É mais bella que Helena e Margarida,Quando sorri meneando a ventarola.Só se encontra a illusão que adoça a vidaNos labios de Carola.
É mais bella que Helena e Margarida,Quando sorri meneando a ventarola.Só se encontra a illusão que adoça a vidaNos labios de Carola.
Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a vida...
Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão facil.
O palacio tinha um ar de intimidade, de quasi relaxamento, representativo o eloquente. Não era raro ver-se pelos divans, em outras salas, ajudantes de ordens, ordenanças, continuos, cochilando, meio deitados e desabotoados. Tudo nelle era desleixo e molleza. Os cantos dos tectos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira do rua mal varrida.
Quaresma não pudera vir logo, como annunciara no telegramma. Fôra preciso por em ordem os seus negocios, arranjar quem fizesse companhia á irmã. Fizera D. Adelaide mil objecções á sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompativeis com a sua idade e superiores á sua força; elle, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensavel, necessario que toda a sua vontade, que toda a sua intelligencia, que tudo o que elle tinha de vida e actividade fosse posto á disposição do Governo, para então!... oh!
Aproveitava os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nelle expunham-se as medidas necessarias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade, das exacções fiscaes, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violencias politicas.
O Major apertava o manuscripto na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquella planicie feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes; lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e placidos que o viram partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquelle momento, era do Anastacio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquella ternura passiva de animal domestico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas orbitas as escleroticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe era commum tal attitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas signaes de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro á espera que o Presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia e Floriano tinha ainda, como signal do almoço, o palito na boca.
Falou em primeiro logar a uma commissão de senhoras que vinham offerecer o seu braço e o seu sangue em defeza das instituições e da patria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nella que uma escondia a outra, furtando toda ella a uma classificação honesta.
Emquanto falava, a mulhersinha deitava sobre o Marechal os grandes olhos que despediam chispas. Floriano parecia incommodado com aquelle chammejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquelle olhar que queimava mais seducção que patriotismo. Fugia encaral-a, abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na meza...
Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com um grosso e difficil sorriso do roceiro, declinou da offerta, visto a Republica ainda dispor de bastante força para vencer.
A ultima phrase, elle a disse com mais vagar e quasi ironicamente. As damas despediram-se; o Marechal gyrou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma: Então, Quaresma? fez elle familiarmente.
O Major ia approximar-se, mas logo estacou no logar em que estava. Uma chusma de officiaes subalternos e cadetes cercou o dictador e a sua attenção convergiu para elles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espaduas. O Marechal quasi não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossylabo, cousa que Quaresma percebia pela articulação dos labios.
Começaram a sahir. Apertavam a mão do dictador e, um delles, mais jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão molle, bateu-lhe no hombro com intimidade, e disse alto e com emphase; energia, Marechal!
Aquillo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo ceremonial da Republica, que ninguem, nem o proprio Floriano, teve a minima surpreza, ao contrario alguns até sorriram alegres por ver o califado khan, o emir, transmittir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno desabusado. Não se foram todos immediatamente. Um delles demorou-se mais a segredar cousas á suprema autoridade do paiz. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul turqueza, talim e sabre de praça de pret.
Os cadetes da Escola Militar formavam a phalange sagrada.
Tinham todos os privilegios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o dictador e abusavam dessa situação de esteio do sylla, para opprimir e vexar a cidade inteira.
Uns trapos do positivismo se tinham collado naquellas intelligencias e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a Republica, em artigo de fé, em feitiço, em idolo mexicano, em cujo altar todas as violencias e crimes eram oblatas dignas e offerendas uteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá estava...
Quaresma pôde então ver melhor a physionomia do homem que ia enfeixar em suas mãos, durante quasi um anno, tão fortes poderes, poderes de imperador Romano pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar obstaculo algum aos seus caprichos, ás suas fraquezas e vontades, nem mas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
Era vulgar e desoladora. O bigode cahido; o labio inferior pendente e molle a que se agarrava uma grandemosca; os traços flacidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse propria, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo elle era gelatinoso, parecia não ter nervos.
Não quiz o Major ver em taes signaes nada que lhe denotasse o caracter, a intelligencia e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse elle de si para si.
O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco, uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos.
Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar, pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo.
Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha das cousas governamentaes e administrativas.
Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as famosasencruzilhadas dos tal vezes, que tanto reagiram sobre a intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes homens.
Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de guerreiro extraordinario.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão, que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sembalidellasno hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsaveis.
De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens.
Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai esvaindo com a marcha da civilização.
