AO REISenhor.O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro do Rvd. Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade mediante certa quantia dada ao impressor Francisco Huby,[2]ponho agora na presença de V. Magestade, dois annos e meio depois do seu apparecimento, tão injustamente supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como ahi estava, e fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por meio de falsas informações para que, contra suas santas e boas intenções, deixasse morrer a empresa, mais cheia de piedade e honra, que então se podia executar no novo Mundo, como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio d’Abbeville, como por esta, embora incompleta por faltar a maior parte do Prefacio e alguns capitulos no fim.Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo de Rei Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, e as obrigações contrahidas para com os novos christãos, a reputação de suas armas e bandeiras, a utilidade vossa e de vossos subditos, proveniente de um paiz tão rico e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido com muitas despezas e cuidados.Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas imposturas, muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: uma foi de dizer-se que este paiz nada produzia, e nem tinha riqueza alguma, contra a verdade geralmente sabida: a outra foi de serem os indios incapazes de receberem a luz do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina universal da Igreja.Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão bem começada, sendo tão triste resultado devido a fraude e a malicia d’aquelles, que, desejando occultar seos defeitos, os atiravam sobre o paiz, que por negligencia dos maus francezes, cuidadosos só do seo proveito e interesse particular, se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo de vossa auctoridade real em toda a Europa, e de dôr a todos os vossos bons subditos. Quando V. M. quizer sahir d’estas illusões, aconselhado por pessoas honradas, e reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria de Deos, e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a de meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica e experiencia, por todos os cantos do novo Mundo, que em toda a christandade não ha um Monarcha tão grande e poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer empregar não seo poder, e sim apenas sua authoridade.Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes subditos, que, embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, maos tractos, perda de bens e de fortuna, ainda tem coragem bastante para vos servir com dedicação.Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, que faço de ser até o fim de minha vida,Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subditoFrancisco de Rasilly.
AO REI
Senhor.
O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro do Rvd. Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade mediante certa quantia dada ao impressor Francisco Huby,[2]ponho agora na presença de V. Magestade, dois annos e meio depois do seu apparecimento, tão injustamente supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como ahi estava, e fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por meio de falsas informações para que, contra suas santas e boas intenções, deixasse morrer a empresa, mais cheia de piedade e honra, que então se podia executar no novo Mundo, como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio d’Abbeville, como por esta, embora incompleta por faltar a maior parte do Prefacio e alguns capitulos no fim.
Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo de Rei Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, e as obrigações contrahidas para com os novos christãos, a reputação de suas armas e bandeiras, a utilidade vossa e de vossos subditos, proveniente de um paiz tão rico e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido com muitas despezas e cuidados.
Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas imposturas, muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: uma foi de dizer-se que este paiz nada produzia, e nem tinha riqueza alguma, contra a verdade geralmente sabida: a outra foi de serem os indios incapazes de receberem a luz do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina universal da Igreja.
Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão bem começada, sendo tão triste resultado devido a fraude e a malicia d’aquelles, que, desejando occultar seos defeitos, os atiravam sobre o paiz, que por negligencia dos maus francezes, cuidadosos só do seo proveito e interesse particular, se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo de vossa auctoridade real em toda a Europa, e de dôr a todos os vossos bons subditos. Quando V. M. quizer sahir d’estas illusões, aconselhado por pessoas honradas, e reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria de Deos, e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a de meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica e experiencia, por todos os cantos do novo Mundo, que em toda a christandade não ha um Monarcha tão grande e poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer empregar não seo poder, e sim apenas sua authoridade.
Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes subditos, que, embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, maos tractos, perda de bens e de fortuna, ainda tem coragem bastante para vos servir com dedicação.
Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, que faço de ser até o fim de minha vida,
Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito
Francisco de Rasilly.