contingente, que dá a tribu dos quiniquináos. Tomando d'ahi rumo S., procurámos o Aquidauana, indo acampar junto á sua margem direita que, desde então, seguimos até a tapera do Pires, d'onde fizemo-nos na volta dos Morros.Achão-se junto á borda do rio, que margeámos, differentes casas abandonadas por occasião da entrada dos paraguayos, as quaes tem cada qual a sua passagem para o outro lado e porto no rio.Assim são os portos do Canuto, até onde chegou uma partida inimiga vinda do Taquarussú, de João Dias,Maria Domingas, Francisco Dias, etc., que vão apontados no reconhecimento topographico. Examinando cada um d'elles com cuidado, para indicarmos a passagem mais conveniente para a força, pareceu-nos o porto de D. Maria Domingas o que satisfaz a todas as condições precisas. É o unico que dá váo em toda a extensão (30 braças) com profundidade de 4 a 8 palmos, facilitando assim não só a passagem da infantaria, como tambem o serviço das barcas, que será feito com muito mais presteza, tocadas e puxadas á mão.Além d'isto a força, occupando a margem esquerda, corta a communicação entre o entrincheiramento do porto do Souza e o do Espenidio e impede qualquer movimento de concentração que os inimigos procurem fazer. Do largo da Piranhinha deverão as forças dirigir-se para o porto de D. Maria Domingas, tendo á frente um bom pratico d'estas localidades, caso não seja tomada outra determinação.D'este porto ao do Souza, pela margem esquerda contão-se 4 legoas de trilha completamente secca e, a não querer cortar campo, é d'elle que partem caminhos para Miranda, Forquilha, Nioac, etc.Do porto de D. Maria Domingas ao Eponadig4legoasDo Eponadig á Forquilha7»Da Forquilha a Nioac10»Do porto a Nioac21»Alguns d'estes pontos e mais o Espenidio e o Souza,occupados pelos paraguayos, fórmão uma linha que fecha em circulo a villa de Miranda; razão por que foi ella abandonada e queimada, reforçando-se os pontos estabelecidos em derredor. Assim pois a retirada de Miranda não tem significação de evacuação de forças, parecendo, pelo contrario, dever indicar a tenção de melhor defender o territorio, em que se achão e que fechárão por um cordão de destacamentos desde o Apa até o Souza.A este ultimo ponto não podémos chegar, pois que um desencontro na remessa de cartuxos, que tinhamos requisitado do Illm. Sr. tenente coronel Albuquerque, obrigou-nos a não effectuar este reconhecimento arriscado e que só póde ser feito á mão armada, pela vigilancia que, sobre a outra margem, exercem os paraguayos. Mandámos comtudo uma partida de indios[122]reconhecer, de dentro da mata, a estacada e, apezar de seus habitos e habilidade na espionagem, não podérão passar além do piquete que, como já participámos, existe entre o rio e o entrincheiramento. Este piquete compõe-se de 10 a 12 praças, que se achavão montadas em burros (o que indica a falta de cavallos) para cercarem as rezes que conservão, encostadas á margem do rio, para o consumo. Na frente ha uma bandeira vermelha, junto a ummangrulho, d'onde uma sentinella devassa grande extensão de terreno.(Os paraguayos chamãomangrulhoa uma guarita elevada sobre 2 ou 4 esteios de 40 a 60 palmos, d'onde a vista se estende muito ao longe).Descendo o rio pela margem direita, chega-se com 4 legoas de marcha ao porto do Jatobá, que dizem ser vadeavel, depois de um pequeno nado e que dista do Souza, pela margem esquerda, 21⁄2legoas.Em geral todas as trilhas achão-se apagadas pelo muito capim e falta de transito: devem ser preparadas quando a força tiver de dirigir-se ao porto escolhido para a sua passagem.Distancia que percorremos23 legoas.CONTINGENTE PARA A FORÇA OPERADORAGuarda nacional.—Segundo as informações, que nos prestou o Illm. Sr. tenente coronel Albuquerque, commandante do batalhão n. 7 da guarda nacional, existem 85 praças mal armadas e sem fardamento e poucos officiaes, tendo-se retirado a maior parte d'elles para diversos pontos longinquos d'esta provincia. Achão-se os guardas espalhados n'uma larga zona e são elles os que preparão a maior quantidade de mantimentos, o que deve ser attendido por occasião de sua reunião que desfalcará, pela falta de braços, o numero de alqueires de mantimentos com que poderia a força contar.Estão tambem qualificados guardas nacionaes indios quiniquináos e terenas que melhores serviços prestarião englobados nas suas respectivas tribus, como por exemplo o indio José Pedro, capitão dos terenas, que deve ser conservado á frente de sua gente pelo respeito que tem sabido infundir e obediencia que lhe prestão os seus companheiros.A guarda nacional acampou, de 3 a 22 de Setembro do anno passado, junto ao capão dos Boritys, tendo-se ahi reunido 66 praças desarmadas, que forão licenciadas para cuidarem em roçados e plantações. Existe algum cartuxame para seu municiamento: entretanto ha muitos cartuxos deteriorados e inserviveis.Indios.—Informações frescas colhidas do Sr. João da Costa Lima, que chegou das aldêas além Aquidauana, dão-nos os meios de apresentar o total de indios que, além dos guaycurús, cujo capitão Nadô consta vir-se apresentar com toda a sua tribu, poderá coadjuvar a força.Terenas216Quiniquináos39Laianas20275homens.Estes indios mostrão a melhor disposição, offerecendo-se com espontaneidade e servindo com toda a dedicação, como verificámos nos nossos ultimos reconhecimentos. Achão-se muito atemorisados com a chegada da força, pois que repetidas ameaças dos fazendeiros, refugiados aqui e em outros lugares, por causa das rezes que elles são obrigados a matar para a sua alimentação, tem incutido o temor de que as forças virão escravisal-os e tratal-os com todo o rigor da guerra. Procurámos tranquillisar esta pobre gente que, nos calamitosos mezes de invasão, portárão-se com moderação não natural na esphera e condição em que vivem.Oscadiuéos, inimigos figadaes dos paraguayos, não merecemconfiança alguma e têem, em varias occasiões, causado tantos damnos aos brasileiros como aos inimigos.RECURSOSInsistindo ainda sobre a importantissima questão de fornecimento e acquisição de gado, que se tem tornado muito difficultoso, depois da peste dos cavallos, levámos ao conhecimento do commando das forças a falta absoluta de cavalhada desde o Coxim até os Morros, onde os fugitivos de Miranda se achão desprovidos de carne para sustento proprio, pela destruição completa de todos os animaes, desde Dezembro do anno passado. O tenente coronel Albuquerque indica os cidadãos, de que fallámos na nossa ultima participação, prestando-se-lhes os meios para munirem-se de cavallos.Ao numero de alqueires, dado no mappa dos mantimentos, que se podem obter dos habitantes dos Morros, devem ser addicionados mais 45 de arroz, e de cangica 22. Ponderamos comtudo de novo que o chamamento dos guardas nacionaes ao serviço das armas, deve diminuir a quantidade de viveres indicada n'aquelle mappa, por não se achar a colheita concluida, e pertencerem quasi todos os seus possuidores á guarda nacional. A requisição que, segundo as nossas instrucções, fizemos de homens para a construcção de canôas no rio Negro, impossibilita varios cidadãos de promptificarem os mantimentos que tinhão promettido.Indagando de diversos pontos d'esta provincia ou de outra que poderião mandar viveres para as forças no districto de Miranda, apontárão-nos a villa de Santa Anna do Paranahyba,que dista de Camapuam 60 legoas, ficando este ultimo lugar, hoje completamente abandonado, a 50 legoas da villa de Miranda; por agua fallárão-nos na communicação muito frequente antes da invasão, entre Porto Feliz, em S. Paulo, e o acampamento de Nioac, descendo canôas carregadas os rios Tieté e Paraná, e subindo o Ivinheima e Brilhante até Sete Voltas, d'onde, com cinco dias, chegavão