Em virtude de insuccessos na exploração agricola de duas das suas propriedades, a sua situação particular era precaria, e não queria morrer sem deixar á familia as suas propriedades agricolas desoneradas do peso das dividas.
Honesto e probo como era, a unica esperança que lhe restava, repousava nas economias sobre os seus ordenados. Dahi lhe veiu essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensavel para conservar os rendosos logares que teve e o fez atarrachar-se tenazmente á presidencia da Republica. A hypotheca do «Brejão» e do «Duarte» foi o seu nariz de Cleopatra...
A sua preguiça, a sua tistreza de animo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado essehomem-talvezque, refractado nas necessidades mentaes e sociaes dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até enthusiasmo e fanatismo.
Esse enthusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possiveis, depois de ter elle sido ajudante general do Imperio, senador, ministro, isto após se terfabricadoá vista de todos o chrystalizado a lenda na mente de todos.
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tyrannia domestica. O bêbê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande o portar-se mal em fazer-lhe opposição, ter opiniões contrarias ás suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não ha dinheiro no Thesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais agua.
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a de violencia, não tanto por elle em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas.
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; elle com muitos homens honestas e sinceros do tempo, foram tomados pelo enthusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava aquella figura placida e triste; na reforma radical que elle ia levar organismo anniquilado da patria, que o Major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse duvidas a certos respeitos.
De certo, elle não negaria taes esperanças e a sua acção poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milhões de kilometros quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança, protecção aos fracos, assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de espera, desde que o Marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar aquelle homem pequenino, taciturno, depince-neze foi-se chegando, se approximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quasi como um terrivel segredo:
—Elles vão ver ocaboclo... O Major ha muito que o conhece?
Respondeu-lhe o Major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.
—Então, Quaresma? fez Floriano.
—Venho offerecer á V. Ex. os meus fracos prestimos.
O presidente considerou um instante aquella pequenez de homem, sorriu com difficuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por ahi a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa.
—Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
Floriano tinha essa capacidade de guardar physionomias, nomes, empregos, situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de asiatico; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a occasião para lhe falar em leis agrarias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases á nossa vida agricola. O Marechal ouviu-o distrahido, com uma dobra de aborrecimento no canto dos labios.
—Trazia á V. Ex. até este memorial...
O presidente teve um gesto de mau humor, um quasi «não me amole» e disse com preguiça a Quaresma:
—Deixa ahi...
Depositou o manuscripto sobre meza e logo o dictador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:
—Que ha, Bustamante? e o batalhão, vai?
O homem approximou-se mais, um tanto amedrontado!
—Vai bem, Marechal. Precisamos de um quartel... Se V. Ex. desse ordem...
—É exacto. Fala ao Rufino em meu nome que elle póde arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete.
Rasgou um pedaço de uma das primeiras paginas do manuscripto de Quaresma, e assim mesmo, sobre aquella ponta de papel, a lapiz azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da guerra. Ao acabar é que deu com a desconsideração:
—Ora! Quaresma! rasguei o teu escripto... Não faz mal... Era a parte de cima, não tinha nada escripto.
O Major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:
—Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
—Eu! foz Quaresma estupidamente.
—Bem. Vocês lá se entendam.
Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamaraty. Até á rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia não ter soffrido alteração apreciavel. Havia a mesma agitação de bondes, carros e carroças; mas nas physionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo ameaçava, todos e parecia estar suspenso no ar.
Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel, velho amigo do Marechal, seu companheiro no Paraguay.
—Mas nós nos conhecemos! exclamou elle.
Quaresma esteve olhando aquelle velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tel-o já encontrado algum dia.
—Não me recordo... Donde?
—Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
Polycarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão patriotico «Cruzeiro do Sul».
—O Sr. quer fazer parte?
—Pois não, fez Quaresma.
—Estamos em difficuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despezas devemos auxiliar o Governo... Não convém sangrar o Thesouro, não acha?
—Certamente, disse com enthusiasmo Quaresma.
—Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos officiaes, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O senhor é major, não é?
Quaresma então explicou por que o tratavam por Major. Um amigo, influencia no Ministerio do Interior, lhe tinha mettido o nome numa lista de guardas nacionaes, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado Major, e a cousa pegou. A principio, protestou, mas como teimassem deixou.
—Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo Major.
—Qual é a minha quota?
—Quatrocentos mil réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita?
—Pois não.
Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha do lapiz e despediu-se jovialmente.
—Então, Major, ás seis, no quartel provisorio.
