XX

[13]Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—Nota da 2.ª edição.[14]Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a tipographia, que ainda subsiste.—Nota da 2.ª edição.{164}XXEduardo CoelhoEm 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um tudo-nada d'essa animação popular que, á meia-noite, havia de repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres, á saida da missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam oJornal da Noite, que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saía depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje está a ourivesaria Leitão. Vendedores decautelasrouquejavam o pregão dataluda, o 4897, perseguindo a gente.Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e,{165}diga-se francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia o meu coração na salsugem de recordações esfumadas, de memorias fugitivas d'aquella noite de festa.Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia aventurar-me a uma exploração, não direi tão arriscada como as do sertão africano, mas não inteiramente isenta de difficuldades, por certo.Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim de encontrarmo-nosdefinitivamente, fosse eu á redacção doDiario de Noticias, ás nove horas da noite.Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua doDiario de Noticiasé de recente data.Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, não se orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem não são capazes de sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama.Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho doDiario de Noticias, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho!Finalmente, entrei na redacção doDiario de Noticiasquarenta minutos depois da hora aprazada.Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora.Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto,{166}riu da minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me:—Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura doDiario de Noticias, mas ganhou o ficar habilitado a tornar cá com os olhos tapados.Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos amigos.Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se.Ia fazer a meia noite, com a sua familia, disse-me. Eu não sabia o que erafazer a meia noite. Coelho riu-se.—É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do Natal.Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e redactor principal doDiario de Noticias.Em maio de 1889 chegava eu ágarede Campanhã, no Porto, em virtude de um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo oJornal da manhã:—Morreu o Eduardo Coelho.—De repente?—Sim, de repente.—Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava...Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que foi, deve dizer-se,uma das forças do seu tempo.Depois de haver sido um dosvencidos da vida(não no sentido pantagruelico que esta denominação está{167}tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que o salvasse.Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já não poderá desgarrar-se.Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole noticiosa e popular doDiario de Noticias.Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie de gazeta feita... á gazeta.Mas os moldes doDiario de Noticiasnunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, ablaguephantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio—este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor, eis o proposito inicial doDiario de Noticias.Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de litteratice, n'um{168}tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que oDiario de Noticiasse propoz conseguir, e realisou.Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a epiderme doDiario de Noticias: queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica doMartinho. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação, viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a.Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com oDiario de Noticias, que, se o lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante nudez da sua verdade anatomica.Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas oDiario de Noticiasdiz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se vendem avulso.A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um{169}vintem por dia: dez réis para o seuDiario de Noticias, dez réis para o carapau do seu gato.Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem preliminarmente oDiario de Noticias, encostados ás esquinas das ruas.Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato dasmaltas, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a verba effectiva doDiario de Noticias, cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta, para o grupo todo.É isto ou não é isto?Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou n'um facto indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua gloria, a sua evidencia não lhe veiu dos livros, veiu-lhe doDiario de Noticias.No proprio dia em que elle se enterrava, oDiario de Noticiasappareceu carregado de annuncios: era a affirmação glorificadora de que elle não trabalhára debalde e de que a sua idéa se havia convertido definitivamente n'uma instituição lisbonense.{170}XXIMarquez de ThomarQuando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a politica.Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza.Teriam gritado: predestinação! E diriam,una voce, que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de Thomar—lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada.Effectivamente, os Cabraes haviam caido com aMaria da Fonte, o conde de Thomar fugira para Hespanha,{171}mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o de novo ao poder.1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação da republica em França e quando estava germinando aregeneração, foi que me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis.Mas como o acaso—essa bussola misteriosa que nortea os destinos humanos—não quiz que eu viesse a ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel.No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter sido annunciado pelo himno daMaria da Fonte.Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção para a época da sua decadencia politica. Eu entrei n'este mundo durante oscem dias, posso dizel-o assim, de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera restauração.O que é certo é que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... E assim foi que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que tinha caído definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.{172}Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se oEspectroe aMaria da Fonte, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos Cabraes.Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época nem sequer poupava a esposa do ministro caido:Luizinha, agora, agora...Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impressões que, para assim dizer, trouxera do berço.Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante.Vi o Sampaio daRevolução... de guardanapo ao pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor doEspectro, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em politica.Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão indeciso.Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi{173}as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléasenragés.É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as impaciencias, envelhecido os homens.Chegára apaz geral, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,[15]havia prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de Thomar.Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que se desfizeram em fumo!Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles diziam...Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria daMaria da Fontetinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações no papel do que nos homens.Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro e por fóra, a natureza humana.{174}De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia em determinadas aptidões; mas a energia de caracter tinha sido igual em todos tres.Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram precisas duas revoluções para o derrubar, porque á primeira resistiu elle.Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o implacavelmente com oEspectro, amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem.Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os embates, que procuravam lançal-o por terra na sua gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos tres eram corações generosos, almas de bom timbre, expansivas e affectuosas.Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão lá do alto a sombra que projectaram na terra, e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos parece enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixões, as suas furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo através da historia...Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral, algumas notas discordantes.Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, mas a primeira condição para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial{175}das circumstancias em que se encontrou. É preciso reconstruir toda uma época para julgar com segurança um homem politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz.Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e conservador. Esta accusação póde ser fulminada contra a maior parte dos homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello.Pois bem, os homens de estado têem que obedecer ás correntes caprichosas da opinião—tão caprichosas como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente lançada na circulação, explica bem todas as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado.Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação!Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, subjugando-a.Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de si mesmo centenas de vezes.Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se{176}dos mais dedicados amigos. Quem não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força.O sr. Oliveira Martins accusa-o, noPortugal Contemporaneo, de ter governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os governos... Haveis de ficar ricos com o achado!...Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.Setembro de 1889.[15]Esbocei saudosamente o seu perfil no livroFiguras humanas.—Nota da 2.ª edição.{177}XXIIAlexandre da ConceiçãoAlexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado as musas a esse tempo.Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o titulo deAlvoradas. E dez annos depois fez segunda edição augmentada com novas composições.Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. Dou comospecimenaquella das suas poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livroAlvoradas,{178}póde ajuizar, pelospecimen, do valor de Alexandre da Conceição como poeta:PERGAMINHOSNão me esmagam, mulher, os teus sorrisos;Eu tenho mais orgulho do que pensasE rio-me tambem;É debalde que tentas humilhar-me,Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!Que tambem sou alguem.Alguem que veio ao mundo sem familia,Um producto do acaso, um paria, um misero,Um engeitado emfim,Um sêr sem protecção das leis canonicas,Filho sem pae no assento do baptismo,Mas um sêr, inda assim.Levantou-me da estrada do infortunioUm homem que entendeu que um filho espurioTem jus a protecção,Um homem que entendeu que é vil e infameAtirar para o lodo dos hospiciosUma alma em embryão.Este homem deu-me a força do seu braço,Legou-me em vida o seu honrado nome...Vestiu quem era nu,Depois, quando me viu robusto e forte,Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,Trabalha agora tu.»Luctei, passei curvado sobre os livrosA mais florida quadra dos meus diasSereno a trabalhar;Estudei, progredi, illuminei-meE um dia para entrar em novas luctas,Pude emfim descançar.É que eu vi as premissas da victoria,O applauso espontaneo dos estranhosIncitar-me a seguir,É que eu via deante dos meus passosRasgar-se ampla, infinita, luminosaA estrada do porvir.{179}Se alguma cousa sou a mim o devo,Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,Ao amor de meus paes,Á força de vontade, á intelligencia,Á sociedade pouco, ás leis bem menos...E a ti não devo mais.E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?E és tu que vens fallar-me nas riquezasQue o destino te deu?Eu não troco os meus louros de poeta,As conquistas do estudo e o meu futuroPor tudo quanto é teu.És louca!... Sabes lá que orgulho é esteDo homem que a si só deve o que valeE que espera valer?Ha lá brazões illustres que equilibremEstes louros viçosos d'um triumphoQue soubemos mercer?És louca! Sabes lá como eu sou rico,Rico de muita honra e muita esp'rançaE muito coração?És louca! Mostra a escravos as riquezas,Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,Sou bastante christão.E quem te disse a ti que eu te invejavaEsse ouro, que é teu unico prestigioE o nome a teus avós?Orgulhosa!... pois julgas decididoQual seja, n'esta lucta de vaidades,O mais nobre de nós?Pois julgas que ser nobre é mero acaso,Uma questão de berço ou de destino,Uma questão de paes?Não vês que se a nobreza fosse heranca,Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,Seriamos eguaes?E não somos, bem vês, porque a nobrezaNão se lega, conquista-a a intelligencia,O talento, as acções;{180}Ora eu, se me permittes a vaidade,Colloco um pouco abaixo dos meus lourosTodos os teus brazões.Devolvo-te portanto os teus insultosE a suspeita de te adorar os risos,Que nunca mendiguei;Se és bella e tens orgulhos de rainha,Mulher, entende bem, eu sou poeta,Tenho orgulhos de rei.Que é esta a nossa força; n'estes temposEm que a estupidez má enche as mãos d'ouroPara nos insultar,É modestia a orçar pela baixezaNão fazermos sentir aos maus e aos futeisQuem devem respeitar.Não me compares, pois, a horda ignaraQue te adora os sorrisos pelo ouro...Eu tenho coração,Tenho por pergaminhos o trabalho,Por thesouros a minha intelligenciaE a honra por brazão.Nós, os homens que andamos procurandoÁ luz do coração por este mundoOs caminhos do bem,Como trazemos alto o pensamentoE a fronte erguida ao céo, temos orgulho,Bem vês, como ninguem.Em 1867 publicou o poemetoAbençoada esmola, que considero inferior á maior parte das composições incluidas nasAlvoradas.A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda naAbençoada esmolaa destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado a prosaicas occupações.E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito{181}discutimos n'uma serie de cartas publicadas noJornal do Portodesde dezembro de 1871 a março de 1872.A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da Conceição n'um folhetim doNacional. Quando a questão rompeu noJornal do Porto, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, especialmente em politica.Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era resoluto na expansão das suas convicções.Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito doEuzebio Macario, historia natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes.Nadedicatoriadeclarava Camillo o intento que o demovera a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos osticsdo estylo realista. Respondi temerariamente que sim.»OEuzebio Macariofoi a justificação d'esta affirmativa, d'este compromisso espontaneamente tomado.Camillo, o inexcedivel romantico doAmor de perdição, provou o seu pulso de escriptor realista noEuzebio Macarioe, depois, naCorja. Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.{182}Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e em litteratura para o realismo.[16]Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas noEuzebio Macarioa pretensãode lançar o ridiculo sobre a escola realista.D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista.O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no combate.Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios do seu contendor.Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, noCafé Marrare, n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos.O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que{183}nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa cruel peleja.... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella alma ardente, mas fidalga.E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem pão.[16]Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo deNotas, ensaios de critica e de litteratura.—Nota da 2.ª edição.{184}XXIIIJulio Cesar MachadoNo dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamambons dias, quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma dolorosa noticia...A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento de attenção em passando...A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes{185}com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto das grandes ruinas...A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que melhor a personificou no mundo...Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?!Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o peso da vida.Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que uma lagrima—apenas!«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livroScenas da minha terra); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos, essas lagrimas...»«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua{186}terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17]«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»[18]«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anecdota!»[19]Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas horas.Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor ao seu livro mais querido,Os contos ao luar.{187}—Ó Julio, o teu prologo dosContosleio-o ás vezes para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livroContos ao luar!» Bonito, como eram então as coisas bonitas!—Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... respondia-me elle uma vez.E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o perdeu;—basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.Foi no livroManhãs e noitesque elle saudou com excessivo favor os meus primeiros trabalhos litterarios, asPeregrinações na aldeae o romancesitoIdyllios á beira d'agua. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado algumas cartas.Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no Porto:Photographias de Lisboa.{188}Reproduzo uma pagina d'esse livro:«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahoticoatelierdo Julio.«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor noménage, é um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado livroPhysiologie du ridicule. É effectivamente raro este livro, cuja primeira edição data de 1833.«—Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou o nosso Camillo.«E tirando para fóra um livro:«—Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar aPhysiologia do ridiculo, alegre-se que vae vêl-a.{189}«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:«—E lel-a.«O Julio havia escripto:«Ao seu amigo Alberto Pimentel—lembrança de Lisboa em outubro de 1873.Julio Cesar Machado.»«E entregando-me o livro:«—E tel-a.«Era impossivel recusar; acceitei.»Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares, intimas, otuveio consolidal-as como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem desde a infancia.Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estação de aguas alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira. Uma bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse de leve saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho apearam-se n'uma estação que não sei dizer ao certo se era o Bombarral ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, saboreando a sua modestavillegiature.Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:—Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!É o seu livro que mais fala da Durruivos.Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços como para receber as minhas palavras, e depois, com a mão direita, acenou na direcção dos campos, dos arvoredos da Durruivos.O Julito agitou no ar o seu chapeu.E o comboio partiu.[17]e[18]Do livroRecordações de Paris e Londres.[19]Do livro, o seu ultimo livro,Mil e uma historias.