carros a Nioac. Esta viagem, que fazião em 4 mezes, ida e volta, póde fornecer abundante provimento ás forças no caso de sua demora no Baixo-Paraguay: indicamol-a por ser esta hypothese possivel e dever cuidar-se quanto antes na reunião de viveres que, de mais á mais, hão de tornar-se escassos em territorio devastado e sem recursos.MEIOS DE PASSAGEM DO RIO NEGRO E AQUIDAUANAGuiando-nos pelas nossas participações anteriores, que aconselhão a marcha das forças do Coxim nos primeiros dias de Maio, requisitámos a 6 do corrente 12 guardas nacionaes e indios para irem construir barcos para a passagem da expedição.Com difficuldade, apezar das ordens do tenente coronel commandante, estão-se reunindo as praças pedidas, faltando completamente toda a especie de ferramenta. Estes homens, como melhores trabalhadores, são os que preparão a maior quantidade de mantimentos para a força, não se achando ainda terminada a colheita de milho e arroz, e sobretudo não tem meio algum de conduzir viveres que cheguem para alimentação, durante o mez necessario de parada n'um local totalmente falto de recursos como é o rio Negro.Apezar de tudo vamos tratar de apressar a remessa d'estes guardas, requisitando mais 12, á vista das instrucções que nos mandão preparar meios de passagem nos differentes rios, para o trabalho que temos de fazer nas canôas que servirão no Aquidauana.Para este ultimo rio deverão subir as canôas do tenente coronel Albuquerque, do seu acampamento no rio Negro, ficando nós aqui para mandarmos preparar, com uma serra e um machado, taboas e barrotes que formarão as barcas na occasião da approximação da força, pois que qualquer trabalho precipitado póde ser inutilisado pelo inimigo, o qual parece ultimamente vigiar mais cuidadosamente as margens do rio.Força maior nos impede de acompanhar os homens que vão ao rio Negro: levarão para dirigil-os um official carpinteiro habilitado na factura das canôas. Para guia das forças até o Aquidauana recommendamos denovo o pratico Antonio Maria Tonhá, homem utilissimo por conhecer perfeitamente os caminhos e campos por onde se possão abreviar as marchas e saber dos lugares onde existão boas aguadas.Para Miranda e Nioac há n'esta localidade muitas pessoas proprias para servirem de guia.DISTANCIAS ALÉM DO AQUIDAUANA

No incendio e saque de Nioac, a 2 de Junho de 1867, perdemos um diccionario guaná com perto de dous mil vocabulos. Nos papeis que encontrámos esparsos pelo campo e podémos ajuntar, achavão-se algumas folhas com as palavras, ainda não em ordem alphabetica, d'este incompleto vocabulario.Algumas indicaçõesOs pronomes possessivos isolados são:InduguêMeuItiguêTeuIuti ou iú.SeuUtiguêNossoEntretanto são quasi sempre contrahidos nas palavras, como por exemplo:Possessivos da 1ª pessoaPossessivos da 2ª pessoaMinha cabeçaDuutí.Tua cabeçaTotihé.Minha testaInucú.Tua testaInicú.Meu narizGuiirí.Teu narizQuiirí.Minha bocaBahó.Tua bocaPehahó.Meu denteOnué.Teu denteIahoé.Meu queixoNónhí.Teu queixoNeôió.Meus olhosUngê.Teus olhosIuukê.Minha orelhaInguênó.Tua orelhaKeinó.[114]Meu corpoMunhó.Teu corpoMuió.Meu pescoçoAnúm.Teu pescoçoIanúm.Meu braçoDaké.Teu braçoTiakí.Meu peitoDjahá.Teu peitoTchiní.Minha mãoUonhúm.Tua mãoVeaú.Minha barrigaDjurá.Tua barrigaIurá.Minha côxaDjuró-cunó.Tua côxaChiró-cunó.Minha canellaGôtchó.Tua canellaGuetchá.Minha casaImbenó.Tua casaPinó.Meu péDjêvê.Teu péHiné.Meu dedo do péQuiri-djêvê.Teu dedo do péKiriúêvê.Meu filhoIndjétchá.Teu filhoTchi-tchá.Nossa casaVuóvogú.Os possessivos da terceira pessoa são quasi sempre formados com os pronomesiú.Os adjectivos numeraes vão só até tres:UmPoichâcho.[115]DousPiátcho.TresMopoá.Os indios continuão presentemente[116]com as palavras portuguezas, algum tanto adulteradas:QuatroUátro.CincoCinquê.SeisSiês.SeteSiéte.OitoOtcho.NoveNôie.DezIéce, etc.Os pronomes pessoaes são os seguintes:Ondí eu.Ití tu.Uutí nós.Nôê elles.Nutí de mim.Ni de ti.Com os verbos emprega-se a particulapiem lugar deondi. Esses pronomes vão sempre depois do verbo.A conjugação dos verbos é irregularissima e difficil senão impossivel. São sempre defectivos.presente do indicativo do verbo ter (hapé)Eu tenhoHapê ondí.Tu tensIapê.Elle temHapê.Nós temosHapé utí.Elles temHapé noé.Para a formação do imperfeito accrescentãonini.Inindjoa, nini ondiEu tinha.InnitchiécôTu tinhas, etc.Outro exemplo:Eu queroGâcha pi.Tu queresQueachá.Elle querGachá.Nós queremosGachá uti.Elles queremGachá nôê.imperfeitoEu queriaGachá nini ondi.Tu queriasQueachá nini.Nunca pude organisar a conjugação de outros tempos.[117]Phrases e exemplosSonho comtigo?Chaputchononetí (sc. penso na tua cara).Tenho saudades de tiInangoró gopi ni (sc. saudades eupi, de tini).Dá-me noticiasIticá chetí (sc. faze historia).Nada seiAcó índja.Não estás contente?Acó elloketí?O que tens? Estás incommodado?Cuti iapê? Calliána unatí?Estou doente dos olhosCarineti ukê (sc. doente olhos)Desde muitos dias?Tápuiá cátche?Desde ante hontemPoinú tiipó.CoitadaQuixauó.AdeosBiónne (Eu vou indo).AdeosPehehêvo (Pois vá).Estás com fome?Epê cati cimagatí?SimAspiração guttural não exprimivel.Senta-te e come. Toma arroz com carne. Queres farinha?Iavapoquê, niké. Viá nacacú cuanê uacá. Queachá ramucú?Não, senhor: quero aipim e aboboras.Acó, unãi: gachá tchupú iocó camé.Traz facas e farinha.Iamané piritáu, cuané ramucú.O seu jantar está muito bom. Sua mulher sabe cosinhar muito bem: na minha casa nunca comi assim.Unati niké. Cuáti êchotí itucôati nica ienô. Auó ningá onuongú cutiá ionogú.[118]Come mais então.Niké, igopó.Não, obrigado. Agora quero agua e vou-me emboraAcó mondóuané. Poiáne unné gachá. Behopótine.Quando has de vir?Namõ kenaacá.Outro diaPoinu cátche.Quem sabe se amanhã?Etchuáne coecú arôti.[119]É factoEnnómone.Poiseporémvão sempre depois da primeira palavra, exemplo: pois toma;nemucátoma,copópois; porém come;nikécomecopoéporém.Quando,namanó, vem sempre antes. Quando has de vir?Namanó kinoôké.NOTASAJá tivemos a occasião de dizel-o officialmente: a estada do Coxim foi um lento martyrio, no qual todos extremárão em resignação e calma. A esse respeito diziamos, depois de examinarmos as fontes de abastecimento que poderião fornecer viveres ao acampamento do Coxim e reconhecermos a impossibilidade em que se achavão de satisfazer tal compromisso:«N'este estado desesperado a força achou-se a braços com a mais completa mingoa. Reduzida a simples carne, por espaço de mais de mez, muitas vezes faltou-lhe aquella alimentação exclusiva, que deu em resultado o apparecimento de varias molestias. Os generos de primeira necessidade chegárão a preços exorbitantes, aproveitando-se a ganancia e o espirito de lucro abusivo, da desgraça, a que todos se vião reduzidos. Um conjuncto, comtudo, de factos tão tristes fez mais realçar as virtudes que imperão no soldado brasileiro, patenteando o seu caracter eminentemente soffredor e resignado, a subordinação e disciplina, que lhe são naturaes.«Depois de dias, em que nada se distribuia, nenhuma queixa se erguia, nenhuma exigencia se ouvia: todos se penetravão das difficuldades que presidião a qualquer providencia que tomar, e calmos esperavão pelo que lhes reservava a sorte. Não nos compete a apreciação dos factos que derão em resultado esta ordem de cousas: consignamos simplesmente as phases por que passou a expedição, nas quaes sempre presenciámos o comportamento altamente recommendavel do pessoal que a compunha; galhardo nas marchas e prompto para todos os trabalhos, supportando, emfim, as maiores privações, a que póde ser sujeito o homem na guerra, sobretudo nas condições difficeis, que proporcionão distancias immensas e sertões inhospitos. Depois da mais penosa marcha por centenares de legoas, rodeada de perigos e incommodos, na qual de continuo lutava-se com circumstancias imprevistas, acompanhadas de innumeras afflicções, veio a estada prolongada do Coxim pôr á prova a abnegação e o sentimento intimo do dever, de que tantos exemplos brilhantes tem dado o brasileiro, que enverga os distinctivos da vida de privações e de soffrimentos». Relatorio geral da commissão de engenheiros nas forças em operações ao sul da provincia de Mato-Grosso, 1866 pag. 48 (Annexo ao relatorio do ministerio da guerra, 1867).Quadro exacto da triste situação que apresentava a expedição de Mato-Grosso, atirada a um canto da provincia, que vinha soccorrer, reduzida á inacção por obstaculos invenciveis de um lado, do outro pelos poucos meios, de que dispunha, para, sómente sobre si, emprehender a offensiva. De nenhum consolo lhe servia o titulo pomposo, com que, a pedido, a havião agraciado.Forçaslhe faltavão;operaçõesera uma ironia cruel para um espirito philosophico e o sul da provincia de Mato-Grosso é tão vasto, tão medonhamente erriçado de difficuldades, sobretudo n'aquella época, quanto o erão os sinistros paúes da Germania em que se abysmárão as bizarras legiões de Varo. Assim, pois, não nos illudiamos sobre o presente; e o futuro, como derivação natural, não nos abria horisontes de flôres.BNa viagem, que levámos, nunca podémos fazer senão estudos perfunctorios d'aquillo que acompanha o caminho: da vegetação só vimos a fita que segue o trilho, em mineraes, só o que se achava em seu percorrer. Por isto não nos julgamos habilitados para avançar uma proposição fixa e com força de regra; entretanto, certo cuidado na observação permitte termos por certo um facies especial, que distinga, mais ou menos, oscerradosde S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Mato-Grosso, que fomos atravessando. Na primeira d'estas provincias pareceu-nos predominarem ascassiaceaseterebinthaceas; na segunda, ao menos na nesga que atravessámos,myrtaceas, na terceira, especialmentemalpighiaceas(murecys) até a villa dos Aboboras, e, d'ahi por diante, de envolta com ellas, umamyrtacea, acagaiteira. Em Mato-Grosso, para os lados do Piquiry, a quantidade deguabirobasnos cerrados é prodigiosa, e, entre o Coxim e o rio Negro, na zona em que nos achavamos, figurão com especialidade osaraticúserollinias. Em todos oscerrados, todas aquellas familias se achão representadas, porém o que procuramos fazer notar, é o predominio de uma d'ellas ou pelo menos o de um genero.Debaixo do ponto de vista do desenvolvimento, em iguaes condições apparentes, os mais vistosos são os de Mato-Grosso; os menos, os de S. Paulo: ahi chega o aspecto d'elles a ser senão desolador, ao menos contristador. Talvez lhe achemos a causa na maior frequencia de queimadas de campos, que annualmente são feitas, na approximação das chuvas.Os terrenos arenosos apresentão os mesmos typos botanicos; entretanto, mais desenvolvidos do que nos argilosos. Os areaes entre Bahùs e Coxim e nas immediações de Sant'Anna do Paranahyba são prova do que avançamos; assim tambem certos pontos da provincia de Goyaz, quasi ao chegar á villa das Dôres do rio Verde (Aboboras).Nos verdadeiros cerrados até Mato-Grosso, observámos a pouca frequencia dasmelastomaceas, comtudo tão facil de distinguir. Ao entrar, porém, n'essa provincia, tornão-se ellas muito frequentes, apresentando bellos exemplares, pelo seu desenvolvimento geral.Em todos os cerrados sempre notámos a bem conhecidacanella de ema.As arvores doscerradossão quasi todas tortuosas; a casca sempre escamosa, fendida irregularmente, grossa, merecendo por isso muitas d'ellas o nome dejacarés, devida, ao que nos pareceu, á acção annual do fogo que provoca esse desenvolvimento doliber, obstaculo á carbonisação que permitte ao vegetal poder continuar o seu penoso crescimento. Ascassias, sobre todas, são notaveis por essa alteração da camada cortical.CA folhagem verde-escura damauritia, abre-se como um leque, sustentado por longos peciolos alveolados no topo de um estipite liso e pardacento claro, no qual se notão os traços parallelos formados pela quéda das voltas semi-amplexicaules das folhas. Ao lado d'aquella formosa monocotyledonea, amacaybeira(acrocomia sclerocarpa) parece acanhada e fica completamente offuscada; das palmeiras, cujas folhas são todas revestidas por foliolos, a unica que rivalisa em elegancia e altaneria é oauassúque os guaycurús chamãochatellôd.Do bority extrahe-se um succo saccharino, usado, depois da fermentação, como bebida e do qual se póde tirar excellente assucar, como o fez um official das forças. Os fructos dão em compridos cachos; são ovoides, com casca rija, amarello-avermelhada, escura e brilho metallico, todos cobertos por escamas rhomboidaes, que encobrem uma polpa pouco saborosa, ainda quando preparada com assucar. A amendoa acha-se n'uma loja monospermica. Em épocas de fome, de muito servírão aos soldados que procuravão não só os côcos, em concurrencia com as aráras,como em razão do miôlo que chupavão com grande gosto. Os boritys são sempre indicio de agua, nascendo só em lugares humidos.No caminho para Uberaba apparecem, pela primeira vez, no pouso dos Boritys (a 84 legoas do littoral), nas proximidades do rio Grande, divisa entre as provincias de S. Paulo e Minas. D'esse ponto em diante, acompanhão a trilha, que seguírão as forças, atravessando Minas, Goyaz e Mato-Grosso. Até o rio Negro, a abundancia de boritys é extrema; d'ahi por diante, vão-se tornando menos frequentes e, para os lados de Nioac e sul do districto de Miranda, vêem-se raramente.DComprehendendo, de ante-mão, as difficuldades com que lutarião os nossos collegas na promptificação de canôas, sem as ferramentas precisas nem trabalhadores habilitados, fizemos lembrada a conveniencia em transportar aquella barca para junto áquelle rio. As nossas previsões realizárão-se completamente e os obstaculos que embaraçárão os engenheiros, no desempenho da commissão a este respeito, justificárão a importancia que haviamos dado áquella conducção.EOaucury, do genero attalea, affeiçôa, como os boritys, os lugares humidos, apparecendo só n'aquelles que são commummente encharcados. O seu aspecto é baixo; o estipite fino, ás vezes engrossando extraordinariamente junto ao coroamento das folhas, asquaes tem longos foliolos delgados. Os fructos (cujos côcos tem 3 bagas monospermias) com uma bonita côr amarello-alaranjada, e revestidos por uma casca filamentosa (que não tem máo sabor, sobretudo assada), dão em cachos, que ás vezes pendem junto ao chão, servindo de pasto aos porcos do mato, que os procurão com avidez.Por isso, quando atravessavamos os aucurisaes do rio Negro, onde a abundancia d'esses côcos era extrema, grandes varas dequeixadas(dicotyles labiatus) fugião diante de nós, sendo facil a um dos soldados derribar alguns d'elles.FQualquer depressão de terreno, qualquer encontro de declives transforma-se n'essa zona em profundas sanjas, que quasi sempre vírão em escoantes para os rios. Eis acorixaou ocorixo.A retenção da agua, por muitos mezes, desenvolve então uma vegetação palustre no meio de moutas de capim, reunindo-se n'ellas frequentemente as terriveispiranhas(myletes macropomus), que tornão essas passagens perigosas, pelos lados do Piquiry.GA qualidade de mel que dá o jaty é boa, perfumada e clara; entretanto a quantidade é commummente muito diminuta.A colmêa é no tronco das arvores, quasi sempre junto ao chão. Pelo contrario, sempre na parte superior, nadichotomiaou bifurcação de ramos, faz o seu cortiço a abelhamandoryoumondori:mondé, colher,ira, mel, o qual é superior ao do jaty, rivalisando com o docachetaem sabor e limpidez. A abelhamandoryé especie grande, preta, rajada de amarello.Seguem-se em qualidade: oachupé(grande e