Quommodo sedet sola civitas.—Santarem.—Portugal em verso e Portugal em prosa.—Exquisito lavor de umas portas e janellas de architectura mosarabe.—Busto de D. Affonso Henriques.—As salgadeiras de Affrica.—Porta do Sol.—Muralhas de Santarem.—Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes.
Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem.
A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.
Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive emprosa. Morrer, não morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de existir.—Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica escrupulo.
Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua maisfashionaveld'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto.
E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta designação demosarabepara characterizar e classificar o genero architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?
De que palacio incantado foram éstas portas tam primorosamente lavradas? Que bellezas se debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o cavalleiro escolhido do seu coração? São tam lindas, tam elegantes ainda éstas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida imaginação a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos mysterios da edade-média.
Pouco mais adeante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande antiguidade. Não me fez esse effeito a mim.
Chegámos á porta doSol; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista. É majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao rio, é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto rasteiro, meiofrutexmeio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que a tradicção diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes taludes e precipicios. O aspecto e hábito da planta é realmente affricano e oriental, não tem nada de europeu. Mas ésta derradeira e occidental parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, ja tam affrica, tam pouco europa, que não sería necessaria a transplantação talvez; e porventura ficou ésta memoria entre o povo do uso que os moiros faziam da planta para esse fim.
Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam as execuções em tempos antigos. Foi bem escolhido o sítio; não o ha mais triste e melancholico. Aopé está um torreão quadrado da muralha que ahi fórma canto para seguir depois na direcção de sul a norte. D'este lado as fortificações e lanços de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos, póde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.
Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho saudades—o velho guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? Sería aqui n'este logar de desolação e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle que ja não chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de agua que o coração lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?
Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e da sua familia, nos disse:
'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha e acabemos a historia da menina dos rouxinoes. De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria do Alfageme. Ámanhan de manhan está detalhado que iremos ver a Graça, o Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje ésta historia.'
'Seja' respondemos nós.
Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas medo das minhas digressões fataes, nem das interrupções a que sou sujeito. Irá direita e corrente a historia da nossa Joanninha até que a terminemos… em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que não morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades materiaes em que vivemos.
Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.
Escuta.
Tornámos á historia de Joanninha.—Preparativos de guerra.—A morte.—Carlos ferido e prisioneiro.—O hospital.—O infermeiro.—Georgina.
'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do último capítulo. Mas não basta que escute, é preciso que tenha a bondade de se recordar do que ouviu no capitulo XXV e da situação em que ahi deixámos os dous primos, Carlos e Joanninha.
N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se póde deslindar e seguir em tam imbaraçada meada.
Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito quanto eu podér.
Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes, duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram.
N'essa mesma noite, a ordenada confusão de um grande movimento de guerra reinava nos postos dos constitucionaes. Á longa apathia de tantos mezes succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos combates de Pernes e de Almoster, que não foram decisivos logo, mas que tanto appressaram o termo da contenda.
Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi, chegou, recebeu as instrucções que lhe deram, e voltou mais satisfeito, mais tranquillo.
Tractava-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que ainda não abençoou a morte que viu deante de si, o que a não invocou ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que é mais desesperado, como unica sahida de suas fataes perplexidades.
Estes momentos são raros na vida, é certo; mas quando occorrem, não ha exaggeração nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que elles.
Oh! e se a morte que se contempla é de honra e glória, se o enthusiasmo, tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o coração do homem á sublime abnegação de si, e de tudo o que é piqueno, baixo e vil na sua natureza—oh então a morte parece um triumpho, uma bemaventurança porcerto!
Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de artista que se compraz no último acabamento de um trabalho predilecto.
O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha começou antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar das espingardas, e pelo trovejar dos canhões.
Combateu-se larga e incarniçadamente—como entre irmãos que se odeiam de todo o odio que ja foi amor—o mais cruel odio que tem a natureza!
O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem conhecido—e charecteristica então, se via claramente ser do exército constitucional.
Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma especie de tarimba sôbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a sua vez foi examinado e pençado como os outros. Não dava signal de padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas não agitado de febre; não proferia uma syllaba, não soltava um ai, e prestava-se a tudo o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mão esquerda que apertava contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta.
Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. Não sería largo, mas foi profundo o seu dormir. Quando acordou ja se não viu no vasto caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada elegancia do infermeiro que o velava.
O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma bella mulher de estatura não acima de ordinaria mas nem uma linha menos, involvida nas amplissimas pregas de um longo roupão de seda d'aquella acertada côr que, em dialecto da rua Vivienne, se dizscabieuse; a cabeça toucada de finissima Bruxellas, com uns laços de preto e côr de granada que realçavam a transparencia das rendas, a infinita graça dos longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expressão mas bello, bello, quanto póde ser bello um rosto em que pouco d'alma se reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entibía e modera a energia do sentimento que não é menos profundo talvez, mas certamente se expande menos.
De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mão direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella mulher estava alli como a estátua da dor e da anxiedade. A uma porta interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em pé, os braços cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabeça, estava um frade velho, alto mas curvado do pêso dos annos ou dos soffrimentos.
O frade contemplava o infêrmo e a infermeira, mas visivelmente não queria ser visto n'essa occupação, porque ao menor estremecimento do doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.
Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e sublime.
Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affêrro o relicario ou talisman, o que quer que era que não queria desprender de seu coração. A bella infermeira beijava de vez em quando aquella mão tenaz que estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve contacto d'esses labios delicados.
A outra mão estava nas mãos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa.
O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e descompassado do infêrmo.
Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: 'Oh Georgina, Georgina, I love you still.'—(Georgina, Georgina, eu ainda te amo).
Duas lagrymas—duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no coração e que ás vezes sahem com tanto prazer dos olhos—romperam do celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces de uma alvura pallida e mortal.
Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto angelico d'essa mulher.
Esteve assim minutos: ella não dizia nada nem de voz nem de gesto: fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfôrço nem impeto, por um declive natural e facil.
—'Onde estou eu, Georgina?'
—'Nos meus braços.'
—'Que me succedeu?'
—'Que não podes ser feliz senão n'elles: bem sabes.'
—'Sei… devia saber.'
—'Hasde sabe-lo agora. O passado…'
—'O passado! qual?'
—'O passado deixou de existir.'
—'E o futuro?'
—'Eu não creio no futuro.'
—'Porquê?'
—'Porque tu me disseste que não cresse.'
—'Eu!.. Eu sou um…'
—'Um homem.'
—'Oh!'
—'Basta e descança. Amanhan fallaremos.'
—'Estou ferido, muito; e doe-me agora… não me doía.'
—'Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.'
—'Não posso. Que casa é ésta?'
—'San'Francisco de Santarem.'
—'Deus de misericordia!'
—'Es prisioneiro: sára, e eu te livrarei.'
—'Tu!—E tu aqui, como?'
—'Vim buscar-te, e achei-te assim.'
—'Georgina!'
—'Que tens tu ahi tam seguro na mão esquerda?'
—'Vê: a medalha com o teu cabello.'
—'Então amas-me tu ainda?'
—'Se te amo! Como no primeiro…'
—'Não mintas, Carlos… E dorme.'
—'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e… E a minha gente?'
—'A tua gente está salva.'
—'Aonde?'
—'Aqui mesmo, em Santarem.'
—'Quero… não quero… Oh sim, quero mas é morrer. Tende misericordia de mim, meu Deus!'
—'Socega, Carlos.'
Mas Carlos não socegava: immudeceu porque a torrente de seus pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situação lhe imbargavam a voz, e o quebramento das fôrças lhe tolhia os movimentos do corpo; mas o espirito inquieto e alvoraçado revolvia-se dentro com um phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.
Á fôrça de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais tranquilla; e pela manhan o doente não dava cuidado ao facultativo que o veio ver.
Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de lhe não responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de que dependia a sua vida… e a d'ella, porque a infeliz amava-o… oh! amava-o como se não ama senão uma vez n'este mundo.
Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina pôde dizer-lhe um dia:
—'Carlos, meu Carlos, tu estás livre de perigo, vou restituir-te aos teus.'
—'Os meus!'