A conversa se havia passado na esquina da rua Larga com o Campo de Sant'Anna. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando em quando ou via-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do Quartel General sahia uma força, armas ao hombro, bayonetas caladas, dansando nos hombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e máu.
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o secco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde attingisse á rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de suppor-se em tempos normaes.
Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no hombro. Voltou-se.
—Oh! General!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimonias e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquelle seu uniforme mal tratado; não trazia espada e opince-nezcontinuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detraz da orelha esquerda.
—Então vem ver a cousa?
—Vim. Já me apresentei ao Marechal.
—Ellesvão ver com quem se metteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A Republica, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... Ocabocloé de ferro... No Paraguay...
—O Sr. conheceu-o lá, não, General?
—Isto é... Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como encarregado das munições... É fino ocaboclo; não me quiz no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no deposito, não me sai um caixote que eu não examine... É necessario... No Paraguay, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita cal por polvora—não sabia?
—Não.
Pois foi. O meu gasto era ir para as praias, para o combate: mas ohomemquer que eu fique com as munições... Capitão manda marinheiro faz... Elle sabe lá...
Deu de hombros, concertou o trancelim que já cahia da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou:
—Como vai a familia?
—Bem. Sabe que Quinota casou-se?
—Sabia, o Ricardo me disse. E D. Ismenia, como vai?
A physionomia do General toldou-se e respondeu como a contragosto:
—Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de estatua, numa atonia de inanimado, como que cahira em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria á mãe, dizendo: «Aprompta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento». Outras vezes recortava papel, em forma de participações, e escrevia: Ismenia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu casamento.
O General já consultara uma duzia de medicos, o espiritismo e agora andava ás voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espirito naquella obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não attingira, aniquilando-se, porém, o seu espirito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquella casa outr'ora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuido: e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principaes, a moça, com todos os cuidados, á custa de todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, e lá ficava, emquanto as outras dansavam, um instante esquecidas da irmã que soffria.
Albernaz não quis revelar aquella dôr de sua velhice: reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquelle seu tom familiar e intimo que usava com todos:
—Isto é uma infamia, Sr. Quaresma. Que atrazo para o paiz! E os prejuizos? Um porto destes fechado ao commercio nacional, quantos annos de retardamento não representa!
O Major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossivel a reproducção de levantes e insurreições.
—De certo, adduziu o General. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que mau effeito!
O bonde chegara ao largo de S. Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao largo da Carioca e Albernaz seguiu para a rua do Rosario.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquella alegria expansiva de sempre. Não foi indifferença que sentiu, foi espanto, assombro, quasi modo, embora soubesse perfeitamente que elle estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na physionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo elle. Era o mesmo homem baixo, pallido, com aquelle cavaignac apontado e o olhar agudo por detraz dopince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o geito de apertar os labios era o mesmo que ella conhecia ha tantos annos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impellido, empurrado por uma força extranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que lhe entrara naturalmente, com o seu passo meudo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirava sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se fazia annunciar; ia entrando conforme o velho habito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada:
—Papae saiu; e o Armando está lá em baixo escrevendo.
De facto, elle estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para oclassicoum grande artigo sobre «Ferimentos por arma de fogo». O seu ultimotrucintellectual era este do classico. Buscava nisto uma distincção, uma separação intellectual desses meninos por ahi que escrevem contos e romances nos jornaes. Elle, um sabio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que elles. A sua sabedoria superior e o seu tituloacademiconão podia usar da mesma lingua, dos mesmos modismos, da mesma syntaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéa do classico. O processo era simples: escrevia do modo commum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o periodo com virgulas e substituiaincomodarpormolestar, aoredorporderredor,istoporesto,quão grandeoutão grandeporquammanho, sarapintava tudo deao invez,empós, e assim obtinha o seu estylo classico que começava a causar admiração aos seus pares e ao publico em geral.
Gostava muito da expressão—ás rebatinhas; usava-a a todo o momento e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estylo uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-sephysico, tratado de mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e qual o Dr. Sangrado.
A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente classico paraorificio, julgou util a interrupção. Queria pôrburaco, mas era plebeu;orificio, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre autoridade.
Dizia ella:
—Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes?
O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar:
—Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo.
Quaresma acrescentou:
—É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas...
—Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias?
—Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve duvidas e foi logo dizendo:
—Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pinaculo da escala zoologica iremos buscar normas de vida entre insectos?
—Não, é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos delles a certeza da generalidade do phenomeno, da sua immanencia, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Elle não tinha acabado a explicação e já Olga reflectia:
—Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade—vá; mas não; de que vale?
