SCENA III

Não estão; felizmentefallei ao regedor e tudo se arranjou;demais a mais tambem, segundo me informou,têm direito á pensão que o velho Avô doentenão poude receber.JoaquinaE quem receberáessa triste pensão, se o velho que serviunão poude recebel-a e nem sequer a viu?RuyTambem já pensei nisso e tudo se fará,minha boa Joaquina. Assim, o moribundome obrigou a faltar á missa do Natal.Se um pobre que estivesse a deixar este mundolhe pedisse um amparo, a sua alma lealnegaria essa esmola?JoaquinaAinda m'o pergunta?RuyÁ sombra desse olhar tudo se abriga e juntae eu leio na pupilla esmaecida e pura,num misto de mudez, de pranto e de ternura,que o seu bom coração tambem acudiria.E por isso faltei; tenho, porém, certezaque Talitha por mim, ao menos, rezaria.E quando assim se tem tão lucida purezaa interceder por nós aos pés da Divindade,parece que a nossa alma, em dôce alacridade,mergulha no baptismo, em aguas de um Jordãotodo feito de amor, de beijos e perdão!JoaquinaAh! quando eu penso em tudo o que se tem passadodepois que aqui chegou!... Como isto está mudado!RuyTudo é tão natural que não nos vale a penagastar tempo a pensar em cousa tão pequena.JoaquinaEntão é cousa pouca uma pobre engeitada,ha tanto tempo céga, e sem mãe, desprezada,encontrar quem lhe dê de novo o seu olhar,e quem lhe tenha amor e a queira desposar!?RuyEngeitada, que importa? O coração não pensa,ama sómente e assim não indaga a nascençada mulher que o inspirou. Mas não é desprezadaa formosa Talitha; esta mansão amadaserviu de lar paterno á sua dôce infanciae, se aqui respirou a magica fragranciade uma alma aberta, em flôr, se a sua mão, Joaquina,materna, a acompanhou desde assim pequenina,pouco importa que a mãe a tivesse engeitado;amei-a, e nesse amor eu tenho baptisadoo sonho do porvir...JoaquinaDiga, e quando casarvae leval-a d'aqui?RuySeria derrancaro santo coração do velho Padre-Cura;nem tanto necessita a completa venturadas minhas illusões, nem teria coragempara tamanho mal; seria mais selvagemque a propria malvadezabraçando-atirar ao seu amoro prazer de aspirar o aroma dessa flôr,que ao seu lado cresceu, tão branca e tão fagueira,como um lyrio do valle ao pé de uma roseira!JoaquinaSim; isso diz agora e depois de casadoha de pensar, de certo, em sua mãe saudosa,e para que ella veja, alegre e carinhosa,o filho salvo e bom, tão robusto e córado,o Ruy tem de levar comsigo a pequenitaque nos serve de filha e que nos faz felizes!...RuyDescance, boa amiga; este amor tem raizesque eu nunca poderei arrancar de Talitha,nem penso em perturbar a paz do vosso azyloque a propria mão de Deus formou assim tranquillo.JoaquinaSe Deus que nos dôou a innocentinha, agoramandasse a Mãe aqui para leval-a embora,onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem,porque a trouxe no collo e quero tanto bemque passo a minha vida olhando o azul dos céos,para vêr se descubro a Santa Mãe de Deuse pedir-lhe que deixe á tremula velhicedos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice,daquelle coração que eu vi desabrochar...RuyE o céo que lhe responde?JoaquinaO céo?... Nada! A rezartenho passado a vida e, nesta idade, a gentejá não póde chorar, as lagrimas seccarame por isto se soffre, a dôr é mais pungentequando se quer chorar e os olhos já cançaram.Ouve-se a voz de Talitha, fóraTaithaÓ Joaquina! Ruy, Ruy...JoaquinaAhi vem a traquina;E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina...Ruy,corre á portaMas como vem alegre...Entra TalithaSCENA IIIOs mesmos eTalithaTalitha,ao entrar, vendo Ruy, estaca: fica silenciosa e em seguida:Eu bem disse ao padrinho...Ruy,tomando-lhe a mãoQue foi que tu disseste, alma da côr do linho?TalithaQue ninguem póde crêr na jura...Ruy,interrompendo com meiguiceDas mulheres?...Talitha,ralhando com carinho e retirando a mãoDos homens... atrevido, ainda tens coragemde rir?...Ruy,alegrementeOu de chorar, se tu assim preferes...TalithaMas a tua promessa? Esqueceste a homenagemda noite de Natal?RuyPois pergunta á Joaquina...Joaquina,intervindoA mim? não sei de nada...Ruy,a TalithaElla está gracejando;sabe tudo tão bem como eu, mas imaginaque tu és ciumenta e então, de vez em quando,a recordar o tempo em que era rapariga,faz pirraças á gente, armando alguma intriga...TalithaA verdade, porém, é que faltaste e eu não.RuyPois bem, faltei; mas tive uma forte razão:o velho reformado estava agonisantee mandou-me chamar; eu fui no mesmo instanteassistir-lhe á agonia. Expirou-me nos braços:ia o sol a fugir na curva dos espaços,á hora em que soluça o sino das trindadeso Angelus sagrado envolto nas saudadesque a terra balbucia, agradecendo ao céoa luz que lhe mandou na flacidez do véocrepuscular e dôce, oiro tecido em gaze,sem brilho de offuscar e sem calor que abraze.TalithaE nunca mais o vi, nem o verei jamais!...Foi cégo como eu fui. Nas manhãs estivaesmuita vez o encontrei, cançado dos trabalhos,pedindo esmola ahi por todos os atalhos.Elle ia pela mão da neta, uma creança!Era um velho senil á sombra da esperança!Eu ía recostada ao braço do padrinhoe, ao sentir-me, dizia: «ampare-me esse anginho—amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja—como um velho soldado, a mendigar, rasteja—neste mundo de Christo»—. E ficava a pensarnaquelle desgraçado. O meu perdido olharnovamente voltou, quando o delle se apagana escuridão mortal que tudo cobre e alaga...Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas!RuyNão faltará calor ás meigas andorinhas.JoaquinaE quem lhes ha de dar?RuyQuem?TalithaDeus, Jesus e nós!Ruy,com ingenuidadeNós seremos os paes:a Joaquinatu e o Cura, os avós...JoaquinaValha-te Deus, tontinha!Ruy,a TalithaEncantadora e casta;ó Virgem Conceição, flôr, ingenua madrasta,bemdito seja o dia em que te amei, formosa,sonho feito mulher, sorriso feito em rosa...Talitha,admiradaQue tem isso de mal? Tambem elle era cégo,não podia cuidar da neta que o guiavae agora, felizmente, eu tenho no aconchegoda minha mocidade a luz que me faltavae posso olhar por ella. A minha desventuranão teve neste asylo o amor do Padre-Cura?Depois não tive ainda?!...Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-seJoaquina,beijando-aAh! minha tagarella!...RuyDepois tiveste ainda o teu formoso olharque andava lá no céo illuminando a estrellad'alva. E agora tambem tens muito que narrardo que viste na igreja...TalithaAh! na missa do gallo?Eu vinha exactamente aqui para contal-o...O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Curadizia aquella missa!... Inda agora fulgura,sobre a minha retina, a vivida impressãodo seu olhar tão dôce e manso, de perdão...Inda agora o sorriso, angelico e furtivo,do seu labio de rosa, orvalhado e festivo,innunda de frescor a minha vida inteira,como o rócio da noite á flôr da amendoeira.RuyQuem foi que te sorriu com tamanha affeição,que fez vibrar tu'alma em tanta commoção?TalithaUm milagre de Deus! Se tens fé, acreditano que te vou dizer.RuyDize, minha Talitha!Joaquina,approximando-seConta, conta o que foi.TalithaPois nesse caso, ouvi:Quando eu entrei no templo um borborinho enormeencheu toda a capella; então foi que eu senticomo é triste ser cégo e ter olhar que dormetantos annos de vida, em funda lethargia,sem a benção gentil de vêr a luz do dia!Toda a gente fallava, olhando para mim,e eu muito satisfeita a caminhar assim...Imita o andar magestosoRuyComo tu és vaidosa!Joaquina,sorrindo e pondo as mãosE como ella é catita...Talitha,a Ruy, ingenuaMas se eu fôsse a teu lado, inda era mais bonita!...Deram-me tanto abraço e beijaram-me tanto!A capellinha estava alegre, era um encanto.Á entrada muita flôr, o altar com muita luz,e num bercinho branco o menino Jesus,tão lindo, tão mimoso e tão engraçadinho,que parecia mesmo um rouxinol no ninho.Uma velha fitou-me e disse: que princeza!Um velho lavrador olhou-me com surprezae bem alto fallou: «Que Deus Nosso Senhorte dê um bom marido»...RuyE que disseste, amor?TalithaNem uma palavrinha! Eu ía bem calada,entre muito contente e muito envergonhada.JoaquinaE depois?TalithaE depois... fui então ajoelhar,sósinha, nos degráos que sóbem ao altar,á espera que viesse, a meia noite, a missa.Rezando ali, a sós, com fervor de noviça,lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram,subindo-me do seio aos olhos que as choraram.Eu sentia uma dôr immensa, por fugirao voto que fizera e, em vão, quiz resistir,á minh'alma affluia um extranho remorsoe embora eu despendesse o mais sincero esforço,para conter o pranto, o coração vergavae, numa agitação convulsa, palpitavaacabrunhado e triste...Ouve-se o repicar dos sinosJoaquina,interrompendoAi! que acabou a festae a ceia por fazer, mas que cabeça é esta!...Sae e entra constantemente, nos arranjos da casaRuyMas não te lembras já que, em nome do Senhor,o Cura abençôou o nosso casto amor?Não te lembras tambem da lucida visãoque te trouxe do céo a estrella do perdão?TalithaDe tudo me lembrei; não sei que força extranhapesava sobre mim, como immensa montanha,e não deixava erguer o meu olhar medrosopara encarar de frente o vulto magestosoda Virgem Mãe de Deus! Mas quando o Cura entrouparece que a minha almatorna o sino a repicaralegre despertou...Senti uma esperança illuminar-me o seioe dissipar-se então esse cruel receio!Rezei muito, rezei com tanta commoção,pedi com tanto ardor, com tanta devoção,que a minh'alma subiu, tão leve e tão submissa,aos pés da Mãe de Deus, durante aquella missa,como se fôsse presa a hostia consagradaque o Cura levantava á cruz abençoada...Com ella o meu olhar de supplica subiu.E fitando, sem medo, a face alabastrinada candida judia, eu vi que Ella sorriucom tão dôce expressão de placidez divinaque me banhou de luz amortecida e calmaa minha santa crença e fez vibrar minh'alma!Senti que era o perdão que vinha, n'um sorriso,abrir á minha vida um novo paraiso...Ergui-me docemente, approximei-me d'Ellae, beijando-lhe a mão que sobre o mundo vela,ouvi, como um soluço, a sua voz tão pura,dizendo-me em segredo, em intima ternura:Que lindos olhos, Talitha,os olhos que o Ruy te deu:tem uma luz infinita,parecem feitos no céo...Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narrarão de Talitha, enlevada, abraça-a, lacrimosa, beija-a...Ruy,emquanto Joaquina abraça TalithaMas tu ouviste bem, tens a certeza plena?Talitha,desprendendo-se de JoaquinaOuvi perfeitamente; a voz era serena,tão serena e subtil que a mim se affiguravaser o proprio silencio assim que me fallava.Ouve-se o repicar dos sinos e começa-se a ouvir as primeiras vozes dos córos distantes.Estremeci de alegre e acreditei entãoque surgira, afinal, o dia do perdão;Approximam-se as vozesdesci do altar, corri, deixei a missa e vim,como se o coração cantasse dentro de mim,para dizer-te, Ruy, que a minha vida é tua.Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos timida, brincando com o avental: pausa e silencio.Joaquina,percebendoFilhos, não serei eu quem assim vos destruaas santas illusões...ouve-se o côro muito pertoSe Deus as abençôa!...SaeTalitha,vendo-a sahirRuy!Corre para elleRuy,recebendo-a nos braçosAh! minha Talitha!Talitha,abraçada, beija-oOh! meu amor!Ruy,beijando-aPerdôa!As vózes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de fóles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem.SCENA IVOs mesmos,Padre,raparigaserapazesO Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois que se beijam e Joaquina que está estupefacta, junto á porta.Padre,fingindo que não vê e fallando altoRaparigas, entrai, a noite é de alegria...Talitha,surprehendidos ambos, desprende-se de Ruy e dizTem razão, meu padrinho, nossa phantasiadeve expandir-se agora...Padre,com caricia, baixo a TalithaAssim, aos beijos, não...TalithaQuem poderá conter o nosso coração?Ás raparigasRaparigas, cantae! A céga já tem vista;que a Virgem Mãe de Deus a todas vós assista;a freira, que devia entrar para o convento,teve hoje a redempção do seu cruel tormento!Um rapazViva a céguinha!O grupoViva!Outro rapazE mais o Padre Cura!Viva!Uma raparigaViva quem fez este milagre!O grupoViva!Um rapazE a mãe Joaquina, então, que é mesmo uma ternura?!TodosViva!JoaquinaMuito obrigada!RuyOlha como é altiva!PadreRaparigas, dançae!Ruy,a uma raparigaPois cante a cotovia,e vibre essa garganta até romper o dia...As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com Talitha e Ruy á frente, dançam a Ciranda. O Cura, sentado em uma cadeira, observa alegremente a scena.Uma raparigaQuem deu espinho ás roseirasnão teve muita razão,antes désse ao coração,como deu ás Tarangeiras.Deus que creou tantas flôresfez as estrellas aos centos:não dorme quem tem amores,que os amores são tormentos.Segunda raparigaToda tu pareces feitacom a cêra das abelhas,quando alguem d'aqui t'espreitaficam-te as faces vermelhas.Primeira raparigaQuem ao pé do Sol caminhaanda sempre com calor,Quem á lua se avizinhapóde até crear bolôr.As tuas tranças são pretas,pareces de cêra mol,não te abeires muito ao sol,olha lá não te derretas...O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e encaminha-se para o grupo:PadreTambem eu quero entrar na dança, raparigas,e ser como a papoila em meio das espigas!Primeira raparigaViva, viva o Sr. Cura,que é o paesinho desta aldeia,que tem a alminha mais pura,mais alva que a lua cheia.Neste momento ouve-se bater á porta violentamente, ao mesmo tempo que cessam os guizos denunciativosde um carro que parou á porta. Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformação de physionomia que todos os circumstantes percebem.PadreUm carro, Santo Deus!Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, põe as mãos em oração.Ruy,acudindoSenhor Cura, que tem?Ouve-se bater de novoPadre,pensativoHa tantos annos já!Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae á porta e abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente.SCENA VOs mesmos,MarquezaeEscudeiroPadrePerdão! Procura alguem?MarquezaO Cura João Fulgencio! É Vossa Senhoria?PadreSou eu mesmo, Senhora!MarquezaInda bem, obrigada!Eu já tinha certeza, o céo me conduzia.Não quero perturbar a alegria da noite:Viajante, sósinha, e quasi desviadapela neve que tomba, eu peço onde me acoite.TalithaSois bem vinda, Senhora; aqui sob este tectoencontrareis conchego e o mais sereno affecto.Marqueza,olhando-aObrigada, creança!TalithaA Noite é de Natale o nosso coração não sabe fazer mal...PadreDeveis estar cançada, o inverno vae tão duro!MarquezaPensei que não chegava á sua residencia.A nevada é cruel, o caminho coberto,o frio é de cortar, o céo está escuro,nem um astro se vê, perde-se a conscienciada nossa propria vida, a estrada é um deserto...Nem sei como cheguei...TalithaJesus a protegeu...MarquezaEu creio bem que sim e dou graças ao céo!PadreE não quer repousar?MarquezaAntes, porém, quizera,Senhor Cura, dizer o que me traz aqui...PadreAssim seja, Senhora, e ao bom Jesus prouveraque eu pudesse remir a dôr que presenti...a Talitha e Ruy, fingindo alegriaIde com Deus, cantae!O grupo retira-se em silencio, curiosamenteTalitha,a RuyQuem é? Quem te parece?RuyNão sei, mas esta voz a minh'alma conhece.sahemSCENA VIMarquezaePadrePadreSenhora, estamos sós! Vossa Excellencia ordene!MarquezaOuça-me, Senhor Cura! ouça e não me condemne!PadreE condemnar por que? Se tem algum peccado,o coração de Deus não estará fechado!MarquezaPensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto,estaria acabado este immenso desgostoque me tortura a vida; a asperrima inverneiraembaraçou-me o passo e augmentou-me a canceira.PadreE vem de muito longe?MarquezaAh! sim, de bem distante,anciosa, esperando este feliz instante.Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada,alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada...PadreÉ verdade, Senhora!MarquezaUma carta pediaao Cura desta aldêa a esmola caridosade guardar a creança, até que a mãe chorosa,depois, a procurasse. Afinal esse diafelizmente chegou e a mãe que a dôr humilha,Senhor Cura, a seus pés, vem procurar a filha...PadreE como poderei saber se esta senhoraque se confessa mãe, embora peccadora,é realmente a mãe da creança engeitadaha tantos annos já, naquella madrugadatristissima d'inverno?MarquezaA carta igual áquellaque o Senhor Cura achou no berço, junto della...Padre,tomando a cartaMas falta alguma cousa...MarquezaA pérola? está aqui...Dá-lhe a pérolaPois desde aquella noite eu jámais a perdide vista e a conservei com cuidadoso afan,como alguem que resguarda um rico talisman.PadreSeija feita de Deus a sagrada vontade,embora se me parta o coração de dôr...MarquezaEssa dôr, Senhor Cura, ha de fugir vencida!Eu não quero quebrar tão dôce piedadeque fez de minha filha o seu risonho amor,nem desejo apagar a luz da sua vidanum soluço de magua.PadreEntão não vem buscal-a?MarquezaNão, não, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a.A minha desventura, emfim, se condoeudest'alma cruciada e triste que viveureclusa na saudade, apenas na esperançade vêr um dia ainda essa gentil creança...Se nunca procurei saber dessa existencianão é que se apagasse em minha consciencia,como um sonho infeliz, a lembrança doridadessa flôr do peccado em anjo convertida.Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus sómente!Que lagrimas chorei por conserval-a ausente,e quanto passei eu por causa desta filhadil-o, com eloquencia, a dôr que me polvilhaa cabeça de cans. Amal-a com ardore ter de estrangular todo esse immenso amor!...Vêl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto,mas sem poder beijal-a, adivinhar que o prantoas faces lhe banhava e não poder sorvel-o,que tormento cruel, que duro pesadello...Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir,que até para soffrer é preciso mentir!Não me pergunte, Padre, a origem desse amorninguem perguntaria ao seio de uma flôrcomo foi que nasceu o aroma que elle exhala.Bastará que lhe diga: a dôr que me avassallaé a amiga fiel que me segue ha vinte annos,que nunca me deixou; que os tristes desenganosdessas horas sem luz foram os companheirosda minha mocidade e os filhos feiticeirosque encheram o meu lar de pranto e de amargores,como um dia sem sol, como um jardim sem flôres.Um dia, Sr. Cura, em confissão, no templo,diante do seu olhar que eu agora contemplohumilde e agradecida, hei de contar-lhe a historiada minha desventura e desta dôr ingloria,mas não exija, Padre, agora, que eu recordeo passado infeliz, que o coração acordedo somno em que repousa, e desvende o segredoque a vida me cobriu de sombras e de medo.PadreNem quero desvendar, Senhora, essas torturas;mas a minha velhice acostumou-se a vêrem tão meiga creança uma filha extremosajunto de mim crescer, florir como uma rosaao pé dum castanheiro, e fazer-se mulher.Aos dez annos cegou...Marqueza,interrompendo, afflictaÉ céga a minha filha?PadreFoi: ha dias, porém, a luz de novo brilhano seu formoso olhar. Emquanto a escuridãodurou, eu sempre a trouxe unida ao coração,apoiada ao meu braço.MarquezaE quem foi que a curou?PadreAlguem que a soube amar. Um dia despontouna sua alma de flôr um novo sentimentoe a pobre céga amou e foi tambem amada.Queria dedicar-se á vida enclausuradana casta região da cela de um convento,mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breveo vago mysticismo e a Virgem que a fadou,condoendo-se della, o seu amor salvou...De modo que, feliz, dentro de pouco, devedesposar um rapaz, formoso coração...Marqueza,interrompendoRuy de Ornellas, talvez?Padre,admiradoMas como adivinhou?Marqueza,depois de uma pausaNão importa saber; prosiga, Senhor Cura,eu contarei mais tarde essa alegre aventura,tão simples e feliz.Padre,proseguindoA mim, pobre ancião,uma alegria basta: a de morrer contentepor haver feito bem á candida innocente.Do mundo nada espero, esta gentil creançaera a minha formosa e unica esperança:arrancam-m'a daqui e eu sinto que a coroladessa flôr, que me dava a encantadora esmolado seu perfume agreste, arrasta a minha vidaá derradeira estancia, á ultima guarida...MarquezaE quem lhe disse, Padre, as minhas intenções?PadreNinguem. Mas adivinho. Eu sei que os coraçõescarinhosos das mães não querem a partilhadas caricias, do amor, dos beijos de uma filha.Talitha vae partir; que o Senhor a conduzae que uma boa estrella ao seu porvir reluza.MarquezaAttenda, Sr. Cura! A mãe que ora lhe fallatambem sabe que a dôr o coração estalae não lhe vem roubar a luz dessa velhicetão cheia de bondade e simples de meiguice.A dôr me fatigou e eu quero repousarde tantas afflicções, e venho procurar,nesta aldeia tranquilla e sem perversidade,a paz que não frui na minha mocidade.Sou rica, felizmente, e quero ter um nichoonde acaba a existencia: é, talvez, um capricho...Mas quero aqui viver ao lado desta filhaque a sua alma de santo, alvissima, perfilhae nunca mais sahir deste sereno azylotão suave e tão bom, tão feliz e tranquillo,onde mora a virtude. A filha que eu procurotambem é muito rica e tem porvir seguro.Se a desventura um dia a separou de mima minha vida agora ha de chegar ao fim,aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre.E o dôce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre,abrindo sobre nós o pallio da ventura,ha de envolver na sombra o coração do Curaque fez de minha filha a filha da sua alma,extremosa e leal. E Deus que tudo acalmaha de extinguir a dôr de todo esse passadoque eu vejo, felizmente, agora terminado...Padre,alegrementeObrigado, Senhora. O coração que sentea alheia desventura e lança boamenteo seu conforto amigo a quem já nada espera,tem, nas bençãos do céo, eterna primavera...E agora que sabeis que a vossa filha é viva,attendei-me, Senhora, á santa rogativa:Talitha esteve céga. O homem que salvouo seu formoso olhar o amor lhe conquistou.Ella, uma encantadora e formosa creança,concentra nesse amor toda a sua esperança:tiral-a será dar-lhe o mais cruel supplicio.MarquezaNão preciso pedir tão duro sacrificioao seu bom coração. Eu quero-a vêr feliz,se quem serviu de Pae o consentiu e quiz.Procurava uma filha, encontrei um casal:para mim, que sou mãe, jámais este Natalfeliz esquecerei. E agora que conhecea Mãe da sua filha, attenda á minha precee mostre-me Talitha, anceio por beijal-a.Padre

