CAPITULO XXXVII.

Que não se acabou a historia de Joanninha.—Processo ao coração de Carlos.—Immoralidade.—Defeito de organização não é immoralidade.—Horror, horror, maldicção!—Um barão que não pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos—Porta de Atamarma.—Senatus consulto santareno.—Nossa Senhora da Victoriaafforada.—Threnos sôbre Santarem.—Pois ja se acabou a historia de Joanninha?—Não, de todo ainda não.—Falta muito?—Tambem não é muito.—Seja o que for, acabemos, que está a gente impaciente por saber como se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza, Joanninha e a avó que caminho levaram, e o pobre Carlos se...—Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem coração, que fazia a côrte—fazer a côrte ainda não é nada—que amava duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos romanticos: horror e maldicção!—Horror seja, horror será... e horror é, sem dúvida. E maldicção que deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade é inganar, é mentir, é atraiçoar: e elle não o fez. Desgraça grande ter um coração assim; mas não me digam que é próva de o não ter. Eu digo que elle tinha coração de mais: o que é um defeito e grande, é um estado pathologico e anormal. Physicamente produz a morte; e moralmentepóde matar tambem o sentimento. Bem o creio: mas é molestia commum, e com que vai vivendo muita gente, até que um dia...—Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, não póde funccionar mais, cessa a circulação e a vida. Deve ser horrivel morte!—Fallam physicamente?—Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse é o defeito de Carlos...—Sentir muito?—Não; ter sentido muito: que o coração, como orgam moral, não se dilata a esse ponto senão pelo demaziado excesso e violencia de sensações que o gastaram e relaxaram. Se esse é o defeito, a molestia de Carlos, digo que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir.—Então qual foi?—Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que chamam sceptico,que lhe morreu o coração para todo o affecto generoso, e que deu em homem politico ou em agiota.—Póde ser.—Mas qual das duas foi, deputado ou barão? queremos saber.—Saberão.—Queremos ja.—E se fossem ambas?—Oh horror, horror, maldicção, inferno! Ferros em braza, demonios pretos, vermelhos, azues, de todas as côres! Aqui sim que toda a artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sôbre esse monstro, esse...—Esse quê? Pois em se acabando o coração á gente...—Eu não creio n'isso. Acaba-se lá o coração a ninguem!..Houve gargalhada geral á custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior á nossa espera.Ámanhan o fim da historia da menina dos olhos verdes.No caminho incontrámos o nosso antigo amigo, o barão de P.—barão de outro genero, e que não pertence á familia lineana que n'esta obra procurámos classificar para illustração do seculo—cavalheiro generoso, e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em tanto relêvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades improvisadas...Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas d'aquella interessantissima terra em que se não póde dar um passo sem que a reflexão ou a imaginação incontre objectopara se entreter. Inclinando um pouco á direita, démos na celebrada porta de Atamarma.Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio arabe n'esta terra.Os illustrados municipaes Santarenos têem tido por vezes o nobre e generoso pensamento de demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!A idea é digna da epocha.Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição; e o senatus consulto dos dignos padres conscriptos não pôde ainda executar-se.Não que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi reparando, concertando e conservando em suas successivas alterações, até chegar ao que hoje está:e ainda assim como está, é um monumento de respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a tradicção que primeiro erguida e consagrada á Virgem pelo heroico fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este é um dos muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e crida sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e o espirito nacional perde muito em as acceitar.Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da fé christan e da fé patriotica levantado pelas mãos insanguentadas do triumphador!Mas sería elle ou não que levantou essa capellinha? os documentos faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve ser rigorosa e verdadeira...Deve: e os grandes factos importantes que fazemepocha e são balizas da historia de uma nação, tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as conservará senão forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo?Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos e sanctas, que a religião do povo tem por esses nichos e por essas capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escriptura, de que não ha outro documento, e que os frades chroniqueiros não julgaram dever escrever no livro de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos livros de pedra em que estava.Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, reparadores e demolidores das futuras civilizações que, para pôr as coisas em ordem, tiram primeiro tudo do seu logar.A camara de Santarem, não podendo demolir o arco, tomou um meio termo que appósto que ninguem é capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns annos, não sei paraquê nem porquê; o caso é que esteve.O anno passado porêm (1842) começou a manifestar-se ésta reacção religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o seu tempo, inda bem! Veio, digo, ésta reacção nas ideas das gentes; e a capella da Senhora da Victoria sôbre o arco, não sei tambem como nem porquê, foidesafforada, e restituida ao culto popular.Subimos a ver a capella por dentro: é um rifacimento ridiculo e miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna alguma.Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me quero reconciliar com Santarem: e ja começa a ser difficil.Mas é injustiça minha. Que culpa tem ella, coitada?Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no cadaver.Santarem, Santarem, levanta a tua cabeça coroada de tôrres e de mosteiros, de palacios e de templos!Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e verás como eras bella e grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas.Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: verás como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te restam.Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu sepulchro deshonrado.Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugalque te deixe em paz ao menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos; que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela veneração antiga, as cinzas dos teus capitães, dos teus lettrados e grandes homens.Dize-lhe que te não vendam as pedras de teus templos, que não façam palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que não mandem os soldados jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as cannellas dos teus sanctos.Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios... tudo, menos o intulho e a caliça, as immundices e os monturos que deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praças.Santarem, nobre Santarem, a Liberdade não é inimiga da religião do ceo nem da religião da terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, e em seus proprios desvarios se suicida.A religião do Christo é a mãe da Liberdade, a religião do Patriotismo a sua companheira. Oque não respeita os templos, os monumentos de uma e outra, é mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, intrega-a á irrisão e ao odio do povo.Vamos ao Sancto-milagre.CAPITULO XXXVII.A Graça e sua bella fachada gothica.—Sepultura de Pedr'alvares Cabral.—Outro barão que não é dos assignalados.—Egreja do Sancto-milagre.—Bellos medalhões mosarabes.—De como, chegando o prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.—Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D. Maria da Assumpção.—Casa onde succedeu o milagre, convertida em capella de stylo philipino.—O homem das botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.—Admiravel e graciosa esperteza da regencia do Rocio.—Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos folgasões; os melhores governos possiveis.—Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do arrendado e elegante frontispicio gothico da Graça. A ausencia de não sei que regedor, ou insignificante personagemque não respeita os templos, os monumentos de de egual importancia que tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperança de visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como outras bellas e interessantes antiguidades de não menor preço.Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro illegitimo, porque não pertence aos barões assignaladosQue, sem passar além da Taprobana,No velho Portugal edificaramNovo reino que tanto sublimaram.Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da irmandade que é, á grande cerimonia da exposição e ostensão do Sancto-milagre.Junctos descémos á egreja; que é perto.A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de homens e mulheres em relêvo q A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de homens e mulheres em relêvo que visivelmente pertenceram a edificação antiga, e que actualmenteestão incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro.Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, altos de relêvo e desenhados com uma franqueza que se não incontra em esculpturas muito posteriores.São talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas successivas reedificações se teem ido conservando. Abençoado seja o escrupuloso que as salvou d'este últimomelhoramentoque houve no desgraçado e desgraçioso templo: o que não foi ha muitos annos por certo.Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por que é a phrase vulgar e impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com mais exacção se devêra dizer mosarabe.Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de irmãos com tochas, distribuiram-nos a cada um de nós a sua, e processionalmente nos dirigimos á porta lateral do altar-mor, da qual se sobe, por uma escada assás larga e commoda, á especie de camarimque está parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se conserva o grande paladio santareno.Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao alto, ajoelhámos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns versetos a que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu repositorio uma especie de ambula de ouro de fábrica antiga, mas não mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.Depois de nos inclinarmos e receber a bençam que o padre nos deitou com a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e observar.Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da particula consagrada qu Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da particula consagrada que a judia roubára para seus feitiços.Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, não nos perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior compuncção.Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrámos em conversação com o prior.N'aquelle mesmo camarim juncto á devota reliquia se conservaram, por espaço de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpção, que fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da occupação d'aquella villa pelas fôrças realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, foi mettido n'um caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção estragou e rompeu a folha, e uma infecção terrivel apestava a egreja. Soffreu-se isto annos, representou-se ao govêrno por vezes, mas nenhuma resolução se pôde obter. Até que afinal, declarando o prior que, se não mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle se via obrigadoa mettê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, á direita.E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção nem epitaphio, a muito alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso principe D. João o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da conquista e navegação etc.Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!A visita ao Sancto-milagre não é completa sem se ir ver a casa onde elle se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande veneração, e em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje está abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma má porta que a defende das incursões dos animaes. Pena e desleixo grande, porque é elegante e graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gôsto do decimo-sexto seculo, de renascença ja muito adiantada no classico: éum verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha em toda a peninsula.A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras beatas a irreverencia apparente, que bem sabem não ser eu de motejar com as coisas sérias e sanctas. Mas o facto é que a historia do Sancto-milagre está ligada com a célebre historia do 'homem das botas.'Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja instrucção principalmente escrevo este douto livro, que pela invasão de Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e ahi se conservou alguns annos até muito depois da completa retirada dos francezes.Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse—ou profanasse—que era o mais provavel—a sancta reliquia, começou a reclamá-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do Rocio.Em poucas preplexidades tam graves se viuaquellepobre govêrno que tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.Não assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel stratagema,digno de ornaros maravilhosos fastos do grande Aaroun el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu povo, mas fazendo-o rir.Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a restituição do Sancto-milagre que era de justiça fazer-se a Santarem, mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alborôto no povo.Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gôsto; e bom gôsto teve tambem o govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em que o Sancto-milagre devia sahir deLisboa Tejoacima, e que se esperava fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,—fez-se annunciar por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a pé sem mais embarcação, vela nem remo.A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios, outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as classes, e todos passaram o melhor do dia á espera do homem das botas.No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu barco de agua-arriba, e navegava com vento e maré para as ditosas ribeiras de Santarem.Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa senão quando constou da sua chegadaa Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam innocentemente se riu govêrno algum de ter inganado o povo.Nós celebrámos a historia como ella merecia, e fomos jantar á Alcaçova, para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu inclyto alfageme.CAPITULO XXXVIII.Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.—Sautés e salmis.—Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do Alfageme.—A espada do Condestavel.—Desappontamento.—O salão elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.—Tudo melhor quando visto de longe.—O baile público.—Soirée de piano obrigado.—Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel das traducções. Destempêro dos originaes.—A xácara de rigor, o subterraneo e o cemiterio.—Sublime gallimathias do ridiculo.—A bella e necessaria palavra 'gallimathias.'—Se as saudades matam.—Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.—De como a logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias.Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hóspede, nos regios paços de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos os cavalheiros da terra.—Não querodizer as notabilidades, por ser palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.—As iguarias de legítima eschola portugueza, não menos saborosas e delicadas por apparecerem estremes desautés e salmisextrangeirados. Brilharam sôbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.Acabámos tarde, montámos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma descémos á Ribeira; era quasi sol pôsto quando la chegámos.É o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella. Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram á sombra dos castellos feudaes e que, libertas, depois, da oppressora protecção, cresceram e ingrossaram em substancia e fôrça: o castello, esse está vazio e em ruinas.Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios e independencia do character primitivo: é a unica parte viva de Santarem.Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum vestigio,confrontar algumsítio onde podessemos collocar, pela mais atrevida supposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas—e o joven Nun'alvares passeando alli por pé, ao longo do rio—como diz a chronica—namorado d'aquella perfeição de trabalho, e dando a 'correger' a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem e salvador da sua patria.Nada podémos descubrir com que a imaginação se illudisse siquer, que nos désse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para reconstruirmos a gothica morada do célebre cutileiro-propheta que a historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez reclama da historia.Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e replastagens successivas teem anachronizado tudo. É umafelizexpressão do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi todos os nossos monumentos, ésta de anachronismo.Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha os templos, os conventos, a cêrca das muralhas que todavia conservam a physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto é, da sua pedra e cal: gósto immenso da sua gente.Outra surpreza de mui differente genero nos esperava á noite em Marvilla, no elegante salão da B. d'A. com quem fomos tomar cha.Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de civilização e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo graciosamente as honras d'ella—por mais que se devesse esperar—sempre espanta á primeira vista: parecia golpe de varinha de condão.Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se não perder detodo a côr local talvez.Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos amigos, das festas do último hynverno, das probabilidades que se deviam esperar do futuro.Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos París e Londres e não sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades d'ella; e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a que não era tam má terra como isso.Admiravel condicção da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe!O baile público mais semsabor, detestavel de barulho e confusão, em que, para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso furar por entre centenas de cotovellos barbarosque se não sabe d'onde vieram, levar desalmadas pisadellas do dançante noviço, do deputado recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha—e, mais horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja não é senão reminiscencia que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animação lembra com prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a suspirar por elle.A soirée mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka das primas e casino das tias velhas—recordada em eguaes circumstancias, tambem ja não accode á memoria senão como uma reunião escolhida e íntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações do tenor,ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!A injoativa traducção de uma comedia da Rua-dos-condes, roída de incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graças do stylo de Scribe.E o destempêro original de um drama plusquam romantico, laureado das imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas bôccas! Lá de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que fummou todo o primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, e conversou nos outros, até á infallivel scena da xacara, do subterraneo, do cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador branco, indoudece de rigor,—o gallan, passando a mão pela testa, tira do profundo thorax os tresahs!do stylo, e promette matar seu proprio pae que lhe appareça—o centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas... e maldicção, maldicção, inferno!... 'Ah mulher indigna, tu não sabes que n'este peito ha um coração, que d'este coração sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias—e que n'estas veias corre sangue...sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sêde, e é de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero matar... esquartejar, chacinar!'—E a mulher ajoelha, e não ha remedio senão applaudir...E applaude-se sempre.E não é de mim que fallo, que eu gósto d'isto: os outros é que se infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...Mas emfim o que digo é que na provincia não ha tal fastio, que esquece a canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se percebe.Peço aos illustres puritanos que, á fôrça de sublimado quinhentista, tem conseguido levar a lingua á decrepitude para a curar de suas infermidades francezas, peço-lhes que me perdoem ogallimathias, porque elle é muito mais portuguez que outra coisa. A célebre oraçãopro gallo Mathiaedeu origem a ésta bella e ex deu origem a ésta bella e expressiva palavra, que sim foi procreada em francez, mas hojeprecisâmos ca muito mais d'ella que em parte nenhuma.Volto ja da digressão philologica: tornemos á optica e á catoptrica.Grande coisa é a distancia!E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a salvação de muita coisa que, em seu pleno gôso e posse pacífica, pereceria de inanição ou morreria da oppressora molestia da saciedade.Por isso eu não gósto de metter o scalpello no mais perfeito da construcção humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do seu funccionar...Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se cuidava... vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro demais que temos passado a vida a mentir...Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoherencias.Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo.CAPITULO XXXIX.Processo de scepticismo em que está o auctor.—Moralistas derequiem.—O maior sonho d'esta vida, a logica.—Differença do poeta ao philosopho.—O coração de Horacio.—O collegio de Santarem.—Jesuitas e templarios.—O alliado natural dos reis.—'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'—San'Frei Gil e o Doutor Fausto.—De como o A. foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.—Quem o roubaria?O final do capítulo antecedente é, bem o sei, um terrivel documento para este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas derequiemde quem tenho a audaciade me rir, d'elles e da sua querella e do seu processo, protestando não me aggravar nem appellar, nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentença que suas excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.Feita ésta declaração solemne, procedamos.E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfação, a ti, se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a pagina obnoxia, porque essas reflexões do último capítulo são tam deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e não despertes do bello-ideal da tua logica.É uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, ésta de ser a logica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da poesia.É que os philosophos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o que est'outros não são.Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que é melhor.Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre Eolo aquelle vento sêcco e duro, flagello dos estios portuguezes. Suspira no ar uma viração branda e suave que regenera e dá vida. Mal impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven natureza, sob a remoçada espessura das árvores, sôbre a alcatifa sempre renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo pulsar lento e compassado o coração livre e sôlto de todo impenho, o verdadeiro coração de Horacio,Solutus omni foenore!Tomára-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar á porta, a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio d'este quadro suave, que não póde destruir-lhe toda a amenidade bucolica, por mais que faça.Lá voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e lá concluiremos, como é de razão, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que é tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de Santarem.Cá estamos no Collegio, edíficio grandioso, vasto, magnífico, propria habitação da companhia—rei que o mandou construir para educar os infantes seus filhos.Creio que ésta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para isto tinham os Jesuitas em Portugal.Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia formidavel e quasi régia que aquelles levantaram com a espada, tinham estes fundado com a doutrina. Riquezas, podêr, influencia, uns e outros as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam do mesmo modo.Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se converteram em associações secretas para conspirarem; ambas tomaramdiversos nomes e variadas máscaras para o fazerem mais seguramente.Ambas em vão!O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla todas essas conspirações. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... É a alliada natural dos reis a democracia.O edificio do Collegio é todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais bellos specimens d'esse stylo, que em geral sêcco, duro e sem poesia, não deixa comtudo de ser grandioso.Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras da cathedra administrativa. É a séde do govêrno civil chamado: corrumper a moral do povo, sophismar o systema representativo é o thema das licções.Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e não sei em que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna quedeve supprir a antiga e antiquada de—'ficou no tinteiro'—por muitas razões, até porque hoje não fica nada no tinteiro senão o senso commum, tudo o mais de lá sai, tudo. E muitas graças a Deus quando não passa ás ballas do impressor para dar a volta do mundo.Santarem é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um grande estabelecimento de instrucção e de educação pública. Porque não hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande eschola, seja qual for? Porque hade ser ésta centralização d'insino em Lisboa? Em que se funda um privilegio dado á capital em prejuizo e á custa das provincias?Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar. Não sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabára de servir, não imaginam de quê... de palheiro!A derradeira camada de palha que apodrecêra,adheria ainda ao lagedo humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal podémos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo da egreja como dizem, é de um miseravel e moderno anachronismo.Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse resistir, quiz approveitá-lo em examinar a principal e mais interessante reliquia da profanada egreja—a capella e jazigo do grande bruxo e grande santo, San'Frei-Gil.Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e é comeffeito. Não lhe falta senão o seu Goethe.

Que não se acabou a historia de Joanninha.—Processo ao coração de Carlos.—Immoralidade.—Defeito de organização não é immoralidade.—Horror, horror, maldicção!—Um barão que não pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos—Porta de Atamarma.—Senatus consulto santareno.—Nossa Senhora da Victoriaafforada.—Threnos sôbre Santarem.

A Graça e sua bella fachada gothica.—Sepultura de Pedr'alvares Cabral.—Outro barão que não é dos assignalados.—Egreja do Sancto-milagre.—Bellos medalhões mosarabes.—De como, chegando o prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.—Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D. Maria da Assumpção.—Casa onde succedeu o milagre, convertida em capella de stylo philipino.—O homem das botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.—Admiravel e graciosa esperteza da regencia do Rocio.—Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos folgasões; os melhores governos possiveis.—Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.

Que, sem passar além da Taprobana,No velho Portugal edificaramNovo reino que tanto sublimaram.

Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.—Sautés e salmis.—Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do Alfageme.—A espada do Condestavel.—Desappontamento.—O salão elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.—Tudo melhor quando visto de longe.—O baile público.—Soirée de piano obrigado.—Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel das traducções. Destempêro dos originaes.—A xácara de rigor, o subterraneo e o cemiterio.—Sublime gallimathias do ridiculo.—A bella e necessaria palavra 'gallimathias.'—Se as saudades matam.—Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.—De como a logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias.

Processo de scepticismo em que está o auctor.—Moralistas derequiem.—O maior sonho d'esta vida, a logica.—Differença do poeta ao philosopho.—O coração de Horacio.—O collegio de Santarem.—Jesuitas e templarios.—O alliado natural dos reis.—'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'—San'Frei Gil e o Doutor Fausto.—De como o A. foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.—Quem o roubaria?

Solutus omni foenore!


Back to IndexNext