preta), osanharão, oborá(grande e amarella), ouruçú, olambe-olhos, etc.D'essas abelhas, fomos, no seguimento da viagem, encontrando individuos. Além d'isso frequentes arvores, cortadas nos lados do caminho, mostravão-nos a copiosa colheita que fazem os indios, os quaes, justamente n'aquella época, recolhião o mel para fermental-o, o que dá lugar ás festas religiosas, em que estavão empenhados, quando chegámos á aldêa da Piranhinha.HLevavamos então um chapéo que compráramos na aldêa: era de palha decarandá(copernicia cerifera), e muito bem trançado. Esta palmeira, bastante frequente no norte da provincia, é mais rara no districto. Pela primeira vez a tinhamos visto quasi ao chegarmos ao Tabôco, occupando um vasto barreiro com lindos specimens, cujo aspecto era-nos totalmente novo. Mais alto que acarnaúba, com quem tem muitos pontos de relação (se não fôr ella propria), com estipite, porém, mais fino e ligeiramente flexuoso, tem as folhas supportadas por longos peciolos erectos, que fórmão um coroamento em leques, como o dobority, mas cujos foliolos são rigidos e terminados por pontas espinhosas.A reunião de muitas d'essas palmeiras, cujo tronco é aproveitado para construcção de casas e curraes, cuja palha é muito utilisada para chapéos e cujos fructos, pequenos e em cachos compridos, dão algum azeite, chama-se umcarandal.Ahi fórmão ellas moutas compostas de palmeiras rasteiras, no meio das quaes surge alguma mais desenvolvida, levando agarrados cipós e parasitas, que vivem nos sulcos das folhas cahidas.Algumas nopaleas, sobretudo aopuntia, com o aspecto tão original, e uma ou outra dicotyledonea, cuja folhagem agrada tantopela disparidade, constituem, ao redor dos elegantescarandás, grupos, como que arranjados pela mão artistica de algum horticultor intelligente.Ocarandá, que vimos pela primeira vez perto da Piranhinha, apparece, com abundancia, entre Nioac e a colonia de Miranda. Talvez, no districto de Miranda, possão ser, por meio de linhas longitudinaes, assignaladas tres zonas de palmeiras predominantes: a dosboritys, do Coxim á villa de Miranda; doscarandás, da villa á colonia de Miranda, e dasmacaúbas; da colonia ao Apa.INas proximidades do Aquidauana e na localidade de refugio no cimo da serra de Maracajú, distante d'aquelle rio cinco legoas, vimos emaves, além das mencionadas: na familia dosaccipitres, muitosurubús(percnopterus jota), alguns dos quaes completamente brancos (urubutingas)gaviõese innumeroscaracarás(polyborus chimango) que esvoaçavão, com estridentes pios, por cima das queimadas, para agarrarem as cobras e reptis, acoçados do fogo. Na familia dostrepadores, avistámos: aarara azul(ara ararauna) com as costas e cauda azul, peito amarello-alaranjado, avermelha(ara aracanga), arôxa(ara hyacinthinus), á qual convinha mais o epitheto de ararauna (arara preta), côr que, de longe, parece ter;tucanos de papo branco(rhamphastos toco) especie grande e rara, debico preto(rhamphastos ariel),de papo amarello(ramphastos discolorus), que são derribados, mal lhes toque um bago de chumbo o bico: nas arvores, o desconfiadoalma de gato(coccyzus cayanus) se esgueirava ligeiro por entre os galhos e o lindojacamacira(galbula viridis) n'elles pousava gravemente, emquanto ospica-páos(picus melachloris, robustus, etc.) em zig-zag se atrepavão, agarrados aos troncos. Entre ospassarosfiguravão ossabiás(turdus flavipes,una, e rufiventer,larangeira), obemtevi(tyrannus sulphuratus), oserra-serra(carduelis nitens), ocanario da terra(carduelis brasilienses), oavinhado(pitylus nasutus),oscaraúnasouvirabostas(icterus violaceus) os mais animados e barulhentos cantores do sertão, osencontros(xanthornus tristis) e muitos outros notaveis pela plumagem e canto que não conheciamos e viamos pela primeira vez.Nos campos ha poucasperdizesecodornizes: na planura de cima da serra não as vimos: em compensação, a volateria é sobremaneira importante em outras qualidades, como já mostrámos.Entre osreptis, além dosophidiosjá apontados, avulta olagarto: osbactraciossão os conhecidos geralmente.Entre osinsectostodas as subdivisões são mais ou menos bem representadas: entre osnevropterosapparece com abundancia otérmes(cupim), noshymenopteros, muitas especies demaribondos, deformigaseabelhas: poucoslepidopteros: nosdipterosmuitosmosquitos,muriçocas,mucuinsoupolvoras,moscas, etc., em alguns pontos do rio, em outros são rarissimos.Entre asarachnides, não pode ser esquecido oacaride-arachnide,carrapato(ixodes) um dos grandes incommodos de quem viaja pelas matas. No Aquidauana eramos flagellados pelorodeleiroouestrella(especie grande),ruivo(especie menor) epiolho de gallinha(especie mui pequena).N'um dos affluentes do Aquidauana encontrámos curiosos molluscos, com a conformação domechilhão(mytilus) e com o interior da costa calcarea brilhante, a modo de madreperola. «O Pacheco e o Valerio, diz uma de minhas notas de viagem, affianção que, em certo ponto do rio Paraguay, ha muitos d'esses restos, sendo até uma bahia denominada dasConchas». Achámos tambem d'essas conchas no ribeirão do Euagaxigo, a 31⁄2legoas da villa de Miranda.APPENDICEAPPENDICEMemoria descriptiva do reconhecimento do caminho entre os rios Taquary e Aquidauana, feito pelos engenheiros capitão bacharel Antonio Florencio Pereira do Lago e 2º tenente bacharel Alfredo d'Escragnolle Taunay, ajudantes da commissão de engenheiros junto ás forças em operações no sul da província de Mato-Grosso.IExploração entre os rios Taquary e NegroNo dia 13 de Fevereiro passámos, defronte do acampamento goyano, o rio Taquary e margeando-o á esquerda, fomos, pela necessidade de descanço em consequencia do grande nado a que tinhão sido obrigados os animaes, pousar junto ao ribeirão da Fortaleza, com 20 minutos em tempo de distancia percorrida. A sua margem esquerda é escarpada e necessita ser rampada para a descida de carros; a direita é baixa e arenosa como o alveo d'este tributario do Taquary, que, depois de grandes chuvas, nega passagem a váo. Conta de largura 50 palmos, de profundidade 3, 11⁄2por segundo de velocidade e a elle segue-seuma mata onde existem varias rampas que podem ser facilmente vencidas. Deixando pelo lado esquerdo o Taquary e seguindo parallelamente ao seu confluente, o Coxim, que, pouco depois, desapparece, começámos a acompanhar o Taquary-mirim, o qual ora afasta-se, ora approxima-se muito perto do caminho, transpondo-se com 32 minutos de marcha um pequeno corrego, cujas ribanças necessitão ser modificadas, e d'ahi a 43 milhas, outro nas mesmas condições. Com mais 41 minutos passámos um ribeirinho cujos barrancos devem ser cortados para facilitar a passagem, e pouco depois chegámos á cachoeira do Taquary-mirim (pouso dos Boritys), junto á qual existem vestigios de um acampamento dos paraguayos e onde pernoitámos.A distancia percorrida foi sempre em terreno secco, de base argilo-arenosa, entre cerrados em que predominãoanonaceas(araticús do campo) e varias especies debyrsonima: o caminho é uma simples trilha, muito visivel porém e sempre seguido.Tempo gasto4 horas e 32 minutos.