Não estão; felizmentefallei ao regedor e tudo se arranjou;demais a mais tambem, segundo me informou,têm direito á pensão que o velho Avô doentenão poude receber.

E quem receberáessa triste pensão, se o velho que serviunão poude recebel-a e nem sequer a viu?

Tambem já pensei nisso e tudo se fará,minha boa Joaquina. Assim, o moribundome obrigou a faltar á missa do Natal.Se um pobre que estivesse a deixar este mundolhe pedisse um amparo, a sua alma lealnegaria essa esmola?

Ainda m'o pergunta?

Á sombra desse olhar tudo se abriga e juntae eu leio na pupilla esmaecida e pura,num misto de mudez, de pranto e de ternura,que o seu bom coração tambem acudiria.E por isso faltei; tenho, porém, certezaque Talitha por mim, ao menos, rezaria.E quando assim se tem tão lucida purezaa interceder por nós aos pés da Divindade,parece que a nossa alma, em dôce alacridade,mergulha no baptismo, em aguas de um Jordãotodo feito de amor, de beijos e perdão!

Ah! quando eu penso em tudo o que se tem passadodepois que aqui chegou!... Como isto está mudado!

Tudo é tão natural que não nos vale a penagastar tempo a pensar em cousa tão pequena.

Então é cousa pouca uma pobre engeitada,ha tanto tempo céga, e sem mãe, desprezada,encontrar quem lhe dê de novo o seu olhar,e quem lhe tenha amor e a queira desposar!?

Engeitada, que importa? O coração não pensa,ama sómente e assim não indaga a nascençada mulher que o inspirou. Mas não é desprezadaa formosa Talitha; esta mansão amadaserviu de lar paterno á sua dôce infanciae, se aqui respirou a magica fragranciade uma alma aberta, em flôr, se a sua mão, Joaquina,materna, a acompanhou desde assim pequenina,pouco importa que a mãe a tivesse engeitado;amei-a, e nesse amor eu tenho baptisadoo sonho do porvir...

Diga, e quando casarvae leval-a d'aqui?

Seria derrancaro santo coração do velho Padre-Cura;nem tanto necessita a completa venturadas minhas illusões, nem teria coragempara tamanho mal; seria mais selvagemque a propria malvadez

abraçando-a

tirar ao seu amoro prazer de aspirar o aroma dessa flôr,que ao seu lado cresceu, tão branca e tão fagueira,como um lyrio do valle ao pé de uma roseira!

Sim; isso diz agora e depois de casadoha de pensar, de certo, em sua mãe saudosa,e para que ella veja, alegre e carinhosa,o filho salvo e bom, tão robusto e córado,o Ruy tem de levar comsigo a pequenitaque nos serve de filha e que nos faz felizes!...

Descance, boa amiga; este amor tem raizesque eu nunca poderei arrancar de Talitha,nem penso em perturbar a paz do vosso azyloque a propria mão de Deus formou assim tranquillo.

Se Deus que nos dôou a innocentinha, agoramandasse a Mãe aqui para leval-a embora,onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem,porque a trouxe no collo e quero tanto bemque passo a minha vida olhando o azul dos céos,para vêr se descubro a Santa Mãe de Deuse pedir-lhe que deixe á tremula velhicedos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice,daquelle coração que eu vi desabrochar...

E o céo que lhe responde?

O céo?... Nada! A rezartenho passado a vida e, nesta idade, a gentejá não póde chorar, as lagrimas seccarame por isto se soffre, a dôr é mais pungentequando se quer chorar e os olhos já cançaram.

Ouve-se a voz de Talitha, fóra

Ó Joaquina! Ruy, Ruy...

Ahi vem a traquina;E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina...

Mas como vem alegre...

Entra Talitha

Eu bem disse ao padrinho...

Que foi que tu disseste, alma da côr do linho?

Que ninguem póde crêr na jura...

Das mulheres?...

Dos homens... atrevido, ainda tens coragemde rir?...

Ou de chorar, se tu assim preferes...

Mas a tua promessa? Esqueceste a homenagemda noite de Natal?

Pois pergunta á Joaquina...

A mim? não sei de nada...

Ella está gracejando;sabe tudo tão bem como eu, mas imaginaque tu és ciumenta e então, de vez em quando,a recordar o tempo em que era rapariga,faz pirraças á gente, armando alguma intriga...

A verdade, porém, é que faltaste e eu não.

Pois bem, faltei; mas tive uma forte razão:o velho reformado estava agonisantee mandou-me chamar; eu fui no mesmo instanteassistir-lhe á agonia. Expirou-me nos braços:ia o sol a fugir na curva dos espaços,á hora em que soluça o sino das trindadeso Angelus sagrado envolto nas saudadesque a terra balbucia, agradecendo ao céoa luz que lhe mandou na flacidez do véocrepuscular e dôce, oiro tecido em gaze,sem brilho de offuscar e sem calor que abraze.