—'Os teus. Tua avó, tua prima…'
—'Joaninha! oh! Joanninha…'
—'Tua avó que tambem tem estado a morrer mas que emfim está escapa, ignora que tu estejas aqui. Occultámo-lo egualmente a tua prima.'
—'Ah!'
—'Sim, assentámos de lh'o não dizer a uma nem a outra até que tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porêm vais ve-las. E eu…'
—'Tu!'
—'Eu não tenho aqui mais nada que fazer.'
—'Georgina!'
—'Carlos!'
—'Tu ja me não amas?'
—'Não.'
Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos estorcia-se debaixo de uma compressão horrivel e incapaz de se descrever.
Carlos e Georgina. Explicação.—Ja te não amo! palavra terrivel.—Que o amor verdadeiro não é cego.—Frade no caso outra vez.Ecce iterum Crispinus; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco.
—'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas tu, Georgina? Ja não sou nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que derramavas em torrentes sôbre a minha alma, em que trasbordava o teu coração; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte celeste d'onde manava? Nem as recordações de nossa passada felicidade, nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios tremendos que por mim fizeste, nada, nada póde acordar na tua alma um echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas—da nossa vida, Georgina, porque nós chegámos a confundir n'um só os dois seres da nossa existencia—Oh! porque vivi eu até este dia? E tu, tu que refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado, que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'
—'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que mais o desesperava:—'Carlos, não abuses da pouca saude que ainda tens. O esfôrço d'alma que estás fazendo póde-te ser prejudicial. Socega. Tu illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamente sôbre a nossa situação, que não é agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que póde supportar-se se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente é. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me muito…'
—'Oh como, oh quanto! Nenhum homem…'
—'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu… quem sabe! talvez nenhum.—Não quero perder ésta última illusão… ja não tenho outra… Talvez nenhum amou como tu me amaste ou… ou cuidaste amar-me. Eu… oh! eu quiz-te… pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio, este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde consagrar licitamente.
Bem castigada estou: mereci-o.'
—'Georgina, Georgina!'
—'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de me ouvir.—Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva dedicação de todo o meu ser… dize-o tu.'
—'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es…'
—'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não ama.'
—'Não, certo, não.'
—'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam felizes como nós nos breves dias que isto durou.—Tu partiste para a tua ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam: não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego: o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.—Assim passaram meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas confortava-me, vivia de esperanças… triste viver mas doce! Emfim vieste para Lisboa, para aqui… e as tuas cartas que não eram menos ternas nem menos apaixonadas…'
—'Se eu nunca deixei, nem um momento…'
Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação, Georgina pôs a mão na bôcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com um arrebatamento, umafuria, n'um paroxismo de lagrymas e de soluços, que partiriam o coração ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas palpebras de seus olhos; mas se chegou até elles alguma lagryma mais rebelde, prompta refluiu para o coração, porque ao levantá-los outra vez e ao fixá-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros, celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.
Ella continuou:
—'As tuas cartas, que não eram menos ternas nem menos apaixonadas, começaram todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas… eram menos verdadeiras por fôrça. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da minha amizade vinha então para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei, procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos contendores: presagiava-me o coração que me havia de ser preciso. E foi; cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal acção que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no hospital dos feridos. Aopé de ti estava um frade…'
—'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'
—'Era elle.'
—'Pois tu sabes?..'
—'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras…'
—'Tu a elle… disseste?..'
—'Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei que me não importava o que fazia. Vi depois que me não inganára na confiança que posera n'elle. Trouxemos-te para este convento, trattámos de ti, conseguimos salvar-te a vida… E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui… fui feliz. A tua gente… a tua familia do valle tambem veio para Santarem… tua avó e tua prima, Carlos…'
—'Joanninha! Joanninha está aqui?'
—'Está; socega; ja t'o disse, logo a verás.'
—'Eu! Eu para quê? Eu não quero…'
—'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.'
—'Tudo o quê, Georgina?'
—'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fôra minha irman. Intendes bem agora que te não amo? Comprehendes agora que tudo acabou entre nós, e que não vejo, não posso ver em ti ja senão o espôso, o marido da innocente criança que tomei debaixo da minha protecção, e a quem juro que hasde pertencer tu?'
—'Juras falso.'
