no fulgor de uma estrella o beijo do perdão.*A virtude daquellas almas!...E porque razão de alta monta o autor daTalithadevia quebrar a verdade do facto observado, a unidade d'aquelle conjuncto que elle não phantasiou e que, felizmente, encontrou num dia da sua mocidade, em meio da crise social moral que caracterizava aquella época dolorosa de provações populares?Introduzir um personagem que não tivesse as mesmas qualidades de caracter seria deturpar os factos para obedecer aométier, a carpintaria de theatro vencendo a moral na arte: um cumulo de estupidez.Além de tudo, inutil: a emoção dramatica, o effeito theatral são completos e seguros com a simplicidade daquellas cinco figuras, porque o Bem, a Virtude e a Harmonia encantam e commovem sempre, em todas as zonas e latitudes da terra.Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:«O artista que emprega suas faculdades ao serviço de uma idéa generosa não é menos artista por isso, se bem que não seja por isso que elleé artista. O amor e a intelligencia do bem suppõem uma concepção superior das condições da vida individual e social que é preciso desejar a todos os artistas como a todos os homens...»................................«Entretanto ha uma observação a fazer neste ponto, é que parece mais facil pintar o vicio do que a virtude. Balsac, que se sahiu admiravelmente na pintura dos monstros, encalhava quasl sempre quando era atacado pelos homens pudicos.«Tão verdadeiros e vivos são os seus libertinos da alta o baixa sociedade, como os outros, na maior parte do tempo, são ternos e mal acanhados.»Op. cit. pag. 32.Ainda mesmo quando o autor daTalithahouvesse faltado á verdade dos factos que observou, teria tentado o problema, na opinião do estheta brazileiro, mais difficil de resolver: o estudo e a interpretação da Virtude o do Bem, na psychologia dos cinco personagens que jogam em scena a acção do seu obscuro poema lyrico.A critica indigena, ignorante ou perversa, petulante ou futil, feriu-se com as proprias armas.*Que o autor daTalitha, sem prestigio para fazel-o, permittiu-se a liberdade de escrever um drama em verso, fórma litteraria que está totalmente banida do theatro moderno, supplantada pela prosa.É outra censura da critica indigena; espera-a a mesma sorte das anteriores: a critica é vesga e não sabe o que diz.Do theatro moderno ainda não foi banida a fórma alta e pura do verso: semelhante vandalismo seria uma violencia feita á arte, á belleza, ao bom gosto, á suprema lei do rythmo, para cujo excelso dominio tendem naturalmente todas as manifestações da vida e a linguagem da poesia do metro e da rima, a altissima elegancia.Moderno é Victor Hugo, gigante de oiro do theatro francez e escreveu em verso:Esmeralda,Burgraves,Ruy Blas,Cromwell,Torquemada,Grandmère,L'Épée,Mangerontils?,Sur la lisière d'un bois,Les gueux,Étre aimé,La Forêt-mouillée.Modernos são Paul Delair e Lomon e escreveram em verso os seus dramasGarin,Jean DaciereMarquis de Kenilisque Zola critica asperamente na sua obra—Naturalisme au Théâtre.Moderno é Banville e produziuHymnis,Riquet à la houpeeSocrates et sa femme, tres comedias em verso.Moderno é Alphonse Daudet e entre as suas obras figuraChar, comedia em verso, em um acto.Moderno é Alfred Musset e legou ao theatro da sua patria:Les marrons du feu, comedia;A quoi rêvent les jeunes filles, comedia; eLa coupe et les lèvres, drama, todos em verso.Moderno é Ed. Pailleron e no seu theatro figuramNarcotique, comedia em um acto, eHélène, drama em quatro actos, ambos em verso.Moderno é Ludovic Halévy, collaborador de Meilhac, e produziu, em verso, aPhrynéeNina, la Tueuse.Modernissimo é Emile Augier, o grande mestre da litteratura dramatica e da carpintaria theatral e escreveu em verso a maior parte das suas peças. São em verso:Cigüe,Paul Forestier,Homme de bien,Aventurière,Gabrielle,Joueur de flúte,PhiliberteeJeunesse.Moderno é Catulle Mendés e em 1872 dotou o theatro com a sua comedia em verso,La Part du Roi, em um acto; em 1888 fez representar a sua formosa phantasia, tambem em verso—Isoline, em tres actos; e em 1889 produziu, ainda em verso, o drama em 6 actos—Fiammete; em 1906, punha em scena no Odéon, o seu dramaGlatigny, tambem em verso.Modernissimo é Jean Richepin e, em 1905, fazia representar na Comédie Française o seuD. Quichote, em verso.Modernissimo é tambem André Arnymede, que em 1906 assombrava a critica parisiense com a representação triumphal deLa Courtisane, em cinco actos e em verso.Modernissimo é Francis de Croisset e escreveu em verso os tres actos sensacionaes do Paon que subiu á scena na Comédie Française.Modernissimo é Emile Veyrin que viu os seus formosos versos dos quatro actos deEmbarquement Pour Cythère, no palco do Theatro des Bouffes Parisienne.Modernissimo é Jacques Richepin e, em Abril de 1907, viu na ribalta daPorte St. Martin, os soberbos alexandrinos daMajorlaine, em cinco actos, depois de haver debutado com os versos admiraveis daReine de Tyr, no theatro Sarah Bernhardt.Moderno é François Coppée, e em 1878, em collaboração com Armand d'Artois, produziu o drama em cinco actosGuerre des Cent ans; em 1879,Le Trésor, comedia em um acto; em 1881,Madame Maintenon, drama em cinco actos e um prologo: em 1883,Severo Torelli, drama em cinco actos; em 1885,Les Jacobites, drama em cinco actos; em 1880,Le Passant, em um acto; e em 1888,La Grève des Forgerons, em um acto, e em 1905,Scarron, em cinco actos: e todos esses trabalhos são em verso.Rostand escreveu todos os seus dramas em verso:Princesse Lointaine,Romanesques,Cyranno de Bergerac,Samaritaine,Ayglone ultimamente os tres primeiros actos doChant-clair...Miguel Zamacoix acaba de escrever e fazer representar em Paris pelo genio de Sarah Bernhardt,Les Boufons, em verso alexandrino, obra prima que a critica europea colloca, senão acima, ao lado doCyrano.E ainda recentemente, em Outubro de 1906, a imprensa franceza se occupou de uma outra obra prima do talento de Catulle Mendés, em soberbos alexandrinos, de um mysticisco celeste, que se intitulaSainte Thérèse.Na Inglaterra, Robert Browning escreveu a tragedia historicaStrafforde os dramasMancha no BrazãoeRegresso dos Deuses, todos em verso.Na Italia, Gabriel d'Annunzio escreveu em verso os tres actos daFilha de Jorio, e fez representar por Eleonora Duse o seu grandioso monumentoFrancesca da Rimini, em verso, como em verso havia escripto pouco antes o seu extraordinarioNerone, o genio brilhante de Boito, e Cavalloti o seu formosissimo idylioCantico dei cantici, em 1882.Na Hespanha, deixando de parte oD. Juan Tenorio, de Zorrilla: oTrovador, de Gutierres; aRoda de la Fortuna, de Thomaz Rubi, todos de 1850: Hartzemburch produziu mais recentementeLos Amantes de Terruel;Alfonso, el CastoeLa Madre de Pelagio, e Echegaray o seu conhecidissimoGran Galeoto.E todos esses dramas são escriptos em verso.Em Portugal, João de Deus, o lyrico sublime, escreveuHoracio e Lidia; Eugenio de Castro, o revolucionario de genio, o extraordinario autor daBelkisse deConstança, acaba de publicar oAnnel de Polycrates; Henrique Lopes de Mendonça, oDuque de Vizeue aNoiva: Fernando Caldeira, aMantilha de Rendae aMadrugada; Marcellino de Mesquita, aLeonor Telles; Julio Dantas, aCeia dos Cardeaes; Francisco Palha, aFabia; Luiz de Magalhães, oD. Quixote, os dois ultimos para o Theatro Academico, de Coimbra, todos em verso; sómente para citar os escriptores da actualidade, deixando de parteO Catãoe aMeropede Almeida Garrett e oCamões, de Antonio Feliciano de Castilho.Finalmente: em verso tambem escreveram no Brazil: Gonçalves de Magalhães, oOlgiato; Arthur Azevedo, oBadejo; Zeferino Brasil, oOutroe Coelho Netto,As estações.A critica, portanto, ou é ignorante ou mentiu propositalmente.*Mas a critica adiantou-se ainda: abriu dogmaticamente uma excepção: o verso em theatro só se admitte para as tragedias historicas.Outra cincada.Em Portugal, Fernando Caldeira deixou no theatro duas joias preciosas: aMantilha de Rendae aMadrugadaque nem são tragedias, nem tem filiação alguma historica.Na Italia, Cavallotti legou á lilteratura dramatica um primor de lyrismo: oCantico dei canticique não é tragico, nem historico.Em França, Catulle Mendès escreveu, em verso, os tres actos deIsolinee os seis doFiammetteque nada tem a vêr com a historia, nem com a tragedia.François Coppée produziuLe Trésor,Le Passant,La Grève des Forgerons, todos em um acto e que nãotem a minima relação com a tragedia, nem o menor vestigio de historia.No Brasil, oBadejo, de Arthur Azevedo, é uma comedia, oOutro, de Zeferino Brasil, um drama;As estações, de Coelho Netto, uma phantasia, todos em verso, sem relação alguma com a historia ou com a tragedia.A critica indigena«appartient à ce monde de paresseux qui font chaque soir une grande œuvre, en buvant une chope; seulement, le lendemain, ils ont sommeil et ne trouvent pas le temps d'ècrire la grande œuvre. «La vie se passe, l'âge arrive, ils restent des debutants.»Zola,La critique Contemporaine, pag. 351.Entretanto, René Doumic, um mestre da critica, escreve naRevue des Deux Mondes:«Je voudrais seulement que les poètes qui se sentent une vocation d'auteurs dramatiques ne s'imaginent point que le succès ne peut être obtenu par eux, à la scène, qu'en nous narrant des histoires romantiques ou des féeries.»E Gaston Sorbets conclúe:«M. René Doumic á assurément raison: la poesie dramatique est faite anssi pour exprimer les mouvements les plus profonds de notre cœur ou les aspirations les plus hautes de notre âme. Il suffit de voiler de poesie la Verité nue pour faire de cette divinité une muse nouvelle.»Deixemos vociferar os maldizentes: nós ficamos com os criticos que sabem sentir e... lêr.