[120]Distancia percorrida8,265 braças, ou 23⁄4legoas proximamente.Deixando o pouso dos Boritys que offerecerá um acampamento regular para as forças em marcha, com 36 milhasde marcha fomos ter ao corrego da Porteira, a 77 minutos do qual passámos outro, chegando ao ribeirão da Mata depois de caminharmos mais 95 minutos. A 50 braças antes d'esta corrente, existe um terreno baixo que ha de tornar-se alagadiço com a continuação de chuvas, podendo ser praticada, n'este caso, uma extensa estiva pelo muito mato, que cobre as margens do ribeirão.O leito d'este é arenoso; a largura média de 50 palmos, 2 de profundidade, chegando a negar váo no tempo de grandes enchentes. Ahi podérão acampar as forças depois de ter sido facilitada a passagem, rampando-se a margem esquerda.Tempo gasto4 horas e 0 minutos.Distancia percorrida7,285 braças, ou 28⁄2legoas proximamente.A 16 minutos do ribeirão da Mata, existe uma casa abandonada, proxima a um capão, denominado Tapera, assim como o corrego, que, pouco adiante, dirige-se para E. entre margens pouco firmes, permittindo porém a proximidade do mato fazer-se de prompto uma estiva para a passagem de cargueiros e carros. D'ahi a 8 minutos passámos um pequeno pantano de 30 braças, que póde dar boa passagem, se as chuvas não augmentarem e o tempo tornar-se secco; devendo ser este espaço estivado no caso contrario. Continuando, atravessámos o ribeirão Claro, cujas margens altas e nemorosas precisão ser melhoradas, com leito pedregoso, largura de 35 palmos e profundidade de 11⁄2. Depois de chuvas continuadas impede o transito. Depois de 110 minutos chegámos ao ribeirão Verde que tem margensabruptas, cobertas de mato, leito de grandes lages, váo pessimo para a passagem de animaes carregados. Tem de largura 65 palmos, 31⁄2de profundidade, augmentada porém, durante as aguas, a ponto de vedar o transito.A força póde acampar em sua margem direita depois de rampados os barrancos que encanão este ribeirão.Tempo gasto3 horas e 0 minutos.Distancia percorrida5,463 braças, ou 11⁄3legoas proximamente.Sahindo do ribeirão Verde, passámos com 63 minutos de marcha um bosque e d'ahi a 30 minutos a mata ou capoeira do Major com abrupta descida que vai ter a um pantano, em que gastámos 5 minutos, seguindo-se nova mata e outro almargeal cortado tambem por mato. O terreno começa a subir: torna-se pedregoso e entra-se no Portão de Roma: pessima e difficultosa passagem embaraçada com grandes lages e rochas que se achão na trilha que serve para a viação. As carretas dos paraguayos passárão por este desfiladeiro: entretanto será necessario um trabalho preliminar ou um desvio para conseguir-se facil transito. Continuando a caminhar, margeámos um lugar pantanoso logo abaixo do serrote e com mais 44 minutos fomos pousar no Lageadinho, onde um pequeno lagrimal dá agua em toda esta estação.Tempo gasto3 horas e 49 minutos.Distancia percorrida6,951 braças, ou 21⁄4legoas proximamente.Deixando o Lageadinho, passámos um lagrimal depois de 65 minutos de marcha e com mais 65 o corrego do Castelhano, entrando d'ahi a 15 minutos n'uma mata, atravessada por um filete d'agua, seguindo-se outras, cortadas, de distancia em distancia, por campos dobrados até o corrego da Volta, onde poderá formar-se o acampamento das forças.Tempo gasto5 horas e 19 minutos.Distancia percorrida9,683 braças, ou 33⁄2legoas proximamente.Do corrego da Volta, com 41 minutos de marcha passámos n'um matagal, e com mais 32 minutos o ribeirão do Perdigão, cujas margens hão de necessitar de concertos para a facil transposição.D'este ribeirão, com 44 minutos, entrámos na mata dos Jaós, de 3 minutos de extensão, onde os paraguayos deixárão uma canôa, que poderá servir para a passagem do rio Negro, caso seja concertada e transportada para aquelle ponto. Com 65 minutos chegámos ao corrego da Cachoeirinha, e, d'ahi ao corrego Fundo, gastámos mais de 40 minutos. Poderá acampar a força, depois de feita uma estiva nas margens pouco firmes d'este corrego.Tempo gasto3 horas e 46 minutos.Distancia percorrida6,860 braças, ou 21⁄4legoas proximamente.Com 119 minutos de marcha fomos do corrego Fundo a um pequeno olho d'agua, d'ahi a 77 minutos a um lagrimal e com mais 81 minutos ao rio Negrinho, passandoantes por um terreno baixo e alagado. O rio dá váo commodo no tempo secco: n'esta estação, porém, a profundidade é de 7 palmos, sendo a sua largura de 63. Uma arvore cahida, de uma margem á outra, servio-nos para a passagem das cargas, e com pouco trabalho ter-se-ha uma boa pinguela. O váo acha-se a 30 braças mais ou menos acima do lugar em que está a arvore, subindo pela margem esquerda. O acampamento na margem direita, depois de passar a mata, é melhor, ainda que mais distante da agua.Tempo gasto4 horas e 37 minutos.Distancia percorrida8,408 braças, ou 23⁄4legoas proximamente.Deixando a margem esquerda do rio Negrinho, depois de passarmos pela sua mata (onde existem depressões, chamadascorixas, que ficão cheias d'agua e dão nado durante as enchentes), fomos ter, com legoa e meia de viagem ao Potreiro, pequeno rancho na fazenda dos cidadãos Antonio Alves Ribeiro, e Tiberio, onde não encontrámos além do gado, que não póde ser reunido por falta de cavalhada, recurso de qualidade alguma para a força, nem pessoal para trabalhar na construcção de canôas para a passagem do rio Negro. D'este ponto até o rio, o caminho apaga-se quasi completamente; é apenas uma trilha mal aberta por alguns fugitivos de Miranda, a qual atravessa grandes pantanaes, duas corixas cheias, charcos e mata muito cerrada. Se os meios para passar o rio estiverem promptos, deverá a força ir acampar na margem do rio; no caso contrario, demorar-se-ha junto ao Potreiro.Tempo gasto4 horas e 48 minutos.Distancia percorrida8,742 braças, ou 3 legoas proximamente.A passagem para a infantaria é sempre commoda e facil até o Potreiro; para os carros, porém, e bagagem será necessario rampar as margens das correntes que atravessão o caminho e fazer estivados em differentes pontos. Nas matas, e nos cerrados, ha páos e taquaras que embaráção o transito; pelo que deverá ir, sempre dianteiro á força, um certo numero de homens armados de machados e fouces, para removerem estes obstaculos. Do Potreiro, porém, ao rio Negro, até para homens a pé, o caminho é de difficil viabilidade, e necessita ser aberto e melhorado para o transito.Com excepção do Portão de Roma, proximidades do Lageadinho e margem dos corregos e ribeirões, os declives do caminho são sempre bons: o leito é uma estreita trilha, argilo-silicoso, quasi sempre secco até pouco adiante do Potreiro.Achamo-nos hoje na margem do rio Negro, sem termos encontrado guia para o caminho que segue a fralda da serra de Maracajú até a aldêa da Piranhinha, o qual os soldados desconhecem, e vamos encetar viagem á tôa e sem indicações certas.Margem esquerda do rio Negro, 25 de Fevereiro de 1866.POUSOS PARA A FORÇAAo pouso dos Boritys23⁄4legoasAo ribeirão da Mata21⁄2»Ao ribeirão Verde13⁄4»Ao Lageadinho21⁄4»Ao corrego da Volta31⁄2»Ao corrego Fundo21⁄4»Ao rio Negrinho23⁄4»Ao rio Negro3»Somma203⁄4»Do rio Taquary ao rio Negro203⁄4»A planta topographica indicará outros pousos, caso não convenhão estes, e dá os accidentes de terreno e direcções magneticas.IIExploração entre o rio Negro e os MorrosNo dia 25 de Fevereiro, passando o rio Negro n'uma pelota, transportámo-nos para a sua margem esquerda, baixa, paludosa e coberta da mesma vegetação que já tinhamos achado do outro lado. Por espaço de um quarto de legoa lutámos n'ella com os obstaculos provenientes das enchentes do rio, sendo obrigados a novas passagens, empelota, de corixas cheias e pyrisaes (lugares inundados) e á marcha em terreno sempre humido e atoladiço. Abre-se depois o campo com cerrados ao longe, e achámo-nos na base da serra de Maracajú, que era o nosso unico meio de direcção na procura da trilha, que dizião ter sido aberta pelos fugitivos de Miranda, na invasão d'este districto no anno passado. Com effeito avistavamos uma longa e continuada serrania que tinhamos de deixar á esquerda, fraldejando a sua aba e fugindo ás aguas que cobrião a estrada seguida no tempo secco até o rio Aquidauana.A questão era examinar a qualidade de terreno, em que tinhamos de marchar e saber das vantagens da abertura de um caminho para a força nos seus primeiros movimentos para o Baixo-Paraguay.Seguindo pois o rumo S., desde