—Ha de trazer, affirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidal-a.
Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequenolunche Quaresma saiu.
Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa, a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, osjacobinos, a guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo o portuguez, o que não impedia de haver jornaesjacobinissimosredigidos por portuguezes da mais bella agua.
A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo.
Quaresma jantou numrestaurante dirigiu-se ao quartel, que funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene, lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada. A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo, já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa:hom—brô... armas!
O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento.
Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro estrellas prateadas, em cruz, na góla.
Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
—É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel? continuou ele com interesse e piedade.
Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum tempo:
—Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde.
Os soldados subiram com ovoluntarioe Ricardo logo que deu com o major, suplicou-lhe:
—Salve-me major!
Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo.
Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:
—Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
—Restituam o violão ao cabo Ricardo!
Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra, mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas, os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do Styge...
Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios...
Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias respiram aliviadas...
Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo: é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.
Os ruidos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da terra ou são allucinações auditivas. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes intervallos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro a areia da praia, suja de bodelhas, algas e sargaços.
Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia. Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos o céo atravez do nevoeiro que lhes humedece o rosto.
O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle á cintura e gorro á cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sósinho, e olha aquella manhã angustiosa.
Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ella faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, elle só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes; aquelle amanhecer brumoso e feio, era uma novidade para elle.
Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquella vida solta da caserna vai-lhe bem n'alma: o violão está lá dentro e, em horas de folga, elle o experimenta, cantarolando em voz baixa. É preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não poder, de quando em quando, soltar o peito.
O commandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
O Major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu estudo predilecto é agora artilharia. Comprou compendios; mas, como sua instrucção é insufficiente, da artilharia vai á balistica, da balistica á mecanica, da mecanica ao calculo e á geometria analytica; desce mais a escada; vai á trigonometria, á geometria e á algebra e á arithmetica. Elle percorre essa cadeia de sciencias entrelaçadas com uma fé de inventor. Aprende uma noção elementarissima após um rosario de consultas, de compendio em compendio; e leva assim aquelles dias de ocio guerreiro enfronhado na mathematica, nessa mathematica rebarbativa e hostil aos cerebros que já não são mais moços.
Ha no destacamento um canhão Krupp, mas elle nada tem a ver com o mortifero apparelho: comtudo, estuda artilharia. É encarregado delle o Tenente Fontes, que não dá obediencia alguma ao patriota Major. Quaresma não se incommoda com isso; vai aprendendo lentamente a servir-se da boca de fogo e submete-se á arrogancia do subalterno.
O Commandante do «Cruzeiro do Sul», o Bustamante da barba mosaica, continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão, A unidade tem poucos officiaes e muito poucas praças; mas o Estado paga o pret de quatrocentas. Ha falta de capitães, o numero de alferes está justo, o de tenentes quasi, más já ha um major, que é Quaresma, e o commandante, Bustamante, que por modestia, se fez simplesmente Tenente-Coronel.
Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma commanda, tres alferes, dous tenentes; mas os officiaes pouco apparecem. Estão doentes ou licenciados e só elle, o antigo agricultor do «Socego», e um alferes, Polydoro, este mesmo só á noite, estão a postos. Um soldado entrou:
—Sr. Commandante, posso ir almoçar?
—Póde. Chama-me o cabo Ricardo.
A praça sahiu capengando em cima de grandes botinas: o pobre homem usava aquella peça protectora como um castigo. Assim que se viu no matto, que levava á casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade.
O commandante chegou á janella. A cerração se ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco.
Ricardo Coração dos Outros appareceu. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. A blusa era curtissima, sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente: e as calças eram compridissimas e arrastavam no chão.
—Como vaes Ricardo?
—Bem. E o Sr. Major?
—Assim.
Quaresma deitou sobre o inferior e amigo, aquelle seu olhar agudo e demorado:
—Andas aborrecido, não é?
O trovador sentiu-se alegre com o interesse do commandante:
—Não... Para que dizer, Major, que sim... Se a cousa for assim até ao fim, não é mau... O diabo é quando ha tiro... Uma cousa, Major; não se poderia, assim, ahi pelas horas em que não ha que fazer, ir nas mangueiras, cantar um pouco...
O Major coçou a cabeça, alisou o cavaignac e disse:
—Eu, não sei... É..
—O Sr. sabe que isso de cantar baixo é remar em secco... Dizem que no Paraguay...
—Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o Major recommendou:
—Manda-me trazer o almoço.
Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro tambem dormir. As refeições eram-lhe fornecidas por umfregeproximo e elle dormia em um quarto daquella edificação imperial. Porque a casa em que se acantonara o destacamento, era o pavilhão do Imperador, situado na antiga Quinta da Ponta do Cajú. Ficavam nella tambem a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta serraria. Quaresma veiu até á porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o Imperador a quizesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
As formas das cousas sahiam modeladas do seio daquella massa de nevoa pesada; e, satisfeitas, como se o pesadello tivesse passado. Primeiro surgiam as partes baixas, lentamente: e por fim, quasi repentinamente, as altas.
Á direita, havia a Saude, a Gamboa, os navios de commercio: galeras de tres mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos á vela—que iam sahindo da bruma, e, por instantes aquillo tudo tinha um ar de paysagem hollandeza, á esquerda, era o sacco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Orgãos Azues, altos de tocar no céo; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depositos de carvão; e, alongando a vista pelo mar socegado, Nictheroy, cujas montanhas acabavam de recortar-se no céo azul, á luz daquella manhã atrazada.
A neblina foi se e um gallo cantou. Era como se a alegria voltasse á terra: era uma alleluia. Aquelles chiados, aquelles apitos, os guinchos tinham um accento festivo de contentamento.
Chegou o almoço e o sargento veiu dizer a Quaresma que havia duas deserções.
—Mais duas? fez admirado o Major.
—Sim, senhor. O 125 e o 320 não responderam hoje a revista.
—Faça a parte.
Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quasi nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as cousas como iam.
Uma madrugada, elle não estava. A treva ainda era profunda. O soldado de vigia viu lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as aguas do mar. Não trazia luz alguma; só o movimento daquella mancha escura, revelava uma embarcação, e tambem a ligeira phosphorescencia das aguas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento poz-se a postos e Quaresma appareceu.
—O canhão! Já! Avante! ordenou o commandante.
E, em seguida, nervoso, recommendou:
—Esperem um pouco.
Correu á casa e foi consultar os seus compendios e tabellas. Demorou-se e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um delles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
Quaresma reappareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar:
—Viram bem... a distancia... a alça... o angulo... É preciso ter sempre em vista a efficiencia do fogo.
Fontes veiu e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
—Ora, Major, você pensa que está em um polygno, fazendo estudos praticos... Fogo para diante!
E assim era. Quasi todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os fortes, sahiam incolumes de tão terriveis armas.
Lá vinha uma occasião, porém, que acertavam, então os jornaes noticiavam: «Hontem, o forte Academico, fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, metteu uma bala no «Guanabara». No dia seguinte, o mesmo jornal rectificava, a pedido da bateria do cáes Pharoux que era a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida, quando apparecia uma carta de Nictheroy, reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça sabia por entre os fiapos da palha, como as guellas de um animal feroz occulto entre hervas.
Olhava o horizonte, depois de exame attento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:
Prometto pelo Santissimo Sacramento...
Prometto pelo Santissimo Sacramento...
Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este lindissimo quadro: á sombra de uma grande arvore, os soldados deitados ou sentados em circulo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que entoava endeixas magoadas.
As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do joven official.
—Que é isto? disse elle severamente.
Os soldados levantaram-se todos, em continencia; e Ricardo, com a mão direita no gorro, perfilada, e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão, desculpou-se:
—SeuTenente, foi o Major quem permittiu, V. S. sabe que se nós não tivéssemos ordem, não iriamos brincar.
—Bem. Não quero mais isto, disse o official.
—Mas, objectou Ricardo, o Sr. Major Quaresma...
—Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do Major do «Cruzeiro do Sul». Quaresma continuava no seu estudo, um rolar de Sysipho, mas voluntario, para a grandeza da patria. Fontes foi entrando e dizendo:
—Que é isto,seuQuaresma! Então o senhor permitte cantorias no destacamento?
O Major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e rispido do moço. Elle repetiu:
—Então o senhor permitte que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço?
—Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
—E a disciplina? e o respeito?
—Bem, vou prohibir, disse Quaresma.
—Não é preciso. Já prohibi.
Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:
—Fez bem.
Em seguida perguntou ao official o modo de extrahir a raiz quadrada de uma fracção decimal; o rapaz ensinou-lhe e elles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e esperava acabar a revolta para effectuar o casamento. Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino facto familiar a que estavam ligados aquelles estrondos, aquelles tiros, aquella solemne disputa entre duas ambições. Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metallica. Fontes assestou o ouvido; o Major perguntou:
—Que toque é?
—Sentido.
Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: Queimou!—gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou!
E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer, chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo.
Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro: «queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos costumes da cidade.