*Os zoilos que se lançaram á modestissimaTalitha, censuraram ao seu autor o atrevimento inaudito de não observar a regra do Theatro francez de Corneille e Racine, que manda emparelhar systematicamente os graves e agudos na symetria inalteravel prescripta por aquellas duas autoridades.Mas a critica, absolutamente não tem competencia para impôr aos escriptores brazileiros, por muito modestos e insignificantes que sejam, as leis e as regras da arte poetica franceza.Se a obra d'arte é portugueza ou brazileira, o auctor não se submette ás leis da poetica franceza: observa os modelos nacionaes e portuguezes.E, sem receio de ser contestado por quem quer que seja, o autor daTalithaaffirma: não ha poeta algum na lingua de Camões, quer no theatro, quer fóra delle, que obedeça ás exigencias das prescripções francezas, que, aliás, o proprio Corneille, invocado pela critica, não seguiu nem adoptou naImitation de Christ:«Le desir de savoir est naturel aux hommes:il nait dans leur berceau sans mourir qu'avec euxmais, ô Dieu, dont la main nous fait ce que nous sommes,que peut-il sans ta crainte avoir de fructueux?Liv. I, Chap. II.«Vanité d'entasser richesses sur richesses,Vanité de languir dans la soif des honneurs,Vanité de choisir pour souverains bonheursde la chair et des sens les damnables caresses.Liv. I, Chap. I.«Vraiment grand est celui qui dans soi se ravalequi rentre en son néant pour s'y connaitre bien,qui de tous les honneurs que l'univers étalecraint la pompe fatale,et ne l'estime en rien.Liv. I, Chap. III.Victor Hugo, o mestre supremo, tambem não obedeceu invariavelmente a esta regra que a critica pretende impôr dogmaticamente, como immutavel.Vejamos naEsmeralda, acto I:«Nous irons au clair de lunedanser avec les esprits...Vive Clopin, roi de Thune!Vivent les gueux de Paris!«Au milieu de la ronde infamequ'importe le soupir d'une ame?Je souffre! oh! jamais plus de flammeau sein d'un volcan ne gronda.EmLa Forêt mouillée, Scene II:«Les moutons promis aux fourchettesPassent là-bas; j'entends leurs voixSonnez, clochettes,au fond des bois.Le beau Narcisse est en manchettes;Silène a mis toutes ses croix.Rostand, o impeccavel, naSamaritaine, tambem não se subordinou absolutamente a essa regra, como se vê logo na primeira scena:«Poussé par la brise des nuits,et vagabond jusqu'à l'aurore,je viens pour des fins que j'ignore,comme un fantôme que je suis.D'une sandale sonoreje viens, je glisse et je m'enfuis...Mais, ô Jehovah que j'adore!quelle est cette grande ombre encorequi se tient debout près du puits?e assim prosegue o genial poeta em toda essa scena que se compõe de cento e nove versos.E para que não diga a critica perversa que n'esses exemplos não ha alexandrinos, aqui ficam estes alexandrinos, ainda do I acto, scena V, em que Photina declama:«Mon bien aimé—je t'ai cherché—depuis l'aurore,Sans te trouver,—et je te trouve,—et c'est le soir;Mais quel bonheur!—il ne fait pas—tout a fait-noir:mes yeux encorepourrent te voir.e assim por toda afalade Photina, gue se compõe de mais de vinte nove versos.Na lingua portugueza, porém, não ha um poeta sequer que obedeça á regra da metrica franceza, nem no drama, nem no poema.Junqueiro, naMorte de D. João, naMusa em ferias, naVelhice do Padre Eterno, naPatria, ou nosSimplesusa indistinctamente as rimas agudas, graves, e esdruxulas, emparelhadas, ou alternadas.«O pensamento humanomergulhou como um Deus nas grutas do oceano,embebeu-se no azul, andou pelo infinito,interrogou a historia, os ventos, o granito,todas as creações, todas as creaturas,vermes, religiões, abysmos, sepulturas,e disse-nos: Jesus, Socrates, Platãofallaram a verdade. Existe uma rasão,uma ideia, uma lei, mysteriosa, etherea,que rege o movimento e as formas da materia...Morte de D. João.—Introducção, pag. 31.*«Hediondo! assassinar um homem que assassina!Collocar o direito ao pé da guilhotina.Resolver a questão do crime—um cemiterio!Sanccionar Papavoine e decretar Tiberio!Um carrasco de guarda á nossa segurança!O pelotão—juiz e o tribunal—vingança!E é uma coisa que indigna, um facto que comove,que quasi ao terminar o seculo dezenovepensem como Marat, pensem como Cainas leis no velho mundo e o tigre em Bombaim!Musa em férias; Idilios e Satiras, pag. 137.Julio Dantas, o brilhante poeta daCeia dos Cardeaestambem não adoptou a regra que a critica indigena pretende nacionalizar.Xerez.«Roma! Roma que viu, pela primeira vez,Beneditto XIV, um papa,—a receberConselhos de Inglaterra e cartas de Voltaire!............................................«As cartas de Voltaire, honram!... É naturalfala como francez.... Fala como cardeal!............................................«Mas perdão... Não será politica de maispara uma ceia alegre? Emfim trez cardeaesnão salvam Roma...Como se vê, Julio Dantas, empregou successivamente dez agudos.E esse arrojo do eminente poeta portuguez não impediu que aCeia dos Cardeaestivesse oito traducções em allemão, francez, italiano, hespanhol e no dialeto catalão, nem evitou que fôsse representada mais de quatrocentas vezes.Entre os poetas brasileiros bastará citar dois nomes de primeira grandeza: Alberto de Oliveira e Goulart de Andrada; nenhum se submette á exigencia franceza da critica indigena.ACruz da montanhado primeiro é um poemeto de 126 alexandrinos. Em toda essa obra prima não ha dois versos agudos e apenas se encontra uma parelha de esdruxulos.Observa-se o mesmo phenomeno em varias outras composições como—A Enchente, com 76 alexandrinos; aLagarta, com 124 versos de vario metro, ondeapenas ha 14 rimas agudas:Atmo, com 88 alexandrinos, entre os quaes apenas dois esdruxulos e nem um agudo.*Ascenção perigosa, de Goulart, é uma poesia composta de 44 alexandrinos, dos quaes apenas quatro são esdruxulos e nem um agudo.Apocalypseé formado de 158 alexandrinos: nem um agudo, sómente dois esdruxulos.*E a razão é simples, é natural, é formidavel: o idioma francez é abundantissimo de agudos e o portuguez é, relativamente, pauperrimo.Para observar inalteravelmente a regra franceza que a critica pedante e fátua pretende impôr vaidosamente, depressa ficariam exgottadas as rimas agudas e o poeta incidiria na repetição das consoantes, o que constitúe o defeito da pobreza de rimas, acremente censurado pela critica.Além disso, os francezes não conhecem as palavras esdruxulas, ao passo que a lingua vernacula é riquissima d'esses vocabulos e, a ser observada na poesia dramatica portugueza e brazileira a lei da arte de Corneille e Racine, os poetas lusitanos e patricios vêr-se-iam obrigados a escrever alternadamente os seus versos em parelhas systematicas de esdruxulas, graves e agudas, o que seria, além de fatigante e exhaustivo, de um rebuscamento torturado, monotono, somnolento.O obscuro autor daTalithapreferiu deixar expandir-se naturalmente o pensamento proprio, de accordo com a alma dos personagens: o verso e a rima já desi são condições impostas pela exigencia artistica, apurar essa exigencia com o requinte de uma symetria dispensavel, equivaleria a torturar os sentimentos das figuras que se movem na acção dramatica.O facto de ser uma regra de Corneille e de Racine tambem geralmente seguida por outros poetas modernos—o emprego alternado de dois agudos e dois graves, não evita a monotonia, principalmente quando se traduz o pensamento de um personagem ou se reproduz um vulto historico: na vida real ninguem se exprime por essa fórma.Entretanto, admittidos geralmente o verso e a rima, o poeta deve quanto possivel, para evitar a monotonia, variar o rythmo, o metro e o encadeamento da rima: as difficuldades artisticas e technicas não são excluidas por esse criterio, conservam-se; a monotonia desapparece e o pensamento, exprimindo-se com mais liberdade, permitte melhor estudo da psychologia dos personagens, e mais vigor descriptivo.O proprio autor daTalithaverificou praticamente o que acaba de affirmar quando escreveu aVisão de Colombo, em um acto, obedecendo systematicamente á regra da poetica franceza e emparelhando os alexandrinos por ordem de rimas agudas, graves e esdruxulas em toda a extensão do poema dramatico, formado de quatro centos e poucos versos, sem repetição de rimas.Ramalho Ortigão ensina:«não são as academias que pautam as proposições e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma, convertida em realidade objectiva e communicando aos homens uma vibração nova de sentimento.«A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria, deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percussão ella determina.»Op. cit., pag. 145.Adherbal de Carvalho doutrina:«É no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; é neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso.«A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos. Vimos que a consequencia é a pobreza, a esterilidade do proprio pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta. O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppressão de regras não racionadas: liberdade é fecundidade.»Op. cit., pag. 282.E depois d'essas duas sentenças, atreve-se o autor daTalithaa perguntar á critica indigena como será possivel arvorar em preceito obrigatorio de arte poetica da nossa lingua, a regra de Racine e Corneille, quando a tendencia moderna é para supressão da rima e para a cultura extremada do rythmo no verso branco?A falla deCacamboe o episodio da morte deLindoyanoUruguayde Basilio Gama nada perderam em valor artistico pela falta de rima: oColombode Araujo Porto Alegre encerra verdadeiras maravilhas em verso branco; Alexandre Herculano, que foi um cinzelador do verso, naHarpa do Crentedeixou primorosos lavores em verso solto.Anthero Quental, cujasOdes modernasarrancaram a Michelet uma soberba explosão de espanto«Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta dasOdes modernas, Portugal continuará a ser um grande paiz vivo.»Anthero legou nessa obra monumental pequenos monumentos em verso branco.E para não fallar naD. Brancade Garrett, todo escripto em versos soltos, bastará citar os livros admiraveis de Correia de Oliveira:AraeRaiz, demonstração brilhante de que a obrigatoriedade da rima tende a desapparecer cedendo á liberdade do pensamento.O velho mestre Antonio Feliciano de Castilho, na sua Arte poetica, escreveu:«Os versos agudos, pelo seu modo secco estalado de acabar, sem elasticidade, sem vibração, se assim o podemos dizer, teem o que quer que seja de ingrato ao ouvido; seriam insoffriveis, se alguem se lembrasse de nol-os dar enfiados aos centos e aos milheiros, como os graves nos apparecem, sem nos cançarem: demais por isso mesmo que os vocabulos agudos são menos frequentes, d'ahi tiram os versos agudos um quid de exhibição e exquisitice que não parece frisar senão com as idéas extravagantes, comicas, brutescas ou satyricas.«Do expendido por boa razão se infere: l.º que em toda e qualquer especie de metro são os versos graves que devem, predominar.»A critica pretenciosa e petulante indicadora de regras de arte rebella-se contra a autoridade incontestavel e consagrada de Antonio Feliciano de Castilho e quer que em versos portuguezes o autor daTalithaadopte a regra franceza, que equipare agudos e graves e os manda empregar em numero igual, symetrica e systematicamente dispostos em parelhas alternadas.O autor daTalithanão adoptou a regra de Castilho mas tem ao seu lado, para apoiarem o seu procedimento, as autoridades dos rebeldes Junqueiro, Feijó, Luiz de Magalhães, Lopes de Mendonça, Julio Dantas, Eugenio de Castro, Antonio Nobre, Gonçalves Crespo, Marcellino de Mesquita, Fernando Caldeira que nãoa observaram, nem se submetteram á lei de Corneille e Racine, e, o que é tudo, do proprio Antonio Feliciano de Castilho que não adoptou a regra franceza na composição dos alexandrinos emparelhados.Isso em Portugal, porque no Brasil o autor daTalithaencontra apoio para o seu procedimento em Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Goulart de Andrada, Martins Fontes, Guimarães Passos, Luiz Murat, Machado de Assis, Valentim Magalhães, Lucio Mendonça, Oscar Lopes, Pereira da Silva, Emilio Menezes, Frota Pessoa, Flexa Ribeiro, Zeferino Brasil e Coelho Netto que não consideram a technica franceza como adaptavel ao verso portuguez, se bem que discretamente observem a opinião de Castilho, relativamente á proporção das rimas agudas e graves.Ora, a critica indigena, ainda rescendendo aos aromas equivocos da primeira infancia, ha de permittir que o autor daTalithaprefira as autoridades artisticas de dois hemispherios, acima citadas, ao impertinente pedantismo da incompetencia de quem, em materia de autoridade litteraria, não chegou ainda se quer á categoria de trintanario doPegaso, na estrebaria de Augias.*A critica indigena censura a pobreza de rima daTalitha: não tem razão.ACeia dos Cardeaesé uma obra prima: assim o prégou a critica, assim a considera a opinião.Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto daTalithacompõe-se de 492.ACeia dos Cardeaestem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto daTalithadispõe de 127 rimas differentes: a proporção naquella é de 5%, nesta é de 25%.NaCeia dos Cardeaesha apenas 31 rimas que não foram repetidas; no 1.° acto da Talitha ha 80.Na primeira, a obra prima, essa proporção é de 9%, naTalitha, a condemnada, a proporção é de 17%. A critica indigena tem cabellos na lingua e fel no coração.ASamaritanaé a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica europea, assim a julga o proprio poeta.O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos.Pois bem: entre esses ha 322 repetições, apenas em 17 rimas.Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que é pobreza ou riqueza de rima.A opulencia de rima póde ser exigida em composições poeticas esparsas, que não tenham grande extensão, mas em um poema dramatico essa exigencia da critica é despotica, é absurda, principalmente quando os personagens que o movimentam são da especie daquelles que figuram no entrecho daTalitha.Collocar nos labios deJoaquinaversos de rima escolhida, apurada, sem repetições de termos que andam constantemente na conversa commum, substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas, sómente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica, equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo rimador, o sentimento pela paciencia.A opulencia da rima importaria necessariamentena elevação da linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa fórma o que já condemnára, considerando alcandorada em demasia para personagens de aldeia a linguagem que o autor daTalithaconfiou a cada um d'elles.Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras são simples, corriqueiras; o vocabulario dos aldeãos é pouco extenso e tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto da vida, póde-se dizer, um termo que não se substitue, um conceito consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros termos, em phrase diversa, não é comprehendido.O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o notavel mestre da lingua vernacula, Snr. José Verissimo, doutrina superiormente:«O grande escriptor em todas as linguas é o que escreve e consegue todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, não só do povo—que é realmente pobre—mas da litteratura do seu tempo.»Citação de Elysio de Carvalho no livro—As modernas correntes estheticas, pag. 27.Em taes condições, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir, quanto possivel, as condições normaes da vida e do personagem, attribuir a este a expressão dos seus affectos, das suas dôres, das suas alegrias, dos seus desejos ou das suas esperanças, por meio de palavras em rima opulenta, será desnaturar o personagem, será mentir á realidade, será phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, não creou na vida real.Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem póde e deve ser alcandoradasem inverosimilhança, os personagens vem distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que substituem toda a realidade objectiva.A admiração, a fé e a idolatria pódem crear os maiores absurdos: Esopo, Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado, terso, brilhante, sonóro, de rima opulentissima.Zola escreveu:«C'est, je le répète, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le dedain du vrai. On est là en pleine convention, en pleine fantaisie, et le charme est d'y mentir, d'y échapper a toutes les realités de ce bas monde.....................................«Jamais les auteurs ne se trouvent acculés par la vraisemblance et la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille.....................................«La comédie et le drame, au contraire, sont tenus à être vraisemblables.»Zola.Le Naturalisme au théâtre, pag. 357, 358.Mas João de Deus, que foi em Portugal «a mais completa encarnação do lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupações estylisticas visando á erudição», que foi «sentimento singelo, o amor, esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida simples e estylo simples», João de Deus que cantou a simpleza rural da sua terra, a alma dôce do povo e dos campos, esse «que é o lyrico mais portuguez» como considera Fidelino Figueiredo, «um grande scismador e um grande artista, que não tem artificios na sua poesia, singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora como umaparábola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Platão», no dizer profundo de Alexandre da Conceição, João de Deus não se preoccupou com a opulencia da rima, nem mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um actoHoracio e Lydia, romana pelo assumpto, grega pela technica.Ora, aTalithaé composta de 1873 versos de varios metros, predominando o alexandrino.Para demonstrar opulencia de rima, o obscuro autor daTalithareservou as suas modestas poesias esparsas, entre as quaes figura aOde ás Arvores, dedicada a Coelho Netto, ode essa que se compõe de 312 alexandrinos, e não tem sequer uma rima repetida, além da grande abundancia de vocabulos cuja difficuldade de rima é conhecida.Um dos zoilos da Talitha, com o intuito de provar que os tres actos d'esse evangelho são indigentes de rima, nota que no 2.° acto a palavra enferma rima com erma e no 3.