—'Como assim! Pois queres mais victimas? Não estás satisfeito com a minha ruina? Eu aomenos não sou do teu sangue. E essa velha decrepita que é tua avó, que duas vezes foi em verdade tua mãe porque te criou,—essa innocente que te ama na singelleza do seu coração… e esse pobre frade velho…'
—'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha familia. Malditto sejas tu, frade!'
O desgraçado não acabára bem de pronunciar éstas palavras, quando a porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de Fr. Diniz estava deante d'elle.
Carlos, Georgina e Fr. Diniz.—A peripecia do drama.—
Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma longa cadeira de recôsto; Georgina em pé, com os braços cruzados e na attitude de reflexiva tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de maio, feria os estreitos vidros da pequena janella que so dava luz áquelle quarto: a excessiva claridade era velada por uma longa e ampla cortina.
Carlos lançou derepente a mão a essa cortina e a affastou para avivar a luz do aposento. Um raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado rosto do frade, e reflectiu de seus olhos incovados, um como relampago de íra celeste que fez estremecer os dous amantes.
Não foi porêm senão relampago; sumiu-se, apagou-se logo. Aquelles olhos ficaram mortaes, mudos, fixos, invidraçados como os de um homem que acabou de expirar e a quem não cerraram ainda as palpebras.
E assim mesmo aquelles olhos tinham o podêr magnetico de fixar os outros, de os não deixar nem pestanejar.
Curvo, incostado a um bordão grosseiro, o seu chapeo alvadio debaixo do braço, o frade deu alguns passos tremulos para onde estavam os dous, arrastando a custo as sôltas alpercatas que davam um som baço e batido, e faziam—não sei por quê nem como—estremecer a quem as sentia.
Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e tenue, mas vibrante e solemne, do íntimo do peito, disse para Carlos:
—'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detestas-me, Carlos, de todos os podêres da tua alma, com toda a energia de teu coração; e eu venho-te dizer que te amo, que tomára dar a minha vida por ti, que do fundo das intranhas se ergue este immenso amor que não tem outro egual, a pedir-te misericordia, a clamar-te em nome de Deus e da natureza, a pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de respeito na terra, que levantes essa maldicção, filho, de cima da cabeça de um moribundo.'
Eram dittas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas lá de dentro d'alma com tal vehemencia, que lh'as não articulavam os labios, rompiam-n'os ellas e sahiam.
O soldado parecia desaccordado, confuso e sem intelligencia do que ouvia. Georgina impassivel até alli, rigida e inabalavel com o seu amante, sentia commover-se agora d'aquella angústia do velho. É que partia pedras a dor que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que trassudava d'aquelle rosto cadaverico.
Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons que pareciam arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e vindo, e dispersando-se para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se emfim, reboava ao longe pela villa, extendia-se nas praças, concentrava-se nas ruas, e mandava áquella solitaria e remota cella do convento uns echos surdos, como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmurar melancholico que precede um temporal d'equinoxio.
—'Ouves esse borburinho confuso, Carlos? É a tua causa que triumpha, é a d'estes loucos que succumbe, é a de Deus que a si mesmo se desamparou. A hora está chegada, escreveram-se as lettras de Balthasar; a confusão e a morte reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero ir morrer onde haja Deus… Perdoae-me, Senhor, a blasphemia!.. onde o seu nome não seja profanado e malditto…
Ao canto de uma pedra, debaixo de uma árvore hade ser, n'algum logar escuso d'essas charnecas, onde me não rasguem aomenos ésta mortalha, e m'a não insultem nos ultimos instantes, porque eu sou frade, frade, frade… o malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide morrer. Oh! assim tivera eu vivido!'
—'Mas que foi; que succedeu?'
—'O resto do exército realista evacua n'este momento Santarem; vão em fuga para o Alemtejo. Os constitucionaes venceram na Asseiceira, e tudo está ditto para nós. Para mim, Carlos, falta uma palavra so: quererás tu dizê-la?'
—'Eu?'
—'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em nome de Deus, filho, perdoa a teu…'
A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a compaixão, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do coração ás faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamação involuntaria lhe rebentou dos labios em meio d'este combate:
—'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha avó, e quem cubriu de infamia a minha… a toda a minha familia?'