as primeiras horas de marcha, reconhecemos as difficuldades que tinhamos de vencer na procura d'aquella supposta trilha e dos vestigios da passagem, bem que recente, de um homem a cavallo, apagadas de todo ou pelas chuvas ou pelas pégádas do gado que vaguêa pelos campos, indo a final esbarrar em uma mata tão cerrada que roubou-nos boa porção do dia, não nos permittindo caminhar mais de legoa e meia. No pouso verificámos que a carne secca, que haviamos preparado no Potreiro para a nossa viagem, calculada em oito dias, pelas passagens nas corixas e pela muita chuva dos dias anteriores, achava-se de todo deteriorada. A impossibilidade de termos recursos d'aquelle lugar, pois que a ultima porção de gado recolhido, fôra levado da fazenda do Retiro para o Coxim e a esperança de podermos matar alguma das rezes que encontravamos, não nos permittírão duvida sobreo que deviamos resolver. Dous dias depois caminhando sempre, ora em terreno pantanoso e atoladiço, até a fralda da serra, ora em cerrados de difficultosa passagem, achavamo-nos com todos os recursos de boca completamente esgotados e com a certeza desesperadora da quasi impossibilidade em matarmos á bala rezes, completamente selvagens e ariscas.Os nossos males crescêrão com a fuga de todos os animaes, o que nos reteve nas mais crueis necessidades, junto ao corrego da Afflicção, durante dous dias nos quaes sustentámo-nos de fructos silvestres, que os soldados podérão colher. Conseguindo no terceiro dia alguns dos animaes, proseguimos viagem deixando quatro d'elles perdidos e canastras escondidas na mata proxima, alimentando-nos desde então por oito dias de miôlo de palmeiras e de alguns fructos do mato, soffrendo sempre chuvas torrenciaes e contrariedades. Em todo este tempo fizemos apenas 11 legoas, apezar de andarmos dias inteiros, ora rodeando charcos perigosos, ora abrindo picadas em cerrados de intrincadissima taquára. Em parte alguma viamos uma trilha seguida: quando nos suppunhamos perdidos, deparavamos algum rancho abandonado, uma arvore cortada, um signal que indicava acharmo-nos no rumo seguido pelos fugitivos, os quaes, sem duvida, tiverão interesse em occultar os seus vestigios, acoçados dos paraguayos, que demandavão o mesmo caminho, como o vimos pelos signaes de acampamento de forças. Tomando afinal o rumo O. fomos trilhar a parte, transitavel hoje, do caminho do pantanal, onde podémos dar fim aos nossos soffrimentos, conseguindo carnear uma rez.No dia 10 passámos o rioTabôcoque achámos de nado e, visitando no dia seguinte o aldeamento dos indios na Piranhinha, chegámos no dia 11 ao arranchamento do cidadão João Pacheco de Almeida, onde tivemos recebimento hospitaleiro e sympathico e onde nos achamos agasalhados.CAMINHO QUE A FORÇA DEVE SEGUIRNão existe trilha alguma junto á fralda da serra de Maracajú. O pantanal que vai até a base d'esta serrania é em terreno fôfo e de perigoso transito, sobretudo para grande numero de cargueiros e carros: nos cerrados, o sapé alto, capins e taquaras maltratão os infantes e canção sobremodo os animaes. Só nos principios de Maio poderão, segundo informações de pessoas praticas, achar-se estes lugares seccos; época em que o caminho, chamado do pantanal, conhecido por muitos e trilhado, dá excellente passagem por occasião da retirada das aguas. A vantagem de ser a trilha do pantanal sempre firme, não póde deixar duvida sobre o caminho a seguir, escolhido que seja um guia, conhecedor d'estes lugares que dê indicações dos lugares em que se encontrão boas aguadas. Ocapatazda fazenda doTabôco, o cidadão Antonio Maria Tonhá, é muito proprio para este serviço.CONTINGENTE PARA A FORÇAGuarda nacional.—Os guardas nacionaes, que existemdebaixo das ordens do tenente coronel Albuquerque, não podem perfazer o numero de 100: melhores informações sobre seu armamento, fardamento e municiamento, teremos depois de recebermos resposta ao nosso officio de 17 do corrente ou conversarmos com o tenente coronel commandante; o que tudo havemos de communicar com a brevidade possivel.Indios.—No aldeamento dos indios terenas, da Piranhinha, encontrámos a melhor disposição na gente do capitão José Pedro: apresentárão-se-nos 60 moços bons atiradores e proprios para servirem de excellente tropa em sorprezas e emboscadas.No aldeamento de Francisco Dias ha 40 homens robustos, em estado de pegarem em armas: achão-se armados, e só lhes falta cartuxame.Da gente quiniquináo, acampada em diversos pontos, póde-se contar com 30 homens.São ao todo 130 indios que estão no caso de servir de contingente á força. Falta-nos comtudo visitar, a oito ou dez legoas d'aqui, dous aldeamentos, um quiniquináo e outro laiana, que devem augmentar o numero de homens e dar alguns alqueires de arroz e milho. Áquem de Miranda ha tambem outros pontos em que existem indios foragidos.A indole dos indios é guerreira: votão odio encarniçado aos paraguayos e estão com estes em continua guerra de emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os lados tem trazido A indole dos indios é guerreira: votão odio encarniçado aos paraguayos e estão com estes em continua guerra de emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os lados tem trazido temor e receio reciprocos; entretanto a inconstancia de genio e a impossibilidade em confiar na disposição de espirito e firmeza para arrostarem no campo e defrente o inimigo, os torna apenas proprios para atiradores em matas e guerrilheiros.RECURSOS COM QUE DEVE CONTAR A FORÇAGado.—Desde o rio Negro até a Piranhinha vimos immensa quantidade de rezes, vagando pelos campos em grandes manadas. Entretanto a necessidade, para o fornecimento, de bons cavallos para rodear-se o gado, obrigará á espera da terminação da peste que grassa entre os animaes até fins de Abril, e que tem destruido toda a cavalhada desde o Coxim até estes lugares.Um contractador, de posse comtudo de bons animaes, poderá com facilidade, em todos os pousos da força, reunir a quantidade precisa de rezes nas fazendas de Joaquim Alves, Fialho, capitão Pires (prisioneiro dos paraguayos), José Alves de Arruda e outros.Os cidadãos que pelas informações colhidas, poderão se encarregar do fornecimento são: Joaquim Alves e Canuto Virgolino de Faria (no Coxim); mas deverão de antemão comprar cavallos para se acharem em circumstancias de cumprir com os seus compromissos.Calcula-se em 13,000 cabeças o gado que existe nas fazendas apontadas acima, e só póde haver difficuldade na obtenção de rezes com a falta de cavallos, para o que devem ser tomadas providencias acertadas.Cereaes.—As plantações dos refugiados de Miranda, além das limitadas proporções em que forão effectuadas paraproverem unicamente á subsistencia particular, não derão colheita satisfactoria. O milho veio muito falhado; o arroz abaixo da expectação: são comtudo os dous generos que mais avultão. Ha grande difficuldade em reduzir-se o milho existente á farinha, ou á cangica, pela falta de um monjólo; promettem alguns alqueires á custa de braços.Não ha nenhum feijão recolhido: apenas algumas quartas plantadas, que comtudo pouco podem dar pela falta de chuva e má época em que forão lançadas em terra.Sal.