° acto tambem enfermo rima com ermo.E o zoilo exclama:«ParaEnfermoo poeta encontrou apenas a rimaermo, uma rima pobrissima.»Mais pobre de espirito é o critico.ATalithacompõe-se de 1873 versos; quatro vezes apenas o maldizente encontrou a rima emerma, ainda assim uma vez no masculino e outra no feminino, e fulmina a censura:«o poeta só encontrou a rimaermoparaenfermo, rima pobrissima.»Ignorante, perverso, futil, ou lorpa.Pois bem, o autor daTalithaconsultou os diccionariosde rima de Castilho e de Alencar, duas autoridades na materia, e paraenfermoapenas encontrouermo,termoeestafermo. As duas primeiras foram applicadas, uma no segundo, outra no terceiro acto.Quanto á terceira—estafermo—o poeta daTalithasó a poderia utilizar se fizesse referencia ao critico.Para agradar á sua opinião e corresponder á sua exigencia, o zoilo pretende que o autor daTalithadeveria forgicar palavras, neologismos, sómente com o fim de não repetir a rima!Mas se essa rima é pobrissima, que culpa tem o autor daTalitha, se a lingua apenas lhe faculta, além dessa, mais duas, uma das quaes pertencente ao calão?Entretanto o critico mentiu: no segundo acto a rima deenfermaéerma; no terceiro acto á palavraenfermofoi dada a rima—termo.2.º acto, pag. 64:«seria bem melhor que cuidasse da enferma,que vive ali no escuro abandonada e erma»3.º acto, pag. 89:«de acudir pressuroso ao leito dum enfermo ardendo em alta febre e bem proximo ao termod'uma longa existencia...»Eis ahi ao que se reduz a censura do zoilo: á mentira.*Por ultimo a critica indigena censura o autor daTalithapor ter escripto o drama em tres actos afim de apresentar, desnecessariamente, no terceiro, amarqueza, mãe da heroina.E a critica, em ar de pilheria, pede um quarto acto para que appareça tambem o Pae deTalitha.O autor não teria duvida em satisfazer o desejo da critica, escrevendo mais dois actos para apresentação da sogra deTalitha, se tambem a critica de outra tempera, a critica elevada e honesta, não houvesse solicitado a redacção dos tres actos simplesmente aos dois primeiros para que esse obscuro trabalho«seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a, cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais o milagre e a oração; assimTalithaserá um primor litterario...»Critica daTribuna do Rio.«O drama é magnifico. E porque não dizer o melhor drama que se tem escripto no Brazil?»Critica daGazeta de Noticias, do Rio.«Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha dão a quem os ouviu a satisfação rara e salutar que só produzem as obras de arte, erguidas severamente com a segurança de que só é capaz a sinceridade.»Critica doPaiz, do Rio.«...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na peça, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura.«... pois nao ha muito disso por toda essa America afóra.»Arthur Azevedo—Critica daNoticia, do Rio.Á critica indigena, rasteiramente inspirada pelo odio e pela paixão politica, o autor daTalithacontrapõe a critica da imprensa do Rio.Será vaidosa a citação d'essas opiniões, mas o obscuro autor daTalithatem orgulho do seu trabalhoe esse orgulho é como a soberbia das mães que beijam os filhinhos aleijados e loucos, tendo-os no coração como as imagens incomparaveis da suprema formosura.ATalithanão será brasileira porque o assumpto e os personagens são portuguezes; não será portugueza porque o seu autor não teve a felicidade de nascer em Portugal, mas...Mas aTalithaé mais que portugueza, mais que brazileira, é humana.Mas aTalithaé minha... É o producto do meu espirito, do meu trabalho, é filha da minha mocidade...É modesta, é pauperrima, e futil, mas é minha.E a critica indigena dos zoilos que produziu? Nada, absolutamente nada; póde viver noventa annos, como Sárah, não haverá Abrahão na terra que lhe arranque um Isaac das entranhas...Os zoilos são admiraveis, sabem tudo e não fazem cousa alguma.Conhecem perfeitamente a patria, sob todos os aspectos, desde a fecundidade uberrima da terra aos esplendores astraes do céo; desde a constituição intima da familia á grandeza fulgurante da historia.Os primores da paysagem, a belleza e a simplicidade dos costumes, os encantos da musica popular e da poesia anonyma, a bravura dos homens com o typo legendario do gaúcho, a formosura das mulheres inspirando os altos feitos heroicos, o mysterio das florestas que dá o aspecto profundo á alma do povo, a vastidão das campinas que modela a franqueza limpida das consciencias, o desdobrar ondulante das cochilhas que imprime ao typo riograndense a epopeia da nossa historia, os vultos homericos dos nossos guerreiros, a envergadura dos nossos estadistas, a intelligencia dos nossos escriptores, a obra dos nossos politicos, tudo isso a critica dos zoilos conhece...à merveille.Sabe ella que o verso está banido do theatro moderno e só é admittido nos assumptos historicos ou nas phantasias caprichosas dos sonhos e devaneios litterarios; sabe ella que os alexandrinos devem ser emparelhados á maneira de Corneille e Racine, alternando-se agudos e graves, na symetria impeccavel de parallelas geometricamente exactas; sabe ella que o rythmo do verso não deve ser apenas o junqueireano para evitar a monotonia: sabe ella que a rima deve ser opulenta: sabe que no theatro moderno a prosa supplanta o verso, porque se presta melhor ás exigencias do estudo da psychologia dos personagens; que a escola romantica foi batida pelo naturalismo; que hoje os exemplos a seguir não são os d'Ennery, os Augier, os Scribe, os Labiche, os Dumas, os Meilhac: que os modelos acceitaveis são Suderman, Ibsen, Hauptmann Bjornsen; tudo isso a critica dos zoilos sabe perfeitamente.Além disso a critica tem talento, tem erudição, tem admiradores, tem bibliothecas, tem a vida garantida e facil pela munificencia do thesouro publico, tem o apoio da sociedade, não sabe o que seja a amargura da lucta pela existencia...Entretanto as horas passam, os dias correm, os mezes flúem, os annos se succedem e a critica deixa em abandono todo esse material soberbo e magestoso, esquece todos esses elementos de incomparavel riqueza, e não produz absolutamente nada.Atravessa a existencia, como um janota futil que vive preoccupado com a coloração garrida das gravatas, com o brilho frio dos collarinhos, com o figurino do fato, empanturrando-se da leituraà la diable, maldizendo do tudo e de todos e vivendo de um usofructo que a sociedade constituiu pelo trabalho accumulado exactamente d'aquelles que a critica dos zoilos alveja, fere, offende e babuja.Vive para gozar e maldizer.A critica indigena dos zoilos é como o Sahára: esterilidade completa, beduinos e camellos.Á caravana dos zoilos, o deserto e a receita de Ezequiel.Pinto da Rocha
no fulgor de uma estrella o beijo do perdão.
no fulgor de uma estrella o beijo do perdão.
*
A virtude daquellas almas!...
E porque razão de alta monta o autor daTalithadevia quebrar a verdade do facto observado, a unidade d'aquelle conjuncto que elle não phantasiou e que, felizmente, encontrou num dia da sua mocidade, em meio da crise social moral que caracterizava aquella época dolorosa de provações populares?
Introduzir um personagem que não tivesse as mesmas qualidades de caracter seria deturpar os factos para obedecer aométier, a carpintaria de theatro vencendo a moral na arte: um cumulo de estupidez.
Além de tudo, inutil: a emoção dramatica, o effeito theatral são completos e seguros com a simplicidade daquellas cinco figuras, porque o Bem, a Virtude e a Harmonia encantam e commovem sempre, em todas as zonas e latitudes da terra.
Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:
«O artista que emprega suas faculdades ao serviço de uma idéa generosa não é menos artista por isso, se bem que não seja por isso que elleé artista. O amor e a intelligencia do bem suppõem uma concepção superior das condições da vida individual e social que é preciso desejar a todos os artistas como a todos os homens...»................................«Entretanto ha uma observação a fazer neste ponto, é que parece mais facil pintar o vicio do que a virtude. Balsac, que se sahiu admiravelmente na pintura dos monstros, encalhava quasl sempre quando era atacado pelos homens pudicos.«Tão verdadeiros e vivos são os seus libertinos da alta o baixa sociedade, como os outros, na maior parte do tempo, são ternos e mal acanhados.»Op. cit. pag. 32.
«O artista que emprega suas faculdades ao serviço de uma idéa generosa não é menos artista por isso, se bem que não seja por isso que elleé artista. O amor e a intelligencia do bem suppõem uma concepção superior das condições da vida individual e social que é preciso desejar a todos os artistas como a todos os homens...»
................................
«Entretanto ha uma observação a fazer neste ponto, é que parece mais facil pintar o vicio do que a virtude. Balsac, que se sahiu admiravelmente na pintura dos monstros, encalhava quasl sempre quando era atacado pelos homens pudicos.
«Tão verdadeiros e vivos são os seus libertinos da alta o baixa sociedade, como os outros, na maior parte do tempo, são ternos e mal acanhados.»
Op. cit. pag. 32.
Ainda mesmo quando o autor daTalithahouvesse faltado á verdade dos factos que observou, teria tentado o problema, na opinião do estheta brazileiro, mais difficil de resolver: o estudo e a interpretação da Virtude o do Bem, na psychologia dos cinco personagens que jogam em scena a acção do seu obscuro poema lyrico.
A critica indigena, ignorante ou perversa, petulante ou futil, feriu-se com as proprias armas.
*
Que o autor daTalitha, sem prestigio para fazel-o, permittiu-se a liberdade de escrever um drama em verso, fórma litteraria que está totalmente banida do theatro moderno, supplantada pela prosa.
