Chapter 2

«É vêm tutu'Por detrás do murunduP'ra cumê sinhosinhoC'um bucado de angu'».

«É vêm tutu'Por detrás do murunduP'ra cumê sinhosinhoC'um bucado de angu'».

—Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar crianças. Você não sabe outra?

—Não, sinhô. Já mi esqueceu.

Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes...

Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava garantida, graças a Deus!

O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.

A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia, informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e dictados populares.

Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem, porque via na sua festa,—com um numero defolk-lore, meio de chamar a attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas.

A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia mover nella. Numa lata lia-se: Santa Anna dos Tócos; numa pasta: S. Bonifácio do Cabresto.

—Os Srs. não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! que surprezas ella reserva!... Ainda ha dias recebi uma carta de Urubu, de Baixo com uma linda canção. Querem ver?

O colleccionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:

Se Deus enxergasse pobreNão me deixaria assim:Dava no coração dellaUm logarsinho p'ra mim.O amor que tenho por ellaJá não cabe no meu peito;Sae-me pelos olhos afóraVôa ás nuvens direito.

Se Deus enxergasse pobreNão me deixaria assim:Dava no coração dellaUm logarsinho p'ra mim.

O amor que tenho por ellaJá não cabe no meu peito;Sae-me pelos olhos afóraVôa ás nuvens direito.

—Não é bonito?... Muito! Se os Srs. conhecessem então o cyclo do macaco, a collecção de historias que o povo tem sobre o simio?... Oh! Uma verdadeira epopéa comica!

Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algum que encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do foklorista, tinha mais intelligencia no olhar com que o encarava.

O velho poeta guardou, a canção de Urubu de Baixo, numa pasta; e foi logo á outra, donde tirou varias folhas de papel. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes:

—Vou ler aos senhores uma pequena historia do macaco, das muitas que o nosso povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publical-as, sob o tituloHistorias do Mestre Simão.

E, sem perguntar se os incommodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:

«O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando de arvore em arvore, nas bordas de uma gróta. Eis senão quando, um delles vê no fundo uma onça que lá caira. Os macacos se enternecem e resolvem salval-a. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita á cintura de cada um delles e atiraram uma das pontas á onça. Com o esforço reunido de todos, conseguiram içal-a e logo se desamarraram, fugindo. Um delles, porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o immediatamente.

—Compadre Macaco, disse ella, tenha paciencia. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer.

O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexivel. Simão então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a elle; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os animaes, o jaboty, cujas audiencias, são dadas á borda dos rios, collocando-se elle em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco expôz as suas razões.

O jaboty ouviu-os e no fim ordenou;

—Bata palmas.

Apezar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que tambem expôz as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:

—Bata palmas.

A onça não teve remedio senão largar o macaco, que se escapou, e tambem o juiz, atirando-se n'agua».

Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:

—Não acham interessante? Muito! Ha no nosso povo muita invenção, muita creação, verdadeiro material parafabliauxinteressantes... No dia em que apparecer um literato de genio que o fixe numa forma immortal... Ah! Então!

Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas.

—Agora, continuou elle, depois de passada a emoção—vamos ao que serve.O boi espacioou oBumba meu boiainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está ahi oTangolomango, conhecem?

—Não, disseram os dous.

—É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio.

O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de gratidão.

Quaresma, foz oTangolomango, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em côro:

Uma mãe teve dez filhosTodos os dez dentro de um pote:Deu o Tangolomango nelleNão ficaram senão nove.

Uma mãe teve dez filhosTodos os dez dentro de um pote:Deu o Tangolomango nelleNão ficaram senão nove.

Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu! hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu. Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.

O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelofolk-lore. Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo.

Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprioTangolomangoo era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos nossos ares.

Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys.

Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles, ficaram estupefactos no limiar da porta.

—Mas que é isso, compadre?

—Que é isso, Polycarpo?

—Mas, meu padrinho...

Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:

—Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.

O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia!

—Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja muito brasileiro, mas é bem triste, compadre.

—De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...

Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios, rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor. Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas idéas patrioticas e o seu acto.

É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar em actos.

Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.

—Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle os seus olhos muito luminosos.

Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco differente das nossas moças.

Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao padrinho.

—Então padrinho, lê-se muito?

—Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.

Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar—que diabo! Não, não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos—uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de inventor feliz!

—Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.

—Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violencias...

Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as apresentações.

—Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga.

Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o—que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava numeroso e eloquente.

—Leu então os meus versos, não é, minha senhora?

—Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um trabalho seu.

—No «Tempo», não foi?

—Foi.

—Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra metrica e outro systema, não acha?

—De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a musica e não musica para os versos.

E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os seus olhinhos vivos e meudos de camondongo.

Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:

—O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.

—Eu sei, padrinho. Eu sei...

—Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em francez popular?

—Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o provençal, uma verdadeira lingua.

—Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.

Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a elle, disse:

—Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor.

—Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo...

—Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis.

—O piano? perguntou Ricardo.

—Que piano! O maracá, a inubia.

—Não conheço.

—Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!

—Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.

—De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não vale nada—é um instrumento do capadocio.

—De capadocio, major! Não diga isso...

E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza, espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão calmo.

—Então quando se casa, D. Ismenia?

—Em Março. Cavalcanti já está formado e...

Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes. A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que se seguia ao pedido da pragmatica.

As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem.

Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa, uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: «Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão: «Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se casar...»

A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle—«porque, quando você se casar...»—e a menina foi se convencendo de que toda a existencia só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar.

De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas, só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia, meu Deus!...»

A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira,tia, parecia-lhe um crime, uma vergonha.

De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se teimosamente como uma obsessão.

Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados chamam—bonitinhas. O seu traço de belleza dominante, porém, eram os seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro, sedosos até ao olhar.

Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.

O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas: «Diga-me sempre, Maricota—dizia elle—quem são. Olho vivo!...» É melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle accedeu.

Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivopaisanoisto é, que não pediu, não é aindaofficial.

No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia».

O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava dos interesses dellas.

Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali.

Enfim—dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos—a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota, vamos descontar esta lettra.

A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario: elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia elle:

—É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!

Ao que Castro interrogava:

—Qual dellas?

—A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.

—Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita. Porque não fizeste o mesmo?

Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.

Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe isto ou aquillo.

Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica, mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de familia.

Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente.

—Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta.

—Mamãe, que quer que eu faça?

—Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.

Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria.

Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio, engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr. Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.

Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia, cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar.

Irene, uma alourada e alta, aconselhava:

—Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.

Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam ao par.

A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:

—Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato.

A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas; e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:

—Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...

Ella alludia á resposta que, á sua confidencia, Ismenia tinha dado com parcimonia: qual o que!

Todas ellas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solenne, dentro de um grande fraque preto.

—Então, Dr. acabou, heim? dizia este a geito de um cumprimento.

—É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos—fui de um heroismo!...

—Conhece o Chavantes? perguntava um outro.

—Conheço. Um chronico, um pandego...

—Foi seu collega?

—Foi, isto é, elle é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo anno.

Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de attender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro.

—É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça noDevereHaver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.

—Actualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cumulo! Um curso difficil e caro, que exige cadaveres, apparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantel-o? Se o Governo mantem mal...

—Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabens. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!

—Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.

—Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.

—Boa carreira.

Nos intervallos da conversa, todos elles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural.

Para aquella gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma cousa sagrada e de essencia superior; e não juntavam á imagem que tinham delle actualmente, as cousas que porventura elle pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nella de modo algum; e aquelle typo, para alguns, continuava a ser vulgar, commum, na apparencia, mas a sua substancia tinha mudado, era outra differente da delles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fóra da natureza terrestre, quasi divina.

Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O General ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com elle o Contra-Almirante Caldas, o Major Innocencio, o Dr. Florencio e o Capitão de Bombeiros Segismundo.

Innocencio aproveitou a occasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assumpto de legislação militar. O Contra-Almirante era interessantissimo. Na marinha, por pouco que não faziapendantcom Albernaz no Exercito. Nunca embarcara a não ser na guerra do Paraguay, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era delle. Logo que se viu 1° Tenente, Caldas foi aos poucos se mettendo comsigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem amigos nos altos logares, se esqueciam delle e não lhe davam commissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações militares: as commissões são merecimento, mas só se as dá aos protegidos.

Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros». Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros» fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante.

—Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a flotilha do Rio Grande.

Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho.