—Ha grande carencia de sal: apenas existem 2 ou 3 alqueires que estão sendo vendidos.Os dados que seguem forão todos colhidos com a maior minuciosidade, e são o resumo de quantidades parciaes, como se vê do mappa annexo:Milho50alqueiresCangica57»Farinha10»Arroz com casca110»Arroz socado155»Somma382»FORÇA INIMIGAInterrogando diversas pessoas e indios, que têm, desde Janeiro até fins de Fevereiro, visitado os lugares ainda occupados por forças, colhemos as seguintes informações:Na fazenda do Souza50 a 150homensNo Espenidio200»Na Forquilha100»Em Nioac360»Ao todo810»No porto do Souza existe um entrincheiramento a menos de meia legoa do rio, e entre estes dous pontos uma guarda rendida diariamente, que serve para vigiar o Aquidauana. N'este entrincheiramento houve ultimamente augmento de força, pois que ouvem-se agora rufos de tambores e toques de corneta, o que não acontecia até fins de Janeiro: ha uma peça de artilharia para defendel-o e uma palissada de grossos madeiros de aroeira. Iremos com as precauções precisas visitar estes pontos, communicando logo o que tivermos observado.A Forquilha e o Espenidio achão-se no caminho de Nioac á villa de Miranda. Este ultimo ponto está presentemente abandonado, todas as casas forão queimadas e não ha mais guarnição. É informação de André José dos Santos, que nos ultimos dias de Janeiro, com 6 companheiros foi reconhecer o inimigo, voltando no dia 4 de Fevereiro.A Nioac chegou, a 3 de Fevereiro, Agostinho Joaquim Coelho, assistindo, de uma mata proxima, ao exercicio de um batalhão de infantaria pesada, formado em 6 pelotões de 30 filas pouco mais ou menos. A gente que se acha na fazenda do Souza é aguerrida e regular, o resto dizem constar de soldados ainda bisonhos. A cavalhada, de que elles dispõem, é boa, como vimos por alguns cavallos roubados pelos indios.Usa a infantaria de espingardas á Minié de 1,000 passos, e a cavallaria de lanças que manejão com muita destreza, de clavinas e espadas. Nas cartuxeiras trazem os soldados 80 cartuxos: os indios afianção que são máos atiradores, fazendo comtudo justiça completa á coragem e valor nunca desmentidos do inimigo.Os paraguayos desde Maio do anno passado não fizerão mais correrias na margem direita do Aquidauana; provêem-se de gado, abundantissimo no outro lado, e considerão o rio divisa do territorio brasileiro.Existe uma estrada, chamada do Canastrão, pela qual, de Dourados, onde ha força, e da fronteira podem vir soccorros para coadjuvarem os contingentes espalhados no districto de Miranda.Esperão-se aqui cartas de um fazendeiro de Nioac, preso dos paraguayos, que foi visitado pelo indio laiana Joaquim da Silva em Fevereiro, o qual dá noticia de mais destacamentos na Ariranha e no Esbarrancado, a 8 legoas além de Nioac.Suppõe-se que os destacamentos no Souza e Espenidio têem ordem para concentrar-se, com o apparecimento de nossas forças, em Nioac, afim de, attrahindo-as até este ponto, poder ser cortada a nossa retaguarda pelo caminho do Canastrão, que vem do Paraguay a Miranda.RESUMOO movimento da força brasileira póde effectuar-se nos primeiros dias de Maio, tomando o caminho do rio Negro, edepois o do pantanal, que deve de estar completamente secco, reunida que seja boa cavalhada para o fornecimento de gado durante a marcha. Com poucos generos póde contar dos Morros e dos indios. Nas operações, além do Aquidauna, deve esperar encontrar mais de 1,000 inimigos, entrincheirados o mais das vezes, e dispostos á resistencia.RIOS QUE PASSÁMOSO rio Negro, no lugar de nossa passagem, tem 18 braças: entretanto como a força deverá vir pelo caminho do pantanal, indicado no nosso trabalho pelo traço colorido que vai ligarse ao caminho do roteiro do primeiro reconhecimento, além do Potreiro, é necessario visitar o rio mais baixo e conhecer a sua largura.O rio Tabôco tem 30 braças de largura.Meios de passagem.—Para o rio Negro devem-se promptificar barcas, pois que as margens baixas e atoladiças não facilitão a construcção de uma ponte. O rio[121]tem lugares de bom váo, como o afiança o pratico Tonhá, que conhece-os perfeitamente. O rio Tabôco é vadeavel.Para o Aquidauana precisão ser trazidas ao porto do Jatobá, ou ao de D. Maria Domingas, as canôas do tenente coronel Albuquerque da sua fazenda do rio Negro e a prancha do cidadão Cardoso Guaporé, o qual já foi examinaro estado em que ella se acha, por estar escondida, ha mais de anno, n'uma volta do rio.DISTANCIA QUE PERCORREMOSDo rio Negro á entrada do Pantanal13legoasD'ahi á Piuva.11⁄4»Da Piuva aos Dous Corregos.11⁄2»Dos Dous Corregos ao Tabôco.31⁄2»Do Tabôco á ponta do morro d'onde o caminho segue para o Aquidauana.13⁄4»D'aquella pontaá Piranhinha.11⁄4»»»a João Pacheco.31⁄4»De João Pacheco a Francisco Dias.1⁄2»Somma26»A volta pelo caminho do Pantanal não póde exceder de 4 legoas.Morros, 20 de Março de 1866.IIIExploração á margem direita do rio AquidauanaA necessidade de visitarmos dous aldeamentos de indios e reconhecermos a margem direita do rio Aquidauana e seus diversos portos que derão passagem aos paraguayos, na invasão do anno passado, fez-nos emprehender nova viagem, effectuando a nossa partida para aquelles pontos, no dia 24 do mez proximo passado. Seguindo ás vezes a base da serra que viemos fraldejando, desde o rio Negro, outras cortando-a em diversas e profundas depressões, visitámos a 71⁄4legoas de nosso ponto de partida o acampamento dos laianas, onde apenas encontrámos 20 homens em estado de pegar em armas, e viveres em quantidade insufficiente, até para sustento proprio.No aldeamento do Oauassú, a 3 legoas do outro, ha igual carencia de mantimentos e só 9 indios para augmentarem o contingente, que dá a tribu dos quiniquináos. Tomando d'ahi rumo S., procurámos o Aquidauana, indo acampar junto á sua margem direita que, desde então, seguimos até a tapera do Pires, d'onde fizemo-nos na volta dos Morros.Achão-se junto á borda do rio, que margeámos, differentes casas abandonadas por occasião da entrada dos paraguayos, as quaes tem cada qual a sua passagem para o outro lado e porto no rio.Assim são os portos do Canuto, até onde chegou uma partida inimiga vinda do Taquarussú, de João Dias,Maria Domingas, Francisco Dias, etc., que vão apontados no reconhecimento topographico. Examinando cada um d'elles com cuidado, para indicarmos a passagem mais conveniente para a força, pareceu-nos o porto de D. Maria Domingas o que satisfaz a todas as condições precisas. É o unico que dá váo em toda a extensão (30 braças) com profundidade de 4 a 8 palmos, facilitando assim não só a passagem da infantaria, como tambem o serviço das barcas, que será feito com muito mais presteza, tocadas e puxadas á mão.Além d'isto a força, occupando a margem esquerda, corta a communicação entre o entrincheiramento do porto do Souza e o do Espenidio e impede qualquer movimento de concentração que os inimigos procurem fazer. Do largo da Piranhinha deverão as forças dirigir-se para o porto de D. Maria Domingas, tendo á frente um bom pratico d'estas localidades, caso não seja tomada outra determinação.D'este porto ao do Souza, pela margem esquerda contão-se 4 legoas de trilha completamente secca e, a não querer cortar campo, é d'elle que partem caminhos para Miranda, Forquilha, Nioac, etc.Do porto de D. Maria Domingas ao Eponadig4legoasDo Eponadig á Forquilha7»Da Forquilha a Nioac10»Do porto a Nioac21»Alguns d'estes pontos e mais o Espenidio e o Souza,occupados pelos paraguayos, fórmão uma linha que fecha em circulo a villa de Miranda; razão por que foi ella abandonada e queimada, reforçando-se os pontos estabelecidos em derredor. Assim pois a retirada de Miranda não tem significação de evacuação de forças, parecendo, pelo contrario, dever indicar a tenção de melhor defender o territorio, em que se achão e que fechárão por um cordão de destacamentos desde o Apa até o Souza.A este ultimo ponto não podémos chegar, pois que um desencontro na remessa de cartuxos, que tinhamos requisitado do Illm. Sr. tenente coronel Albuquerque, obrigou-nos a não effectuar este reconhecimento arriscado e que só póde ser feito á mão armada, pela vigilancia que, sobre a outra margem, exercem os paraguayos. Mandámos comtudo uma partida de indios[122]reconhecer, de dentro da mata, a estacada e, apezar de seus habitos e habilidade na espionagem, não podérão passar além do piquete que, como já participámos, existe entre o rio e o entrincheiramento. Este piquete compõe-se de 10 a 12 praças, que se achavão montadas em burros (o que indica a falta de cavallos) para cercarem as rezes que conservão, encostadas á margem do rio, para o consumo. Na frente ha uma bandeira vermelha, junto a ummangrulho, d'onde uma sentinella devassa grande extensão de terreno.