No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes, engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou guloseima.
As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados, polidos, lixados, ornavam consolos, osdunkerquesdas casas médias; as grandes, osmelõese asaboboras, como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou estatuas.
A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito pesada, gritavam queimou!
Houve um em Nictheroy que teve o seu quarto de hora de celebridade. Chamavam-n'otrinta réis; os jornaes do tempo occuparam-se com elle, fizeram-se subscripções a seu favor. Um heroi! Passou a revolta e foi esquecido, tanto elle como a «Lucy», uma lancha que chegou a fazer-se entidade na imaginação daurbs, a interessal-a, a criar inimigos e admiradores.
A embarcação deixou de provocar a furia do posto do Cajú, e Fontes deu instrucções ao seu chefe da peça, e foi-se embora.
Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. Os mais dias que passou naquelle extremo da cidade não eram differentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra cahia na banalidade da repetição dos mesmos episodios.
A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, sahia. Descia a cidade e deixava o posto entregue a Polydoro ou a Fontes, se estava.
Raras vezes o fazia, de dia, porque Polydoro, o mais assiduo, marcineiro de profissão e em actividade numa fabrica de moveis, só vinha á noite.
No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o Governo pagava soldos dobrados, e, ás vezes, gratificações, além do que havia tambem a morte sempre presente; e tudo isso estimulava o divertir-se. Os theatros eram frequentados e osrestaurantsnocturnos tambem.
Quaresma, porém, não se mettia naquelle ruido de praça semi-sitiada. Ia ás vezes ao theatro, á paisana, e, logo acabado o espectaculo, voltava para o quarto da cidade ou para o posto.
Em outras tardes, logo que Polydoro chegava, sahia a pé, pelas ruas dos arredores, pelas praias até ao campo de São Christovão.
Ia vendo aquella successão de cemiterios, com as suas campas alvas que sobem montanhas, como carneiros tosqueados e limpos a pastar; aquelles cyprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que aquella parte da cidade era feudo e senhorio da morte.
As casas tinham um aspecto funebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lugubre.
A paysagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer sentir nella tão forte aspecto funereo.
Foi vindo ate ao Campo; ahi deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residencia do General Albernaz. Devia-lhe aquella visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de jantar e jantara com o General, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o commandante de Quaresma, o Tenente Coronel Innocencio Bustamante.
Bustamante era um commandante activo, mas dentro do quartel. Não havia quem como elle se interessasse pelos livros, pela boa calligraphia, com que eram escriptos os livros mestres, as relações de mostra, os mappas de companhia e outros documentos. Com auxilio delles, a organização do seu batalhão era irreprehensivel; e, para não deixar de vigiar a escripturação, apparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo.
Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, elle logo perguntou ao Major:
—Quantas deserções?
—Até hoje, nove, disse Quaresma.
Bustamante coçou a cabeça desesperado e reflectiu:
—Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
—Fazem muito bem... Ora! disse o Almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o Governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia Vice-Almirante. É verdade que o Governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, elle não commandaria nem uma divisão. Uma inquidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por não ter nunca commandado, nessa materia elle podia despender toda uma energia moça.
—O Almirante não deve falar assim... A patria está logo abaixo da humanidade.
Meu caro Tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
—Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.
—Que tenho eu com elles? fez agastado Caldas.
Bustamante, o General e Quaresma assistiam a pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a furia de Caldas, que não se cansava de dansar a perna e alizar os longos favoritos brancos. O Tenente respondeu:
—Muito, Almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de felicidade e elevação moral.
—Nunca houve e nunca haverá! disse de um jacto Caldas.
—Eu tambem penso assim, accrescentou Albernaz.
—Isto ha de sempre ser o mesmo, adduziu scepticamente Bustamante.
O Major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquellas contestações, ao contrario dos seus congeneres da seita, não se agastou. Elle era magro e chupado, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nazal, agitando a mão direita no geito favorito dos sermonarios, depois de ouvir todos, falou com uncção:
—Houve já um esboço: a idade média.
Ninguem ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia historia do Brasil e os outros nenhuma.
E a sua affirmação fez calar todos, embora no intimo duvidosos. É uma curiosa idade média, essa de elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que anno? Se a gente diz: no tempo de Clotario, elle proprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Chrame mais a mulher deste e filhos—o positivista, objecta: ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. S. Luís, diremos logo nós, quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar tres crianças que tinham morto um coelho nas suas mattas. Objecta o fiel: Você não sabe que a nossa idade media vai até o apparecimento da Divina Comedia? S. Luís já era a decadencia... Citam-se as epidemias de molestias nervosas, a miseria dos camponios, as ladroagens á mão armada dos barões, as allucinações do milenio, as crueis matanças que Carlos Magno fez aos saxões; elles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que elle já tinha desapparecido.