E nunca mais o vi, nem o verei jamais!...Foi cégo como eu fui. Nas manhãs estivaesmuita vez o encontrei, cançado dos trabalhos,pedindo esmola ahi por todos os atalhos.Elle ia pela mão da neta, uma creança!Era um velho senil á sombra da esperança!Eu ía recostada ao braço do padrinhoe, ao sentir-me, dizia: «ampare-me esse anginho—amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja—como um velho soldado, a mendigar, rasteja—neste mundo de Christo»—. E ficava a pensarnaquelle desgraçado. O meu perdido olharnovamente voltou, quando o delle se apagana escuridão mortal que tudo cobre e alaga...Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas!

Não faltará calor ás meigas andorinhas.

E quem lhes ha de dar?

Quem?

Deus, Jesus e nós!

Nós seremos os paes:

a Joaquina

tu e o Cura, os avós...

Valha-te Deus, tontinha!

Encantadora e casta;ó Virgem Conceição, flôr, ingenua madrasta,bemdito seja o dia em que te amei, formosa,sonho feito mulher, sorriso feito em rosa...

Que tem isso de mal? Tambem elle era cégo,não podia cuidar da neta que o guiavae agora, felizmente, eu tenho no aconchegoda minha mocidade a luz que me faltavae posso olhar por ella. A minha desventuranão teve neste asylo o amor do Padre-Cura?Depois não tive ainda?!...

Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-se

Ah! minha tagarella!...

Depois tiveste ainda o teu formoso olharque andava lá no céo illuminando a estrellad'alva. E agora tambem tens muito que narrardo que viste na igreja...

Ah! na missa do gallo?Eu vinha exactamente aqui para contal-o...O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Curadizia aquella missa!... Inda agora fulgura,sobre a minha retina, a vivida impressãodo seu olhar tão dôce e manso, de perdão...Inda agora o sorriso, angelico e furtivo,do seu labio de rosa, orvalhado e festivo,innunda de frescor a minha vida inteira,como o rócio da noite á flôr da amendoeira.

Quem foi que te sorriu com tamanha affeição,que fez vibrar tu'alma em tanta commoção?

Um milagre de Deus! Se tens fé, acreditano que te vou dizer.

Dize, minha Talitha!

Conta, conta o que foi.

Pois nesse caso, ouvi:Quando eu entrei no templo um borborinho enormeencheu toda a capella; então foi que eu senticomo é triste ser cégo e ter olhar que dormetantos annos de vida, em funda lethargia,sem a benção gentil de vêr a luz do dia!Toda a gente fallava, olhando para mim,e eu muito satisfeita a caminhar assim...

Imita o andar magestoso

Como tu és vaidosa!

E como ella é catita...

Mas se eu fôsse a teu lado, inda era mais bonita!...Deram-me tanto abraço e beijaram-me tanto!A capellinha estava alegre, era um encanto.Á entrada muita flôr, o altar com muita luz,e num bercinho branco o menino Jesus,tão lindo, tão mimoso e tão engraçadinho,que parecia mesmo um rouxinol no ninho.Uma velha fitou-me e disse: que princeza!Um velho lavrador olhou-me com surprezae bem alto fallou: «Que Deus Nosso Senhorte dê um bom marido»...

E que disseste, amor?

Nem uma palavrinha! Eu ía bem calada,entre muito contente e muito envergonhada.

E depois?

E depois... fui então ajoelhar,sósinha, nos degráos que sóbem ao altar,á espera que viesse, a meia noite, a missa.Rezando ali, a sós, com fervor de noviça,lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram,subindo-me do seio aos olhos que as choraram.Eu sentia uma dôr immensa, por fugirao voto que fizera e, em vão, quiz resistir,á minh'alma affluia um extranho remorsoe embora eu despendesse o mais sincero esforço,para conter o pranto, o coração vergavae, numa agitação convulsa, palpitavaacabrunhado e triste...

Ouve-se o repicar dos sinos

Ai! que acabou a festae a ceia por fazer, mas que cabeça é esta!...

Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa

Mas não te lembras já que, em nome do Senhor,o Cura abençôou o nosso casto amor?Não te lembras tambem da lucida visãoque te trouxe do céo a estrella do perdão?

De tudo me lembrei; não sei que força extranhapesava sobre mim, como immensa montanha,e não deixava erguer o meu olhar medrosopara encarar de frente o vulto magestosoda Virgem Mãe de Deus! Mas quando o Cura entrouparece que a minha alma

torna o sino a repicar

alegre despertou...Senti uma esperança illuminar-me o seioe dissipar-se então esse cruel receio!Rezei muito, rezei com tanta commoção,pedi com tanto ardor, com tanta devoção,que a minh'alma subiu, tão leve e tão submissa,aos pés da Mãe de Deus, durante aquella missa,como se fôsse presa a hostia consagradaque o Cura levantava á cruz abençoada...Com ella o meu olhar de supplica subiu.E fitando, sem medo, a face alabastrinada candida judia, eu vi que Ella sorriucom tão dôce expressão de placidez divinaque me banhou de luz amortecida e calmaa minha santa crença e fez vibrar minh'alma!Senti que era o perdão que vinha, n'um sorriso,abrir á minha vida um novo paraiso...Ergui-me docemente, approximei-me d'Ellae, beijando-lhe a mão que sobre o mundo vela,ouvi, como um soluço, a sua voz tão pura,dizendo-me em segredo, em intima ternura:Que lindos olhos, Talitha,os olhos que o Ruy te deu:tem uma luz infinita,parecem feitos no céo...

Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narrarão de Talitha, enlevada, abraça-a, lacrimosa, beija-a...

Mas tu ouviste bem, tens a certeza plena?

Ouvi perfeitamente; a voz era serena,tão serena e subtil que a mim se affiguravaser o proprio silencio assim que me fallava.

Ouve-se o repicar dos sinos e começa-se a ouvir as primeiras vozes dos córos distantes.

Estremeci de alegre e acreditei entãoque surgira, afinal, o dia do perdão;

Approximam-se as vozes

desci do altar, corri, deixei a missa e vim,como se o coração cantasse dentro de mim,para dizer-te, Ruy, que a minha vida é tua.

Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos timida, brincando com o avental: pausa e silencio.

Filhos, não serei eu quem assim vos destruaas santas illusões...

ouve-se o côro muito perto

Se Deus as abençôa!...

Sae

Ruy!

Corre para elle

Ah! minha Talitha!

Oh! meu amor!

Perdôa!

As vózes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de fóles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem.

O Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois que se beijam e Joaquina que está estupefacta, junto á porta.

Raparigas, entrai, a noite é de alegria...

Tem razão, meu padrinho, nossa phantasiadeve expandir-se agora...

Assim, aos beijos, não...

Quem poderá conter o nosso coração?

Ás raparigas

Raparigas, cantae! A céga já tem vista;que a Virgem Mãe de Deus a todas vós assista;a freira, que devia entrar para o convento,teve hoje a redempção do seu cruel tormento!

Viva a céguinha!

Viva!

E mais o Padre Cura!Viva!

Viva quem fez este milagre!

Viva!

E a mãe Joaquina, então, que é mesmo uma ternura?!

Viva!

Muito obrigada!

Olha como é altiva!

Raparigas, dançae!

Pois cante a cotovia,e vibre essa garganta até romper o dia...

As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com Talitha e Ruy á frente, dançam a Ciranda. O Cura, sentado em uma cadeira, observa alegremente a scena.

Quem deu espinho ás roseirasnão teve muita razão,antes désse ao coração,como deu ás Tarangeiras.Deus que creou tantas flôresfez as estrellas aos centos:não dorme quem tem amores,que os amores são tormentos.

Toda tu pareces feitacom a cêra das abelhas,quando alguem d'aqui t'espreitaficam-te as faces vermelhas.

Quem ao pé do Sol caminhaanda sempre com calor,Quem á lua se avizinhapóde até crear bolôr.As tuas tranças são pretas,pareces de cêra mol,não te abeires muito ao sol,olha lá não te derretas...

O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e encaminha-se para o grupo:

Tambem eu quero entrar na dança, raparigas,e ser como a papoila em meio das espigas!

Viva, viva o Sr. Cura,que é o paesinho desta aldeia,que tem a alminha mais pura,mais alva que a lua cheia.

Neste momento ouve-se bater á porta violentamente, ao mesmo tempo que cessam os guizos denunciativosde um carro que parou á porta. Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformação de physionomia que todos os circumstantes percebem.

Um carro, Santo Deus!

Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, põe as mãos em oração.

Senhor Cura, que tem?

Ouve-se bater de novo

Ha tantos annos já!

Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae á porta e abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente.

Perdão! Procura alguem?

O Cura João Fulgencio! É Vossa Senhoria?

Sou eu mesmo, Senhora!

Inda bem, obrigada!Eu já tinha certeza, o céo me conduzia.Não quero perturbar a alegria da noite:Viajante, sósinha, e quasi desviadapela neve que tomba, eu peço onde me acoite.

Sois bem vinda, Senhora; aqui sob este tectoencontrareis conchego e o mais sereno affecto.

Obrigada, creança!

A Noite é de Natale o nosso coração não sabe fazer mal...

Deveis estar cançada, o inverno vae tão duro!

Pensei que não chegava á sua residencia.A nevada é cruel, o caminho coberto,o frio é de cortar, o céo está escuro,nem um astro se vê, perde-se a conscienciada nossa propria vida, a estrada é um deserto...Nem sei como cheguei...

Jesus a protegeu...

Eu creio bem que sim e dou graças ao céo!

E não quer repousar?

Antes, porém, quizera,Senhor Cura, dizer o que me traz aqui...

Assim seja, Senhora, e ao bom Jesus prouveraque eu pudesse remir a dôr que presenti...

a Talitha e Ruy, fingindo alegria

Ide com Deus, cantae!

O grupo retira-se em silencio, curiosamente

Quem é? Quem te parece?

Não sei, mas esta voz a minh'alma conhece.

sahem

Senhora, estamos sós! Vossa Excellencia ordene!

Ouça-me, Senhor Cura! ouça e não me condemne!

E condemnar por que? Se tem algum peccado,o coração de Deus não estará fechado!

Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto,estaria acabado este immenso desgostoque me tortura a vida; a asperrima inverneiraembaraçou-me o passo e augmentou-me a canceira.

E vem de muito longe?

Ah! sim, de bem distante,anciosa, esperando este feliz instante.Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada,alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada...

É verdade, Senhora!

Uma carta pediaao Cura desta aldêa a esmola caridosade guardar a creança, até que a mãe chorosa,depois, a procurasse. Afinal esse diafelizmente chegou e a mãe que a dôr humilha,Senhor Cura, a seus pés, vem procurar a filha...

E como poderei saber se esta senhoraque se confessa mãe, embora peccadora,é realmente a mãe da creança engeitadaha tantos annos já, naquella madrugadatristissima d'inverno?

A carta igual áquellaque o Senhor Cura achou no berço, junto della...

Mas falta alguma cousa...

A pérola? está aqui...

Dá-lhe a pérola

Pois desde aquella noite eu jámais a perdide vista e a conservei com cuidadoso afan,como alguem que resguarda um rico talisman.