(Os paraguayos chamãomangrulhoa uma guarita elevada sobre 2 ou 4 esteios de 40 a 60 palmos, d'onde a vista se estende muito ao longe).Descendo o rio pela margem direita, chega-se com 4 legoas de marcha ao porto do Jatobá, que dizem ser vadeavel, depois de um pequeno nado e que dista do Souza, pela margem esquerda, 21⁄2legoas.Em geral todas as trilhas achão-se apagadas pelo muito capim e falta de transito: devem ser preparadas quando a força tiver de dirigir-se ao porto escolhido para a sua passagem.Distancia que percorremos23 legoas.CONTINGENTE PARA A FORÇA OPERADORAGuarda nacional.—Segundo as informações, que nos prestou o Illm. Sr. tenente coronel Albuquerque, commandante do batalhão n. 7 da guarda nacional, existem 85 praças mal armadas e sem fardamento e poucos officiaes, tendo-se retirado a maior parte d'elles para diversos pontos longinquos d'esta provincia. Achão-se os guardas espalhados n'uma larga zona e são elles os que preparão a maior quantidade de mantimentos, o que deve ser attendido por occasião de sua reunião que desfalcará, pela falta de braços, o numero de alqueires de mantimentos com que poderia a força contar.Estão tambem qualificados guardas nacionaes indios quiniquináos e terenas que melhores serviços prestarião englobados nas suas respectivas tribus, como por exemplo o indio José Pedro, capitão dos terenas, que deve ser conservado á frente de sua gente pelo respeito que tem sabido infundir e obediencia que lhe prestão os seus companheiros.A guarda nacional acampou, de 3 a 22 de Setembro do anno passado, junto ao capão dos Boritys, tendo-se ahi reunido 66 praças desarmadas, que forão licenciadas para cuidarem em roçados e plantações. Existe algum cartuxame para seu municiamento: entretanto ha muitos cartuxos deteriorados e inserviveis.Indios.—Informações frescas colhidas do Sr. João da Costa Lima, que chegou das aldêas além Aquidauana, dão-nos os meios de apresentar o total de indios que, além dos guaycurús, cujo capitão Nadô consta vir-se apresentar com toda a sua tribu, poderá coadjuvar a força.Terenas216Quiniquináos39Laianas20275homens.Estes indios mostrão a melhor disposição, offerecendo-se com espontaneidade e servindo com toda a dedicação, como verificámos nos nossos ultimos reconhecimentos. Achão-se muito atemorisados com a chegada da força, pois que repetidas ameaças dos fazendeiros, refugiados aqui e em outros lugares, por causa das rezes que elles são obrigados a matar para a sua alimentação, tem incutido o temor de que as forças virão escravisal-os e tratal-os com todo o rigor da guerra. Procurámos tranquillisar esta pobre gente que, nos calamitosos mezes de invasão, portárão-se com moderação não natural na esphera e condição em que vivem.Oscadiuéos, inimigos figadaes dos paraguayos, não merecemconfiança alguma e têem, em varias occasiões, causado tantos damnos aos brasileiros como aos inimigos.RECURSOSInsistindo ainda sobre a importantissima questão de fornecimento e acquisição de gado, que se tem tornado muito difficultoso, depois da peste dos cavallos, levámos ao conhecimento do commando das forças a falta absoluta de cavalhada desde o Coxim até os Morros, onde os fugitivos de Miranda se achão desprovidos de carne para sustento proprio, pela destruição completa de todos os animaes, desde Dezembro do anno passado. O tenente coronel Albuquerque indica os cidadãos, de que fallámos na nossa ultima participação, prestando-se-lhes os meios para munirem-se de cavallos.Ao numero de alqueires, dado no mappa dos mantimentos, que se podem obter dos habitantes dos Morros, devem ser addicionados mais 45 de arroz, e de cangica 22. Ponderamos comtudo de novo que o chamamento dos guardas nacionaes ao serviço das armas, deve diminuir a quantidade de viveres indicada n'aquelle mappa, por não se achar a colheita concluida, e pertencerem quasi todos os seus possuidores á guarda nacional. A requisição que, segundo as nossas instrucções, fizemos de homens para a construcção de canôas no rio Negro, impossibilita varios cidadãos de promptificarem os mantimentos que tinhão promettido.Indagando de diversos pontos d'esta provincia ou de outra que poderião mandar viveres para as forças no districto de Miranda, apontárão-nos a villa de Santa Anna do Paranahyba,que dista de Camapuam 60 legoas, ficando este ultimo lugar, hoje completamente abandonado, a 50 legoas da villa de Miranda; por agua fallárão-nos na communicação muito frequente antes da invasão, entre Porto Feliz, em S. Paulo, e o acampamento de Nioac, descendo canôas carregadas os rios Tieté e Paraná, e subindo o Ivinheima e Brilhante até Sete Voltas, d'onde, com cinco dias, chegavão carros a Nioac. Esta viagem, que fazião em 4 mezes, ida e volta, póde fornecer abundante provimento ás forças no caso de sua demora no Baixo-Paraguay: indicamol-a por ser esta hypothese possivel e dever cuidar-se quanto antes na reunião de viveres que, de mais á mais, hão de tornar-se escassos em territorio devastado e sem recursos.MEIOS DE PASSAGEM DO RIO NEGRO E AQUIDAUANAGuiando-nos pelas nossas participações anteriores, que aconselhão a marcha das forças do Coxim nos primeiros dias de Maio, requisitámos a 6 do corrente 12 guardas nacionaes e indios para irem construir barcos para a passagem da expedição.Com difficuldade, apezar das ordens do tenente coronel commandante, estão-se reunindo as praças pedidas, faltando completamente toda a especie de ferramenta. Estes homens, como melhores trabalhadores, são os que preparão a maior quantidade de mantimentos para a força, não se achando ainda terminada a colheita de milho e arroz, e sobretudo não tem meio algum de conduzir viveres que cheguem para alimentação, durante o mez necessario de parada n'um local totalmente falto de recursos como é o rio Negro.Apezar de tudo vamos tratar de apressar a remessa d'estes guardas, requisitando mais 12, á vista das instrucções que nos mandão preparar meios de passagem nos differentes rios, para o trabalho que temos de fazer nas canôas que servirão no Aquidauana.Para este ultimo rio deverão subir as canôas do tenente coronel Albuquerque, do seu acampamento no rio Negro, ficando nós aqui para mandarmos preparar, com uma serra e um machado, taboas e barrotes que formarão as barcas na occasião da approximação da força, pois que qualquer trabalho precipitado póde ser inutilisado pelo inimigo, o qual parece ultimamente vigiar mais cuidadosamente as margens do rio.Força maior nos impede de acompanhar os homens que vão ao rio Negro: levarão para dirigil-os um official carpinteiro habilitado na factura das canôas. Para guia das forças até o Aquidauana recommendamos denovo o pratico Antonio Maria Tonhá, homem utilissimo por conhecer perfeitamente os caminhos e campos por onde se possão abreviar as marchas e saber dos lugares onde existão boas aguadas.Para Miranda e Nioac há n'esta localidade muitas pessoas proprias para servirem de guia.DISTANCIAS ALÉM DO AQUIDAUANA

Memoria descriptiva do reconhecimento do caminho entre os rios Taquary e Aquidauana, feito pelos engenheiros capitão bacharel Antonio Florencio Pereira do Lago e 2º tenente bacharel Alfredo d'Escragnolle Taunay, ajudantes da commissão de engenheiros junto ás forças em operações no sul da província de Mato-Grosso.


Back to IndexNext