CAPITULO V

CAPITULO VAdalberto sabe emfim até onde pode levar a desobediencia.Em quanto a familia de Valneige estava triste e consternada, em quanto se procurava por todos os lados, em Praga e nos arredores; onde estava o querido pequeno Adalberto? Ninguem o sabia, excepto a infame creatura que o tinha roubado ao amor de seus paes. Habituada a desobedecer, não podia mais tarde ou mais cedo deixar de succeder grande desgraça áquella criança. No dia em que desapparecêra, havia desobedecido oito vezes! e como ninguem tinha dado por isso, não fôra castigado. Deus vê tudo que os paes e as mães não vêem; foi Elle quem se encarregou de{53}castigar por uma vez, com um castigo terrivel, todas as desobediencias que o rapazinho commettera, desde que sabia o que fazia; e bem cedo tinha elle tido intelligencia.Eis aqui como as coisas se passaram: Perdemos de vista Adalberto, no momento em que um homem d'uns cincoenta annos, embrulhado num capote de lã grossa, o levou, depressa, depressa, depressa... Este homem tinha, é verdade, cara de poucos amigos, e o olhar sombrio; mas fallava um pouco francez. Na sua grande afflicção, a criança, que não suspeitava uma traição, seguiu-o em silencio. Andou muito tempo, tanto tempo que as suas perninhas fraquejaram, e que de repente, desanimado pela fadiga, pelo medo, pela fome e pelo sangue frio d'aquelle que o conduzia começou a chorar.«Tu choras?» disse-lhe o desconhecido com um tom de falsa bondade, e, repetindo-lhe que sabia onde estavam seus paes, e que os iam encontrar, o homem trigueiro, do qual um grande chapeu escondia quasi toda a enorme cabeça, fêl-o entrar em uma casa suja e meia escura, onde lhe disse que esperasse um instante. A criança estava morta de fome e de sede; o desconhecido fêl-a comer e beber, beber, beber tanto, que, sob as vistas do malvado, o querido pequeno sentiu-se como sobrecarregado por um peso extraordinario; os olhos fecharam-se-lhe, já não{54}tinha medo; uma especie de indifferença e quasi de bem estar succedêra a toda a emoção triste... emfim, adormeceu profundamente. Era o que o homem do chapeu grande, tinha preparado; e tomando nos braços a sua innocente victima, dirigiu-se precipitadamente para a estação do caminho de ferro, deixando a cidade, e tendo o cuidado de embrulhar Adalberto no grande capote de lã, afim de o fazer passar por uma criança doente.Desde então, o que succedeu? Onde foram? O pequeno dormia; quando, sahiu d'esta especie de lethargo, não obteve resposta alguma ás suas perguntas, e viu passar na sombra uns homens que se pareciam com aquelle que o levava. Estava morto de susto. Depois de mil voltas avistou uma grande carruagem, uma especie de casa ambulante, tendo janellas com taboinhas: o homem trigueiro deu uma grande pancada na porta, e disse algumas palavras na lingua particular dos Ciganos; depois, com uma mão de ferro, agarrou o pequeno francez, e levantou-o: um rapaz abriu a porta fazendo chacota, e Adalberto achou-se no meio de um corredor estreito, que dava communicação para miseraveis compartimentos... a que chamavam quartos.Uma mulher muito velha, feia, negra, e secca, dirigindo-lhe a palavra em mau francez, fallou-lhe como ordinariamente se falla aos cães. Elle não comprehendeu bem; desejou sómente{55}descer os degraus que acabava de subir para entrar na carruagem: mas a porta tinha-se fechado. O pequeno imprudente olhou para a velha e disse-lhe imperiosamente:—Abra!—Não, não, não, respondeu a terrivel velha; uma vez que se sobe é para sempre.—Para sempre? repetiu Adalberto com indignação, e, comprehendendo o horror d'estas palavras, levantou os braços e começou a gritar!Uma mão suja, horrenda, decrepita, collou-se-lhe sobre a bocca, em quanto aquella furia soltava horrorosas blasphemias.A criancinha estava cheia de susto sem saber o que havia de pensar: era como a destruição completa de toda a sua vida, e, não só por medo como tambem por surpreza, perdeu os sentidos.Quando fechou os olhos, a mão suja e má, que o tinha obrigado ao silencio, despregou-se-lhe dos beiços; mas, aquella mão, como se estivesse resolvida a fazel-o soffrer, foi buscar um pucaro d'agua bem fria e deitou-lh'a sobre a cara. O querido pequeno abriu os olhos, olhou de roda de si como para procurar sua mãe, e disse lavado em lagrimas e muito humildemente:—Senhora, deixe-me voltar para casa da mamã, se faz favor.Uma gargalhada formidavel acolheu esta supplica{56}de criança, e, juntando a ironia á crueldade, a velha Praxedes exclamou:—Vai para casa de tua mamã, vai, corre, anda vai!O prisioneiro viu bem que tudo estava acabado, que o crime estava consummado; que o tinham roubado!A velha furia, que parecia uma bruxa, era a sogra do homem do chapeu grande, a avó, não de Gella, a filha do amo, mas de seu irmão Karik, e o chamado Mentor de duas pobres crianças, Natchès e Tilly, um pequeno e uma pequena, cahidos como Adalberto nas mãos dos ladrões. O desgosto do captivo foi tão profundo, que cessou de se queixar achando-se horrivelmente desgraçado.Dotado de grande força moral, a sua dôr tornou-se em desespero, e inspirou-lhe a firme vontade de se evadir: mais tarde ou mais cedo.Tinha uma incrivel energia, e ainda que o seu corpo fosse magro e pequeno, sentia-se capaz de vencer grandes obstaculos. Por em quanto nada havia a dizer nem a fazer.«Se estás doente, deita-te,» disse-lhe bruscamente a velha Praxedes, mostrando ao recem-chegado um monte de trapos e de fato velho no canto do seu horroroso quarto. Elle não esperou que lh'o repetissem, julgando, com rasão, que o melhor era obedecer. Como não lhe deram cobertores não se despiu; estendeu-se sobre os trapos, tendo o cuidado de puxar{57}para os pés alguns pedaços de fato velho para evitar o frio, e pôz a mão debaixo da cara para não se encostar a esses farrapos.Uma vez deitado, fechou os olhos, não fez movimento algum, e bem depressa o julgaram a dormir. Não percebeu uma só palavra do que se dizia, porque os Ciganos entre si só fallam o seu dialecto; comtudo julgou vêr que Gella mostrava benevolencia para com elle e que tratava de apaziguar a colera de sua avó. Quando a rapariga fallava alto, tinha um som de voz que o habito de gritar ao ar livre tornava duro; e em geral tinha modos d'homem. Adalberto, que de vez em quando abria um olho, podia vêr aquelle todo atrahente.Gella tinha vinte annos, era bonita, mesmo com os seus vestidos pobres, mas d'uma belleza um pouco selvagem; estatura elevada, flexivel como um vime, os movimentos bonitos, a cara queimada pelo sol, os cabellos pretos com reflexos azulados; a bocca bastante mal desenhada, mas franca e com um sorriso de bondade; os olhos doces quando estava socegada, atrevidos quando se tratava de resistir, muita força de corpo e de bondade.Era filha do homem do chapeu grande e da sua primeira mulher, que tinha morrido logo depois do nascimento de sua filha. O Cigano, contra os costumes da sua raça, tinha{58}casado com ella por capricho, apesar de não ser Cigana, mas uma pobre rapariga de Lyão. Achava-se orphã e na miseria; e a miseria e a inexperiencia dos dezeseis annos tinham-na levado a aceitar esta exquisita união; uma irmã mais velha, não deixando de a condemnar, interessava-se comtudo pela criança nascida d'aquelle imprudente casamento, e dava de tempos a tempos uma lembrança a Gella.Assim como era, esta robusta e trigueira rapariga produziu no prisioneiro uma impressão de temor e de confiança. A maneira de fallar depressa, os olhos tão pretos, as sobrancelhas carregadas, tudo isto o intimidava; e, comtudo, aquelles lindos braços deviam ser carinhosos; era impossivel que uma criança infeliz se lançasse n'elles sem que a rapariga a apertasse contra o coração, porque, emfim, devia ter um coração.Adalberto tinha tanta necessidade de o acreditar que dava esperança a si proprio, e disse comsigo:Image pg059Gella tinha 20 annos. (Pag. 57.)—Um dia dir-lhe-hei que me quero ir embora, e ella ha de consentir em me deixar fugir. Se não deixar, fugirei sem ninguem me ajudar... Depois lembrava-se das suas caminhadas em Praga, e da difficuldade que se encontra quando se não sabe para onde se deve ir e quando não se falla a mesma lingua da outra gente. Este primeiro dia passou-se{59}{60}{61}pois n'um profundo desgosto. O mau vinho tinha-lhe feito tanto mal que elle não quiz comer. Á noite ouviu dizer a velha ás crianças que se deitassem, e admirou-se comsigo mesmo de que Karik, que não tinha mais de quatorze annos, recusasse obedecer; uma boa bofetada decidiu-o. Adalberto ficou vexado de encontrar o seu grande defeito n'um garoto tão mal creado. Quanto aos outros dois, foram mansos como cordeiros, e promptamente cumpriram o que mandou Praxedes; mas o pequeno de Valneige notou, que nem a velha nem Gella disseram como Rosinha sempre dizia:—Vamos, meus meninos, ponham-se de joelhos e digam a sua reza.—Não, pensou elle, ninguem aqui reza a Nosso Senhor; é sem duvida porque o não conhecem.Emquanto Natchès e Tilly se deitavam, um na estreita enxerga que partilhava com Karik, e a outra aos pés da cama de Praxedes, Adalberto lembrou-se que não tinha rezado a sua oração da noite, elle que conhecia Nosso Senhor. Mas o seu terror era tal que não ousou pôr-se de joelhos. No fundo do seu coração teve um grande enternecimento; todo o seu pequenino ser se prostrava pelo pensamento diante d'esse divino protector que véla por nós, e, em vez de começar a sua oração pelas palavras do costume, o querido{62}pequeno apenas repetiu muito baixo, muito baixo, para só ser ouvido no Céo:—Perdão, meu Deus! perdão por ter desobedecido!Ah! como elle era desgraçado! Sósinho, separado da sua familia, sem saber o que fariam d'elle; tendo medo do homem brutal, da velha, de Karik, que tinha má apparencia, e do velho cão, que tinha os dentes enormes.A noite adiantava-se; a fadiga e o desgosto fizeram-lhe fechar os olhos; adormeceu, e sonhou que Filippe, o cocheiro, lhe fazia dar a volta do parque de Valneige em tilbury, por ter tido muito juizo; que a sua mamã o tinha abraçado duas vezes, e que Rosinha lhe tinha concertado a redea do seu cavallo de balouço com um cordel novo; depois a scena mudava bruscamente; estava sentado a uma meza, bebia e tudo andava de roda; mas de repente seu pae vinha ter com elle! Como vêem, Adalberto, mesmo dormindo, tinha ainda esperança.{63}CAPITULO VIAdalberto scismava se Gella tinha coração.No dia seguinte um ar frio e saudavel dava aos habitantes da Bohemia vigor e animação. Quando Adalberto acordou teve medo; depois, lembrando-se do que se tinha passado, pensou que este tempo de miseria não duraria muito, e que depressa sahiria d'aquella maldita casa.Não era o que se chama uma criança estragada pelo mimo; tinha sido educado sem pieguice e por isso havia contrahido habitos energicos. Comia de tudo, supportava o frio sem se queixar, sabia resignar-se, esperar, e tinha muita coragem. Quando em Valneige{64}lhe acontecia magoar-se, só chorava por grandes coisas, porque seu pae quando o via chorar por bagatellas, não deixava de lhe dizer:—Que tens tu, minha pequenina?Só esta palavra valia um grande discurso, e lembrava-lhe que era umhomem, como elle dizia.O nosso amiguinho, tendo em si a força de caracter e de energia physica que dá uma boa educação, não se deixou vencer pela desanimação, que de nada serve a não ser para tornar os males insupportaveis. De mais, tinha todas as illusões da juventude e parecia-lhe impossivel que fosse infeliz por muito tempo. Sendo elle só um estorvo, como dizia a velha Cigana, deixaram-no socegado; mas tendo acordado cedo, fingiu que estava dormindo e não se mexeu, ganhando assim tempo, e reparando disfarçadamente n'algumas scenas intimas.A velha Praxedes parecia apenas respirar; mas, as poucas forças que lhe restavam, eram misturadas com uma agitação que a atormentava, e aos outros tambem.Azedada pela fadiga, pela miseria, e pelos incommodos da idade, era o verdadeiro typo de tyranno da companhia. Praxedes queria mal a todos. Embirrava com seu genro a quem chamavao homem de ferro, e que ella detestava; com Gella, que não lhe tinha respeito algum; com seu neto Karik, que lhe resistia praguejando{65}já como seu pae. Quando todos tinham gritado mais do que ella, e lhe provavam que a consideravam mais como criada do que como mãe, ia embirrar com o cão, o horroroso Wolf.Wolf costumado ás pancadas e a toda a especie de maus tratos, nunca se deixava intimidar. A cada ameaça da velha, respondia rosnando, e quasi que lhe mordia, quando ella lhe dava um pontapé. Respeitava-o até um certo ponto, porque era obrigada a temel-o. Mas havia n'esta mesquinha habitação dois entes, que ella não temia, porque não tinham defesa, e era sobre elles que recahia ordinariamente o seu mau humor. A pobre Tilly era tão pallida e tão fraca, que não ousavam bater-lhe com medo que ella adoecesse e que fosse preciso tratal-a. Praxedes contentava-se de lhe fallar brutalmente, como se não falla a um animal. Exigia, d'esta criança de oito annos uma attenção constante para obedecer ao menor gesto. Quando a pobre pequena tinha commettido alguma falta de vigilancia ou de promptidão, davam-lhe por castigo menos de comer.Natchès era uma victima. Esta bonita criança de dez annos, cuja robusta natureza havia triumphado dos maus tratos, tinha uma vida digna de compaixão. Praxedes sobretudo não cessava de lhe fazer sentir, que ella não era mais do que um ganha pão. A sua natural docilidade{66}tornada inercia pela sujeição, não a desarmava e muitas vezes a irritava. Batiam-lhe pelo mais pequeno descuido, batiam-lhe por ter respondido e batiam-lhe por estar callada. Adalberto, da sua cama de trapos, assistiu a uma das injustas provocações, que lhe faziam a proposito de tudo.Na vespera tinha tido a desgraça de quebrar uma gamella rachada, na qual, havia annos, se dava de comer ao cão. Era mais do que o preciso para que a velha se enfurecesse, porque queria mais á sua loiça do que a tudo. Chamou Natchès com voz áspera e disse-lhe:—Foste tu que quebraste a gamella?—Sim, disse-lhe o pequeno, que não tinha mesmo a idéa de mentir; fui eu, mas não o fiz de proposito.—É o que faltava! exclamou a velha, vermelha de colera; ah! tu vais pagar-m'a, mandrião! deixa estar! Canalha! Vibora!Dito isto uma chuva de bofetões cahiu sobre o pequeno desgraçado. Praxedes, em vez de forças vitaes, tinha uma força nervosa que o furor redobrava; era incrivel a agilidade d'aquellas malditas mãos. Os movimentos ageis e dextros do rapazinho conseguiam felizmente evitar a maior parte das pancadas; mas, vendo isto, a furia pegou n'uma corda para lhe chegar com mais certeza.Então a pallida e adoentada Tilly deitou-se{67}sobre a pobre criança a quem chamava irmão, por causa da sua desgraça commum.—Perdão, perdão! gritou ella, oh! não lhe faça mal.Mas a velha, como se não ouvisse esta supplica afflictiva, batia á vontade para vingar a sua gamella. E Gella? Gella tratava da casa, tomando conta da panella do almoço, na especie de cosinha microscopica armada fóra n'um cotovello da escada. Como! Pois Gella, uma rapariga, não acudia em soccorro de Natchès? Não; estas horrorosas scenas repetiam-se tantas vezes, que já estava habituada, e só intervinha em casos excepcionaes. O seu coração tinha-se endurecido vivendo com gente má, e, ainda que houvesse n'ella uma bondade natural, como o seu sorriso o provava, raras vezes se commovia.Quem fallará pois em favor de Natchès? O homem da mão de ferro, fuma em silencio o seu cachimbo; o horrivel Karik faz escarneo. Gella não diz palavra, e a meiga Tilly chora e supplica sem obter nada. Quem defenderá a victima? Ha de ser Adalberto, em quem se acham gravadas em caracteres indeleveis as tradições de familia, a justiça e a piedade. Levantou-se com resolução e cobriu com o seu corpo o pequeno, e recebendo por elle algumas pancadas, gritou com todas as suas forças:—Vocênão tem direito de lhe fazer mal, e Deus ha de castigal-a.