Que o autor daTalitha, sem prestigio para fazel-o, permittiu-se a liberdade de escrever um drama em verso, fórma litteraria que está totalmente banida do theatro moderno, supplantada pela prosa.
É outra censura da critica indigena; espera-a a mesma sorte das anteriores: a critica é vesga e não sabe o que diz.
Do theatro moderno ainda não foi banida a fórma alta e pura do verso: semelhante vandalismo seria uma violencia feita á arte, á belleza, ao bom gosto, á suprema lei do rythmo, para cujo excelso dominio tendem naturalmente todas as manifestações da vida e a linguagem da poesia do metro e da rima, a altissima elegancia.
Moderno é Victor Hugo, gigante de oiro do theatro francez e escreveu em verso:Esmeralda,Burgraves,Ruy Blas,Cromwell,Torquemada,Grandmère,L'Épée,Mangerontils?,Sur la lisière d'un bois,Les gueux,Étre aimé,La Forêt-mouillée.
Modernos são Paul Delair e Lomon e escreveram em verso os seus dramasGarin,Jean DaciereMarquis de Kenilisque Zola critica asperamente na sua obra—Naturalisme au Théâtre.
Moderno é Banville e produziuHymnis,Riquet à la houpeeSocrates et sa femme, tres comedias em verso.
Moderno é Alphonse Daudet e entre as suas obras figuraChar, comedia em verso, em um acto.
Moderno é Alfred Musset e legou ao theatro da sua patria:Les marrons du feu, comedia;A quoi rêvent les jeunes filles, comedia; eLa coupe et les lèvres, drama, todos em verso.
Moderno é Ed. Pailleron e no seu theatro figuramNarcotique, comedia em um acto, eHélène, drama em quatro actos, ambos em verso.
Moderno é Ludovic Halévy, collaborador de Meilhac, e produziu, em verso, aPhrynéeNina, la Tueuse.
Modernissimo é Emile Augier, o grande mestre da litteratura dramatica e da carpintaria theatral e escreveu em verso a maior parte das suas peças. São em verso:Cigüe,Paul Forestier,Homme de bien,Aventurière,Gabrielle,Joueur de flúte,PhiliberteeJeunesse.
Moderno é Catulle Mendés e em 1872 dotou o theatro com a sua comedia em verso,La Part du Roi, em um acto; em 1888 fez representar a sua formosa phantasia, tambem em verso—Isoline, em tres actos; e em 1889 produziu, ainda em verso, o drama em 6 actos—Fiammete; em 1906, punha em scena no Odéon, o seu dramaGlatigny, tambem em verso.
Modernissimo é Jean Richepin e, em 1905, fazia representar na Comédie Française o seuD. Quichote, em verso.
Modernissimo é tambem André Arnymede, que em 1906 assombrava a critica parisiense com a representação triumphal deLa Courtisane, em cinco actos e em verso.
Modernissimo é Francis de Croisset e escreveu em verso os tres actos sensacionaes do Paon que subiu á scena na Comédie Française.
Modernissimo é Emile Veyrin que viu os seus formosos versos dos quatro actos deEmbarquement Pour Cythère, no palco do Theatro des Bouffes Parisienne.
Modernissimo é Jacques Richepin e, em Abril de 1907, viu na ribalta daPorte St. Martin, os soberbos alexandrinos daMajorlaine, em cinco actos, depois de haver debutado com os versos admiraveis daReine de Tyr, no theatro Sarah Bernhardt.
Moderno é François Coppée, e em 1878, em collaboração com Armand d'Artois, produziu o drama em cinco actosGuerre des Cent ans; em 1879,Le Trésor, comedia em um acto; em 1881,Madame Maintenon, drama em cinco actos e um prologo: em 1883,Severo Torelli, drama em cinco actos; em 1885,Les Jacobites, drama em cinco actos; em 1880,Le Passant, em um acto; e em 1888,La Grève des Forgerons, em um acto, e em 1905,Scarron, em cinco actos: e todos esses trabalhos são em verso.
Rostand escreveu todos os seus dramas em verso:Princesse Lointaine,Romanesques,Cyranno de Bergerac,Samaritaine,Ayglone ultimamente os tres primeiros actos doChant-clair...
Miguel Zamacoix acaba de escrever e fazer representar em Paris pelo genio de Sarah Bernhardt,Les Boufons, em verso alexandrino, obra prima que a critica europea colloca, senão acima, ao lado doCyrano.
E ainda recentemente, em Outubro de 1906, a imprensa franceza se occupou de uma outra obra prima do talento de Catulle Mendés, em soberbos alexandrinos, de um mysticisco celeste, que se intitulaSainte Thérèse.
Na Inglaterra, Robert Browning escreveu a tragedia historicaStrafforde os dramasMancha no BrazãoeRegresso dos Deuses, todos em verso.
Na Italia, Gabriel d'Annunzio escreveu em verso os tres actos daFilha de Jorio, e fez representar por Eleonora Duse o seu grandioso monumentoFrancesca da Rimini, em verso, como em verso havia escripto pouco antes o seu extraordinarioNerone, o genio brilhante de Boito, e Cavalloti o seu formosissimo idylioCantico dei cantici, em 1882.
Na Hespanha, deixando de parte oD. Juan Tenorio, de Zorrilla: oTrovador, de Gutierres; aRoda de la Fortuna, de Thomaz Rubi, todos de 1850: Hartzemburch produziu mais recentementeLos Amantes de Terruel;Alfonso, el CastoeLa Madre de Pelagio, e Echegaray o seu conhecidissimoGran Galeoto.
E todos esses dramas são escriptos em verso.
Em Portugal, João de Deus, o lyrico sublime, escreveuHoracio e Lidia; Eugenio de Castro, o revolucionario de genio, o extraordinario autor daBelkisse deConstança, acaba de publicar oAnnel de Polycrates; Henrique Lopes de Mendonça, oDuque de Vizeue aNoiva: Fernando Caldeira, aMantilha de Rendae aMadrugada; Marcellino de Mesquita, aLeonor Telles; Julio Dantas, aCeia dos Cardeaes; Francisco Palha, aFabia; Luiz de Magalhães, oD. Quixote, os dois ultimos para o Theatro Academico, de Coimbra, todos em verso; sómente para citar os escriptores da actualidade, deixando de parteO Catãoe aMeropede Almeida Garrett e oCamões, de Antonio Feliciano de Castilho.
Finalmente: em verso tambem escreveram no Brazil: Gonçalves de Magalhães, oOlgiato; Arthur Azevedo, oBadejo; Zeferino Brasil, oOutroe Coelho Netto,As estações.
A critica, portanto, ou é ignorante ou mentiu propositalmente.
*
Mas a critica adiantou-se ainda: abriu dogmaticamente uma excepção: o verso em theatro só se admitte para as tragedias historicas.
Outra cincada.
Em Portugal, Fernando Caldeira deixou no theatro duas joias preciosas: aMantilha de Rendae aMadrugadaque nem são tragedias, nem tem filiação alguma historica.
Na Italia, Cavallotti legou á lilteratura dramatica um primor de lyrismo: oCantico dei canticique não é tragico, nem historico.
Em França, Catulle Mendès escreveu, em verso, os tres actos deIsolinee os seis doFiammetteque nada tem a vêr com a historia, nem com a tragedia.
François Coppée produziuLe Trésor,Le Passant,La Grève des Forgerons, todos em um acto e que nãotem a minima relação com a tragedia, nem o menor vestigio de historia.
No Brasil, oBadejo, de Arthur Azevedo, é uma comedia, oOutro, de Zeferino Brasil, um drama;As estações, de Coelho Netto, uma phantasia, todos em verso, sem relação alguma com a historia ou com a tragedia.
A critica indigena
«appartient à ce monde de paresseux qui font chaque soir une grande œuvre, en buvant une chope; seulement, le lendemain, ils ont sommeil et ne trouvent pas le temps d'ècrire la grande œuvre. «La vie se passe, l'âge arrive, ils restent des debutants.»Zola,La critique Contemporaine, pag. 351.
«appartient à ce monde de paresseux qui font chaque soir une grande œuvre, en buvant une chope; seulement, le lendemain, ils ont sommeil et ne trouvent pas le temps d'ècrire la grande œuvre. «La vie se passe, l'âge arrive, ils restent des debutants.»
Zola,La critique Contemporaine, pag. 351.
Entretanto, René Doumic, um mestre da critica, escreve naRevue des Deux Mondes:
«Je voudrais seulement que les poètes qui se sentent une vocation d'auteurs dramatiques ne s'imaginent point que le succès ne peut être obtenu par eux, à la scène, qu'en nous narrant des histoires romantiques ou des féeries.»
«Je voudrais seulement que les poètes qui se sentent une vocation d'auteurs dramatiques ne s'imaginent point que le succès ne peut être obtenu par eux, à la scène, qu'en nous narrant des histoires romantiques ou des féeries.»
E Gaston Sorbets conclúe:
«M. René Doumic á assurément raison: la poesie dramatique est faite anssi pour exprimer les mouvements les plus profonds de notre cœur ou les aspirations les plus hautes de notre âme. Il suffit de voiler de poesie la Verité nue pour faire de cette divinité une muse nouvelle.»