{190}XXIVJoão de Andrade CorvoAinda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da minha modesta bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no futuro pantheon dos meus auctores predilectos.Ainda foi outro dia!...De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de trabalho, pude reunir n'um só logar todos os seus volumes, incluindo os dois daVida em Lisboa, que vão sendo muito raros no mercado.É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente me oriento. Acho fria, monotona a arrumação sistematica por auctores, dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essagrande confusiontumultuaria em que Voltaire dá o braço a Chateaubriand, em que Rénan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte.Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente{191}cancandos espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves como espectros, outros folgazãos como collegiaes; estes sorrindo desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos.Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de culto privativo—o culto da saudade—e dei-lhe um logar reservado n'um só lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de antiga leitura, e muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.Hoje alargo as dimensões do compartimento em que Julio Machado era inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras, as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e estimando-se e comprehendendo-se continuarão conversando um com o outro no mesmo lote da minha estante.Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu respeito. No folhetim semanal doEconomistaapreciei eu dois volumes dos seusContos em viagem, e não sei se foi n'essa occasião, ou em qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista historico, declarei francamente antepôr o seuUm anno na côrteá tão preconisadaMocidade de D. João V, de Rebello da Silva.Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não reconheça em Rebello da Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da época, e na fidelidade dos caracteres.A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. Elle foi dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico.{192}Em todas estas espheras de acção firmou creditos inabalaveis de homem eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar senão um defeito: não ter orthographia. Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente tem a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto á orthographia do sr. Corvo, é provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse má; mas é tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava a sonica, a achasse boa.Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não com bilhete deida e volta, como quem vae passar dois dias santos fóra da terra, mas como esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em Misericordia.Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, mas por divertimento. A sua grande distracção era estudar, saber.E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado noClaudio:«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras, metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em allemão, dois em grego. OMartinhoexultou. O homem novo ia matar tudo.«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha não só mais talento que elle, mas outra qualidade de merecimento e outra seriedade de estudo. Incommodou-se com isso, como toda a gente se incommoda de ver a ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes mais nobres de um homem, a sua intelligencia e o seu trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um poeta e o sentimento de um artista.«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade Corvo,O Astrologo.«—Ah! O Corvo é um homem superior, um homem{193}justamente respeitado pela valia dos seus meritos... Vou-me a elle.«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se um lobo esfomeado a um homem bem nutrido. Corvo foi o ultimo a dar por isso.«De mais a mais, exactamente por essa occasião, João de Andrade Corvo, tenente do corpo de engenheiros, lente da escola polytechnica, socio da academia real das sciencias, auctor doAnno na côrte, doAlliciador, doAstrologo, deD. Maria Telles, deD. Gil, deNem tudo que luz é oiro, de grande numero de artigos publicados dosAnnaes das sciencias e lettras, naEpocha, etc., estava todo entregue a uma curiosidade.«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas de Carvalho e o dr. Magalhães Coutinho, Andrade Corvo dissera-lhes que para as suas cousas de botanica teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser discipulo d'elles.«—Não és capaz!«—Ora! Elle é lá capaz d'isso!«—Sou capaz até de estudar o curso completo.«Os dois olharam para elle, sorrindo.«—Vou matricular-me ámanhã.«Matriculou-se no dia immediato.«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia elle sempre com a maior regularidade, de lição sabida, sentar-se no seu banco: e quando se diz lá ia, quer dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um dos melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto no cumprimento dos seus deveres. Ás vezes chovia o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, modestamente,á estudante, trepava aquella calçada do Garcia e mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo accelerado de um filho familias que estivesse exposto mais dia menos dia a que o pae lhe exigisse uma certidão de frequencia colhida com austeridade nos registros sisudos do livro de ponto.{194}«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia do trabalho, do estudo, na sêde de saber, que só n'isso faz do desejo uma força, e que n'elle ainda não parou nem se fartou um instante.«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente da sciencia na politica, da politica na litteratura.»N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente as pastas da marinha e dos negocios estrangeiros, e em que os debates parlamentares eram irritantes e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes, entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na Academia Real das Sciencias.Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que era conhecido pela designação de—Gabinete do sr. Corvo.O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não podia entrar na secretaria ou no parlamento sem ter devorado primeiro a iguaria da sciencia e o pitéo litterario. Como todo o bom gastronomo, gostava de variar. Por isso, ao mesmo tempo que redigia osEstudos sobre as provincias ultramarinas, escrevia osContos em viagem. Só depois de regalado o paladar é que fazia despachos e discursos.Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, lhe tentava o espirito, comtanto que tivesse de o tratar litterariamente. O arroz, que deu a Teixeira de Vasconcellos uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, para doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a Andrade Corvo um trabalho scientifico de primeira ordem. Refiro-me á parte que lhe coube—estudos economicos e higienicos sobre os arrozaes—no relatorio official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, por elle, Manuel José Ribeiro e Bettamio de Almeida. Este trabalho notabilissimo, em que a collaboração do sr. Corvo occupa 200 paginasin-folio, foi desde logo{195}tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue um exemplar.Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos dominios immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha o mais soberano desdem por todas as ninharias da vida ordinaria, por mil bagatellas que, não obstante, constituem outras tantas engrenagens do mecanismo social. Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito posso referir uma anecdota authentica e graciosissima.Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e sabe Deus com que sacrificio elle se resignava a perder duas horas calado, ouvindo repetir aos outros o que já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas occasiões.Havia uma sessão em que se esperava a apresentação de uma proposta de alcance politico. O sr. Corvo sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da presidencia, tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem era o redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O continuo foi saber, e levou a resposta ao sr. Corvo: o redactor de serviço era eu. Fui immediatamente ao seu gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão, disse-me com uma grande seriedade:—Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, e que isso prende com o artigo 37.º do regimento. Ora eu não sei qual é a disposição respectiva. Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do regimento dispõe.Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.—É que eu não sei de cór—respondi—o que dispõe o artigo 37.º—Nem eu, replicou o sr. Corvo.—N'esse caso vamos vêr.E abri oRegimento, que estava sobre a banca do presidente.Li o artigo 37.º{196}—Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que eu não queria era ter o trabalho de ler isso.E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me para o vão da janella:—Então como vamos de litteratura?Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas vezes contei durante a vida do sr. Corvo, define bem a sua maneira de pensar relativamente a tudo o que se não traduzisse para o seu espirito n'um facto scientifico ou n'um facto litterario.E todavia elle era um homem de tão superior estofa que ainda quando extraviado da sciencia e da litteratura na politica, a que dava menos apreço, assignalou indelevelmente a sua passagem por ella—como n'estes dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o progresso material das colonias.FIM{197}ERRATASMencionamos como mais importantes as seguintes:Pag. 15, lin. 35—transmittiria a e ao rainha principe, leia-se: transmittiria á rainha e ao principe.Pag. 43, lin. 19—e das de Canities, leia-se: e das obras de Canities.Pag. 45, lin. 10—da fama, leia-se: da fauna.Pag. 45, lin. 20—Henri, leia se: Hipp.Pag. 63. lin. 5—a rodos, leia se: a rodo.Pag. 100, lin. 25—conservamos, leia-se: conservavamos.Pag. 102, lin. 10—elle fóra, leia-se: elle fôra.Pag. 119, lin. 14—ao folhetim, leia-se: do folhetim.Pag. 121, lin. 26—editr, leia se: editor.{198}