—'Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh! mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É decreto da divina justiça que seja assim. Oh! assim meu Deus! ás mãos d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça…'
O frade cahiu de bruços no chão, e com as mãos postas e extendidas para o mancebo, clamava:
—'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o pé sobre o pescoço; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua familia e que fez a sua desgraça e a de quantos o amaram. Sim, Carlos, sê tu o executor das íras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da íra de Deus que me persegue.'
Reunião de toda a familia.—Explicação dos mysterios.—O coração da mulher.—Parricidio.—Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça a pobre da avó.
Georgina disse para Carlos:
—'Dá a mão a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdão que te pede.'
Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina ajoelhou aopé do frade, tomou as mãos d'elle nas suas, e lh'as affagou com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente o foi accalmando. O velho parecia uma criança mimada e sentida que se vai accalantando nos braços da mãe: agora so murmurava de vez em quando alguns soluços, a mais e a mais raros.
Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella amparava em seus braços e contra seu peito o amortecido corpo do velho. E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de Eva herdaram de sua primeira mãe, e que a ella ou lh'o tinham antes insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,—um som de voz que é a última e a mais decisiva da seducções femininas—disse:
—'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim,meuCarlos?'
Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante d'aquellas palavras do anjo supplicante.Meu Carlosditto assim, não o ouvíra elle ha muito tempo, não lhe pôde resistir: extendeu os braços para o frade, cahiu de joelhos aopé d'elle, e um so abraço uniu a todos tres.
Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma angústia.
Assim estiveram longamente; e não se ouvía entre elles senão algum gemido sôlto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve com o coração do que com os ouvidos.
O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca:
—'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem… oh perdoa á memoria de tua desgraçada mãe!'
O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em pé, hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovão:
—'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so ás minhas mãos deves morrer. E hasde.'
Lançou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aopé, massa terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a descarnada caveira do frade! D'ambas as mãos a levava no ar; e o velho extendeu para elle a cabeça como na ancia de morrer… Georgina fechou involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia consummar-se…
Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespêro e de terror, d'aquelles que so sahem da bôcca do homem quando suspenso entre a morte e a vida—soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezeseis annos, estava deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e extenuada figura da sua victima.
—'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: 'é teu pae meu filho. Este homem é teu pae, Carlos.'
O ponderoso velador cahiu inerte das mãos do mancebo, e rolou pesado e baço pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo Georgina estava aopé d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de braços. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pescôço que o excesso da commoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aopé d'elle. As duas mulheres moças lidavam pelo restaurar e lhe estancar o sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do collo e das cabeças, tudo se fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim.
Admiravel belleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam esse homem. Esse homem não merecia tal amor: não, por Deus! o monstro amava-as a ambas: está tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de cuidados e de ancia para o salvarem.
De tanto não somos capazes nós.
E por isso admirâmos tanto.
E perdoâmos tanto.
E esquecêmos tanto.
Mas amar tanto, não sabemos: verdade, verdade…
Amâmosmelhor; sim, isso sim:tantonão.
O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina e Joanninha—ja vereis que era Joanninha—olharam uma para a outra, coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mão á amavel criança, estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:
—'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o não amo; prometto.'
—'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle é tam infeliz!'
—'Juras-me tu de o não deixar, de velar por elle sempre, de o defender de si mesmo que é o peior inimigo que tem?'
—'Se juro!'
—'Então adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que não devia ouvir. Os segredos da tua familia não me pertencem. O coração d'esse homem não é meu, nem o quero. É um nobre e grande coração, Joanninha; mas… Não te deixes dominar por elle se o queres segurar. Adeus!—Santarem está desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa. Consola tua boa avó, e esse pobre velho. Elle não é tam criminoso, estou certa…'
—'Oh não! Carlos cuida-o assassino de seu pae; e é falso. Minha avó ja me disse tudo.'
—'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os olhos: 'é falso? Pois não foi elle que matou meu pae?'
—'Não, filho, clamou a velha: 'não, meu filho; teu pae é este infeliz.'
—'E minha mãe?'