Seija feita de Deus a sagrada vontade,embora se me parta o coração de dôr...

Essa dôr, Senhor Cura, ha de fugir vencida!Eu não quero quebrar tão dôce piedadeque fez de minha filha o seu risonho amor,nem desejo apagar a luz da sua vidanum soluço de magua.

Então não vem buscal-a?

Não, não, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a.A minha desventura, emfim, se condoeudest'alma cruciada e triste que viveureclusa na saudade, apenas na esperançade vêr um dia ainda essa gentil creança...Se nunca procurei saber dessa existencianão é que se apagasse em minha consciencia,como um sonho infeliz, a lembrança doridadessa flôr do peccado em anjo convertida.Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus sómente!Que lagrimas chorei por conserval-a ausente,e quanto passei eu por causa desta filhadil-o, com eloquencia, a dôr que me polvilhaa cabeça de cans. Amal-a com ardore ter de estrangular todo esse immenso amor!...Vêl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto,mas sem poder beijal-a, adivinhar que o prantoas faces lhe banhava e não poder sorvel-o,que tormento cruel, que duro pesadello...Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir,que até para soffrer é preciso mentir!Não me pergunte, Padre, a origem desse amorninguem perguntaria ao seio de uma flôrcomo foi que nasceu o aroma que elle exhala.Bastará que lhe diga: a dôr que me avassallaé a amiga fiel que me segue ha vinte annos,que nunca me deixou; que os tristes desenganosdessas horas sem luz foram os companheirosda minha mocidade e os filhos feiticeirosque encheram o meu lar de pranto e de amargores,como um dia sem sol, como um jardim sem flôres.Um dia, Sr. Cura, em confissão, no templo,diante do seu olhar que eu agora contemplohumilde e agradecida, hei de contar-lhe a historiada minha desventura e desta dôr ingloria,mas não exija, Padre, agora, que eu recordeo passado infeliz, que o coração acordedo somno em que repousa, e desvende o segredoque a vida me cobriu de sombras e de medo.

Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas;mas a minha velhice acostumou-se a vêrem tão meiga creança uma filha extremosajunto de mim crescer, florir como uma rosaao pé dum castanheiro, e fazer-se mulher.Aos dez annos cegou...

É céga a minha filha?

Foi: ha dias, porém, a luz de novo brilhano seu formoso olhar. Emquanto a escuridãodurou, eu sempre a trouxe unida ao coração,apoiada ao meu braço.

E quem foi que a curou?

Alguem que a soube amar. Um dia despontouna sua alma de flôr um novo sentimentoe a pobre céga amou e foi tambem amada.Queria dedicar-se á vida enclausuradana casta região da cela de um convento,mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breveo vago mysticismo e a Virgem que a fadou,condoendo-se della, o seu amor salvou...De modo que, feliz, dentro de pouco, devedesposar um rapaz, formoso coração...

Ruy de Ornellas, talvez?

Mas como adivinhou?

Não importa saber; prosiga, Senhor Cura,eu contarei mais tarde essa alegre aventura,tão simples e feliz.

A mim, pobre ancião,uma alegria basta: a de morrer contentepor haver feito bem á candida innocente.Do mundo nada espero, esta gentil creançaera a minha formosa e unica esperança:arrancam-m'a daqui e eu sinto que a coroladessa flôr, que me dava a encantadora esmolado seu perfume agreste, arrasta a minha vidaá derradeira estancia, á ultima guarida...

E quem lhe disse, Padre, as minhas intenções?

Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os coraçõescarinhosos das mães não querem a partilhadas caricias, do amor, dos beijos de uma filha.Talitha vae partir; que o Senhor a conduzae que uma boa estrella ao seu porvir reluza.

Attenda, Sr. Cura! A mãe que ora lhe fallatambem sabe que a dôr o coração estalae não lhe vem roubar a luz dessa velhicetão cheia de bondade e simples de meiguice.A dôr me fatigou e eu quero repousarde tantas afflicções, e venho procurar,nesta aldeia tranquilla e sem perversidade,a paz que não frui na minha mocidade.Sou rica, felizmente, e quero ter um nichoonde acaba a existencia: é, talvez, um capricho...Mas quero aqui viver ao lado desta filhaque a sua alma de santo, alvissima, perfilhae nunca mais sahir deste sereno azylotão suave e tão bom, tão feliz e tranquillo,onde mora a virtude. A filha que eu procurotambem é muito rica e tem porvir seguro.Se a desventura um dia a separou de mima minha vida agora ha de chegar ao fim,aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre.E o dôce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre,abrindo sobre nós o pallio da ventura,ha de envolver na sombra o coração do Curaque fez de minha filha a filha da sua alma,extremosa e leal. E Deus que tudo acalmaha de extinguir a dôr de todo esse passadoque eu vejo, felizmente, agora terminado...

Obrigado, Senhora. O coração que sentea alheia desventura e lança boamenteo seu conforto amigo a quem já nada espera,tem, nas bençãos do céo, eterna primavera...E agora que sabeis que a vossa filha é viva,attendei-me, Senhora, á santa rogativa:Talitha esteve céga. O homem que salvouo seu formoso olhar o amor lhe conquistou.Ella, uma encantadora e formosa creança,concentra nesse amor toda a sua esperança:tiral-a será dar-lhe o mais cruel supplicio.

Não preciso pedir tão duro sacrificioao seu bom coração. Eu quero-a vêr feliz,se quem serviu de Pae o consentiu e quiz.Procurava uma filha, encontrei um casal:para mim, que sou mãe, jámais este Natalfeliz esquecerei. E agora que conhecea Mãe da sua filha, attenda á minha precee mostre-me Talitha, anceio por beijal-a.


Back to IndexNext