CAPITULO XXV

CAPITULO XXVDos caracteres incompativeis entre os selvagens.Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero e grosseiro é de digestão má e desagradavel ao paladar, assim tambem os caracteres rudes, grosseiros e impectuosos não servem para companheiros de uma conversação entre homens.Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos caldeirões e panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto de fazel-os accommetter desesperadamente e saltar sobre os que vem fazer perto d’elles tão incommodo e desagradavel barulho, assim tambem fazem as más inclinações, ou os maus caracteres entre os homens.Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que provoca e faz mal ao seo visinho, e chamam-noMoiaron, e quando se insultam por palavras, chamam-no entãoOroacap.Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam iguaes contestações, e ainda fazem mais, previnem os Francezes seos compadres, afim de que nada peçam á tal gente.Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam muito contrariados, e não necessitam ser muito rogados afim de livrarem-se d’ellas, ou de consentir que vão para onde bem lhes parecer.Ha emJuniparan, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior mais homem do que mulher, porque tem face e voz de mulher, cabellos finos, flexiveis, e compridos, e comtudo casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte que vive porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com elle.Presenciei a mudança de uma familia inteira somente para evitar a visinhança de um selvagem de muito máo caracter.Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda com as provocações e questões de sua mulher quando ella tem mau genio.Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem do mau genio de sua mulher a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda segurar nos cabellos d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo adoçaria o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que cahindo o fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos, á vista dos visinhos, tomou tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias frente a frente um do outro, sendo depois o marido a fabula e o assumpto de todas as conversas, quer dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas suasCasas-grandes, que elle não teve remedio si não ficar com sua mulher, porque já a conhecia.Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, só para evitar questões com o comprador.Notareis, que elles só tem—simenão—quando negociam juntos, ou com os Francezes, nunca regateando.Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem bastam estes.Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamamPoromotare-vim, e reciprocamente se advertem dizendo—Cheporomatare-vim, «estou encholerisado,» e então ninguem lhe diz nada, antes buscam abandonal-o o mais que podem, o que exprimem porMogerecoap, «abrandar alguem».Aimogerecoap, «abrando o que está encolerisado.»Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, ficarem como que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem da vista d’elle, dizendo uns aos outrosYmari turuçu«está muito zangado, está muito enfurecido.»Ché-assequeié seta. «Tenho medo d’elle.»Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que conseguiram.Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de espancarem-se, o que chamamionupan«espancar-se», e ainda mais quando se ferem, o que explicam poriuapichap, «ferir-se,» mormente quando depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar as suas casas, o que exprimem pela palavraIuapic«incendiarios» reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada.Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham dos Francezes.Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as publicas consentem que se as chamePataqueres«meretrises.»Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-aPataquere, «meretriz» com o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho ou o enterraria vivo.Chamam a injuriaCurap.Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o inteiramente bruto, como disse SãoBasilio Magno, na Homilia 10, da ira, e transformar o homem n’um animal feroz—Hominem penitus in feram converti: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo.São Gregorio Magno, no 5º livro da suaMoral, cap. 30, diz ser o cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—Cogitationes iracundi viperæ sunt generationis.Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos, que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem.Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e fugirem estes selvagens quando veem um homem encolerisado, especialmente um Francez, porque diz o proverbio, cap. 27—Impetum concitati spiritus ferre quis poterit?Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz calorosa ou inconveniente questão, queimem elles suas casas, porque noProverbio 26acha-sesicut carbones ad prunas et ligna ad ignem—assim como o carvão é para o brasieiro, e a lenha para o fogo, assim tambem a questão de palavras é para o homem naturalmente colerico,sic homo iracundus suscitat rixas, e noEcclesiastico 28,secundum ligna sylvæ, sic ignis exardescit—tal é a quantidade da lenha qual a força do fogo, fallando da colera.

CAPITULO XXVDos caracteres incompativeis entre os selvagens.

Dos caracteres incompativeis entre os selvagens.

Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero e grosseiro é de digestão má e desagradavel ao paladar, assim tambem os caracteres rudes, grosseiros e impectuosos não servem para companheiros de uma conversação entre homens.

Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos caldeirões e panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto de fazel-os accommetter desesperadamente e saltar sobre os que vem fazer perto d’elles tão incommodo e desagradavel barulho, assim tambem fazem as más inclinações, ou os maus caracteres entre os homens.

Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que provoca e faz mal ao seo visinho, e chamam-noMoiaron, e quando se insultam por palavras, chamam-no entãoOroacap.

Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam iguaes contestações, e ainda fazem mais, previnem os Francezes seos compadres, afim de que nada peçam á tal gente.

Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam muito contrariados, e não necessitam ser muito rogados afim de livrarem-se d’ellas, ou de consentir que vão para onde bem lhes parecer.

Ha emJuniparan, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior mais homem do que mulher, porque tem face e voz de mulher, cabellos finos, flexiveis, e compridos, e comtudo casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte que vive porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com elle.

Presenciei a mudança de uma familia inteira somente para evitar a visinhança de um selvagem de muito máo caracter.

Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda com as provocações e questões de sua mulher quando ella tem mau genio.

Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem do mau genio de sua mulher a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda segurar nos cabellos d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo adoçaria o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que cahindo o fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos, á vista dos visinhos, tomou tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias frente a frente um do outro, sendo depois o marido a fabula e o assumpto de todas as conversas, quer dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas suasCasas-grandes, que elle não teve remedio si não ficar com sua mulher, porque já a conhecia.

Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, só para evitar questões com o comprador.

Notareis, que elles só tem—simenão—quando negociam juntos, ou com os Francezes, nunca regateando.

Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem bastam estes.

Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamamPoromotare-vim, e reciprocamente se advertem dizendo—Cheporomatare-vim, «estou encholerisado,» e então ninguem lhe diz nada, antes buscam abandonal-o o mais que podem, o que exprimem porMogerecoap, «abrandar alguem».Aimogerecoap, «abrando o que está encolerisado.»

Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, ficarem como que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem da vista d’elle, dizendo uns aos outrosYmari turuçu«está muito zangado, está muito enfurecido.»Ché-assequeié seta. «Tenho medo d’elle.»

Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que conseguiram.

Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de espancarem-se, o que chamamionupan«espancar-se», e ainda mais quando se ferem, o que explicam poriuapichap, «ferir-se,» mormente quando depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar as suas casas, o que exprimem pela palavraIuapic«incendiarios» reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada.

Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham dos Francezes.

Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as publicas consentem que se as chamePataqueres«meretrises.»

Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-aPataquere, «meretriz» com o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho ou o enterraria vivo.

Chamam a injuriaCurap.

Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o inteiramente bruto, como disse SãoBasilio Magno, na Homilia 10, da ira, e transformar o homem n’um animal feroz—Hominem penitus in feram converti: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo.

São Gregorio Magno, no 5º livro da suaMoral, cap. 30, diz ser o cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—Cogitationes iracundi viperæ sunt generationis.

Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos, que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem.

Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e fugirem estes selvagens quando veem um homem encolerisado, especialmente um Francez, porque diz o proverbio, cap. 27—Impetum concitati spiritus ferre quis poterit?

Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz calorosa ou inconveniente questão, queimem elles suas casas, porque noProverbio 26acha-sesicut carbones ad prunas et ligna ad ignem—assim como o carvão é para o brasieiro, e a lenha para o fogo, assim tambem a questão de palavras é para o homem naturalmente colerico,sic homo iracundus suscitat rixas, e noEcclesiastico 28,secundum ligna sylvæ, sic ignis exardescit—tal é a quantidade da lenha qual a força do fogo, fallando da colera.


Back to IndexNext