«M. René Doumic á assurément raison: la poesie dramatique est faite anssi pour exprimer les mouvements les plus profonds de notre cœur ou les aspirations les plus hautes de notre âme. Il suffit de voiler de poesie la Verité nue pour faire de cette divinité une muse nouvelle.»
Deixemos vociferar os maldizentes: nós ficamos com os criticos que sabem sentir e... lêr.
*
Os zoilos que se lançaram á modestissimaTalitha, censuraram ao seu autor o atrevimento inaudito de não observar a regra do Theatro francez de Corneille e Racine, que manda emparelhar systematicamente os graves e agudos na symetria inalteravel prescripta por aquellas duas autoridades.
Mas a critica, absolutamente não tem competencia para impôr aos escriptores brazileiros, por muito modestos e insignificantes que sejam, as leis e as regras da arte poetica franceza.
Se a obra d'arte é portugueza ou brazileira, o auctor não se submette ás leis da poetica franceza: observa os modelos nacionaes e portuguezes.
E, sem receio de ser contestado por quem quer que seja, o autor daTalithaaffirma: não ha poeta algum na lingua de Camões, quer no theatro, quer fóra delle, que obedeça ás exigencias das prescripções francezas, que, aliás, o proprio Corneille, invocado pela critica, não seguiu nem adoptou naImitation de Christ:
«Le desir de savoir est naturel aux hommes:il nait dans leur berceau sans mourir qu'avec euxmais, ô Dieu, dont la main nous fait ce que nous sommes,que peut-il sans ta crainte avoir de fructueux?Liv. I, Chap. II.«Vanité d'entasser richesses sur richesses,Vanité de languir dans la soif des honneurs,Vanité de choisir pour souverains bonheursde la chair et des sens les damnables caresses.Liv. I, Chap. I.«Vraiment grand est celui qui dans soi se ravalequi rentre en son néant pour s'y connaitre bien,qui de tous les honneurs que l'univers étalecraint la pompe fatale,et ne l'estime en rien.Liv. I, Chap. III.
«Le desir de savoir est naturel aux hommes:il nait dans leur berceau sans mourir qu'avec euxmais, ô Dieu, dont la main nous fait ce que nous sommes,que peut-il sans ta crainte avoir de fructueux?
Liv. I, Chap. II.
«Vanité d'entasser richesses sur richesses,Vanité de languir dans la soif des honneurs,Vanité de choisir pour souverains bonheursde la chair et des sens les damnables caresses.
Liv. I, Chap. I.
«Vraiment grand est celui qui dans soi se ravalequi rentre en son néant pour s'y connaitre bien,qui de tous les honneurs que l'univers étalecraint la pompe fatale,et ne l'estime en rien.
Liv. I, Chap. III.
Victor Hugo, o mestre supremo, tambem não obedeceu invariavelmente a esta regra que a critica pretende impôr dogmaticamente, como immutavel.
Vejamos naEsmeralda, acto I:
«Nous irons au clair de lunedanser avec les esprits...Vive Clopin, roi de Thune!Vivent les gueux de Paris!«Au milieu de la ronde infamequ'importe le soupir d'une ame?Je souffre! oh! jamais plus de flammeau sein d'un volcan ne gronda.
EmLa Forêt mouillée, Scene II:
«Les moutons promis aux fourchettesPassent là-bas; j'entends leurs voixSonnez, clochettes,au fond des bois.Le beau Narcisse est en manchettes;Silène a mis toutes ses croix.
Rostand, o impeccavel, naSamaritaine, tambem não se subordinou absolutamente a essa regra, como se vê logo na primeira scena:
«Poussé par la brise des nuits,et vagabond jusqu'à l'aurore,je viens pour des fins que j'ignore,comme un fantôme que je suis.D'une sandale sonoreje viens, je glisse et je m'enfuis...Mais, ô Jehovah que j'adore!quelle est cette grande ombre encorequi se tient debout près du puits?
e assim prosegue o genial poeta em toda essa scena que se compõe de cento e nove versos.
E para que não diga a critica perversa que n'esses exemplos não ha alexandrinos, aqui ficam estes alexandrinos, ainda do I acto, scena V, em que Photina declama:
«Mon bien aimé—je t'ai cherché—depuis l'aurore,Sans te trouver,—et je te trouve,—et c'est le soir;Mais quel bonheur!—il ne fait pas—tout a fait-noir:mes yeux encorepourrent te voir.
e assim por toda afalade Photina, gue se compõe de mais de vinte nove versos.
Na lingua portugueza, porém, não ha um poeta sequer que obedeça á regra da metrica franceza, nem no drama, nem no poema.
Junqueiro, naMorte de D. João, naMusa em ferias, naVelhice do Padre Eterno, naPatria, ou nosSimplesusa indistinctamente as rimas agudas, graves, e esdruxulas, emparelhadas, ou alternadas.
«O pensamento humanomergulhou como um Deus nas grutas do oceano,embebeu-se no azul, andou pelo infinito,interrogou a historia, os ventos, o granito,todas as creações, todas as creaturas,vermes, religiões, abysmos, sepulturas,e disse-nos: Jesus, Socrates, Platãofallaram a verdade. Existe uma rasão,uma ideia, uma lei, mysteriosa, etherea,que rege o movimento e as formas da materia...Morte de D. João.—Introducção, pag. 31.*«Hediondo! assassinar um homem que assassina!Collocar o direito ao pé da guilhotina.Resolver a questão do crime—um cemiterio!Sanccionar Papavoine e decretar Tiberio!Um carrasco de guarda á nossa segurança!O pelotão—juiz e o tribunal—vingança!E é uma coisa que indigna, um facto que comove,que quasi ao terminar o seculo dezenovepensem como Marat, pensem como Cainas leis no velho mundo e o tigre em Bombaim!Musa em férias; Idilios e Satiras, pag. 137.
Morte de D. João.—Introducção, pag. 31.
*
Musa em férias; Idilios e Satiras, pag. 137.
Julio Dantas, o brilhante poeta daCeia dos Cardeaestambem não adoptou a regra que a critica indigena pretende nacionalizar.
Xerez.«Roma! Roma que viu, pela primeira vez,Beneditto XIV, um papa,—a receberConselhos de Inglaterra e cartas de Voltaire!............................................«As cartas de Voltaire, honram!... É naturalfala como francez.... Fala como cardeal!............................................«Mas perdão... Não será politica de maispara uma ceia alegre? Emfim trez cardeaesnão salvam Roma...
Como se vê, Julio Dantas, empregou successivamente dez agudos.
E esse arrojo do eminente poeta portuguez não impediu que aCeia dos Cardeaestivesse oito traducções em allemão, francez, italiano, hespanhol e no dialeto catalão, nem evitou que fôsse representada mais de quatrocentas vezes.
Entre os poetas brasileiros bastará citar dois nomes de primeira grandeza: Alberto de Oliveira e Goulart de Andrada; nenhum se submette á exigencia franceza da critica indigena.
ACruz da montanhado primeiro é um poemeto de 126 alexandrinos. Em toda essa obra prima não ha dois versos agudos e apenas se encontra uma parelha de esdruxulos.
Observa-se o mesmo phenomeno em varias outras composições como—A Enchente, com 76 alexandrinos; aLagarta, com 124 versos de vario metro, ondeapenas ha 14 rimas agudas:Atmo, com 88 alexandrinos, entre os quaes apenas dois esdruxulos e nem um agudo.
*
Ascenção perigosa, de Goulart, é uma poesia composta de 44 alexandrinos, dos quaes apenas quatro são esdruxulos e nem um agudo.
Apocalypseé formado de 158 alexandrinos: nem um agudo, sómente dois esdruxulos.
*
E a razão é simples, é natural, é formidavel: o idioma francez é abundantissimo de agudos e o portuguez é, relativamente, pauperrimo.
Para observar inalteravelmente a regra franceza que a critica pedante e fátua pretende impôr vaidosamente, depressa ficariam exgottadas as rimas agudas e o poeta incidiria na repetição das consoantes, o que constitúe o defeito da pobreza de rimas, acremente censurado pela critica.
Além disso, os francezes não conhecem as palavras esdruxulas, ao passo que a lingua vernacula é riquissima d'esses vocabulos e, a ser observada na poesia dramatica portugueza e brazileira a lei da arte de Corneille e Racine, os poetas lusitanos e patricios vêr-se-iam obrigados a escrever alternadamente os seus versos em parelhas systematicas de esdruxulas, graves e agudas, o que seria, além de fatigante e exhaustivo, de um rebuscamento torturado, monotono, somnolento.
O obscuro autor daTalithapreferiu deixar expandir-se naturalmente o pensamento proprio, de accordo com a alma dos personagens: o verso e a rima já desi são condições impostas pela exigencia artistica, apurar essa exigencia com o requinte de uma symetria dispensavel, equivaleria a torturar os sentimentos das figuras que se movem na acção dramatica.
O facto de ser uma regra de Corneille e de Racine tambem geralmente seguida por outros poetas modernos—o emprego alternado de dois agudos e dois graves, não evita a monotonia, principalmente quando se traduz o pensamento de um personagem ou se reproduz um vulto historico: na vida real ninguem se exprime por essa fórma.
Entretanto, admittidos geralmente o verso e a rima, o poeta deve quanto possivel, para evitar a monotonia, variar o rythmo, o metro e o encadeamento da rima: as difficuldades artisticas e technicas não são excluidas por esse criterio, conservam-se; a monotonia desapparece e o pensamento, exprimindo-se com mais liberdade, permitte melhor estudo da psychologia dos personagens, e mais vigor descriptivo.