[13]Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—Nota da 2.ª edição.[14]Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a tipographia, que ainda subsiste.—Nota da 2.ª edição.

[13]Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—Nota da 2.ª edição.

[14]Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a tipographia, que ainda subsiste.—Nota da 2.ª edição.

{164}

Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...

A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um tudo-nada d'essa animação popular que, á meia-noite, havia de repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres, á saida da missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam oJornal da Noite, que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saía depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje está a ourivesaria Leitão. Vendedores decautelasrouquejavam o pregão dataluda, o 4897, perseguindo a gente.

Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e,{165}diga-se francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia o meu coração na salsugem de recordações esfumadas, de memorias fugitivas d'aquella noite de festa.

Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia aventurar-me a uma exploração, não direi tão arriscada como as do sertão africano, mas não inteiramente isenta de difficuldades, por certo.

Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim de encontrarmo-nosdefinitivamente, fosse eu á redacção doDiario de Noticias, ás nove horas da noite.

Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua doDiario de Noticiasé de recente data.

Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, não se orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem não são capazes de sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama.

Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho doDiario de Noticias, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho!

Finalmente, entrei na redacção doDiario de Noticiasquarenta minutos depois da hora aprazada.

Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora.

Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto,{166}riu da minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me:

—Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura doDiario de Noticias, mas ganhou o ficar habilitado a tornar cá com os olhos tapados.

Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos amigos.

Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se.Ia fazer a meia noite, com a sua familia, disse-me. Eu não sabia o que erafazer a meia noite. Coelho riu-se.

—É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do Natal.

Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e redactor principal doDiario de Noticias.

Em maio de 1889 chegava eu ágarede Campanhã, no Porto, em virtude de um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo oJornal da manhã:

—Morreu o Eduardo Coelho.

—De repente?

—Sim, de repente.

—Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava...

Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que foi, deve dizer-se,uma das forças do seu tempo.

Depois de haver sido um dosvencidos da vida(não no sentido pantagruelico que esta denominação está{167}tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que o salvasse.

Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.

Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já não poderá desgarrar-se.

Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole noticiosa e popular doDiario de Noticias.

Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie de gazeta feita... á gazeta.

Mas os moldes doDiario de Noticiasnunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, ablaguephantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio—este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.

Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor, eis o proposito inicial doDiario de Noticias.

Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de litteratice, n'um{168}tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que oDiario de Noticiasse propoz conseguir, e realisou.

Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a epiderme doDiario de Noticias: queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica doMartinho. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação, viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a.

Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com oDiario de Noticias, que, se o lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante nudez da sua verdade anatomica.

Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas oDiario de Noticiasdiz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se vendem avulso.

A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um{169}vintem por dia: dez réis para o seuDiario de Noticias, dez réis para o carapau do seu gato.

Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem preliminarmente oDiario de Noticias, encostados ás esquinas das ruas.

Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato dasmaltas, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a verba effectiva doDiario de Noticias, cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta, para o grupo todo.

É isto ou não é isto?

Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou n'um facto indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua gloria, a sua evidencia não lhe veiu dos livros, veiu-lhe doDiario de Noticias.

No proprio dia em que elle se enterrava, oDiario de Noticiasappareceu carregado de annuncios: era a affirmação glorificadora de que elle não trabalhára debalde e de que a sua idéa se havia convertido definitivamente n'uma instituição lisbonense.

{170}

Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a politica.

Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.

Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza.

Teriam gritado: predestinação! E diriam,una voce, que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de Thomar—lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada.

Effectivamente, os Cabraes haviam caido com aMaria da Fonte, o conde de Thomar fugira para Hespanha,{171}mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o de novo ao poder.

1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação da republica em França e quando estava germinando aregeneração, foi que me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis.

Mas como o acaso—essa bussola misteriosa que nortea os destinos humanos—não quiz que eu viesse a ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel.

No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter sido annunciado pelo himno daMaria da Fonte.

Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção para a época da sua decadencia politica. Eu entrei n'este mundo durante oscem dias, posso dizel-o assim, de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera restauração.

O que é certo é que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... E assim foi que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que tinha caído definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.{172}

Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se oEspectroe aMaria da Fonte, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos Cabraes.

Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época nem sequer poupava a esposa do ministro caido:

Luizinha, agora, agora...

Luizinha, agora, agora...

Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impressões que, para assim dizer, trouxera do berço.

Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante.

Vi o Sampaio daRevolução... de guardanapo ao pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor doEspectro, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em politica.

Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão indeciso.

Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi{173}as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléasenragés.

É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as impaciencias, envelhecido os homens.

Chegára apaz geral, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,[15]havia prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de Thomar.

Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que se desfizeram em fumo!

Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles diziam...

Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria daMaria da Fontetinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações no papel do que nos homens.

Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro e por fóra, a natureza humana.{174}

De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia em determinadas aptidões; mas a energia de caracter tinha sido igual em todos tres.

Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram precisas duas revoluções para o derrubar, porque á primeira resistiu elle.

Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o implacavelmente com oEspectro, amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem.

Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os embates, que procuravam lançal-o por terra na sua gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.

Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos tres eram corações generosos, almas de bom timbre, expansivas e affectuosas.

Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão lá do alto a sombra que projectaram na terra, e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos parece enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixões, as suas furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo através da historia...

Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral, algumas notas discordantes.

Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, mas a primeira condição para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial{175}das circumstancias em que se encontrou. É preciso reconstruir toda uma época para julgar com segurança um homem politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz.

Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e conservador. Esta accusação póde ser fulminada contra a maior parte dos homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello.

Pois bem, os homens de estado têem que obedecer ás correntes caprichosas da opinião—tão caprichosas como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente lançada na circulação, explica bem todas as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.

Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado.

Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação!

Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, subjugando-a.

Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de si mesmo centenas de vezes.

Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se{176}dos mais dedicados amigos. Quem não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força.

O sr. Oliveira Martins accusa-o, noPortugal Contemporaneo, de ter governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os governos... Haveis de ficar ricos com o achado!...

Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.

Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.

Setembro de 1889.

[15]Esbocei saudosamente o seu perfil no livroFiguras humanas.—Nota da 2.ª edição.

[15]Esbocei saudosamente o seu perfil no livroFiguras humanas.—Nota da 2.ª edição.

{177}

Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado as musas a esse tempo.

Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o titulo deAlvoradas. E dez annos depois fez segunda edição augmentada com novas composições.

Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. Dou comospecimenaquella das suas poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livroAlvoradas,{178}póde ajuizar, pelospecimen, do valor de Alexandre da Conceição como poeta:

PERGAMINHOSNão me esmagam, mulher, os teus sorrisos;Eu tenho mais orgulho do que pensasE rio-me tambem;É debalde que tentas humilhar-me,Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!Que tambem sou alguem.Alguem que veio ao mundo sem familia,Um producto do acaso, um paria, um misero,Um engeitado emfim,Um sêr sem protecção das leis canonicas,Filho sem pae no assento do baptismo,Mas um sêr, inda assim.Levantou-me da estrada do infortunioUm homem que entendeu que um filho espurioTem jus a protecção,Um homem que entendeu que é vil e infameAtirar para o lodo dos hospiciosUma alma em embryão.Este homem deu-me a força do seu braço,Legou-me em vida o seu honrado nome...Vestiu quem era nu,Depois, quando me viu robusto e forte,Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,Trabalha agora tu.»Luctei, passei curvado sobre os livrosA mais florida quadra dos meus diasSereno a trabalhar;Estudei, progredi, illuminei-meE um dia para entrar em novas luctas,Pude emfim descançar.É que eu vi as premissas da victoria,O applauso espontaneo dos estranhosIncitar-me a seguir,É que eu via deante dos meus passosRasgar-se ampla, infinita, luminosaA estrada do porvir.{179}Se alguma cousa sou a mim o devo,Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,Ao amor de meus paes,Á força de vontade, á intelligencia,Á sociedade pouco, ás leis bem menos...E a ti não devo mais.E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?E és tu que vens fallar-me nas riquezasQue o destino te deu?Eu não troco os meus louros de poeta,As conquistas do estudo e o meu futuroPor tudo quanto é teu.És louca!... Sabes lá que orgulho é esteDo homem que a si só deve o que valeE que espera valer?Ha lá brazões illustres que equilibremEstes louros viçosos d'um triumphoQue soubemos mercer?És louca! Sabes lá como eu sou rico,Rico de muita honra e muita esp'rançaE muito coração?És louca! Mostra a escravos as riquezas,Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,Sou bastante christão.E quem te disse a ti que eu te invejavaEsse ouro, que é teu unico prestigioE o nome a teus avós?Orgulhosa!... pois julgas decididoQual seja, n'esta lucta de vaidades,O mais nobre de nós?Pois julgas que ser nobre é mero acaso,Uma questão de berço ou de destino,Uma questão de paes?Não vês que se a nobreza fosse heranca,Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,Seriamos eguaes?E não somos, bem vês, porque a nobrezaNão se lega, conquista-a a intelligencia,O talento, as acções;{180}Ora eu, se me permittes a vaidade,Colloco um pouco abaixo dos meus lourosTodos os teus brazões.Devolvo-te portanto os teus insultosE a suspeita de te adorar os risos,Que nunca mendiguei;Se és bella e tens orgulhos de rainha,Mulher, entende bem, eu sou poeta,Tenho orgulhos de rei.Que é esta a nossa força; n'estes temposEm que a estupidez má enche as mãos d'ouroPara nos insultar,É modestia a orçar pela baixezaNão fazermos sentir aos maus e aos futeisQuem devem respeitar.Não me compares, pois, a horda ignaraQue te adora os sorrisos pelo ouro...Eu tenho coração,Tenho por pergaminhos o trabalho,Por thesouros a minha intelligenciaE a honra por brazão.Nós, os homens que andamos procurandoÁ luz do coração por este mundoOs caminhos do bem,Como trazemos alto o pensamentoE a fronte erguida ao céo, temos orgulho,Bem vês, como ninguem.

PERGAMINHOS

Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;Eu tenho mais orgulho do que pensasE rio-me tambem;É debalde que tentas humilhar-me,Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!Que tambem sou alguem.

Alguem que veio ao mundo sem familia,Um producto do acaso, um paria, um misero,Um engeitado emfim,Um sêr sem protecção das leis canonicas,Filho sem pae no assento do baptismo,Mas um sêr, inda assim.

Levantou-me da estrada do infortunioUm homem que entendeu que um filho espurioTem jus a protecção,Um homem que entendeu que é vil e infameAtirar para o lodo dos hospiciosUma alma em embryão.

Este homem deu-me a força do seu braço,Legou-me em vida o seu honrado nome...Vestiu quem era nu,Depois, quando me viu robusto e forte,Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,Trabalha agora tu.»

Luctei, passei curvado sobre os livrosA mais florida quadra dos meus diasSereno a trabalhar;Estudei, progredi, illuminei-meE um dia para entrar em novas luctas,Pude emfim descançar.

É que eu vi as premissas da victoria,O applauso espontaneo dos estranhosIncitar-me a seguir,É que eu via deante dos meus passosRasgar-se ampla, infinita, luminosaA estrada do porvir.{179}

Se alguma cousa sou a mim o devo,Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,Ao amor de meus paes,Á força de vontade, á intelligencia,Á sociedade pouco, ás leis bem menos...E a ti não devo mais.

E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?E és tu que vens fallar-me nas riquezasQue o destino te deu?Eu não troco os meus louros de poeta,As conquistas do estudo e o meu futuroPor tudo quanto é teu.

És louca!... Sabes lá que orgulho é esteDo homem que a si só deve o que valeE que espera valer?Ha lá brazões illustres que equilibremEstes louros viçosos d'um triumphoQue soubemos mercer?

És louca! Sabes lá como eu sou rico,Rico de muita honra e muita esp'rançaE muito coração?És louca! Mostra a escravos as riquezas,Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,Sou bastante christão.

E quem te disse a ti que eu te invejavaEsse ouro, que é teu unico prestigioE o nome a teus avós?Orgulhosa!... pois julgas decididoQual seja, n'esta lucta de vaidades,O mais nobre de nós?

Pois julgas que ser nobre é mero acaso,Uma questão de berço ou de destino,Uma questão de paes?Não vês que se a nobreza fosse heranca,Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,Seriamos eguaes?

E não somos, bem vês, porque a nobrezaNão se lega, conquista-a a intelligencia,O talento, as acções;{180}Ora eu, se me permittes a vaidade,Colloco um pouco abaixo dos meus lourosTodos os teus brazões.

Devolvo-te portanto os teus insultosE a suspeita de te adorar os risos,Que nunca mendiguei;Se és bella e tens orgulhos de rainha,Mulher, entende bem, eu sou poeta,Tenho orgulhos de rei.

Que é esta a nossa força; n'estes temposEm que a estupidez má enche as mãos d'ouroPara nos insultar,É modestia a orçar pela baixezaNão fazermos sentir aos maus e aos futeisQuem devem respeitar.

Não me compares, pois, a horda ignaraQue te adora os sorrisos pelo ouro...Eu tenho coração,Tenho por pergaminhos o trabalho,Por thesouros a minha intelligenciaE a honra por brazão.

Nós, os homens que andamos procurandoÁ luz do coração por este mundoOs caminhos do bem,Como trazemos alto o pensamentoE a fronte erguida ao céo, temos orgulho,Bem vês, como ninguem.

Em 1867 publicou o poemetoAbençoada esmola, que considero inferior á maior parte das composições incluidas nasAlvoradas.