O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay.

Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes. Deixaram-n'oencostado, como se diz na gyria militar, e elle levou quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação, armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juizes e advogados—esse poviléo rebarbativo do fôro que parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.

Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria, possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos outros.

Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous fazem quatro—o que quer dizer: Major.

Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua consulta.

—Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito, mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado!

Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe davam um ar decommodoroou de chacareiro portuguez, pois era forte nelle o typo luzitano.

—Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!

—Não ha mais gente que preste, disse Bustamante.

Segismundo por ahi aventurou tambem a sua opinião dizendo:

—Eu não sou militar, mas...

—Como não é militar? fez Albernaz com impeto. Os Srs. é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?

—De certo, de certo, fez o Almirante cofiando os favoritos.

—Como ia dizendo, continuou Segismundo, apezar de não ser militar, eu me animo, a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?

—Não ha mais, meu caro, confirmou com voz tenue o Dr. Florencio.

—Não sei porque, pois tudo hoje não vai pela sciencia?

Fôra Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor:

—Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios dexxeyy, em Curupaity, hein Caldas? hein Innocencio?

O Dr. Florencio era o unico paisano da roda. Engenheiro e empregado publico, os annos e o socego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sahir da escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de Albernaz, era raro que não viesse roda a tarde jogar o sólo com o General. O Dr. Florencio perguntou:

—O Sr. assistiu, não foi, General?

O General não se deteve, não, se atrapalhou, não gaguejou e disse com a maxima naturalidade:

—Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vesperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o Venancio...

Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janella da sala onde estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circumscripto aos fundos dos quintaes das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desapparecido do horizonte e as tenues luzes dos bicos de gaz e dos lampeões familiares começavam a accender-se por detraz das vidraças.

Bustamante quebrou o silencio:

—Este paiz pão vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de Tenente Coronel, está no ministerio ha seis mezes!

—Uma desordem, exclamaram todos.

Era noite. D. Maricota chegou até onde elles estavam, muito activa, muito diligente e com o rosto aberto de alegria.

—Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico, sim?

Albernaz sahiu fóra da róda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes termos:

—Se não dançam é porque não querem. Estou pegando algum?

D. Maricota approximou-se dos amigos do marido e explicou:

—Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem, tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!

—Bem; eu vou lá, disse Albernaz.

Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile.

—Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!

E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio para a roda dos amigos, suado, mas contente.

—Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que fez bem, Caldas; não se quiz casar!

—Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?

—Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz.

—Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio.

—Não, eu não jogo, disse Bustamante.

—Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz.

As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar. Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas.

Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou á moça:

—Então, D. Quinota, que dê o Genelicio?

A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu com falso máu humor:

—Ué! Sei lá! Ando atrás delle?

—Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu Caldas.

O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:

—Eu passo.

D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que começava sempre por—salve—e acabava tambem por—Salve! Tres vezes Salve!

O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha a data.

No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto.

Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.

Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio. Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores francezes ou portuguezes.

Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz.

Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!...

O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim dasmãosfazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as falas sacramentaes do jogo;sólo, bólo, melhoro, passo. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o ruido festivo das dansas e das conversas.

—Olhem quem está ahi!

—O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?

Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um escripturario.

—Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios.

—Vão bem? perguntou Florencio.

—Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem cunhado!

—Estimo muito, disse o General.

—Obrigado. Sabe de uma cousa, General?

—O que é?

—O Quaresma está doido.

—Mas... o que? quem foi que te disse?

—Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude...

—Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido.

—Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em tupy e mandou ao ministro.

—É o que eu dizia, fez Albernaz.

—Quem é? perguntou Florencio.

—Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece?

—Um baixo, de pince-nez?

—Este mesmo, confirmou Caldas?

—Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles livros, aquella mania de leitura...

—P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas.

—Telha de menos, disse Florencio.

Genelicio atalhou com autoridade:

—Elle não era formado, para que metter-se em livros?

—É verdade, fez Florencio.

—Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou Segismundo.

—Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um tituloacademicoter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?

—De certo, disse Albernaz.

—De certo, fez Caldas.

—De certo, disse tambem Segismundo.

Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo.

—Já sahiram todos os trunfos?

—Contasse, meu amigo.

Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz metallica, apurando muito os finaes ems, começou:


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