—'Tua mãe… e eu somos duas desgraçadas. Que mais queres saber? Tua mãe amou esse homem…'
—'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os olhos pasmados para a avó e para o frade que cravaram os seus no chão, e ficaram como dous réos na presença do seu inflexivel juiz.
—'Mas esse homem que é… que por fôrça querem que seja meu… meu pae… Sancto Deus! elle matou o outro.'
—'Defendi-me, foi defendendo ésta vida miseravel… Oh nunca eu o fizera! E paraquê? Paraque quiz eu viver? Para isto!'
—'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem esse era preciso que morresse?'
—'Ambos se junctaram para me assassinar, e me accommetteram atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite escura e cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a minha vida á custa da d'elles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o que eu senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres para os lançar no rio, conheci as minhas victimas… Era hynverno, a cheia ia de valle a monte: quando abateu e se acharam os corpos ja meios desfeitos, ninguem conheceu a morte de que morreram; passaram por se ter affogado. Ninguem mais soube a verdade senão eu—e tua infeliz mãe a quem o disse para meu castigo, a quem vi morrer de pezar e de remorsos, que expirou nos meus braços chorando por elle, e maldizendo-me a mim. Não sería bastante castigo, meu filho?—Não foi, não. Este burel que ha tantos annos me roça no corpo, estes cilicios que m'o desfazem, os jejuns, as vigilias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua íra não me deixa, a sua cholera vai até a sepultura sôbre mim… Se me perseguirá além d'ella!..'
Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem respirava; o frade proseguiu:
—'Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, oh meu Deus!.. Tive o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circumstancias d'aquella morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime. Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sahir sangue e agua pelos olhos, até que lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por ésta derradeira expiação. Deus não o quiz. Aqui estou penitente a teus pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu tio… o algoz e a deshonra de tua familia toda.—Faze de mim como fôr tua vontade. Sou teu pae…'
—'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'
—'Misericordia, filho, e perdão para teu pae!'
Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, tomou-o a pêso nos braços, foi sentá-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de joelhos, beijou-lhe a mão em silencio. Depois foi abraçar-se com a avó, que o apalpava soffregamente com as mãos trémulas, e murmurava baixo:
—'Agora sim, ja posso morrer, ja posso morrer porque o abracei, porque o senti juncto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida…'
Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no coração, que ou lhe quebrára o sentimento ou lh'o não deixava expressar. Sahiu da cella fazendo signal que vinha logo: mas esperaram-n'o em vão… não tornou.
D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de juncto d'Evora onde estava com o exército constitucional.
Que não se acabou a historia de Joanninha.—Processo ao coração de Carlos.—Immoralidade.—Defeito de organização não é immoralidade.—Horror, horror, maldicção!—Um barão que não pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos—Porta de Atamarma.—Senatus consulto santareno.—Nossa Senhora da Victoriaafforada.—Threnos sôbre Santarem.
—Pois ja se acabou a historia de Joanninha?
—Não, de todo ainda não.
—Falta muito?
—Tambem não é muito.
—Seja o que for, acabemos, que está a gente impaciente por saber como se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza, Joanninha e a avó que caminho levaram, e o pobre Carlos se…
—Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem coração, que fazia a côrte—fazer a côrte ainda não é nada—que amava duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos romanticos: horror e maldicção!
—Horror seja, horror será… e horror é, sem dúvida. E maldicção que deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade é inganar, é mentir, é atraiçoar: e elle não o fez. Desgraça grande ter um coração assim; mas não me digam que é próva de o não ter. Eu digo que elle tinha coração de mais: o que é um defeito e grande, é um estado pathologico e anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente póde matar tambem o sentimento. Bem o creio: mas é molestia commum, e com que vai vivendo muita gente, até que um dia…
—Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, não póde funccionar mais, cessa a circulação e a vida. Deve ser horrivel morte!
—Fallam physicamente?
—Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse é o defeito deCarlos…
—Sentir muito?
—Não; ter sentido muito: que o coração, como orgam moral, não se dilata a esse ponto senão pelo demaziado excesso e violencia de sensações que o gastaram e relaxaram. Se esse é o defeito, a molestia de Carlos, digo que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir.
—Então qual foi?
—Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que chamam sceptico, que lhe morreu o coração para todo o affecto generoso, e que deu em homem politico ou em agiota.
—Póde ser.
—Mas qual das duas foi, deputado ou barão? queremos saber.
—Saberão.
—Queremos ja.
—E se fossem ambas?
—Oh horror, horror, maldicção, inferno! Ferros em braza, demonios pretos, vermelhos, azues, de todas as côres! Aqui sim que toda a artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sôbre esse monstro, esse…
—Esse quê? Pois em se acabando o coração á gente…
—Eu não creio n'isso. Acaba-se lá o coração a ninguem!..
Houve gargalhada geral á custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior á nossa espera.
Ámanhan o fim da historia da menina dos olhos verdes.
No caminho incontrámos o nosso antigo amigo, o barão de P.—barão de outro genero, e que não pertence á familia lineana que n'esta obra procurámos classificar para illustração do seculo—cavalheiro generoso, e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em tanto relêvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades improvisadas…
Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.
Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas d'aquella interessantissima terra em que se não póde dar um passo sem que a reflexão ou a imaginação incontre objecto para se entreter. Inclinando um pouco á direita, démos na celebrada porta de Atamarma.
Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio arabe n'esta terra.
Os illustrados municipaes Santarenos têem tido por vezes o nobre e generoso pensamento de demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!
A idea é digna da epocha.
Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição; e o senatus consulto dos dignos padres conscriptos não pôde ainda executar-se.
Não que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi reparando, concertando e conservando em suas successivas alterações, até chegar ao que hoje está: e ainda assim como está, é um monumento de respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.
Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a tradicção que primeiro erguida e consagrada á Virgem pelo heroico fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este é um dos muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e crida sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e o espirito nacional perde muito em as acceitar.
Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da fé christan e da fé patriotica levantado pelas mãos insanguentadas do triumphador!
Mas sería elle ou não que levantou essa capellinha? os documentos faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve ser rigorosa e verdadeira…
Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e são balizas da historia de uma nação, tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as conservará senão forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo?
Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos e sanctas, que a religião do povo tem por esses nichos e por essas capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escriptura, de que não ha outro documento, e que os frades chroniqueiros não julgaram dever escrever no livro de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos livros de pedra em que estava.
Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, reparadores e demolidores das futuras civilizações que, para pôr as coisas em ordem, tiram primeiro tudo do seu logar.
A camara de Santarem, não podendo demolir o arco, tomou um meio termo que appósto que ninguem é capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns annos, não sei paraquê nem porquê; o caso é que esteve.
O anno passado porêm (1842) começou a manifestar-se ésta reacção religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o seu tempo, inda bem! Veio, digo, ésta reacção nas ideas das gentes; e a capella da Senhora da Victoria sôbre o arco, não sei tambem como nem porquê, foidesafforada, e restituida ao culto popular.
Subimos a ver a capella por dentro: é um rifacimento ridiculo e miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna alguma.
Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me quero reconciliar com Santarem: e ja começa a ser difficil.
Mas é injustiça minha. Que culpa tem ella, coitada?
Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no cadaver.
Santarem, Santarem, levanta a tua cabeça coroada de tôrres e de mosteiros, de palacios e de templos!
Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e verás como eras bella e grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas.
Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: verás como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te restam.
Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu sepulchro deshonrado.
Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal que te deixe em paz ao menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos; que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela veneração antiga, as cinzas dos teus capitães, dos teus lettrados e grandes homens.
Dize-lhe que te não vendam as pedras de teus templos, que não façam palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que não mandem os soldados jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as cannellas dos teus sanctos.
Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios… tudo, menos o intulho e a caliça, as immundices e os monturos que deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praças.
Santarem, nobre Santarem, a Liberdade não é inimiga da religião do ceo nem da religião da terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, e em seus proprios desvarios se suicida.
A religião do Christo é a mãe da Liberdade, a religião do Patriotismo a sua companheira. O que não respeita os templos, os monumentos de uma e outra, é mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, intrega-a á irrisão e ao odio do povo……………………………….. …………………………………………………………………
Vamos ao Sancto-milagre.