A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda naAbençoada esmolaa destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado a prosaicas occupações.

E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito{181}discutimos n'uma serie de cartas publicadas noJornal do Portodesde dezembro de 1871 a março de 1872.

A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da Conceição n'um folhetim doNacional. Quando a questão rompeu noJornal do Porto, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, especialmente em politica.

Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era resoluto na expansão das suas convicções.

Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito doEuzebio Macario, historia natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes.

Nadedicatoriadeclarava Camillo o intento que o demovera a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos osticsdo estylo realista. Respondi temerariamente que sim.»

OEuzebio Macariofoi a justificação d'esta affirmativa, d'este compromisso espontaneamente tomado.

Camillo, o inexcedivel romantico doAmor de perdição, provou o seu pulso de escriptor realista noEuzebio Macarioe, depois, naCorja. Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.{182}

Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e em litteratura para o realismo.[16]Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas noEuzebio Macarioa pretensãode lançar o ridiculo sobre a escola realista.

D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista.

O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no combate.

Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios do seu contendor.

Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, noCafé Marrare, n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos.

O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que{183}nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa cruel peleja.

... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella alma ardente, mas fidalga.

E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem pão.

[16]Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo deNotas, ensaios de critica e de litteratura.—Nota da 2.ª edição.

[16]Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo deNotas, ensaios de critica e de litteratura.—Nota da 2.ª edição.

{184}

No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamambons dias, quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...

A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma dolorosa noticia...

A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento de attenção em passando...

A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes{185}com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto das grandes ruinas...

A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que melhor a personificou no mundo...

Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?!

Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o peso da vida.

Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que uma lagrima—apenas!

«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livroScenas da minha terra); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos, essas lagrimas...»

«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua{186}terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17]

«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»[18]

«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anecdota!»[19]

Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.

O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas horas.

Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.

Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor ao seu livro mais querido,Os contos ao luar.{187}

—Ó Julio, o teu prologo dosContosleio-o ás vezes para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livroContos ao luar!» Bonito, como eram então as coisas bonitas!

—Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... respondia-me elle uma vez.

E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...

Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.

Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o perdeu;—basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.

Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.

Foi no livroManhãs e noitesque elle saudou com excessivo favor os meus primeiros trabalhos litterarios, asPeregrinações na aldeae o romancesitoIdyllios á beira d'agua. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado algumas cartas.

Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.

Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no Porto:Photographias de Lisboa.{188}

Reproduzo uma pagina d'esse livro:

«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahoticoatelierdo Julio.

«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor noménage, é um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.

«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado livroPhysiologie du ridicule. É effectivamente raro este livro, cuja primeira edição data de 1833.

«—Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou o nosso Camillo.

«E tirando para fóra um livro:

«—Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar aPhysiologia do ridiculo, alegre-se que vae vêl-a.{189}

«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:

«—E lel-a.

«O Julio havia escripto:

«Ao seu amigo Alberto Pimentel—lembrança de Lisboa em outubro de 1873.

Julio Cesar Machado.»

«E entregando-me o livro:

«—E tel-a.

«Era impossivel recusar; acceitei.»

Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares, intimas, otuveio consolidal-as como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem desde a infancia.

Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estação de aguas alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira. Uma bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse de leve saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho apearam-se n'uma estação que não sei dizer ao certo se era o Bombarral ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, saboreando a sua modestavillegiature.

Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:

—Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!

É o seu livro que mais fala da Durruivos.

Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços como para receber as minhas palavras, e depois, com a mão direita, acenou na direcção dos campos, dos arvoredos da Durruivos.

O Julito agitou no ar o seu chapeu.

E o comboio partiu.

[17]e[18]Do livroRecordações de Paris e Londres.[19]Do livro, o seu ultimo livro,Mil e uma historias.

[17]e[18]Do livroRecordações de Paris e Londres.

[19]Do livro, o seu ultimo livro,Mil e uma historias.

{190}

Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da minha modesta bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no futuro pantheon dos meus auctores predilectos.

Ainda foi outro dia!...

De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de trabalho, pude reunir n'um só logar todos os seus volumes, incluindo os dois daVida em Lisboa, que vão sendo muito raros no mercado.

É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente me oriento. Acho fria, monotona a arrumação sistematica por auctores, dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essagrande confusiontumultuaria em que Voltaire dá o braço a Chateaubriand, em que Rénan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte.

Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente{191}cancandos espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves como espectros, outros folgazãos como collegiaes; estes sorrindo desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos.

Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de culto privativo—o culto da saudade—e dei-lhe um logar reservado n'um só lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de antiga leitura, e muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.

Hoje alargo as dimensões do compartimento em que Julio Machado era inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras, as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e estimando-se e comprehendendo-se continuarão conversando um com o outro no mesmo lote da minha estante.

Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu respeito. No folhetim semanal doEconomistaapreciei eu dois volumes dos seusContos em viagem, e não sei se foi n'essa occasião, ou em qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista historico, declarei francamente antepôr o seuUm anno na côrteá tão preconisadaMocidade de D. João V, de Rebello da Silva.

Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não reconheça em Rebello da Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da época, e na fidelidade dos caracteres.

A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. Elle foi dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico.{192}

Em todas estas espheras de acção firmou creditos inabalaveis de homem eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar senão um defeito: não ter orthographia. Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente tem a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto á orthographia do sr. Corvo, é provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse má; mas é tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava a sonica, a achasse boa.

Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não com bilhete deida e volta, como quem vae passar dois dias santos fóra da terra, mas como esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em Misericordia.

Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, mas por divertimento. A sua grande distracção era estudar, saber.

E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado noClaudio:

«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras, metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em allemão, dois em grego. OMartinhoexultou. O homem novo ia matar tudo.