{68}Se Adalberto não estivesse no primeiro dia do seu triste desterro, é fóra de duvida que se teria arrependido da sua nobre ousadia; mas, logo no principio, a intervenção audaz do infeliz pequeno encheu de admiração aquelles espiritos grosseiros. O homem de ferro lançou para o ar uma baforada de fumo e com uma tremenda gargalhada, quebrou a furia de sua sogra. Á gargalhada seguiram-se graças de Karik e algumas boas palavras de Gella, que não desgostou de vêr Natchès em liberdade, apesar de não dar grande importancia a tudo aquillo.Uma palavra dita por Adalberto produziu o effeito mais singular. Tinha dito: «Deus a castigará.»—Onde está o teu Deus? perguntou o homem do chapeu grande, dirigindo-se pela primeira vez a Adalberto.—Está em toda a parte, disse orgulhosamente o pequeno de Valneige, excitado pela indignação.—Sim, senhor, não é mal respondido; querem vêr que tambem está na minha barraca?—Está, sim, respondeu o pequeno; está e vê tudo.Envergonhado do seu atrevimento, Adalberto abaixou os olhos, e viu a boa Tilly assentada no chão e olhando compadecida para o pobre Natchès, de quem gostava mais desde que lhe batiam. O mestre voltou-se para o nosso amiguinho e disse-lhe sem colera:{69}—Ouve, meu rapaz, por uma vez passa, mas não caias n'outra. Quando a mãe dá pancada, é preciso deixal-a, isso é com ella.Estas palavras fizeram pensar a Adalberto que, nos detalhes da vida ordinaria, aquelle homem era talvez menos mau do que a velha.O que mais o espantava, era a frieza de Gella, a quem os gritos de dôr não tinham feito chorar. Lembrava-se das lagrimas de sua irmã Camilla, por causa d'um cão que julgaram damnado e que fôra preciso matar. Tinha-se Camilla resignado á ordem do pae, mas n'esse dia, como tinha ouvido os gritos do cão, não poude jantar!Lembrava-se ainda que sua mãe, vendo um pequeno camponez ferido por uma ferramenta de que imprudentemente se servira, tinha curado a criança como se fosse sua, dizendo, pallida de emoção: «Chego a estar doente!»Portanto, é natural ter pena de vêr soffrer os outros, quando se tem coração, pensava Adalberto. Porque seria que Gella não soffria quando maltratavam Natchès? Porventura o habito de vêr o mal dá cabo do coração?Quando lhe passou a furia a avó pensou que era tempo de occupar o recem-chegado, e de lhe dar nome e fato, isto é, uma alcunha e miseraveis farrapos. Era com visivel aborrecimento que cuidava d'elle, não cessando de dizer a seu genro que bem podia tel-o deixado aonde estava, porque lhe parecia que elle não{70}servia para nada. «Quem sabe?» respondia o homem de ferro inclinando a cabeça sobre seus largos hombros. N'aquella posição, que muitas vezes tomava, parecia-se com as estatuas de Hercules descançando dos seus trabalhos. Como elle raras vezes fallava, a sua presença não augmentava as questões; parecia pelo contrario que diante d'elle estavam menos zangados uns com os outros n'aquella maldita barraca.O caso é que o Hercules era temido por todos, se não era respeitado; chamavam-lhe pae, e muitas vezes mestre; a sua palavra fazia a lei, porque representava uma authoridade absoluta; mas tinha nos detalhes a longanimidade que acompanha muitas vezes a certeza de ser obedecido. Não fallava sem necessidade; comtudo a sua vontade impunha-se, assim como uma barreira; não se podia passar além, nem fazel-a recuar. Sombrio rei d'aquella triste habitação, ordenava só com a sua presença, e é provavel, que se alguma vez tivesse empregado a força, redrobada pela colera, teria esmagado tudo.Por isso a velha, para não o descontentar, tratou, resmungando como sempre, de dar ao pobre Adalberto o vestuario que d'ali por diante devia ser o seu. Procurou no fato velho de Karik e de Natchès, e achou umas calças muito curtas e um casaco muito comprido, o que para ella era um vestuario completo.{71}—Vamos lá, gritou ella muito zangada, anda cá maroto. É verdade, é preciso, pôr-lhe um nome; ora, como te chamas tu?—Hei de chamar-me sempre Adalberto de Valneige, disse o pequeno levantando a cabeça.—Ta, ta, ta, fazes favor de te calar? Se tornas a repetir esse nome, corto-te em bocados, piso-te n'um gral, e dou-te a comer ao cão!...Adalberto sentiu talvez menos o horror d'esta ameaça, do que a maldade d'aquelles olhos pequenos e pardos, fitos nos seus com uma expressão, exquisita. Cahiram-lhe os braços, e, em attitude d'uma desanimação absoluta, ouviu a velha gritar-lhe ao ouvido:—Hasde chamar-te Mustaphá.—Sim, senhora, respondeu humildemente Adalberto.—E a mim, hasde chamar-me avó.Estas palavras fizeram ferver o sangue ao joven Valneige. Tinha conhecido sua avó, a mãe de sua mãe, tão boa, tão respeitavel, que uma tarde tinha adormecido para acordar no Céo, segundo lhe tinham dito, e teria de dar o seu nome a uma creatura infame?—Não! exclamou elle com horror.—Que dizes tu?—Digo que não.Immediatamente duas grandes bofetadas estalaram sobre a face do prisioneiro, que pela{72}força da pancada, perdeu o equilibrio e foi rolar aos pés de Gella, que lhe disse em voz baixa:—Aqui nunca se deve dizer que não, meu pequeno.Quando fallava baixo, a rapariga tinha a voz sympathica. Adalberto sentiu-o, e começou a ter esperança n'ella, sobretudo quando ella, levantando-o e cobrindo-lhe a cabeça com as suas trigueiras e lindas mãos disse sorrindo e graciosa:—Pois sim, avó, elle não torna mais.—Melhor para elle, respondeu Praxedes, que começou o horroroso vestuario da criança, tirando-lhe o fato simples, mas fino e limpo, que podia fazer conhecer a sua origem.O desgraçado pequeno olhava para a sua jaqueta de panno azul escuro, e para as suas calças da mesma côr. Olhava tambem para o collarinho com um borrão de tinta; fôra a brincar com Eugenio, que tinha feito aquella maldade. Viu-se despojado de tudo quanto usava; teve de vestir uma das grossas camizas de Natchès, as feias e curtas calças, e aquelle casaco sujo e ridiculo, que lhe dava o ar d'um velho que não cresceu.Image pg073O mestre fez signal para lhe não cortarem os cabellos. (Pag. 72).Quando acabou este feio vestuario, Praxedes metteu uma grande tesoura no cabello loiro e fino de que a senhora de Valneige tanto gostava. Adalberto estremeceu; mas, por um feliz capricho, o mestre fez signal para lhe não cortarem os cabellos naturalmente annelados{73}{74}{75}e que tanto contribuiam para dar á criança uma belleza insinuante. Comtudo, como aquella carinha era muito distincta para o papel que ia representar, pozeram de roda da cabeça d'Adalberto uma feia fita d'ouro avermelhado, e logo perdeu aquella graça natural, que tinha por tanto tempo feito o justo orgulho de sua mãe.Karik, o filho de Hercules, era mau por instincto e por educação; foi buscar o espelho diante do qual se enfeitava sua irmã mais velha nos dias de representação, quando dançava e seu pae a acompanhava, ao mesmo tempo que Karik batia com força sobre o seu grande tambor e que Natchès agitava as campainhas.Adalberto, quando viu o espelho, sentiu dolorosamente o procedimento do joven saltimbanco. Vendo quanto o captivo soffria com o seu feio trajo, Karik quizera que elle podesse saborear a humilhação vendo o seu retrato desfigurado.Tilly sentiu tambem a offensa, apesar da sua infancia. Quando o espelho passou por ella, a boa pequena bafejou-o com o seu halito para o fazer baço, ao menos n'um bocado. Adalberto comprehendeu a bondade d'esta acção, e olhou amigavelmente para Tilly que não ousava dar palavra nem mexer-se. Mas Gella em tres passos chegou-se a seu mau irmão, arrancou-lhe bruscamente das mãos o espelho e foi pôl-o no seu logar.{76}Adalberto ficou-lhe grato por esta delicadeza, no meio da sua grosseria masculina e popular; voltou-se para ella com um sentimento de esperança, e disse comsigo mais uma vez:—É ella, sim, ella é que ha de livrar-me!Uma coisa o affligia; era vêr a velha Praxedes cortar com a grande tesoura a roupa branca e o fato que acabava de lhe tirar.Era sem duvida para que não ficasse na carruagem um unico objecto que podesse causar suspeitas.Tinha instinctivamente mettido na algibeira um feio botão cosido pela Rosinha na algibeira das suas calças de panno azul, no momento de deixar Valneige; na sua precipitação, não achando um que dissesse bem, a boa mulher tinha posto aquelle que dizia mal e que, apesar d'isso, tinha ficado, como muitas vezes succede ao que não é senão provisorio. Pelo mesmo instincto de exilado apanhou o pequeno bocado do collarinho em que tinha deitado o borrão brincando com seu irmão. Na sua dôr infantil, eram para elle duas imagens do passado, de que fazia dois thesouros. Ah! como elle apreciava agora todas as felicidades de Valneige: a familia, a casa, um agasalho em tudo, sem fallar da polidez, da boa educação. Aqui, tudo era grosseiro!Foi um momento bem penoso aquelle em que elle pela primeira vez teve de comer a sopa dos ladrões. O prisioneiro morria de fome;{77}como já disse, não jantára na vespera; o seu estomago soffria, e quando a velha lhe trouxe uma sopa de batatas n'um prato rachado, experimentou ao mesmo tempo um nojo e uma irresistivel necessidade de alimento.Tomou pois aquella sopa que, na verdade, não era muito má, e que pelo menos devia ser substancial, porque uma colher de ferro mettida n'ella ficava em pé.Emquanto almoçava, parecia-lhe vêr a casa de jantar do castello; quatro pratos de porcelana muito branca, postos sobre a linda mesa de pau santo, e Rosinha servindo a sopa ás crianças. A querida mãe, passando para ir dar as suas ordens, e vendo a porta entre aberta, dizia jovialmente: «Bom appetite!» e riam; e elle, Adalberto, corria para a abraçar, mas Rosinha conservando o seu espirito de exactidão gritava-lhe:—Faz favor de ficar aqui, pequeno lambusado; quem é que se levanta da meza antes de acabar? Não são horas de dar abraços, são horas de comer.Em presença d'este quadro que lhe offerecia a sua imaginação, Adalberto sentia as lagrimas nos olhos, e, comtudo, não queria chorar; mas ser forte, corajoso, e conseguir fugir, era, o seu unico pensamento.Tilly vendo que a sua tristeza augmentava julgou que elle não tinha comido bastante e{78}apresentou-lhe delicadamente o seu prato, dizendo-lhe familiarmente:—Se tu quizesses acabar a minha sopa? eu quando não como bastante não me faz mal.—O que! disse Adalberto com um gesto de reconhecimento, quando se não come bastante soffre-se.—Oh! eu soffro sempre.—De que?—De tudo.Taes foram as primeiras palavras que estas duas crianças trocaram ás escondidas, e o rapazinho cheio de illusão dizia comsigo:—Pobre pequena! Que pena não poder eu leval-a commigo quando fugir!Passada a manhã começava o trabalho. O que era o trabalho na casa do saltimbanco? O trabalho era todo o exercicio que póde tornar o corpo flexivel. O mestre collocava em linha Karik, Natchès e Tilly; faziam passos de dança, davam pulos e cambalhotas. O Hercules punha sobre os seus robustos hombros os bonitos pésinhos de Tilly e andava, levando-a como em triumpho. Era preciso que ella estivesse direita, que a cintura se conservasse flexivel, e que se ensaiasse a sorrir e a atirar beijos. Desde muito tempo Tilly não tinha medo, tão forte e dextro era o mestre; o que lhe parecia difficil n'este exercicio era unicamente sorrir e mostrar-se feliz.O bom Natchès tinha chegado ao ideal da{79}flexibilidade e da graça. Tinham-lhe batido tanto desde a sua infancia que previa as ordens do mestre, applicando-se de todo o coração e fazendo maravilhas.Era uma bella criança cheia de saude, mas o moral tinha fraquejado; o seu olhar tinha um tanto de servil; e quando obedecia ao menor signal, parecia-se com o cão de caça que se chega arrastando-se muito humilde, e felicissimo por lhe não baterem. Adalberto lamentava-o, não tanto pela sua desgraça como por não sentir a miseria da sua sorte. A natureza energica do pequeno de Valneige não comprehendia esta natureza fraca e completamente domada.Quanto ao feio e mau Karik, exercia o seu rude officio imitando seu pae nas posições herculeas, nos seus olhares sombrios e nas suas terriveis juras. Era d'um caracter ligeiro, e juntava a isto chalaças triviaes que repetia a si mesmo, estudando debalde tornal-as finas.Asseguravam que tinha um futuro, que se faria d'elle alguma coisa! Não se prestando o seu exterior aos papeis graciosos, dedicava-se ás forças. Esperavam vel-o como seu pae, andar de roda de uma praça publica, sustentando entre os dentes uma grande pedra presa a uma corda; o pescoço inchado, as veias quasi a arrebentarem, a cara a escorrer; era a este genero de proezas, que se destinava aquelle rapaz.Para descançar, torcia os membros da maneira{80}mais grotesca, deitando-se para traz e levantando uma cadeira com destreza, engulindo pedras, comendo fogo... que sei eu? Adalberto estava espantado!Só tinha, comtudo, um pensamento, vendo trabalhar a companhia; era achar meio de se evadir. Mas como? Ás vezes pensava em implorar Gella; mas conhecia-a elle bastante? Se ella mangasse com elle, ou fosse repetir as suas palavras ao mestre, e redobrar por consequencia a sua desconfiança? Nada; era impossivel aceitar esta idéa. Todas as vezes que pensava em fugir, lembrava-se que a fuga era impraticavel e perigosa em um paiz onde elle não conhecia a lingua. Viu-se forçado a adiar a execução do seu projecto, porque fallavam de deixar as montanhas e de viajar lentamente na direcção do Rheno; ora o Rheno era uma esperança para elle; sabia que mesmo antes de lá chegar encontraria muitos homens que fallariam francez. A pobre criança tornara-se de repente medrosa, submissa, e paciente; não fallou a pessoa alguma e resignou-se a esperar, para não lhe falhar o seu projecto.{81}CAPITULO VIIAdalberto ouvia nas trevas o bater do relogio.Quando os Ciganos se pozeram a caminho, depois de terem passado muito tempo nas montanhas, Adalberto viu com susto, que era objecto de grande e nunca interrompida vigilancia. O mestre, a velha, Karik, e mesmo a boa Gella, eis os espiões que dia e noite o rodeavam. Mais terrivel do que elles todos, o velho cão rosnador olhava-o com olhos chamejantes, e parecia querer engulil-o se tentasse fugir. Decididamente a occasião ainda não chegára; e quando chegaria ella? Paravam em toda a parte; acampavam nos arredores das cidades, a maior parte das vezes sem entrar{82}n'ellas, a não ser que houvesse alguma festa popular; o pobre pequeno figurava, coitado! n'estas festas! Quanto á velha cigana, horrenda creatura, ia por alli fóra lendo a sina a quem queria ouvil-a, examinando attentamente a palma da mão das pessoas supersticiosas, a quem pregava absurdas mentiras, que a faziam rir ás gargalhadas, quando estava em familia. Adalberto, apesar de haver já um anno que via todos estes manejos, não se habituava a elles, indignava-se d'essa conducta e tinha horror áquella furia.Á sua pena juntava-se o receio de nunca achar maneira de pôr em execução o seu projecto. De que servia atravessar terras onde o prisioneiro podia fazer-se entender se nunca o perdiam de vista?Comtudo fallava-se sempre no Rheno, e tratava-se de parar um pouco ao sul da Alsacia, depois do que se encaminhariam talvez para os lados do Lyão, onde Gella veria sua tia, respeitavel mulher que, em memoria de sua irmã, que morrera tão nova e tão desgraçada, gostava da pobre cigana e lhe queria bem. Estas palavras, que Adalberto apanhava ao acaso e que Gella lhe repetia de boa vontade, davam coragem ao prisioneiro, e, guardando só para si o seu segredo, fazia tenção de aproveitar ávidamente a primeira occasião favoravel.Depois que passaram o Rheno, o rapazinho respirou um pouco mais livremente; não duvidava{83}da sua proxima liberdade, e tardava-lhe saber onde primeiro parariam.Viu com grande alegria, que pararam logo na primeira noite defronte d'uma pequena cidade, cujo nome ignorava. Uma cidade, uma multidão, outras tantas rasões para ter esperança. Fugir d'alli, era o seu unico pensamento; quanto ao que se seguiria estava convencido que nenhuma situação podia ser peior do que a sua.Quando chegou a noite, as mulheres cuidaram em renovar as provisões. Ordinariamente era Gella que, com o cabaz no braço, ia comprar o pouco que era preciso, ou pelo menos o pouco que podiam arranjar; porque o Hercules comia e bebia nas tabernas que encontrava no caminho, empregando no serviço do seu vigoroso estomago uma boa parte do dinheiro que ganhava a companhia, e não deixando aos outros senão muito pouco. Feijões, repolhos, batatas, era a comida ordinaria; um caldo da carne só por extraordinario.Como era impossivel queixar-se diante do despotismo do mestre, cada um se contentava com amaldiçoar em voz baixa a força poderosa, que governava sem bondade.N'aquella noite, o Hercules declarou que tinha negocios na cidade, e que ahi acompanharia Gella e as crianças, emquanto que Praxedes, com o seu neto e o horrendo Wolf, guardariam a casa.{84}Adalberto, vendo-se de partida, sentiu redobrar-lhe a esperança. Olhava de longe para a cidade e para as ruas tortuosas, e pensava na possibilidade de fugir.—É tão grande e eu sou tão pequeno! Não me verão. E de mais a mais as ruas são tão mal illuminadas!Acostumado á prudencia o Hercules fez signal a Gella para dar a mão ao recem-chegado; desconfiava que aquelle espirito corajoso e atrevido só se domaria pela força, e pensaria sempre na fuga. Gella deu pois a mão ao rapazinho. Quanto ao pacato Natchès, estava tão mortificado, que a sua escravidão parecia-lhe uma necessidade, e que a idéa de se libertar não chegára a passar-lhe pela cabeça. Caminhava em perfeita liberdade ao luar, correndo adiante de Tilly, que nunca corria, tão fraca e doente era! O seu abatimento e a sua juventude escondiam-lhe sem duvida em parte a vergonha e a miseria da sua posição; comtudo, quando encontrava nos seus raros passeios uma pequenita bem vestida, a quem fallavam com doçura, achava-se de repente bem desgraçada.Partiram, e, sem que o mestre dissesse uma só palavra pelo caminho, entraram na cidade. Ali, separaram-se: o Hercules tomou á direita e Gella, com as tres crianças, tomou á esquerda, emquanto seu pae lhe dizia n'um tom que, para ella, era a expressão d'um poder absoluto:{85}—Cuidado com o garoto; tu é que és responsavel por elle; vê o que fazes!—Sim, meu pae, disse Gella baixando os olhos. Esta rapariga, meia selvagem, educada nos theatros das feiras, só baixava os olhos diante de seu pae. Temia-o, e esse temor conservava entre elles uma especie de acordo, porque ella obedecia cegamente. Elle sabia-o, e mandava-a com o gesto. Resultava d'este systema de intimidação que a rapariga nunca se afastava do que para ella era o dever. Natureza honesta, teria sido superior, se lhe não faltasse toda a educação. Sem reflexão, sem nenhuns principios, conduzia-se honestamente temendo sobretudo a colera de seu pae, que a obediencia passiva conservava inoffensivo e silencioso.Era por isso que se não via Gella andar vadiando pelas ruas. Trabalhava sempre, ora na casa, ora na costura, ou nos exercicios que lhe conservavam a flexibilidade e a ligeireza.Se o seu coração era frio, não devia isso causar admiração; nunca coisa alguma o tinha desenvolvido; só via o mal, e sem duvida Deus tinha grande compaixão da sua ignorancia.Adalberto, ainda que nada sabia analysar, presentia tudo isto vagamente, e vendo a sua mãosinha fechada na grande e trigueira mão de Gella, não experimentou repugnancia alguma, mas antes um sentimento que se parecia com a confiança misturada com a duvida.{86}Eis uma padaria; entram, compram dois grandes pães, de que se encarregam Natchès e Tilly; depois passa-se para a salchicharia, e Gella manda metter no cesto só coisas baratas; é sempre a condição das suas compras, porque não conhece a abundancia.D'ali é preciso ir buscar carvão.Mettem-se pelas ruas estreitas e tortuosas, e, vendo grande multidão de homens, de mulheres e de crianças, Adalberto pergunta a si mesmo se não chegou o momento de fazer uma tentativa? Gella já não lhe dá a mão, entra em primeiro logar na carvoaria, as crianças seguem-na. O nosso amiguinho olha furtivamente para a direita, para a esquerda; hesita, o seu coração bate com força, está decidido, o seu partido está tomado, vai fugir... que caminho escolher? E se encontrasse o Hercules? Só esta idéa o faz tremer. E, comtudo, que espera elle? que melhor occasião se póde apresentar? é uma cidade, a noite, a bulha, a multidão... Fujamos.Adalberto volta para o lado direito ao acaso, caminhando encostado ás paredes, e julgando que toda a gente olha para elle; depois animando-se a si mesmo por este começo de bom exito, vai, vai, sem saber o que faz, a não ser que escapa ao homem silencioso, á velha Praxedes, ao mau Karik e ao cão que morde.Image pg087Cuidado com o garoto! (Pag. 85.)Á força de andar sem outro fim senão fugir, cançam-lhe as pernas e pergunta com medo:{87}{88}{89}«onde estou? onde vou?» A inquietação junta-se no seu espirito ao desejo febril de se afastar da ambulante. Oh! miseria! percebe que na sua carreira insensata, voltou pelo mesmo caminho, e está outra vez na praça, que atravessou ainda agora para ir ao padeiro! Que ha de fazer?Olha para todos os lados com tal anxiedade, que as pessoas que passam, por mais indifferentes que sejam, lh'a conhecem na cara. Uma boa mulher, que vendia maçãs, fal-o parar, e diz-lhe com bom modo:—Ó homemsinho, andas á procura do teu caminho?—Não.—Não? Pois parece bem que sim. Onde vais tu?—Para ali.—Para ali para onde? para o lado do carvoeiro?—Nada, não.—Mas ainda agora estavas lá á porta; dize, anda, falla.—Sim... Não!—Como te chamas tu?—Adalberto, não... não!—Ah! tu não sabes o que dizes!... Olhe tia Dubois, não vê este pequeno com um casaco que não foi feito para elle, e a fita doirada no cabello? Não será este o que andam procurando acolá?{90}—É possivel. Tem ar de vagabundo; mas seja o que fôr, não me metto n'isso; eu não me entendo com a canalha.—Não importa, um cão que fosse, e que se perdesse quereria fazer-lhe achar o dono; eu cá sou assim...Ao mesmo tempo, metade por bom coração, metade por gostar de emoções, a boa vendedeira de maçãs pegou na mão de Adalberto para o levar para o lado do carvoeiro. A criança resistiu, com grande espanto da boa mulher que lhe repetia procurando arrastal-o:—Mas vem d'ahi, tolinho! uma vez que eu te digo que tua irmã mais velha te procura, e que o teu papá anda em busca de ti por outro lado; olha, vêl-o? vem para aqui.Adalberto viu com effeito o Hercules que caminhava a grandes passos, olhando sombriamente em redor de si; parecia pedir um ponto de apoio para a sua colera. Um medo inexplicavel se apoderou do desgraçado pequeno; teve um momento de incerteza, não sabendo se ia cahir ali paralysado diante do seu perseguidor, ou se tentaria recuperar a liberdade. A energia da sua natureza venceu. Escapando-se á vendedeira, mette-se pela rua em frente e corre o mais que póde, até que se sentiu sem folego.Depois d'esta rua acha outra, depois ainda outra, e ao longe avista a planicie, que era a extremidade da pequena cidade; se podesse{91}correr ainda chegaria ao campo, e esconder-se-ia em qualquer canto.Adalberto faz um esforço supremo na direcção da planicie... Quem vê elle aproximar-se por uma rua transversal? Gella, pallida, inquieta e correndo atraz d'elle. A cabeça da criança perturba-se, passa-lhe pela idéa deitar-se-lhe aos pés, supplicar-lhe que o deixe fugir... Mas, diz comsigo, se ella tem com effeito o coração endurecido, estou perdido! E de mais, ella deve estar muito zangada commigo? É preciso fugir-lhe.O excesso do desespero dá-lhe forças, parte como uma setta, não vê, não ouve nada; dir-se-hia que só lhe resta o poder de desapparecer, de se subtrahir á mais horrivel desgraça.Gella tambem é agil; vai apanhal-o; os seus ligeiros pés devoram o espaço.Mas eis aqui o campo; a criança avista uma casa isolada; baterá á porta, gritará, terão dó da sua desgraça e escondel-o-hão.Ghega, arremessa-se á porta, bate, toca, chama, ninguem responde, parece tudo morto; as portas das janellas estão fechadas, é absoluto o silencio. O infeliz Adalberto ouve o respirar de Gella, e a bulha dos seus passos que se aproximam com uma rapidez incrivel. Emfim... eil-a... Elle dá a volta da casa, e vê diante de si uma fresta; ha pois alli uma adêga, uma casa de lenha, alguma coisa emfim que não é a casa do Saltimbanco. E depois, se{92}Gella o leva, prisioneiro fugitivo, não vai elle levar pancadas do Hercules, ou da velha, ou de Karik, ou de todos tres, e ser mordido pelo cão? Vale mais a fresta! É o desconhecido, e o desconhecido é a esperança!Mette a cabeça, depois os braços, agarra com a mão uma barra de ferro que separa em duas a abertura, e volta-se com a destreza que dá sempre uma situação desesperada. N'este momento Gella com passo lento e cauteloso começa a andar de roda da casa deserta. Elle deixa-se escorregar, transido de medo, pelo muro abaixo, e vai cahir sobre não sei que, d'onde, com o peso do seu corpo, faz levantar uma nuvem de poeira acompanhada de um som desconhecido.Onde está elle? a pobre criança não sabe, mas ouve o roçar de um vestido na barra de ferro da fresta; Gella parou, chama, escuta, falla:—Pequeno, estás ahi? responde-me, dize-me se estás ahi?Mais morto do que vivo, Adalberto fica mudo, espera mesmo para respirar que a rapariga esfalfada, arquejante se afaste, perdendo talvez o rasto do fugitivo.Quando o silencio se restabelece, a criança conserva-se no mesmo silencio, e agora, que Gella o não persegue, quereria ouvir ainda a bulha dos seus passos; mas nenhum som lhe chega aos ouvidos a não serem oito pancadas vagarosamente{93}dadas por um relogio, a que um homem sem duvida deu corda antes de deixar a casa.Foi pois habitada, ou pelo menos visitada, não ha muito tempo esta casa? Mas quando voltarão para ella? E elle como sahirá d'ali? Não lhe tinha vindo esta idéa quando Gella estava perto d'elle; agora comprehende a sua desgraça, e essa desgraça assusta-o.Victima de novo terror, torna-lhe a idéa de que, com certeza, Gella seria boa e o seu coração se commoveria, vendo uma criança abandonada. Não lhe tinha ella dado muitas vezes provas da sua natural bondade? Sim, deveria ter-se fiado n'ella, e pode ser que ainda seja tempo?Grita, chama!—Gella! Gella!Mas escutando, ouve gritar e repetir duas vezes:—Gella! Gella!Esta voz, que diz o que elle disse e parece a sua, fal-o tremer; os cabellos molham-se-lhe de suor, as pernas vergam, os dentes batem; mas lembra-se de repente que ha em Valneige um echo no parque, perto da neveira, e que o seu papá escarnecia d'elle quando tinha medo do echo, visto não ser um ente invisivel, mas uma bulha repetida por uma causa muito natural.Tendo-lhe passado mais o medo, cahe meio deitado e resigna-se a esperar.—Que oito horas! diz comsigo, quanto tempo{94}será preciso esperar até que o dia volte! E quando voltar o dia, como sahirei d'este buraco?Não ousava mover-se, temendo encontrar algum obstaculo no chão, ou objectos que podessem feril-o. O somno não vinha interromper a sua inquietação; pelo contrario, estava agitado, abria muito os olhos, e cruzavam-se-lhe na cabeça, n'aquella noite, mais idéas do que ordinariamente passavam por ella em todo um dia.A luz da lua não descia até ao fundo da adêga; um canto só estava allumiado, e n'este angulo, Adalberto via uma coisa preta, tão comprida, como duas vezes a sua mão quando muito, mas seguida d'um traço preto que, collado por assim dizer á parede, se inclinava comtudo algumas vezes ora para a direita, ora para a esquerda.«Que é aquillo!» perguntava a si mesmo Adalberto, cujos olhos inquietos não largavam o objecto mysterioso, sem poder comtudo imaginar o que havia n'aquelle canto. Esta nova preoccupação juntou-se ás outras. Que noite! A criança estava sósinha nas trevas, sem ao menos ter medido com os seus passos a prisão e dizendo comsigo:—Quando eu tiver fome, quem me dará pão? Algumas vezes pensava que nunca mais teria fome, porque era muito desgraçado.Deram nove horas no meio d'esta grande tristeza. Como elle se voltasse para o outro{95}lado para descansar da sua incommoda posição sobre aquella especie de cama empoeirada, avistou pela fresta uma linda estrella que parecia estar ali só para elle. Viu essa estrella com verdadeiro reconhecimento; era uma coisa consoladora para uma criança abandonada e como que enterrada viva; e depois esta vista dava-lhe pensamentos mais socegados do que os pensamentos da terra. Dizia ingenuamente:—Foi Nosso Senhor sósinho que fez aquella estrella, e como sabe tudo antes, sabia quando a estava fazendo que um pobre rapazinho a veria por uma fresta quando tivesse perdido o seu papá, a sua mamã e toda a gente.Esta lembrança, junta ao enternecimento que lhe causava a bella e solitaria estrella, fez-lhe chorar lagrimas, cuja doçura elle ainda não conhecia, e que alliviaram seu peito opprimido. Sentia-se uma creatura abençoada que, por estar a oito pés debaixo da terra, não estava menos presente aos olhos do Creador. Derramando, sem querer, lagrimas que o consolavam realmente, dizia a Deus as palavras mais doces, de maior confiança; era a sua oração da noite, e quando a acabou, continuou a olhar para a estrella, e, apezar do frio que começava a sentir, apesar da tristeza que enchia o seu coração, teria talvez podido adormecer defronte d'este cantinho de ceo azul, se não fosse como que forçado a voltar a cada instante os olhos para o canto para vigiar o{96}objecto negro, que estava sempre ali, e cuja extremidade mexia de vez em quando, deixando ao prisioneiro uma duvida que lhe era insupportavel.O relogio deu dez horas. Parecia á criança haver já muito tempo que vivia n'aquelle subterraneo, e, a dizer a verdade, sem a estrella teria desanimado; mas lá estava bella e brilhante, como uma joia cahida da mão do grande Rei, e Adalberto dizia-lhe:Fica ahi, minha linda estrella, oh! fica não te vás, não me deixes só! Tu és a minha estrella, bem minha; e, como os sabios dão um nome a tudo quanto brilha lá em cima, eu, que não sou sabio, dou-te um nome, o melhor que eu sei, chamo-te como a mamã,Adilia, porque me fazes bem. Emquanto eu te vir, terei coragem; e quando sahir d'aqui e tornar a encontrar meus paes, procurar-te-hei ainda, e, tu verás, olharei para ti toda a minha vida!Fallando á sua nova amiga, volta-se para o canto da parede por um movimento que se tornou nervoso e o que vê elle?... o objecto mysterioso tinha mudado de lugar, tinha andado e andava ainda; vinha para o lado do pequeno. Não havia duvida, era um grande rato preto, um d'aquelles que Gervasio se esforçava por fazer cahir na ratoeira, dizendo que aquelles animaes mordiam.Adalberto não viu mais a sua estrella, nem{97}o céo azul, nem as suas bellas esperanças, mas unicamente o gordo rato preto, que vinha ás escuras como um traidor, e sem que o prisioneiro podesse defender-se visto que não ousava mexer-se, não sabendo de que estava rodeado. Novo susto!O pezar do pequeno de Valneige já não era um pezar de enternecimento, que elevasse a sua alma tão bem formada por bons paes; era um horror instinctivo por um animal perigoso; era preciso passar assim toda a noite e a pendula fez soar nas trevas onze horas.{98}

Em quanto a familia de Valneige estava triste e consternada, em quanto se procurava por todos os lados, em Praga e nos arredores; onde estava o querido pequeno Adalberto? Ninguem o sabia, excepto a infame creatura que o tinha roubado ao amor de seus paes. Habituada a desobedecer, não podia mais tarde ou mais cedo deixar de succeder grande desgraça áquella criança. No dia em que desapparecêra, havia desobedecido oito vezes! e como ninguem tinha dado por isso, não fôra castigado. Deus vê tudo que os paes e as mães não vêem; foi Elle quem se encarregou de{53}castigar por uma vez, com um castigo terrivel, todas as desobediencias que o rapazinho commettera, desde que sabia o que fazia; e bem cedo tinha elle tido intelligencia.

Eis aqui como as coisas se passaram: Perdemos de vista Adalberto, no momento em que um homem d'uns cincoenta annos, embrulhado num capote de lã grossa, o levou, depressa, depressa, depressa... Este homem tinha, é verdade, cara de poucos amigos, e o olhar sombrio; mas fallava um pouco francez. Na sua grande afflicção, a criança, que não suspeitava uma traição, seguiu-o em silencio. Andou muito tempo, tanto tempo que as suas perninhas fraquejaram, e que de repente, desanimado pela fadiga, pelo medo, pela fome e pelo sangue frio d'aquelle que o conduzia começou a chorar.

«Tu choras?» disse-lhe o desconhecido com um tom de falsa bondade, e, repetindo-lhe que sabia onde estavam seus paes, e que os iam encontrar, o homem trigueiro, do qual um grande chapeu escondia quasi toda a enorme cabeça, fêl-o entrar em uma casa suja e meia escura, onde lhe disse que esperasse um instante. A criança estava morta de fome e de sede; o desconhecido fêl-a comer e beber, beber, beber tanto, que, sob as vistas do malvado, o querido pequeno sentiu-se como sobrecarregado por um peso extraordinario; os olhos fecharam-se-lhe, já não{54}tinha medo; uma especie de indifferença e quasi de bem estar succedêra a toda a emoção triste... emfim, adormeceu profundamente. Era o que o homem do chapeu grande, tinha preparado; e tomando nos braços a sua innocente victima, dirigiu-se precipitadamente para a estação do caminho de ferro, deixando a cidade, e tendo o cuidado de embrulhar Adalberto no grande capote de lã, afim de o fazer passar por uma criança doente.

Desde então, o que succedeu? Onde foram? O pequeno dormia; quando, sahiu d'esta especie de lethargo, não obteve resposta alguma ás suas perguntas, e viu passar na sombra uns homens que se pareciam com aquelle que o levava. Estava morto de susto. Depois de mil voltas avistou uma grande carruagem, uma especie de casa ambulante, tendo janellas com taboinhas: o homem trigueiro deu uma grande pancada na porta, e disse algumas palavras na lingua particular dos Ciganos; depois, com uma mão de ferro, agarrou o pequeno francez, e levantou-o: um rapaz abriu a porta fazendo chacota, e Adalberto achou-se no meio de um corredor estreito, que dava communicação para miseraveis compartimentos... a que chamavam quartos.

Uma mulher muito velha, feia, negra, e secca, dirigindo-lhe a palavra em mau francez, fallou-lhe como ordinariamente se falla aos cães. Elle não comprehendeu bem; desejou sómente{55}descer os degraus que acabava de subir para entrar na carruagem: mas a porta tinha-se fechado. O pequeno imprudente olhou para a velha e disse-lhe imperiosamente:

—Abra!

—Não, não, não, respondeu a terrivel velha; uma vez que se sobe é para sempre.

—Para sempre? repetiu Adalberto com indignação, e, comprehendendo o horror d'estas palavras, levantou os braços e começou a gritar!

Uma mão suja, horrenda, decrepita, collou-se-lhe sobre a bocca, em quanto aquella furia soltava horrorosas blasphemias.

A criancinha estava cheia de susto sem saber o que havia de pensar: era como a destruição completa de toda a sua vida, e, não só por medo como tambem por surpreza, perdeu os sentidos.

Quando fechou os olhos, a mão suja e má, que o tinha obrigado ao silencio, despregou-se-lhe dos beiços; mas, aquella mão, como se estivesse resolvida a fazel-o soffrer, foi buscar um pucaro d'agua bem fria e deitou-lh'a sobre a cara. O querido pequeno abriu os olhos, olhou de roda de si como para procurar sua mãe, e disse lavado em lagrimas e muito humildemente:

—Senhora, deixe-me voltar para casa da mamã, se faz favor.

Uma gargalhada formidavel acolheu esta supplica{56}de criança, e, juntando a ironia á crueldade, a velha Praxedes exclamou:

—Vai para casa de tua mamã, vai, corre, anda vai!

O prisioneiro viu bem que tudo estava acabado, que o crime estava consummado; que o tinham roubado!

A velha furia, que parecia uma bruxa, era a sogra do homem do chapeu grande, a avó, não de Gella, a filha do amo, mas de seu irmão Karik, e o chamado Mentor de duas pobres crianças, Natchès e Tilly, um pequeno e uma pequena, cahidos como Adalberto nas mãos dos ladrões. O desgosto do captivo foi tão profundo, que cessou de se queixar achando-se horrivelmente desgraçado.

Dotado de grande força moral, a sua dôr tornou-se em desespero, e inspirou-lhe a firme vontade de se evadir: mais tarde ou mais cedo.

Tinha uma incrivel energia, e ainda que o seu corpo fosse magro e pequeno, sentia-se capaz de vencer grandes obstaculos. Por em quanto nada havia a dizer nem a fazer.

«Se estás doente, deita-te,» disse-lhe bruscamente a velha Praxedes, mostrando ao recem-chegado um monte de trapos e de fato velho no canto do seu horroroso quarto. Elle não esperou que lh'o repetissem, julgando, com rasão, que o melhor era obedecer. Como não lhe deram cobertores não se despiu; estendeu-se sobre os trapos, tendo o cuidado de puxar{57}para os pés alguns pedaços de fato velho para evitar o frio, e pôz a mão debaixo da cara para não se encostar a esses farrapos.

Uma vez deitado, fechou os olhos, não fez movimento algum, e bem depressa o julgaram a dormir. Não percebeu uma só palavra do que se dizia, porque os Ciganos entre si só fallam o seu dialecto; comtudo julgou vêr que Gella mostrava benevolencia para com elle e que tratava de apaziguar a colera de sua avó. Quando a rapariga fallava alto, tinha um som de voz que o habito de gritar ao ar livre tornava duro; e em geral tinha modos d'homem. Adalberto, que de vez em quando abria um olho, podia vêr aquelle todo atrahente.

Gella tinha vinte annos, era bonita, mesmo com os seus vestidos pobres, mas d'uma belleza um pouco selvagem; estatura elevada, flexivel como um vime, os movimentos bonitos, a cara queimada pelo sol, os cabellos pretos com reflexos azulados; a bocca bastante mal desenhada, mas franca e com um sorriso de bondade; os olhos doces quando estava socegada, atrevidos quando se tratava de resistir, muita força de corpo e de bondade.

Era filha do homem do chapeu grande e da sua primeira mulher, que tinha morrido logo depois do nascimento de sua filha. O Cigano, contra os costumes da sua raça, tinha{58}casado com ella por capricho, apesar de não ser Cigana, mas uma pobre rapariga de Lyão. Achava-se orphã e na miseria; e a miseria e a inexperiencia dos dezeseis annos tinham-na levado a aceitar esta exquisita união; uma irmã mais velha, não deixando de a condemnar, interessava-se comtudo pela criança nascida d'aquelle imprudente casamento, e dava de tempos a tempos uma lembrança a Gella.

Assim como era, esta robusta e trigueira rapariga produziu no prisioneiro uma impressão de temor e de confiança. A maneira de fallar depressa, os olhos tão pretos, as sobrancelhas carregadas, tudo isto o intimidava; e, comtudo, aquelles lindos braços deviam ser carinhosos; era impossivel que uma criança infeliz se lançasse n'elles sem que a rapariga a apertasse contra o coração, porque, emfim, devia ter um coração.

Adalberto tinha tanta necessidade de o acreditar que dava esperança a si proprio, e disse comsigo:

Image pg059Gella tinha 20 annos. (Pag. 57.)

Image pg059

Gella tinha 20 annos. (Pag. 57.)

—Um dia dir-lhe-hei que me quero ir embora, e ella ha de consentir em me deixar fugir. Se não deixar, fugirei sem ninguem me ajudar... Depois lembrava-se das suas caminhadas em Praga, e da difficuldade que se encontra quando se não sabe para onde se deve ir e quando não se falla a mesma lingua da outra gente. Este primeiro dia passou-se{59}{60}{61}pois n'um profundo desgosto. O mau vinho tinha-lhe feito tanto mal que elle não quiz comer. Á noite ouviu dizer a velha ás crianças que se deitassem, e admirou-se comsigo mesmo de que Karik, que não tinha mais de quatorze annos, recusasse obedecer; uma boa bofetada decidiu-o. Adalberto ficou vexado de encontrar o seu grande defeito n'um garoto tão mal creado. Quanto aos outros dois, foram mansos como cordeiros, e promptamente cumpriram o que mandou Praxedes; mas o pequeno de Valneige notou, que nem a velha nem Gella disseram como Rosinha sempre dizia:

—Vamos, meus meninos, ponham-se de joelhos e digam a sua reza.

—Não, pensou elle, ninguem aqui reza a Nosso Senhor; é sem duvida porque o não conhecem.

Emquanto Natchès e Tilly se deitavam, um na estreita enxerga que partilhava com Karik, e a outra aos pés da cama de Praxedes, Adalberto lembrou-se que não tinha rezado a sua oração da noite, elle que conhecia Nosso Senhor. Mas o seu terror era tal que não ousou pôr-se de joelhos. No fundo do seu coração teve um grande enternecimento; todo o seu pequenino ser se prostrava pelo pensamento diante d'esse divino protector que véla por nós, e, em vez de começar a sua oração pelas palavras do costume, o querido{62}pequeno apenas repetiu muito baixo, muito baixo, para só ser ouvido no Céo:

—Perdão, meu Deus! perdão por ter desobedecido!

Ah! como elle era desgraçado! Sósinho, separado da sua familia, sem saber o que fariam d'elle; tendo medo do homem brutal, da velha, de Karik, que tinha má apparencia, e do velho cão, que tinha os dentes enormes.

A noite adiantava-se; a fadiga e o desgosto fizeram-lhe fechar os olhos; adormeceu, e sonhou que Filippe, o cocheiro, lhe fazia dar a volta do parque de Valneige em tilbury, por ter tido muito juizo; que a sua mamã o tinha abraçado duas vezes, e que Rosinha lhe tinha concertado a redea do seu cavallo de balouço com um cordel novo; depois a scena mudava bruscamente; estava sentado a uma meza, bebia e tudo andava de roda; mas de repente seu pae vinha ter com elle! Como vêem, Adalberto, mesmo dormindo, tinha ainda esperança.{63}

No dia seguinte um ar frio e saudavel dava aos habitantes da Bohemia vigor e animação. Quando Adalberto acordou teve medo; depois, lembrando-se do que se tinha passado, pensou que este tempo de miseria não duraria muito, e que depressa sahiria d'aquella maldita casa.

Não era o que se chama uma criança estragada pelo mimo; tinha sido educado sem pieguice e por isso havia contrahido habitos energicos. Comia de tudo, supportava o frio sem se queixar, sabia resignar-se, esperar, e tinha muita coragem. Quando em Valneige{64}lhe acontecia magoar-se, só chorava por grandes coisas, porque seu pae quando o via chorar por bagatellas, não deixava de lhe dizer:

—Que tens tu, minha pequenina?

Só esta palavra valia um grande discurso, e lembrava-lhe que era umhomem, como elle dizia.

O nosso amiguinho, tendo em si a força de caracter e de energia physica que dá uma boa educação, não se deixou vencer pela desanimação, que de nada serve a não ser para tornar os males insupportaveis. De mais, tinha todas as illusões da juventude e parecia-lhe impossivel que fosse infeliz por muito tempo. Sendo elle só um estorvo, como dizia a velha Cigana, deixaram-no socegado; mas tendo acordado cedo, fingiu que estava dormindo e não se mexeu, ganhando assim tempo, e reparando disfarçadamente n'algumas scenas intimas.

A velha Praxedes parecia apenas respirar; mas, as poucas forças que lhe restavam, eram misturadas com uma agitação que a atormentava, e aos outros tambem.

Azedada pela fadiga, pela miseria, e pelos incommodos da idade, era o verdadeiro typo de tyranno da companhia. Praxedes queria mal a todos. Embirrava com seu genro a quem chamavao homem de ferro, e que ella detestava; com Gella, que não lhe tinha respeito algum; com seu neto Karik, que lhe resistia praguejando{65}já como seu pae. Quando todos tinham gritado mais do que ella, e lhe provavam que a consideravam mais como criada do que como mãe, ia embirrar com o cão, o horroroso Wolf.

Wolf costumado ás pancadas e a toda a especie de maus tratos, nunca se deixava intimidar. A cada ameaça da velha, respondia rosnando, e quasi que lhe mordia, quando ella lhe dava um pontapé. Respeitava-o até um certo ponto, porque era obrigada a temel-o. Mas havia n'esta mesquinha habitação dois entes, que ella não temia, porque não tinham defesa, e era sobre elles que recahia ordinariamente o seu mau humor. A pobre Tilly era tão pallida e tão fraca, que não ousavam bater-lhe com medo que ella adoecesse e que fosse preciso tratal-a. Praxedes contentava-se de lhe fallar brutalmente, como se não falla a um animal. Exigia, d'esta criança de oito annos uma attenção constante para obedecer ao menor gesto. Quando a pobre pequena tinha commettido alguma falta de vigilancia ou de promptidão, davam-lhe por castigo menos de comer.

Natchès era uma victima. Esta bonita criança de dez annos, cuja robusta natureza havia triumphado dos maus tratos, tinha uma vida digna de compaixão. Praxedes sobretudo não cessava de lhe fazer sentir, que ella não era mais do que um ganha pão. A sua natural docilidade{66}tornada inercia pela sujeição, não a desarmava e muitas vezes a irritava. Batiam-lhe pelo mais pequeno descuido, batiam-lhe por ter respondido e batiam-lhe por estar callada. Adalberto, da sua cama de trapos, assistiu a uma das injustas provocações, que lhe faziam a proposito de tudo.

Na vespera tinha tido a desgraça de quebrar uma gamella rachada, na qual, havia annos, se dava de comer ao cão. Era mais do que o preciso para que a velha se enfurecesse, porque queria mais á sua loiça do que a tudo. Chamou Natchès com voz áspera e disse-lhe:

—Foste tu que quebraste a gamella?

—Sim, disse-lhe o pequeno, que não tinha mesmo a idéa de mentir; fui eu, mas não o fiz de proposito.

—É o que faltava! exclamou a velha, vermelha de colera; ah! tu vais pagar-m'a, mandrião! deixa estar! Canalha! Vibora!

Dito isto uma chuva de bofetões cahiu sobre o pequeno desgraçado. Praxedes, em vez de forças vitaes, tinha uma força nervosa que o furor redobrava; era incrivel a agilidade d'aquellas malditas mãos. Os movimentos ageis e dextros do rapazinho conseguiam felizmente evitar a maior parte das pancadas; mas, vendo isto, a furia pegou n'uma corda para lhe chegar com mais certeza.

Então a pallida e adoentada Tilly deitou-se{67}sobre a pobre criança a quem chamava irmão, por causa da sua desgraça commum.

—Perdão, perdão! gritou ella, oh! não lhe faça mal.

Mas a velha, como se não ouvisse esta supplica afflictiva, batia á vontade para vingar a sua gamella. E Gella? Gella tratava da casa, tomando conta da panella do almoço, na especie de cosinha microscopica armada fóra n'um cotovello da escada. Como! Pois Gella, uma rapariga, não acudia em soccorro de Natchès? Não; estas horrorosas scenas repetiam-se tantas vezes, que já estava habituada, e só intervinha em casos excepcionaes. O seu coração tinha-se endurecido vivendo com gente má, e, ainda que houvesse n'ella uma bondade natural, como o seu sorriso o provava, raras vezes se commovia.

Quem fallará pois em favor de Natchès? O homem da mão de ferro, fuma em silencio o seu cachimbo; o horrivel Karik faz escarneo. Gella não diz palavra, e a meiga Tilly chora e supplica sem obter nada. Quem defenderá a victima? Ha de ser Adalberto, em quem se acham gravadas em caracteres indeleveis as tradições de familia, a justiça e a piedade. Levantou-se com resolução e cobriu com o seu corpo o pequeno, e recebendo por elle algumas pancadas, gritou com todas as suas forças:

—Vocênão tem direito de lhe fazer mal, e Deus ha de castigal-a.{68}

Se Adalberto não estivesse no primeiro dia do seu triste desterro, é fóra de duvida que se teria arrependido da sua nobre ousadia; mas, logo no principio, a intervenção audaz do infeliz pequeno encheu de admiração aquelles espiritos grosseiros. O homem de ferro lançou para o ar uma baforada de fumo e com uma tremenda gargalhada, quebrou a furia de sua sogra. Á gargalhada seguiram-se graças de Karik e algumas boas palavras de Gella, que não desgostou de vêr Natchès em liberdade, apesar de não dar grande importancia a tudo aquillo.

Uma palavra dita por Adalberto produziu o effeito mais singular. Tinha dito: «Deus a castigará.»

—Onde está o teu Deus? perguntou o homem do chapeu grande, dirigindo-se pela primeira vez a Adalberto.

—Está em toda a parte, disse orgulhosamente o pequeno de Valneige, excitado pela indignação.

—Sim, senhor, não é mal respondido; querem vêr que tambem está na minha barraca?

—Está, sim, respondeu o pequeno; está e vê tudo.

Envergonhado do seu atrevimento, Adalberto abaixou os olhos, e viu a boa Tilly assentada no chão e olhando compadecida para o pobre Natchès, de quem gostava mais desde que lhe batiam. O mestre voltou-se para o nosso amiguinho e disse-lhe sem colera:{69}

—Ouve, meu rapaz, por uma vez passa, mas não caias n'outra. Quando a mãe dá pancada, é preciso deixal-a, isso é com ella.

Estas palavras fizeram pensar a Adalberto que, nos detalhes da vida ordinaria, aquelle homem era talvez menos mau do que a velha.

O que mais o espantava, era a frieza de Gella, a quem os gritos de dôr não tinham feito chorar. Lembrava-se das lagrimas de sua irmã Camilla, por causa d'um cão que julgaram damnado e que fôra preciso matar. Tinha-se Camilla resignado á ordem do pae, mas n'esse dia, como tinha ouvido os gritos do cão, não poude jantar!

Lembrava-se ainda que sua mãe, vendo um pequeno camponez ferido por uma ferramenta de que imprudentemente se servira, tinha curado a criança como se fosse sua, dizendo, pallida de emoção: «Chego a estar doente!»

Portanto, é natural ter pena de vêr soffrer os outros, quando se tem coração, pensava Adalberto. Porque seria que Gella não soffria quando maltratavam Natchès? Porventura o habito de vêr o mal dá cabo do coração?

Quando lhe passou a furia a avó pensou que era tempo de occupar o recem-chegado, e de lhe dar nome e fato, isto é, uma alcunha e miseraveis farrapos. Era com visivel aborrecimento que cuidava d'elle, não cessando de dizer a seu genro que bem podia tel-o deixado aonde estava, porque lhe parecia que elle não{70}servia para nada. «Quem sabe?» respondia o homem de ferro inclinando a cabeça sobre seus largos hombros. N'aquella posição, que muitas vezes tomava, parecia-se com as estatuas de Hercules descançando dos seus trabalhos. Como elle raras vezes fallava, a sua presença não augmentava as questões; parecia pelo contrario que diante d'elle estavam menos zangados uns com os outros n'aquella maldita barraca.

O caso é que o Hercules era temido por todos, se não era respeitado; chamavam-lhe pae, e muitas vezes mestre; a sua palavra fazia a lei, porque representava uma authoridade absoluta; mas tinha nos detalhes a longanimidade que acompanha muitas vezes a certeza de ser obedecido. Não fallava sem necessidade; comtudo a sua vontade impunha-se, assim como uma barreira; não se podia passar além, nem fazel-a recuar. Sombrio rei d'aquella triste habitação, ordenava só com a sua presença, e é provavel, que se alguma vez tivesse empregado a força, redrobada pela colera, teria esmagado tudo.

Por isso a velha, para não o descontentar, tratou, resmungando como sempre, de dar ao pobre Adalberto o vestuario que d'ali por diante devia ser o seu. Procurou no fato velho de Karik e de Natchès, e achou umas calças muito curtas e um casaco muito comprido, o que para ella era um vestuario completo.{71}

—Vamos lá, gritou ella muito zangada, anda cá maroto. É verdade, é preciso, pôr-lhe um nome; ora, como te chamas tu?

—Hei de chamar-me sempre Adalberto de Valneige, disse o pequeno levantando a cabeça.

—Ta, ta, ta, fazes favor de te calar? Se tornas a repetir esse nome, corto-te em bocados, piso-te n'um gral, e dou-te a comer ao cão!...

Adalberto sentiu talvez menos o horror d'esta ameaça, do que a maldade d'aquelles olhos pequenos e pardos, fitos nos seus com uma expressão, exquisita. Cahiram-lhe os braços, e, em attitude d'uma desanimação absoluta, ouviu a velha gritar-lhe ao ouvido:

—Hasde chamar-te Mustaphá.

—Sim, senhora, respondeu humildemente Adalberto.

—E a mim, hasde chamar-me avó.

Estas palavras fizeram ferver o sangue ao joven Valneige. Tinha conhecido sua avó, a mãe de sua mãe, tão boa, tão respeitavel, que uma tarde tinha adormecido para acordar no Céo, segundo lhe tinham dito, e teria de dar o seu nome a uma creatura infame?

—Não! exclamou elle com horror.

—Que dizes tu?

—Digo que não.

Immediatamente duas grandes bofetadas estalaram sobre a face do prisioneiro, que pela{72}força da pancada, perdeu o equilibrio e foi rolar aos pés de Gella, que lhe disse em voz baixa:

—Aqui nunca se deve dizer que não, meu pequeno.

Quando fallava baixo, a rapariga tinha a voz sympathica. Adalberto sentiu-o, e começou a ter esperança n'ella, sobretudo quando ella, levantando-o e cobrindo-lhe a cabeça com as suas trigueiras e lindas mãos disse sorrindo e graciosa:

—Pois sim, avó, elle não torna mais.

—Melhor para elle, respondeu Praxedes, que começou o horroroso vestuario da criança, tirando-lhe o fato simples, mas fino e limpo, que podia fazer conhecer a sua origem.

O desgraçado pequeno olhava para a sua jaqueta de panno azul escuro, e para as suas calças da mesma côr. Olhava tambem para o collarinho com um borrão de tinta; fôra a brincar com Eugenio, que tinha feito aquella maldade. Viu-se despojado de tudo quanto usava; teve de vestir uma das grossas camizas de Natchès, as feias e curtas calças, e aquelle casaco sujo e ridiculo, que lhe dava o ar d'um velho que não cresceu.

Image pg073O mestre fez signal para lhe não cortarem os cabellos. (Pag. 72).

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O mestre fez signal para lhe não cortarem os cabellos. (Pag. 72).

Quando acabou este feio vestuario, Praxedes metteu uma grande tesoura no cabello loiro e fino de que a senhora de Valneige tanto gostava. Adalberto estremeceu; mas, por um feliz capricho, o mestre fez signal para lhe não cortarem os cabellos naturalmente annelados{73}{74}{75}e que tanto contribuiam para dar á criança uma belleza insinuante. Comtudo, como aquella carinha era muito distincta para o papel que ia representar, pozeram de roda da cabeça d'Adalberto uma feia fita d'ouro avermelhado, e logo perdeu aquella graça natural, que tinha por tanto tempo feito o justo orgulho de sua mãe.

Karik, o filho de Hercules, era mau por instincto e por educação; foi buscar o espelho diante do qual se enfeitava sua irmã mais velha nos dias de representação, quando dançava e seu pae a acompanhava, ao mesmo tempo que Karik batia com força sobre o seu grande tambor e que Natchès agitava as campainhas.

Adalberto, quando viu o espelho, sentiu dolorosamente o procedimento do joven saltimbanco. Vendo quanto o captivo soffria com o seu feio trajo, Karik quizera que elle podesse saborear a humilhação vendo o seu retrato desfigurado.

Tilly sentiu tambem a offensa, apesar da sua infancia. Quando o espelho passou por ella, a boa pequena bafejou-o com o seu halito para o fazer baço, ao menos n'um bocado. Adalberto comprehendeu a bondade d'esta acção, e olhou amigavelmente para Tilly que não ousava dar palavra nem mexer-se. Mas Gella em tres passos chegou-se a seu mau irmão, arrancou-lhe bruscamente das mãos o espelho e foi pôl-o no seu logar.{76}

Adalberto ficou-lhe grato por esta delicadeza, no meio da sua grosseria masculina e popular; voltou-se para ella com um sentimento de esperança, e disse comsigo mais uma vez:

—É ella, sim, ella é que ha de livrar-me!

Uma coisa o affligia; era vêr a velha Praxedes cortar com a grande tesoura a roupa branca e o fato que acabava de lhe tirar.

Era sem duvida para que não ficasse na carruagem um unico objecto que podesse causar suspeitas.

Tinha instinctivamente mettido na algibeira um feio botão cosido pela Rosinha na algibeira das suas calças de panno azul, no momento de deixar Valneige; na sua precipitação, não achando um que dissesse bem, a boa mulher tinha posto aquelle que dizia mal e que, apesar d'isso, tinha ficado, como muitas vezes succede ao que não é senão provisorio. Pelo mesmo instincto de exilado apanhou o pequeno bocado do collarinho em que tinha deitado o borrão brincando com seu irmão. Na sua dôr infantil, eram para elle duas imagens do passado, de que fazia dois thesouros. Ah! como elle apreciava agora todas as felicidades de Valneige: a familia, a casa, um agasalho em tudo, sem fallar da polidez, da boa educação. Aqui, tudo era grosseiro!

Foi um momento bem penoso aquelle em que elle pela primeira vez teve de comer a sopa dos ladrões. O prisioneiro morria de fome;{77}como já disse, não jantára na vespera; o seu estomago soffria, e quando a velha lhe trouxe uma sopa de batatas n'um prato rachado, experimentou ao mesmo tempo um nojo e uma irresistivel necessidade de alimento.

Tomou pois aquella sopa que, na verdade, não era muito má, e que pelo menos devia ser substancial, porque uma colher de ferro mettida n'ella ficava em pé.

Emquanto almoçava, parecia-lhe vêr a casa de jantar do castello; quatro pratos de porcelana muito branca, postos sobre a linda mesa de pau santo, e Rosinha servindo a sopa ás crianças. A querida mãe, passando para ir dar as suas ordens, e vendo a porta entre aberta, dizia jovialmente: «Bom appetite!» e riam; e elle, Adalberto, corria para a abraçar, mas Rosinha conservando o seu espirito de exactidão gritava-lhe:

—Faz favor de ficar aqui, pequeno lambusado; quem é que se levanta da meza antes de acabar? Não são horas de dar abraços, são horas de comer.

Em presença d'este quadro que lhe offerecia a sua imaginação, Adalberto sentia as lagrimas nos olhos, e, comtudo, não queria chorar; mas ser forte, corajoso, e conseguir fugir, era, o seu unico pensamento.

Tilly vendo que a sua tristeza augmentava julgou que elle não tinha comido bastante e{78}apresentou-lhe delicadamente o seu prato, dizendo-lhe familiarmente:

—Se tu quizesses acabar a minha sopa? eu quando não como bastante não me faz mal.

—O que! disse Adalberto com um gesto de reconhecimento, quando se não come bastante soffre-se.

—Oh! eu soffro sempre.

—De que?

—De tudo.

Taes foram as primeiras palavras que estas duas crianças trocaram ás escondidas, e o rapazinho cheio de illusão dizia comsigo:

—Pobre pequena! Que pena não poder eu leval-a commigo quando fugir!

Passada a manhã começava o trabalho. O que era o trabalho na casa do saltimbanco? O trabalho era todo o exercicio que póde tornar o corpo flexivel. O mestre collocava em linha Karik, Natchès e Tilly; faziam passos de dança, davam pulos e cambalhotas. O Hercules punha sobre os seus robustos hombros os bonitos pésinhos de Tilly e andava, levando-a como em triumpho. Era preciso que ella estivesse direita, que a cintura se conservasse flexivel, e que se ensaiasse a sorrir e a atirar beijos. Desde muito tempo Tilly não tinha medo, tão forte e dextro era o mestre; o que lhe parecia difficil n'este exercicio era unicamente sorrir e mostrar-se feliz.

O bom Natchès tinha chegado ao ideal da{79}flexibilidade e da graça. Tinham-lhe batido tanto desde a sua infancia que previa as ordens do mestre, applicando-se de todo o coração e fazendo maravilhas.

Era uma bella criança cheia de saude, mas o moral tinha fraquejado; o seu olhar tinha um tanto de servil; e quando obedecia ao menor signal, parecia-se com o cão de caça que se chega arrastando-se muito humilde, e felicissimo por lhe não baterem. Adalberto lamentava-o, não tanto pela sua desgraça como por não sentir a miseria da sua sorte. A natureza energica do pequeno de Valneige não comprehendia esta natureza fraca e completamente domada.

Quanto ao feio e mau Karik, exercia o seu rude officio imitando seu pae nas posições herculeas, nos seus olhares sombrios e nas suas terriveis juras. Era d'um caracter ligeiro, e juntava a isto chalaças triviaes que repetia a si mesmo, estudando debalde tornal-as finas.

Asseguravam que tinha um futuro, que se faria d'elle alguma coisa! Não se prestando o seu exterior aos papeis graciosos, dedicava-se ás forças. Esperavam vel-o como seu pae, andar de roda de uma praça publica, sustentando entre os dentes uma grande pedra presa a uma corda; o pescoço inchado, as veias quasi a arrebentarem, a cara a escorrer; era a este genero de proezas, que se destinava aquelle rapaz.

Para descançar, torcia os membros da maneira{80}mais grotesca, deitando-se para traz e levantando uma cadeira com destreza, engulindo pedras, comendo fogo... que sei eu? Adalberto estava espantado!

Só tinha, comtudo, um pensamento, vendo trabalhar a companhia; era achar meio de se evadir. Mas como? Ás vezes pensava em implorar Gella; mas conhecia-a elle bastante? Se ella mangasse com elle, ou fosse repetir as suas palavras ao mestre, e redobrar por consequencia a sua desconfiança? Nada; era impossivel aceitar esta idéa. Todas as vezes que pensava em fugir, lembrava-se que a fuga era impraticavel e perigosa em um paiz onde elle não conhecia a lingua. Viu-se forçado a adiar a execução do seu projecto, porque fallavam de deixar as montanhas e de viajar lentamente na direcção do Rheno; ora o Rheno era uma esperança para elle; sabia que mesmo antes de lá chegar encontraria muitos homens que fallariam francez. A pobre criança tornara-se de repente medrosa, submissa, e paciente; não fallou a pessoa alguma e resignou-se a esperar, para não lhe falhar o seu projecto.{81}

Quando os Ciganos se pozeram a caminho, depois de terem passado muito tempo nas montanhas, Adalberto viu com susto, que era objecto de grande e nunca interrompida vigilancia. O mestre, a velha, Karik, e mesmo a boa Gella, eis os espiões que dia e noite o rodeavam. Mais terrivel do que elles todos, o velho cão rosnador olhava-o com olhos chamejantes, e parecia querer engulil-o se tentasse fugir. Decididamente a occasião ainda não chegára; e quando chegaria ella? Paravam em toda a parte; acampavam nos arredores das cidades, a maior parte das vezes sem entrar{82}n'ellas, a não ser que houvesse alguma festa popular; o pobre pequeno figurava, coitado! n'estas festas! Quanto á velha cigana, horrenda creatura, ia por alli fóra lendo a sina a quem queria ouvil-a, examinando attentamente a palma da mão das pessoas supersticiosas, a quem pregava absurdas mentiras, que a faziam rir ás gargalhadas, quando estava em familia. Adalberto, apesar de haver já um anno que via todos estes manejos, não se habituava a elles, indignava-se d'essa conducta e tinha horror áquella furia.

Á sua pena juntava-se o receio de nunca achar maneira de pôr em execução o seu projecto. De que servia atravessar terras onde o prisioneiro podia fazer-se entender se nunca o perdiam de vista?

Comtudo fallava-se sempre no Rheno, e tratava-se de parar um pouco ao sul da Alsacia, depois do que se encaminhariam talvez para os lados do Lyão, onde Gella veria sua tia, respeitavel mulher que, em memoria de sua irmã, que morrera tão nova e tão desgraçada, gostava da pobre cigana e lhe queria bem. Estas palavras, que Adalberto apanhava ao acaso e que Gella lhe repetia de boa vontade, davam coragem ao prisioneiro, e, guardando só para si o seu segredo, fazia tenção de aproveitar ávidamente a primeira occasião favoravel.

Depois que passaram o Rheno, o rapazinho respirou um pouco mais livremente; não duvidava{83}da sua proxima liberdade, e tardava-lhe saber onde primeiro parariam.

Viu com grande alegria, que pararam logo na primeira noite defronte d'uma pequena cidade, cujo nome ignorava. Uma cidade, uma multidão, outras tantas rasões para ter esperança. Fugir d'alli, era o seu unico pensamento; quanto ao que se seguiria estava convencido que nenhuma situação podia ser peior do que a sua.

Quando chegou a noite, as mulheres cuidaram em renovar as provisões. Ordinariamente era Gella que, com o cabaz no braço, ia comprar o pouco que era preciso, ou pelo menos o pouco que podiam arranjar; porque o Hercules comia e bebia nas tabernas que encontrava no caminho, empregando no serviço do seu vigoroso estomago uma boa parte do dinheiro que ganhava a companhia, e não deixando aos outros senão muito pouco. Feijões, repolhos, batatas, era a comida ordinaria; um caldo da carne só por extraordinario.

Como era impossivel queixar-se diante do despotismo do mestre, cada um se contentava com amaldiçoar em voz baixa a força poderosa, que governava sem bondade.

N'aquella noite, o Hercules declarou que tinha negocios na cidade, e que ahi acompanharia Gella e as crianças, emquanto que Praxedes, com o seu neto e o horrendo Wolf, guardariam a casa.{84}

Adalberto, vendo-se de partida, sentiu redobrar-lhe a esperança. Olhava de longe para a cidade e para as ruas tortuosas, e pensava na possibilidade de fugir.

—É tão grande e eu sou tão pequeno! Não me verão. E de mais a mais as ruas são tão mal illuminadas!

Acostumado á prudencia o Hercules fez signal a Gella para dar a mão ao recem-chegado; desconfiava que aquelle espirito corajoso e atrevido só se domaria pela força, e pensaria sempre na fuga. Gella deu pois a mão ao rapazinho. Quanto ao pacato Natchès, estava tão mortificado, que a sua escravidão parecia-lhe uma necessidade, e que a idéa de se libertar não chegára a passar-lhe pela cabeça. Caminhava em perfeita liberdade ao luar, correndo adiante de Tilly, que nunca corria, tão fraca e doente era! O seu abatimento e a sua juventude escondiam-lhe sem duvida em parte a vergonha e a miseria da sua posição; comtudo, quando encontrava nos seus raros passeios uma pequenita bem vestida, a quem fallavam com doçura, achava-se de repente bem desgraçada.

Partiram, e, sem que o mestre dissesse uma só palavra pelo caminho, entraram na cidade. Ali, separaram-se: o Hercules tomou á direita e Gella, com as tres crianças, tomou á esquerda, emquanto seu pae lhe dizia n'um tom que, para ella, era a expressão d'um poder absoluto:{85}

—Cuidado com o garoto; tu é que és responsavel por elle; vê o que fazes!

—Sim, meu pae, disse Gella baixando os olhos. Esta rapariga, meia selvagem, educada nos theatros das feiras, só baixava os olhos diante de seu pae. Temia-o, e esse temor conservava entre elles uma especie de acordo, porque ella obedecia cegamente. Elle sabia-o, e mandava-a com o gesto. Resultava d'este systema de intimidação que a rapariga nunca se afastava do que para ella era o dever. Natureza honesta, teria sido superior, se lhe não faltasse toda a educação. Sem reflexão, sem nenhuns principios, conduzia-se honestamente temendo sobretudo a colera de seu pae, que a obediencia passiva conservava inoffensivo e silencioso.

Era por isso que se não via Gella andar vadiando pelas ruas. Trabalhava sempre, ora na casa, ora na costura, ou nos exercicios que lhe conservavam a flexibilidade e a ligeireza.

Se o seu coração era frio, não devia isso causar admiração; nunca coisa alguma o tinha desenvolvido; só via o mal, e sem duvida Deus tinha grande compaixão da sua ignorancia.

Adalberto, ainda que nada sabia analysar, presentia tudo isto vagamente, e vendo a sua mãosinha fechada na grande e trigueira mão de Gella, não experimentou repugnancia alguma, mas antes um sentimento que se parecia com a confiança misturada com a duvida.{86}

Eis uma padaria; entram, compram dois grandes pães, de que se encarregam Natchès e Tilly; depois passa-se para a salchicharia, e Gella manda metter no cesto só coisas baratas; é sempre a condição das suas compras, porque não conhece a abundancia.

D'ali é preciso ir buscar carvão.

Mettem-se pelas ruas estreitas e tortuosas, e, vendo grande multidão de homens, de mulheres e de crianças, Adalberto pergunta a si mesmo se não chegou o momento de fazer uma tentativa? Gella já não lhe dá a mão, entra em primeiro logar na carvoaria, as crianças seguem-na. O nosso amiguinho olha furtivamente para a direita, para a esquerda; hesita, o seu coração bate com força, está decidido, o seu partido está tomado, vai fugir... que caminho escolher? E se encontrasse o Hercules? Só esta idéa o faz tremer. E, comtudo, que espera elle? que melhor occasião se póde apresentar? é uma cidade, a noite, a bulha, a multidão... Fujamos.

Adalberto volta para o lado direito ao acaso, caminhando encostado ás paredes, e julgando que toda a gente olha para elle; depois animando-se a si mesmo por este começo de bom exito, vai, vai, sem saber o que faz, a não ser que escapa ao homem silencioso, á velha Praxedes, ao mau Karik e ao cão que morde.

Image pg087Cuidado com o garoto! (Pag. 85.)

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Cuidado com o garoto! (Pag. 85.)

Á força de andar sem outro fim senão fugir, cançam-lhe as pernas e pergunta com medo:{87}{88}{89}«onde estou? onde vou?» A inquietação junta-se no seu espirito ao desejo febril de se afastar da ambulante. Oh! miseria! percebe que na sua carreira insensata, voltou pelo mesmo caminho, e está outra vez na praça, que atravessou ainda agora para ir ao padeiro! Que ha de fazer?

Olha para todos os lados com tal anxiedade, que as pessoas que passam, por mais indifferentes que sejam, lh'a conhecem na cara. Uma boa mulher, que vendia maçãs, fal-o parar, e diz-lhe com bom modo:

—Ó homemsinho, andas á procura do teu caminho?

—Não.

—Não? Pois parece bem que sim. Onde vais tu?

—Para ali.

—Para ali para onde? para o lado do carvoeiro?

—Nada, não.

—Mas ainda agora estavas lá á porta; dize, anda, falla.

—Sim... Não!

—Como te chamas tu?

—Adalberto, não... não!

—Ah! tu não sabes o que dizes!... Olhe tia Dubois, não vê este pequeno com um casaco que não foi feito para elle, e a fita doirada no cabello? Não será este o que andam procurando acolá?{90}

—É possivel. Tem ar de vagabundo; mas seja o que fôr, não me metto n'isso; eu não me entendo com a canalha.

—Não importa, um cão que fosse, e que se perdesse quereria fazer-lhe achar o dono; eu cá sou assim...

Ao mesmo tempo, metade por bom coração, metade por gostar de emoções, a boa vendedeira de maçãs pegou na mão de Adalberto para o levar para o lado do carvoeiro. A criança resistiu, com grande espanto da boa mulher que lhe repetia procurando arrastal-o:

—Mas vem d'ahi, tolinho! uma vez que eu te digo que tua irmã mais velha te procura, e que o teu papá anda em busca de ti por outro lado; olha, vêl-o? vem para aqui.

Adalberto viu com effeito o Hercules que caminhava a grandes passos, olhando sombriamente em redor de si; parecia pedir um ponto de apoio para a sua colera. Um medo inexplicavel se apoderou do desgraçado pequeno; teve um momento de incerteza, não sabendo se ia cahir ali paralysado diante do seu perseguidor, ou se tentaria recuperar a liberdade. A energia da sua natureza venceu. Escapando-se á vendedeira, mette-se pela rua em frente e corre o mais que póde, até que se sentiu sem folego.

Depois d'esta rua acha outra, depois ainda outra, e ao longe avista a planicie, que era a extremidade da pequena cidade; se podesse{91}correr ainda chegaria ao campo, e esconder-se-ia em qualquer canto.

Adalberto faz um esforço supremo na direcção da planicie... Quem vê elle aproximar-se por uma rua transversal? Gella, pallida, inquieta e correndo atraz d'elle. A cabeça da criança perturba-se, passa-lhe pela idéa deitar-se-lhe aos pés, supplicar-lhe que o deixe fugir... Mas, diz comsigo, se ella tem com effeito o coração endurecido, estou perdido! E de mais, ella deve estar muito zangada commigo? É preciso fugir-lhe.

O excesso do desespero dá-lhe forças, parte como uma setta, não vê, não ouve nada; dir-se-hia que só lhe resta o poder de desapparecer, de se subtrahir á mais horrivel desgraça.

Gella tambem é agil; vai apanhal-o; os seus ligeiros pés devoram o espaço.

Mas eis aqui o campo; a criança avista uma casa isolada; baterá á porta, gritará, terão dó da sua desgraça e escondel-o-hão.

Ghega, arremessa-se á porta, bate, toca, chama, ninguem responde, parece tudo morto; as portas das janellas estão fechadas, é absoluto o silencio. O infeliz Adalberto ouve o respirar de Gella, e a bulha dos seus passos que se aproximam com uma rapidez incrivel. Emfim... eil-a... Elle dá a volta da casa, e vê diante de si uma fresta; ha pois alli uma adêga, uma casa de lenha, alguma coisa emfim que não é a casa do Saltimbanco. E depois, se{92}Gella o leva, prisioneiro fugitivo, não vai elle levar pancadas do Hercules, ou da velha, ou de Karik, ou de todos tres, e ser mordido pelo cão? Vale mais a fresta! É o desconhecido, e o desconhecido é a esperança!

Mette a cabeça, depois os braços, agarra com a mão uma barra de ferro que separa em duas a abertura, e volta-se com a destreza que dá sempre uma situação desesperada. N'este momento Gella com passo lento e cauteloso começa a andar de roda da casa deserta. Elle deixa-se escorregar, transido de medo, pelo muro abaixo, e vai cahir sobre não sei que, d'onde, com o peso do seu corpo, faz levantar uma nuvem de poeira acompanhada de um som desconhecido.

Onde está elle? a pobre criança não sabe, mas ouve o roçar de um vestido na barra de ferro da fresta; Gella parou, chama, escuta, falla:

—Pequeno, estás ahi? responde-me, dize-me se estás ahi?

Mais morto do que vivo, Adalberto fica mudo, espera mesmo para respirar que a rapariga esfalfada, arquejante se afaste, perdendo talvez o rasto do fugitivo.

Quando o silencio se restabelece, a criança conserva-se no mesmo silencio, e agora, que Gella o não persegue, quereria ouvir ainda a bulha dos seus passos; mas nenhum som lhe chega aos ouvidos a não serem oito pancadas vagarosamente{93}dadas por um relogio, a que um homem sem duvida deu corda antes de deixar a casa.

Foi pois habitada, ou pelo menos visitada, não ha muito tempo esta casa? Mas quando voltarão para ella? E elle como sahirá d'ali? Não lhe tinha vindo esta idéa quando Gella estava perto d'elle; agora comprehende a sua desgraça, e essa desgraça assusta-o.

Victima de novo terror, torna-lhe a idéa de que, com certeza, Gella seria boa e o seu coração se commoveria, vendo uma criança abandonada. Não lhe tinha ella dado muitas vezes provas da sua natural bondade? Sim, deveria ter-se fiado n'ella, e pode ser que ainda seja tempo?

Grita, chama!

—Gella! Gella!

Mas escutando, ouve gritar e repetir duas vezes:

—Gella! Gella!

Esta voz, que diz o que elle disse e parece a sua, fal-o tremer; os cabellos molham-se-lhe de suor, as pernas vergam, os dentes batem; mas lembra-se de repente que ha em Valneige um echo no parque, perto da neveira, e que o seu papá escarnecia d'elle quando tinha medo do echo, visto não ser um ente invisivel, mas uma bulha repetida por uma causa muito natural.

Tendo-lhe passado mais o medo, cahe meio deitado e resigna-se a esperar.

—Que oito horas! diz comsigo, quanto tempo{94}será preciso esperar até que o dia volte! E quando voltar o dia, como sahirei d'este buraco?

Não ousava mover-se, temendo encontrar algum obstaculo no chão, ou objectos que podessem feril-o. O somno não vinha interromper a sua inquietação; pelo contrario, estava agitado, abria muito os olhos, e cruzavam-se-lhe na cabeça, n'aquella noite, mais idéas do que ordinariamente passavam por ella em todo um dia.

A luz da lua não descia até ao fundo da adêga; um canto só estava allumiado, e n'este angulo, Adalberto via uma coisa preta, tão comprida, como duas vezes a sua mão quando muito, mas seguida d'um traço preto que, collado por assim dizer á parede, se inclinava comtudo algumas vezes ora para a direita, ora para a esquerda.

«Que é aquillo!» perguntava a si mesmo Adalberto, cujos olhos inquietos não largavam o objecto mysterioso, sem poder comtudo imaginar o que havia n'aquelle canto. Esta nova preoccupação juntou-se ás outras. Que noite! A criança estava sósinha nas trevas, sem ao menos ter medido com os seus passos a prisão e dizendo comsigo:—Quando eu tiver fome, quem me dará pão? Algumas vezes pensava que nunca mais teria fome, porque era muito desgraçado.

Deram nove horas no meio d'esta grande tristeza. Como elle se voltasse para o outro{95}lado para descansar da sua incommoda posição sobre aquella especie de cama empoeirada, avistou pela fresta uma linda estrella que parecia estar ali só para elle. Viu essa estrella com verdadeiro reconhecimento; era uma coisa consoladora para uma criança abandonada e como que enterrada viva; e depois esta vista dava-lhe pensamentos mais socegados do que os pensamentos da terra. Dizia ingenuamente:

—Foi Nosso Senhor sósinho que fez aquella estrella, e como sabe tudo antes, sabia quando a estava fazendo que um pobre rapazinho a veria por uma fresta quando tivesse perdido o seu papá, a sua mamã e toda a gente.

Esta lembrança, junta ao enternecimento que lhe causava a bella e solitaria estrella, fez-lhe chorar lagrimas, cuja doçura elle ainda não conhecia, e que alliviaram seu peito opprimido. Sentia-se uma creatura abençoada que, por estar a oito pés debaixo da terra, não estava menos presente aos olhos do Creador. Derramando, sem querer, lagrimas que o consolavam realmente, dizia a Deus as palavras mais doces, de maior confiança; era a sua oração da noite, e quando a acabou, continuou a olhar para a estrella, e, apezar do frio que começava a sentir, apesar da tristeza que enchia o seu coração, teria talvez podido adormecer defronte d'este cantinho de ceo azul, se não fosse como que forçado a voltar a cada instante os olhos para o canto para vigiar o{96}objecto negro, que estava sempre ali, e cuja extremidade mexia de vez em quando, deixando ao prisioneiro uma duvida que lhe era insupportavel.

O relogio deu dez horas. Parecia á criança haver já muito tempo que vivia n'aquelle subterraneo, e, a dizer a verdade, sem a estrella teria desanimado; mas lá estava bella e brilhante, como uma joia cahida da mão do grande Rei, e Adalberto dizia-lhe:

Fica ahi, minha linda estrella, oh! fica não te vás, não me deixes só! Tu és a minha estrella, bem minha; e, como os sabios dão um nome a tudo quanto brilha lá em cima, eu, que não sou sabio, dou-te um nome, o melhor que eu sei, chamo-te como a mamã,Adilia, porque me fazes bem. Emquanto eu te vir, terei coragem; e quando sahir d'aqui e tornar a encontrar meus paes, procurar-te-hei ainda, e, tu verás, olharei para ti toda a minha vida!

Fallando á sua nova amiga, volta-se para o canto da parede por um movimento que se tornou nervoso e o que vê elle?... o objecto mysterioso tinha mudado de lugar, tinha andado e andava ainda; vinha para o lado do pequeno. Não havia duvida, era um grande rato preto, um d'aquelles que Gervasio se esforçava por fazer cahir na ratoeira, dizendo que aquelles animaes mordiam.

Adalberto não viu mais a sua estrella, nem{97}o céo azul, nem as suas bellas esperanças, mas unicamente o gordo rato preto, que vinha ás escuras como um traidor, e sem que o prisioneiro podesse defender-se visto que não ousava mexer-se, não sabendo de que estava rodeado. Novo susto!

O pezar do pequeno de Valneige já não era um pezar de enternecimento, que elevasse a sua alma tão bem formada por bons paes; era um horror instinctivo por um animal perigoso; era preciso passar assim toda a noite e a pendula fez soar nas trevas onze horas.{98}


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