A Graça e sua bella fachada gothica.—Sepultura de Pedr'alvares Cabral.—Outro barão que não é dos assignalados.—Egreja do Sancto-milagre.—Bellos medalhões mosarabes.—De como, chegando o prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.—Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D. Maria da Assumpção.—Casa onde succedeu o milagre, convertida em capella de stylo philipino.—O homem das botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.—Admiravel e graciosa esperteza da regencia do Rocio.—Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos folgasões; os melhores governos possiveis.—Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.
Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do arrendado e elegante frontispicio gothico da Graça. A ausencia de não sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperança de visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como outras bellas e interessantes antiguidades de não menor preço.
Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro illegitimo, porque não pertence aos barões assignalados
Que, sem passar além da Taprobana,No velho Portugal edificaramNovo reino que tanto sublimaram.
Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da irmandade que é, á grande cerimonia da exposição e ostensão do Sancto-milagre.
Junctos descémos á egreja, que é perto.
A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de homens e mulheres em relêvo que visivelmente pertenceram a edificação antiga, e que actualmente estão incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro.
Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, altos de relêvo e desenhados com uma franqueza que se não incontra em esculpturas muito posteriores.
São talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas successivas reedificações se teem ido conservando. Abençoado seja o escrupuloso que as salvou d'este últimomelhoramentoque houve no desgraçado e desgraçioso templo: o que não foi ha muitos annos por certo.
Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por que é a phrase vulgar e impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com mais exacção se devêra dizer mosarabe.
Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de irmãos com tochas, distribuiram-nos a cada um de nós a sua, e processionalmente nos dirigimos á porta lateral do altar-mor, da qual se sobe, por uma escada assás larga e commoda, á especie de camarim que está parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se conserva o grande paladio santareno.
Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao alto, ajoelhámos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns versetos a que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu repositorio uma especie de ambula de ouro de fábrica antiga, mas não mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.
Depois de nos inclinarmos e receber a bençam que o padre nos deitou com a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e observar.
Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da particula consagrada que a judia roubára para seus feitiços.
Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, não nos perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior compuncção.
Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrámos em conversação com o prior.
N'aquelle mesmo camarim juncto á devota reliquia se conservaram, por espaço de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpção, que fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da occupação d'aquella villa pelas fôrças realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, foi mettido n'um caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção estragou e rompeu a folha, e uma infecção terrivel apestava a egreja. Soffreu-se isto annos, representou-se ao govêrno por vezes, mas nenhuma resolução se pôde obter. Até que afinal, declarando o prior que, se não mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle se via obrigado a mettê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, á direita.
E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção nem epitaphio, a muito alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso principe D. João o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da conquista e navegação etc.
Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!
A visita ao Sancto-milagre não é completa sem se ir ver a casa onde elle se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande veneração, e em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje está abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma má porta que a defende das incursões dos animaes. Pena e desleixo grande, porque é elegante e graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gôsto do decimo-sexto seculo, de renascença ja muito adiantada no classico: é um verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha em toda a peninsula.
A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.
Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras beatas a irreverencia apparente, que bem sabem não ser eu de motejar com as coisas sérias e sanctas. Mas o facto é que a historia do Sancto-milagre está ligada com a célebre historia do 'homem das botas.'
Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja instrucção principalmente escrevo este douto livro, que pela invasão de Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e ahi se conservou alguns annos até muito depois da completa retirada dos francezes.
Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse—ou profanasse—que era o mais provavel—a sancta reliquia, começou a reclamá-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do Rocio.
Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govêrno que tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.
Não assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu povo, mas fazendo-o rir.
Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a restituição do Sancto-milagre que era de justiça fazer-se a Santarem, mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alborôto no povo.
Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gôsto; e bom gôsto teve tambem o govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,—fez-se annunciar por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a pé sem mais embarcação, vela nem remo.
A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios, outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as classes, e todos passaram o melhor do dia á espera do homem das botas.
No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu barco de agua-arriba, e navegava com vento e maré para as ditosas ribeiras de Santarem.
Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa senão quando constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.
Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam innocentemente se riu govêrno algum de ter inganado o povo.
Nós celebrámos a historia como ella merecia, e fomos jantar á Alcaçova, para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu inclyto alfageme.