Nada disso foi objectado ao positivista e a conversa, resvalou para a revolta. O Almirante criticava severamente o Governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros á toa; na sua opinião, já devia ter feito todo o esforço para occupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue. Bustamante não tinha opinião assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma improficuidade patente. Albernaz, ainda não tinha dado o seu aviso, e veiu a fazel-o assim:
—Mas nós reconhecemos Humaytá, e por pouco!
—Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturaes eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inutil... O Sr. sabe, esteve lá!
—Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão disse-me que foi arriscado.
Quaresma voltara ao silencio. Elle procurava ver Ismenia. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e o Major se sentia por qualquer cousa preso á molestia da moça. Viu todos: D. Maricota, sempre activa e diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa interminavel, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala de visitas á sala de jantar onde elle estava. Porfim, não se conteve, perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia peor, cada vez mais abysmada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O General contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquella sua desgraça intima, disse com um longo suspiro:
—Não sei, Quaresma... Não sei.
Eram dez horas quando o Major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta do Cajú. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da perturbação, especial que põe em nós o luar que estava lindo, terno e leitoso, naquella noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de deliquio; parece que nos tiram o envoltorio material e ficamos só alma, envolvidos numa branda athmosphera de sonhos e chimeras. O Major não colhia bem a sensação transcendente, mas soffria sem perceber o effeito da luz pallida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não por somno, mas em virtude daquella doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos.
Dentro em pouco Ricardo veiu chamal-o: o Marechal estava ahi. Era seu habito sahir á noite, ás vezes, de madrugada, e ir de posto em posto. O facto se espalhou pelo publico que o apreciava extraordinariamente, e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista consumado.
Quaresma veiu ao seu encontro. Floriano vestia chapéo de feltro molle, abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de familia em aventuras extra-conjugaes.
O Maior cumprimentou-o e esteve a dar-lhe noticias do ataque que fora feito ao seu posto, ha dias passados. O Marechal respondia por monosyllabos preguiçosos e olhava ao redor. Quasi ao despedir-se, falou mais, dizendo vagarosamente, lentamente:
—Hei de mandar pôr um holophote aqui.
Quaresma veiu acompanhal-o até ao bonde. Atravessavam o velho sitio de recreio dos Imperadores. Um pouco afastada da estação uma locomotiva, semi-accesa, resfolegava. Semelhava roncar, dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, socegados como que dormiam. As annosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava magnifico. Os dous andavam, o marechal perguntou:
—Quantos homens tem você?
—Quarenta.
O Marechal mastigou um:não é muito; e voltou ao mutismo. Num dado momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe mais sympatica a do dictador. Se lhe falasse...
Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronuncial-a. Continuaram a andar. O Major pensou; que é que tem? não ha desrespeito algum. Approximavam-se do portão. Num dado momento como que houve uma bulha atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quasi não o fez.
Os edificios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco luar. O Major continuou a mastigar a sua pergunta; urgia, era indispensavel; o portão estava a dous passos. Tomou coragem, ousou e falou:
—V. Ex. já leu o meu memorial, Marechal?
Floriano respondeu lentamente, quasi sem levantar o labio inferior pendente:
—Li.
Quaresma enthusiasmou-se:
—Vê V. Ex. como é facil erguer este paiz. Desde que se cortem todos aquelles empecilhos que eu apontei, no memorial que V. Ex. teve a bondade de ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptavel ás condições do paiz, V. Ex. verá que tudo isto muda, que, em vez de tributarios, ficaremos com a nossa independencia feita... Se V. Ex. quisesse...
Á proporção que falava, mais Quaresma se enthusiasmava. Elle não podia ver bem a physionomia do dictador, encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéo de feltro; mas, se a visse, teria de esfriar, pois havia na sua mascara sinaes do aborrecimento mais mortal. Aquelle falatorio de Quaresma, aquelle apelo á legislação, a medidas governamentaes, iam mover-lhe o pensamento, por mais que não quizesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
—Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não havia exercito que chegasse...
Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
—Mas, mão é isso, Marechal. V. Ex. com o seu prestigio e poder, está capaz de favorecer, com medidas energicas e adequadas, o apparecimento de iniciativas, de encaminhar o trabalho, de favorecel-o e tornal-o remunerador... Bastava, por exemplo...
Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava lindo, plastico e opalescente. Um grande edificio inacabado que havia na rua, parecia terminado, com vidraças e portas feitas com a luz da lua. Era um palacio de sonho.
Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; elle se despediu do Major, dizendo com aquella sua placidez de voz:
—Você, Quaresma, é um visionario...
O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava physionomia ás cousas, fazia nascer soalhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz emprestada...
—Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não ha meio!
—Já a levou a um medico especialista?
—Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma!
E os olhos do velho se orvalhavam por baixo dopince-nez. Os dous se haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes, como cotos de azas. Albernaz reatou:
—E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e defumações... Eu não sei. Quaresma!
E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se demorou, porém, muito nessa postura; opince-neznão permittia, já começava a cahir.
Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:
—Por que não a recolhe a uma casa de saude, General?
—Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, no estado em que a menina está, não vale a pena...
Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum, vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a passos largos para o abraço frio da morte.
Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.
Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha.
Ás vezes até levava-os em casa. Os mediuns chegavam perto da moça, davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos, gritavam: sai, irmão!—e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre ella os fluidos milagrosos.
Os feiticeiros tinham outros passes e as ceremonias para entrar no conhecimento das forças occultas que nos cercam, eram demoradas, lentas e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, accendiam um fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa exquisita, batiam com feixes de hervas, ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras inintelligiveis. O ritual era complicado e tinha a sua demora.
Na sahida, a pobre D. Maricota, um tanto já diminuida da sua actividade e diligencia, olhando, ternamente aquelle grande rosto negro do mandigueiro, onde a barba branca punha mais veneração e certa grandeza, perguntava:
—Então, titio?
O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as ultimas communicações do que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua magestade de africano:
—Vó vê, nhã nhã... Tô crôtando mandinga...
Ella e o General tinham assistido a ceremonia e o amor de paes e tambem esse fundo de superstição que ha em todos nós, levavam a olhal-a com respeito, quasi com fé.
—Então foi feitiço que fizeram á minha filha? perguntava a senhora.
—Foi, sim, nhãnhã.
—Quem?
—Santo não qué dizê.
E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles dous corações uma esperança fugaz.
Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses—e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á legendaria maneira do Christo dos Evangelios...
A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as existencias fora e acima da nossa.
Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem piedade e commiseração.
O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:
—General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico?
—Quem é?
—É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe lá! Não acha? Póde ser, não é?
O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando.
A revolta já tinha mais de quatro mezes de vida e as vantagens do Governo eram problematicas. No Sul, a insurreição chegava ás portas de S. Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas paginas dignas e limpas de todo aquelle enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violencias de apavorado e soube tornar verdade a gasta phrase grandiloquente: resistir até á morte.
A ilha do Governador tinha sido occupada e Magé tomado, os revoltosos, porém, tinham a vasta bahia e a barra apertada, por onde sahiam e entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.
As violencias, os crimes que tinham assignalado esses dous marcos de actividade guerreira do Governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e elle soffria.
Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de moveis, roupas e outros haveres. O que não podia ser transportado, era destruido pelo fogo e pelo machado.
A occupação deixou lá a mais execranda memoria, e até hoje os seus habitantes ainda se recordam dolorosamente de um Capitão, patriotico ou da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e insoffrido gosto pelo saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe, e o Capitão chamava o pobre homem:
—Venha cá!
O homem approximava-se amedrontado e Ortiz perguntava.
—Quanto quer por isso?
—Tres mil réis, capitão.
Elle sorria diabolicamente e familiarmente regateava:
—Você não deixa por menos... Está caro... Isso é peixe ordinario... Carapebas! Ora!
—Bem, Capitão, vá lá por dous e quinhentos.
—Leve isso lá dentro.
Elle falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em pé, demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho:
—Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.
Entretanto, Moreira Cesar deixou boas recordações de e ainda hoje ha lá quem se lembre delle, agradecido por este ou aquelle beneficio que o famoso Coronel lhe prestou.
As forças revoltosas parceiam não ter enfraquecido; tinham, porém, perdido dous navios, sendo um destes o «Javary», cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra detestavam-n'o particularmente. Era um monitor, chato, razo com a agua, uma especie de saurio ou chelonio de ferro, de construcção franceza. A sua artilharia era temida; o que sobremodo enraivecia os adversarios, era elle não ter quasi borda acima d'agua, ficar quasi ao nivel do mar e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas machinas não funccionavam, e a grande tartaruga vinha collocar-se em posição de combate com auxilio de um rebocador.