—Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia...
—Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham.
Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves.
Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos, ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre a vida do gallinheiro:
—Já, nasceram os patos, Adelaide?
—Ainda não. Faltam oito dias ainda.
E logo a irmã accrescentava:
—Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes?
—Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um perú.
—Ora, tu! Que presente!
—Que é que tem? É da tradição.
Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que se achava um cavalheiro na porteira.
Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto.
Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro.
—Boas tardes, Major.
—Boas tardes. Faça o favor de entrar.
O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato. Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade, com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse; porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou:
—Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria.
—Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
—Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem nenhuma exigencia legal.
O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e continuou:
—Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major...
—Oh! Por Deus, Tenente!
—Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro.
—Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou...
—Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos manter.
—É justo.
—O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major...
—Não. Espere um pouco...
—Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já.
Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e accrescentou:
—Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major?
—Muito bem.
—Pretende dedicar-se á agricultura?
—Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
—Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão cançadas e...
—Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é cultivada ha milhares de annos, entretanto...
—Mas lá se trabalha.
—Porque não se ha de trabalhar aqui tambem?
—Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra que...
—Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença.
—O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...
Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma.
—Que questão é? indagou Quaresma.
O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
—Então não sabe?
—Não.
—Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e—zás—apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia... Que pensa o Senhor?
—Eu... Nada!
O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelleestrangeiro, que vinha não se sabe donde!
—O Major é um philosopho, disse elle com malicia.
—Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a physionomia e disse em ar de despedida:
—Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
—De certo.
Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas, no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas—trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho, luta, trabalho e amor...
O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello.
O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz, além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e estão longe.
Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos, riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era elle!
—Adelaide está ahi o Ricardo.
Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os azares das construcções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um odio tenaz e sagrado.
Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella onda de edificios disparatados e novos.
Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes, nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguella de trilhos mal juntos.
Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.
Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade. Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor londrino.
Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições, continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta da nickel do trem.
Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos suburbios.
Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda, inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras de carros, como uma cobra entre pedrouços.
Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas.
Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella, grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da patria criança ainda, ainda na sua formação...
Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais—ingratos!—já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte, feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu coração».
Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle—elle que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a substancia do paiz!
E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores.
E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos famosos versos:Se choro... bebe o pranto a areia ardente...
Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava. Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso miseravel destino humano.
A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar:
Da doçura dos teus olhosA brisa inveja já vem
Da doçura dos teus olhosA brisa inveja já vem
Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella pobre mulher, abraçal-a...
E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor feliz que teve um auditorio de fidalgas:
Lereno alegrou os outrosE nunca teve alegria...
Lereno alegrou os outrosE nunca teve alegria...
Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:
—Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pediabis.
A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
—Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do senhor.
—Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
—Deus me livre! Para o senhor mecriticar...
Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever.
O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para fazer café.
Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace, que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel, incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza como o Amor.
Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir no ouvido.
A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro, tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.
É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:
«Meu caro Ricardo—Saude—Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V. appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco—Seu amigo Albernaz».
O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra. O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um idolo bemfazejo.
Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma, embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.
Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General, mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar, cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças aos empenhos do pai.
O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um—sou muito feliz...—deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida alma do menestrel.
Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse anceio.
A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar?
Os cumprimentos se repetiram.
—É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
O General tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e emquanto o limpava, respondeu, olhando com aquelle geito dos myopes:
—Estou muito contente.
Por ahi pôz o pince-nez, endireitou o truncelim e continuou:
Creio que casei bem minha filha: rapaz formado bem encaminhando e intelligente.
O Almirante acudiu:
—E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dous annos escripturario do Thezouro, é cousa nunca vista.
—O Genelicio não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florencio.
—Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recem-casado.
De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma—«Synthese de Contabilidade Publica Scientifica»—viu-se, sem saber como, cumulado de elogios pelaimprensa desta capital. O Ministro, attendendo ao merito excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo sido a edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous terços do livro.
A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da expressão.
Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado».
Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser sub-director na primeira vaga.
Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados novos, o Major não pôde deixar de observar:
—Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham?
—Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio.
—Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses...
Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira phrase que lhe veiu aos labios:
—Quando se prospera, todas as profissões são boas.
—Não é assim tanto, obtemperou o Almirante, alisando um dos favoritos. Não é para desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz? hein Innocencio?
Albernaz levantou a cabeça como se quizesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou:
—É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaity, então...
—O Sr. esteve lá, General? perguntou o convidado amigo de Genelicio.
—Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi—Você sabe, não é Innocencio?
—Se estive lá...
—Polydoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores a esquerda enóscahimos sobre os Paraguayos. Mas os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
—FoiseuMitre, disse Innocencio.
—Foi. Atacamos com furia. Era um ribombar de canhões que mettia medo, bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno!
—Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
Todos se entreolharam admirados, excepto o General que julgava a sabedoria do Paraguay excepcional.
—Foram os paraguayos, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bella, mas tem as suascousas...
—Isso não quer dizer nada. Tambem na passagem de Humaytá... ia dizendo o Almirante.
—O senhor estava a bordo?
—Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaytá...
Na sala de visitas as dansas continuavam com animação. Era raro que alguém viesse lá de dentro até onde elles estavam. Os risos, a musica, e o mais que se adivinhava não distrahiam aquelles homens das suas preoccupações bellicosas.
O General, o Almirante e o Major enchiam de pasmo aquelles burguezes pacificos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.
Não ha como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para apreciar as narrações de guerra. Elle só vê a parte pittoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de sómenos. A Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importancia tragica: 3.000 mortos, só!!!
De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra «bibliothèque rose», guerra de estampa popular, em que não apparecem a carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normaes.
Estavam Ricardo, o Dr. Florencio, o exacto empregado como engenheiro das Aguas, aquelles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginarias daquelles tres militares, um honorario, talvez o menos pacifico dos tres, o unico que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira—quando D. Maricota chegou, sempre diligente, activa, dando movimento e vida á festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabellos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ella vinha offegante e dirigiu-se ao marido:
—Então, Chico, que é isso? Ficam ahi e eu que faça sala, que anime as moças... P'ra sala todos!
—Já vamos D. Maricota, disse alguém.
—Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, seu Caldas, seu Ricardo, os senhores!
E foi empurrando um a um pelo hombro.
—Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo,seuRicardo!
—Pois não, minha senhora. É uma ordem...
E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
—Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
—Vai bem.
—Tem-lhe escripto?
—Ás vezes. Eu queria, General...
O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cahir, e perguntou:
—O que?
Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder a s palavras:
—Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vel-o.
O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e disse:
—Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã.
E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou:
—Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem nome...
—Vá lá amanhã.
D. Maricota appareceu na frente e falou agastada:
—Vocês não vêm!
—Já vamos, fez o General.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
—Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro...
Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, osserenos, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano, collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou. Palmas geraes, mas frias, soaram.
O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou:
—Tem uma bella voz esta moça. Quem é?
—É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General.
—Canta muito bem.
—Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas, senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar «Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos, por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui...todê li ca do. Bem».
A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.
Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu immaculado vestido de noiva, tambem.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha.
—Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismenia para me entregar.
A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome, perguntou:
—Que é, Dulce?
A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
—SeuRicardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. Adelaide.
—Depois de amanhã, espero eu.
—Vai lá.
—Vou.
—Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.
No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos parisienses decorbeillede noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico, cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheirosyankees. Apezar de ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber homenagens de um villão que nãoroçou os bancos de uma Academia.
Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor era não adiar.
Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o constrangimento de um commando fora della.
Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e, desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De resto, a tua belleza não era a grande belleza—aquella que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas.
No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.
Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se começasse a desertar da batalha.
O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o comtudo, de seus afazeres agricolas.
Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!... Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada de ferro. Ellas se encontravam emT, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação, num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas, ficava a Camara Municipal.
Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas communas francezas e belgas da idade média.
Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu cargo e dahi em pouco estava relacionado.
Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr. Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira proxima.
Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo.
Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr. Campos.
Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de «aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso.
O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do Brasil.
Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional. As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens.
Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem naquella população a existencia de um residuo forte da nossa nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:
—Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
—Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas todas essas cousas.
—Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não devemos rejeitar, não acha?
—Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de commandar uma esquadra.
—Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major.
—Cada um tem as suas theorias.
—De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos?
—De nome.
—Sabe que elle é presidente da Camara.
Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O menestrél não notou o gesto do amigo e emendou.
—Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo passeiar com elle.
—Fazes bem.
—Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui?
—Pódes.
Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o Felizardo.
Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham attenuado a temperatura.
Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos, bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para a fecundação vegetal mas tambem para a belleza.
Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar. Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio.
O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas, elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas.
Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio.
Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe dessem ou não attençâo.
—Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major chegou.
Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa, raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo:
—Que é que ha, Felizardo?
O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:
—Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem comseu dotô Campo.
—Onde?
—Na estação.
—Porque?
—Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelogovernadôeseu dodô Campoé pelosenadô... Um sarcêro, patrão!
—E você, por quem é?
Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu afinal:
—Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso é bom p'r'osinhô.
—Eu sou como você, Felizardo.
—Quem me dera, meusinhô. Indatraz-antonteouvidizêque o patrão é amigo domarechá...
Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:
—Quem disse?
—Não sei, nãosinhô. Ouvi a modo dedizêlá na venda do hespanhol, tanto assim quedoutô Campo táinchado que nem sapo com a sua amizade.
—Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo!
—Quá! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrãotáé varrendo a testada.
Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano. «Conheci-o no meu emprego»—dizia o Major: Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: «Quá! o patrão é fino que nem cobra».
Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo, podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte delle.
D. Adelaide, sempre com a suamatinéecreme e saia preta, sentava-se á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a lingua do trovador.
—Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo?
Não havia meio della dizerseu. A sua educacão desenhorade outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizersenhore continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
—Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
—E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de mascara de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
—Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
—Hoje acabei uma modinha.
—Como se chama? indagou D. Adelaide.
—«Os labios da Carola».
—Bonito! Já fez a musica?
Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:
—A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço.
—Has de nol-a cantar logo.
—Pois não, Major.
Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros sahiram a passeiar no sitio. Fôra essa a unica concessão que ao amigo fizera Polycarpo, no tocante ao regimen de seus trabalhos agricolas. Levava sempre o pedaço de pão, esfarelava em migalhas no gallinheiro, para ver a atroz disputa entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquellas vidas, criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e avidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do perú, imponente, fazendo roda, a dar estouros presumpçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia Anastacio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se difficilmente e solemnemente vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os bacurinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe charfurdar-se na comida.
A avidez daquelles animaes era deveras repugnante mas os seus olhos tinham uma longa doçura bem humana que os fazia sympathicos.
Ricardo apreciava pouco aquellas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos esquecido a contemplal-as numa demorada interrogação muda. Sentavam-se a um tronco de arvore; e Quaresma olhava o céo alto emquanto Coração dos Outros contava qualquer historia.
A tarde ia adiantada, A terra já começava a amollecer, pelo fim daquelle beijo ardente e demorado do sol. Os bambús suspiravam; as cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos o Major voltou-se. Padrinho! Olga!
Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro, com as mãos presas. E vieram aquellas estupidas e tocantes phrases dos encontros satisfeitos: quando chegaste? Não esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous; Anastacio tirara o chapéo e olhava a «sinhasinha», com o o seu terno e vasio olhar de africano.
Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou:
—Que dê teu marido?
—O doutor?... Está lá dentro.
O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.
D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta noticia.
Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a mão direita o grande annelãosymbolico, o talisman, que cobria a phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito demarquise.
Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança, moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro, profundo e estrellado.
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se «Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no logar que moravam nelle—verdadeirosestrangeiros que se vinham intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranquillidade.
Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas quadrinhas: