CAPITULO XLVI.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e disse-me:

—'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que me console. Falle-me.'

—'Que heide eu dizer?..'

—'É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o é, e desassombre-me d'este terror em que estou.'

—'Pois duvída, Julia?..'

—'Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui… muito demais… receio: como havemos de duvidar?'

—'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me a seus pés, tomando-lhe as mãos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de verdadeira contricção. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e prometto…'

—'Não prometta nada, senão que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o póde cumprir.'

—'Juro por… por ella.'

—'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma vez, e incarar todas as consequencias de uma posição difficil, do que illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não deve nem póde amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria—não sei o que faria eu… Mas não se tratta de mim'—proseguiu com volubilidade febril—'não se tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, está compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'

—'Para a India!'

—'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é capitão ao serviço da companhia, e parte em casando.'

Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira dor verdadeira d'alma que soffri… Aquelle era o primeiro amor sincero da minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por que passei.

Eu que de taes penas zombára sempre, que as desterrava da realidade para os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um padecer como eu experimentei n'aquella hora?

Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão que senti as lagrymas de Julia cahirem-me sôbre a face e misturarem-se com as minhas que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expressão que vi nos seus… oh! como a heide esquecer nunca?

Quanto ha de piedade e compaixão no thesouro infinito de um coração feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. Lá não ficava senão uma tristeza profunda, desanimada e mortal…

Não sei que vago pensamento, que idea louca… ou antes, que presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito—ou sería pelo coração?—n'aquelle momento…

Se Julia?..

Mas não póde ser.

—'Julia, Julia' bradei eu 'quero vê-la: heide vê-la uma vez ao menos. Não me negue este último favor. Sei que devo, que preciso, que é forçoso fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe…'

—'O quê?..'

—'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar…'

—'Ai Carlos!'

—'Que para sempre, sempre…'

Julia levantou-se sem dizer palavra, e lançando sôbre mim um olhar de ineffavel compaixão, sahiu rapidamente do quarto.

Achei-me so, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da cabeça, exhausto do coração—n'uma depressão d'espirito que tocava na estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, não levantava o braço para a arredar… Ja não sentia pena nem desejo. Parecia-me que começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito.

N'este estado fiquei não sei que tempo; muito não foi. Percebi que se abria a porta, não tive fôrça para levantar os olhos. Até que senti uma doce e querida mão na minha… era Julia… e era Laura tambem… sancto Deus! que estavam aopé de mim ambas.

Julia tinha a minha mão na sua; e Laura incostada ao hombro da irman, deixava cahir sôbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixão tam celeste que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me trazer todo o perdão, toda a misericordia do ceo á minha alma.

Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me amas, a ti que eu amo—porque te amo, e Deus me castigue que deve! porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel coração que Elle me deu—como te heide eu dizer a ti, e para quê, as palavras que alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se deram, as promessas que alli foram trocadas?

Julia foi para a janella—indulgente chaperão que nos não via e fingia não nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar.

Á mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar até o dia terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da amizade.

Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achámos á porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado á portinhola. Montámos, as tres irmans e eu.

Eram duas milhas d'alli á estalagem onde tocava a malla-posta e onde Laura devia incontrá-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos quatro.

A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens. Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio britannico.

A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas do parque, os ramos descahidos das árvores por que roçavamos levemente ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver—os phaesães que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus cavallos, tudo para mim eram impressões de nunca sentida e inexplicavel tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida.

Não me sentia fôrça para blasphemar, para maldizer de Deus, senão tinha-o feito.

Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle como n'esta.

Sería effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir á minha alma antes que se perdesse, sería por certo—pois n'esse mesmo instante distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que podia chamá-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha piquena, innocente, aquelle anginho de criança, tam viva, tam alegre, tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle me foram alcançar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como esmeraldas, atravessaram o espaço, e foram luzir no meio d'aquell'outros lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca mandavam-me ao longe as exhalações de seu perfume agreste, e matavam o suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam. As folhas crespas, sêccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetação do norte, promettendo-me paz ao coração, annunciando-me o fim de uma peleja em que m'o dilaceravam as paixões.

E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal, n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham de m'a cortar e destruir para sempre…

Oh! de quê e como é feito o homem, para quê e porque vive elle? Que vim eu, que vimos nós todos fazer a este mundo?

Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu confundia n'uma adoração mysteriosa e mystica—cego, louco d'amores por uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre… eu tinha o pensamento fixo n'uma criança que ainda andava ao collo!—Revendo-me nos olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e civilização que me cercava,—era o nosso valle rustico e selvagem o que eu tinha no coração…

Oh! eu sou um monstro, um aleijão moral devéras, ou não sei o que sou.

Se todos os homens serão assim?

Talvez, e que o não digam.

Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha alma, tem compaixão de mim, não me maldigas. Não quero que me perdoes, nem tu nem ninguem, que o não mereço: mas que tenhas dó e lástima de mim.

Ai! que isso mereço eu, oh sim.

Deixa-me parar aqui. Falta-me o ânimo para me estar vendo a este terrivel espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde estou copiando o horroroso retratto de minha alma que te desenho n'este papel.

Sabía que era monstro, não tinha examinado por partes toda a hediondez das feições que me reconheço agora.

Tenho espanto e horror de mim mesmo.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Chegámos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria no meio dos campos á borda da estrada. A malla chegava ao mesmo tempo quasi.

Eu dei a mão a Laura para sahir da caleche e entrar no coche; e apenas tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus! adeus! com a affectada seccura que exige a lei das conveniencias britannicas.

A malla partiu ao grande trote… E dir-te-hei a verdade ou queres que minta? Não, heide dizer-te a verdade. Pois senti como um alívio desesperado, uma consolação cruel em a ver partir. Senti o que imagino que deve sentir um infêrmo depois da operação dolorosa em que lhe amputaram parte do corpo com que já não podia viver, e que era forçoso perder ou perder a vida.

Tambem deve de ser assim a morte: um descanço apathico e nullo depois de inexplicavel padecer.

Era como morto que eu estava; não soffria pois.

E ja não pensava em ti, ja te não via na minha alma: eu não existia, estava alli.

Voltámos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis companheiras, e eu fui so, apé, com passo firme e resoluto para a minha habitação. Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem me disse nada, nem tentou consolar-me. Paraquê?

L. William R. chegava, na manhan seguinte, de uma de suas habituaes excursões a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas de Portugal que eu esperava ha muito.—Disse-me que partia no outro dia para Swansea, a terra de Galles para onde Laura fôra; e que me incarregava de fazer companhia ás duas filhas que ficavam sos.

A mim!..

Estive tres dias sem as ver: em todos tres não fiz mais do que escrever a Laura.

No quarto dia fui ao parque. Julia deu um grito de alegria quando me viu: raro exemplo de excepção ás formuladas regras que tyrannizam a vida ingleza, que prescrevem até a cara com que se hade morrer, e teem graduado o tom em que se deve exhalar o último suspiro.

Mas a natureza chega a triumphar ás vezes até da propria etiqueta britannica.

Julia cuidava que eu não queria voltar áquella casa, tinha-se resignado a não tornar a ver-me; não pôde reprimir a alegria que lhe causou a minha inexperada apparição.

Passámos todo o dia junctos e sos: quasi todo se nos foi passeando no parque, ou sentados á sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos nas crystallinas aguas de uma vasta represa povoada de aves aquaticas e rodeada d'aquelles immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente se infeita a terra ingleza e que so desapparecem quando vem o hynverno extender-lhe porcima seus alvos lençoes de neve.

Quiz ver o que eu escrevia á irman; dei-lhe a carta, leu-a, meditou-a, restituiu-m'a sem dizer palavra.

Que horas passámos n'este silencio, n'esta eloquente mudez que não vem senão do muito de mais que a alma sente, do muito de mais que diria se fallasse!

Á despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha estado fazendo para mim e que lhe deixára para me intregar. Senti que tinha dentro o que quer que fosse a bolsa, não quiz examinar. Achei, quando voltei a casa, que era ofadado cintode vidrilhos pretos que eu tanto tinha admirado em certo baile onde foramos junctos, e que Laura não deixára de pôr nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma toilette.

Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; ainda a tenho, no meu thesoiro mais guardado, aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, e amo-te a ti so como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas aquelle cinto é uma sorte, um talisman, um amuleto em que está o meu destino.

Amei… isto é, amei… pois sim, amei, ja que não ha outra palavra n'estas estupidas linguas que fallam os homens; pois amei outras mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, não deixei nunca de beijar devotamente aquelle cinto, de o appertar sôbre o meu coração, de me incommendar a elle—como o salteador napolitano se incommenda ao escapulario da madona que traz ao peito, com as mãos insanguentadas de matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer.

Ai, Joanna, não te digo eu que estou perdido, sem remedio, e que para mim não ha, não póde haver salvação nunca?

Vivi assim dois mezes. Laura não me escrevia: recebia as minhas cartas e respondia a Julia: por este modo nos correspondiamos. Julia era parte de nós, era uma porção do nosso amor, viviamos n'ella a nossa vida. E ja as confundia ambas por tal modo no meu coração que me surpreendia a não saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este estado; eu era-o. Insensivelmente me habituei a elle, ja não tinha saudades do passado. E quando se approximou o casamento de Laura, que ella tinha de voltar de Galles, e que eu, fiel ao que promettêra, devia pretextar negócio urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me até á sua partida para a India, eu tive uma pena, uma difficuldade em cumprir o que promettêra que me invergonhava.

Parti porêm; e alli me demorei um mez. Julia escrevia-me todos os dias e eu a ella. Na véspera do dia fatal em que Laura ia ser de outro homem, Julia escreveu-me éstas palavras sos:—'O nosso romance acabou; começa uma historia séria. Laura manda-lhe o seu último adeus.'

E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre nós dous.

O galeão que me levava para o Oriente as ruinas de toda a minha esperança ha muito que navegava; entrava outubro e o hynverno inglez com suas mais asperas, e n'este anno tam precoces, severidades. Eu sentia-me morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa e turbulenta Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me voltar a ——shire. Voltei.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, os casaes d'aquelles arredores!

Era outra a expressão de physionomia da paizagem, mas as queridas feições eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.

Emfim o meustageparou á entrada do parque, e eu tomei apé pela longa avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o tempo macio, não estavacru, segundo a expressiva phrase do paiz.

Por entre a nevoa que me incubria a antiga mansão e involvia as árvores circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando, quasi pelo tacto, até meia alameda talvez.

Parei a reflectir na minha posição e no que eu ia ser n'aquella casa que de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim de entre as árvores do parque.

O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma apparição phantastica em meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.

Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia não era nem podia ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e graciosas teem trazido varinha de condão. Laura… ai! Laura tam longe estava d'alli… Quem sería pois? So se fosse!.. Quem?

Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, aquelle ar gentil não podia ser senão d'ella…

D'ella, quem?

Ainda te não fallei, quasi, da última das tres bellas irmans que me incantavam, não t'a descrevi, não t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me fazê-lo. Mas é preciso: custa-me, não ha remedio.

Era Georgina…

Georgina que tu conheces, Georgina que… era Georgina a que vinha a mim n'aquella—fatal ou feliz?—manhan; Georgina que de todas tres era a que menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia.

Este meu coração, á fôrça de ferido e de mal curado que tem sido, pressente e adivinha as mudanças de tempo com uma dor chronica que me dá. Pressenti não sei quê ao ver approximar-se Georgina…

—'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobreJulia, que alegria que vai ter, hade curá-la de todo.'

—'Pois quê! Julia está doente?'

—'Não o sabía!… Ai! não, bem sei que não: ella não lh'o quiz dizer. Julia está doente; mas não é de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui esperá-lo.'

Éstas palavras eram simples, não tinham nada que me devesse impressionar extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava de a ver tam bella, tam interessante.

É uma situação d'alma ésta que não sei que a descrevessem ainda poetas nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou não a conhecem. Está recebido que as subitas impressões causadas por um primeiro incôntro sejam as mais interessantes, as mais poeticas.

Eu não nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensações; mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha impressão que nos faz um objecto ja conhecido, que víramos com indifferença atéalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que sempre o tinhamos considerado…

Mas ésta mulher é bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles olhos são divinos! Onde tinha eu os meus atégora? Mas este ar, mas ésta graça onde os tinha ella escondidos? etc. etc.

Vão-se gradualmente, vão-se pouco a pouco descobrindo perfeições, incantos; e o sentimento que resulta é mil vezes mais profundo, mais fundado, sôbretudo, que o das taes primeiras impressões tam cantadas e decantadas.

Que mais te direi depois d'isto? Entrámos em casa, vi Julia, fallámos de Laura muito e muito. Mas eu ja o não fiz com o enthusiasmo, com a admiração exclusiva com que d'antes o fazia…

Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito. Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversações íntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade.

Georgina, que atéalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graça, em espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doçura de maneiras, de voz, de expressão, de tudo.

Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sôbre mim! mas é a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me querer-lhe mais… que tanto vale.

Eu sei?.. Não, não lhe queria tanto. Mas amei-a.

Amei, sim, e fui amado!

Tres mezes durou a minha felicidade. É o mais longo periodo de ventura que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.

A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para os Açores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para aquella expedição. A historia fallará de muitos serviços, de muitas dedicações. Quem saberá nunca d'esta?

A historia é uma tola.

Eu não posso abrir um livro de historia que me não ria. Sôbretudo as ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um comico irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e importancia de quasi todos os factos que recontam?

Ainda não sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da minha estada n'aquelle escôlho no meio do mar, chamado a ilha Terceira, onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional.

Habituei-me porfim. A que se não affaz o homem?

Levaram-me uma tarde á grade de um convento de freiras que ahi havia. O meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de me consolar. Não o conseguiu, coitada! O meu coração estava em ——shire em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem,

Pelo mundo em pedaços repartido;

estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia estar.

Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou. Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre.

Eu não amei a Soledade.

E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia… Se eu sou feito assim, meu Deus, e assim heide morrer!

Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu.

Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te… não, não é verdade assim. Conheci, mal que te vi entre aquellas árvores, á luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu tinha amado sempre, que para ti nascêra, que teu so devia ser, se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita.

Não é, Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.

Eu sim tinha nascido para gosar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui creado, estou certo, para a glória tranquilla, para as delicias modestas de um bom pae de familias.

Mas não o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar hade ser infeliz por fôrça, a que me intregar o seu destino, hade vê-lo perdido.

Não quero, não posso, não devo amar a ninguem mais.

A desolação e o oppróbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me persegue não é obra minha.

Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu accompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o auctor da sua e das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.

Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraçadamente ésta guerra no unico momento em que a podia abençoar, em que ella podia felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao coração, eu que farei?

Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim em agiota, que é a unica vida de emoções para quem ja não póde ter outras.

Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela última vez, adeus!

De como Carlos se fez barão.—Fim da historia de Joanninha.—Georgina abbadessa.—Juizo de Fr. Diniz sôbre a questão dos frades e dos barões.—Que não póde tornar a ser o que foi, mas muito menos póde ser o que é. O que hade ser, Deus o sabe e proverá.—Vai o A. dormir ao Cartaxo.—Sonho que ahi tem.—Volta a Lisboa.—Caminhos de ferro e de papel.—Conclusão da viagem e d'este livro.

Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a Fr. Diniz em silencio.Elle tornou-me:

—'Leu?'

—'Li.'

—'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: não o conheço, mas…'

—'Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente…'

—'Em quê? nas eleições, na agiotagem, nos bens nacionaes?'

—'Não senhor. Fui camarada de Carlos, não o vejo ha muitos annos e…'

—'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, inriqueceu, e é barão…'

—'Barão!'

—'É barão, e vai ser deputado qualquer dia.'

—'Que transformação! Como se fez isso, sancto Deus! E Joanninha eGeorgina?'

—'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina é abbadessa de um convento em Inglaterra.'

—'Abbadessa?'

—'Sim. Converteu-se á communhão catholica; era ricca, fundou um convento em ——shire e lá está servindo a Deus.'

—'E ésta pobre senhora, a avó de Joanninha?'

—'Ahi está como a ve, morta de alma para tudo. Não ve, não ouve, não falla, e não conhece ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta fatal casa do valle, eu estava ausente, expirou nos braços d'ella e de Georgina. Desde esse instante a avó cahiu n'aquelle estado. Está morta, e não espero aqui senão a dissolução do corpo para o interrar, se eu não for primeiro, e Deus queira que não! quem hade tomar conta d'ella, ter charidade com a pobre da demente? Mas depois… oh! depois… espero no Senhor que se compadeça emfim de tanto soffrer e me leve para si.'

—'Mas Carlos?'

—'Carlos é barão: não lh'o disse ja?'

—'Mas por ser barão?..'

—'Não sabe o que é ser barão?'

—'Oh se sei! Tam poucos temos nós?'

—'Pois barão é o succedaneo dos…'

—'Dos frades… Ruim substituição!'

—'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso vinha: e é a unica coisa que leio d'essas ha muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'

—'E que lhe pareceu?'

—'Bem escripto e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os liberaes não tiveram menos.'

—'Errámos ambos.'

—'Errámos e sem remedio. A sociedade ja não é o que foi, não póde tornar a ser o que era;—mas muito menos ainda póde ser o que é. O que hade ser, não sei. Deus proverá.'

Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais attenção nem pareceu conscio da minha estada alli.

Sentia-me como na presença da morte e atterrei-me.

Fiz um esfôrço sôbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei, piquei desesperado d'esporas, e não parei senão no Cartaxo.

Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fóra da villa á hospedeira casa do Sr. L. S.

Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a somno sôlto.

Mas eu sonhei com o frade, com a velha—e com uma enorme constellação de barões que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de todas as côres e matizes possiveis. Eram milhões e milhões e milhões…

Nunca vi tanto milhão, nem ouvi fallar de tanta riqueza senão nas mil e uma noites.

Acordei no outro dia e não vi nada… so uns pobres que pediam esmola á porta.

Metti a mão na algibeira, e não achei senão notas… papeis!

Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguiços e de tristes presentimentos.

O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso andou mais depressa.

Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcámos no Terreiro-do-Paço.

Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e assim termina este livro.

Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porêm fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.

Se assim o pensares, leitor benevolo, quem sabe? póde ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal fóra, em busca de historias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar.

Escusada é a jura porêm.

Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, não digo que não.

Mas de metal!

Que tenha o govêrno juizo, que as faça de pedra, que póde, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.

*Nota A.*

Ficámos sem Nibelungen

pag. 3.

Collecção de antigas rhapsodias germanicas contendo o maravilhoso e poetico de suas origens historicas e que é para os povos theutonicos o que era a Ilíada para os hellenos. So se não sabe o nome do Homero allemão que as redigiu e uniformizou como hoje se acham.

*Nota B.*

Caranguejar para as Lamas

pag. 3.

Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos, que tem este nome e é onde vão apodrecer as carcassas dos navios velhos e ja inuteis.

*Nota C.*

Os pés nofender

pag. 4.

Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea de metal que defende o fogão nas salas, paraque não caiam brazas nos sobrados. Descançam n'elle os pés naturalmente quando a gente se está confortavelmente aquecendo em liberdade.

*Nota D.*

Perfumados resplendores doOld sack

pag. 5.

Tem-se disputado muito sôbre qual seja a bebida espirituosa celebrada por Shakspeare tantas vezes com este nome. A opinião mais acceita é que fosse boa e velha aguardente de França.

*Nota E.*

Renegaram de San'Tiago por castelhano

pag. 5.

O grito de guerra commum a todas as nações christans hespanholas era: San'Tiago! Quando na accessão da casa de Avis nos alliámos intimamente com a Inglaterra contra Castella, começámos a invocar San'Jorge.

*Nota F.*

Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos Martyres

pag. 9.

Singela e original expressão do sancto arcebispo n'uma carta de convite a um seu amigo. Fez-se, como devia ser, proverbial ésta phrase.

*Nota G.*

Feliz expressão do Sr. Conde de Raczinski

pag. 124.

Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris 1845.

*Nota H.*

O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas

pag. 127.

Centro e barbas são qualificações e nomes de impregos theatraes.

Capitulo XXVI—Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.—Horacio na sacra-via.—Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.—A policia e os barcos de vapor.—Os vandalos do feliz systema que nos rege.—Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo deold-sacksôbre a banca.—Sir John Falstaff se foi maior homem que Sancho-Pansa?—Grande e importante descuberta archeologica sôbre San'Tiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.—Próva-se a vinda d'este último a Portugal.—O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard no Père-la-Chaise.—Bentham e Camões.—Chega o auctor á sua janella, e pasmosamiragempoetica produzida por umas oitavas dos Lusiadas.—De como em fim proseguem éstas viagens para Santarem, e que feito será de Joanninha. 1

Capitulo XXVII—Chegada a Santarem.—Olivaes deSantarem.—Fóra-de-Villa.—Symetria que não é para os olhos.—Modo demedir os versos da biblia.—Architectura pedante do seculoXVII.—Entrada na Alcáçova. 11

Capitulo XXVIII—Depois de muito procurar acha em fim o auctor a egreja de Sancta-Maria d'Alcáçova.—Stylo da architectura nacional perdido.—O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-público de Lisboa.—O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.—Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada de uma janella da Alcáçova, de manhan.—É tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.—Introducção do Fausto.—Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos dialectos romanos. 19

Capitulo XXIX—Doçuras da vida.—Imaginação e sentimento.—Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos.—Como são escriptas éstas viagens.—Livro de pedra. Criança que brinca com elle.—Ruinas e reparações.—Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.—Sancta Iria ou Irene, e Sanctarem.—Romance de Sancta Iria.—Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome? 29

Capitulo XXX—Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance popular. 39

Capitulo XXXI—Quommodo sedet sola civitas.—Santarem.—Portugal em verso e Portugal em prosa.—Exquisito lavor de umas portas e janellas de architectura mosarabe.—Busto de D. Affonso Henriques.—As salgadeiras de Affrica.—Porta do Sol.—Muralhas de Santarem.—Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes. 49

Capitulo XXXII—Tornâmos á historia do Joanninha.—Preparativos de guerra.—A morte.—Carlos ferido e prisioneiro.—O hospital.—O infermeiro.—Georgina. 55

Capitulo XXXIII—Carlos e Georgina. Explicação.—Ja te não amo! palavra terrivel.—Que o amor verdadeiro não é cego.—Frade no caso outra vez.Ecce iterum Crispinus; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco. 69

Capitulo XXXIV—Carlos, Georgina e Fr. Diniz.—A peripecia do drama. 79

Capitulo XXXV—Reunião de toda a familia.—Explicação dos mysterios.—O coração da mulher.—Parricidio.—Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça a pobre da avó. 87

Capitulo XXXVI—Que não se acabou a historia de Joanninha.—Processo ao coração de Carlos.—Immoralidade.—Defeito de organização não é immoralidade.—Horror, horror, maldicção!—Um barão que não pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos.—Porta de Atamarma.—Senatus consulto santareno.—Nossa Senhora da Victoriaafforada.—Threnos sôbre Santarem. 99

Capitulo XXXVII—A Graça e sua bella fachada gothica.—Sepultura de Pedr'alvares Cabral.—Outro barão que não é dos assignalados.—Egreja do Sancto-milagre.—Bellos medalhões mosarabes.—De como, chegando o prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.—Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D. Maria da Assumpção.—Casa onde succedeu o milagre convertida em capella de stylo philippino.—O homem das botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.—Admiravel e graciosa esperteza da regencia do Rocio.—Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos folgasões, os melhores governos possiveis.—Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem. 111

Capitulo XXXVIII—Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.—Sautés e salmis.—Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do Alfageme.—A espada do Condestavel.—Desappontamento.—O salão elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis. Tudo melhor quando visto de longe.—O baile público.—Soirée de piano obrigado.—Theatro. Desaffinações da prima-dona.—Syphlis incuravel das traducções. Destempêro dos originaes.—A xácara de rigor, o subterraneo e o cemiterio.—Sublime gallimathias do ridiculo.—A bella e necessaria palavra 'gallimathias.'—Se as saudades matam.—Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.—De como a logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias. 121

Capitulo XXXIX—Processo de scepticismo em que está o auctor.—Moralistas derequiem.—O maior sonho d'esta vida, a logica.—Differença do poeta ao philosopho.—O coração de Horacio.—O collegio de Santarem.—Jesuitas e templarios.—O alliado natural dos reis:—'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro'.—San'Frei Gil e o Doutor Fausto.—De como o A. foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.—Quem o roubaria? 131

Capitulo XL—As Claras.—Aventura nocturna.—Se as freiras mettem medo aos liberaes? O Psalmo.—Tres frades.—Práctica do franciscano.—O corpo de San' Fr. Gil.—Que se hade fazer das freiras?—Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões. 141

Capitulo XLI—O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta prespicacia do leitor benevolo.—Grande lacuna na nossa historia.—Porque se não preenche?—Página preta na historia de Tristam Shandy.—Novellas e romances, livros insignificantes.—O adro de San'Francisco e as suas acacias.—Que será feito de Joanninha?—O peito da mulher do norte.—Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.—A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.—Eheu, Portugal, eheu! 151

Capitulo XLII—Protesto do auctor.—Desaffinação dos nervos.—O que é preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.—Que Deus está no Colliseu assim como em San'Pedro.—Quer-se o auctor ir embora de Santarem.—Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?—Em que estado se acha este.—Exemplar de stylo byzantino.—Coroa real sôbre a caveira.—O rei d'espadas e o symbolo do imperio.—Quem nunca viu o rei cuida que é de oiro.—Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.—O que se acha nas sepulturas dos reis.—A phrenologia.—Vindicta pública, tardia mas ultrajante.—Camões e Duarte Pacheco.—A sombra falsa da religião.—Regimen dos barões e da materia.—A prosa e a poesia do povo.—Synthese e anályse.—O senso íntimo.—Se o auctor é demagogo ou Jesuita?—Jesu Christo e os barões. 157

Capitulo XLIII—Partida de Santarem.—Pinacotheca.—Impaciencia e saudades.—Sexta-feira.—Martyrio obscuro.—A figura do peccado.—Estamos no valle outra vez.—Evocação de incanto.—A irman Francisca e Fr. Diniz.—A teia de Penelope.—E Joanninha?—Joanninha está no ceo.—A mulher morta a dobar esperando que a interrem.—A esperança, virtude do christianismo.—Uma carta. 167

Capitulo XLIV—Carta de Carlos a Joanninha. 177

Capitulo XLV—Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 187

Capitulo XLVI—Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 195

Capitulo XLVII—Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 207

Capitulo XLVIII—Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 215

Capitulo XLIX—De como Carlos se fez barão.—Fim da historia da Joanninha.—Georgina abbadessa.—Juiso de Fr. Diniz sôbre a questão dos frades e dos barões.—Que não póde tornar a ser o que foi, mas muito menos póde ser o que é? O que hade ser, Deus o sabe e proverá.—Vai o A. dormir ao Cartaxo.—Sonho que ahi tem.—Volta a Lisboa.—Caminhos de ferro e de papel.—Conclusão da viagem e d'este livro. 227

Notas 237

Notas:

[1] Transcrevemos aqui o original allemão, para se avaliar o que fica ditto no texto.

Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten,Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt.Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten?Fühl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt?Ihr drängt euch zu! nun gut, so mögt ihr waltenWie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt;Mein Busen fühlt sich jugendlich erschüttertVom Zauberhauch, der euren Zug umwittert.Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage,Und manche liebe Schatten steigen auf;Gleich einer halbverklungen SageCommt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf;Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klageDes lebens labyrintisch irren Lauf,Und nennt die Guten, die, um schöne StundenVom Glück getäuscht, vor mir hinweggeschwunden

[2] Nas notas a Adozinda, vol. I do 'Romanceiro,' nota N, citei differentemente ésta copla pela imperfeita licção de um Ms. do Minho, unico que tinha á mão.

[3] Outra licção, e talvez melhor diza coitada.

[4] Thomar.

[5] De frades e de freiras.

[6] Deus, venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+—————+———————————+———————————+ | | Original | Correcção | +—————+———————————+———————————+ |#pág. 2| et mos | est mos* | |#pág. 5| Faltaffs | Falstaffs | |#pág. 17| San'João-de-Alpiarça | San'João do Alporão* | |#pág. 17| egrea | egreja* | |#pág. 43| retiraam | retiraram | |#pág. 50| recordam | memoram* | |#pág. 62| stil | still* | |#pág. 81| da intranhas | das intranhas | |#pág. 99| Horor | Horror | |#pág. 118| quelle | aquelle | |#pág. 118| digno do ornar | digno de ornar | |#pág. 119| LisboaTejo | Lisboa Tejo | |#pág. 123| confrontar- algum | confrontar algum | |#pág. 138| extistencia | existencia | |#pág. 213| com com | com | |#pág. 217| desdescrevi | descrevi | |#pág. 218| ma curado | mal curado | |#pág. 241| modernas | modernos | |#pág. 241| Flastaff | Falstaff | +—————+———————————+———————————+

* correcções feitas com base na errata do próprio livro.

Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como Shakspeare, San'Tiago e Joaninha respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de acordo com o original.


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