«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha não só mais talento que elle, mas outra qualidade de merecimento e outra seriedade de estudo. Incommodou-se com isso, como toda a gente se incommoda de ver a ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes mais nobres de um homem, a sua intelligencia e o seu trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um poeta e o sentimento de um artista.

«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade Corvo,O Astrologo.

«—Ah! O Corvo é um homem superior, um homem{193}justamente respeitado pela valia dos seus meritos... Vou-me a elle.

«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se um lobo esfomeado a um homem bem nutrido. Corvo foi o ultimo a dar por isso.

«De mais a mais, exactamente por essa occasião, João de Andrade Corvo, tenente do corpo de engenheiros, lente da escola polytechnica, socio da academia real das sciencias, auctor doAnno na côrte, doAlliciador, doAstrologo, deD. Maria Telles, deD. Gil, deNem tudo que luz é oiro, de grande numero de artigos publicados dosAnnaes das sciencias e lettras, naEpocha, etc., estava todo entregue a uma curiosidade.

«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas de Carvalho e o dr. Magalhães Coutinho, Andrade Corvo dissera-lhes que para as suas cousas de botanica teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser discipulo d'elles.

«—Não és capaz!

«—Ora! Elle é lá capaz d'isso!

«—Sou capaz até de estudar o curso completo.

«Os dois olharam para elle, sorrindo.

«—Vou matricular-me ámanhã.

«Matriculou-se no dia immediato.

«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia elle sempre com a maior regularidade, de lição sabida, sentar-se no seu banco: e quando se diz lá ia, quer dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um dos melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto no cumprimento dos seus deveres. Ás vezes chovia o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, modestamente,á estudante, trepava aquella calçada do Garcia e mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo accelerado de um filho familias que estivesse exposto mais dia menos dia a que o pae lhe exigisse uma certidão de frequencia colhida com austeridade nos registros sisudos do livro de ponto.{194}

«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia do trabalho, do estudo, na sêde de saber, que só n'isso faz do desejo uma força, e que n'elle ainda não parou nem se fartou um instante.

«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente da sciencia na politica, da politica na litteratura.»

N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente as pastas da marinha e dos negocios estrangeiros, e em que os debates parlamentares eram irritantes e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes, entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na Academia Real das Sciencias.

Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que era conhecido pela designação de—Gabinete do sr. Corvo.

O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não podia entrar na secretaria ou no parlamento sem ter devorado primeiro a iguaria da sciencia e o pitéo litterario. Como todo o bom gastronomo, gostava de variar. Por isso, ao mesmo tempo que redigia osEstudos sobre as provincias ultramarinas, escrevia osContos em viagem. Só depois de regalado o paladar é que fazia despachos e discursos.

Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, lhe tentava o espirito, comtanto que tivesse de o tratar litterariamente. O arroz, que deu a Teixeira de Vasconcellos uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, para doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a Andrade Corvo um trabalho scientifico de primeira ordem. Refiro-me á parte que lhe coube—estudos economicos e higienicos sobre os arrozaes—no relatorio official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, por elle, Manuel José Ribeiro e Bettamio de Almeida. Este trabalho notabilissimo, em que a collaboração do sr. Corvo occupa 200 paginasin-folio, foi desde logo{195}tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue um exemplar.

Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos dominios immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha o mais soberano desdem por todas as ninharias da vida ordinaria, por mil bagatellas que, não obstante, constituem outras tantas engrenagens do mecanismo social. Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito posso referir uma anecdota authentica e graciosissima.

Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e sabe Deus com que sacrificio elle se resignava a perder duas horas calado, ouvindo repetir aos outros o que já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas occasiões.

Havia uma sessão em que se esperava a apresentação de uma proposta de alcance politico. O sr. Corvo sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da presidencia, tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem era o redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O continuo foi saber, e levou a resposta ao sr. Corvo: o redactor de serviço era eu. Fui immediatamente ao seu gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão, disse-me com uma grande seriedade:

—Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, e que isso prende com o artigo 37.º do regimento. Ora eu não sei qual é a disposição respectiva. Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do regimento dispõe.

Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.

—É que eu não sei de cór—respondi—o que dispõe o artigo 37.º

—Nem eu, replicou o sr. Corvo.

—N'esse caso vamos vêr.

E abri oRegimento, que estava sobre a banca do presidente.

Li o artigo 37.º{196}

—Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que eu não queria era ter o trabalho de ler isso.

E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me para o vão da janella:

—Então como vamos de litteratura?

Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas vezes contei durante a vida do sr. Corvo, define bem a sua maneira de pensar relativamente a tudo o que se não traduzisse para o seu espirito n'um facto scientifico ou n'um facto litterario.

E todavia elle era um homem de tão superior estofa que ainda quando extraviado da sciencia e da litteratura na politica, a que dava menos apreço, assignalou indelevelmente a sua passagem por ella—como n'estes dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o progresso material das colonias.

FIM

{197}

Mencionamos como mais importantes as seguintes:

Pag. 15, lin. 35—transmittiria a e ao rainha principe, leia-se: transmittiria á rainha e ao principe.

Pag. 43, lin. 19—e das de Canities, leia-se: e das obras de Canities.

Pag. 45, lin. 10—da fama, leia-se: da fauna.

Pag. 45, lin. 20—Henri, leia se: Hipp.

Pag. 63. lin. 5—a rodos, leia se: a rodo.

Pag. 100, lin. 25—conservamos, leia-se: conservavamos.

Pag. 102, lin. 10—elle fóra, leia-se: elle fôra.

Pag. 119, lin. 14—ao folhetim, leia-se: do folhetim.

Pag. 121, lin. 26—editr, leia se: editor.

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