Chapter 8

—Talvez seu marido, disse Ricardo.

Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caracter do esposo; mas, em breve, viu bem que o seu egoismo, a sua ambição e a sua ferocidade interesseira não pemittiriam que elle désse o minimo passo.

—Qual, esse...

Ricardo não sabia o que aconselhal-a e olhava sem pensamento os moveis e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. Queria encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!

A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabellos negros e a olhar a mesa em que repousavam os seus cotovellos. O silencio era augusto.

Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:

—Se a senhora fosse lá...

Ella levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram, de espanto e o rosto lhe ficou rigido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza:

—Vou.

Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.

Elle então pensou com admiração naquella moça que por simples amizade se dava a tão arriscado sacrificio, que tinha a alma tão ao alcance della mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo, deste nosso egoismo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de reconhecimento.

Não tardou que ella ficasse prompta e ainda abotoava as luvas, na sala de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direito á mulher:

—Vaes sahir?

Ella, afogueada pela ancia desesperada de salvar Quaresma, disse com certa vivacidade:

—Vou.

Armando ficou admirado de vel-a falar daquelle modo. Voltou-se um instante para Ricardo, quiz interrogal-o, mas logo, dirigindo-se á mulher, perguntou com autoridade:

—Onde vaes?

A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o trovador:

—Que faz o senhor aqui?

Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se:

—Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho. Já sabe?

O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Falou docemente:

—Fazes mal.

—Porque? perguntou ella com calor.

—Vaes comprometter-me. Sabes que...

Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um pouco e disse:

—É isto!Eu, porqueeu, porqueeu, é sóeupara aqui,eupara ali... Não pensas noutra coisa... A vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu (agora digoeutambem) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho relações, não tenho amizades, não tenho caracter? Ora!...

Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos. Então aquella menina? Então aquellebibelot? Quem lhe teria ensinado taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho:

—Estás no theatro?

Ella lhe respondeu logo:

—Se é só no theatro que ha grandes cousas, estou.

E accrescentou com força:

—É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do meu direito.

Apanhou a sombrinha, concertou o véo e sahiu solemne, firme, alta e nobre. O marido não sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sahir pela porta fóra.

Em breve, estava no palacio da rua Larga. Ricardo não entrou; deixou que a moça o fizesse e foi esperal-a no Campo de Sant'Anna.

Ella subiu. Havia um immenso borborinho, uma agitação de entradas e sahidas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria cumprimental-o, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus serviços, mostrando-se coparticipante na sua victoria. Lançavam mão de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O dictador tão accessivel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e elle já tinha nojo de tanta subserviencia. O califa não se suppunha sagrado e aborrecia-se.

Olga falou aos continuos, pedindo ser recebida pelo Marechal. Foi inutil. A muito custo conseguiu falar a um secretario ou ajudante de ordens. Quando ella lhe disse a que vinha, a physionomia terrosa do homem tornou-se de óca e sob as suas palpebras correu um firme e rapido lampejo de espada:

—Quem, Quaresma? disse elle. Um traidor! Um bandido!

Depois, arrependeu-se da vehemencia, fez com certa delicadeza:

—Não é possivel, minha senhora. O Marechal não a attenderá.

Ella nem lhe esperou o fim da phrase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe as costas e teve vergonha de ter de pedir, de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal gente, era melhor tel-o deixado morrer só e heroicamente num ilhéo qualquer, mas levando para o tumulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a macula de um empenho que diminuisse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos seus algozes que elles tinham direito de matal-o.

Sahiu e andou. Olhou o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribus selvagens, das quaes um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fôra ha quatro seculos. Olhou de novo o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo... Tinha havido grandes e innumeras modificações. Que fôra aquelle parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na physionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ella; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

Todos os Santos (Rio de Janeiro), Janeiro—Março de 1911.


Back to IndexNext