«......e bem se manifesta,Que são grandes as cousas, e excellentes,Que o mundo encobre aos homens imprudentes.(Camões--Lusíadas.)
«......e bem se manifesta,Que são grandes as cousas, e excellentes,Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
(Camões--Lusíadas.)
D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.
Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».
A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que nãofosse Arthur Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:
«Meu presado irmão adoptivo:
«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha carta. Leopoldo está ausente, como sabe, enósesperamos o snr. Arthurcom a maior anciedade.
Anna.»
Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio, sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.
Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.
As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam soffrido desastres, sendo, o mais notavel, aincomprehensivel desgraçade Torres Vedras;13mas as activas e energicas providencias dos homensdo governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados, por cada batalha que se perdia!
E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões avultadas,que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em poder do inimigo.14
O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi escolhido um official para commandar uma força, que fosse em conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente guarnecidas em fórma.
Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas,e foram atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando. Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os.
Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a que os proprios camaradas dão o epitheto infamante depulhas, despojou logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que a encontrára perdida no logar da refrega...
Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...
Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com desespêro a sorte do bondoso e bravo official.
13Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e depois anniquilada por umaincomprehensivel desgraça; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa coragem!»14Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.
13Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e depois anniquilada por umaincomprehensivel desgraça; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa coragem!»
14Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.
«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era o seu maximo supplicio.»(Camillo Castello Branco.Mysterios de Fafe.)
«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era o seu maximo supplicio.»
(Camillo Castello Branco.Mysterios de Fafe.)
D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá viessem todos ter com elle a Guimarães.
A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita, os brandos meios da persuasão para o dissuadir daeffectividade de um enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse força para resistir á vontade paterna.
Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no modo de fazer-lhe a vontade.
Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez, como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do começo d'uma alienação mental.
Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.
Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e expondo ao ar a sua abrazada cabeça.
Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus crimes.
No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, para que esta ficasse junto da filha.
Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um incontestavel documento de adulterio,as feições do dementado assumiram as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou terrivelmente:
«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»
E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna, apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...
A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da suprema agonia, e cerrar os olhos.
Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais terrivel que o desespêro,aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:
--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o prolongamento da vida que tens a viver!...
E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.
O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.
O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe com brandura:
--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e vingador!
Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota, e tartamudeou:
--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor... Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um duello com o meurival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!... Perdão!...
--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...
Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!...
FIM DA SEGUNDA PARTE
«Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem derramado sobre a terra...(S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).
«Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem derramado sobre a terra...
(S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).
Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,Depois solta a prelenda.(Filinto Elysio--Apologo)
Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,Depois solta a prelenda.
(Filinto Elysio--Apologo)
É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas a compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas reconhecidas; mas é grande o numero das que sabem calcular o provento, mais ou menos proximo, de suas generosidades.
O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que chamaremos, por antonomasia, overme do coração.
Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das suas acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor,o homem gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os muitas vezes....................................................
................................................................
Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio consentimento de sua mãe, e que dizia assim:
«Exc.mae respeitavel senhora:
«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.aem seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.maSnr.aD. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.mairmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu, accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura; podendo V. Exc.aficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que, finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae dirigida á snr.aD. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse parar ás mãosd'alguem, que, por má interpretação, tenha ficado com suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta interceptada.
«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de recolhimento ao ferido.
«É de V. Exc.am.oatt.ov.ore cr.o
«O tenente da 2.acomp.ade voluntarios do Minho.»
Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha, perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe.
--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?
--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza, livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os impulsos do coração sem constrangimento nem temôr...
--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres sacrificar-te?!...
--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur, sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado, gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação, porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...
--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas, filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu amor... Meu primo já sabe d'esse facto?
--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe occultasse.
--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com Arthur. Teu pae é um fidalgoexcessivamente orgulhoso da sua raça, bem sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as acções que ennobrecem quem as pratica.
--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.
--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.
--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento, não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça... Vamos já ao quarto da Anna...
--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega, que Deus tudo fará por melhor.
Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa esposa.
As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D. Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se doleito, fitou-o com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver, pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo, apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um tremor violento se apoderou d'ella...
D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando, simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a filha.
Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.
O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados, procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado amante!
Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:
--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tuvaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»
Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam ambas repentinamente.
Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto, quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.
Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam já acompanhados do padre Alvaro e do medico.
«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S. Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do duque de Bragança.»(Chronica do seculo xv.)
«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S. Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do duque de Bragança.»
(Chronica do seculo xv.)
Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura doextremosomarido.
Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da justiça, e a deshonraque o facto, commentado pelos ociosos, traria a todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo Sebastião da Mesquita.
Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de tudo remediar, e assim o fez.
O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos leitores.
Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e de se evitarem, no enterro, todas as pompas.
Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente guardado por um dos romeiros.
Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza a encobrir o crime.
D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança, que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito.A donzella tinha n'alma a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.
No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para concentrar a sua cólera.
Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:
--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general...
E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.
--Este homem está effectivamente louco?!...
--Está, sim, snr.aD. Maria da Gloria...
--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...
--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua vingança,senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...
--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado... Quero vingar a minha querida Anna...
--Desconheço-a, snr.aD. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V. Exc.atirar, no estado d'aquelle infeliz?!...
--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulherde raçaquando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado, se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria terror, não me dominando a ideia de vingança...
--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.mopae?...
--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.
--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o que Deus não quer...
--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...
Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D. Anna e da loucura de Leopoldo.
«Se de imitar meu nome te gloreias,As façanhas me imita,Ou na Patria Nação, ou nas alheias,O meu valor te incita:Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,Se morar quéres, n'este honrado templo.»(Filinto Elysio.)
«Se de imitar meu nome te gloreias,As façanhas me imita,Ou na Patria Nação, ou nas alheias,O meu valor te incita:Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,Se morar quéres, n'este honrado templo.»
(Filinto Elysio.)
Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo.
Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido, cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios cuidados ao seu assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia.
D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que visitaramseu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.
Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma filha dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de filha, em altos gritos, e até procurada pelo infeliz, com a pertinacia da loucura.
Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de vida; conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o predispozéra para este dialogo:
--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me que lhe falle do nosso Arthur...
--V. exc.aassusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa má do seu afilhado?...
--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas tambem sei que o padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças superiores ao commum dos homens...
--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer deimpaciencia!... Que desgraça pésa sobre meu filho?!...
--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães, uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado n'um recontro com as tropas da rainha...
Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo, vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!
Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera.
--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a este peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo eram ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao Porto com vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v. exc.aesta revelação do meu criminoso passado...
--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...
--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.aD. Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.afez mal em dar entrada ao sentimento que nutre por elle...
--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e eu amo-o!...
--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.aquanto elle é orgulhoso da sua raça?!...
--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...
--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de encontro á vontade paterna...
--Quer, então, a minha morte?...
--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu filho. Se V. Exc.asoffresse a maldição paterna, não haveria posição que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora, e que dentro em pouco será pasto dos vermes...
--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...
--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.aá vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo providencial que o pune...
--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito,e serei tanto mais cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias do doente... Concede-me este pedido?
--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.
Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever, foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra n'estes termos:
--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais tranquillo possivel...
--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda muitos annos, para a nossa felicidade:
--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações, que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos que os nutrem, segundo o bem ou o malempregado d'elles. Amei-a... amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas Rosa e Anna...
--Minhas irmãs!!...
--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...
--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida, como?!...
--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo, que eram gêmeas, e que eu era seu pae...
--E é á simplesausenciade Rosa, que o meu bom pae e senhor chamaperdição?!...
--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e bem perdida!...
E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho fidalgo.
D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima. Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta.
--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem, pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.a, meu respeitavel pae, deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não sobrevivería uma hora á sua deshonra...
--Como tu és boa, minha querida Maria!...
--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu affecto... Agora, se V. Exc.ao consente, dir-lhe-hei, que lamento o não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V. Exc.acom a senhora que foi mãe d'ellas...
--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha querida filha... Peço-te quecontinues a escutar-me com a maior attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma questão deraça. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz acasta... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...
--Meu Deus! que pesada herança!...
--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes, que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por esposo o distincto fidalgo que te escolhi...
--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...
--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim escolhido, hadeacceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de verdadeira raça...
Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de Lencastre, e foi a bondosafidalga das chavesque respondeu ao marido:
--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a minha palavra deverdadeira fidalga, que ninguem as tem mais illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões, para não deixar só no campo esta sensivel criança...
--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro, que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha esse nome magico...
--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...
--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.a, snr.aD. Maria da Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser...seu marido, porque... morreu!...
--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive,e sempre viverá na minha alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos... Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais insignificante gesto, que v. exc.anão podesse presencear... Amei-o, e hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um nome que deve passarimmaculadoá posteridade, continuando em mim uma infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.aque diz de um Lencastre para meu esposo?...
--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...
--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...
Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a donzella cheia de magestade.