O proprio autor daTalithaverificou praticamente o que acaba de affirmar quando escreveu aVisão de Colombo, em um acto, obedecendo systematicamente á regra da poetica franceza e emparelhando os alexandrinos por ordem de rimas agudas, graves e esdruxulas em toda a extensão do poema dramatico, formado de quatro centos e poucos versos, sem repetição de rimas.
Ramalho Ortigão ensina:
«não são as academias que pautam as proposições e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma, convertida em realidade objectiva e communicando aos homens uma vibração nova de sentimento.«A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria, deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percussão ella determina.»Op. cit., pag. 145.
«não são as academias que pautam as proposições e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma, convertida em realidade objectiva e communicando aos homens uma vibração nova de sentimento.
«A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria, deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percussão ella determina.»
Op. cit., pag. 145.
Adherbal de Carvalho doutrina:
«É no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; é neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso.«A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos. Vimos que a consequencia é a pobreza, a esterilidade do proprio pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta. O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppressão de regras não racionadas: liberdade é fecundidade.»Op. cit., pag. 282.
«É no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; é neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso.
«A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos. Vimos que a consequencia é a pobreza, a esterilidade do proprio pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta. O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppressão de regras não racionadas: liberdade é fecundidade.»
Op. cit., pag. 282.
E depois d'essas duas sentenças, atreve-se o autor daTalithaa perguntar á critica indigena como será possivel arvorar em preceito obrigatorio de arte poetica da nossa lingua, a regra de Racine e Corneille, quando a tendencia moderna é para supressão da rima e para a cultura extremada do rythmo no verso branco?
A falla deCacamboe o episodio da morte deLindoyanoUruguayde Basilio Gama nada perderam em valor artistico pela falta de rima: oColombode Araujo Porto Alegre encerra verdadeiras maravilhas em verso branco; Alexandre Herculano, que foi um cinzelador do verso, naHarpa do Crentedeixou primorosos lavores em verso solto.
Anthero Quental, cujasOdes modernasarrancaram a Michelet uma soberba explosão de espanto
«Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta dasOdes modernas, Portugal continuará a ser um grande paiz vivo.»
«Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta dasOdes modernas, Portugal continuará a ser um grande paiz vivo.»
Anthero legou nessa obra monumental pequenos monumentos em verso branco.
E para não fallar naD. Brancade Garrett, todo escripto em versos soltos, bastará citar os livros admiraveis de Correia de Oliveira:AraeRaiz, demonstração brilhante de que a obrigatoriedade da rima tende a desapparecer cedendo á liberdade do pensamento.
O velho mestre Antonio Feliciano de Castilho, na sua Arte poetica, escreveu:
«Os versos agudos, pelo seu modo secco estalado de acabar, sem elasticidade, sem vibração, se assim o podemos dizer, teem o que quer que seja de ingrato ao ouvido; seriam insoffriveis, se alguem se lembrasse de nol-os dar enfiados aos centos e aos milheiros, como os graves nos apparecem, sem nos cançarem: demais por isso mesmo que os vocabulos agudos são menos frequentes, d'ahi tiram os versos agudos um quid de exhibição e exquisitice que não parece frisar senão com as idéas extravagantes, comicas, brutescas ou satyricas.«Do expendido por boa razão se infere: l.º que em toda e qualquer especie de metro são os versos graves que devem, predominar.»
«Os versos agudos, pelo seu modo secco estalado de acabar, sem elasticidade, sem vibração, se assim o podemos dizer, teem o que quer que seja de ingrato ao ouvido; seriam insoffriveis, se alguem se lembrasse de nol-os dar enfiados aos centos e aos milheiros, como os graves nos apparecem, sem nos cançarem: demais por isso mesmo que os vocabulos agudos são menos frequentes, d'ahi tiram os versos agudos um quid de exhibição e exquisitice que não parece frisar senão com as idéas extravagantes, comicas, brutescas ou satyricas.
«Do expendido por boa razão se infere: l.º que em toda e qualquer especie de metro são os versos graves que devem, predominar.»
A critica pretenciosa e petulante indicadora de regras de arte rebella-se contra a autoridade incontestavel e consagrada de Antonio Feliciano de Castilho e quer que em versos portuguezes o autor daTalithaadopte a regra franceza, que equipare agudos e graves e os manda empregar em numero igual, symetrica e systematicamente dispostos em parelhas alternadas.
O autor daTalithanão adoptou a regra de Castilho mas tem ao seu lado, para apoiarem o seu procedimento, as autoridades dos rebeldes Junqueiro, Feijó, Luiz de Magalhães, Lopes de Mendonça, Julio Dantas, Eugenio de Castro, Antonio Nobre, Gonçalves Crespo, Marcellino de Mesquita, Fernando Caldeira que nãoa observaram, nem se submetteram á lei de Corneille e Racine, e, o que é tudo, do proprio Antonio Feliciano de Castilho que não adoptou a regra franceza na composição dos alexandrinos emparelhados.
Isso em Portugal, porque no Brasil o autor daTalithaencontra apoio para o seu procedimento em Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Goulart de Andrada, Martins Fontes, Guimarães Passos, Luiz Murat, Machado de Assis, Valentim Magalhães, Lucio Mendonça, Oscar Lopes, Pereira da Silva, Emilio Menezes, Frota Pessoa, Flexa Ribeiro, Zeferino Brasil e Coelho Netto que não consideram a technica franceza como adaptavel ao verso portuguez, se bem que discretamente observem a opinião de Castilho, relativamente á proporção das rimas agudas e graves.
Ora, a critica indigena, ainda rescendendo aos aromas equivocos da primeira infancia, ha de permittir que o autor daTalithaprefira as autoridades artisticas de dois hemispherios, acima citadas, ao impertinente pedantismo da incompetencia de quem, em materia de autoridade litteraria, não chegou ainda se quer á categoria de trintanario doPegaso, na estrebaria de Augias.
*
A critica indigena censura a pobreza de rima daTalitha: não tem razão.
ACeia dos Cardeaesé uma obra prima: assim o prégou a critica, assim a considera a opinião.
Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto daTalithacompõe-se de 492.
ACeia dos Cardeaestem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto daTalithadispõe de 127 rimas differentes: a proporção naquella é de 5%, nesta é de 25%.
NaCeia dos Cardeaesha apenas 31 rimas que não foram repetidas; no 1.° acto da Talitha ha 80.
Na primeira, a obra prima, essa proporção é de 9%, naTalitha, a condemnada, a proporção é de 17%. A critica indigena tem cabellos na lingua e fel no coração.
ASamaritanaé a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica europea, assim a julga o proprio poeta.
O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos.
Pois bem: entre esses ha 322 repetições, apenas em 17 rimas.
Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que é pobreza ou riqueza de rima.
A opulencia de rima póde ser exigida em composições poeticas esparsas, que não tenham grande extensão, mas em um poema dramatico essa exigencia da critica é despotica, é absurda, principalmente quando os personagens que o movimentam são da especie daquelles que figuram no entrecho daTalitha.
Collocar nos labios deJoaquinaversos de rima escolhida, apurada, sem repetições de termos que andam constantemente na conversa commum, substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas, sómente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica, equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo rimador, o sentimento pela paciencia.
A opulencia da rima importaria necessariamentena elevação da linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa fórma o que já condemnára, considerando alcandorada em demasia para personagens de aldeia a linguagem que o autor daTalithaconfiou a cada um d'elles.
Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras são simples, corriqueiras; o vocabulario dos aldeãos é pouco extenso e tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto da vida, póde-se dizer, um termo que não se substitue, um conceito consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros termos, em phrase diversa, não é comprehendido.
O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o notavel mestre da lingua vernacula, Snr. José Verissimo, doutrina superiormente:
«O grande escriptor em todas as linguas é o que escreve e consegue todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, não só do povo—que é realmente pobre—mas da litteratura do seu tempo.»Citação de Elysio de Carvalho no livro—As modernas correntes estheticas, pag. 27.
«O grande escriptor em todas as linguas é o que escreve e consegue todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, não só do povo—que é realmente pobre—mas da litteratura do seu tempo.»
Citação de Elysio de Carvalho no livro—As modernas correntes estheticas, pag. 27.
Em taes condições, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir, quanto possivel, as condições normaes da vida e do personagem, attribuir a este a expressão dos seus affectos, das suas dôres, das suas alegrias, dos seus desejos ou das suas esperanças, por meio de palavras em rima opulenta, será desnaturar o personagem, será mentir á realidade, será phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, não creou na vida real.
Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem póde e deve ser alcandoradasem inverosimilhança, os personagens vem distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que substituem toda a realidade objectiva.
A admiração, a fé e a idolatria pódem crear os maiores absurdos: Esopo, Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado, terso, brilhante, sonóro, de rima opulentissima.
Zola escreveu:
«C'est, je le répète, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le dedain du vrai. On est là en pleine convention, en pleine fantaisie, et le charme est d'y mentir, d'y échapper a toutes les realités de ce bas monde.....................................«Jamais les auteurs ne se trouvent acculés par la vraisemblance et la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille.....................................«La comédie et le drame, au contraire, sont tenus à être vraisemblables.»Zola.Le Naturalisme au théâtre, pag. 357, 358.
«C'est, je le répète, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le dedain du vrai. On est là en pleine convention, en pleine fantaisie, et le charme est d'y mentir, d'y échapper a toutes les realités de ce bas monde.
....................................
«Jamais les auteurs ne se trouvent acculés par la vraisemblance et la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille.
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«La comédie et le drame, au contraire, sont tenus à être vraisemblables.»
Zola.Le Naturalisme au théâtre, pag. 357, 358.
Mas João de Deus, que foi em Portugal «a mais completa encarnação do lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupações estylisticas visando á erudição», que foi «sentimento singelo, o amor, esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida simples e estylo simples», João de Deus que cantou a simpleza rural da sua terra, a alma dôce do povo e dos campos, esse «que é o lyrico mais portuguez» como considera Fidelino Figueiredo, «um grande scismador e um grande artista, que não tem artificios na sua poesia, singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora como umaparábola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Platão», no dizer profundo de Alexandre da Conceição, João de Deus não se preoccupou com a opulencia da rima, nem mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um actoHoracio e Lydia, romana pelo assumpto, grega pela technica.
Ora, aTalithaé composta de 1873 versos de varios metros, predominando o alexandrino.
Para demonstrar opulencia de rima, o obscuro autor daTalithareservou as suas modestas poesias esparsas, entre as quaes figura aOde ás Arvores, dedicada a Coelho Netto, ode essa que se compõe de 312 alexandrinos, e não tem sequer uma rima repetida, além da grande abundancia de vocabulos cuja difficuldade de rima é conhecida.
Um dos zoilos da Talitha, com o intuito de provar que os tres actos d'esse evangelho são indigentes de rima, nota que no 2.° acto a palavra enferma rima com erma e no 3.° acto tambem enfermo rima com ermo.
E o zoilo exclama:
«ParaEnfermoo poeta encontrou apenas a rimaermo, uma rima pobrissima.»
«ParaEnfermoo poeta encontrou apenas a rimaermo, uma rima pobrissima.»
Mais pobre de espirito é o critico.
ATalithacompõe-se de 1873 versos; quatro vezes apenas o maldizente encontrou a rima emerma, ainda assim uma vez no masculino e outra no feminino, e fulmina a censura:
«o poeta só encontrou a rimaermoparaenfermo, rima pobrissima.»
«o poeta só encontrou a rimaermoparaenfermo, rima pobrissima.»
Ignorante, perverso, futil, ou lorpa.
Pois bem, o autor daTalithaconsultou os diccionariosde rima de Castilho e de Alencar, duas autoridades na materia, e paraenfermoapenas encontrouermo,termoeestafermo. As duas primeiras foram applicadas, uma no segundo, outra no terceiro acto.
Quanto á terceira—estafermo—o poeta daTalithasó a poderia utilizar se fizesse referencia ao critico.
Para agradar á sua opinião e corresponder á sua exigencia, o zoilo pretende que o autor daTalithadeveria forgicar palavras, neologismos, sómente com o fim de não repetir a rima!
Mas se essa rima é pobrissima, que culpa tem o autor daTalitha, se a lingua apenas lhe faculta, além dessa, mais duas, uma das quaes pertencente ao calão?
Entretanto o critico mentiu: no segundo acto a rima deenfermaéerma; no terceiro acto á palavraenfermofoi dada a rima—termo.
2.º acto, pag. 64:«seria bem melhor que cuidasse da enferma,que vive ali no escuro abandonada e erma»3.º acto, pag. 89:«de acudir pressuroso ao leito dum enfermo ardendo em alta febre e bem proximo ao termod'uma longa existencia...»
Eis ahi ao que se reduz a censura do zoilo: á mentira.
*
Por ultimo a critica indigena censura o autor daTalithapor ter escripto o drama em tres actos afim de apresentar, desnecessariamente, no terceiro, amarqueza, mãe da heroina.
E a critica, em ar de pilheria, pede um quarto acto para que appareça tambem o Pae deTalitha.
O autor não teria duvida em satisfazer o desejo da critica, escrevendo mais dois actos para apresentação da sogra deTalitha, se tambem a critica de outra tempera, a critica elevada e honesta, não houvesse solicitado a redacção dos tres actos simplesmente aos dois primeiros para que esse obscuro trabalho
«seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a, cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais o milagre e a oração; assimTalithaserá um primor litterario...»Critica daTribuna do Rio.«O drama é magnifico. E porque não dizer o melhor drama que se tem escripto no Brazil?»Critica daGazeta de Noticias, do Rio.«Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha dão a quem os ouviu a satisfação rara e salutar que só produzem as obras de arte, erguidas severamente com a segurança de que só é capaz a sinceridade.»Critica doPaiz, do Rio.«...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na peça, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura.«... pois nao ha muito disso por toda essa America afóra.»Arthur Azevedo—Critica daNoticia, do Rio.
«seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a, cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais o milagre e a oração; assimTalithaserá um primor litterario...»
Critica daTribuna do Rio.
«O drama é magnifico. E porque não dizer o melhor drama que se tem escripto no Brazil?»
Critica daGazeta de Noticias, do Rio.
«Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha dão a quem os ouviu a satisfação rara e salutar que só produzem as obras de arte, erguidas severamente com a segurança de que só é capaz a sinceridade.»
Critica doPaiz, do Rio.
«...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na peça, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura.
«... pois nao ha muito disso por toda essa America afóra.»
Arthur Azevedo—Critica daNoticia, do Rio.
Á critica indigena, rasteiramente inspirada pelo odio e pela paixão politica, o autor daTalithacontrapõe a critica da imprensa do Rio.
Será vaidosa a citação d'essas opiniões, mas o obscuro autor daTalithatem orgulho do seu trabalhoe esse orgulho é como a soberbia das mães que beijam os filhinhos aleijados e loucos, tendo-os no coração como as imagens incomparaveis da suprema formosura.
ATalithanão será brasileira porque o assumpto e os personagens são portuguezes; não será portugueza porque o seu autor não teve a felicidade de nascer em Portugal, mas...
Mas aTalithaé mais que portugueza, mais que brazileira, é humana.
Mas aTalithaé minha... É o producto do meu espirito, do meu trabalho, é filha da minha mocidade...
É modesta, é pauperrima, e futil, mas é minha.
E a critica indigena dos zoilos que produziu? Nada, absolutamente nada; póde viver noventa annos, como Sárah, não haverá Abrahão na terra que lhe arranque um Isaac das entranhas...
Os zoilos são admiraveis, sabem tudo e não fazem cousa alguma.
Conhecem perfeitamente a patria, sob todos os aspectos, desde a fecundidade uberrima da terra aos esplendores astraes do céo; desde a constituição intima da familia á grandeza fulgurante da historia.
Os primores da paysagem, a belleza e a simplicidade dos costumes, os encantos da musica popular e da poesia anonyma, a bravura dos homens com o typo legendario do gaúcho, a formosura das mulheres inspirando os altos feitos heroicos, o mysterio das florestas que dá o aspecto profundo á alma do povo, a vastidão das campinas que modela a franqueza limpida das consciencias, o desdobrar ondulante das cochilhas que imprime ao typo riograndense a epopeia da nossa historia, os vultos homericos dos nossos guerreiros, a envergadura dos nossos estadistas, a intelligencia dos nossos escriptores, a obra dos nossos politicos, tudo isso a critica dos zoilos conhece...à merveille.
Sabe ella que o verso está banido do theatro moderno e só é admittido nos assumptos historicos ou nas phantasias caprichosas dos sonhos e devaneios litterarios; sabe ella que os alexandrinos devem ser emparelhados á maneira de Corneille e Racine, alternando-se agudos e graves, na symetria impeccavel de parallelas geometricamente exactas; sabe ella que o rythmo do verso não deve ser apenas o junqueireano para evitar a monotonia: sabe ella que a rima deve ser opulenta: sabe que no theatro moderno a prosa supplanta o verso, porque se presta melhor ás exigencias do estudo da psychologia dos personagens; que a escola romantica foi batida pelo naturalismo; que hoje os exemplos a seguir não são os d'Ennery, os Augier, os Scribe, os Labiche, os Dumas, os Meilhac: que os modelos acceitaveis são Suderman, Ibsen, Hauptmann Bjornsen; tudo isso a critica dos zoilos sabe perfeitamente.
Além disso a critica tem talento, tem erudição, tem admiradores, tem bibliothecas, tem a vida garantida e facil pela munificencia do thesouro publico, tem o apoio da sociedade, não sabe o que seja a amargura da lucta pela existencia...
Entretanto as horas passam, os dias correm, os mezes flúem, os annos se succedem e a critica deixa em abandono todo esse material soberbo e magestoso, esquece todos esses elementos de incomparavel riqueza, e não produz absolutamente nada.
Atravessa a existencia, como um janota futil que vive preoccupado com a coloração garrida das gravatas, com o brilho frio dos collarinhos, com o figurino do fato, empanturrando-se da leituraà la diable, maldizendo do tudo e de todos e vivendo de um usofructo que a sociedade constituiu pelo trabalho accumulado exactamente d'aquelles que a critica dos zoilos alveja, fere, offende e babuja.
Vive para gozar e maldizer.
A critica indigena dos zoilos é como o Sahára: esterilidade completa, beduinos e camellos.
Á caravana dos zoilos, o deserto e a receita de Ezequiel.
Pinto da Rocha